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Lúcio Cardoso nasceu em Curvelo, Minas Gerais. Junto
com os romancistas Otávio de Faria e Cornélio Penna e o poeta Vinicius de Moraes,
Lúcio Cardoso é considerado expoente da literatura de cunho intimista e introspectiva
que despontou no Brasil na década de 1930. Embora sua escrita costume ser associada
à chamada literatura psicológica, iniciou sua carreira com dois romances de cunho
sociológico, Maleita (1934) e Salgueiro (1935), com marcada mudança
de rumo em Luz no Subsolo (1936). Sua literatura, a partir de então, prioriza
o questionamento da condição humana e de valores como o bem e o mal, como nos romances
Mãos Vazias, Inácio, Dias Perdidos e nas novelas O Enfeitiçado
e Baltazar, dentre outras da década de 1940. Sua obra inaugura na literatura
brasileira um mergulho no cerne do indivíduo moderno, em que os dramas, as dúvidas
e os questionamentos existenciais se sobrepujam à descrição naturalista ou à crítica
social. Sua obra-prima Crônica da Casa Assassinada (1959) é um dos livros
mais cultuados da literatura brasileira, tendo sido traduzido para o francês, italiano e inglês. A literatura de Cardoso
teria imenso impacto sobre a obra de Clarice Lispector, de quem foi amigo e mentor,
e a qual lhe dedicou uma ligação amorosa explicitada em sua correspondência. Ao
longo das décadas de 1940 e 1950, Cardoso manteve colaboração ativa com a imprensa,
escrevendo no jornal A Noite, entre outros. Essa época marcou também sua
atuação mais intensa como autor teatral, com peças como Angélica, A Corda
de Prata, e O Filho Pródigo, esta última a primeira obra brasileira encenada
pelo Teatro Experimental do Negro, em 1947, com Abdias do Nascimento e Ruth de Souza.
O envolvimento com o teatro abriu caminho para sua verdadeira paixão, o cinema.
Em 1948, Cardoso escreveu o roteiro para o filme Almas Adversas (1949), dirigido
por Leo Marten, e, no ano seguinte, escreveu e dirigiu A Mulher de Longe,
longa-metragem inacabado, que foi tema do documentário do mesmo nome, realizado
em 2012 por Luiz Carlos Lacerda. Apesar da frustração com esse projeto, sua relação
com o cinema perdurou. Com Paulo César Saraceni realizou o primeiro longa-metragem
do cinema novo, Porto das Caixas, do qual foi o roteirista.
Após sua morte, várias de suas obras foram adaptadas para o cinema. Em 2015, por
exemplo, seu texto inacabado Introdução à música do sangue foi transformado
em filme homônimo de Luiz Carlos Lacerda. Lúcio Cardoso foi, no Brasil, uma das
primeiras figuras culturais de destaque a assumir sua homossexualidade. Deixou em
seu Diário (1958), escrito entre os anos de 1949 a 1958, relato bastante
contundente sobre sua orientação sexual, assim como as dúvidas e culpas geradas
por sua formação católica. Em 1962 teve um derrame cerebral, que paralisou o lado
direito do seu corpo, impedindo-o de escrever. Passou então a se dedicar com afinco
à pintura e chegou a realizar duas exposições em vida.
POEMA DO FERRO E DO SANGUE
Esqueceram os
campos revolvidos
onde vegetam
perdidos
os ossos obscuros
calcinados
de dez milhões
de mortos.
Esqueceram as
cruzes improvisadas
erguendo para
o alto
preces de galhos
retorcidos.
E esqueceram
o rumor das granadas
revolvendo a
terra e os vivos
devorando os
mortos
destruindo.
A CASA DO SOLTEIRO
A casa do solteiro
é alta e de paredes de angústia,
muros escorrem
como verdes contornos
e colunas de
mármore frio guardam seus limites.
Há quatro anjos
sentados no teto solene e casto
e com luzes vermelhas,
entre ciprestes,
sondam os anjos
– guardiões – os fundamentos
que se apoiam
com gemidos nos porões e adegas,
no rio escuro
e na água morta
de correntes
que foram vencidas – despedaçadas.
A casa do solteiro
é cor de chama,
de silêncio aflito
e aurora sem contemplação.
São pedras de
crime e de agonia,
são negras pedras
de delírio e de remorso.
São duras estacas
de alumínio e febre,
são traves de
cristais e de luxúria.
Há um descampado
em torno: nostálgicos,
cemitérios se
evaporam no crepúsculo
e ruínas de azul
e ópio cintilam,
entre guitarras
e navalhas abandonadas.
Há flores quentes
e de carne, flores mesmas,
cor de whisky,
de pêssegos feridos, e raízes
quentes de sofrimento
e decomposição.
A casa do solteiro
é o sol posto
quando perdemos
a fé e o amor se foi,
o começo da noite
quando não há horizonte,
a quilha partida
e a lança sem gume.
A casa do solteiro
se abre como a música,
é triste e macia,
fechada como a do príncipe,
fechada, entre
janelas longas de ferro,
enquanto lá fora
o vento ruge e há relâmpagos.
Não há vertigem,
e nem espaço, e nem sossego,
tudo sucede como
se morrêssemos aos poucos,
os móveis andam,
e nos olhares estranhos,
como róseos desmaios
e garras de ultraje.
Se não fossem
tão lúcidos, morreriam de cólera,
abraçando manequins
de aço, corpos de rampas
em madrugadas
de rompimento e viagens.
Esqueceriam as
malas – e iriam muito altos,
olhando as hortas
onde cresce o mato que assassina.
E estão quietas:
jogam as cartas verdes
e suspiram impossíveis
paisagens de mar.
Quatro anjos
grandes velam no alto do telhado,
com quatro rosas
voltadas para o mar,
a mais escura
é que os guia. Rosas frias,
de pétalas aguçadas
e de mortal traição.
A casa do solteiro
é que eles elegeram,
ilha, jangada
no silêncio do céu,
vasto navio abandonado
e cheio de tormenta,
escândalo e aflição
– a casa do solteiro flutua
50 e é como uma
vasta cortina de sangue e maldição,
chorando as tardes,
os corpos, o coração perdido,
tudo – neste
silêncio único onde existe
como uma grande
alma sozinha batendo
na infindável
noite que não se acaba
e nem se acabará
NUNCA,
A CASA DO SOLTEIRO.
RECEITA DE HOMEM
Depois deve ser
alto,
sem lembrar o
frio estilo da palmeira.
Moreno sem excesso
para que se encontre
tons de sol de
agosto em seus cabelos.
E nem louro demais
para que, de repente
no olhar cintile
algo da cigana pátria adormecida.
E que tenha mãos
grandes, para demorados carinhos
e adeuses que
se retardem ao peso do próprio gesto.
Pés grandes,
também, por que não,
para que os regressos
sejam breves
e haja resistência
para as conjuntas caminhadas.
Os olhos falem,
falem sempre, falem
de amor, de ciúme,
de morte ou traição.
Mas que falem.
Porque o homem sem a música dos olhos
é como sepultura
exposta ao sol do meio-dia.
E que o riso
relembre um pouco da infância,
para que se tenha,
no fervor do beijo,
uma memória de
pitanga e amora esmagadas
Ah, o corpo!
Sucedam alvoradas ao longo do tórax gentil,
e escureça a
penugem até o sexo velado.
(Mas não definitivamente.)
E o seu passo
lembre a dança, mas com firmeza,
e o seu rastro
fale de perfume, sem perfume
e escorram pausados
rios em seus flancos hieráticos.
E que ele cante,
sem cantar
por toda a sua
humana contextura,
para que também
em torno dele as coisas cantem,
quando, como
o primeiro homem,
nu ele se erguer
defronte ao mar.
ÚNICO POEMA DE AMOR
tudo tão calmo
a vida dormindo
como agora que
tombasse sem murmúrio
na planície do
meu pensamento …
folhas mortas
que não voam,
pássaros imóveis
que não cantam,
água parada que
não corre …
e teu corpo como
um lírio sobre a terra,
e a terra muda
impregnada de perfume,
teus olhos grandes
como flores noturnas,
flores que se
abrem na doçura do silêncio
e minha sombra
como uma nuvem perdida
debruçada sobre
teus cabelos imóveis
que boiam na
água da planície…
AMANHECER
A noite está
dentro de mim,
girando no
meu sangue.
Sinto
latejar na minha boca
as pupilas
cegas da lua.
Sinto as
estrelas, como dedos
movendo a
solidão em que caminho.
Logo o
perfume da poesia
sobe aos
meus olhos trêmulos, cerrados,
ouço a
música das coisas que acordam
sobre o
corpo negro da terra
e a voz do
vento distante
e a voz das
palmeiras abertas em raios
e a voz dos
rios viajantes.
E a noite
está dentro de mim.
Como um
pássaro,
meu sonho
ergue as asas no coração da sombra.
Ouço a
música das flores que tombam,
o tropel das
nuvens que passam
e a minha
voz que se eleva
como uma
prece na planície solitária.
Então sinto
a noite fugindo de mim,
sinto a
noite fugindo dos homens
e o sol que
avança na garupa do mar
e as nuvens
curvas que enchem o céu
como grandes
corcéis de fogo cor-de-rosa
desaparecendo
sugados pela treva.
ROLANDO TOPOR (França, 1938-1997). Pintor, ilustrador,
poeta, cançonetista, dramaturgo, encenador, cineasta e fotógrafo, artista
impossível de catalogar, começou por destacar-se com os desenhos grotescos que
publicou na revista satírica Hara-Kiri.
Vencedor do Grand Prix de L’Humour Noir em 1961, bebeu dos surrealistas e
respondeu-lhes com o movimento Pânico, que fundou com Fernando Arrabal e
Alejandro Jodorowsky, entre outros. Em sua obra, Topor nos leva para um mundo
do avesso, e a crueldade animalesca, o erotismo, a escatologia e a tétrica
ironia das suas obras valeram-lhe o desprezo de críticos, vários projetos
ruinosos e ameaças de morte quotidianas. Graças a uma sempre amável sugestão de
João Antônio Buhrer, Rolando Topor agora está conosco como artista convidado
desta edição da Agulha Revista de Cultura.
Agulha Revista de Cultura
Número 264 | março de 2026
Artista convidado: Rolando Topor (França, 1938-1997)
Editores:
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