quinta-feira, 1 de novembro de 2018

AGULHA REVISTA DE CULTURA # 122 | Novembro de 2018



● DEZ POETAS BRASILEIROS EM CEM POEMAS [2]

Na edição ARC # 113, maio de 2018, publicamos dez poetas brasileiros, na ocasião considerando aqueles que ainda estão entre os vivos. Avançamos em nosso dever cósmico de recuperar as evidências estéticas de nossa tradição lírica, reunindo dez outros poetas, agora buscados entre os mortos, indevidamente esquecidos, alguns dos quais já considerados desconhecidos. Agulha Revista de Cultura publicará, em próximas edições, uma série de trinta jovens poetas brasileiros, cujas pontes com esses aqui apresentados é um imperativo natural que vem sistemática e criminosamente desconsiderado entre nós. A cultura no Brasil tem por péssimo hábito limitar-se à produção artística, e esta, por sua vez, sucumbe atrofiada nas mãos do entretenimento, ou seja, deformada pelas leis de mercado. Jamais sistematizamos um reconhecimento e defesa de nosso patrimônio cultural e em tal gesto autofágico se irmanam produtores e artistas, Estado e público. Imenso desafio para aqueles que ainda acreditam no impossível.
Os três primeiros poetas de nossa mostra nasceram ao final do século XIX. Yde Schloenbach Blumenschein (1882-1963) e Gilka Machado (1893-1980) se destacaram pela tensão erótica de sua poética. A primeira, também conhecida como Colombina, com que assinava suas colaborações para importantes periódicos da época – Fon-Fon, Jornal das Moças e Careta –, em 1906 funda a própria revista, O Sorriso, posteriormente tendo sido diretora, em 1948, de O Fanal, vinculado à Casa do Poeta Lampião de Gás, em São Paulo, por ela criada. Com 15 livros publicados, cabe menção a Vislumbres (1980), Distância: poemas de amor e de renúncia (1947) e Manto de Arlequim (1956). Por sua vez, Gilka Machado cultuou um simbolismo com intensa voltagem erótica, que, no dizer de Maria Lúcia Dal Farra, se manifesta na tênue linha entre o espiritual e o sensual, onde mesmo o panteísmo e os elementos telúricos (como em uma de suas tópicas, a da comunhão cósmica) ficam erotizados. Quer fosse chamada, por seus críticos, de mulher proibida ou de matrona imoral, sua poesia provocou inúmeros escândalos. Entre seus livros, destaquemos: Cristais partidos (1915), Mulher nua (1922) e Meu glorioso pecado (1928). O terceiro poeta é Vicente do Rego Monteiro (1899-1970), artista múltiplo, que mesclou, em sua voracidade criativa, a poesia, a pintura, a escultura e as artes gráficas. Identificado como modernista, em 1930 trouxe da Europa uma precursora mostra internacional de arte moderna, incluindo artistas ligados ao Cubismo e ao Surrealismo, dentre eles George Braque, Pablo Picasso e Joan Miró. Assim como em sua pintura, também na poesia de Rego Monteiro é possível observar um acento sinuoso e sensual. Tipógrafo e editor, em 1946 funda a editora La Presse à Bras, onde publicou poetas tanto brasileiros quanto franceses.
Na sequência de nossa edição, selecionamos poemas de duas mulheres fascinantes e renovadoras, Adalgisa Nery (1905-1980) e Mariajosé de Carvalho (1919-1995). Ambas com atividades múltiplas, envolvendo a literatura, a política, o jornalismo e o teatro. A primeira delas foi poeta, romancista e jornalista. Seu livro de estreia, Poemas (1937), foi publicado por uma das mais prestigiadas casas editoriais brasileiras, Editora Irmãos Pongetti. A sugestão editorial foi de seu amigo Murilo Mendes. Adalgisa teve uma vida agitada, levando-a a publicar em destacados periódicos no Brasil, Chile, Peru e Uruguai. Residiu no Canadá, nos Estados Unidos e México. Ao regressar ao Brasil, trazendo na bagagem a publicação francesa de uma antologia poética, Au-delà de toi (1953), passou a dedicar-se ao jornalismo e à política. Quase paralelamente a ela, outra imensa poeta, Mariajosé de Carvalho, avança em uma atividade igualmente múltipla, como atriz, diretora de cena, poeta, cantora, música e professora de dicção. Ao lado do intérprete e maestro Diogo Pacheco, criou o grupo Ars Nova, movimento da vanguarda musical brasileira, nos anos 1950, com uma agenda de mais de 50 concertos em todo o país. Seu rigor experimental lhe levou a grandes ousadias na criação e na renovação cultural. Neste último tópico, cabe lembrar a recuperação do Teatro São Pedro, em São Paulo, e a fundação da Editora Papyrus. Sua poesia inclui títulos como Poemas da noite amarga (950), Lunalunarium (1976) e Os celebrantes (1988). Poeta culta, tradutora de seis idiomas, em carta a Pedro Nava, dizia de si mesma ser uma monja laica com veleidades de vedete emplumada.
Em 1927 nascem dois outros expressivos poetas brasileiros, H. Dobal (1927-2008) e Francisco Carvalho (1927-2013). O primeiro deles integra o grupo Meridiano, movimento destacado nas letras locais, no Piuaí. Dobal dirige a revista homônima do grupo. Seu nome tornou-se conhecido nacionalmente graças a Manuel Bandeira, ao inclui-lo em sua Antologia dos poetas bissextos contemporâneos (1964). Na apresentação, Bandeira o situa como poeta que fixou a sua província com expressão tão exata, a um tempo tão fresca e tão seca, despojada de quaisquer sentimentalidades, mas rica do sentimento profundo, visceral da terra. Alguns de seus livros: A viagem imperfeita (1973), A cidade substituída (1978) e Um homem particular (1987). Também nordestino, o cearense Francisco Carvalho deixou uma poética renovadora, sobretudo em seus primeiros títulos, cabendo incluir livros como Dimensão das coisas (1967), Memorial de Orfeu (1969) e Os mortos azuis (1971) entre os mais expressivos na tradição lírica brasileira. Deste último selecionamos os poemas aqui publicados. Uma anedota de minha relação com o poeta: nos anos 1990 traduzimos o livro Altazor, de Viccente Huidobro, acertados de que jamais publicaríamos a tradução, realizada com o fito de conhecer mais intimamente a poesia do chileno e ampliar nosso conhecimento do espanhol.
Nas três décadas seguintes se impuseram à nossa escolha os nomes de Lupe Cotrim Garaude (1933-1970), Sérgio Campos (1941-1994) e Donizete Galvão (19555-2014), vozes distintas entre si, configurando um cenário estético bastante abrangente de nossa lírica. A primeira, talvez pela força de sua atuação acadêmica no ambiente político de final dos anos 1960 – segundo Ismael Xavier, Lupe foi uma liderança decisiva naquela conjuntura, e seu curso representou a experiência mais densa, do ponto de vista intelectual e político, daquele ano, referindo-se ao maio de 1968 –, teve um pouco abafada sua poesia, cujo destaque encontramos em livros tais como Monólogos do afeto (1956), Inventos (1968) e Poemas ao outro (1970). Sérgio Campos, por sua vez, teve uma aparição quase relâmpago no cenário poético, com livros de rara circulação, pelo selo Mundo Manual Edições, criado pelo próprio poeta. Acerca de sua poesia, diria Campos em
entrevista que lhe fez Leontino Filho, que ela reflete tanto sua paixão, como a reflexão e o esmero criativo, acrescentando: Essa lucidez (tenho-a como tal) repõe meu universo em estado de equilíbrio numa época de concordatas, quando não de grandes falências. A tarefa que me imponho, de recuperação dos elos perdidos (na expressão de Ivan Junqueira, sempre precisa) demanda uma escrita tersa, concisa, ascética, expressa numa sintaxe de rigor. Autor de livros como O lobo e o pastor (1990), Móbiles de sal (1991) e Leitura de cinzas (1993), todos fora de catálogo, ao leitor interessado sugerimos a edição crítica Mar anterior (ARC Edições, 2015), preparada por Floriano Martins e Leontino Filho. Concluímos a nossa mostra com Donizete Galvão, uma das mais sólidas e expressivas poéticas de sua geração. Crítico incondicional do mundo contemporâneo, em entrevista que deu a Jardel Dias Cavalcanti, aclara: O conflito da poesia com o mundo em que vivemos é radical. Não poderia ser de outro modo. Não há conciliação possível. O que a poesia pode fazer é renegar permanentemente o utilitarismo do mundo moderno. Pode ser que a gente não mude o mundo, mas pelo menos há uma recusa em ser moldado. Sua poesia, estilisticamente depurada, com uma expressão sofisticada, ao mesmo tempo culta e cúmplice do outro, exige a publicação completa em um volume único, algo que seus filhos poderiam realizar. Entre os livros individuais, considero As faces do rio (1991), A carne e o tempo (1997) e O homem inacabado (2010).
Fica a nossa expectativa de que a menção a estes dez poetas, com uma pequena mostra de sua poesia, possa despertar atenção e revelar o quanto é imperativo publicar, divulgar, referir e abordar criticamente cada experiência, cada uma de suas vozes singulares, que certamente enriqueceriam o cenário atual da poesia no Brasil.

Os Editores

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● ÍNDICE

YDE SCHLOENBACH BLUMENSCHEIN, COLOMBINA

GILKA MACHADO

VICENTE DO REGO MONTEIRO

ADALGISA NERY


H. DOBAL

FRANCISCO CARVALHO

LUPE COTRIM GARAUDE

SÉRGIO CAMPOS

DONIZETE GALVÃO






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Edição preparada por Floriano Martins. Página ilustrada com obras de Arthur Boyd (Austrália, 1920-1999), artista convidado da presente edição.


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Agulha Revista de Cultura
Número 122 | Novembro de 2018
editor geral | FLORIANO MARTINS | floriano.agulha@gmail.com
editor assistente | MÁRCIO SIMÕES | mxsimoes@hotmail.com
logo & design | FLORIANO MARTINS
revisão de textos & difusão | FLORIANO MARTINS | MÁRCIO SIMÕES




POEMAS DE DONIZETE GALVÃO


SILÊNCIO

De pedra ser.
Da pedra ter
o duro desejo de durar.
Passem as legiões
com seus ossos expostos.
Chorem os velhos
com casacos de naftalina.
A nave branca chega ao porto
e tinge de vinho o azul do mar.
O maciço de rocha,
de costas para a cidade
sete vezes destruída,
celebra o silêncio.
A pedra cala
o que nela dói.


FIAPOS

Para José Paulo Paes

Sei que sei
não sei bem o quê.
Saber não revelado,
ainda envolto em
membrana de placenta.
Lembro-me de que preciso
lembrar de uma coisa
que não deveria ser esquecida.
Lembrar de quê?
De um território que se espraia
em sua mudez de azul?
De uma palavra soprada
em tempos de antes de eu nascer,
que na tarefa de viver
caiu no esquecimento?
Num lapso, às vezes,
parece que me lembro
e a lembrança passa
sem que fique registro.
A luz de Apolo
roça minha cabeça
sem que arrebatá-la
eu possa.
Por ela, esmolo.
Rendo sacrifícios.
Ignora-me.
Vai-se embora
com suas chispas.
Ficam fiapos,
cacos, esboços.
Logo, desmemoriado,
quedo-me cego
e abandonado.


LEMBRANÇA DE SEVERO SARDUY

Ao ferir
com a tesoura
a haste
da manga,
escorre
o líquido,
visco
oloroso
prenunciando
nas ventas
o doce gozo.
Antecipação
do paraíso
na tarde calorenta
do gelado
suco de manga
deslizando
na garganta.


O GRITO

O porco guincha
e sob a pata dianteira
sai a golfada de sangue
que enche a bacia.

Horas depois,
pronto o chouriço,
comemos o sangue preto,
as tripas, o grito.


OSTRAS

A ostra
e a aspereza
de sua crosta.
O acúmulo
de craca
nas rugas
da carapaça.
O cheiro podre
de mangue
entranha-se nas digitais
e no tecido das narinas.
Lembram ao homem
seu invólucro de lama.

A ostra
é metade pedra,
calcárias escaras
brancas que se abrem
aos golpes da faca.
Por fora, objeto
coberto por perebas.
Por dentro, fêmea
líquida em leito
de nácar.
Trêmula rosa,
íntima  e recém-nascida,
envolta em gosma.

A ostra
se fecha
e na sua
caixa tosca
purifica-se,
protege-se
do lodo.
Oculta,
eleva
sua carne
ao limite
da sólida
pérola.


SIMULACROS

Para Christina Menezes de Azevedo

Senhoras e senhores, o circo já ergueu sua lona.
Vêm o prefeito, a beldade, as mulheres da zona.

Todos se divertem com o espetáculo do ilusório.
Está aberto o reino do precário e do provisório.

Rufam todos os tambores, abrem-se as cortinas.
Nossa trupe mambembe exibe suas dores e sinas.

A orquestra toca Bolero: o ritmo vai crescendo.
O fraque do maestro tem no braço um remendo.

Eis Crystal Kimberley, a rainha do strip-tease.
Saiu do sertão do Sergipe, de nome Wandernise.

A mulher-rã, contorcionista vinda do circo russo,
Depila pernas e sovacos, mas se esquece do buço.

Com vocês, uma feroz leoa da savana africana.
Barriga vazia, não come gato há uma semana.

A pássara Tatiana, trapezista bela e impávida,
Esconde do amante domador que está grávida.

Anaïs, índia guarani, que é exímia equilibrista,
Carece de vitaminas e de ir urgente ao dentista.

Alegria da criançada, o nosso palhaço Arrebita,
No trailer sujo, teve macarrão e ovo na marmita.

De noiva, vai-se casar uma anã, loira oxigenada.
Que graça! Puxam-lhe o vestido e ela corre pelada.

Aplausos para o salto mortal de sonho e pobreza.
Onde uns vêem o belo, outros enxergam a tristeza.


MIOLO

Lembro-te mata,
            tenda de folhas,
ninhal de minas,
casulo de sombras,
            alcova de brotos,
renda de luzes,
vertigem de avencas,
            friagem de sapos,
labirinto de cipós,
manto de limos,
            frescor de cambraias,
grafias de cascas,
acridez de sumos,
            açúcar de flores.
Recorro a todos os nomes
            sem nunca recuperar
o frêmito de espanto,
            o susto da criança
Inaugurando a mata.


ORAÇÃO NATURAL

Fique atento
ao ritmo,
aos movimentos
do peixe no anzol.
Fique atento
às falas
das pessoas
que só dizem
o necessário.
Fique atento
aos sulcos
de sal
de sua face.
Fique atento
aos frutos tardios
que pendem
da memória.
Fique atento
às raízes
que se trançam
em seu coração.
A atenção:
forma natural
de oração.


VISITA

Que ela chegue sem clarins ou trombetas,
entre como facho de luz
pelas gretas da janela
e atravesse o quarto
na sua claridade.
Que ela chegue
inesperada,
como a chuva
na tarde calorenta
e faça subir o odor
de poeira molhada.
Que ela chegue
e se deite ao meu lado,
sem que a perceba.
Que me lave
com água de fonte
e me cubra
com o bálsamo branco
do silêncio.


DUREZA DO INSTANTE

Um tapete de goiabas
estende-se sobre a grama.
Os jacintos em bloco
ergueram suas flores.
Poderia ser este o lugar.
Este o tempo do repouso.
Mas a roda dentada nunca para.
Mói o caramujo envolto em formigas.
Mói o cão içado do poço por um balde.
Mói os fios de cabelo de Anita
que protegem os pés de rosa.
Mói as rosas.
(Em direção ao rio,
lá vai a mulher com a pedra no bolso.
Lá está ele na cama
com os tubos no nariz.)
Há perfumes de jacintos
e goiabas vermelhas de outono.
Cada instante tem sua polpa
e no centro o áspero caroço.


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Edição preparada por Floriano Martins. Página ilustrada com obras de Arthur Boyd (Austrália, 1920-1999), artista convidado da presente edição.


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Agulha Revista de Cultura
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editor geral | FLORIANO MARTINS | floriano.agulha@gmail.com
editor assistente | MÁRCIO SIMÕES | mxsimoes@hotmail.com
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revisão de textos & difusão | FLORIANO MARTINS | MÁRCIO SIMÕES



POEMAS DE SÉRGIO CAMPOS


PÁSSARO

O pássaro é um pedaço de seu voo
Há o voo do pássaro e o outro lado do voo
O ar é um pedaço do voo
é o outro lado do ar

O ar voa no pássaro
o pássaro é o outro lado do voo
As asas são o voo do ar
O pássaro é o outro lado do ar

O ar sem pássaro voa
O pássaro pousa no ar
O pássaro é o pouso do ar

A morte do pássaro no ar
é o outro lado de seu voo

O pássaro morto é seu voo pousado na morte


SONETO PARA LEONARDO

É chiaro e scuro este desejo. É
oscuro revelá-lo por imagem
que não limite tudo o que se vê
a meros exercícios de paisagem
É chiaro e scuro este desejo. É
chiaro captar sua surpresa
ante a manhã veloz que não prevê
os ventos e os frutos pondo a mesa
Vedere da ques'angolo é oscuro
pois quando a vida não se imobiliza
o que é presente torna-se futuro
Então a sombra é que projeta o muro
e que dessangra a luz e a cicatriza
perché vedere é sempre chiaroscuro


CANÇÃO DO AMIGO

O meu amigo via nos pardais
mais do que via a sombra passageira
Cingir-se a vida a mínimos plurais
para não ser dos ritos prisioneira
Por isso parecerem tão iguais
e o mundo não ser mais do que clareira
e ser a fome sempre mais voraz
porque é voraz a vida quando inteira

O meu amigo amava estes pardais
que agasalhava em fogo de lareira
E como são as coisas naturais
são naturais as coisas verdadeiras

Viver é uma estratégia de pardais
é se buscar nas perdas derradeiras


APENAS O QUE DOU NÃO É PERDIDO

A Floriano Martins

Apenas o que dou não é perdido
o que estiver à mesa será tudo
Brindemos ao convívio consentido
até que a solidão me torne mudo
Do que recolho faço bom partido
herbário de poções originais
Para quem tem a dor por aldeído
as ervas mais amargas são banais
Até perder me faz contentamento
pois o que sei e fiz trouxe da ausência
e refazer é meu melhor invento
Ao mais amado enfim dobrem os sinos
pois é viver ardil e inocência
e do que amamos somos assassinos


O AMOR PARTIU EM BUSCA DOS ESPELHOS

O amor partiu em busca dos espelhos
Narciso de seu ego de cristal
seguiu a rota avessa dos conselhos
e quase fez-se ícone de sal
Então o amor encomendou as sedas
por não poder encomendar as velas
e fez do mar um céu de labaredas
e fez do céu um mar de caravelas
Capturou o tempo por astúcia
reinventado magos surreais
que aprisionou em ursos de pelúcia
Um dia quis dar forma a seus mistérios
elaborou poemas musicais
e dividiu-se em quatro cantos sérios


VÉSPERAS

A vida não caldou a pera amarga
e o que era amargo fez-se feio e frio
e o frio se lançou como quem crava
seu último punhal contra o vazio

Para cingir o que era movimento
a pétalas avessas de rancor
a vida recusou dar fala ao vento
e fez da ira rio sem rumor
e fez a febre arder sem rebeldia
porquanto vivo o corpo em desamor
é ânsia que devora o que não cria

A quem faltar a vida em provisão
possa fazer conluio com a dor:
a dor tem seu consolo   a vida não 


A VOZ E O CANTO

Não sabe a ansiedade ser pequena
nem sabe ser estigma ou virtude
o quanto mais intensa mais é plena
o quando mais é plena mais é rude

Não sabe a ansiedade a que convenha
porque se lança a abismo que não mede
e faz-se fogo antes que seja lenha
e faz-se fonte antes que tenha sede

É ansioso o amor posto em cautela
mas à ansiedade tem de ser esquivo
porque não pode escravizar-se dela

Decerto o amor é mais não sendo tanto
pois se a ansiedade diz: "Aqui eu vivo"
o amor lhe contrapõe: "É onde canto"


ELEGIAS BRANCAS

1.

Não me traiu à palavra
ao ansioso desejo
em poemas radicais
anunciar tua gênese

pois nem a condição
de iguais e diferentes
levou-me a emudecer
a ira de teus dias

E no chão da aventura
amargaram teus frutos
(foi-se a inocência)

Voltei para o caos:
meu pomar é morada
da perversa beleza

2.

Em rudes invernos
íntimos e cúmplices
a avó e o tempo
trabalharam a lã

Por serem constantes
cumpriram novelos
de limpo enxoval
pelo prazer das mãos

E então se partiram
deixando na sala
este silêncio branco

e nos olhos do gato
a memória da chama
que não sopra o vento


TO DONNE

A Francisco Carvalho

Quando os lobos procuram seus pastores
na aciaria de seus territórios
incendeiam seus deuses protetores
para adotar emblemas transitórios

Se estranhas te parecem tais figuras
se estranho o amor que move estas matilhas
tamanha é a amplitude das clausuras
que a solidão carece de partilhas

Se teus sermões revelam-se profanos
a quem a morte é menos do que nome
é porque John não é pastor de Donne
mas lobo que se ilude nos espelhos

onde as escaras despem-se dos panos
(estigmas de lobos são vermelhos)


O ÚLTIMO DA TRIBO

O que fazer o último da tribo?
Reivindicar o luto do extermínio
ou inumar-se no fogo da saga?

Abandonar-se em segredo
em pomares escuros?
Ceifar o figo ao coalho da manhã?

Tatuar o sonho na pedra
para que ambos se lembrem
                                               sonho
                                               e pedra?

O que fazer o último da tribo?
Tornar-se a alegoria dos pajés
trocando a ira pela fúria a esmo?

                                               Ou matar a si mesmo?


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Edição preparada por Floriano Martins. Página ilustrada com obras de Arthur Boyd (Austrália, 1920-1999), artista convidado da presente edição.


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