segunda-feira, 6 de agosto de 2018

AGULHA REVISTA DA CULTURA # 116 | Agosto de 2018



• AS ÁRVORES ESVOAÇANTES DE AUGUSTO MEYER

Uma das peças marcantes constitutivas da poética do brasileiro Augusto Meyer (1902-1970) é a perene evocação da infância, sem que isto se constitua em acento saudosista. Pelo contrário, o retorno ao passado acentua a metáfora da liberdade e da imaginação, trazendo-a para o presente como uma fonte inesgotável da existência. Tudo nele aponta para essa parecença de que o mundo nasceu de novo. Há um poema em que diz: Volúpia da roupa nova e da carne lavada. / Meu passado é leve como a luz loura. / parece que vão voar as árvores no ar / e eu sou como o balão mal seguro na mão.
Dois livros de Augusto Meyer se destacam pela presença da prosa poética: Literatura e poesia (1931) e Folhas arrancadas – este último escrito entre 1940 e 1944 e incluído no volume, hoje raríssimo, de Poesias 1922-1955, editado pela Livraria São José Editora em 1957. Em estudo dedicado aos traços da infância do poeta, Carlos Dante de Morais, alinha, precisamente na prosa poética de Literatura e poesia: ronda de gênios alados e personagens literários, impressões de estampas, pequenas histórias fantásticas, travessuras filosóficas, cenas da infância, pessoas familiares, a poesia das coisas cotidianas, e tal conjunto de faces ou truques de linguagem definem toda a poética de Augusto Meyer.
O poeta foi igualmente exímio ensaísta, gênero em que se destacam seus primorosos estudos sobre Machado de Assis. Em recolha de seus primeiros artigos para imprensa, cujo título é de imenso acerto: Os pêssegos verdes (2002), Tania Franco Carvalhal aponta que característico de sua indagação é o retorno às fontes, compreendidas como o necessário movimento de recompor a tradição, sem estabelecimento de hierarquias. E também nos lembra que os ensaios de Augusto Meyer constituem ainda valioso documento de uma época na qual a crítica era exercida em sua plenitude, como análise de textos e de questões literárias em profundidade e expressão de juízo de valor, tendo espaço garantido nos grandes jornais do país.
Falam por si só, tais características, na poesia e na crítica literária, como imperativos a justificar a presente edição. Para acompanhar Augusto Meyer convidamos a artista neozelandesa Rozi Demant (1983), situada, não sem frisar entranhável singularidade, naquela linhagem de um surrealismo pop. Lemos em nota à sua participação em The surrealism Website, de Adam McLean: Suas pinturas geralmente envolvem figuras femininas com uma notável semelhança com a própria artista. Estes são frequentemente mostrados usando lingerie e acompanhados por pássaros e vários animais. Ela cria tableaux, muitas vezes sombriamente iluminados, em que suas figuras misteriosamente interagem. Esse mundo mágico e realista é povoado de elementos idiossincráticos tirados da linguagem pictórica que ela criou. Geralmente há alguma narrativa subjacente ou aspecto programado em seus cenários. Seu trabalho é muito detalhado e preciso. Ela tem um domínio de moldagem e iluminação de formas tridimensionais, criando perspectivas e mudanças de escala confiáveis.

Finalizamos sugerindo visita à sua página web: www.rozidemant.com.

Os Editores

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• ÍNDICE

AUGUSTO MEYER | Discurso de posse na Academia Brasileira de Letras

AUGUSTO MEYER | Do leitor

AUGUSTO MEYER | Hölderlin

AUGUSTO MEYER | Jorge Luís Borges

http://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2018/08/augusto-meyer-jorge-luis-borges.html

 

AUGUSTO MEYER | José de Alencar e o romantismo autodestrutivo


FÁBIO LUCAS | Caminhos da crítica de Augusto Meyer

OTTO MARIA CARPEAUX | O crítico Augusto Meyer

http://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2018/08/otto-maria-carpeaux-o-critico-augusto.html

 

SILVIANO SANTIAGO | Reedição de Augusto Meyer lança luz peculiar sobre Machado de Assis


TANIA FRANCO CARVALHAL | Augusto Meyer, leitor de Machado de Assis

ANTONIO OLINTO | Augusto Meyer, um mestre do ensaio





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Artista convidada | Rozi Demant (Nova Zelândia, 1983)

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Agulha Revista de Cultura
Número 116 | Agosto de 2018
editor geral | FLORIANO MARTINS | floriano.agulha@gmail.com
editor assistente | MÁRCIO SIMÕES | mxsimoes@hotmail.com
logo & design | FLORIANO MARTINS
revisão de textos & difusão | FLORIANO MARTINS | MÁRCIO SIMÕES
equipe de tradução
ALLAN VIDIGAL | ECLAIR ANTONIO ALMEIDA FILHO | FEDERICO RIVERO SCARANI | MILENE MORAES
os artigos assinados não refletem necessariamente o pensamento da revista
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ANTONIO OLINTO | Augusto Meyer, um mestre do ensaio



O movimento literário brasileiro de 1922 não foi, evidentemente, provocado só pela atração da moda. Não deixou, contudo, de criar a maior adesão a um novo modo de serem as palavras utilizadas na literatura do País. Há uma corrente de significados que um escritor tem necessidade inadiável de colocar em palavras, e ele compreende, num certo momento, que os formatos até então usados se gastaram de tal maneira que a força de um comunicado não consegue mais passar através deles.
O grito de 22, partido de São Paulo, despertou o resto do país. Cada região buscou as suas raízes e com elas produziu seus versos e sua prosa. No Rio Grande do Sul apareceu logo o nome de Augusto Meyer, que fez poesia com versos assim: "Teu corpo faz sonhar com frutos bravos: bucuparis, bromélias, guabijus". Ou com este verso eminentemente gaúcho: "A cabeça do alazão é uma chama esbelta".
Seria no ensaio, porém que ele deixaria sua mensagem principal, num entendimento completo do mistério literário, capaz de produzir tanto um Cervantes como um Proust. Uma análise completa do extraordinário talento de Meyer como ensaísta está no volume que Alberto da Costa e Silva selecionou e prefaciou, chamado "Ensaios escolhidos".
Como estamos no ano do centenário de morte de Machado de Assis, vale a pena lembrar que Augusto Meyer foi um dos grandes machadianos da Academia Brasileira de Letras. Seu ensaio "O enterro de Machado de Assis", que Alberto da Costa e Silva inclui em Ensaios escolhidos, fornece bons trechos sobre Machado de Assis que poderão ser usados nos muitos discursos e nas conferências programadas para este ano.
Boa ideia foi a lembrança do discurso de Alcindo Guanabara, pronunciado na Câmara dos Deputados. Dizia o orador: "Ninguém como ele", dizia o orador, "afirmou na obra literária a sua individualidade e a nossa nacionalidade. Antes dele, contemporaneamente com ele, Gonçalves Dias e José de Alencar falavam do Brasil, mas do Brasil que nós não conhecemos, de um Brasil pré-histórico, do Brasil dos selvagens romantizados e poetizados, que é, para nós outros, quase um Brasil de ficção.
Machado de Assis disse de sua gente, de seu tempo e de seu meio. O seu campo de atividade foi a sociedade em que vivemos. Não tinha imaginação ou não se servia dela; falava como filósofo, como anotador, como crítico. Ele era calmo, um retraído, um tímido, e, não obstante, foi considerável e intensa a sua influência sobre as classes cultas da sociedade... Tinha um estilo seu, próprio, singular, único na nossa e quiçá, em alheias línguas. Não sei se direi demais dizendo que tinha, ou que fizera, uma língua nova, que novo, ou pelo menos inconfundível era o português que tratava.
Era um irônico, de uma ironia que não era, nem se parecia, com l'esprit dos franceses nem o humour dos ingleses; uma ironia que superava a de Sterne ou de Xavier de Maistre e dir-se-ia filha da. de Anatole France, se não houvera precedido. Original e único, era um filósofo, um comentador, um crítico e um analista - analista das coisas e dos homens, das almas e dos costumes, dos indivíduos e do meio, das paixões e dos pequenos vícios. Não tinha o sarcasmo dissolvente, mas um doce e benévolo ceticismo".
Augusto Meyer reproduz ainda trecho de Olavo Bilac sobre a morte de Machado, um verdadeiro texto de poeta: "O féretro do Mestre amado foi para o cemitério arrastado numa onda de amor, oscilando sobre o vasto coração palpitante do Rio de Janeiro. À frente, as bandeiras das escolas, os pendões dos moços tremiam e arfavam como grandes asas luminosas; e o rumor que as rodas da carreta arrancavam das pedras das ruas era como o soluço da terra carioca".







Augusto Meyer volta a Machado em vários ensaios do livro de agora, chamando a atenção para este ou aquele pormenor. Acentua, por exemplo, alguns momentos de sensualidade, como os braços de uns braços, quando Conceição, magra embora, tinha "não sei que balanço no andar, como quem lhe custa levar o corpo". No caso de Maria Cora, assim a descreve: "quando ela falava, tinha um modo de umedecer os beiços, não sei se casual, mas gracioso e picante".
Os ensaios de Augusto Meyer mostram um mundo literário que é, ao mesmo tempo, nosso, e analisa uma série de assuntos da literatura universal, como o solilóquio de Hamlet, a obra de Pascal, Gobineau, Dostoievski, Garret, Fiodorov.
Ensaios escolhidos, de Augusto Meyer, é uma edição da José Olympio, com seleção e prefácio de Alberto da Costa e Silva. Capa: Interface Designers/ Sérgio Liuzzi, foto da capa do arquivo da família.


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Tribuna da Imprensa (RJ) 15/4/2008. Artista convidada | Rozi Demant (Nova Zelândia, 1983)

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Número 116 | Agosto de 2018
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TANIA FRANCO CARVALHAL | Augusto Meyer, leitor de Machado de Assis



Associar Augusto Meyer a Machado de Assis significa entender que não haveria outra perspectiva que melhor identificasse o crítico-poeta (ou o poeta-crítico) do que a de situá-lo em estreita relação com o autor a cuja análise dedicou mais interesse e constância. Do mesmo modo, não haveria para Meyer outra posição que não a de leitor, pois viveu “à sombra da estante”, dedicado à leitura e à compreensão das obras. Por isso é natural que adote, como epígrafe do livro de 47, intitulado À Sombra da Estante, o verso de Baudelaire: “Mon berceau s'adossait à la bibliothèque”, [1] deixando perceber a sugestão que ele empresta ao titulo do volume.
Foi sem dúvida Meyer um leitor sistemático e seletivo, com preferências consolidadas e raro equilíbrio entre a tradição e o novo, atento às publicações que ampliavam, cada vez mais, sua erudição e campos de conhecimento.
Além disso, o fato de ter sido um leitor exemplar e constante da obra machadiana é indicativo de sua inclinação para os grandes observadores da alma humana, como Machado, Proust, Dostoiévski e Pirandello, autores com os quais tinha afinidades, pois privilegiaram a investigação psicológica e exploraram, cada um a seu modo, o desdobramento e a dissociação da personalidade. Neles o crítico apreciava sobretudo o deslocamento do eixo da ação para o da introspecção.
Nesta dupla condição, leitor e crítico de Machado, Augusto Meyer assume a posição adequada a seu temperamento e à forma de estar no mundo que lhe agradava, a de uma vida entre livros. [2]
Carlos Drummond de Andrade, em artigo de 1970, ao homenagear o escritor falecido havia pouco apontava essa afinidade, esboçando-lhe o retrato: “Caberia num livro? Imagino-o transformado no livro de si mesmo: volume fino, alongado, de elegante encadernação, tipos escolhidos, vinhetas desenhadas por um diabinho renascentista que, aqui e ali, pusesse um toque de Bilú no contorno das figuras. Livro que fosse a síntese de uma biblioteca sem obras indigestas, cultura presente como atmosfera ou água de beber.” [3]
Por sua vez Josué Montello percebeu bem que a convivência com a obra machadiana identificava o crítico, estabelecendo a relação entre o intérprete e o interpretado. No artigo “Uma profecia de Machado de Assis”, [4] comenta que o mestre, no capítulo LXXI das Memórias Póstumas, profetizou que um senhor magro e grisalho, em 1950, se inclinaria para descobrir-lhe o senão do livro. Para Montello, Machado teria adivinhado a figura esguia de Augusto Meyer, debruçado nas páginas do romance “a esmiuçar-lhe o pensamento na volúpia da boa leitura.” Observa que a profecia machadiana está certa quando “alude à paixão dos livros, que é o traço dominante da personalidade de Augusto Meyer, e ainda quando no-lo mostra a ir e vir pelas linhas impressas”.
A continuidade das leituras da obra de Machado consagra a ideia de que um livro se desdobra no tempo e nele adquire, por força das leituras que o renovam, outros sentidos. Por isso dirá:

Impossível imaginá-lo senão em andamento no tempo, avultando ou decrescendo de importância, quase esquecido às vezes, para ressurgir mais tarde, transfigurado à imagem de outras gerações.

Essa observação crítica sobre Machado de Assis pode ser aplicada hoje com relação ao próprio Meyer. A bela metáfora da obra que atravessa o tempo, revivida a cada passo pela ação da leitura que lhe injeta novo alento e interpretações, serve igualmente para o escritor gaúcho. Retomar sua obra, lê-la nas diversas formas em que se expressou - poesia, relatos de memória, crônicas, ensaios críticos - é perceber que ela se organiza graças a uma lei de reflexos que garante a unidade deste universo literário. Tomá-la em uma de suas facetas é ainda aludir às demais, associadas todas por um singular traço de estilo caracterizado pela elegância e naturalidade da expressão. Do mesmo modo, reler seus estudos sobre Machado de Assis significa perceber como seu pensamento, sem perder a segurança das primeiras intuições, se vai enriquecendo nos modos de ler e nas indagações diversas a que submete o objeto de análise.
Vê-se, então, por que a obra de Machado seria para Meyer um desafio de vida inteira. Como leitor ele julgava que “Os anos vão passando e Machado de Assis cresce cada vez mais. Avulta e abre em derredor um vazio de solidão como certas árvores gigantescas da selva que, fundidas de perto na mesma profusão de troncos e folhagem, contempladas a grande distancia, esgalham lá no alto e dominam o recorte das grimpas mais sobranceiras.”
Com essa imagem, Augusto Meyer inicia o artigo “Trecho de um posfácio”, escrito em 1958, que pensava juntar à tradução de E. Percy Ellis intitulada Posthumous Reminiscenses of Bras Cubas, prevista para publicação pelo Instituto Nacional do Livro em 1955. Por isso ressalta ali que a obra machadiana “representa um momento único na história da literatura americana”, procurando vê-lo em contexto maior que o da literatura nacional. Antecipa, portanto, o que reconhecerá Carlos Fuentes em Valiente Mundo Nuevo ao dizer que a “Indo-Afro-Iberoamérica tiene un solo gran novelista decimonónico: el brasileño Machado de Assis”. No mesmo texto observa que “Las Memorias póstumas de Blas Cubas es la más grande novela iberoamericana del siglo pasado, y sus enseñanzas libérrimas sólo serán entendidas, en el continente hispanoparlante, hasta bien entrado el siglo XX.” [5]
Para Meyer “Machado de Assis continua a ser o 'único' na história da literatura brasileira”, dada a singularidade de uma obra que não cabe nas classificações rotineiras. Mestre da síntese, Machado recusou os caminhos batidos e também soube desprezar o imediato, ao compreender, como diz o crítico, “que a arte não é só uma longa paciência, é uma escola admirável de verdade e probidade, um rude imperativo de renúncia.”
As passagens aqui transcritas são reveladoras da admiração de Augusto Meyer pela obra machadiana e dos motivos por que ele converteu o autor em objeto constante de sua indagação crítica. Neste sentido, não seria por acaso que inaugura sua produção ensaística com o Machado de Assis, de 1935, [6] nem que em todos os seus livros posteriores, - à exceção de Prosa dos Pagos, [7] cujo tema é a literatura gaúcha, - haja estudos sobre o criador de Brás Cubas. Tantos foram os textos de exegese dessa obra que os reuniu no livro Machado de Assis. 1935-1958. [8] Os vários estudos ali inseridos são de épocas diversas, indicativo da forma como se organizavam seus livros, ou seja, como reunião de ensaios antes publicados na imprensa. Por isso eles são descontínuos, traduzem a inquietação crítica de determinados momentos, não adotando uma orientação exclusiva de análise. Cada capítulo é um todo estruturado, independente de outro, não havendo unidade formal na composição do volume. No entanto, preservam a coerência resultante do encadeamento reflexivo e da adesão a certas ideias centrais que retornam em várias situações.
Como observou Antonio Candido ao comentar o livro Preto & Branco na época de seu lançamento, em 1956, não seria “no vulto das obras que devemos buscar a unidade e amplitude de seu espírito, mas na atitude geral, na matriz de sensibilidade e pensamento que informa os ensaios.” E acrescenta: “Há nele uma corrente sólida e brilhante de pensamento crítico, da qual os estudos realizados emergem como pontas extremas, afloramentos, cuja reunião evidencia a envergadura profunda. Por isso, ainda que não escreva um livro volumoso, Augusto Meyer é, e ficará, em nossa história literária, um dos mais altos críticos, um dos espíritos mais penetrantes e fecundos.” [9]
Concluindo ao dizer que “para completar e garantir a unidade, vem o estilo, graças ao qual tudo isso vive e se torna bem comum. Não sei de quem escreva, no Brasil, com mais elegância e, ao mesmo tempo, naturalidade, obtendo uma expressão logicamente adequada, sem deixar de ser poética e imaginosa, tanto na seleção dos adjetivos quanto na elaboração dos conceitos ou das imagens, discretamente inseridas.”
Vinte e três anos de fidelidade ao estudo da obra machadiana estão representados no volume de 58. De acordo com a indicação que titula cada bloco, o primeiro corresponde ao ensaio de 35, que, juntamente com o de Lucia Miguel Pereira, em 1936, significa uma verdadeira cisão na crítica machadiana. Abandonando o Machado oficial, e sob a ótica do “homem subterrâneo” de Dostoiévsky, Meyer procura desvelar o que para ele se oculta na trama da obra. Além disso, ao aproximá-lo de um grande autor da literatura ocidental, situa Machado em outra dimensão que não apenas a da literatura brasileira. Esta seria uma preocupação constante, manifestada igualmente no confronto com Sterne, Xavier de Maistre, Lawrence e Swift, nos estudos de 22 e que estaria, certamente, relacionada com a posição “única” que lhe atribuía no contexto nacional. Como dirá mais tarde: “Se não possui a frescura alencarina, por exemplo, o dom generoso da fantasia arejada e plástica, soube suprir a falta com o método mais rigoroso de composição; transformou uma prosa de aparência modesta e remediada num riquíssimo instrumento de sugestões e modulações.” [10]
Segue-se o estudo de 1947, sob a inspiração da crítica de Alcides Maya. O terceiro e último conjunto, globalmente designado de “Presença de Machado de Assis. 1938-1958” compreende estudos incluídos em A Sombra da Estante (1947) , mas produzidos bem antes. Integra ainda outros publicados em Preto & Branco (1956) e alguns de 1958, como as partes de um alentado ensaio que, com o título “De Machadinho a Brás Cubas”, apareceu na Revista do Livro do Instituto Nacional do Livro, em 11 de setembro de 1958, edição especial comemorativa do cinquentenário da morte de Machado de Assis. No livro da São José, esse texto está desdobrado em três, intitulados respectivamente de “Uma cara estranha”, “Presença de Brás Cubas” e “Trecho de um posfácio”.
Nesta perspectiva de resgate dos textos, ressalte-se que seus primeiros estudos críticos, publicados em O Exemplo – Jornal do Povo, de Porto Alegre, em 1922, sob o pseudônimo de Guido Leal, se ocupam com “As idéias de Brás Cubas”. [11]
Três anos depois, ao iniciar a militância crítica no jornal Diário de Notícias, de Porto Alegre, o fará com dois artigos sobre “Machado de Assis e a alma contemporânea”. [12]
Finalmente, os últimos ensaios sobre Machado, em sua maioria reunidos em A Forma Secreta, [13] com os títulos de “Silvio e Silvia”, “Pratiloman”, e “A casa de Rubião”, iniciam a parte do livro denominada de “O Aprendiz Grisalho”.
Assim, do despertar da vocação crítica, nos anos 20, à plena maturidade dos anos sessenta, Meyer foi um fiel leitor de Machado. O percurso crítico indicado nas datas do livro de 58 pode, portanto, ser ampliado para sua conta real: de 1922 (o primeiro texto sobre Machado publicado) a 1965 (ano da edição de A Forma Secreta) são 43 anos de leituras continuadas da obra do autor de Brás Cubas.
Essa constância é que nos permite hoje acompanhar o percurso crítico do autor na evolução de seus estudos machadianos. Neles o crítico se identifica. Neles, ele se confronta consigo mesmo. É o que interessa aqui examinar.

I. OS ESTUDOS DA FASE INICIAL (1922 A 1935) [14] | No texto “Um desconhecido”, que encerra o volume Machado de Assis.1935-1958, publicado pela Livraria São José, Meyer busca seu interlocutor preferido em uma biblioteca, no “silêncio do gabinete”. “Pois', como define, valendo-se de outra bela metáfora, 'uma biblioteca é antes de tudo solidão e silêncio, o silêncio das vozes desencontradas e a solidão dos grandes ajuntamentos.” [15]
Ali, uma vez mais, Machado revive diante do seu exemplar leitor para dizer-lhe, num fio de voz:

Ouça, menino, cada alma é mais do que um mundo à parte em cada peito, é um enigma para si própria…

Curiosamente, no último texto do livro de 58 se recompõe a situação inaugural do processo de deslinde a que Meyer submeteu permanentemente a obra de Machado de Assis, fazendo-nos voltar ao ensaio de 35 e aos primeiros estudos. Já aí o encontramos no pleno exercício da crítica como leitura, considerada como decifração da obra, sempre metaforicamente designada como enigma. Ressaltei esse aspecto ao examinar um dos livros mais notáveis de Meyer, A Chave e a Máscara (1964), [16] no qual, desde o título, a associação consciente das duas palavras deixa transparecer ao mesmo tempo um conceito de crítica – chave – numa função desveladora, e um conceito de obra literária - máscara, em seu caráter ambígüo e encobridor. Nesta perspectiva, é fácil entender a atração do crítico pela obra machadiana, pois este cultivou, como poucos, “a arte da dubiedade e a falsa transparência da máscara.” [17]
Portanto, como anota no texto de 35, “em Machado, a aparência de movimento, a pirueta e o malabarismo são disfarces que mal conseguem dissimular uma profunda gravidade - deveria dizer: uma terrível estabilidade.” [18]
Toma, então, o traçado das personagens para identificar o autor. Flora, segundo ele, aludiria a Machado na medida em que “hesita entre Pedro e Paulo como o pensamento do autor, entre uma escolha e outra que a suprime”. Todo o pensamento de Machado “se corporifica nessa figura de mulher, chave de sua obra perversa e perfeita.” [19] Da mesma forma, considera Brás Cubas um pretexto e, no romance, o “senão do livro é o senão de si mesmo”. [20]
O interesse desse ensaio, ainda hoje, reside pelo menos em dois aspectos: primeiro, o de sua repercussão no conjunto da crítica machadiana, nela introduzindo a orientação psicológica na análise, o que inaugura uma nova maneira de interpretá-lo e, depois, sua importância na evolução do pensamento crítico de Meyer. O pioneirismo do ensaio se expressa na boa aceitação que ganha na época de sua publicação. Sobre isso leia-se Lúcia Miguel Pereira na 3ª edição de seu Machado de Assis, em 1944, ao confrontar o estudo de Meyer com os de Alcides Maya (1912) e Alfredo Pujol (1917) e em seus ecos posteriores e veja-se Afranio Coutinho em Machado de Assis na Literatura Brasileira (1960) onde ressalta o caráter inovador desse trabalho.
Cumpre acentuar que a intenção de desvelamento que move o crítico não elimina a admiração e já estão aí, nesses primeiros estudos, fixados alguns conceitos que o crítico deverá retomar em textos posteriores: a dificuldade de classificar os romances machadianos no âmbito da ficção, a tendência a visualizar o autor sob as personagens e sob a figura de um narrador que dita as regras do texto, a intenção de traçar o seu perfil psicológico, reconhecendo o pessimismo e o niilismo de uma personalidade complexa e contraditória. Além disso, reitera a valorização do estilo machadiano, que adotou um processo particular de sempre subtrair palavras em busca da síntese, como se dissesse “uma de menos, uma de menos”. [21]

II. A OBRA MACHADIANA, UMA “VIRTUALIDADE EM ANDAMENTO” | Ao reler Machado de Assis ao longo dos anos, Meyer redimensiona suas posições críticas, adotando outras modalidades de leitura. Os caminhos serão sempre os sugeridos pela própria obra, em perfeita empatia entre analista e objeto analisado. Deste modo, há uma contínua retomada dos textos que acrescenta a cada passo outros elementos interpretativos. Cada releitura é uma redescoberta. Por isso dirá que”...ele ganha muito em ser lido aos trechos, ou a largos intervalos de leitura”.
Na primeira versão do estudo “Machado de Assis, 1947”, que abre o segundo bloco do volume, o título era bastante elucidativo com relação a seu conteúdo: “Sugestões de um texto” aludia diretamente ao estímulo crítico provocado pelo estudo de Alcides Maya sobre o “humour”. No volume, Meyer guarda apenas a indicação da data de sua publicação. Nesse ensaio, procura examinar como a crítica constrói a imagem oficial do escritor, comentando que sua sobrevivência depende “do compromisso entre o medalhonismo e a singularidade, é um equilíbrio instável que oscila entre o ser e o deixar de ser e constantemente se desfaz para refazer-se.” O trabalho da crítica, portanto, incide justamente no processo de modificação, de deformação, de renovação do sentido da obra “porque mudou o ângulo de interesse e são outros os motivos nela contidos que fixam de preferência a atenção dos novos intérpretes.” [22]
Outro aspecto chama sua atenção: as questões ligadas à criação literária. Nesse contexto acentua a importância do processo de dissociação literária, pois o escritor “quando escreve, deixa as virtudes quotidianas no tinteiro. No ato de escrever, ele já não é o homem, produto moral e social de todos os dias, mas uma libertação e às vezes uma superação de si mesmo. Em parte', dirá, 'uma errata de si mesmo”. [23]
Os textos seguintes, “Da sensualidade” e “Capitu”, foram igualmente publicados no livro de 47. Ambos são reflexões inspiradas em Lúcia Miguel Pereira a quem o primeiro deles é dedicado. Em setembro de 1935, por ocasião da publicação do ensaio de Meyer, a crítica escrevera: “A exceção de dois pontos que creio primordiais para o entendimento do maior escritor brasileiro - a sensualidade e a timidez - todos os seus aspectos foram abordados, com grande compreensão, pelo crítico rio-grandense”. [24] Esse comentário deu origem certamente ao estudo sobre a sensualidade.
Os demais trabalhos do último bloco são os incluídos em Preto & Branco (1956). Eles tomam, em seu conjunto, uma feição quase ficcional. Em textos como “Os galos vão cantar”, “O enterro de Machado de Assis” e “Um desconhecido”, Meyer procura recriar a figura do escritor e, diante de sua morte física, pensar como se dará sua permanência no gosto e na imaginação dos leitores. São textos como esses que justificam o parecer de Otto Maria Carpeaux que reconhecia a força criadora da crítica meyeriana, capaz, como observa, de “criar o seu objeto”. [25]
Nesses textos, irá também consolidar sua concepção de leitor, cuja função ganha cada vez mais importância. Desaparecido o escritor, a crítica assume um papel fundamental no processo literário, pois lhe cabe assegurar a sobrevivência das obras. Dirá, então, que “Quando os olhos são ricos, até os livros medíocres podem reviver, transfigurados”. É em Machado que Meyer encontra essa sugestão, pois o autor de Dom Casmurro tinha consciência desse fato ao dizer que “Nada se emenda bem nos livros confusos, mas tudo se pode meter nos livros omissos.” [26]
Diante disso, a “vaguidade” da obra machadiana é um dos seus grandes atributos, por solicitar a cada momento a colaboração direta do intérprete e o envolvimento dos leitores. Daí o seu “enigmatismo” ser “voluntário”.
Como se percebe, Meyer completa um círculo nos textos reunidos em 58: retoma, sob outro prisma, a questão inicial da obra como enigma e reitera a relação entre ela e o leitor.

III MACHADO EM VARIANTES | Publicado o volume de 58, não se esgota o interesse do crítico sobre a obra machadiana. Em seus dois últimos livros, A Chave e a Máscara (1964) e A Forma Secreta (1965) ainda são incluídos estudos, que poderiam integrar outro volume semelhante. No entanto, interessa ressaltar que o crítico se modifica. Sem descartar integralmente a orientação psicológica - é ainda o autor o “sistema vivo” segundo o qual a obra se ordena - a metodologia crítica incorpora um suporte teórico mais atual. Ao centrar-se na obra, chega ao autor desprezando as interpretações biográficas, mesmo que lhes reconheça certa utilidade secundária. Assim, observa: “Por mais oportuna que seja esta reação da neocrítica contra o exagero das interpretações biográficas, não devemos concluir daí pelo divórcio completo entre as duas formas de vivência; sem uma correlação de fundo, que sentido atribuíra tantos vestígios inegáveis de uma conexão íntima, da qual só restam, aliás, em nossa visão crítica, os destroços mais vagos - paralelismos, convergências, semelhanças oblíquas, deformações de imagens pelo meio refletor...” [27]
Meyer apontara, ao final do volume de 58, para a relevância das edições críticas das Obras Completas, com uma séria revisão bibliográfica e crítica, que vinha sendo levada a bom termo pela Comissão Machado de Assis [28] e alertava para “a falta de uma sadia consciência metodológica em nossos arraiais literários, como vem observando Afrânio Coutinho”. Volta-se, então, para os aspectos formais do texto, ocupa-se com variantes e atenta para questões de linguagem, sob o influxo dos estilístas Leo Spitzer e Dámaso Alonso. Acentua, cada vez mais, a necessidade da leitura reiterada e sob diferentes ângulos, pois, como observa,

A obra de um grande escritor possui várias camadas superpostas, muitos degraus de iniciação, e só poderá ser conquistada em profundidade pouco a pouco. [29]

Certamente orientações novas estão na base dos estudos que examinam “o romance machadiano” sob o prisma da análise tematológica, os cinco contos de Machado que se prestam para um estudo de psicologia da criação artística, as prováveis “fontes” do capítulo “O Delírio”, a casa de Rubião em uma enseada de Botafogo, as variantes do Quincas Borba. Vê-se nesse último conjunto não só a incidência de teorias várias bem como a inclinação comparatista que se pode reconhecer na maioria dos estudos de Meyer. Os textos dos últimos anos de uma vida intelectual extremamente produtiva retomam diversos tópicos já analisados a que são acrescidos novos elementos. A coletânea de dispersos que preparo, com o título de Os Pêssegos Verdes, deverá comprovar como Augusto Meyer foi, até o final, o leitor persistente e criativo de que os estudos sobre Machado de Assis serão sempre o exemplo mais perfeito e acabado.
Nesse contexto, o leitor exemplar se delineia com clareza, pois “ele é, em essência, um colaborador, um segundo autor, a completar as sugestões do texto e a encher de ressonância os brancos da página.” Como ainda comenta Meyer, “O leitor nunca inventa, nunca descobre, mas inserindo nessa descoberta a sua ressonância pessoal, consegue tocar nos limites da invenção. Neste sentido modesto, inventamos sempre o que descobrimos.”
Pode-se dizer, sem hesitação, que ele não apenas analisou Machado de Assis mas igualmente que ele o reinventou, pois sua crítica criativa toca os “limites da invenção”.

NOTAS
1. Baudelaire, Charles. “La Voix”, Pièces Diverses. In: Oeuvres Complètes de Baudelaire. Paris, Gallimard, Coll. Pléiade, 1954, p.229.
2. Evoque-se que Meyer foi Diretor da Biblioteca Pública do Estado do RS, em Porto Alegre, de 1935 a 1937 quando muda-se para o Rio de Janeiro e se torna primeiro Diretor do Instituto Nacional do Livro, que irá presidir por duas vezes, a primeira até 1956 e a segunda de 1961a 1967.
3. Andrade, Carlos Drummond de. “De Méier a Bilu”. Jornal do Brasil, 16.7.70, p.8.
4. Montello, Josué. “Uma profecia de Machado de Assis”. Rio de Janeiro. Jornal do Brasil, 23.6.60.
5. Fuentes, Carlos. Valiente Mundo Nuevo. Épica, utopía y mito en la novela hispanoamericana. México. Fondo de Cultura Económica, 1990, p.45.
6. MEYER, Augusto. Machado de Assis. Porto Alegre, Editora Globo, 1935 [In: Machado de Assis. 1935-1958. Rio de Janeiro. Livraria São José, 1958].
7. Nesta obra, Machado é ainda referência no ensaio sobre Alcides Maya, autor de Machado de Assis. Algumas notas sobre o 'humour'. Rio de Janeiro, Livraria Editora Jacinto Silva, 1912, reeditado pela Academia Brasileira de Letras em 1942.
8. Meyer, Augusto. Machado de Assis. 1935-1958. Rio de Janeiro, Livraria São José, 1958.
9. Candido, Antonio. “Literatura”. “Augusto Meyer, Preto & Branco. O Estado de São Paulo, Suplemento Literário, nº 60, 14.12.1957, p.2.
10. Meyer, A. 1958,221.
11. Os dois artigos citados foram publicados, respectivamente, em 17.9.1922 e 24.9.1922.
12. Os artigos foram publicados no referido jornal em 01.11.1925 e 12.11.1925.
13. MEYER, Augusto. A Forma Secreta. Rio de Janeiro, Lidador, 1965.
14. Procurei estudar em profundidade a crítica de Meyer, desde seu início, no livro O crítico à sombra da estante. Porto Alegre, Ed. Globo, 1976.
15. Meyer, Augusto. Machado de Assis. 1935-1958. Rio de Janeiro. Livraria São José, 1958, p.235.
16. Carvalhal, Tania. “Meyer, a Chave e as Máscaras” In: “Dez anos sem Augusto Meyer”, Caderno de Sábado, jornal Correio do Povo, 12.7.1980, p. 16.
17. Meyer, A. Machado de Assis, 1958, p.224.
18. Meyer, A. 1958, 13.
19. Meyer, A. 1958,41.
20. Meyer, A. 1958,17.
21. Meyer, A. 1958, 238.
22. Meyer, A. 1958, 119.
23. Meyer, A. 1958, 110.
24. Pereira, Lucia Miguel. Rio de Janeiro. Gazeta de Notícias. 15.9.1935.
25. Carpeaux, O.M. “o crítico Augusto Meyer”.Tribuna de Santos. 29.7.1956.
26. Meyer, A, 1958, 155.
27. Meyer, A. 1958,214.
28. Integrada por Antonio José Chediak, Antonio Houaiss, Celso Cunha e Galante de Souza que publica, em 1960, a edição crítica de Quincas Borba.
29. Meyer, A. 1958, 153.


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Artista convidada | Rozi Demant (Nova Zelândia, 1983)

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Agulha Revista de Cultura
Número 116 | Agosto de 2018
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SILVIANO SANTIAGO | Reedição de Augusto Meyer lança luz peculiar sobre Machado de Assis


O gaúcho Augusto Meyer (1902-1970) é o primeiro crítico moderno de Machado de Assis. Seus ensaios pioneiros datam de 1935 e foram reunidos em livro na província. Por ocasião dos 50 anos da morte do romancista carioca, foram reeditados pela Livraria S. José. Vieram então acompanhados de longo ensaio de 1947 e de outros, curtos, escritos entre 1938 e 1958. De há muito o velho e atualíssimo conjunto está fora do alcance das novas gerações. Há que se saudar com entusiasmo a nova reedição de Machado de Assis (1935-1958) (Augusto Meyer, José Olympio, 192 páginas), agora inspirada e prefaciada pelo acadêmico e historiador Alberto da Costa e Silva.
Observa Costa e Silva que, a partir de 1935, a imagem prevalente do escritor passa a ser a de um ser subterrâneo, demoníaco, trágico, perverso no seu ódio à vida, um monstro cerebral que esfolava com cuidado e perfeição as suas criaturas. Meyer tinha consciência de que levava o fundador da ABL a entrar em terreno pantanoso, de onde viria a retirá-lo a recente e bem intencionada crítica histórica e sociológica, que ao reconhecer méritos políticos na obra do escritor, fê-lo emergir no retrato de estúdio. Neste, sobrenada o perfil de pequeno-burguês lúcido, irônico e participante nas entrelinhas da ficção, mas novamente desembaraçado do fardo da esterilidade quase desumana. Meyer cita Graça Aranha e o subscreve: há em Machado de Assis um ódio do gênero humano que lhe é uma homenagem.
Meyer se inquietava quanto ao alcance de sua interpretação. Em nota de pé de página ao ensaio O homem subterrâneo, de 1935, alerta: Estamos familiarizados com um Machado de Assis mais sereno, amigo do equilíbrio e da moderação, cético, atento e amável, quase anatoliano. Imagem, aliás, que coincide com a do escritor. Mas talvez essa atitude seja uma simples aparência. Em outra passagem Meyer contra-ataca o jogo da aparência: Quando entram em cena os bons sentimentos, Machado cochila, boceja.
Para despertar o Machado genuíno e o retirar do cochilo e do bocejo a que o leva a cantiga de ninar aburguesada, o gaúcho se entregou em artigos curtos e incisivos ao trabalho de curetagem da imagem machadiana custodiada tanto pelas amizades com a alta sociedade carioca e o amor à meiga Carolina, quanto pelos passeios ao longo da Rua do Ouvidor e a fundação da Academia Brasileira de Letras.
A intenção do atual e legítimo leitor de Meyer deve ser a de associar à antiga curetagem o desbaste da floresta bem pensante e competente, mas ardilosamente burguesa, das interpretações politizadas de Machado, que se vendem a preço de banana no mercado da cultura chapa-branca. Fiéis na análise do fato histórico, essas leituras são, no entanto, infiéis no tocante às transgressões da letra literária.
Depois de curetagem e desbaste terem sido levados a efeito, trata-se de ressuscitar o romancista e contista, investigando as ruínas interiores do nosso homem subterrâneo. Parodiando Meyer e citando Machado, há que se levantar o escritor, levá-lo a dar as costas ao leitor carente de sentimentos humanitários e piedosos e o depositar de volta na clandestinidade literária do Segundo Reinado, onde resmungará com vivo prazer: Esta é a grande vantagem da morte, que, se não deixa a boca rir, também não deixa olhos para chorar.
Ao percorrer o rico século 19 literário, os ensaios de Meyer não titubeiam. Livram-se dos titulares dos atuais manuais de história e sociologia da literatura, para deixar em aberto a clareira saturnal em que se ergue a escrita machadiana. Anota: Como criador de ficção, falta-lhe o dom generoso de simpatia que obriga Balzac a se identificar com um estúpido caixeiro-viajante. Falta-lhe, ainda, a piedade resignada, aquela piedade que é o outro lado da ironia, tão ingênua em Dickens. Nem a simpatia generosa de Balzac nem a piedade ingênua de Dickens. Menos ainda a brutalidade de Eça de Queirós ou de Aluísio Azevedo. A paixão de Machado tem a monotonia, mas também a sedução acre de um vício, pois o espírito então se masturba com uma espécie de volúpia incestuosa.
Naquela clareira oitocentista e atualíssima, de onde já no século 20 saltarão as peças de Samuel Beckett e os romances de J. M. Coetzee (leia-se O mestre de Petersburgo), fica sempre de pé o analista voluptuoso, o monstro cerebral que dava tudo por meia hora de mergulho nas complicações e deformações psicológicas, o colecionador de truques morais, das partes vulneráveis de cada espetáculo humano. Ao analista da alma se combinam os traços do humorista transcendente. Aclara Meyer, admirador de Nietzsche: O humorismo transcendente desconhece as limitações do mundo ético, está muito além do mal e do bem, pois cortou as amarras que o prendiam à solidariedade humana. Se a tão propalada expressão solidariedade humana surgir no universo machadiano será sob a forma inusitada que toma no capítulo Que escapou a Aristóteles, nas Memórias Póstumas de Brás Cubas. Lá se lê que à comunhão dos interesses o defunto autor dá o nome de solidariedade do aborrecimento humano. Lembre-se que o Dicionário Morais (1813, segunda edição) registra: Aborrecimento s.m. Ódio, aversão, tédio que temos de alguma cousa, ou pessoa.
Se lidos nas entrelinhas, os ensaios de 1935 revelam que a interpretação prematura e arriscada dos escritos de Machado de Assis por Meyer não foi fortuita. Coincide com a descoberta de si mesmo numa época perigosa e conturbada da adolescência, em que a doença e algumas desilusões ingênuas depositaram em suas mãos o conto O espelho. Como no caso do poema Infância, de Carlos Drummond de Andrade, no qual o contacto infantil com o romance Robinson Crusoé vira uma comprida história que não acaba mais, o conto machadiano é para [Meyer] uma história comprida. Confessa ele: Suas páginas estão impregnadas da nostalgia do tempo perdido, e basta o título [do conto] para interromper a irreversibilidade, transportando-me a um momento intenso da adolescência, como a visão, o cheiro e o sabor numa evocação de Proust.
A objetividade crítica de Meyer se alicerça no mais profundo da experiência de leitor sadio e forte, saudoso da memória do corpo adolescente enfermo e a perigo. Refugia-se na visão, no cheiro e no sabor das evocações. Meyer foi leitor e escritor de Machado de Assis, assim como Proust o foi do tempo perdido. Como observa Costa e Silva: Meyer, de certo modo, copia Machado. Os ensaios de 1935 se escreveram, portanto, pela memória involuntária, que, na maturidade, se robustecia na erudição de estudioso das letras, futuro tradutor de obras magnas da crítica universal e presidente do Instituto Nacional do Livro. Meyer nos narra os tempos idos e vividos: Vencido pela neurastenia, triste como um pinto na chuva, gostava de ler a um canto da varanda, perto da janela, para repousar os olhos cansados na linda paineira do vizinho. Como disse André Gide em Os alimentos terrestres: Que a importância esteja no olhar e não na coisa vista.
E na página seguinte do ensaio volta ao tema e aclara: Aqueles dois anos de neurastenia, com as intermitências que me dava a esperança da cura, estão resumidos nesta página [de 'O espelho'] de Machado de Assis. Durante a leitura do conto, a sombra começava a apagar as palavras do texto e as flores girantes caíam da velha paineira continua Meyer, entregando-nos o final da passagem machadiana que tanto o encantava: Tinha uma sensação inexplicável. Era como um defunto andando, um sonâmbulo, um boneco.... Como Nietzsche na Gaia ciência, André Gide em Os alimentos terrestres, ou Manuel Bandeira em Libertinagem, a descoberta da literatura finca pé nas profundezas da doença e nos cuidados de si (Michel Foucault) eriçados pela convalescença. Como diz Nietzsche na sua ética inaugural: que não se busque a verdade na filosofia e, sim, a saúde e o poder da vida. Convalescentes a dois dedos da morte, a dois dedos da vida são todos catarticamente curados pela literatura e pela filosofia, vale dizer, pela vida. O espírito individual se alça sem medo, livre e altaneiro.
Alguma coisa a ver com o Machado de Assis das Memórias póstumas de Brás Cubas? Parte da resposta pode estar no ensaio Mas…
Dessa coincidência entre neurastenia e leitura vem a intuição brilhante do ensaio Sombra. Ali Meyer escreve que o principal personagem de nosso ficcionista não era o encontrado no falatório dos narradores problemáticos e contraditórios, a quem o artista genial deu vida e direito à palavra. O leitor nosso contemporâneo se sente mais inquieto e perturbado pelo silêncio de Machado de Assis sobre o homem Machado. E Meyer complementa sua intuição,
entregando-se a arriscado jogo de pingue-pongue: Como toda personalidade complexa, esse homem era uma colônia de almas contraditórias: o niilista feroz foi um funcionário público exemplar, o cético fundou a Academia de Letras, o cínico deliciava-se mentalmente na companhia da pérfida Capitu, porém amou a 'meiga' Carolina e o humorista era a consciência de todos esses contrastes, o espectador que sacode a cabeça, desenganado, sorrindo, sem esperança alguma de poder harmonizar a família desunida [das almas contraditórias].
Essa forma subterrânea e enigmática de viver distante da fala confessional de Nietzsche e de Gide e próxima, nos dias de hoje, do silêncio dos romancistas J. D. Salinger e Thomas Pynchon não tem sido esclarecida pelas biografias. Ainda não as temos de largo alcance e atuais. A labuta dos universitários brasileiros e estrangeiros tem-se limitado a análises específicas de altíssimo nível sem dúvida dos variadíssimos textos literários e ensaísticos. A tarefa interpretativa dos especialistas coincide com o destaque que se deu no século 20 às metodologias de leitura que, do formalismo russo ao new criticism anglo-saxão, da crítica sociológica ao pós-estruturalismo francês, insistem na análise e interpretação de textos. Se a leitura da obra engrandeceu o artista da palavra, tornando-o autor canônico para nos valermos da categoria de Harold Bloom no entanto, pouco se sabe da vida vivida, petrificada que ainda se encontra em lugares-comuns e silêncio.
Estudiosa da questão biográfica, Maria Helena Werneck comenta o trabalho de Lúcia Miguel-Pereira, primeira grande biógrafa de Machado: A biografia teria uma eficácia didática especial, no momento em que o imaginário do país necessitava de referências precisas para a construção de uma identidade nacional moderna. Não era o que Augusto Meyer reclamava e muitos de nós ainda reclamamos. Mãos à obra, jovens leitores de Augusto Meyer.


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Publicado em JB on-line: 14/11/2008. Artista convidada | Rozi Demant (Nova Zelândia, 1983)

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