segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Agulha Revista de Cultura # 126 | Janeiro de 2019



SURREALISMO E JOVENS POETAS BRASILEIROS, 1


Em ano comemorativo do centenário do Surrealismo, ganha vultoso destaque o surgimento de nova geração de poetas no Brasil que retoma o curso de uma lírica que há algum tempo havia se desfeito de sua bússola existencial. Ao lado dessa nova e prolífera alquimia estética, com seu fervor múltiplo em que se desdobram inúmeras e muitas delas já consistentes vozes poéticas, se observam igualmente dois outros componentes valiosos: o enfrentamento à derrocada do mercado editorial nos moldes em que vinha atuando, já de muito prenúncio de decadência, e uma espécie de solidariedade entre pares que se torna ainda mais digna de elogio considerando a extensão territorial do país. São poetas nascidos desde os anos 1970 até 2000, perfazendo uma ampla era de renovação da lírica no Brasil, onde nos chama a atenção a retomada de leituras e mesmo a afirmação de afinidade com relação aos principais lastros das vanguardas no Ocidente, cuja máxima expressão é o Surrealismo.
Cumpre destacar que não há nessa reveladora afinidade traço algum de aferição ortodoxa ligada a qualquer escola ou movimento. Ao contrário, no instinto de recuperação de uma multiplicidade de referências se vislumbra a forja de uma identidade que se quer livre de quaisquer amarras, estéticas ou ideológicas. Trata-se de um momento entranhável e que não se compara a outras instâncias, pois não se trata de uma onda ou de um ciclo carismático. No dizer de um desses poetas, o que vemos é a fatura de densidades diversas na nossa poesia contemporânea brasileira [Carlos Orfeu]. Outro deles estima a fortaleza crescente do que está ocorrendo: é possível encontrar apoio nas editoras independentes que, para mim, são grandes responsáveis pela renovação de que falamos. Jovens autores encontram jovens editores e, em parceria, contribuem para que as vozes se disseminem [Elvio Fernandes Gonçalves Júnior].
Dois outros aspectos que ganham excelência dizem respeito à presença legítima e repleta de energia de vozes femininas e o fato dessa nova safra de poetas ser possuidora de um amplo sentido cultural. A referência à legitimidade é fundamental em uma época em que se pretende impor valores ao ambiente estético que lhes são indevidos. E o sentido cultural, pelo teor de leituras, curiosidade e percepção, é o que aponta na direção de maior diversidade e consequente condição de enfrentamento dos mistérios da criação. Cabem aqui duas colocações pertinentes: uma delas, ao falar desse ambiente atual, salienta um maior interesse pela possibilidade da experimentação poética do que propriamente ela composição de uma linha que oriente a todos [Mariayne Nana]; e outra revela o imperativo de jogar contra essa indústria doida que a gente já sabe que virou a cultura [Isadora Egler].
Agulha Revista de Cultura vem observando essa retomada crescente da voltagem lírica no Brasil, e com a presente edição inicia uma série de três números dedicados a 30 desses jovens poetas. Até o final de fevereiro apresentaremos a nossos leitores poema e pensamento de criadores que ganham densidade em distintas instâncias desse controverso mapa chamado Brasil. Tendo por ponto legítimo de referência o centenário do Surrealismo, a presente seleção põe em destaque certo grau de afinidade com o referido movimento, ciente de que não se esgotam aí as pertinências estéticas dessa evocada renovação. Em momento consecutivo voltaremos a reunir todos eles e outros vinte mais, de distintas linhagens, na edição de um livro através da coleção “O amor pelas palavras”, de circulação exclusiva pela Amazon.
Acompanhando as primeiras dez vozes deste primeiro número da referida série, temos a presença de Enrique de Santiago (Chile, 1961), poeta e artista plástico, além de baliza mestra na identificação dos valores ligados ao Surrealismo na cultura de seu país. Em Surrealismo a palavra mágica do Século XX, dossiê que organizei para a revista Athena, de Portugal (novembro de 2018), observo que Enrique de Santiago vem dedicadamente cuidando da memória do Surrealismo em seu país, graças à publicação de livros e curadoria de exposições, mas, sobretudo, na preparação, ainda em curso, de uma História do Surrealismo no Chile. Justíssima a sua presença em nosso mapeamento de uma nova lírica no Brasil, bem como a cumplicidade declarada que permeia tantos projetos nossos.

Os Editores


*****

• ÍNDICE

1981 ROBERTA TOSTES DANIEL

1985 CASÉ LONTRA MARQUES

1986 ANNA APOLINÁRIO

1987 CARLOS ORFEU

1992 ELVIO FERNANDES GONÇALVES JUNIOR

1995 LUCAS ROLIM

1995 MARIAYNE NANA

1995 VICTOR H. AZEVEDO

1998 FERNANDA BOAVENTURA

1999 ISADORA EGLER




Enrique de Santiago (Chile, 1961)

*****

EDIÇÃO COMEMORATIVA | CENTENÁRIO DO SURREALISMO 1919-2019
Artista convidado: Enrique de Santiago (Chile, 1961)


Agulha Revista de Cultura
20 ANOS O MUNDO CONOSCO
Número 126 | Janeiro de 2019
editor geral | FLORIANO MARTINS | floriano.agulha@gmail.com
editor assistente | MÁRCIO SIMÕES | mxsimoes@hotmail.com
logo & design | FLORIANO MARTINS
revisão de textos & difusão | FLORIANO MARTINS | MÁRCIO SIMÕES
ARC Edições © 2019



1999 ISADORA EGLER


[ DEZ POEMAS ]


[A GENTE QUE ENTENDE DO QUE SE ALIMENTA UM URUBU]

A gente que entende do que se alimenta um urubu
cresce com medo de que as gavetas da casa acordem
reviradas e não mais se consiga encontrar
por exemplo um
cachecol

mamãe guardava a chaves sua dor de peixe bruto
um odor incamuflável
aos quinze anos
fui doutrinada a esconder até mesmo
algo como o rio de neruda

o tempo passou
me juntei a grupos de estudo a explorar a
relação entre punhos e cadeados entre
o quinto dia útil do mês e aquele amor
que eu pensei ora planar alto ora pousar sobre
uma estrutura urbana
qualquer

vivi a não alçar voos
tudo pelos baixos beiços me convidava
qualquer ideia de bico me punha a pêsames
aprendi cedo demais que edith piaf se enganara:
as aves, como os cães, não discriminam as cores

ouça com atenção
de tanto ver em tudo
um bicho de sete cabeças,

perto dos 20
prodigiosamente me empreguei como funcionária pública de instintos
habilitada a enxergar de longe
qualquer crustáceo que habitasse
a solidão de uma concha

papai não ligou muito

tudo associado a esconderijos continuou cheirando
ao meu quarto.


[CASO O CORAÇÃO BATESSE]

caso o coração batesse
apenas uma vez ao
dia seria
possível passar
alguns instantes
na ilusão de
acordar escovar os dentes apertar
os cintos
sem perceber
que há horas
se morrera
crescer em uma
casa onde a dinâmica dos
animais se parecia com
aquilo que fazem os camaleões
me ensinou algo sobre
camuflar-se para ataque sobre
uma constante guerra colorida
nenhum lugar para
se pôr os pés me ensinou
uma coisa ou outra sobre
biologia eu nunca
entendi as libélulas
essa coisa bonita que para no ar
sobrevivi para contar
a lenda do miocárdio porém
ainda com muito medo
de que num acaso ele palpite
por qualquer coisa
pouca


[EU TE AMO PORQUE VOCÊ]

eu te amo porque você
nunca usaria uma palavra onde ninguém mais
usaria

porque
uma águia não conhece o termo
ave de rapina e assim pode ser por
uma média de 20 anos algo
exatamente igual a um passarinho

porque
o menor gesto dos meus braços é pior
que os seus cílios

te amo porque
desmembrando qualquer homem
me perdi no panteão da palavra quimera
achei curiosíssimo estampar um brasão
seduzida fui pelas sobrancelhas de sabão neutro
e ainda assim

nada fazia bolhas
nada havia no mundo que fosse
tão importante

quanto quando inventamos o nome
do que parecia ser o oitavo dia,

tem mais presença em nós
tudo aquilo que não existe.


[ENTRE EU E VOCÊ]

entre eu e você
os feromônios já não têm mais coragem de pular de paraquedas
essa coisa de esperança nasce com a boca no pé e me coloca na
posição do caminho de santiago
vivo a calejar meus lábios
nada mais seguro que abolir os freios
é preciso que o beijo seja como a oferta de um atalho

escrevi pra te contar que hoje em dia ninguém anda de pajero


WANNABE ATACAMA

ainda que no final das contas
tudo se torne frágil como
ouriçar um deserto
não levantarei cabeça alguma de
despedida não voltarei à bíblia serei
pra sempre a primeira mulher
para quem não contaste sobre o verão
pra sempre escura nos lugares errados
⅓ criatura, nunca o suficiente para
alimentar um bezerro
sutil como confundir luto com a noite
que vem, te alegra de sermos somente nós, grãos
e não uma avenida principal, somente cristais
cresceremos queimados
me vigiará em cabeceira, há sempre surpresa
em pensar que antigamente
todo mundo admitia
que logo pela noite viria o frio
hoje em dia sabemos, é engraçado
seremos talvez para sempre inconstantes e arenosos
mas jamais áridos
nos amaremos de jeito desolado e encharcado
como os lençóis
desse país brasil


[NESSA DE SE DAR COM OS OLHOS]

nessa de se dar com os olhos 
você compete com o ar e conjuga
nada mais que o índice de um livro de poesia; não fosse essa sua mania de comer pelas beiradas, uma fala de S e 
a impressão de que primeiramente
pavimentamos plutão e logo em seguida
processamos netuno, vê se me entende,
não existissem os astros do estrogênio
regidos pela córnea que provoca o cio
da braguilha da cidade que eu visto, a
ideia de um flerte como a gestão da crise
dos mísseis em cuba, não fosse nada disso,
mas um grito, agudo e palíndromo, ou seja, 
seu nome honrando os instrumentos de sopro,
amanhã mesmo nossas bocas se errariam 
e minha glote te ensinaria
o que fazem e onde vivem 
as professorinhas 
sem magistrado.


[CONVERSA DO TEMPO EM QUE AINDA NÃO JULGÁVAMOS IMPORTANTE O USO DE BLOQUEADOR SOLAR]

conversa do tempo em que ainda não julgávamos importante o uso de bloqueador solar
sabes
muito se fala sobre ser o sol na vida de alguém
intrometido
ícaro deporia não considerar muito boa ideia diria um astro é um fuzil
raios! UV
mutação alguma DNA, escute lá, não ouses seja nada mais
que o escuro deitado entre dois corpos

achei cafona arder pelo outro

amo das 9 ao meio dia
raras exceções às quatro.


[SOLUÇÃO]

assumir teu gosto por ciências

ouvir atenta ao fato de que limões dão mais
sumo após alguns
segundos no microondas

encontrar motivos pra clamar a
são josé inspiração a tal plano maligno

manter-me por dias na casa de pólvora
carregando somente um fósforo
entre as pernas.


[TEM PARTES DA MULHER QUE O HOMEM NUNCA TOCARÁ]

tem partes da mulher que o homem nunca tocará
o terceiro olho os
ossos do ofício a
garganta extra o cabresto jugular
essas coisas & entre outras

a virilha de dentro


[COMPARO SEUS DENTES COM QUALQUER]

comparo seus dentes com qualquer
objeto branco também
no cômodo

rezo pedindo tentar te enxergar
o sinônimo de sinônimo
a primeira
frase neutra de uma língua

chamo de um jeito você fala de outro
não tem saída há sempre
uma tendência de
substituir o céu por uma cor

você de noite me pergunta o quanto
te aproximo de um deus

respondo que ainda na igreja sem pedestal
não ouso entrar
sem antes me pôr de joelhos


[ TRÊS PERGUNTAS ]

FM | Poesia, amor, liberdade – a tríade essencial do Surrealismo. De que maneira ela faz parte de tua vida e se integra à tua criação?

IE | Acho que o surrealismo é, em si, não uma fuga da realidade, mas um realce dela em cores mais fortes. O amor, na minha vida, faz isso: não aceita nenhuma cena que se preste a uma explicação racional de qualquer tipo. Não aceita nenhum tom pastel, e a poesia nasce justamente dessa não aceitação do ambiente natural e fácil, dessa luz que só mostra uma parte da cidade. A poesia só existe porque odiamos meios termos, porque a gente não dá conta do limite do aceitável e precisa contrariá-lo. Esses dias um amigo meu me contou que tinha a estranha tarefa de escrever sobre algo que ama odiar, para um trabalho na faculdade. E ficou espantado quando eu disse que amar o ódio a algo é poderosíssimo. Liberdade pra mim é ter um lugar onde eu posso transformar o corriqueiro naquilo que as tintas fizeram depois que veio a fotografia: dar o troco, falar mais alto, pra que as pessoas ouçam também. Porque eu não aguento o banal. Aí eu escrevo.

FM | Dentro e fora do país, entre vivos e mortos, independente até mesmo da poesia, não apenas citando os nomes, mas comentando os motivos, poderias referir algumas afinidades tuas na criação artística?

IE | Quando eu tinha 15 anos, eu ganhei dos meus pais a obra completa do Manoel de Barros. Eu não sei ou não consigo dizer uma frase que resuma tudo o que acontece até hoje vindo desse homem, mas sei, por causa disso, que “uma palavra abriu o roupão pra mim”. E quando alguém te diz que uma palavra quer que você a seja, você entende que esse mundo aqui você então passou a não querer mais dominar. E isso é sério, é importante. Gosto também da Hilda Hilst, acho tudo muito corajoso, tento redescobrir a cada dia, é coisa pra uma vida. Talvez não seja exatamente uma afinidade, isso seria muita presunção. Mas gosto demais dela. E a Sophia de Mello Breyner Andresen tem me ensinado sobre o tempo. Não sei, são muitas pessoas, muitos contemporâneos também, a lista iria até amanhã.

FM | Tenho percebido que, sobretudo em poetas nascidos a partir de 1980, há um renascimento na lírica brasileira, que é tanto na densidade da escrita, quanto na definição de uma voz própria, quanto no sentido de uma solidariedade explícita, sem que isto reflita a existência de um movimento. O que observas a este respeito?

IE | Acho que muitos escritores contemporâneos se sentem desperdiçados pela crítica e isso cria um ciclo eterno porque não se permite espaço a quem não é lido e ao mesmo tempo não se lê quem não está dentro desse espaço. Mas, enquanto isso acontece, também estamos reinventando nossas formas de circulação, nossas formas de burlar esse meio em que vários poetas não estão sendo lidos por questões muito pouco a ver com suas literaturas. Isso é a cara desse pessoal que anda sendo garimpado por aí e achando novos jeitos de jogar contra essa indústria doida que a gente já sabe que virou a cultura. Esse sentimento de quem já entendeu o comércio e a repetição por trás do que chamam de poesia, lírica, e quer fazer algo. A pouca esperança que a gente tinha de que algo mudasse acabou, mas ainda não é tempo de ficar parado. É uma coisa de quem tem e quer usar o tempo prestando atenção no que tem algum valor. E são tantos, nossa, tantos artistas incríveis conseguindo se estabelecer que eu fico até sem saber o que dizer sobre a coragem dos poetas com quem eu hoje convivo e os quais felizmente tenho a chance de ler.


[ FOLHA DE VIDA ]

Isadora Egler (Brasília, 1999). Poeta. Possui textos publicados em revistas físicas e virtuais e, em 2018, foi vencedora do terceiro lugar do Prêmio Off Flip na categoria poesia.


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EDIÇÃO COMEMORATIVA | CENTENÁRIO DO SURREALISMO 1919-2019
Artista convidado: Enrique de Santiago (Chile, 1961)


Agulha Revista de Cultura
20 ANOS O MUNDO CONOSCO
Número 126 | Janeiro de 2019
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1998 FERNANDA BOAVENTURA


[ DEZ POEMAS ]


[NÃO PUDE ATERRAR-ME NA NÉVOA]

Não pude aterrar-me na névoa, diante da parede de vidro, no final do mundo.
Não o amava o suficiente.
Juntei lenha, empilhei as achas da fogueira e aqueci as mãos.
Mas eu não sorria, não conseguia abaixar a lança, quebrá-la, desistir de empunhar um galho de prata. Ofereci o fogo a Deus, à família, aos amigos irreparáveis.
Mas no fundo do coração eu não estava enternecida.
Senti que mentiria a uma legião de filhos que geraria tendo em mãos um sapo incandescente.
Aos meus pés, um soldado caído que cobri com uma túnica empoeirada.
Penso que qualquer substantivo nobre vai correr à minha boca assim que ele murmurar a pergunta final.
Humilhada, omitirei os meus sonhos e mencionarei os corais.
No dia seguinte, tornarei a omitir os meus sonhos, tensionada pelo orgulho dos meus ossos tenros que perseguem as próprias penas, como a uma dor insólita e milagrosa cintilando numa paisagem de neve. A parede branca e erma do quarto não me açoitará quando eu regressar nua e desenraizada como um adolescente adormecendo à sombra da árvore inominada,
leal ao rebanho, cego aos meus gestos,
surdo à minha voz,
escoando aos pouquinhos o sangue de uma aleluia irredutível:
eis o mistério da crueldade.


NOSTALGIA DA ISLÂNDIA

A princípio voltei-me ao náufrago
E omiti as mãos. Eu nada podia fazer quanto aos pães
E à graça. Eu nada podia contra o exílio.
Os peixes nos meus olhos haviam sido fisgados pela traição do voo
E o aquário não cederia nenhuma embarcação.

Depois a minha voz tornou-se branca
E a claridade cegou as pombas designadas a testemunhar a terra
Com seus ramos de oliveira ofertados às viúvas
Nos portos do continente.

Por fim pus-me a ser água fictícia
A batizar os cadáveres das baleias estendidos sobre a praia sem filhos,
Distraindo-me do Sol sob o qual apodreciam
Que ancorava-se em meus peixes de visões tardias
Desde o começo.


ORAÇÃO

Dói que não tenhas uma mão de osso e sangue, uma mão de cânticos amarelos
Que Teu nome seja uma abóbada recoberta de ninfas vestidas, que todas elas vistam cetim branco
Dói que Teus cabelos recaiam sobre mim sem que o vácuo circundante do sol seja uma chaga
Que teus olhos não sejam armários e cristaleiras em quartos escuros
Que sejam miragens de cardumes a assegurar a minha carne como um espelho no sótão
És uma câmara, uma marquise sem muitas colunas onde náufragos me entregam cestas de vime e minhas mãos se transfiguram para um castelo inabitável de fios de ouro
Quando a minha voz for um castiçal a estilhaçar meus lábios, sangrarei sob Ti como um cavalo negro Meu sangue será uma orquídea esboçada nos azulejos
Ó lâmina de ar
Ó pensamento de bronze
Sei que me ouves
Mas minha pele arde no sítio das brânquias
Os peixes se multiplicam sem que eu sinta o gelado de suas escamas
E amo-Te no que tremula como um pardal de fogo, um girino, um mamífero sem sexo


[A LUA REFLETIA NO CORAÇÃO DE VIDRO DAS ÁGUIAS]

A lua refletia no coração de vidro das águias.
Eras o rosto de menino que embebia a neblina de terra lamacenta,
e eu te acalentava no fio da espada, firme como um mastro,
suave como um lenço.
Corrias como um potro marcado pelo refúgio primevo,
desconhecido pelo frio e a fome.
Quando a noite indagava por nós, apressávamo-nos em dizer-lhe “Eis-nos aqui”,
como a garganta de um pássaro no ninho
à espera do alimento engendrado pelo bico calcinado da mãe
que mira o sol no eixo do passado invernal.
Abraçávamo-nos em cerimônia de ressurreição dos mortos.
Tínhamo-nos a mão contínua criada pela leoa que acariciávamos,
guiados pelos espasmos da corça na escuridão do espelho.
As gralhas grasnavam de fúria frente ao dorso intacto da terra lancinante,
doavam-nos duros e amados à sua solidão.
Faziam da mãe balançando o berço o corpo soerguido pela relva,
e depois a insígnia de seu silêncio coroado.
Ó criatura de dorso aberto no alento quente de Deus,
com o rosto coberto de pó e contorcido em temor,
vinde a mim,
junto a vós me humilharei trespassada pelos pássaros sem lugar,
jejuarei na névoa, tocada pelos sonhos irreveláveis de Cristo adormecido na tempestade,
perderei os meus filhos para achá-los esvaziados de sangue no último destino das mães sem peso.
Hão de nos rogar peixes com pulmões indolores.


[QUANDO TRAÍ O MEU TESOURO]

Quando traí o meu tesouro,
um anjo dilacerou-se para salvá-lo.
Encontrou-me agarrada à impiedade como um homem perdoado agarra-se ao inferno.
E o negrume nos olhos do pássaro alçou o bálsamo do tempo.
Certa vez perguntei ao anjo o que meu sangue rogaria às estrelas.
Ele respondeu: Um crime que te engrandeceste.
A semente já havia morrido então.
Mas não o bastante.
Bastaria a alguém um tronco edificado contra a luz entregue ao esquecimento,
a monstruosa inocência dos tigres?
Tocaste o ouro do teu pesadelo quando a salvação te batizou em crueldade?
Transforma-se em fantasia o consolo de minha fúria,
e deflagra-se a miséria enorme.


LEITE E PERDÃO

Descobrem o reino da pedra com a força de um leão negro em um leito de ouro,
mas o corpo fere-se na glória irredutível da coroa sem o pelo castanho dos dorsos
onde os corvos se alimentam dos embriões de sua mãe rubra
— antiga mãe rubra na cidade sem luzes nutrindo seus sonhos com a esperança dos santos.
Leite e perdão.
Descobrem a guerra no sótão da casa.
Descobrem a fonte muito longe do grito que aninha-se, trêmulo, no trono dos filhos de Eva.
Descobrem a infância encerrada no coração.
A rainha perde-se no poço,
mas o seu rosto será beijado pelo espírito quente das baleias
quando o verão levantar-se imortal dos búzios
— ossos estilhaçando-se em rochas para alimentar os abutres.
Leite e perdão.
Descobrem a casa encerrada em miragens de lanças depostas para nunca mais perdê-las na senda.
Descobrem a hóstia no adeus das crianças para engendrar o amor com a distância de suas mortes.




[O QUE TOCOU A MINHA NUDEZ]

O que tocou a minha nudez como a uma casa inextricável onde um cervo morre?
A terra se lembra da sombra de uma mão sobre a relva?
Se aquele que caminha sobre a superfície das águas renuncia ao ninho,
quem alcançará as luas ao largo de toda a fonte?
Dura noite aberta aos anjos que estancam o sangue peregrino de uma criança intocada.
Silêncio tão tangível quanto o sonho de um animal que não respira.
E nunca pelo meu ventre uno a casa à carne, a âncora à morte.
Mas perece a espada em um coração,
e os girassóis são límpidos como o sacrifício.
O cisne ressuscita sua úlcera,
e a Primavera, alteia a coroa estéril, a alegria vã?


[O CORAÇÃO PERTURBA O VENTO]

O coração perturba o vento à procura de uma súplica extraída da morte.
Naturalmente o tempo fará a violência onde os sonhos aplacam a nudez de um homem.
E a misericórdia revelará a sordidez de nossas consolações.
Mas a que se destina a espera amorosa que no meu seio eu entrevejo quando um raio fulmina os peregrinos no interior da solidão rubra?
Onde guardarei o meu nome, talismã da tua entrega?
Entre os meus silencio em tua inocência.
E assim eles conhecem a grande face da minha violência.
Dou-lhes uma ametista para que nutram de perdão o sono,
mas quando toco-lhes a alma a luz coroa o meu útero no cumprimento suave dos seus votos de crueldade.
Da âncora que se arrasta eu revelo a névoa.
Do sangue que se abunda eu revelo a espera.
E, aterrorizada, lanço-me à liberdade com que tu me puniste.


3.ª DOR DE MARIA

Por três dias, estive diante do espelho herdado pela perda de vosso rosto.
Abriu-se para mim o coração de um abutre, e pude gestar nele a mão ressequida pelo destino de vossas lágrimas.
Mas e os meus gritos, reconheceriam os ossos inquebrantáveis do vosso rastro?
Restou-me somente a memória de um beijo de criança para reconhecer a vossa pegada entre os elementos.
E então, ó solidão irrevelada, eu soube que seria a vossa morada o exílio do meu ventre.


[PROCURO A CANDEIA NO SILÊNCIO DE ONDE BEBO A SEIVA QUE FERE]

Procuro a candeia no silêncio de onde bebo a seiva que fere.
Quem mede a altura do voo com a distância de sua morte?
Quem lança as flores contra o território estrangulado de seu próprio sangue?
Acordas sem regresso pois não perdoaste o teu punho.
Ainda, é sob a miragem do fogo dos homens que expurgo a espada do coração das águas:
eis o real dos sonhos, lágrima de cisne.
Os corpos têm seu peso tocado pela justiça,
jogados nas clareiras inextinguíveis da floresta,
quando imploram o perdão aos carrosséis no pórtico do deserto.
Assim crescem os peixes,
no eterno rastro de nossa ausência.
Despertam a morte peregrina no covil da Primavera que trai e fecunda.
Vê como o pássaro regressa aos rochedos,
como os rochedos acodem o pássaro,
como farto-me do lado de fora da casa
e do lado de dentro da casa até não restar palavra.


[ TRÊS PERGUNTAS ]

FM | Poesia, amor, liberdade – a tríade essencial do Surrealismo. De que maneira ela faz parte de tua vida e se integra à tua criação?

FB | Que pergunta difícil. Há sempre uma falha na voz quando se fala de mistério, e a beleza (a própria substância do mistério) é terrível em suas formas mais singelas. Acho que no final, só resta eu, o quarto e algum esforço débil para honrar a minha familiaridade obscura com a Natureza. Tentar me salvar, ao menos um pouco, do exílio de ser gente. Tem um verso do Daniel Faria que respira por trás do véu de cada poema: “Como reporás a terra/Arrastada para a boca?” 

FM | Dentro e fora do país, entre vivos e mortos, independente até mesmo da poesia, não apenas citando os nomes, mas comentando os motivos, poderias referir algumas afinidades tuas na criação artística?

FB | Nossa, acho que posso começar por alguns livros do Velho e Novo Testamento que me mostraram o gosto do meu próprio sangue. E então, tem Herberto Helder, Daniel Faria, Sylvia Plath, Rilke, Simone Weil, T. S. Eliot, Leonard Cohen, Carminha Gouthier, minhas avós, meus pais, meus amigos, André... São tantos, tantos os que eu agradeceria com o coração na mão, e ainda seria insuficiente. Crescer foi também sobre aprender como um poema, uma imagem presenteada, mesmo involuntariamente, pode salvar sua vida ao te revelar como perdê-la. Entender que quem perde a vida, salvá-la-á

FM | Tenho percebido que, sobretudo em poetas nascidos a partir de 1980, há um renascimento na lírica brasileira, que é tanto na densidade da escrita, quanto na definição de uma voz própria, quanto no sentido de uma solidariedade explícita, sem que isto reflita a existência de um movimento. O que observas a este respeito?

FB | Não sei se poderia observar algo.


[ FOLHA DE VIDA ]

Fernanda Boaventura (Minas Gerais, 1998). Poeta. Publicou as plaquetes Ao fim de uma oração (2017) e Fac me tecum pie flere (2918).


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EDIÇÃO COMEMORATIVA | CENTENÁRIO DO SURREALISMO 1919-2019
Artista convidado: Enrique de Santiago (Chile, 1961)


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