quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

ESCRITURA CONQUISTADA | Pablo Neruda (Chile, 1904-1973)

  

A POESIA DE PABLO NERUDA

 


Disse certa vez o poeta chileno Enrique Lihn (1929-1988) que não via razão na inclusão de Borges entre os fundadores da poesia hispano-americana, por considerá-lo formalmente conservador, inclusive salientando a previsibilidade de seus recursos métricos e rímicos. O contributo inquestionável de Borges seria pautado por aspectos outros que não o da estruturação do poema. Talvez se pudesse fazer observação bem próxima no tocante ao chileno Pablo Neruda (1904-1973). Em entrevista que fiz ao mexicano Gerardo Deniz (1934), disse-me que Neruda dificilmente resistiria ao tempo não fosse seu vínculo com o comunismo, o que implica em dizer que não há sustentação poética em sua obra, mas antes uma fascinação de natureza ideológica por seu personagem.

Para Deniz: “o prestígio de Neruda” é “um mistério que, por sorte, me é indiferente”, e acrescenta: “estou convencido de que, sem seu comunismo, nem Vallejo nem Neruda seriam tão apreciados”. Em meus diálogos com o crítico espanhol Jorge Rodríguez Padrón, disse-me que “o Neruda dos anos 30, em torno de Residencia en la tierra, vertiginoso e revelador, apagou-se em seu empenho de assumir a impureza como ditado único para sua escritura”. Prossegue: “Este desvio voluntário (eu diria que obrigatório, desde a coerência ideológica que aceita, a partir de então, sua poesia) fechar-lhe-ia todo acesso ao espaço renovador (e verdadeiramente poético) que, nesse mesmo trecho cronológico, abriram e habitaram Lezama e Westphalen e Gorostiza (e não menos Moro, Martín Adán ou Girondo), para configurar essa vanguarda outra que é a que Octavio Paz empenha-se em identificar com o período do segundo pós-guerra, centrado na experiência poética que ele próprio protagoniza.”

Quem situa Neruda entre os “fundadores da nova poesia latino-americana” é o crítico argentino Saúl Yurkievich (1931), em livro homônimo publicado na Espanha em 1971. Antes de tudo, em sua ambição canônica Yurkievich exclui o Brasil da América Latina, ao mesmo tempo em que torna discutível sua noção de fundação ao desambientar cronologicamente sua tese. Um exemplo disso é incluir ali o argentino Oliverio Girondo (1891-1967), quando se sabe que a essencialidade de sua poesia radica em um livro publicado em 1954, En la masmédula. Antes disto, para citar um único exemplo, o mexicano José Gorostiza (1901-1973) já havia publicado, em 1939, seu Muerte sin fin.

O livro de Yurkievich traz dois largos ensaios dedicados ao poeta chileno. São duas abordagens do mito: uma fundada na imaginação e outra de cunho histórico. A primeira refere-se a livros como Crepusculario e Tentativa del hombre infinito, enquanto que a segunda detém-se no estudo de Canto general. Em ambos não se situa a poesia de Neruda à luz de sua contemporaneidade. Uma única passagem estabelece alguma conexão, quando o próprio Neruda compara sua poética à de Huidobro. Diz ele: “apesar da infinita destreza, da divina arte de jogral da inteligência e da luz e do jogo intelectual que eu admirava em Vicente Huidobro, me era totalmente impossível segui-lo nesse terreno, devido a que toda minha condição, todo meu ser mais profundo, minha tendência e minha própria expressão, eram a antípoda da destreza intelectual de Vicente Huidobro”.

O crítico venezuelano Guillermo Sucre (1933) – autor de um dos mais fundamentais estudos sobre a poesia hispano-americana: La mascara, la transparencia (1985) – justifica o que digo ao situar a obra poética de Neruda como um dos “grandes e monumentais solilóquios” da poesia hispano-americana, fazendo falta “vê-la em diálogos com outras”. Na verdade, acrescento, bastaria situá-la no universo chileno correspondente àquela geração que verdadeiramente funda a modernidade no Chile: Gabriela Mistral (1889-1957), Vicente Huidobro (1893-1948) e Pablo de Rokha (1894-1968) – ou seja, sua própria geração – à qual integram-se outros nomes de importância cimeira: Rosamel del Valle (1901-1965) e Humberto Díaz-Casanueva (1907-1994).

Mistral soube dosar com argúcia o espanhol herdado de Castella à linguagem nativa de inúmeros países hispano-americanos. Viajante incansável, tinha por declarada essa intenção de “mesclar vocabulários”, de maneira a contribuir – segundo pensava – para a definição de alguma mínima identidade. De Rokha era, por sua vez, tão impetuoso e irregular quanto Neruda. De escrita delirante e profunda, segundo Díaz-Casanueva “escreveu alguns dos versos mais belos da poesia chilena e também alguns de seus piores e mais vulgares”. Quanto a Huidobro, cuja essência poética tem sido erroneamente drenada entre nós, é o poeta da eficácia dessa multiplicidade expressiva buscada por todos, havendo condensado-a em um universo próprio, intrigante e renovador.

Díaz-Casanueva era um desses entranháveis poetas do obscuro, cuja poesia transbordava imagens as mais insólitas, sem, no entanto, incorrer em uma erupção gratuita das mesmas. Seria interessante por em diálogo o Neruda da série Residencia en la tierra com a escritura abissal de El blasfemo coronado, este último de 1940. Quanto ao Rosamel del Valle, ainda menos difundido fora de seu país, seu largo poema-livro Orfeu (1944) e Fuegos y ceremonias (1952) já seriam suficientes para lhe garantir um lugar de destaque na poesia hispano-americana. Segundo ele próprio, “a poesia obedece a um esforço da inteligência, a um controle vigoroso da sensibilidade e sua expressão extrai o ser do sonho em que se agita”.

Há aí um contraste com a defesa do alheamento estético que pleiteava Neruda. Basta recordar uma carta sua ao amigo Héctor Eandi, datada de 1928, onde diz: “O poeta não deve exercitar-se, há um mandato para ele e é penetrar a vida e torná-la profética: o poeta deve ser uma superstição, um ser mítico… a poesia deve carregar-se de substância universal, de paixões e coisas.” O curiso é observar que Rosamel del Valle escreveu uma poesia verdadeiramente delirante e carregada de uma maior substância poética.

Se ampliarmos o foco e tomarmos a América Hispânica como um todo, veremos que corresponde à mesma geração de Neruda expressões como os peruanos César Vallejo (1892-1938) e César Moro (1903-1956), os colombianos León de Greiff (1895-1976) e Aurelio Arturo (1906-1974), os argentinos Oliverio Girondo e Jorge Luis Borges (1898-1986), os mexicanos José Gorostiza e Xavier Villaurrutia (1903-1950), o equatoriano Jorge Carrera Andrade (1903-1976) e o guatemalteco Luis Cardoza y Aragón (1904-1992). Não seria arriscado ou irresponsável dizer que a poesia de Neruda não resistiria a uma comparação crítica com a de seus pares hispano-americanos.

Neruda era um poeta desmedido, irregular e, sobretudo, obstinado pela enumeração, pela quantificação, o que o tornava essencialmente frívolo. Em sua obsessão por escrever sobre tudo e ao estilo de todas as modas literárias, jamais tratou com profundidade nenhum dos problemas básicos da lírica. Exceto pelo fervor imagético da série Residencia en la tierra (1933, 1935) ou passagens ocasionais de livros como Tentativa del hombre infinito (1926) e El hondero entusiasta (1933) – segundo o crítico espanhol Ángel Pariente, “uma das etapas mais valiosas de sua larga produção”, embora não avaliada corretamente por seus exegetas –, rara substância poética encontramos em uma obra tão extensa quanto desnorteada.

Dele disse com exatidão o ensaísta porto-riquenho Joserramón Melendes: “Esse poeta enciclopédico limitou-se à quantidade. Neruda escreveu um poema de cada coisa. O universo tradicional que lhe legaram foi assumido por ele como repertório ou roupeiro, alternadamente: ou vestia uma escola ou mentalizava um objeto.” No epílogo à 2ª edição de Laurel, antologia da poesia moderna em língua espanhola organizada por Xavier Villaurrutia e Octavio Paz, este último, ao situar a recusa de Neruda em participar de tal projeto, observa: “Como tantos, Neruda padeceu o contágio do estalinismo”, acrescentando que “essa lepra apoderou-se de seu espírito porque se alimentava de sua egolatria e de sua insegurança psíquica”.

Sobre a personalidade de Neruda, podemos ler o capítulo a ele destinado no livro O continente submerso (1988), de Leo Gilson Ribeiro. Embora haja um excesso passional no relato da situação, este texto nos informa acerca de exibicionismos e mesquinhezes, não deixando de mencionar o ideário de maquinações do chileno para garantir sua nomeação ao Nobel, o que se deu em 1971. Neruda não possuía o mínimo apreço por seus pares. Pode-se dizer dele que era um cafajeste exemplar – com sua ambiguidade retórica: adorável e indesejável. Pouco entendia de poesia e menos ainda nela estava interessado. No Chile se conhece bem a acusação – tratada como verdadeiro epitáfio – de Pablo de Rokha, que evidenciava os equívocos ideológicos de Neruda.

A publicação recente de Cadernos de Temuco não passa de um acontecimento editorial, sem nenhuma importância poética. Pode fazer a festa entre biógrafos, mas nunca despertar interesse entre os cultores de uma grande poesia. São versos de “um rapaz que somente tem quinze anos” e que os escreve “mordido de amargura”, como diz o próprio autor, constituindo uma tediosa sequência de vulgaríssimo romantismo. Encanta mais o périplo que lhe foi destinado: Neruda pediu à irmã que guardasse seus manuscritos e esta os presenteou a um sobrinho que, por sua vez, os vendeu a um colecionador, que os revendeu a uma editora que os acabaria leiloando a seguir, encontrando na viúva do poeta a recusa em adquiri-los, desfazendo a cadeia que seria retomada posteriormente graças ao enigmático aparecimento de uma cópia dos originais. Uma a mais entre as inúmeras histórias em torno desse “grande mau poeta”, como a ele referia-se o espanhol Juan Ramón Jiménez. 


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Escritura Conquistada – Poesía Hispanoamericana reúne ensayos, entrevistas, encuestas y prólogos de libros firmados por Floriano Martins, además de muestra parcial de su correspondencia pasiva.

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 - Escritura Conquistada - Poesía Hispanoamericana -

Floriano Martins

ARC Edições | Agulha Revista de Cultura

Fortaleza CE Brasil 2021



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