Se o poeta é mesmo um mediador, como queria Platão, aquele que intercede
pelos deuses e faz falar em sua voz humana as palavras numinosas e divinas, que
encarna na língua dos homens aquela linguagem ancestral de onde não só promana
o verbo, mas que possibilita a própria existência da linguagem, poucos poetas
deram um testemunho tão arrebatador dessa potência da poesia do que Saint-John
Perse. E esse milagre se realiza com tanta pujança que, no seu caso, falar de
poesia como se essa fosse um correlato do sagrado chega a ser quase um truísmo.
Não só poesia e sagrado são a única e mesma coisa, como a melhor metáfora para
o poema seria a de um altar em chamas, onde se consuma o fogo dos deuses e onde
o homem se imola, sacrifica-se em sua finitude humana para, assim e somente
assim, ingressar no reino da Totalidade que lhe fundamenta em seu ser e aderir
ao devir de um tempo finalmente redimido.
Não é por
acaso que, tendo-se em mente tal natureza de criação poética e de concepção de
arte, o próprio Saint-John Perse comparará o poeta ao sacerdote: é aquele que
no mundo moderno mantém aceso o fogo da superação de todos os limites e que
força o espírito a transcender toda e qualquer contingência material. É desse
impulso vital que emana a sua poesia e nele é que se funda o ímpeto de
transgressão sobre o qual toda a verdadeira atividade poética se radica.
Transgressão porque faz das balizas que se divisam no mar os pontos flutuantes
de uma peregrinação incessante rumo ao Absoluto, e funda sobre a imagem mítica
deste mesmo mar um palco onde se desenrola o destino da humanidade rumo ao
esplendor e à transitividade, à impermanência e à grandeza épica que este mar
encerra, em oposição à derelicção, ao abandono, à amargura e ao espírito de
gravidade que aprisiona os homens no Porto, em terra firme, seres feitos
exclusivamente para a morte e cativos de sua própria miséria.
Em um
paralelismo curioso, é por meio do trabalho incansável de outro sacerdote
espiritual, que também exerce função semelhante no mundo das letras, tamanho é
o seu empenho e generosidade intelectuais, que o leitor brasileiro agora tem a
oportunidade de ter acesso direto a essa poesia. Trata-se da tradução de Amers
– Marcas Marinhas (Ateliê, São Paulo, 2004), obra fundamental,
dir-se-ia uma das grandes obras da língua francesa, que vem a lume sob a
esmerada e impecável tradução do Frei Bruno Palma, que há 30 anos se dedica ao
estudo e à tradução minuciosa deste que foi um dos maiores poetas do século XX.
Assim, a atividade de Bruno Palma como tradutor é um caso exemplar em nossa
vida intelectual. Haja vista o seu currículo invejável: sólida formação
humanista e filosófica, conhecimento das línguas clássicas, longa estadia como
pesquisador na França, onde foi aluno de ninguém menos que Julien Greimas, e,
por fim, condecorado com a alta distinção de Cavaleiro pela Ordem das Artes e
Letras do governo francês.
Por sua vez,
a trajetória de Saint-John Perse, pseudônimo de Marie-René Aléxis Saint-Leger
Leger, é das mais singulares e vale a pena ser comentada. Nascido em 1887, de
família francesa, em Pointe-à-Pitre, na ilha de Guadalupe, no arquipélago das
Antilhas, logo parte para a França. Cursa a faculdade de Direito e mais tarde,
depois de cumpridos os anos de aprendizagem na Escola de Altos Estudos
Comerciais, ingressa na carreira diplomática. Viaja pela Espanha, Inglaterra,
Alemanha. Cumpre missões na China e retorna à França, onde é nomeado para o alto
cargo de chefe de gabinete de Aristide Briand, Ministro de Relações Exteriores.
Com a ofensiva alemã e a tomada de Paris, é demitido de suas funções e tem sua
cidadania e seus bens confiscados pelo governo de Vichy, em 1940. Exila-se nos
EUA, de onde enceta uma série de novas viagens, podendo regressar ao solo
francês apenas no final da década de 50, quando dá início a um novo período de
sua vida, repleta de prêmios, condecorações, publicações e traduções de sua
obra, vindo falecer em setembro de 1975.
Esses dados
biográficos não são gratuitos, tampouco têm função ornamental em relação à sua
obra. Se pensarmos, como o fez o crítico Albert Henry, que a obra de Perse se
funda em uma poética do movimento e do devir, sua própria situação itinerante
pode nos afiançar essa hipótese, bem como corroborar a permanente insatisfação
e a profunda insubmissão que movia o poeta, presentes ao longo de seus versos e
referidas como sendo a grande virtude da poesia, como diz a famosa (e poética)
carta a Dag Hammarskjöld, consultor do tradutor sueco de Perse. Se pensarmos
que a tônica de sua poesia é a adoção de uma perspectiva cultural ecumênica, ou
seja, uma poesia que pretende dar uma configuração universal de toda a
humanidade, na qual não raras vezes somos tomados por uma riqueza vocabular,
histórica e geográfica desconcertante, poesia esta que também trata sempre de
celebrar a viagem, não só em sua dimensão literal, mas também em seu sentido
alegórico, como travessia do homem pela sua existência na Terra, os dados biográficos
e poéticos se complementam, formando juntos uma só fisionomia do homem que os
compôs.
No caso
de Amers, trata-se de obra complexa, que foi publicada em partes,
em revistas literárias, e depois reunida em volume, em 1957. Sua estrutura é
sinfônica e de difícil redução didática. Subdivide-se em quatro partes:
Invocação, Estrofe, Coro e Dedicação. Cada qual conta com uma sequência de
cantos, que vão se intercambiando, de modo que temos, se não um enredo, já que
não lhe subjaz propriamente uma estória, um itinerário, que se abre às mais
variadas interpretações e leituras. Atravessam essas quatro partes uma série de
figurações, ou seja, de personagens que representam instâncias do real,
indivíduos ou grupos humanos. São elas: Oficiais e Trabalhadores do Porto,
Mestre de Astros e de Navegação, as Trágicas, as Patrícias, a Poetisa, as
Profetisas, as Jovens e os Amantes, aos quais é dedicado o canto IX, Estreito
são os Barcos, um dos mais belos da literatura erótica ocidental moderna e
um dos poemas mais famosos de Perse. As remissões ao mundo grego e às tragédias
são evidentes e programáticas: não só Perse estabelece um paralelo entre o seu
mundo poético e a antiguidade, como usa, para a criação do espaço cênico
de Amers, elementos e uma disposição semelhante às dos grandes
teatros gregos, sendo o palco o próprio mar, onde se desenreda o fio da trama
humana tendo o céu como pano de fundo.
Por seu
turno, a pluralidade de sentidos da obra já começa pelo título. Amers,
em linguagem técnica da marinha, são marcas, balizes que se fixam no mar para
orientar a navegação. Porém, ela tem ressonâncias do verbo amar (aimers)
e do vocábulo amares, que quer dizer estar diante do mar.
Além disso há uma outra acepção: como notou a poeta Dora Ferreira da Silva em
estudo sobre o poema e como ratifica Bruno Palma, amers também
se aproxima de amères, que é amargo, e, ao dar a justa dimensão
alegórica do percurso da humanidade, compara o desenrolar do nosso destino
neste mundo com a amargura das águas que nos presenteiam com sua eterna
novidade assim como nos arrojam na mais profunda solidão, finitude e
instabilidade. O mar como correlato objetivo do puro movimento, do devir
incessante, do ser unívoco e monista dos primeiros filósofos pré-socráticos,
como Unidade imanente que corresponde ao próprio universo, tal como foi dito
pelo poeta em carta a Roger Caillois, um dos maiores estudiosos de sua obra.
De fato,
para Saint-John Perse o mar não é apenas uma entidade mítica, uma metáfora
poética de alta carga semântica ou o ideal de uma vida colhida em pleno curso e
em seu frêmito vital de expansão. O mar é signo da própria existência,
corresponde àquela clareira do ser de que nos fala Martin Heidegger, e é também
o Aberto por onde se acede ao Absoluto e onde nos reconduzimos àquela nossa pátria
natural alienada: a Totalidade. Se desde o início dos tempos ela nos fôra
privada e por ela o homem erra como um eterno exilado, tal como o solitário
de Babel e Sião vive exilado da pátria Celeste, como nos diz
Camões, e por sua ausência o homem vive preso à rotina da Cidade e da terra
firme, entre as sombras do Porto, a poesia é um dos meios privilegiados pelos
quais ele pode reconquistá-la e restituí-la. Porque nela se realiza a síntese
suprema entre o instante que pulsa e o eterno, entre o movimento das imagens
que nos vêm aos olhos, as vagas que quebram e se renovam, o mar que é sempre e
sempre outro e sempre recomeçado, e aquela Imobilidade fulminante que só existe
para além da percepção e dos conceitos, sede de toda a nossa vida possível e
horizonte de toda a nossa liberdade.
Quando
diante dela, cabe a destruição do poeta pela luz que exorbita os limites
humanos. Aqui entra o mito de Xiva, que tanto atraiu Perse e que tanto marcou
sua infância e seu imaginário. Mito pelo qual sua ama indiana, desde criança,
lhe instilara a admiração, chegando a compará-lo a ele. E aqui nasce o poeta,
como pequeno deus modelador do real, sob o signo de Xiva. Deus da suprema
criação que é ao mesmo tempo a suprema destruição, destruição transfiguradora e
criação que revolve tudo dentro de si, ímpeto prometeico rumo às origens e
destruição da realidade tomada como uma das faces do sonho e da ilusão, véu de
Maia, mergulho no sono das criaturas rumo à reorganização da ordem divina. É o
poeta tomado pela hybris, emulando o Criador, querendo ser também
ele um deus que cria o mundo pela intercessão da palavra poética. Mas também é
o poeta em seu mea culpa, em um dos
seus últimos livros, chamando-se a si mesmo de “macaco de Deus”. Não adianta a
atitude simiesca, a imitação da música, a aspiração à divindade: tudo no mundo
sublunar é causa segunda e derivação do primeiro sopro de Deus. Não adianta a
atitude megalômana: somos todos ainda mais criados de Deus do que seus
criadores. Poesia como meio e fim, essência e origem, sacerdócio e cuidado,
contra o niilismo e o materialismo do mundo moderno e contra a vileza de
valores de uma sociedade devastada.
Poesia como
ciência do ser, porque toda a poesia é uma ontologia, diria Perse em um texto
crítico. É um mergulho nas zonas indevassáveis do real e um parti pris do
silêncio que institui a própria possibilidade da Palavra. Poesia da liberdade,
da liberdade em seu estado puro e de pura latência, liberdade fundadora e
original, não como algo perdido no tempo e em uma ancestralidade remota, mas
como uma força que irrompe e se projeta no presente, e se oferece como o
fundamento mesmo da própria possibilidade de nossas vidas e de nossos atos.
Assim é o mar de Perse: instância projetiva do real, realidade fulgurante e
ígnea, sempre apontando para a transcendência de si mesmo e do mundo pobre dos
fenômenos visíveis e tangíveis. Para lembrar o discurso que o poeta pronunciou
em Florença, em 1965, no sétimo centenário de nascimento de Dante, a poesia
partilha de um tempo que não é nem histórico nem eterno: é um constante agora.
E nesse sentido, Perse, ao falar do grande poeta florentino, falava sim de si
mesmo. Dele que ergueu sua voz e fê-la alçar-se à dimensão daquela era plena da
linguagem, de que nos fala o poeta, domínio próprio da poesia e sua morada,
onde a palavra de Saint-John Perse, a sua precária palavra de homem,
transfigurou-se, se susteve e agora permanece e há de se manter, como a de
Dante, incólume e inaugural, sobre a lâmina do abismo dos séculos que se
sucederão indefinidamente.
***
Rodrigo Petronio. Poeta e ensaísta. Autor
de Transversal do Tempo (ensaios) e História Natural (poesia),
entre outros. Prepara novo livro de poemas que será publicado em breve pela
Editora Girafa. Contato: pseudopetronio@directnet.com.br. Agulha Revista de Cultura # 40. Agosto de 2004.
Nenhum comentário:
Postar um comentário