Qualquer prazer me diverte, mas nem toda tristeza me faz chorar –
Estripulias de Zuca Sardan
(2026), escrito pelo jornalista e bibliófilo João Antônio Buhrer, é uma
fascinante reportagem biográfica e literária sobre a vida e a obra de Carlos
Felipe Alves Saldanha, universalmente conhecido pelo seu principal pseudônimo:
Zuca Sardan.
O livro, publicado em esforço conjunto pelas
editoras Mama Quilla e ARC Edições, mergulha de cabeça no labiríntico e
anárquico universo de um dos segredos mais bem guardados (e mais influentes) da
poesia e do desenho contracultural brasileiro.
A obra nasceu no início de 2020 a partir de
uma troca diária e intensa de e-mails (teletros, na linguagem de Zuca
Sardan) entre o autor João Antônio Buhrer e o próprio biografado. O que deveria
ser uma pesquisa biográfica tradicional rapidamente transformou-se em uma
colagem documental e afetiva. O livro é estruturado como uma linha do tempo
fragmentada, que costura: depoimentos em primeira pessoa de Zuca Sardan; cartas
e postais inéditos com uma tipografia delirante e cheia de ruídos gráficos;
entrevistas e fortuna crítica de intelectuais e amigos próximos, além de uma
vasta reprodução de suas famosas ilustrações e cartuns satíricos.
Diplomata de profissão por décadas, Carlos
Felipe Saldanha usava os pseudônimos (como Capitão Fantasma, Cedric Ferrugem e
Kid Camarão) para libertar sua persona artística das amarras cotidianas e
familiares. O livro traça com precisão a importância histórica de Sardan:
embora tenha começado a publicar seus spholhettos (folhetos artesanais
de tiragem mínima) nos anos 1950, ele acabou acolhido nos anos 1970 como um
verdadeiro patrono da Poesia Marginal e da Geração mimeógrafo, figurando na
histórica antologia 26 Poetas Hoje (1976), de Heloisa Buarque de
Hollanda.
O trabalho de João Antonio Buhrer divide as
aventuras e estripulias de Zuca em núcleos fundamentais de sua trajetória:
1. A Conexão Rex e Wesley Duke Lee. O livro
detalha a profunda cumplicidade intelectual e o sistema de vasos
comunicantes entre Zuca Sardan e o artista visual Wesley Duke Lee. Juntos
em Paris e depois em São Paulo (com o Grupo Rex nos anos 1960), eles criaram
alter egos monstruosos e cavalheirescos baseados na filosofia da Patafísica.
2. O Humor de 2º Grau e a Patafísica. A obra
conceitua o uso do humor em Zuca Sardan não como mera piada, mas como um
processo metafísico de subversão. Ele adota o Humor de 2º Grau (o humor
involuntário ou incompreendido pela massa), inspirando-se em Alfred Jarry, nos
quadrinhos clássicos de Luiz Sá (Reco-Reco, Bolão e Azeitona) e no Barão
de Itararé.
3. A Transição para o Guinhol. A
partir dos anos 2000, o livro mostra como a produção de Zuca Sardan migrou para
o teatro de bonecos de papel (o guinhol). É nesse cenário que desfilam seus
personagens recorrentes e absurdos: o alter ego infantil Gordito Fabergé, a
maternal Ama-Seca Custódia, o Padre Jardel e o Professor Fumegas. A partir daí,
conhece o poeta Floriano Martins, com quem mergulha em uma produção incansável
do que eles passaram a chamar de teatro automático, a feitura a quatro mãos de
uma série atípica de peças teatrais, que agora estão sendo reunidas em dois
livros intitulados O iluminismo é uma baleia e A volta da baleia
Beluxa.
4. A Relação com a Escrita e a Tecnologia.
Uma das partes mais saborosas da biografia é a descrição da obsessão de Zuca
Sardan por máquinas de escrever antigas, sua guerrilha gráfica com as
lojas de xerox em Hamburgo, onde viveu por décadas, e sua posterior guerra
poética e bem-humorada com os computadores e e-mails na internet.
Para além da narrativa biográfica, o grande
valor deste livro para pesquisadores e entusiastas da literatura nacional está
em sua Bibliografia Provisória e no Pequeno Lexicon Sardânico. O volume
cataloga dezenas de publicações artesanais raras e esparsas (como Cadeira de
Bronze, Manifesto Geometrista, Poemas Zum e O Mandarim)
que antes estavam perdidas em acervos particulares ou na névoa do tempo.
Quando Zuca Sardan redigiu uma breve nota
biográfica, em certa ocasião, sem deixar de lado a linha queimante de seu
humor, improvisou o seguinte perfil:
ZUCA
SARDAN, veteraníssimo vate, nascido em 1833. Carioca, mora na Alemanha, em
Hamburgo. Esquerdista com tendências monarquistas, quebrou várias ânforas
egypcias, harpas thrácias, moringas etruscas. Arquiteto, de pai e neto,
rabiscou caretas nas pranchetas, e foi festivamente despedido dos mais
renomados escritórios do Brasil. Velho diplomata, perdeu vários documentos
seculares na sua pasta-sanfona de couro de tamanduá, inclusive o maquiavélico
tratado de Zbórnia-Zgarbuzina. Desagradou a gregos e cretenses, com suas
impróvidas graçolas. Desenhou a Primeira Missa do Brasil, e foi acusado de
plágio. Desenhou a Queda da Bastilha, e foi acusado de deixar à mostra os
peitões da República. Apronta, ultimamente, há uns setenta anos, uma série
interminável de panfletos, cordéis e guinhóis que dariam para empanturrar toda
a torre de Pizza por dentro e por fora. E uma série de livros e almanaques,
entre os quais Ás de Colete, Osso do Coração, Babylon, Ximerix,
Opra Sfola, Da Hyena e do Cão, e Eccolequá… Paralelamente
a todas essas, com seu assecla Floriano Martins, aprontam em dupla uma colossal
e interminável série de teatro-guinhol, sem qualquer limite de falta de
compostura e porcalhada para o respeitável público, intelectuais iluministas,
Academia dos Direitos Humanos, e os politicamente corretos pensadores,
inclusive os engajados na preservação das espécies animais vegetais, e fósseis
carburantes. E o vírus micropata Coroca da China?…
Acrescentou um século em sua idade, como uma
galhofa incondicional, rindo daqueles que creditam ao tempo uma condição extenuante
da existência. Mesmo tendo morrido antes de ver este livro de João Antonio
Buhrer publicado, acompanhou sua feitura até o último momento, mesmo sem
impacientar a morte quando esta folheava a agenda em busca de seu nome. Qualquer
prazer me diverte, mas nem toda tristeza me faz chorar – Estripulias de Zuca
Sardan encontrou nas mãos de sua editora, Elys Regina Zils, uma acuidade
especial na costura finíssima do texto montado por Buhrer, ao ponto dele
próprio declarar que o livro se tornou parcialmente dela. O fato é que a edição
é primorosa e apresenta esse engodo magistral entre vida e obra concebido por
Zuca Sardan, incluindo em suas páginas o traço impiedoso, a risada satânica de
suas tintas, o desenho-colagem inconfundível. O livro pode ser encontrado, de
forma gratuita e em sua versão virtual — única, até o momento, embora seja mais
do que merecida e desejada a presença de algum mecenas que aceite patrocinar
uma tiragem impressa — na página-catálogo da Mama Quilla Editora: https://www.mamaquilla.com.br/.
João Antônio Buhrer cumpre com maestria a
premissa de Hermínio Bello de Carvalho citada logo nas páginas iniciais: É
proibido engavetar conhecimento. Este não é apenas o registro da vida de um
poeta que se recusou a envelhecer de forma convencional; é um manifesto de
liberdade estética que prova que a arte, o humor e o acaso caminham juntos para
driblar a seriedade engessada do mundo.
JANUÁRIO
SACAVENTO (Antares, 1959) é cronista anfíbio, patafísico de fim de semana e
ex-aluno emérito do Lyceo Pytanga, onde obteve grau dez na nobre arte da
cola criativa. Dedicou as últimas décadas a catalogar manuais cosmográficos
invisíveis e a decifrar profecias de sineiros corcundas. Paira sobre ele a
acusação de haver contrabandeado um manuscrito inédito do Conde
Lotrak direto para os porões do Vapor Velox. Sacavento, no entanto, é
um sobrevivente de três naufrágios tipográficos
e colecionador de fitas K-7 borradas, atualmente exercendo o cargo fictício de
diretor de resenhas do Boggo del Pallone.

PATRICK LEPETIT
(França, 1953). Poeta, ensaísta, colagista e pesquisador ligado à rede acadêmica
internacional Mélusine.
Com forte atuação no Surrealismo contemporâneo, sua produção intelectual e artística
investiga as correntes subterrâneas do movimento, mapeando os pontos de contato
entre a criação estética, os mitos tradicionais, o hermetismo e as tradições esotéricas.
É autor de diversas coletâneas de poesia (como Rouge solaire e Beauté du
funambule) e de ensaios fundamentais, entre os quais Le Surréalisme. Parcours souterrain —
obra laureada pelo Institut Maçonnique de France —,
Surrealism and Operative Alchemy e
La tête d’Ogmius. Surréalisme et mythes celtiques. Na vertente
plástica, expande esse mesmo lirismo hermético para o campo das colagens e composições
oníricas, projetando imagens ocultas do horizonte de nosso tempo. É o artista convidado
da presente edição de Agulha Revista de Cultura.
Agulha Revista de Cultura
Número 266 | setembro de 2026
Artista convidado: Patrick Lepetit (França, 1953)
Editores:
Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com
Elys Regina Zils | elysre@gmail.com
ARC Edições © 2026
∞ contatos
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FLORIANO MARTINS | floriano.agulha@gmail.com
ELYS REGINA ZILS | elysre@gmail.com