quarta-feira, 10 de junho de 2026

Agulha Revista de Cultura # 265 | junho de 2026

 

∞ editorial | os mil espelhos de cada dia

 


 01 | O dia — cada dia — começa com seus espelhos despertos no interior de nosso olhar. O que vemos por trás desses espelhos é o fruto inesperado do que nos ambienta a alma, nos enriquece o espírito. O dia de hoje, em que trazemos a público mais esta edição de Agulha Revista de Cultura, possui uma certa avalanche de espelhos que multiplica imagens por onde passa. Ensaios, livros comentados, entrevistas, assim como os temas variados — poesia, gastronomia, cinema, música, história em quadrinhos, pintura, teatro —, todas as variações possíveis da presença humana, tudo isto faz desta edição o atlas mágico de um mesmo rio com seus infinitos afluentes. O rio da existência. O rio que somente a criação artística pode singrar com fascinante fluidez, com fruição perene. Nossa revista se sente honrada por dividir o mundo — a paisagem metafísica do ser — com outras revistas, e neste caso queremos aqui fazer três referências: a brasileira Ruído Manifesto — que tem em seu grupo editorial nomes como Matheus Guménin Barreto, Wuldson Marcelo e Nina Maria —, atravessará todo um semestre sem acrescentar novos textos em seu conteúdo, porém não deixa de circular e deve ser encontrada sempre no mesmo enlace: https://ruidomanifesto.org/; no Chile surge a revista Trés Orillas, dirigida por Mario Meléndez, uma ousadia editorial que abrange diversas experiências poéticas em todo o mundo: https://tresorillas.com/; por último, o surgimento de uma nova revista na França, Les Serrures du possible: https://lesserruresdupossible.com/, de inspiração surrealista, que tem à frente os amigos Jean-Noël Cuénod, Christine Zwingmann, e Nelly Sanchez. São estes os afluentes que ampliam a presença humana na terra, que tornam o mundo um lugar ainda habitável. Ao lado dessa incontida avalanche encontramos a presença plástica de Jan Švankmajer (República Tcheca, 1934), artista surrealista, marionetista, animador e cineasta, conhecido por suas releituras sombrias de contos de fadas famosos e pelo uso vanguardista da animação stop-motion tridimensional combinada com filmagens em live-action. Alguns críticos o elogiaram por privilegiar os elementos visuais em detrimento do enredo e da narrativa, outros por seu uso de fantasia sombria. Adaptou obras literárias como Alice e Fausto. Sua obra Šílení (2005, Loucura) foi descrita como uma história de terror cômica que demonstra a influência do escritor americano Edgar Allan Poe e do nobre francês Marquês de Sade. Hmyz (2018, Inseto) é baseado na peça Ze ivota hmyzu (1921, A Peça dos Insetos) de Karel e Josef Čapek. A obra plástica de Jan Švankmajer nos acompanha nesta edição de Agulha Revista de Cultura em que é nosso artista convidado.

 


 02 | El día —cada día— comienza con sus espejos despertando en nuestra mirada. Lo que vemos tras estos espejos es el fruto inesperado de aquello que moldea nuestra alma, enriqueciendo nuestro espíritu. Hoy, al presentar al público esta última edición de Agulha Revista de Cultura, se desata una avalancha de espejos que multiplica las imágenes allá donde va. Ensayos, reseñas de libros, entrevistas, así como temas variados —poesía, gastronomía, cine, música, cómics, pintura, teatro—, todas las posibles manifestaciones de la presencia humana, todo ello convierte esta edición en el mágico atlas del mismo río con sus infinitos afluentes. El río de la existencia. El río que solo la creación artística puede navegar con fascinante fluidez, con un disfrute perenne. Nuestra revista se siente honrada de compartir el mundo — el paisaje metafísico del ser — con otras revistas, y en este caso queremos hacer tres referencias: la revista brasileña Ruído Manifesto — que tiene en su grupo editorial nombres como Matheus Guménin Barreto, Wuldson Marcelo y Nina Maria — pasará un semestre entero sin agregar nuevos textos a su contenido, pero continuará circulando y siempre se puede encontrar en el mismo enlace: https://ruidomanifesto.org/; en Chile, surge la revista Trés Orillas, dirigida por Mario Meléndez, una audacia editorial que abarca diversas experiencias poéticas alrededor del mundo: https://tresorillas.com/; por último, el surgimiento de una nueva revista en Francia, Les Serrures du possible: https://lesserruresdupossible.com/, de inspiración surrealista, que está dirigida por nuestros amigos Jean-Noël Cuénod, Christine Zwingmann y Nelly Sanchez. Estos son los afluentes que expanden la presencia humana en la Tierra, haciendo del mundo un lugar aún habitable. Junto a esta avalancha descontrolada, encontramos la presencia artística de Jan Švankmajer (República Checa, 1934), artista surrealista, titiritero, animador y cineasta, conocido por sus oscuras reinterpretaciones de cuentos de hadas famosos y por su uso vanguardista de la animación tridimensional stop-motion combinada con filmación de acción real. Algunos críticos lo elogiaron por priorizar los elementos visuales sobre la trama y la narrativa, otros por su uso de la fantasía oscura. Adaptó obras literarias como Alicia y Fausto. Su obra Šílení (2005, Locura) ha sido descrita como una historia de terror cómica que demuestra la influencia del escritor estadounidense Edgar Allan Poe y del noble francés Marqués de Sade. Hmyz (2018, Insecto) está basada en la obra de teatro Ze ivota hmyzu (1921, La obra del insecto) de Karel y Josef Čapek. La obra plástica de Jan Švankmajer nos acompaña en esta edición de Agulha Revista de Cultura, donde participa como artista invitado.

 


 03 | The day — every day — begins with its mirrors awakened within our gaze. What we see behind these mirrors is the unexpected fruit of what shapes our soul, enriching our spirit. Today, as we bring to the public this latest edition of Agulha Revista de Cultura, possesses a certain avalanche of mirrors that multiplies images wherever it goes. Essays, book reviews, interviews, as well as varied themes — poetry, gastronomy, cinema, music, comics, painting, theater — all possible variations of human presence, all this makes this edition the magical atlas of the same river with its infinite tributaries. The river of existence. The river that only artistic creation can navigate with fascinating fluidity, with perennial enjoyment. Our magazine feels honored to share the world — the metaphysical landscape of being — with other magazines, and in this case we want to make three references: the Brazilian magazine Ruído Manifesto — which has in its editorial group names like Matheus Guménin Barreto, Wuldson Marcelo and Nina Maria — will go through an entire semester without adding new texts to its content, but it will continue to circulate and can always be found at the same link: https://ruidomanifesto.org/; in Chile, the magazine Trés Orillas emerges, directed by Mario Meléndez, an editorial audacity that encompasses diverse poetic experiences around the world: https://tresorillas.com/; lastly, the emergence of a new magazine in France, Les Serrures du possible: https://lesserruresdupossible.com/, of surrealist inspiration, which is headed by our friends Jean-Noël Cuénod, Christine Zwingmann, and Nelly Sanchez. These are the tributaries that expand human presence on Earth, making the world a still habitable place. Alongside this unchecked avalanche, we find the artistic presence of Jan Švankmajer (Czech Republic, 1934), a surrealist artist, puppeteer, animator, and filmmaker, known for his dark reinterpretations of famous fairy tales and for his avant-garde use of three-dimensional stop-motion animation combined with live-action filming. Some critics praised him for prioritizing visual elements over plot and narrative, others for his use of dark fantasy. He adapted literary works such as Alice and Faust. His work Šílení (2005, Madness) has been described as a comic horror story that demonstrates the influence of the American writer Edgar Allan Poe and the French nobleman Marquis de Sade. Hmyz (2018, Insect) is based on the play Ze ivota hmyzu (1921, The Insect Play) by Karel and Josef Čapek. Jan Švankmajer's artwork accompanies us in this edition of Agulha Revista de Cultura, where he is our guest artist.

Os Editores 

 

 

∞ índice

 

ELYS REGINA ZILS | Espelhos instáveis na poesia de Leila Ferraz

https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2026/06/elys-regina-zils-espelhos-instaveis-na.html

 

FLORIANO MARTINS | Os grandes olhos de Pandora — Conversando com Jan Švankmajer

https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2026/06/floriano-martins-os-grandes-olhos-de.html

 

FLORIANO MARTINS Os tempos modernos da família Crumb

https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2026/06/floriano-martins-os-tempos-modernos-da.html

 

JAN DOČEKAL & JOSEF BUBENÍK | About surrealism and the Czech surrealist group Stir up in a Czech book interview Crystal spaces

https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2026/06/jan-docekal-josef-bubenik-about.html

 

JORGE ORTEGA | Del modernismo al poeticismo

https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2026/06/jorge-ortega-del-modernismo-al.html

 

ELYS REGINA ZILS & FLORIANO MARTINS Cacilda Teixeira da Costa e os privilégios da crítica

https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2026/06/elys-regina-zils-floriano-martins.html

 

NELLY SANCHEZ | O Clube das Belas Perdizes: A Gastronomia como um Novo Espaço Feminino

https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2026/06/nelly-sanchez-o-clube-das-belas.html

 

ROGÉRIO DE CAMPOS | Onze pistas para conhecer o jazz sul-africano

https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2026/06/rogerio-de-campos-onze-pistas-para.html

 

YULEISY CRUZ LEZCANO | Marc Chagall y su poesía cromática entre memoria y sueño

https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2026/06/yuleisy-cruz-lezcano-marc-chagall-y-su.html

 

WOLFGANG PANNEK | A memória coletiva oculta – Uma entrevista com Floriano Martins

https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2026/06/wolfgang-pannek-memoria-coletiva-oculta.html

 

 

Libreto # 16

 

ADELTO GONÇALVES | Teatro de Zuca Sardan e Floriano Martins — Uma obra de pura sátira

https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2026/06/adelto-goncalves-teatro-de-zuca-sardan.html

 

ARTURO HERNÁNDEZ GONZÁLEZ | Pervivencia, Lucha y Resistencia en la Poesía de Fredy Chikangana

https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2026/06/arturo-hernandez-gonzalez-pervivencia.html

 

FLORIANO MARTINS | A selva nos seus olhos — Poemas de Luís Perdiz

https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2026/06/floriano-martins-selva-nos-seus-olhos.html

 

GLADYS MENDÍA | Poesía y neurodivergencia: variaciones de la sensibilidad en la poesía contemporánea.

https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2026/06/gladys-mendia-poesia-y-neurodivergencia.html

 

OSCAR JAIRO GONZÁLEZ HERNÁNDEZ | Los cuentos de Luis Carlos Muñoz Sarmiento

https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2026/06/oscar-jairo-gonzalez-hernandez-los.html

 

NÉSTOR LUIS FENOGLIO | La crónica sensible del poeta César Bisso

https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2026/06/nestor-luis-fenoglio-la-cronica.html 

 

Jan Švankmajer




Agulha Revista de Cultura

Número 265 | junho de 2026

Artista convidado: Jan Švankmajer (República Tcheca, 1934)

Editores:

Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com

Elys Regina Zils | elysre@gmail.com

ARC Edições © 2026


∞ contatos

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FLORIANO MARTINS | floriano.agulha@gmail.com

ELYS REGINA ZILS | elysre@gmail.com

 




FLORIANO MARTINS | A selva nos seus olhos, de Luís Perdiz

 


A selva nos seus olhos é o novo livro de poemas do escritor, editor e compositor paulista Luís Perdiz, lançado pela Editora Primata (2026). A obra foi contemplada pelo Programa de Ação Cultural (ProAC/PNAB) do Estado de São Paulo e marca a primeira publicação de poemas inéditos do autor desde Desejo de terra (2019). O livro propõe uma imersão no que o autor chama de tempo da floresta, afastando-se do ritmo acelerado do mundo tecnológico. Abrange assim, temas como erotismo, natureza, transfiguração sensorial, mantendo uma acentuada musicalidade. A poesia investiga a conexão profunda entre o corpo humano, o desejo e a terra, misturando suores, peles, seivas e elementos naturais. Os poemas evocam imagens sinestésicas fortes, transitando entre seres visíveis da fauna brasileira e o misticismo indígena. O texto destaca-se pela sofisticada elaboração de imagens e ritmo sonoro marcante.

O projeto literário expandiu-se para além do papel e ganhou vida em múltiplos formatos: um álbum musical, que traz leituras dos poemas por Luís Perdiz com arranjos instrumentais do músico Bruno Gazoni; uma versão em áudio completa para aproximar o público da oralidade dos versos, e leituras públicas e pockets shows que fundem literatura e música, com passagens por espaços culturais variados em São Paulo. Luís Perdiz é um escritor, editor e compositor nascido em Campinas (SP), fortemente influenciado pelo modernismo brasileiro, tropicália, surrealismo e a geração beat. Suas obras são marcadas por uma linguagem sinestésica que une o erotismo e as paisagens naturais brasileiras.

Suas obras já receberam prefácios e elogios de grandes nomes da cultura nacional, como Jorge Mautner e Claudio Willer. O poeta estreou com Saudade Mestiça (2016). Depois, lançou Visão Incurável (2018), a antologia Você me enche de areia (2023) e Desejo de terra (2019).


A versão musical do livro não funciona apenas como uma leitura de fundo, mas como uma extensão sensorial projetada para fazer com que os poemas atuem como um poema-canto contínuo. Toda a atmosfera sonora do disco foi construída pelo músico Bruno Gazoni, que desenvolveu arranjos instrumentais específicos para casar com o ritmo da fala do poeta. O álbum traz o próprio Luís Perdiz recitando os versos. O objetivo é resgatar a tradição da poesia falada, criando uma experiência imersiva no que o autor chama de tempo da floresta. O projeto conta com colaborações de vozes da cena contemporânea paulistana, como a cantora e compositora Malu Maria, que participa em uma das faixas do audiolivro.

Este livro possui uma forte condicionante, o tema da natureza, o que situa seu autor como pertencente a uma linhagem dos poetas da natureza. O poeta possui um olhar selvagem, com uma virtude visionária que lhe permite identificar as forças interiores da paisagem. Pode-se dizer que ele não apenas contempla a natureza, mas a incorpora de forma visceral e mística. Estes aspectos aproximam sua obra do xamanismo literário e do surrealismo, onde o poeta atua como um decodificador das energias ocultas da terra. Ao ler A selva nos seus olhos, é possível perceber o diálogo do autor com grandes nomes dessa tradição, destacando sinais de identificação em truques de linguagem que abordam o olhar atento ao insignificante e a comunhão integral com a terra e os animais, ao mesmo tempo em que é possível detectar a presença da poesia como uma forma de gnose, transe e expansão da consciência através do contato com o sagrado e o selvagem. Há também ali uma fusão mística com divindades como Jaci e o transe cósmico, acentuando ainda a concepção da paisagem em um ambiente antropomórfico, onde ela ganha carne, suor e desejo e os corpos dos amantes se transformam em rios, folhagens e terra úmida. Graças a esse olhar visionário do autor é que se rejeita o tempo mecânico das metrópoles, convidando o leitor a desacelerar e sintonizar com o ritmo biológico e ancestral das marés e do crescimento das plantas.

 


As nuvens noturnas

são pedaços da eternidade.

Lar dos espíritos

e dos sonhos xamânicos

que atravessam os milênios

e cintilam em nós

à beira da praia

neste outro infinito

onde a espuma do copo

se mistura com a do mar.

 

Podemos considerar aspectos transcendentes, como o olhar que enxerga divindades, deuses e forças místicas na paisagem, o sexo e o erotismo vistos como rituais de conexão com o cosmos e com a própria terra, o entendimento da natureza sem o filtro do pensamento ocidental, a percepção da floresta com seus sentidos puros, antes das palavras e das definições científicas, a transfiguração constante dos elementos da natureza, tudo isto desembocando em uma plasticidade mágica que contempla a facilidade com que um rio vira veia e uma árvore vira um braço na construção das imagens poéticas deste jovem poeta que, embora a crítica o aproxime de autores como Roberto Piva, Herberto Helder, Michael McClure, dentre outros, não posso deixar de perceber uma íntima afinidade – diálogo ulterior repleto de revelações – com Raul Bopp. Assim como o autor de Cobra Norato, Luís Perdiz sabe como evocar em tua criação o tempo da floresta, sabe que os olhos ardem para atingir a beleza, e que, ao final de cada viagem, todos somos engolidos pela vida.




FLORIANO MARTINS (Brasil, 1957). Poeta, editor, dramaturgo, ensaísta, artista plástico e tradutor. Criou em 1999 a Agulha Revista de Cultura. Coordenou (2005-2010) a coleção “Ponte Velha” de autores portugueses da Escrituras Editora (São Paulo). Curador do projeto “Atlas Lírico da América Hispânica”, da revista Acrobata. Esteve presente em festivais de poesia realizados em países como Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, El Salvador, Equador, Espanha, México, Nicarágua, Panamá, Portugal e Venezuela. Curador da Bienal Internacional do Livro do Ceará (Brasil, 2008), e membro do júri do Prêmio Casa das Américas (Cuba, 2009), foi professor convidado da Universidade de Cincinnati (Ohio, Estados Unidos, 2010). Tradutor de livros de César Moro, Federico García Lorca, Guillermo Cabrera Infante, Vicente Huidobro, Hans Arp, Juan Calzadilla, Enrique Molina, Jorge Luis Borges, Aldo Pellegrini e Pablo Antonio Cuadra. Entre seus livros mais recentes se destacam Un poco más de surrealismo no hará ningún daño a la realidad (ensaio, México, 2015), O iluminismo é uma baleia (teatro, Brasil, em parceria com Zuca Sardan, 2016), Antes que a árvore se feche (poesia completa, Brasil, 2020), Naufrágios do tempo (novela, com Berta Lucía Estrada, 2020), Las mujeres desaparecidas (poesia, Chile, 2022), Sombras no jardim (prosa poética, Brasil, 2023), e Obra-prima da confusão entre dois mundos (poesia, Brasil, 2026). 



JAN ŠVANKMAJER (República Tcheca, 1934). Artista surrealista, marionetista, animador e cineasta, é conhecido por suas releituras sombrias de contos de fadas famosos e pelo uso vanguardista da animação stop-motion tridimensional combinada com filmagens em live-action. Alguns críticos o elogiaram por privilegiar os elementos visuais em detrimento do enredo e da narrativa, outros por seu uso de fantasia sombria. Adaptou obras literárias como Alice e Fausto. Sua obra Šílení (2005, Loucura) foi descrita como uma história de terror cômica que demonstra a influência do escritor americano Edgar Allan Poe e do nobre francês Marquês de Sade. Hmyz (2018, Inseto) é baseado na peça Ze ivota hmyzu (1921, A Peça dos Insetos) de Karel e Josef Čapek. A obra plástica de Jan Švankmajer nos acompanha nesta edição de Agulha Revista de Cultura em que é nosso artista convidado. Também podemos encontrar uma reveladora entrevista que lhe fez Floriano Martins, publicada em três idiomas.

  



Agulha Revista de Cultura

Número 265 | junho de 2026

Artista convidado: Jan Švankmajer (República Tcheca, 1934)

Editores:

Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com

Elys Regina Zils | elysre@gmail.com

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FLORIANO MARTINS | floriano.agulha@gmail.com

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GLADYS MENDÍA | Poesía y neurodivergencia: variaciones de la sensibilidad en la poesía contemporánea.

 


La presente muestra de poesía reúne voces que se inscriben, desde distintos lugares geográficos y generacionales, en lo que hoy denominamos neurodivergencia. Visibiliza algo que ha estado siempre en el centro mismo de la creación: la diferencia en la percepción. Si hoy hablamos de neurodivergencia es porque disponemos de un marco conceptual contemporáneo; pero la literatura, desde sus orígenes, ha sido el espacio donde las sensibilidades no normativas encontraron forma.

Lo que aquí se propone es observar cómo determinadas formas de percepción, procesamiento sensorial, experiencia emocional y relación con el lenguaje configuran escrituras que tensionan la norma.

Esta edición reúne voces diversas en edad, procedencia y estilo. Lo que las vincula es una experiencia particular del mundo traducida en lenguaje. La divergencia aquí es una estructura perceptiva que modela el ritmo, la sintaxis, la intensidad y la construcción del yo poético.

La neurodivergencia aparece en estos textos como diferencia estructural en la manera de habitar el mundo. Esa diferencia se traduce en registros poéticos diversos: fragmentación, intensidad, saturación sensorial, desdoblamiento del yo, lucidez extrema, sensibilidad cósmica o espiritual, crítica institucional, o búsqueda de una ética del cuidado. No hay una única estética neurodivergente. La heterogeneidad formal de la muestra es, precisamente, uno de sus mayores aciertos.

Desde una perspectiva comparatística, resulta inevitable recordar que gran parte de la tradición moderna se ha construido sobre subjetividades que hoy podrían leerse bajo el prisma de la neurodivergencia. El simbolismo, el surrealismo, ciertas vertientes del romanticismo tardío y de las vanguardias latinoamericanas trabajaron con la fractura, la hipersensibilidad, el desbordamiento sensorial o el pensamiento asociativo no lineal como motores estéticos. La diferencia no era patológica sino potencia creadora.


En América Latina, las escrituras de ruptura han dialogado constantemente con estados de conciencia alterados, con experiencias de marginalidad, con desajustes respecto a la norma social y lingüística. La modernidad literaria latinoamericana se configuró, en buena medida, desde esa tensión entre centro y periferia, norma y excepción, claridad racional y exceso imaginativo. La muestra que hoy presentamos se inscribe en esa genealogía.

En varios autores el cuerpo ocupa un lugar central. El cuerpo como territorio de fricción con lo social; como espacio donde se inscribe la sobrecarga sensorial, el agotamiento, la ansiedad o el desajuste. El poema se convierte entonces en un mecanismo de regulación y de traducción. No es casual que aparezcan insistencias en el movimiento, en el gesto repetido, en la dificultad de la interacción social o en la experiencia del diagnóstico. El lenguaje funciona aquí como forma de autoconocimiento y, en muchos casos, como resistencia.

En otras voces, la divergencia se desplaza hacia una expansión perceptiva. Lo místico, lo cósmico, lo ancestral o lo espiritual operan como ampliación del campo de conciencia. La sensibilidad divergente se asume como capacidad de leer capas de realidad que la mirada normativa suele simplificar. Esta dimensión no romantiza la diferencia, pero sí la resignifica.

La muestra también incorpora una dimensión política. Algunos textos interpelan directamente al Estado, a la institución médica o a los dispositivos de normalización. Se cuestiona la medicalización indiscriminada, la patologización del comportamiento no estándar y la violencia simbólica que produce el mandato de adaptación. En este sentido, la poesía funciona como espacio crítico.

Otro elemento transversal es la cuestión del lenguaje. En ciertos autores la escritura se presenta clara y confesional; en otros, se vuelve barroca, acumulativa o experimental. La divergencia no determina la forma, pero sí parece incidir en la relación con la estructura. Hay textos que buscan orden y otros que lo desmontan. Esa tensión entre forma y ruptura atraviesa el conjunto.

Esta edición no pretende definir qué es la poesía neurodivergente. Tampoco pretende establecer un canon. Su propósito es más sencillo y más necesario: ofrecer un espacio donde distintas experiencias de percepción puedan expresarse sin ser reducidas a un diagnóstico. Lo que une a estos poetas es una conciencia aguda de la diferencia y una voluntad de convertir esa diferencia en lenguaje.


Conviene subrayar que esta edición no romantiza la diferencia. La neurodivergencia, en muchos casos, implica sufrimiento, incomprensión y violencia simbólica.

Desde una perspectiva más amplia, esta muestra contribuye a ampliar el canon contemporáneo. La historia literaria se ha construido muchas veces a partir de categorías homogéneas que excluyen otras formas de sensibilidad. Al reunir estas voces, proponemos una ampliación crítica: reconocer que la diversidad cognitiva también es diversidad estética.

Si la tradición literaria ha sido siempre un diálogo entre formas de percepción, esta muestra se suma a ese diálogo. No hay nada nuevo bajo el sol, no se inaugura una excepción, sino que visibiliza una continuidad: la literatura como espacio donde las sensibilidades intensas, divergentes o no normativas encuentran su lugar.

En última instancia, lo que aquí se afirma es sencillo: la diferencia no es marginal al hecho literario; es constitutiva de él.

En un contexto cultural que tiende a clasificar y simplificar, esta muestra propone complejidad. Manifiesta que la literatura surge de la tensión. Y que la divergencia —cuando encuentra su forma —es una de las múltiples maneras posibles de comprender el mundo.



GLADYS MENDÍA (Venezuela, 1975) é escritora e editora residente no Chile. Tradutora de português, integra a equipe de tradução do Atlas Lírico da América Hispânica (Brasil). Foi bolsista da Fundação Neruda (2003 e 2017). Participou do Taller de criação poética com Raúl Zurita (2006). Publicou em diversas revistas literárias, assim como em antologias, entre as mais recentes: Temporary Archives, Poems by women of Latin America, ed. Juana Adcock e Jèssica Pujol Duran, ARC Publications, 2022, Reino Unido; e Akute Routen: poesia e prosa de autores latino-americanos e europeus sobre fronteiras e migrações, organizada pela Dra. Rike Bolte e publicada pela hochroth Verlag, 2024, Alemanha. Seus livros mais recentes são El cantar de los manglares (2018), Luces altas luces de peligro (2022) e Aire (2023). É editora fundadora da Revista de Literatura e Artes LP5.cl e da LP5 Editora (desde 2004), de Anasyrma: Video encontros de Mulheres Ibero-americanas, da Feira de Escritores e Editores Migrantes (FEM) e cofundadora da Furia do Livro (Feira de editoras independentes, Chile). Como editora, desenvolveu mais de vinte e cinco coleções entre poesia, narrativa, ensaio e materiais audiovisuais, publicando mais de 500 autores. PRÊMIO INTERNAZIONALE D’ECCELLENZA “DIVINAMENTE DONNA 2025” na categoria de Livro de autora estrangeira com seu livro APUNTES DE OBSIDIANA. Antología personal.



JAN ŠVANKMAJER (República Tcheca, 1934). Artista surrealista, marionetista, animador e cineasta, é conhecido por suas releituras sombrias de contos de fadas famosos e pelo uso vanguardista da animação stop-motion tridimensional combinada com filmagens em live-action. Alguns críticos o elogiaram por privilegiar os elementos visuais em detrimento do enredo e da narrativa, outros por seu uso de fantasia sombria. Adaptou obras literárias como Alice e Fausto. Sua obra Šílení (2005, Loucura) foi descrita como uma história de terror cômica que demonstra a influência do escritor americano Edgar Allan Poe e do nobre francês Marquês de Sade. Hmyz (2018, Inseto) é baseado na peça Ze ivota hmyzu (1921, A Peça dos Insetos) de Karel e Josef Čapek. A obra plástica de Jan Švankmajer nos acompanha nesta edição de Agulha Revista de Cultura em que é nosso artista convidado. Também podemos encontrar uma reveladora entrevista que lhe fez Floriano Martins, publicada em três idiomas.

  



Agulha Revista de Cultura

Número 265 | junho de 2026

Artista convidado: Jan Švankmajer (República Tcheca, 1934)

Editores:

Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com

Elys Regina Zils | elysre@gmail.com

ARC Edições © 2026


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FLORIANO MARTINS | floriano.agulha@gmail.com

ELYS REGINA ZILS | elysre@gmail.com

 




 

 

NÉSTOR LUIS FENOGLIO | La crónica sensible del poeta César Bisso

 


Ciertos ayeres es un libro singular, diferente, dentro de la ya robusta y siempre excelente obra poética de César Bisso, reconocido habitualmente por su registro fluvial, fiel a su Coronda natal; es decir, fiel a sí mismo.

Y no quiere decir que Bisso no escribiera sobre otros temas que no fueran el río (aunque allí, uno disfruta el núcleo esencial de su poesía, en múltiples títulos a lo largo del tiempo: El otro río, Isla adentro, la antología Las trazas del agua, Un niño en la orilla, De abajo mira el cielo, entre otros) y el universo de islas, arroyos, pescadores.

Tampoco quiere decir que aquí esté ausente el río. No. También aquí tendremos un pescador, que es como una canoa extraviada; también aquí las cosas y el tiempo son atrapados por el rumbo circular de los remansos. En este libro hay, igualmente, un Sueño líquido que vuela por el cielo de abajo.

Quiero precisar la idea: César Bisso es uno de nuestras grandes voces poéticas y su registro no se limita (aunque ello solo alcanzaría) al río y al asumido poeta fluvial que es, sin disimulo, pleno de matices, sutil, siempre renovado.

Este poeta nuestro ya ha probado sobradamente que puede con otros temas, tonos, formatos, como en su libro La jornada o en sus bellos Haikus felinos. Aquí vuelve a su sanguíneo Coronda, pero en un doble rol de poeta y cronista para salir al rescate de Ciertos ayeres.

Esto es, acontecimientos, algunos personales, otros colectivos, que marcan y dan identidad a un lugar: sus mitos, sus historias, sus personajes y ese puñado de hechos que si no rompen la lánguida monotonía cotidiana del pueblo (por ejemplo, por usar palabras del poeta, la hora sumisa de la siesta), muchas veces se rememoran en reuniones y peñas amanecidas.

No es la tarea rigurosa de un historiador; ni siquiera la de un cronista o un reportero (Bisso es también periodista y desde luego tiene ese oficio incorporado), no al menos en la selección de esos ayeres. Pero sí sabemos desde el título mismo que son hechos del pasado, determinados, ciertos; esos y no otros. Y en este punto sorprende una vez más el poeta con un libro pleno y vibrante.

Una de las claves de ese registro está también en el título (algo que Bisso trabajó hasta encontrar la síntesis deseada y finalmente virtuosa), en el vocablo ciertos, que funciona aquí como adjetivo, pero que remite de inmediato a la sustantiva certeza.

Son ayeres, sí, rescatados por la memoria y por la poesía, sí; pero son ciertos en su doble acepción en este caso: en su carácter selectivo (insisto: esos y no otros) y en su contenido de verdad: son ciertos, no inciertos. Son verdaderos, no ficción, tamizados, claro, por la sensibilidad del poeta que, lo sabemos, mira diferente.

Y si me detengo largamente en esta cuestión, es porque todo el libro oscila luminosamente entre ambos términos contenidos en el título.

La poesía, que es canto, que tiene esencia oral, aunque nos olvidemos a veces, ha mantenido desde sus mismos orígenes su capacidad de crónica y de registro de hechos (en versos), en la mayoría de los casos relacionados con la épica: el relato de hazañas, el registro de batallas, conquistas.

En prácticamente todas las lenguas, los inicios de la poesía están ligados a una cosmogonía o a la conquista de un territorio. También el castellano, nuestro idioma hermoso y fundante; aunque aquí hago la salvedad que, más allá del Cid o los cantares de gesta, jarchas mediante (esas pequeñas cancioncillas mozárabes que sonaban como quejas de amor), tuvo también un comienzo lírico.

En América y en nuestro país, no hay por qué remontarse a Martín del Barco Centenera u Olegario Víctor Andrade: nuestro José Pedroni narra, desde la lírica, una épica. La inmigración, uno de los emblemas de la poesía pedroniana, cabe sin inconvenientes en la categoría épica.

Así lo vio, por ejemplo, Edelweis Serra, quien centró uno de sus trabajos en detectar “la voluntad arquetípica” de la gesta de la inmigración en la obra del autor de Gracia plena.


Y tenemos a mano también Aquella noche de corpus, cronicón poemático de Mateo Booz (sí, Mateo Booz, uno de los padres del cuento por estas tierras, escribió también poesía), que narra en versos el levantamiento de los 7 Jefes, en la temprana Santa Fe de 1580.

En Ciertos ayeres no hay como tal una épica, ni tampoco la poesía de Bisso es, genéricamente, narrativa; tampoco hay un único hecho o una gesta enfocada como asunto. Pero hay una mirada, selectiva y aguda, sobre, una vez más, Coronda.

Ello incluye las anónimas y queribles mujeres del poema que abre el libro: Hubo madres que forjaron una vida sencilla. / Cada mañana desperezaban a los hijos / con un tazón de leche caliente / al tiempo que sus hombres partían al trabajo…

Todo está allí desde el primer verso: decir hubo madres es como decir que hubo un tiempo; es decir había una vez: comienza la crónica, la selección de ciertos ayeres ciertos.

Estas madres son de Coronda, pero también de cualquier pueblo nuestro (en mi caso, viajé al patio de mi abuela Marga y la vi barriendo): es capacidad del poeta postular lo particular como general, llevarlo a la arquetipicidad de la que hablaba Serra, convertir lo anónimo en gesta.

Ese gesto mínimo e íntimo de rescate de madres y padres (lo hace en el poema que inaugura la segunda parte del libro y que se llama precisamente “Padres”), leemos estas aliteraciones de jotas, eses y erres para los manuales: … abonan una historia de linaje urbano. / Jenízaros de usanzas criollas, / forjados en el ajetreo del patio y la cocina…).

También la presencia en el texto de una hermana, del abuelo Domingo, son patrimonio interior del poeta cronista, esa suerte de pequeño dios del tiempo, ese Cronos que somos y vamos dejando de ser.

Y así como se anhela la otra orilla y se arroga ese viaje porfiado, del río que puja incesante de norte a sur; así como vemos el afuera como desafío; aparecen a la par la cocina o el patio, con una configuración casi mítica, como un territorio de intimidad, como un reino soberano vívido y vigente, traídos, elevados por el verso. Condensa una épica sencilla y casi secreta, ahora compartida.

Entonces, del mismo modo en que hay poemas anónimos, que sólo la mirada y la palabra del poeta pueden rescatar (ciertos ayeres), también hay otros hechos que forman parte del colectivo corondino, lo ayudan a definirse, tanto como los ríos, las frutillas o las islas.

Los poemas “Mataderos” (que alude al nacimiento de Coronda, en 1664), “El paso de Urquiza” (1851), “Alfonsina”, “El último aduanero”, “Raid (dedicado a la nadadora Teresa Plans) o “Una avioneta cae sobre las aguas” (ciertos ayeres, también), refieren a hechos y personas muy precisos, que son parte de la historia.

También caben en la crónica del poeta y conforman esa trama plena de identidad que Bisso reconstruye, canto mediante.

En la segunda parte de libro surgen otros escenarios urbanos y esporádicos lugares, como también evocaciones de personajes que habitan la espaciosa memoria del poeta.

En todos los poemas, aquí y allá, hay versos que se encienden y brillan por sí mismos, como si fueran esas lexías (unidades mínimas de sentido) de las que hablaba Roland Barthes.

Cito al azar, caprichosamente, algunos: la entereza de quien camina para adentro…; la radionovela del crepúsculo…; o ese río que Avanza. No regresa por nadie…; o esas garzas que vuelan como suaves hebras blancas / por encima de los pajonales... Aquí, todo resplandece. El libro es generoso: hay casi cincuenta poemas, breves algunos; con mayor despliegue, otros.

Hay además citas y pequeños textos y dedicatorias, que remiten a otros versos y a otros autores, conformando una suerte de red, que el análisis, pretencioso, llamará corpus u objeto de estudio; o se hablará de intertextualidad (cualquier libro de cualquier autor es la suma de sus lecturas), pero que nosotros, lectores, traducimos simplemente como belleza.

César Bisso ya sabe, hace rato (y lo actualiza aquí, en plena posesión de estilo), que nadie / puede oírnos si hablamos con voz ajena... También sabe que abajo se oculta lo esencial...

Es la asunción de sí mismo y del colectivo que integra (un espacio y un tiempo que llamaremos Coronda, por aquello de pintar la aldea, pero que se postula universal) y al que le pone voz, sabia, reflexiva voz, en estos Ciertos ayeresCon los años aprendí dónde estar.

La Universidad Nacional de Litoral, a través de Ediciones UNL, publicará próximamente la obra reunida de César Bisso, que incluirá poemas correspondientes a dieciséis libros editados entre 1975 y 2025. Representan cincuenta años de trayectoria poética.

Si hubiera que definir concisamente la situación existencial del poeta César Bisso, diría que el verso gratitud de la fascinación condensa y resuelve la cuestión en dos palabras.


Gratitud en primer lugar, porque en efecto es la suya una condición consciente de los bienes que ha recibido del paisaje y las personas que lo rodean desde su nacimiento hasta hoy, gratitud por la belleza natural del lugar que le ha tocado en suerte, por la bondad de sus comprovincianos.

Es precisamente ese haber recibido lo que coloca al poeta en la situación de poder retribuir. La eficacia de la fórmula gratitud de la fascinación estriba en que destaca a la abstracta fascinación como destinataria última y definitiva de la apertura vital, lo cual viene a significar que es ella la que lo lleva a dar las gracias por el don de quedar fascinado, por haber hecho de él un poeta.

Hay una orilla de enfrente en todo lo que la naturaleza ofrece, vale decir una distancia en el núcleo de lo próximo, una lejanía que atrae, que encanta y exige una réplica, una palabra vibrante de atención, un poema. Es como un diálogo: la realidad inquiere silente con su maravillosa fuerza de atracción y el poeta responde con la palabra maravillada.

César Bisso se define a sí mismo como ente fluvial, definición que se comprende porque ha nacido en Coronda, a la vera del bello río del mismo nombre. El río, heraclitianamente, se transforma en imagen del tiempo que fluye, que nunca se detiene:

 

El tiempo enfervoriza: sé música,

anímate a cruzar cielos de utopía.

 

Esta es la consigna del agua que discurre en los poemas del libro, una consigna que lleva al poeta a rescatar ocasiones de ciertos ayeres que no se olvidan. Inolvidable es, en efecto, el encuentro con Borges, cuando visitó Santa Fe acompañado por el joven párroco Jorge Bergoglio. Sucedió cuando Bisso era alumno del segundo año de la Escuela Industrial Superior:

 

¿Qué significa para usted el lenguaje?

Tuve la osadía de preguntárselo a Borges

desde mi perplejidad de niño desmañado.

Ignoraba quién era el insólito visitante.

Allí estaba, sentado a la mesa del bar.

Un bastón en mano presidía las palabras.

Sobriedad -respondió con voz fatigosa-.

El sol es luminoso, nunca indecible.

 

La rotunda afirmación del oráculo, pronunciada hace medio siglo, se incrustó para siempre en la conciencia de Bisso; se incrusta en la nuestra a partir de este momento, también para siempre.

Un buen ejemplo de esa ponderada sobriedad es el poema dedicado a Juanele, un texto tramado con extrema economía, muy sugerente, ya que logra trazar el perfil de la persona con un esbozo hecho de pura ausencia, una proeza mallarmeana, en cierto modo:

 

La pesada balsa cruza el río.

Despereza el cielo quiloaza.

Movedizas torres de greda

se inclinan pesadamente.

Un duende alumbra el agua.

Cautiva el humo oriental,

su cabellera de sauce,

la acrobacia de los juncos.

El poema trenza otras voces.

Pierdo la balsa de retorno.




NÉSTOR LUIS FENOGLIO (Argentina, 1964). Se desempeña como periodista y columnista en el diario El Litoral, medio del cual es Secretario de Redacción. Obtuvo diferentes premios, entre ellos el premio José Cibils para poetas jóvenes que organiza la Asociación de Escritores Santafesinos (1984) y el Certamen Anual Leoncio Gianello, en cuento, premio edición compartido (2004). Participó como integrante del Proyecto de Investigación Semiótica y Pedagogía del Espectáculo, en cuyo marco fueron publicados por la UNL trabajos de su autoría. Sus textos integran distintas antologías. Publicó En medio de la noche (Primer Premio Municipal de Poesía, 2000), Nacimiento Último (Premio Edición José Rafael López Rosas de poesía, 2004) y Desde este cuerpo (2007). Con los ojos de entonces y Las razones del armiño aún están inéditos.




JAN ŠVANKMAJER (República Tcheca, 1934). Artista surrealista, marionetista, animador e cineasta, é conhecido por suas releituras sombrias de contos de fadas famosos e pelo uso vanguardista da animação stop-motion tridimensional combinada com filmagens em live-action. Alguns críticos o elogiaram por privilegiar os elementos visuais em detrimento do enredo e da narrativa, outros por seu uso de fantasia sombria. Adaptou obras literárias como Alice e Fausto. Sua obra Šílení (2005, Loucura) foi descrita como uma história de terror cômica que demonstra a influência do escritor americano Edgar Allan Poe e do nobre francês Marquês de Sade. Hmyz (2018, Inseto) é baseado na peça Ze ivota hmyzu (1921, A Peça dos Insetos) de Karel e Josef Čapek. A obra plástica de Jan Švankmajer nos acompanha nesta edição de Agulha Revista de Cultura em que é nosso artista convidado. Também podemos encontrar uma reveladora entrevista que lhe fez Floriano Martins, publicada em três idiomas.

  



Agulha Revista de Cultura

Número 265 | junho de 2026

Artista convidado: Jan Švankmajer (República Tcheca, 1934)

Editores:

Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com

Elys Regina Zils | elysre@gmail.com

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