quarta-feira, 6 de maio de 2020

JAYRO SCHMIDT | Péricles Prade, um livro que fala


I

Quem conhece a obra de Péricles Prade sabe que ele se renova com o oculto nos termos da hermenêutica na rubrica semiologia, cujos preceitos são de interpretação de signos em seus aspectos simbólicos.
Quem não conhece terá que “suspender a incredulidade” como pensava Coleridge. Um bom começo é, para tanto, se oferecer sem reservas ao Sobre o livro mudo, 2014, no qual o hermético se diferencia de livros anteriores por ter sido, exclusivamente, de ícones descritivos das operações pelas quais se dá a Alquimia, provavelmente obra de Jacob Sulat, o didático, porém enigmático Mutus Liber, publicado em 1677.
O Liber, Livro, explica Péricles Prade em nota introdutória, é composto por quinze gravuras que têm como objetivo o ensino de “como, no laboratório e dentro do atanor (forno microcósmico e aquecedor do ovo filosófico), na prática se opera a matéria-prima (ouro potável), visando à realização da oculta Pedra Filosofal (Grande Obra)”.
O livro de Jacob Sulat, portanto, é Mutus, Mudo, embora as imagens por si mesmas falem na semiótica que potencializa alguma narrativa. Isso pode ser verificado nas sequências desenhadas à maneira das histórias em quadrinhos, o que significa dizer que no ato de serem vistas, na realidade são lidas por meio das figuras que representam o que fazem. Imagens de gestos, que falam por assim dizer, e na forma frontal que equivale à leitura oral de um texto.
As imagens, de um modo geral, são facilmente assimiladas, não a relação entre elas, ou seja, o que exprimem. Apesar de não haver nenhuma dificuldade de reconhecer as de Mutus Liber nos aspectos de superfície, a esfera a que se referem exige conhecimento, ainda que mínimo, do alquímico. Suponho que Jacob Sulat dispensou as palavras por saber que seu livro estava destinado a um pequeno círculo de pessoas, portanto, de iniciados. O mesmo ocorre nos poemas do livro de Péricles Prade. As palavras que emprega são conhecidas, não suas reverberações esotéricas. Impasse? De maneira alguma. O poeta foi receptivo ao que viu nas imagens, coisa que o leitor deve fazer com os poemas para ter noções das propriedades da poesia subentendidas nas palavras.

O DITO DO LIVRO
Estas poucas referências expositivas de Mutus Liber foram a matéria-prima do livro de Péricles Prade. Seu alvo, no entanto, foi poético no sentido de que a poesia para ele é alquimia do verbo, o que lembra, imediatamente, Rimbaud, e não somente ele, pois a época em que viveu estava sob o signo da simbolização, e em oposição ao determinismo e seus artifícios de que os poetas se resguardavam com o cifrado de iniciações, que pretendeu afastar o vulgo, e o afastou com a poesia que é condensação e transmutação.
Péricles Prade, ainda na nota introdutória, adverte que seu livro é receptáculo de estudos esotéricos, mas não é “um típico breviário didático – de caráter doutrinador – em torno da Alquimia, transformando em escritura as lições contidas naquelas imagens”. Então, escritura de rastros, cujo efeito poemático está acompanhado, em Sobre o Livro Mudo, pelas estampas de Jacob Sulat, tendo, no sobrenome, o anagrama Salut, soneto de Mallarmé, o supremo alquimista da poesia.
O contraponto de iconografia e poema, em consequência, guia o leitor para onde o poeta foi guiado com a livre associação de imagem figurada e palavra configurada, portanto do interpretante no fluxo de consciência, compondo, em cada poema, o espelho dos processos alquímicos no espelho alquímico de uma poética, que, por sua vez, faz transparecer toda uma cultura do invisível que dignifica os segredos da recepção.

TRANSFUSÕES
Ao longo de Sobre o Livro Mudo, que nesse caso pode ser lido com a bibliomancia – que consiste em abrir o livro em qualquer parte – as transfusões da iconografia à escritura em primeiro lugar indicam que as gravuras não ilustram os poemas, e muito menos estes a elas. Em segundo lugar, e por resultado do primeiro, gravuras e poemas têm acentuado grau de parentesco em função da atividade interpretativa do poeta, que, de analogias, leva a algo que delas está além: ao relacional por conjunção que articula a disjunção, fazendo da matriz a geratriz poética de outro livro. Na rubrica geometria, a geração é uma curva que se move e origina uma superfície. Ao se pensar essa curva efetuada de um livro para outro, os poemas que o compõem são desvios no mesmo sentido da loxodromia, a curva que uma embarcação à vela faz de seu lugar de partida até o lugar de chegada.
A comparação pode ser engenhosa, mas o que importa é que tanto no velame, como na velatura do poema, há o ponto velífero que reúne forças que fazem da embarcação o que se transfere de um ponto para outro, assim como, em cada verso, a mente transportou o poeta da recepção à emissão do poema, que vai fazer o mesmo com o leitor dependendo de sua sensibilidade.
Esta é, enfim, a semiótica imanente da arte relacional, que se distancia da disputa de estéticas em favor de contatos entre aquele que faz e aquele que desfruta o feito. Um cuidado de si no cuidado do outro.

VERSO E REVERSO
Das imagens que falam, propícias são as que se velam nas dobras de si mesmas. Ou nos lábios de quem vai dizê-las. Para tanto, há toda uma preparação de dispositivos que filtram quem escreve no escrito.
O que diz a epígrafe de Sobre o Livro Mudo apresenta estas dobras, como também a respectiva nota na parte final. Na epígrafe o pêndulo de Zohar na obsecração, revelo ou não revelo, e na nota o propósito do poeta: construir a obra com palavras.
O termo exotérico, portanto, é construção com o apelo ao esotérico ilustrado por Péricles Prade com Jorge Luis Borges:

É distinta a Grande Obra a que almejo e procuro: a construída com as palavras. Afinal, como orou Jorge Luis Borges, cada palavra é uma obra poética.

Na sexta, das sete célebres noites de Borges, simplesmente disse ele que a Cabala é “uma espécie de metáfora do pensamento”. Bem, tudo era metáfora para Borges, o universo a grande metáfora. E o livro deveria contê-lo com o pressuposto de que tudo sucede pela primeira vez: quem vê ou lê um livro reinventa-o.
 Não é necessário enfatizar que Péricles Prade foi fiel ao preceito de Borges, o livro-espelho “que sempre nos revela outra face”. As faces que Péricles Prade viu no Mutus Liber têm o reflexo do âmago do símbolo, a ponto de se poder atribuir a ele a magia da cifra: Borges não sabia se foi “uma palavra ou alguém”. Na sorte polissêmica dessa bisagra, o alguém da palavra foi o que Péricles Prade fez falar das mudas imagens.

PEGADAS DE PÁSSAROS
Depois de ter escrito esta etapa do ensaio recebi, do autor de Sobre o Livro Mudo, uma cópia do livro que aborda Jacob Sulat, estudo admirável de José Jorge de Carvalho, no qual as imagens canônicas da Alquimia foram filtradas com as respectivas fontes que ficam sob o véu do enigma para o leigo.
O estudo, para empregar uma figura de elucidação de perfeita e detalhada ciografia, é o ingresso na simbolização alquímica, que, pela natureza de métodos e finalidades, trata do oculto. E José Jorge de Carvalho adverte que é preciso sonhar para tê-lo na aurora pessoal. Seu intuito foi, portanto, oferecer um feixe de funções da matéria pela qual a compreensão do oculto pede a “viagem onírica”, subliminar então.
A cópia do livro traz as digitais da leitura efetuada por Péricles Prade com marcações em amarelo claro, sublinhados e com anotações marginais em preto, verdadeiro glossário de ideias à maneira do grimório, a leitura gramatical que vai ser, posteriormente, selecionada e recolhida no que se metaforizou como “linguagem dos pássaros”.
Para quem vai interpretar esta dupla viagem, a do autor na matéria-prima e no repertório que obteve, em primeiro lugar fica ciente de que o oculto leva ao oculto com a escrita da imagem, desvio da argumentação ou da discursividade com o icônico como repositório específico da simbolização, que ao esconder revela, e ao revelar esconde. José Jorge de Carvalho, para essa ciência secreta, salienta a tríade da escrita da imagem: literal, alegórica e hermética. O sentido hermético, originário, é o mais significante por armazenar o espagírico e o espiritual. Química e anagogia que permeiam as imagens sequenciais de Mutus Liber.
Publicado no “ocaso da tradição alquímica”, o livro de Jacob Sulat é considerado canônico ao privilegiar a imagem da Alquimia, e não a palavra, o que reafirma a suposição que fiz antes de ter acesso ao estudo de José Jorge de Carvalho: Sulat preferiu manter o velo sobre princípios que mediam o exotérico e o esotérico para que não recaíssem nas mãos de incautos e charlatães. Velo é a imanente pele, camada indissociável daquilo que oculta numa dialética que por meio da palavra pode ser distorcida em comparação com a figura, que ao substituí-la, esclarece o segredo da imagem na imagem simbólica.
Nesse tópico, José Jorge de Carvalho aproveitou a oportunidade para rever os parabólicos radicais de palavra e figura no sentido de obter luz na obscuridade que envolve os processos alquímicos que oscilam do escrito ao desenhado, fazendo a pergunta imprescindível: “será de fato a imagem pura a melhor alternativa para uma revelação por escrito?” A resposta não é vaga, pois é baseada no criador da Alquimia:

Hermes trouxe para os egípcios a escrita porque esta seria um modo mais preciso de fixar o saber do que a imagem, isto é, teria um valor de remédio (phármakon) para a memória.

Com a prerrogativa de que Sulat falou com a imagem, isso não quer dizer que tenha deturpado a precisão alquímica, ficando as imprecisões por conta dos interpretantes que os próprios alquimistas reconheceram. Assim, praticamente não importa se é a palavra ou a figura, porém a versão dada por Derrida comentada por José Jorge de Carvalho: o remédio para a memória é também veneno, ou seja: Sulat não empregou a farmácia da memória, a escrita, e sim o que poderia evitar a contaminação, a imagem.
A mudez do Liber, assim, fala. O Mutus também é Livre no silencioso, sem o qual o Adepto não poderia dizer como dizem as figurações desde a Idade Média – por meios de gestos.

II

Prancha 1 | Durante a noite um jovem dorme e sonha. / Anjos o despertam para iniciar a Obra.

“NA ROCHA, ADORMECIDO”
A primeira imagem é frontispício do Mutus e da tarefa alquímica, com título e inscrição cursiva dita como Filosofia hermética com hieróglifos, dedicada aos filhos da arte do sol, sob os auspícios da misericórdia divina.
O desenho, com dois ramos na forma oval-vertical atados na base, mostra flores angiospérmicas, rosa fechada e rosa aberta. Uma escada central liga terra e céu, a escada de Jacob, com dois anjos anunciadores, prestes a acordar com as trombetas o possível Adepto, o jovem reclinado na rocha que terá do céu o orvalho alquímico ou por meio dela ascender e descender no recolhimento da “força das coisas superiores e inferiores” no que diz a tábua de Hermes. Na escura noite, a lua minguante figura a hora que chegou e prefigura o início da transmutação com a lua nova.
Estes sinais foram descritos numa ordem sucessiva do olhar para expor o predomínio da paridade, quadro a quadro, nas demais gravuras. Quanto ao termo hieróglifo, tem o sentido figurado, portanto símbolo do enigmista, aquele que se comunica por meio do enigmático.
Sigamos o enigmar de ambos os autores, esclarecendo que a hermenêutica dos poemas de Péricles Prade é curiosa como perspectiva anamórfica típica do maneirismo, ou seja: recusa o cientificismo empírico do início da era moderna com o antídoto de outra ciência, a oculta.
Nos três poemas de quem adormeceu na rocha, o poeta nos conduz à clareira de sua devoção. E é ele que adormeceu para distender-se no mais oculto de si, no sonho lúcido, no lucidar com o animal temido, mas recirculador, regenerador.

Silencioso, desperto
o alquimista, aquele que do escorpião
imitou igual defeito.

Do enunciado tão claro um verso cabalístico: que defeito seria este que verte a poesia? O escorpião não morde para viver, vive para morder. Animal da sombra e altivo entre o equilíbrio e a tensão como é o empreendimento alquímico – entre o molhado e o seco. Escorpião-arcano e o poeta-golem? O mimético não é defeito mesmo que seja de um defeito, mas há o risco de quem traça o poema ao se curvar sobre si mesmo para encontrar a alquimia do verbo, e o risco da emulação que daí decorre. Esses são os traçados da iniciação que o poeta aspira no conhecimento hieroglífico das cores e do sal da obra, o sal das palavras.
A cada gravura do Mutus, variações da alquimia do verbo, que é economia da linguagem. A operação poética é gota da gota como é por etapas a alquimia. Constelações, o descer e o subir a escada. Separação de luz e trevas, a ambivalência entre o imaterial e o material. O que é palpável no poema é a matéria que se dissolve para dar lugar ao desprender-se do corpo no dizer da luz que é dizer palavra. Muitas são as luzes do nascente, guardadas no poente, pois o sol vai desejar a paisagem no que poderá ser.

Luz e trevas cortadas,
o sol ausente na paisagem
nem de longe se move
no espelho da natureza
por duas flores encantada.

Potencialidade alquímica na potência precursora do poema: rosas místicas da complementaridade de Michelangelo curvado diante da partição no teto, no poema abertas e fechadas “nas mãos de Fulcanelli” adormecido na rocha do despertar.
Ao fazer o alquímico falar nos poemas, seguem os versos cabalísticos na prudência do adepto-poeta. A palavra escondeu-se “da fonética cabala”. Escondeu-se porque foi escrita na luz branca com a luz negra, oral: na sonoridade da palavra o objeto de seu nome. Era chave, o símbolo da língua submersa no som, ensino acroamático. Arca da linguagem que se encontra no que não foi dito ainda. Luz escondida do anjo saturnino, o sol da melancolia, entre ambos os sete degraus. Dotado de gênio, mesmo assim anjo-ajudante no chumbo de seus dias. Melan (negro, sombrio, triste), e chole (bile, fel, veneno) – acídia e furor, o anjo longe e perto da arte. Lição ao poeta, que se exige mais prudência na vigília para ter a graça de Daniel na luta com os anjos: “E assim / há de ser”.

Prancha 2 | O atanor foi aceso pelo casal com a exposição do ovo filosófico pelos anjos, dentro Netuno que anuncia o nascimento do Sol e da Lua.

“DIANTE DO ATANOR”
As gêmeas atividades, as idades da hóstia de ouro. Trismegisto: o ovo que está sendo feito embaixo está sendo feito em cima. Aplicações singelas dos guias, os ajudantes reverentes, cada qual na androginia de seus gestos. Cumprem as saudações ao forno, onde está a gema e o filtro. Acima, na gravura, estão os anjos gêmeos que empunham e mostram o crisol do que deve ser. Metáforas alquímicas para as metáforas do poeta. O sol benfazejo aquece Netuno, senhor das águas, ladeado por Diana e Apolo crianças, a Lua e o Sol. O mundo superior, divino, sobreposto no inferior, humano, espelhando-o, e o pé direito do anjo que ultrapassa a linha divisória entre ambos.

Embaixo Mística Irmã e Flamel, esposos
diante do forno sagrado, os joelhos
úmidos pelas preces no oratório
à margem da vela acesa.

Provavelmente esposa de Flamel, o célebre alquimista francês, a Irmã é Dama Perenelle, que na informação de José Jorge de Carvalho diz que Gilette Zigler, que biografou Flamel, não teve dúvidas de que Sulat retratou-os, conúbio sem o qual a obra alquímica não poderia ser iniciada.

Os mundos limítrofes e complementares dos sopradores, o casal, na separação de enxofre, mercúrio e sal no ovo aquecido. O poeta assiste a cena, recinto de oratório sem portas e janelas, de cortinas ao proêmio do micro ao macrocosmo.

Aqui serei o artífice
negado pelo soprador
amante apenas da matéria.

O soprador se diferencia do operador, que segundo José Jorge de Carvalho é aquele que ora ao estar espiritualmente envolvido nas transformações da matéria.
A matéria das palavras é então o vínculo do artífice na expectativa do poema, no expectante sentido. Com o material da letra, que contém os mistérios de seu mundo suplementar, a matéria verbal torna-se volátil, plana, quase a ave que se despista do que impede o voo.

Prancha 3 | Círculos concêntricos, cosmos regido por Júpiter, onde interagem princípios e naturezas.

“CÍRCULOS DE SIMÉTRICO FASCÍNIO”
A resolução inconsútil de Jacob Sulat é visionária nas polidas lentes acopladas, vidros ou véus de esferas sucessivas e concomitantes da cosmogonia mítica-hermética.

Três são os círculos
de simétrico fascínio.

Mundos que se dobram e se desdobram que Escher tentou representar, e esboçou, mas não pôde ir além por não se tratar de ilusão de ótica, e sim da quarta dimensão, que prescinde da gravidade perspectiva.
Os três círculos da gravura são planos como são planas as palavras escritas, que uma vez ditas se aproximam do imaterial pela vibração dos sons nos poemas. Digamos que é o seccionado pequeno vidro de Sulat, no qual os espelhamentos afunilam-se no círculo central regido por Netuno.
No Zohar, como explicita Gershom Scholem em A Cabala e seu simbolismo, tudo está contido no todo, princípio que perdurou em versões tardias, como na do espanhol Moisés Cordovero: “onde você está, aí estão todos os mundos”. O homem, portanto, não precisa se movimentar na ascensão.

Decifra se for capaz
o enigma desse emblema
a Júpiter devotado.

Os exegetas consideram o regimento de Júpiter destas esferas o mais enigmático, quem sabe o mais complexo. Tanto é que são divergentes as interpretações do mitológico neste estágio alquímico, o solar. Júpiter está acima das esferas, acomodado nas asas da águia, e com cabeça que lembra a Fênix.

Não sei se é águia de estanho
              ou Fênix,
a ave gigante cavalgada antes de Cristo
pelo regente pai dos deuses.

 A decifração do poeta não é menos enigmática, mantendo a alquimia dos poemas sob a vigilância do saber mutável com o não sei sobre o estanho do criador dos deuses, supostamente símbolo da juventude, pois Júpiter é Jovis, Jovem.
O poeta se justifica por ainda não ter recebido a luz, como recebeu Böehme, e resta-lhe o prazer de ver símbolos espelhados nos círculos sob os reflexos solares e lunares. E delira sem perder o prumo das imagens, pois carneiro e touro “equilibram o vidro”.
A metafísica corrigida com a mística: Netuno toca a esfera intermediária, a terra, com o tridente, símbolo dos princípios da Obra: Mercúrio, princípio volátil; Enxofre, princípio denso; e Sal, princípio fixador.
As alusões nos poemas funcionam desta maneira, montagem intertextual, o poeta solvendo e solvido em companhia de Netuno com sua corda atada à dama que repousa em sua beleza, o companheiro à vista, tranquilo no leme.

Mulher,
             mulher que sob os braços
agasalha o pavão de asas fechadas
após a captura do golfinho
coagulado para a pérola esposar.

Claudio Willer viu nestes versos as núpcias alquímicas, porém da poesia. A mulher, no hermético como esclarece José Jorge de Carvalho, sob as ordens de Netuno vai ao encalço de quem pilota a onda, a mulher-peixe, Sereia, cercando-a com a lâmpada e a rede. José Jorge de Carvalho:

Partindo do princípio de que a posse da lanterna é quase sempre um atributo masculino, chego a supor que essa mulher, cujos seios não são tão femininos quanto os de Melusina, representa de fato algum tipo de hermafrodita.

 Para sustentar o hermafroditismo da imagem, José Jorge de Carvalho cita Canseliet e a etimologia que atribuiu à sereia, palavra que vem do grego sirenê, composta por seir, sol, e enê, lua.
Quanto aos takes poemáticos, o poeta continua apreciando a metamorfia mítica, pois ainda não plantou “na agricultura celeste” e não pescou “na água filosófica”.
Outros mitos aparecem, metáforas operadoras. Édipo passeia, pés inchados, hermafrodita da lua na testa, mas não do Mutus. A mulher, na aparência a mesma que pescava, leva uma gaiola ou uma lanterna, que é a busca filosófica.

Com o esperma de Urano
            nos dentes
as pombas fiéis de Afrodite
sobre aquática Trindade sobrevoam
à sombra do ferreiro coxo.

 A mulher da lanterna pode ser Afrodite, as pombas que a identificam, e a rede que segura entre água e ar, o que confirma ter nascido do esperma de Urano. Da infidelidade conjugal de Afrodite sabe-se que o coxo ferreiro Hefesto fez uma rede, teia invisível, para apanhá-la com Ares no momento que o Sol indicou com o piscar de olhos. Nesta esfera, a da terra, está uma pastora com um jarro com sete flores, os espíritos que se ocultam na matéria-prima.

Oh espíritos ocultos de 7 cores
que a planetária pastora espreita.

Na interpretação de José Jorge de Carvalho, o Sol pisca ao leitor, o poeta espreitando no poema:

Como o do Sol
         e o da Lua
 meu olho direito só em parte vê
a desdobrada imagem no horizonte.

O olho semicerrado concentra o campo de visão, e, na imagem desta prancha, as figuras estão concentradas entre as curvas das esferas. O poema – de olhar entre a vigília e o sono – vê os pássaros que chegam indicados por Juno tendo a seu lado o pavão, a cauda pavonis, com as cores entre o fim do nigredo e o início do albedo. A cauda ocelada do pavão, diz a mitologia, tem os cem olhos de Argos, ali escondidos por Juno.

Prancha 4 | Recolhimento, do alquimista e sua irmã, / da flor celeste, o orvalho.

“SOB O ORVALHO DE MAIO”
O poema, ao se valer com perfeição do solver e coagular as palavras, tem o seu nome. Insisto nesta imagem porque o poeta místico aspira a flor de seu firmamento, que nos estágios alquímicos colhe o orvalho da noite de Áries e Touro, que estão frente a frente, cada qual num lado da paisagem, no primeiro plano o alquimista e a irmã torcendo a líquida toalha numa bacia. Acima, nos vértices da prancha, o sol e a lua vigiam a tarefa reverente. Recolhem a “flor do céu” que está no Empíreo representado pelo lençol de luz que desce até a aldeia. A gravura é singela e descreve o que deve ser feito no amanhecer com o que é obra sutil da noite na primavera.
José Jorge de Carvalho lembra que a arte da Alquimia é noturna, correlato do poético no sentido de onde provém – da hora quieta do poeta “sob a radiação do grande arquiteto”. A paisagem no poema é de Eliot e lembra Millet do Angelus.

Prancha 5 | O orvalho, no laboratório é levado ao fogo, do qual / surge enxofre e mercúrio.

“ENTREGUE AO DEUS DO SECRETO FOGO”
Na sequência dos poemas desta prancha, o poeta acompanhou a feitura do laboratório (orvalho, redoma, fogo, destilação, capitel, balão, vasilha, cal), na feitura da poesia: a depuração. Seis são as operações do casal enfeixadas em três poemas. O poeta, assim, sabe que no pouco dizer está o que tudo deve ser dito no feito alquímico das palavras.

É no laboratório
que a teoria
o seu destino encontra.

O final da elaboração do orvalho: a teoria é quatro triângulos, e a teoria da poesia o ganho do que se perde no ato de escrevê-la. O frasco essencial, tanto no alquímico como no poético, é entregue a um lunático, Vulcano, que tem dificuldade de caminhar não somente por ser manco, mas porque leva uma criança. A poesia, beneficiando-se de seu fogo, é a criança que conduz o poeta, o médium.

Prancha 6 | Continuação da prática alquímica: Apolo, o Sol, recebe o que / foi vertido da rosa de seis pétalas, simbolização da filosófica pedra.

“ACESA ROSA DE SEIS PÉTALAS”
Quarenta dias devem passar para que as operações alquímicas possam continuar com o símbolo e sua prática mágica. A cocção foi retomada com o fogo aceso e do alambique nasce a rosa de seis pétalas, oferecida ao deus Apolo.
O mesmo ocorre nos poemas, mas neles desabrocha a escritura que oscila das referências ao Mutus às transferências nas quais o poeta é o artífice do verbo. E o número retorna no poema, não por extenso, cifra mesma do que excede a descrição e situa a transmutação química na transversão do escrito. Se o poeta pergunta sobre tais números, é na pergunta que está a resposta: as 6 pétalas na revelação da preciosa pedra alquímica, na realidade do poema são 3 cores: branca, amarela e vermelha. O branco é polarizador, ou amálgama das demais cores, no caso a matéria viva da luz no amarelo, equilíbrio, e no vermelho, força.

Prancha 7 | A via úmida passa à via seca com Saturno, a nigredo, / que entrega vitríolo a Diana, a albedo.

“ALÉM DA NEGRA CABEÇA DO CORVO”
Esta prancha se reveste de particular interesse na genealogia visualizada por Sulat, que tem o caráter literal do que fazem os operadores que subentende a simbologia alquímica. Literalidade e simbolização são inseparáveis, espelham-se nas interpretações.
Como Sulat dispensou as palavras, fazendo a imagem dizer as operações alquímicas, nesta prancha a descrição teve, no canto esquerdo da base da gravura, a inserção do símbolo como explicação do processo que ali se vê. Portanto, uma nota visualizada como são as notas de textos, marginais, ao pé da página ou no final do texto.
Na inserção está Saturno, sentado numa fogueira e comendo uma criança, indício simbólico da antropofagia, a putrefação por meio do pai devorador, a obra em negro do corvo que chegará à purificação. José Jorge de Carvalho:

A ação de Saturno reflete a Noite ou a Escuridão da Dissolução, a Cabeça do Corvo (caput corvi), desse Corvo que é a Coroação da Obra, visto que sem Putrefação não pode haver Geração.

No apuro com que José Jorge de Carvalho amplia a simbologia, ele não deixou de comentar autores modernos imbuídos, direta ou indiretamente, dos poderes alquímicos do corvo que bem conhecemos em Nietzsche, Poe, Nerval, Huyssmans, Strindberg, Rimbaud, Freud, Ducasse, Stocker, Meyrink, Bataille e Yourcenar. Outros autores poderiam ser inseridos nesse rol, como, por exemplo, Artaud.
Nos três poemas desta prancha com a alegoria do devorador, o último privilegiou a nigredo geradora de Nerval e de Lautréamont, chamados de “sacerdotes solitários”. De ambos sabe-se que Nerval teve conhecimentos diretos da Alquimia, enquanto de Lautréamont pouco se sabe em todos os sentidos, a ponto de Dali fazer seu retrato imaginário que tem a feição de um mago. O mago de Cantos de Maldoror, que, com a intuição poética da agressão, redime a força da vida. O que Lautréamont poderia fazer com os náufragos? Abatê-los. O que sucedeu quando o porco nele se incorporou? Ficou feliz.

Prancha 8 | O casal na oração da espera, o fogo apagado no atanor, / o Mercúrio no ovo se realizou.

“OUTRA VEZ NO DIMINUTO TEMPLO”
O templo na parte inferior, onde está o casal alquimista em oração e reverência, acima a anunciação mercurial obtida, representada no ovo que dois anjos seguram, dentro o deus que tem na cabeça o pétaso de Hermes. Estende o caduceu com cinco serpentes em cada lado. Seu pé direito pisa o Sol de sete raios, e, acima, aparece o Sol cósmico. Águias voam em direção do ovo, cinco de cada lado, com duas que têm ramos nos bicos perto do ovo.
Os poemas são dois, cada qual unindo as duas esferas, a terrena e a celeste, que é uma pausa na paciente e longa jornada física e espiritual dos estágios que levam ao lapis, a pedra suprema. O forno está em repouso, mas a operação alquímica da inércia prepara a albedo, que é a cauda pavonis, a ocelada potência das cores.
Forno e alquimista, por outro lado, são indissociáveis assim como poeta e poema. Alquimista e poeta estão atentos ao que neles se passa e atentos ao interior do forno e do poema. A eles a intuição da paridade deverá ser o zelo e a observação do amado fruto.

Prancha 9 | A purificação prossegue com a entrega do líquido sutil, / pela operadora, ao deus Mercúrio.

“QUANDO MERCÚRIO EXIBE DEZ PEQUENAS SERPES”
Outra vez dois poemas à purificação alquímica simbolizada pelo caduceu de Mercúrio, e com uma forma peculiar. No primeiro poema o poeta se coloca no lugar do alquimista operador: deseja o maná, sendo o touro e o carneiro que se olham frente a frente. No segundo, que prossegue o primeiro, o feminino é o agente, portanto mais ativo e mais relacionado com o divino e sua matéria espiritualizada. O poeta bipartido unifica-se no poema.

Prancha 10 | O ciclo das cores se completou, conjunção: Apolo e Diana / de mãos dadas festejam o feito.

“REVELA-SE A CONJUNÇÃO INCIPIENTE”
Na primeira pessoa, quatro poemas revelam a conjunção. O número quatro sustenta o mundo e o poeta sente-se comovido por ser o espelho que reflete a sabedoria obtida. Isaac Newton, que conhecia a transmutação, concluiu que cada pedra poderia ser múltipla quatro vezes, o que equivale ao número dez pitagórico, pelo qual se alcança a rubedo. Número do pequeno Redentor na mística alquímica. Apolo e Diana comemoram a conjunção com o número dez.

Ao lado deles
é o número 10,
                 diminuto Cristo,
que em nome de Newton ou de Pitágoras
 o segredo da multiplicação revela.

No quarto poema, o poeta ouve e cala as conjunções dos nomes que fundam a poesia por conta própria. São suas cores que são ouvidas e não esquecidas no ritmo dos tons que fecundam a alquimia do verbo, a cor das vogais de Rimbaud.

Ouço o rumor do músico divino
quando o terceiro fogo,
       nela escondido,
desperta-me como se desperta
de um sonho de cores audíveis
no exercício ardente
do tríplice trabalho.

Prancha 11 | Acima o regime Solar, abaixo as janelas do laboratório abertas.

“MENINO EM PÉ DENTRO DE UM OVO”
A operação alquímica já obteve o ouro, e o menino dentro do ovo, ao pisar o sol com dez raios, exprime o splendor solis, o esplendor solar. Além do pétaso na cabeça, o deus ostenta uma espécie de máscara com dois furinhos que lembram olhos e que metaforiza a coruja de Minerva. O forno foi aceso outra vez, e o laboratório tem quatro janelas. O ovo, em forma de gota, apresentado por dois anjos, reafirma o sentido alegórico, portador de símbolos no imaginário do Mutus, porém imaginação, por assim dizer, da própria matéria alquímica.
A matéria dos poemas, ao seguir passo a passo a reanimação solar, vai de seu interior ao interior da “criança divina que brinca”. São os poemas que brincam com o equilíbrio da sublimação solar.

O Sol,
eixo de energias,
para o antigo lugar não olha, apenas à
esquerda
mira os dedinhos de Mercúrio.

Embaixo,
os compenetrados nubentes
ao labor retornam.

Prancha 12 | O casal alquímico intercambia com Mercúrio, o deus-princípio.

“PAISAGEM DESPROVIDA DE RELÂMPAGOS”
A materialidade do mercúrio aspira a flor do céu representada nos pratos, dispostos na forma perspectiva triangular. Neles o orvalho se agita como são agitadas as nuvens na esfera da lua, que, entretanto, não anunciam tormentas. As ondulações das nuvens são ebulições na exegese de José Jorge de Carvalho:

Essa insuflação astral promovida pela dama da noite nos faz penetrar na essência hermética do orvalho: um mediador, que resolve a oposição entre as águas superiores e as inferiores.

O hermético na essência é a energia plena do mês de maio, também configurada na força do touro, prestes a desprender essa energia.

Sou, hoje e sempre,
o próprio touro alquímico,
o falo sempre ereto
porque em maio nasci.

Só o carneiro
com seus passos lentos
é animal que não se agita.

A forma triangular, apontada para o alto, simboliza o fogo, que abriga o hermetismo filosófico da Alquimia.
Na paisagem sem relâmpagos, o imaterial e o material se atraem:

Espírito e corpo
corpo e espírito
em recíprocos movimentos.

Prancha 13 | A finalidade da multiplicação: os metais chegam ao ouro.

“SOLENES VIRTUDES DA MULTIPLICAÇÃO”
Os três poemas desta prancha chegaram à hóstia de ouro da poesia. O que é da multiplicação o número regeu.

Os números
fermentam.

Perdão pede o poeta: o vértice do poema que apontava para cima, agora aponta a esfera do ofício que escondeu “sob o manto da fábula da serpente”. Na brevidade dos poemas a extensão de reflexos na palma da noite, obra da noite na manhã do poeta.

Sobre o minúsculo ser
triunfa a rosa futura,
hermética flor vital
por ela parida no escuro.

Prancha 14 | A Obra realiza-se e fica em segredo. O forno / exibe, feliz, a pedra filosofal.

“LUDUS PUERORUM”
A arte de cuidar do fogo: a Alquimia. E os que cuidam, na culminação das etapas, são duas fiandeiras e um menino, que abandonou os brinquedos, bola e raquete. Os alquimistas não são mais necessários, pois a multiplicação que se deu tornou-se simples, exigindo “pouco esforço e muito resultado”.
A prancha, com estas imagens sugere: “Todo o processo da obra se chama trabalho de mulheres e brincadeira de criança”. Eles estão entre os três fornos e o casal e seus gestos. Ambos apontam o indicador da mão direita para o alto, sinal de tarefa bem-sucedida, e com dois dedos da mão esquerda sobre os lábios pedem silêncio, isto é, segredo.
Reservei a leitura dos poemas para depois de verificar o que é interpretado por José Jorge de Carvalho. Os fornos, para o poeta, representam a “Trindade humana”.

Os três artistas com perfeição
recriam o fogo
zombando de Prometeu.

A brincadeira é outra deste menino sabedor do cuidado do fogo, um fogo lúdico?

Também com as cores
hoje quero brincar: prefiro
violeta, azul, verde,
alaranjada, amarela ou mesmo
o vermelho falso.

Se as cores da alquimia feliz fossem de uma pintura, o pintor seria o de contrastes simultâneos: o verde estaria entre o violeta e o alaranjado, o azul ao lado do amarelo, e o vermelho, uma vez aplicado, ficaria púrpura. Um espectro: solarium.
Na Alquimia as cores têm funções semelhantes como obra solar na explicação de Canseliet, citado por José Jorge de Carvalho:

A Alquimia é a separação do impuro da substância mais pura. A mesma ideia de progressão constante, de melhoramento concomitante na pessoa íntima do artista, é desvelada pelo vocábulo do que os alquimistas queriam que designasse a cor e a natureza da Pedra Filosofal: o púrpura, proveniente do latim purpura, que é o vermelho subido; na alquimia do Verbo, o puro do puro, pyr pyrós, isto é, o fogo do fogo.

O “vermelho subido”: intensificado pelo rubi alquímico, subido de si com a cor inexistente, porém a rubedo.

Não sei se é espelho
o compasso abandonado
que sob o frasco recolhi.

A visão refletida e a visão interior, e os espéculos pelos quais se atinge a natureza. O Aleph de Borges, conclui José Jorge de Carvalho.
Além das palavras no frontispício do Mutus, Jacob Sulat grafou o que pode ser a epígrafe da última prancha, seu lema: Ora, lege, lege, lege, relege, labora et invenies: Reza, lê, lê, lê, relê, trabalha e encontrarás.

Prancha 15 | O Adepto transfigurado. O sonhador completou / a iniciação, reunindo-se ao imortal.

“SOB A PELE DE UM LEÃO VERDE”
O poeta conclui o sonho com a oração que solicita o despertar. O primeiro sonho sonhou o seguinte, e assim por diante. De poema ao poema, até chegar à nudez da pele de um leão.
O corpo separou-se do corpo, o neófito transformado em Adepto. Transcendido, é coroado por anjos infantis. E segura duas rosas, agora abertas. O casal, de mãos dadas, segura a corda sob a qual está o transcendido que recebe a mesma mensagem em fitas que saem de suas bocas: Oculatus abis: Enfim, abriste os olhos. Clarividência.
Com o anagrama percebido na mensagem, José Jorge de Carvalho supõe que Jacob Sulat tenha sido o autor do Mutus Liber, sendo um adepto: Oculatus abis anagramatiza seu nome, Iacobus Sulat.
Aos poemas o que é do poema: a alquimia, que se engendra de si mesma do solver ao coagular. Da letra à consoante das palavras nubentes de nomes.

Clarividente
               &
                Mudo
A Obra terminarei em forma de oração.

A estátua
             no ar
continua suspensa.


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Agulha Revista de Cultura
UMA AGULHA NO MUNDO INTEIRO
Número 150 | Fevereiro de 2020
Artista convidado: Daniel Cotrina Rowe (Peru, 1966)
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editor assistente | MÁRCIO SIMÕES | mxsimoes@hotmail.com
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