segunda-feira, 13 de julho de 2020

REGINALDO NASCIMENTO | Fernando Arrabal, um pequeno notável


Conheci a obra de Fernando Arrabal assistindo, nos idos de 1990, ao espetáculo O Grande Cerimonial, em uma edição do Festivale (Festival de Teatro do Vale do Paraíba), que acontece anualmente na cidade de São José dos Campos, SP. Naquela edição, a montagem da cidade de Santos, SP, me arrebatou, fiquei com uma cópia do texto apresentado e presenteado por um ator e, a partir dali, comecei a ler e ver tudo que tinha sobre o dramaturgo espanhol, polêmico e provocador, como sempre diziam.
Li o Arquiteto e o Imperador da Assíria e depois Fando e Lis, que também assisti na incrível leitura cinematográfica de Alejandro Jodorowsky, e cada vez mais me sentia tomado pelo universo arrabalesco, suas personagens e sobretudo, sua história de vida ligada ao regime de Franco.
O filme Viva a Morte, do próprio Arrabal, é doloroso e aprofunda sua visão de uma Espanha em conflito e sua vida lançada num turbilhão de intrigas, uma criança e seus sonhos, com seu pai cobrindo seus pés de areia na praia, uma peça genuína de Arrabal.
Depois de um tempo pesquisando, me senti encorajado e, entre 1998 e 2000, troquei mensagens com ele por e-mail, falava sobre suas peças e elogiava suas postagens em sua página, as fotos e os textos, ele sempre me chamava de mi nieto, e assim foi durante um tempo.
Depois, como tudo nesse tempo corrido, silenciamos os contatos, uma coisa aqui, outa ali, isso até 2008, quando decidido, voltei ao texto O Grande Cerimonial, agora com o desejo de encenar como diretor a obra que havia me apresentado este pequeno notável.
Retomei os contatos e, no meio das conversas para a autorização, falamos de uma possível vinda de Arrabal ao Brasil, para comemorar seu aniversário aqui, já que fazia algum tempo que não vinha a São Paulo. Sim, ele me disse vou, peço apenas que me possibilite um encontro com Ruth Escobar, amiga de Arrabal desde a década de 70, e que apresentou o autor ao Brasil, queria também tomar um café com o diretor Aderbal Freire, coisa que aceitei de imediato e começamos a luta para financiar sua vinda.
Foi um longo período de preparação, mas, em agosto de 2009, conseguimos, com apoio do Instituto Cervantes de São Paulo, trazer Fernando Arrabal para São Paulo.
Estive com ele desde a chegada no aeroporto, onde o recepcionei, e depois nas conversas, entre um evento e outro, e nos cafés da manhã, onde também eu o encontrava todos os dias em que ficou aqui.
Caminhava com Arrabal pela Avenida Paulista e observava sua ralação com a cidade e tudo ao entorno, fazer selfies de orelhões da rua ou diante de pichações, era um dos seus hobbies favoritos, e revelava sua alma infante e aguerrida, poética e infantil, um menino que descobre tudo todos os dias.
Do encontro aqui, ficou a emocional e poética visita de Arrabal a casa da atriz Ruth Escobar, sua amiga a mais de 40 anos! Encontro somente possível graças as conversas da atriz Amália Pereira e do jornalista Jefferson Del Rios, amigo da família, e que ajustou o encontro.
Na visita a Ruth, que estava sofrendo do Mal de Alzheimer, Arrabal estava encantado, eles se olhavam profundamente, mas, Ruth já não o reconhecia mais, mesmo tendo sobre seus joelhos a foto de Fernando com suas filhas ainda pequenas na sala de sua casa. Ela não o reconhecia, olhava o quadro retirado da parede pelo Arrabal e somente sorria, o ouvindo narrar suas histórias de amor e carinho durante a vida.
Então, Arrabal a convidou a bailar e cantou a música Cachito Mio, e nesse momento ela cantou com ele que, com os olhos cheios de água, a beijou nos lábios. Já na saída no portão de acesso à rua ela se solta do enfermeiro que a acompanha e vai até Arrabal e lhe beija nos lábios, por um momento pensei, ela lembrou. Participaram desta aventura eu, o jornalista Jefferson Del Rio e o diretor e escritor Wilson Coelho.
Neste mesmo dia, em entrevista no programa do Jô Soares, Arrabal cantou Cachito Mio e contou o momento do encontro com a Ruth e disse vão todos vocês de patins, correndo, a pé, mas, vão ver Ruth Escobar! A atriz e produtora faleceu em 2017, em São Paulo.
O encontro com Arrabal, Um Certo Arrabal, no auditório do Instituto Cervantes foi mágico! Boa parte dos pensadores de teatro estavam lá, num espaço que cabia 150 pessoas, tinha pelo menos umas 100 a mais, que acompanharam tudo nas tvs que transmitiam também no saguão, foi lindo! Um pouco antes de iniciarmos o evento, Arrabal por um instante simplesmente desapareceu, me disseram enquanto eu preparava o início. Eu então anunciei ao público a situação e saímos com toda a minha equipe a buscá-lo! O encontramos andando na calçada cheia da Avenida Paulista, junto a alguns amigos que iriam acompanhar o encontro. Enfim, ele teve fome e foi comer algo, foi isso, nada demais! Acreditou que daria tempo! Risos gerais quando ele contou o desaparecimento no início do encontro, em 10 de agosto de 2009, que contou com os convidados: o jornalista Jeferson Del Rio e o diretor e escritor Wilson Coelho, além do saudoso crítico Sebastião Milaré, que compuseram a mesa junto com o Fernando Arrabal.
No dia 11, fizemos um encontro mais informal, restrito para alguns convidados, onde o objetivo maior foi comemorar os 77 anos de Arrabal! Após sua fala e algumas homenagens, partimos para o brinde! Foi um encontro lindo, com boa parte dos principais pensadores, diretores e atores da cidade de São Paulo, todos festejando o pequeno e notável Fernando Arrabal! No ano de 2010, depois de todas essas vivencias, estreamos o espetáculo O Grande Cerimonial de Fernando Arrabal, com minha direção e montagem do meu grupo, o Teatro Kaus Cia Experimental, 17 anos depois que havia assistido a peça naquele Festival.


Espetáculo O Grande Cerimonial, de Fernando Arrabal

Tradução de Wilson Coêlho. Direção de Reginaldo Nascimento
Montagem do Teatro Kaus Cia Experimental

O Grande Cerimonial, de Fernando Arrabal e direção de Reginaldo Nascimento estreou em 12 maio de 2010, na Sala Experimental do Teatro Augusta, em São Paulo, onde permanecemos em cartaz até o dia 25 de julho. No segundo semestre de 2010, participou dos festivais XVII Fentepp, em Presidente Prudente, SP, XXV Festivale, em São José dos Campos, SP, e VI Festival Nacional de Vitória, em Vitória, ES. Em junho de 2011, o espetáculo realizou uma temporada no Teatro de Arena Eugênio Kusnet.
Abaixo, algumas críticas sobre a montagem:

Na atual versão de O Grande Cerimonial, Reginaldo Nascimento trata os personagens como marionetes de gestos mecânicos e fragmentados, o que evita a abordagem realista e psicológica da peça. Há sequências que lembram balé e os giros lentos das figuras de caixinhas de música. Há uma misteriosa expressividade nessas cenas que se congelam. Percebem-se ali as linhas gerais do expressionismo cinematográfico alemão, sobretudo no desempenho de Peter Lorre em M (ou Vampiro de Dusseldorf) no Cavanosa que Alessandro Hernandez interpreta com brilhantes nuances de angústia e solidão. Em sentido oposto, está a ternura frágil que Amália Pereira confere à donzela redentora com aqueles olhares de Giulietta Masina em Noites de Cabíria, de Fellini. O mundo fechado de Arrabal é completado pela mãe voraz à qual Deborah Scavone, com voz potente, confere um misto de caricatura e agressividade, e o amante, papel mais episódico, que Alessandro Hanel consegue realçar em breves intervenções.

Trecho da crítica de Jefferson Del Rios, publicada no Caderno 2, do jornal O Estado de S. Paulo, em 20/05/2010.

A direção de Reginaldo Nascimento à frente do Teatro Kaus adiciona aos elementos surrealistas do texto uma proposta cênica híbrida, em especial expressionista, na trilha sonora intensa e na iluminação de Vanderlei Conte, que projeta sombras para traduzir a aspereza das emoções dos personagens. O mesmo tom misto vaza para a interpretação sincronizada dos atores, em constante tensão e relaxamento. Destaque para o excelente Alessandro Hernandez como Cavanosa, os olhos temerosos em pleno domínio de expressão facial e gestos em impressionantes deformidades. As bonecas que ocupam boa parte do cenário destoam dessa orquestração já elaborada entre linguagens e acabam roubando a esquizofrenia interpretada com maestria pelos atores.

Trecho da crítica de Christiane Riera, publicada no caderno Ilustrada, do jornal Folha de S. Paulo, em 30/06/2010.

Há essa ligação forte entre Arrabal e o cinema de Alejandro Jodorowski – que adaptou Fando y Liz – e, assistindo a O Grande Cerimonial, eu tinha a impressão de estar revendo um fragmento de Santa Sangre, que permanece como meu Jodorowski favorito. Um homem cercado de bonecas do tamanho de mulheres adultas. Um corcunda que se considera horrível e que ama e odeia com igual intensidade, usando essas bonecas para exorcizar sua relação doentia com a mãe manipuladora – tudo a ver com o Santo Sangue. Delírio psicótico ou sexual, O Grande Cerimonial remete ao surrealismo, e não só. Me impressionou especialmente a preparação do elenco, tanto física quanto verbal, e o tour de force de Alessandro Hernandez merece todos os elogios. O cara é f… Segura a onda física, a corcunda monstruosa, mas o domínio da voz não é menos impressionante. Tudo bem que a sala é pequena, cria um clima íntimo, mas a montagem é vigorosa e eu, pelo menos, viajei nas fantasias de amor e ódio entre mãe e filho e na possibilidade de superação proporcionada por essa outra mulher, que vai desconhecer o mal e a feiura, oferecendo uma alternativa a Cavanosa (o protagonista).

Trecho da crítica de Luiz Carlos Merten, publicada no seu blog, na coluna Gostei, não gostei, em 25/07/2010.

O diretor extrai de seu elenco a força física e emocional para travar o embate entre as luzes e as trevas da natureza humana e do universo claustrofóbico de Arrabal. Daí o trabalho monumental dos atores, em corpo e voz, no anti-jogo de não-olhares e não toques, no texto que desmonta e remonta instantaneamente angústias e desejos, tudo ao mesmo tempo. Haja vulcão na Islândia! A preparação corporal intensa contracena com um texto intenso. É o trunfo dessa montagem. A música da peça embala insânias, nada de condescendências. As bonecas dispostas em cena, tristes e dóceis títeres caídos, foram criadas pela imaginação da artista plástica Suzy Gheler, e dão ao cenário um pingo de desespero, o que faz imaginar uma coleção de vítimas submissas de um Norman Bates de Hitchcock, que busca a poesia no horror. Não, Cavanosa pode não ser um louco, mas ele certamente está em processo e parece se divertir com isso. Daí o visceral formalismo com que trabalha o encenador, embora alguns momentos do espetáculo, ainda que por um átimo, pareçam sufocantes, instantes quase arrastados. Mas pode ter sido uma apresentação em si, ou é parte da angústia declarada em cena.

Trecho da crítica de Ruy Jobim Filho, especial para o Aplauso Brasil, publicada em junho de 2010.

SUGESTÃO DE VÍDEO

Entrevista de Fernando Arrabal no Programa de Jô Soares Parte 1 https://www.youtube.com/watch?v=PArywIPnKCA

Entrevista de Fernando Arrabal no Programa de Jô Soares Parte 2


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Agulha Revista de Cultura
UMA AGULHA NO MUNDO INTEIRO
Número 154 | Junho de 2020
Artista convidado: Fernando Arrabal (Espanha, 1932)
editor geral | FLORIANO MARTINS | floriano.agulha@gmail.com
editor assistente | MÁRCIO SIMÕES | mxsimoes@hotmail.com
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