sábado, 11 de março de 2017

Agulha Revista de Cultura | Fase II | Número 25 | Editorial

● CENTRO DE ESTUDOS LATINO-AMERICANOS FLORIANO MARTINS

Não há símbolo de poder mais forte que o livro. Muito além da ideia de domínio ou influência, o poder essencial celebra concentração e irradiação. O livro recolhe em suas páginas raiz e variáveis de todos os demais símbolos de poder: os nomes, os selos, as leis, as chaves, as máscaras, as armas… O livro é o verdadeiro poder, sendo emblema e prática de todas as perspectivas do sonho, da memória e da atitude imediata com que nos definimos a cada instante.
O livro se reconhece pelo que está escrito dentro e fora de seus nichos e antecâmaras. O livro é talvez a única fonte real de integração, ao unir – sem a mínima sombra de imposição ou corrupção – os mundos destinados a ser e estar. O livro é o que somos, porém ao mesmo tempo em que é o lugar que habitamos.
Cofre único e generoso onde aguardam visitação os segredos da humanidade. Tudo em seu íntimo está aberto e ao mesmo tempo requer uma senha. A chave de acesso ao livro é a sua leitura, o que corresponde a uma relação amorosa entre conhecimento e sensibilidade.
A leitura é uma forma tanto de tecer quanto de desvendar a rota invisível dos labirintos. Podemos esconder o mundo dentro daquilo que sabemos. Também isto o livro nos ensina. Como podemos dar abrigo a todas as formas de vida que buscam novos laços de revelação e consciência. Ou podemos apenas transformar água em vinho. O livro é o reflexo de nossa existência.
O verdadeiro autor de um livro sabe que todo ele é apócrifo. Não recordo a origem da imagem de que, assim como o lago é um abismo acrescido de água, o livro seria o mesmo abismo acrescido de letras. De saberes, corrigiriam uns. De truques, remendariam outros. Porém o abismo ainda está ali e o que a ele acrescentamos é a medida exata do que somos.
Esta é a imagem que dá conformação à casa de leitura que idealizamos, como um lugar sagrado em que crisálida e cigarra se reconheçam irmanadas e integradas à representação maior de suas vidas. Casa ou ninho, o centro do mundo é uma estação, uma passagem, a ponte que entrelaça antes e depois, as margens místicas, os vislumbres acidentados, os extremos, as dissonâncias…
Porém não podemos chegar ali e seguir viagem sem que sejamos possuídos pela intuição de que nada permanece. A intuição não é uma certeza, mas antes um estado paradisíaco em que mil realidades vagam como transparências que se superpõem. O centro é uma esfera fabulosa, repleta de círculos concêntricos e postigos iluminados pela sensibilidade de quem os frequenta.
O centro é o livro é a chave é a crisálida e cada vez que deixamos pousar uma imagem sobre outra nos reconhecemos múltiplos de um mesmo sentido determinado: a convivência. Este é o princípio que protagoniza a criação do Centro de Estudos Latino-Americanos Floriano Martins.
Sinceramente não me encabula que o mesmo leve meu nome, porque o próprio ego não é senão uma fagulha da convivência. O que me estimula a rascunhar estas palavras é outra afirmação de uma mesma personalidade: a doação do acervo inaugural desta casa é uma espécie de determinação da chama, ou seja, a de que devemos buscar contatos significativos.
Somos tocados pelas formas. Nós nos comunicamos por intermédio delas. O símbolo maior da casa é a crença na integração. O mundo se espalha por todos nós justamente em seus fragmentos. Na exata medida em que nós nos espelhamos nos insaciáveis mundos que reproduzimos a cada instante.
Os livros que aqui estamos reunindo não são matizes de um dogma, mas antes o incorruptível acúmulo de combinações de saber. Um concerto que é retrato fiel de infinitos desconcertos. Se acaso delimitamos sua área com o marco geográfico de uma América Latina o fazemos movidos pelo mesmo princípio conjugado de concentração e irradiação.
São incontáveis os mundos que cabem em um livro, na mesma inumerável impossibilidade de definir quantos mundos saem dos livros a cada leitura. Continentes e conteúdos se mesclam, na mesma proporção em que corpo e alma, na formação de novos abismos aos quais decidiremos se lhe acrescentamos água ou letras.
CENTRO DE ESTUDOS LITERÁRIOS LATINO-AMERICANOS FLORIANO MARTINS (CEL-FM)
Grupo de Pesquisa Cultura, Sociedade e Linguagem (GPCSL/CNPq)
Núcleo de Pesquisa e Extensão (NUPE)
Departamento de Ciências Humanas (DCH) - Campus VI de Caetité
Universidade do Estado da Bahia (UNEB)
Coordenação: Rogério Soares Brito (UNEB/Letras), Maria de Fátima Novaes Pires (UFBA/História) e Paulo Henrique Duque Santos (UNEB/História)
Contatos diretamente com o CEL-FM: celfm@uneb.br
Contatos com Floriano Martins: floriano.agulha@gmail.com
Telefone: (77) 3454.2021
Av. Contorno
46400-000 Caetité - BA

A doação que fiz ao CENTRO DE ESTUDOS LITERÁRIOS LATINO-AMERICANOS FLORIANO MARTINS (CEL-FM) deste que ora se afirma como seu acervo inaugural expressa um velho sonho de dar à cultura sua carga mais intensa de generosidade. O acesso a toda forma de conhecimento é uma dádiva que deve ser estendida a todos. Sempre me inquietou visitar bibliotecas particulares de escritores e ali me deparar com um acervo mudo, que não se comunica senão com seu detentor. Ao longo dos anos fui tratando de doar livros a pequenas bibliotecas, porém uma ideia maior me perseguia, a de concentrar parte significativa de meu acervo em um local único, criando condições de pesquisa e deleite, um ponto a partir do qual pudéssemos ir além, planejando palestras e outros eventos que enriqueçam o conhecimento de quem se mostrar interessado. Outro aspecto fundamental é o da diversidade de opções de conhecimento, o que me levou a constituir o presente acervo não apenas de livros, mas também de revistas, jornais, documentários e música. Sua definição como centro de estudos latino-americanos vem do fato de que esta tem sido a área mais ampla de minha produção intelectual, ao mesmo tempo em que contribui, ainda que minimamente, para o acesso ao que se produz de mais relevante em boa parte de nosso continente. O Centro, contudo, tende a ser o mais amplo e generoso possível na busca de novos vasos comunicantes. Este é, portanto, um primeiro acervo. O passo seguinte já nos leva a sonhar com doações vindas de outros escritores e mesmo de instituições, de modo a instigar o prazer pela leitura, pelo conhecimento, e consequente aprimoramento da sensibilidade.

Floriano Martins

Embora já em avançada fase de montagem, o CENTRO DE ESTUDOS LITERÁRIOS LATINO-AMERICANOS FLORIANO MARTINS (CEL-FM) deverá ter sua inauguração oficial somente no segundo semestre de 2017. Até lá todo o acervo está sendo devidamente catalogado e este registro será, a seu tempo, disponibilizado em página própria: https://www.facebook.com/centrodeestudoslatinoamericanos/. Solicitamos a escritores, editores, artistas, pesquisadores, dentro de suas possibilidades, a doação de títulos que possam engrandecer nosso acervo. Antecipadamente agradecemos à generosidade de todos.

CENTRO DE ESTUDOS LITERÁRIOS LATINO-AMERICANOS FLORIANO MARTINS (CEL-FM)
Núcleo de Pesquisa e Extensão (NUPE)
Departamento de Ciências Humanas (DCH) - Campus VI de Caetité
Universidade do Estado da Bahia (UNEB)
A/c Rogério Soares Brito (UNEB/Letras)
Av. Contorno
46400-000 Caetité - BA

O CENTRO DE ESTUDOS LITERÁRIOS LATINO-AMERICANOS FLORIANO MARTINS (CEL-FM) tem o apoio cultural da Agulha Revista de Cultura (http://arcagulharevistadecultura.blogspot.com.br/).



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ÍNDICE

ALASTAIR SOOKE | Joseph Cornell: o homem que guardou o mundo numa caixa

ALFONSO PEÑA | Zuca Sardan y la cámara de gas hilarante

ANA CRISTINA JOAQUIM | Letra pélvica: rápidas considerações sobre a Antologia da poesia erótica brasileira, organizada por Eliane Robert Moraes

ESTER FRIDMAN | Uma obra perigosa no século das luzes

FERNANDO BOGADO | La verdadera utopía de Frank Zappa

FLORIANO MARTINS | Pucuna, Pájaro Cascabel, Alacrán Azul – Tres revistas de los años 1960

HAROLD ALVARADO TENORIO | Lectura de María, de Jorge Isaacs

MARIA LÚCIA DAL FARRA | Marginália herbertiana: a “intransponível fobia epistolar”

NICOLAU SAIÃO | É assim que se faz a estória

PEDRO MACIEL | Hilda Hilst: a vida e a poesia

ARTISTA CONVIDADO | JOSEPH CORNELL | FLORIANO MARTINS | Joseph Cornell e a metafísica do efêmero




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Página ilustrada com obras de Joseph Cornell (Estados Unidos), artista convidado desta edição de ARC.

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Agulha Revista de Cultura
Fase II | Número 25 | Março de 2017
editor geral | FLORIANO MARTINS | floriano.agulha@gmail.com
editor assistente | MÁRCIO SIMÕES | mxsimoes@hotmail.com
logo & design | FLORIANO MARTINS
revisão de textos & difusão | FLORIANO MARTINS | MÁRCIO SIMÕES
equipe de tradução
ALLAN VIDIGAL | ECLAIR ANTONIO ALMEIDA FILHO | FEDERICO RIVERO SCARANI | MILENE MORAES
os artigos assinados não refletem necessariamente o pensamento da revista
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CNPJ 02.081.443/0001-80








FLORIANO MARTINS | Joseph Cornell e a metafísica do efêmero


Joseph Cornell é o grande mago da colagem tridimensional. Cartógrafo do imaginário, ele transpôs constelações fantásticas para o lombo impensável do cotidiano. Louçarias, aramados, gradis, recortes esmiuçados de cenas as mais vulgares, todas essas formas imprevisíveis foram intimadas a fazer parte do enredo de suas caixas. Seu olhar guardava em si uma perene valise do mistério. Como conciliar todas aquelas sombras em torno de um novo oratório de sensações? O desafio era proposto pelo artista. A ele não cabia solução e sim ampliar o raio de ação da inquietude. Em uma de suas mais notáveis viagens por uma insólita dimensão do poético dedicou uma belíssima caixa a Emily Dickinson. Ao acolher um verso dela, Cornell o leva a viajar para um lugar tão distante de sua origem que o redimensiona por completo, dando-lhe nova vida talvez apenas intimamente pressentida.
Cornell era um minucioso colecionador de imagens. Autodidata, desde cedo manifestou curiosidade em relação à astronomia e à cartografia, bem como à história do papel na Ásia e à publicação de inúmeras revistas populares. A partir daí criou singulares truques de montagem que viriam a influenciar enormemente as artes no século XX. A conquista da tridimensionalidade era um modo de tornar reais os atributos da imaginação, do sonho, da memória, criando uma infinidade de vislumbres narrativos. Sua inquietude criativa o levou a experimentar uma vastidão de técnicas de colagem e justaposição, projeção e animação, rompendo com toda forma de linearidade na concepção artística, ao ponto de tornar-se um marco algo intransponível frente a tantos artistas que o sucederam. Livrar-se da sombra implacável de Joseph Cornell era um desafio evidente no mundo das artes, tanto quanto o fora, no ambiente poético, o caso de Fernando Pessoa.

Em minhas conversas com a artista Leila Ferraz sobre Joseph Cornell ela me faz a seguinte observação:

Querido: Cornell nunca se declarou surrealista. Surpreendeu nossos amigos que ultrapassaram os limites do convencional. Isso sim. Influenciou todo aquele que buscou um novo olhar para criar um mundo íntimo. De memórias poéticas e mágicas. Delicadas. Surpreendentes e incrivelmente lúdicas. Minha roupagem de funcionamento simbólico poderia ter sido construída numa pequena caixa de música. Eu pude escolher e dar-lhe minhas formas e dimensões. Se eu fosse a Alice Liddell – a pequena Alice de Lewis Carroll – ou uma das outras ninfetas que ele retratou, teria como meu mundo secreto cada obra de Cornell. Seu intimismo poético e revelador. Eu abriria suas caixas e escutaria seus segredos. Estaria dentro desse espaço conformado, pronta para abrir mais um misterioso segredo. Ninguém soube se esconder nas fímbrias de suas caixas e objetos.

Leila está certa em muitos aspectos. Comecemos pelo Surrealismo. É fato que Joseph Cornell jamais formalizou uma adesão ao movimento. Assim como a outras correntes da vanguarda. É curioso atentar para o fato de que ele considerava relevante a influência do romance-colagem de Max Ernst em sua obra, porém excetuando por umas colagens iniciais ele manteve boa distância estética de Ernst, configurando uma voz própria que se poderia chamar de tutelar, tamanha a sua influência nos horizontes das artes no século XX. Marcel Duchamp disse de Alexander Calder que sua arte era “a sublimação de uma árvore no vento”. De Cornell se poderia dizer que sua arte era a aventura fabular de um catálogo visionário.
Atenção crítica sensível ao universo criativo de Joseph Cornell deixa claro que não poderia haver de sua parte qualquer adesão, estética e/ou existencial, a situação alguma, em especial considerando que dedicara sua vida a uma obsessão lúdica, mais do que apenas a uma viagem onírica. Foi uma espécie de bruxo tocado pela totalidade. Cornell manteve boa relação com Jack Tworkov, um dos fundadores da Escola de Nova York, artista ligado ao ambiente da pintura gestual, a exemplo de Jackson Pollock, Willem De Kooning e Franz Kline. Deste movimento participara o compositor John Cage, cuja declaração de vida bem se aplicaria também a Cornell: “Renúncia à competição. Iluminação do mundo. Não uma vitória, só algo natural.”
Em 1991 Mark Stokes editou um documentário intitulado Joseph Cornell: worlds in a box, onde vemos o artista transpondo para o interior de suas caixas de sombras a própria alma da cidade de Nova York, mesclada a outros mundos imaginários. Este documentário, enriquecido pelo depoimento de nomes como Susan Sontag, James Rosenquist, Stan Brakhage e Rudy Burckhardt – estes dois últimos seus colaboradores em alguns filmes –, propicia uma viagem inestimável pelo ambiente íntimo de criação e convivência de Cornell, sua casa, arquivos, prateleiras, amigos, o modo como organizava a complexidade de seu universo criativo. Apesar da singularíssima dedicação ao impulso obsessivo de criar mundos, Cornell tinha uma espécie de concisão gestual, ao caminhar, mexer em seus guardados, absorver a existência a seu redor. A inquietude, da mesma ordem de uma vazante ou de uma tempestade, habitava unicamente seu olhar, sentido em que a beleza ganhava sua ordem mais convulsiva.
Joseph Cornell foi um precursor de praticamente todas as expressões artísticas mais relevantes no século XX, em seu ambiente plástico. Esta frase não está demais, se pensarmos no papel que desempenharam, na música e na literatura, nomes como Frank Zappa e Fernando Pessoa. Façamos aqui um recorte em sua apropriação de truques da fotografia, do teatro e do cinema. Cornell era tanto um criador de imagens como um manipulador de efeitos. Caixas, colagens, filmes experimentais. Sua intimidade com a mesa de edição era tamanha que o movimento lhe era algo natural, a animação cenográfica, o recorte preciso, a ponto de por em funcionamento as chaves secretas do roteiro e da trilha sonora. Recordem: não o fizeram igual Zappa a partir da música experimental e Pessoa de uma poesia não menos experimental? E acaso não foram os três casos complexos de abrangência de sua volúpia criativa de modo a não haver como enquadrá-los em uma estética restrita?
Voltemos ao Surrealismo. Ou melhor, a propósito de Surrealismo, voltemos à assertiva de Leila Ferraz ao mencionar o “intimismo poético e revelador” da obra de Cornell. Aos olhos de André Breton, no que pese o período que passou nos Estados Unidos, seu conhecimento da existência de Cornell – recordemos que ambos estavam ligados a Charles Henri Ford e à revista surrealista View –, a revolução do objeto na criação artística estava diretamente ligada ao desvio que se impunha de funções, ou seja, sua requalificação conceitual. Como o acaso deveria ser determinante neste desvio, Breton aceitava o ready made de Duchamp, porém não a manipulação do acaso de Cornell, que ele certamente tinha na condição de um construtivismo. Mas o próprio Salvador Dalí recordou que os objetos de Duchamp eram eleitos ou compostos. Mais uma curiosidade a respeito? A defesa de Breton em relação ao poema-objeto, ao qual ele se referia a uma característica de “especulação sobre seu poder de exaltação recíproca”. Ora, o que faltou a Cornell para integrar aquele rol mágico de artistas não-surrealistas a quem o Surrealismo costumava aderir incondicionalmente?
Volto uma vez mais à Leila Ferraz, quando menciona um de seus objetos de funcionamento simbólico, recordando o carinho que sempre teve pelo mistério que soube muito bem ocultar e revelar em suas caixas Joseph Cornell. Diz ela (recordemos) que “ninguém soube se esconder nas fímbrias de suas caixas e objetos”. Ora, Dalí evocava uma condição para a atuação de tais objetos, de que se baseassem em “fantasmas e representações suscetíveis de ser provocados pela realização de atos inconscientes”. Diz ele ainda que tais objetos “não dão nenhuma oportunidade às preocupações formais”. Talvez venha daí a não percepção de Breton em relação ao trabalho de Cornell, e se insisto neste tema é porque vejo uma relação íntima entre os laços vitais que levaram à criação tanto Breton quanto Cornell.
Bom, Salvador Dalí disse certa vez, em seus exageros peculiares, que a obra de Cornell é a única verdadeiramente surrealista encontrada na América. O que talvez não tenha havido termo de acomodação diz respeito aos sobressaltos ou dissensões em relação a outros modos de ser surrealista que foram percebidos fora da Europa. No caso específico de Joseph Cornell, como deixar de fora de um ambiente surrealista suas caixas de memória, seu teatro poético, a obsessiva construção de seus dossiês, e até mesmo sua reclusão e rejeição ao mercado? Para aqueles que são viciados em registros, quando a realidade precisa provar sua existência, anotem: Joseph Cornell esteve presente nas duas mais importantes exposições surrealistas dos anos 1930 nos Estados Unidos, da galeria Julien Levy e a famosa Fantastic Art, Dada and Surrealism, respectivamente em 1932 e 1936. Buscando certo equilíbrio de equívocos, menciono que Cornell suspeitava da aproximação do Surrealismo de uma magia negra. Ao comentar a este respeito com Zuca Sardan, ele então me lembrou que o próprio Cornell é um artista totêmico-mágico, suas obras têm uma grande força de vodu, destacando que esta rejeição seria assim um curioso auto velamento de sua própria pessoa, essencialmente mágica.
A sua vida se espelhava na imagem do que ele próprio havia definido em relação à criação: uma metafísica do efêmero. Joseph Cornell nasceu em 1903 em Nova York. Filho de classe média, três irmãos, as duas meninas cresceram e casaram e cedo se foram de casa. O pai morreu antes disto, Cornell tinha apenas 14 anos. O irmão mais novo, Robert, nasceu com paralisia cerebral. O desarranjo doméstico foi naturalmente agravado, porém esse relicário de privações não foi justamente o fator decisivo para a decisão de Cornell por uma formação autodidata. Esforços familiares o levaram a cursar uma escola que acabou abandonando. Chamou, no entanto, para si uma responsabilidade velada, a de cuidar de seu irmão mais novo.
A infância de Cornell é uma metáfora de sua estética. Uma dessas chaves mágicas a encontramos nas sessões de escape de Houdini de suas caixas trancadas. Duas outras diziam respeito a suas visitas a Times Square e Coney Island, além do convívio com as noites de vaudeville em Manhattan. Não importava em que encargos domésticos estivesse envolvido, sua paixão era o caminhar pelas ruas, a entrada em portas que eram portais que eram a chave de mundos novos que ia anotando de memória como casas às quais deveria retornar para definir sua percepção estética do ambiente. Cornell sempre foi um devorador de mundos. Um engolidor de mistérios. Uma ave renascida a cada ameaça de sua extinção.
Joseph Cornell foi um entranhável habitante da própria obra. É possível tanto encontrá-lo em distintas perspectivas e enquadramentos de inúmeras caixas quanto encontrar-se com elas na mecânica essencial de sua existência. Quase impossível – o que o torna ainda mais inestimável – separar vida e obra em se tratando deste artista. Seu estúdio se confundia com uma de suas caixas, e em suas fotos o próprio Cornell sempre parece estar no cenário de uma fantasia já de todo encaixada nas vértebras da realidade. Criador e criatura, multifacetados dentro e fora do mundo que revelou.
Joseph Cornell soube como poucos, somar fortuna e desastres de sua existência em nome da afirmação de que a arte não alcançará jamais outra dimensão humana além de si mesma. Este foi o desafio maior a que se impôs Cornell. A arte não é o que somos. Não é nossa adesão a uma instância estética. Não é o desvario em torno de um mundo que não reconhecemos como nosso. A arte – se cabe ainda usar o termo – é o modo como enfrentamos a vida. Simples assim: o modo como enfrentamos a vida. Uma vez mais? O modo como enfrentamos a vida.
A vida de Joseph Cornell esteve sempre marcada por uma admirável capacidade de situar a beleza nos escaninhos mais imprevisíveis. Mas não estava ao dispor do acaso tão completamente como se possa imaginar. Como ele próprio deixou registrado em seus diários, há um momento em que a luz do sol atravessa o meio dia. A viagem possuía uma concepção ulterior em Cornell. Sua vida inteira a viveu em poucos bairros em Nova York. Os passeios frequentes por Manhattan definiam, sobretudo, a fixação pela caça de objetos. Em meio a recortes de vislumbre e raras experiências táteis, soube absorver um ideário histórico e geográfico de causar espanto em alguns casos. Certa vez conversou largamente com Duchamp sobre Paris, vindo a declarar ao final do encontro que jamais havia estado na capital francesa. Cornell dizia que há objetos ou mesmo aspectos de nossa vida que são encontrados em lugares distintos, e que, uma vez encontrados, podem definir o que conhecemos como obra de arte. Aplicou técnicas de colagem a filmes que eram essencialmente pioneiras.
A vida é, ao final, um objeto que nos escapa. A obra de Joseph Cornell é um reflexo estimulante que nos leva a pensar em muitos modos de fuga da existência. A arte seria uma caixa de recursos a fugir da vida? E se fosse exatamente o contrário? Uma afirmação de que nossa existência ulterior se encontra repleta de fragmentos que não conseguimos identificar e colar, como um quebra-cabeça que mescle névoas de toda ordem de sentidos. Cornell compreendeu isto como poucos. A ponto de tornar a própria vida suspeita de não encontrar jamais uma razão de ser.




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FLORIANO MARTINS (Brasil, 1957). Poeta, ensaísta, tradutor e editor, dirige a Agulha Revista de Cultura e ARC Edições. Página ilustrada com obras de Joseph Cornell (Estados Unidos), artista convidado desta edição de ARC.

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Agulha Revista de Cultura
Fase II | Número 25 | Março de 2017
editor geral | FLORIANO MARTINS | floriano.agulha@gmail.com
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ALLAN VIDIGAL | ECLAIR ANTONIO ALMEIDA FILHO | FEDERICO RIVERO SCARANI | MILENE MORAES
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PEDRO MACIEL | Hilda Hilst: a vida e a poesia


Nascida em Jaú, em 1930, Hilda Hilst estreou em 1950, com o volume de poemas “Presságio”. Desde então publicou mais de 30 livros de poesia, narrativa e teatro. Hoje a escritora de “Tu não te moves de ti” garante que parou de escrever por ter esgotado em sua obra a necessidade “imperiosa” de se expressar que, segundo ela, levou à literatura. A poeta, que respondeu às perguntas por escrito, discorre sobre vários temas numa linguagem repleta de reticências – e por isso completamente próxima à sua obra. As respostas de Hilda Hilst são quase fábulas, falas tanto quanto comovidas com a existência. “Não sei se a minha vida daria boa poesia”, duvida ela, para quem a poesia, desde Shakespeare, jamais mudou nada no mundo. [P.M.]

PM | Hilda, você escreve para responder perguntas que às vezes não têm respostas?

HH | Na maior parte das vezes sim. No meu texto Qadós, por exemplo, isso se re­vela mais insistentemente. O personagem, desde criança, já perturbava os pais por ser acentuada­mente perguntante e recebia os apelidos de Qadós-pergunta-coisa, Qa­dós-disseca-tripa. Depois, já adulto, continuou se perguntando:

“(Qadós)... quando comecei a perguntar de manhãzinha:
 O que me dizes do administrador do Cosmos?
E o administrador sabe de que maneira deve ser administrado para che­gar com sabedoria e perplexidade ao seu último estágio?
E se ele, o administrado sabe disso, que importância tem o admi­nistra­dor?
Fui indo aos solavancos muitas horas e terminei com esta jóia: o meu ser pergunta é um estado imutável?”

Mas escrevo principalmente pela necessidade imperiosa de me expressar.

PM | Vale a pena escrever poesia? Não seria melhor transformar a vida em poesia do que fazer poesia com a vida?

HH | Não sei o que você quer dizer com “valer a pena”. Quer dizer fama, prestígio, di­nheiro? Palavras simples podem significar coisas complexas. Heidegger escre­veu um verdadeiro tratado sobre “O que é uma coisa?”. Poesia é a necessidade de se expressar. Não sei se a minha vida daria boa poesia. Sei que antes de tudo, importa poder se ex­pressar.
No Brasil, a voz do povo é o futebol, a música, a dança. Se ‘voz do povo é voz de Deus’ talvez Deus goste muito de dançar. Sei muito pouco sobre Deus. Talvez ele passe horas falando ao telefone e por isso tudo está como está. Mas, mesmo solitário, o poeta pode ter várias vozes. Os grandes poetas são sempre solitários e falam muito so­bre a ausência

PM | A poesia é capaz de transformar o mundo?

HH | Não acho que seja. Mesmo um grande poeta não pode transformar o mundo. Shakespeare era deslumbrante mas não transformou o mundo.

PM | Hoje em dia é possível surgir um poeta que tenha a voz do povo ou a poesia nes­tes tempos pós-modernos é apenas dos poetas so­litários?

HH | No Brasil, a voz do povo é o futebol, a música, a dança. Se “voz do povo é voz de Deus” talvez Deus goste muito de dançar. Sei muito pouco sobre Deus. Talvez ele passe horas falando ao telefone e por isso tudo está como está. Mas, mesmo solitário, o poeta pode ter várias vozes. Os grandes poetas são sempre solitários e falam muito so­bre a ausência.

PM | Octávio Paz diz que “a história da poesia moderna é a do contí­nuo dilaceramento do poeta, dividido entre a moderna concepção do mundo e a presença às vezes intolerável da inspiração.”

HH | A inspiração existe, embora João Cabral não acredite. Ela vem subitamente e pode dar até febre física. É magnífico receber algumas vezes a inspiração. É um dom divino com o qual somos agraciados.

PM | Ainda hoje nascem poetas simbolistas e saudosistas, sonetei­ros e bordadeiras. Se pelo menos fossem repentistas...

HH | Se você se refere a “bordadeiras” como aquelas mulheres que durante a revolu­ção francesa assistiam aos julgamentos bordando meias e eram deno­minadas de tricoteuses, isso é terrível, pode ser medonho. Acho que sem­pre é bom quando nasce um bom po­eta, seja repentista ou não. Mas é ne­cessário tentar inovar.

PM | Poeta é aquele que sobrevoa o abismo?

HH | Sim. Sobrevoei muitos mas, nunca tive coragem de me lançar sobre eles. Sem­pre tive uma boa dose de autopreservação.

PM | Há algum sentido, se é que há algum sentido, nas palavras e fra­ses do poema?

HH | Aquele que se expressa, sempre tenta fazer algum sentido. Não um sen­tido convencional, muito menos na poesia. Ele não fala sobre o nada e para nada.

PM | O ritmo é o núcleo da poesia?

HH | Não só. É um conjunto. O ritmo, a forma, o fundo.

PM | Valéry comparou a poesia com a dança e a prosa com a mar­cha...

HH | Minha prosa não é uma marcha, é sempre uma prosa poética. Não acredito nessa di­ferença.

PM | A palavra poética é a revelação da própria imagem? Um po­ema só tem sentido a partir de suas imagens?

HH | Um poema não tem sentido apenas a partir de imagens, mesmo as ima­gens tendo grande importância. Nos meus versos Como se te perdesse assim te quero. / Como se não te visse (favas douradas / Sob um amarelo) assim te apreendo brusco / Inamoví­vel, e te respiro inteiro / Um arco-íris de ar em águas profundas.” existem lindas ima­gens mas, não apenas isso.

PM | Falemos da crítica. Os críticos mandarins ignoram a sua po­esia ou a tra­tam como se você fosse uma poeta apenas erótica. Alguns a classificam como um poeta por­nográ­fico...

HH | Os críticos mandarins que leram minha poesia não a ignoram e sabem que não posso ser classificada de poeta erótica. Anatol Rosenfeld, Jorge de Sena, Antônio Hou­aiss falaram muito bem sobre meu trabalho. Dos meus 22 livros de poemas, apenas um, “As Bufólicas” pode ser considerado pornográfico mas, eu sei que ele tem principal­mente humor. E dos meus 11 de prosa, apenas 3 podem ser conside­rados pornográficos, mesmo não o sendo exclusivamente. Wilson Martins usou er­roneamente a palavra “bordelesca” ao se referir ao meu livro “Do Desejo” mas ele não o deve ter lido. Po­rém, estou em boa companhia. Du Boccage também sofreu esse tipo de confusão, mesmo tendo, na quase totalidade, uma obra lírica, infelizmente desconhecida pela grande maioria. D. H. Lawrence comentou muito bem o que é pornografia, em 1925 no livro “Pornografia e Obscenidade”. Não sei por que ainda fazem tanta confusão hoje em dia. Nos jornais, adoram colocar tí­tu­los chamativos. A “Folha de São Paulo”, na rese­nha do meu livro “Estar Sendo-Ter Sido”, usou o título “Uma Jeremi­ada Pornográfica”, deixando claro que não entenderam do que se tratava. No jornal francês “Liberation”, Eric Loret fez um comen­tário brilhante sobre “A Obscena Senhora D”, comparando-me a Ba­taille. Alguém, na redação, colocou o título “La co­chonne Hilsterique”. Acho que nem na França me entenderam.

PM | Nietzsche diz que “é por nossas virtudes que somos bem puni­dos”.

HH | Não concordo inteiramente. Acho que quase ninguém lê Nietzsche, que foi uma pessoa deslumbrante. Um dia ele se comoveu tanto vendo um ca­valo sendo açoi­tado que começou a chorar, abraçou e agradou a cabeça do cavalo, caiu no chão e acabou sendo levado para o hospício.

PM | A leitura crítica deveria ser uma interpretação da beleza como um objeto de saber...

HH | Você conhece a beleza? A idéia da beleza é muito difícil. Você pode ter a ilusão da beleza que você já viu um dia mas, não sabe onde. Alguns místicos contempla­ram a beleza em Deus, durante os seus êxtases. Santa Angela de Foligno, que vi­veu no século XIII, disse ter visto a beleza de Deus numa visão. Mas, acrescen­tou que “Ali não havia nem sombra de amor”. Isso me deixou tão impressionada que comprei sua biografia. Tal­vez nós todos, um dia, tenhamos visto o rosto de Deus e por isso evocamos a beleza.

PM | Você parou de escrever por causa da crítica, ou das editoras que não di­vulgam os poetas, ou ainda porque os leitores estão surdos para a poesia?

HH | Parei de escrever quando senti que tinha dito tudo o que eu sabia e da melhor forma que fui capaz. Fiz o esforço maior que pude para me ex­pressar. Não adianta mais dar explicações nem entrevis­tas. Se não entenderam, eu não sei dizer de outra forma. Se me vi­esse al­guma coisa com a força que me vinha, voltaria a escrever, seja prosa ou po­esia. Mas, não tem mais vindo. À medida que vamos envelhecendo, descobrimos que não compreendemos nada.

PM | Gide diz que “todas as coisas já estão ditas mas, como nin­guém escuta, é pre­ciso re­começar sempre”.

HH | Blake, Bataille, Rimbaud, Baudelaire, Beckett, Henry Miller, tan­tas outras pessoas deslumbrantes já dis­se­ram. Eu sinto que já disse tudo o que devia. Acho que os novos artistas, os novos talen­tos, devem recomeçar sem­pre sim.

PM | Ler poemas em voz alta irrita os deuses aposentados...

HH | Se são deuses, nunca são aposentados. É preciso saber ler muito bem a poesia. Pa­blo Neruda, Drummond, não sabiam ler bem seus poemas. Ou­vindo uma gra­vação de Cecília Meirelles declamando seus poemas fiquei surpresa. Eu sempre soube ler poesia muito bem, tanto a minha própria como a dos outros. Quando eu tinha 19 anos, Oswaldo de Andrade me fez ler o poema “Une Charogne” do “Flores do Mal”, de Baudelaire, em voz alta.
Parei de escrever quando senti que tinha dito tudo o que eu sabia e da melhor forma que fui capaz. Fiz o esforço maior que pude para me ex­pressar. Não adianta mais dar explicações nem entrevis­tas

PM | Você concorda que, geralmente, os poetas são aplaudidos por­que traba­lham em fa­vor da língua comum e não porque inventam uma forma origi­nal de linguagem?

HH | Não da língua comum. Quando você escreve poesia ou prosa, tua von­tade é sempre dar um passo além. Como já teve Shakespeare, Rimbaud, Joyce e tantos outros maravi­lhosos e geniais, é muito difícil dar esse passo, ser original.

PM | Falemos do tempo. A eternidade está no presente?

HH | Os antropólogos dizem que para todos os homens a ação onírica une o passado e o futuro no presente, e nos sonhos o espaço inexiste. O Zen questiona muito isso do Ali e Agora, a eternidade estaria no aqui e agora. Mas não sabemos o que é Eternidade.

PM | A morte não tem importância, desde que haja alguma coisa do outro lado...

HH | Ela não tem importância porque ela é inevitável.

PM | Nunca somos geniais quando morremos...

HH | Podemos ser muito geniais ao morrer. As últimas palavras de Kafka foram “Para o poço, para o fundo do poço filho de reis”. Rimbaud despediu-se da sua irmã, refe­rindo-se ao dia seguinte da sua morte, dizendo “Eu estarei embaixo da terra e tu caminharás ao sol”. Eu apenas diria “Que maçada”. Daqui há 50 anos serei conside­rada genial. Principalmente quando morre­mos podemos ser geniais.



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PEDRO MACIEL (Brasil). Narrador e ensaísta, autor de A Noite de um Iluminado (Iluminuras). Entrevista publicada no suplemento Prosa & Verso, do jornal O Globo de 25/12/1999, cuja reprodução nos foi autorizada pelo próprio autor. Página ilustrada com obras de Joseph Cornell (Estados Unidos), artista convidado desta edição de ARC.

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Agulha Revista de Cultura
Fase II | Número 25 | Março de 2017
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NICOLAU SAIÃO | É assim que se faz a estória


Estas cartas que aqui se dão a lume fazem luz sobre circunstâncias que aconteciam aquando da Exposição Internacional surrealista “O fantástico e o maravilhoso”, realizada em 1984, no Teatro Ibérico e, seguidamente, pela mão do crítico Rui Mário Gonçalves, posta na SNBA.
Na Nota final se dão mais elementos que, cremos, se necessário iluminarão o que nelas é abordado.
O relato, à guisa de “reportagem”, que na parte final do bloco se insere, descreve – como é patente - um certo ambiente que por essa época envolvia a panorâmica lusitana, mormente nas suas relações com os escritores e pintores surrealistas e outros autores independentes – não contaminados pelo realismo orgânico.

1. De Mário Cesariny a NS (manuscrito), Out. 84

Meu Caro Francisco Nicolau
Depois de muitos picos e oxalá não venham ainda outros mais agudos, o Catálogo da Exposição ficou ontem entregue e agora eles que dêem ao dedo atrasado. Se puder abrir no meio de Novembro já seria muito bom.
Concordo firme com o que na tua última carta dizes do “anarquismo” do e dos Rosemont e o que eu gostava bem é que lho dissesses a ele directamente. Apreciei tanto a tua carta que pensei publicá-la no catálogo, mas parei, porque: teria de ser revista, com vista à publicação; b) levava os textos inseridos para um terreno de que, no geral, estão alheios.
Assim, do que lá vem, e como “responsabilidade” minha no ter posto, penso que será bastante publicar, juntamente com o texto do Rosemont “Para o II Incêndio de Chicago” (que é quanto a mim um belo texto de furor poético) o texto do John Lyle de que fiz um Bureau (chata palavra esta) Surrealista ainda este ano, texto que é contradita formal aos apelos ó Marx ó Freud ó Trotsky ou Lenine; e ainda o texto do Jean-Jacques Dauben/Timoty R. Johnson, que é ultrapassagem serena da questão.
Repito-te que era muito bom (sobretudo para ele) que, e agora que v/ estão em contacto directo, lhe escrevesses dizendo. Mas teria de ser em inglês ou francês porque lá o português não se ouve. Julgo que em espanhol também poderia ser. Ou chinês.
O quadro do Mourato tem que vir. O mesmo problema há em relação às esculturas da Silvia Westphalen e do Pedro Fazenda, que são material pesado e estão em Lagos.
O Carlos Martins tem sido um amigo e um colaborador admirável, e não ponho um pêlo de dúvida de que se esta Exposição se faz ou fez muito mais de metade da força necessária a tal loucura é dele. Mas é também um emotivo, uma emoção a andar, como de criança. Boa, que é a diferença entre ele e o Cruzeiro Seixas, que sempre fez, ou gostou de fazer, de criancinha má.
O que dizes dos “amigos” de aí, quanto a ajudas (transporte do quadro do Mourato), está um pouco contrabalançado pelo que a mesma gente tem feito aqui para desembaraçar obstáculos inenarráveis e seculares. Assuntos alfandegários medonhos e outros medos mais.

Hoje o Teatro Ibérico estreia a Celestina. Vou ver.

O Nicolas Calas refere-se a montras no texto que traduziste. E ainda que isso esteja enterrado lá no 1940, eu ainda me lembro de ter visto, pelo menos duas delas.
Velho, ã?

O Arpad Szenes caíu não sei como e está com um osso para pegar. Com a idade dele isso é pior do que mau. Escrevi-lhe e enviei-lhe o poema que lhe dedicas e vai sair no catálogo.
A ideia é incitar o osso.

Escreve ao Rosemont, mesmo em chinez. Ou encontra aí quem te verta em inglês ou francês. Eu, a ele, já disse o que tinha a dizer há pares de anos.

Parece que o Robert Green, a Debra Taub, o John Graham, o Ludwig Zeller, a Susana Wald e o Granell vêm cá ver a Exposição. E há um Australiano muito muito bom que diz que já não pode com tantos cangurus e quer vir para a Europa. Arranjas-lhe vida de artista aí em Portalegre?
O Mourato deve vir ver a Exposição! Trá-lo contigo.

Grande abraço
Mário


2. De NS a MC (a carta a que este se refere na sua), 26 Set. 84

Mário:
Apresso-me a escrever-te para te dizer que, com efeito, o papel do Rosemont é de facto de mais. É, pelo menos, um bom serviço prestado aos kgb e companhia, sob a sua capa anarcaqueirante.
Não alinho nisso; seria bom compreender-se que, também eu, não concordo com a sua inclusão no Catálogo; o fantástico e o maravilhoso, sendo a inteligência e a poesia em funcionamento prático, não se compadecem com a vizinhança de pistolinhas de Chicago. Aquilo não é revolucionarismo, é politiquice às três matracadas.
Creio que é urgente mandares dizer a Rosemont que a Exposição nada tem a ver com anarquistas federados ou só de chapelinho; para que tudo não se complique e comece a ficar macacal. E dê merda.
Por outro lado, importa dizer de uma vez por todas: eu não sou anarquista, explicando: sou libertário porque surrealista. A minha estadia junto dos anarquistas ibéricos foi um equívoco provocado pelo facto de eu julgar que as pessoas que se dizem livres têm poesia na cabeça e no corpo, trocando: que são a própria poesia.
Quem são a própria poesia são os poetas: tu, eu, o Martins, assim. Os outros podem sê-lo eventualmente, mas não se têm notado nada. São anarquistas de aviário ou “pistoleiros” puros e simples. A Anarquia, para mim, teria de ser a poesia em movimento. Mas aqui (ou em todo o lado? Espero que não) é só a politiquice duma dada extrema. Que vão para a pôrra, definitivamente. O único anarquista verdadeiro é o homem criativo, o Poeta, que não se curva a cores e traquitanas. E disse, caraças!
Concordo pois contigo e Carlos que importa levar a Rosemont as “actas de Niceia” (passe a piada!). O texto dele parece-me menos surrealista que exaltado. E a exaltação assim é meia-mantença de um outro conformismo. Prefiro os índios e os esquimós, mais que os americanos em (pseudo?) rebeldia. Tenho a ver com os Dogons (assim como com Basile Valentim) nada tenho a ver com Marx e Lenine. E pronto, punheta!
Cago tanto na LSD como nos manifestos eleitoralistas. Tanto me urino nas bombas de compra ou de fabrico próprio como nos artefactos dos cabrões dos militares e estados-maiores. E acabei.
Amanhã te mandarei o resto da tradução do Calas. Acredito no valor do livro dele se o dizes. Aliás estes textos dele não são maus, são só horrivelmente ingénuos (embora necessários, e além disso a inteligentsia de cá é tão estúpida que não irá dar por nada). Depois, um dia, falaremos disso.
Os meus textos que apontas não estão publicados em nada a não ser as cópias fotocopiadas que te mandei – com excepção do Picasso.
Agrada-me que tenhas colocado esses para publicação no catálogo.
Talvez dentro deste tempo eu tenha dinheiro para editar um livro (que dizes a “Objectos inquietantes” ou outro?) Fala disto. Procura por favor uma tipografia que faça BARATO, PÁ. Davas capinha? Então vê lá isto. Estou um bocado melhor, depois falaremos de viva voz.
E viva a Poesia, a revolta e a beleza sem amarras nenhumas.
E vejam lá isso sobre o Rosemont. Se não, qualquer dia estão a fabricar bombas atómicas de bolso. O que é tão mau como o resto.

Abraço grande do
Francisco (nome civil de NS, também manuscrito)

NOTA
Coincidindo com os prolegómenos da Exposição "O fantástico e o maravilhoso", o diretor do quinzenário Voz anarquista (Francisco Quintal) aceitara a minha sugestão de ali ser dada a lume uma "página surrealista" organizada por nós (eu e Mário); assim sendo, juntámos colaboração de surrealistas nacionais e estrangeiros; Franklin Rosemont (EUA), para além de um bom texto sobre o surrealismo destinado ao Livro-Catálogo da Exposição (e que conto publicar numa próxima edição) mandava um outro destinado eventualmente à dita página no qual, visto o anarquismo – conforme à tradição - ser de esquerda, se debruçava com extrema "militância esquerdista" sobre o momento português - manifestamente devido ao desconhecimento do que de facto sucedia em Portugal, onde os surrealistas eram marginalizados e fortemente hostilizados (bem como muita outra gente) pelo partido político que ali representava o império soviético e liderava as operações de conquista do poder em conformidade.

O RELATO-“REPORTAGEM”: “PELA PORTA DO CAVALO”

No decorrer da turbulenta sessão surrealista aqui referida e durante a qual se esboçaram entre alguns assistentes amoráveis pequenas cenas de pugilato e outras danças a carácter propiciadas por espectadores fãs dos situacionistas de Leste, além de um poema (já publicado em diversos órgãos e espaços informativos) Mário Botas – que ali nos fôra acompanhar como espectador - teve a gentileza de me oferecer um desenho aguarelado de excelente feitura. Perdido sem apelo nem agravo entre os eflúvios da zaragata ficou ele, creio que capturado por um desembaraçado anónimo admirador do pintor - o que a ninguém dói mais que a mim, seu feliz proprietário durante o melhor de aí uns vinte minutos… ou duas horas.

Sei, por tradição escrita e oral, que há uns senhores (ensaístas ou biógrafos, lhes chamam) que têm por mester traçar a vida e os cometimentos dos que em esta vida pintaram ou poetaram. Dedicado a esses bons espíritos, poupando-lhes assim trabalho moroso de investigação, é que segue este resquício de texto, enviesado porque os tempos não dão para mais.
Ora foi que no passado dia 1 de Novembro dei comigo, de juntura com o Mário Cesariny, num salão de Alcântara a falar de surrealismo. A sessão foi algo picaresca. No meio de gente atenta e interessada houve (e ainda bem, ou mal) uns fulanos que não aguentaram o Artaud, os negros Nauba em livro que lhes dei a ver, os poemas do Mário e os meus próprios. No meio da conversa deram de si, o que foi curioso de contemplar. Já toda a gente sabe que no Movimento político luso (digamos assim por comodidade) há, discreta e séria, uma doce corrente meio nazi/ meio estalinista, expressa ou camuflada. Tão camuflada que por vezes nem os próprios se reconhecem. Bem certo é que o estampido das suas cabeças por dentro lhes dificulta às vezes o conhecimento intrínseco de si mesmos, mas o que não está bonito é que deixemos os vindouros sem isto lhes assinalarmos.
A palestra sucedeu no âmbito da Semana de Presença Libertária. Antes de nós tinha actuado o Grupo Mandrágora com uma peça em um acto de Jorge de Lima Alves, “Jau”, que está a preparar-se para enfrentar o público. Bons moços, os de “Jau” precisam, fundamentalmente, de dinheiro. Como não lhes sairá, seguramente, a Taluda por estes meses mais chegados, talvez outra entidade abone.
Depois de eu ter apresentado uma breve resenha dos prolegómenos dadaístas e surrealistas, Mário Cesariny “para lançar uma ponte entre todos e que permitisse intervenções e perguntas”, começou a ler umas linhas de Artaud, do seu livro “Viagem à terra dos Tarahumaras”. Foi quase a seguir que começou a bagunça (peço desculpa aos meus futuros biógrafos mas não posso utilizar outro termo menos vernáculo): um senhor de barbas, atingido pela voz do autor de “A cidade queimada” e pelos ecos de Artaud, increpou logo o ledor, perguntando-lhe com laivos que pensou irónicos se “aquilo era uma lição de antropologia”. O que ele queria, viu-se depois, era que os surrealistas dissessem ao que vinham, como os pajens de antanho. Qual era o seu presente e, eventualmente, o seu futuro. Antes de lhe responder, o que fiz seguidamente, uma senhora do sector interessado desfechou-lhe com vivacidade o que ele estava a pedir: “que aquilo não era um comício e, se não estava interessado na voz dos poetas, podia sair e arejar o ambiente”. O rapaz de barbas, que devia ser um tímido, calou-se prudentemente.
Depois de Cesariny lhe ter dito que, ao contrário dele, não acreditava no progresso ocidental, que era o que repassava a sua intervenção, pouco na história e ainda menos no futuro da literatura, afirmei-lhe por minha vez que me parecia que Artaud, pondo de parte o interesse evidente do seu relato, todo percorrido por uma aragem de paixão e imaginação, não estava morto. “Neófito, não há morte”, como dizia o Fernando Pessoa. Além disso, era de nos interrogarmos se não estariam mais mortos os laboriosos mentores da cultura cristã inventora da corrida em frente (para o abismo). Quanto ao surrealismo, vai indo bem e de saúde: a poesia sob todas as formas é o que lhe interessa, os totalitarismos o que não lhe quadra. Disse alguns textos do Cesariny e meus, espalhando revoada de diabos. Recompostas as coisas, tracei um panorama do que se pode entender por acção poética: prospecção do humor negro, do amor e da alta Aventura, da ligação ao não-autoritarismo, à Beleza e ao repúdio do que por detrás dela se esconde como um rinoceronte: o horrível do Belo, exemplificado entre nós por sarcófagos altifalantes como José Augusto França, Prado Coelho, universitários e outra gente de fraque. Expliquei mais ou menos em tempo porque é que aderimos à chamada Utopia dos Grandes Transparentes, porque negamos a religião clerical e o Poder, seja ele de Estado ou de sector. Foi a seguir, quando coloquei o Dada retardado Vaneigen no lugar que lhe compete (estraga-albardas mascarado de sacristão, exemplificado pela repugnante frase “a Esperança é a trela da submissão”) que alguns rapazes ficaram um pouco ourados. Após dar a minha opinião sobre o que eles pretendem destruindo a Poesia e a Arte (a arte lúcida e viva) e que é simplesmente destruir a forma mais eficaz de criatividade, dei a altura e a água ao Mário que mostrou sem margem para confusão a razão de serem os adeptos de Vaneigen iguaizinhos aos moços de Brejnev: adesão a um comportamento rígido e totalizador, sequelas sexuais não resolvidas, ódio à Vida no mais alto grau, adesão a esquemas maniqueístas. Depois de me referir ao exemplo que Bradbury equacionou no seu magnífico “Fahrenheit 451”, uma sociedade crestadora dos livros, das pinturas, mergulhada na masturbação, no comer-dormir-trabalhar e na delação, foi aí que tive oportunidade de ver saltar do canto um indivíduo espumando de fúria que, parecendo conhecer-me, achou “que tinha de acabar-se com a Arte e os artistas”. Retorqui-lhe que só havia um meio para isso – prender em campos de concentração os ditos, queimar os quadros e instaurar a polícia total do pensamento e do corpo. Pelo que me dizia respeito garantia-lhe que, mesmo numa cela, mesmo retalhado, continuaria a fazer versos, se não escritos pelo menos pensados. O indivíduo em causa, persistindo, afirmou-me que o que lhe interessava era “destruir o surrealismo”, programa aliás digo eu já no mapa de certos sujeitos como Hitler, Mussolini e Salazar. O que o indivíduo queria significar era sem dúvida “destruir a poesia” que para ele ao que percebi é apenas alibi e truque.
Censurado por alguns assistentes, com quem chegou a envolver-se em disputa física apartada por outros, a pessoa tentou continuar a conversa lá fora, não sem antes me tentar aplacar dizendo-se magoado por eu o ter comparado ao Brejnev. De facto comparei-o mal: parece-se mais com um jovem e desaparecido membro da “Jugendgroup” que vi num filme sobre a Segunda Guerra Mundial.
A sessão, ao que percebi, iria acabar mal se um interveniente não tivesse vindo pôr termo ao espectáculo (passe a ironia) falando na hora tardia.
E foi só.
Resta-me garantir aos jovens assistentes interessados que continuarei a poetar. Isto serve também para os não interessados. Agradeço também a atenção expressa pelos outros assistentes: mulheres e homens. E até sempre…

ns

NOTA
Este texto foi publicado na página cultural do semanário alentejano “A Rabeca”, órgão de informação onde na altura colaborava.



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NICOLAU SAIÃO (Portugal, 1949). Poeta e ensaísta, tradutor e artista plástico. Página ilustrada com obras de Joseph Cornell (Estados Unidos), artista convidado desta edição de ARC.

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