sábado, 21 de março de 2026

Agulha Revista de Cultura # 264 | março de 2026

 

∞ editorial | A mesa de ofertas do tempo

 


 01 | O tempo tem muitas formas de fluir em nós. O seu espírito encontra ritmos distintos em nosso ser. Ou somos nós que o inventamos de acordo com nossas ansiedades e determinações. 2026 começa agora nesta edição # 264 da Agulha Revista de Cultura. A primeira edição do ano traz sua própria noção de tempo e se reconhece em suas dobras, no horizonte de cada uma de suas páginas virtuais. Nós sempre fomos uma revista marcada pelo acento de um tempo singular. Desde 1999 já alimentamos as mais diversas formas de fome do tempo. E o próprio espaço em que atuamos conserva consigo uma coleção de relógios com suas marcas entranháveis de sonho e vigília. Essa mistura valiosa do que somos e desejamos ser. O tempo de algum modo está em cada um de nós como fábulas que trocaram entre si as ampolas com a moral que lhes foi destinada. Alguém nos disse certa vez: Quando insistimos tanto no mesmo erro, alguma verdade deve haver ali. Nossa insistência talvez seja reveladora de um outro tempo. Talvez valha a pena esperar que algo aconteça. Enquanto isto, convidamos este múltiplo artista que é Rolando Topor (França, 1938-1997), vencedor do Grand Prix de L’Humour Noir em 1961, que bebeu dos surrealistas e respondeu-lhes com o movimento Pânico, fundado com Fernando Arrabal e Alejandro Jodorowsky, entre outros. Em sua obra, Topor nos leva para um mundo do avesso, e a crueldade animalesca, o erotismo, a escatologia e a tétrica ironia das suas obras valeram-lhe o desprezo de críticos, vários projetos ruinosos e ameaças de morte quotidianas. Ou seja, também nele o tempo se torna um elemento vital a ser preservado. Graças a uma sempre amável sugestão de João Antônio Buhrer, Rolando Topor agora está conosco como artista convidado desta edição da Agulha Revista de Cultura.

 


 02 | El tiempo fluye a través de nosotros de muchas maneras. Su espíritu encuentra ritmos distintos dentro de nuestro ser. O tal vez lo inventamos según nuestras ansiedades y determinaciones. 2026 comienza ahora en esta edición # 264 de Agulha Revista de Cultura. La primera edición del año trae su propia noción del tiempo y se reconoce en sus pliegues, en el horizonte de cada una de sus páginas virtuales. Siempre hemos sido una revista marcada por el acento de un tiempo singular. Desde 1999, hemos alimentado las más diversas formas de hambre de tiempo. Y el mismo espacio en el que operamos contiene dentro de sí una colección de relojes con sus marcas indelebles de sueño y vigilia. Esta valiosa mezcla de lo que somos y lo que deseamos ser. El tiempo, de alguna manera, está dentro de cada uno de nosotros como fábulas que han intercambiado los frascos con la moraleja destinada para ellos. Alguien nos dijo una vez: Cuando insistimos tanto en el mismo error, debe haber algo de verdad en ello. Nuestra insistencia puede estar revelando otro tiempo. Tal vez valga la pena esperar a que algo suceda. Mientras tanto, invitamos al polifacético artista Rolando Topor (Francia, 1938-1997), ganador del Gran Premio del Humor Negro en 1961, quien se inspiró en los surrealistas y les respondió con el movimiento Pánico, fundado junto a Fernando Arrabal y Alejandro Jodorowsky, entre otros. En su obra, Topor nos transporta a un mundo al revés, y la crueldad animal, el erotismo, la escatología y la sombría ironía de sus trabajos le valieron el desprecio de la crítica, varios proyectos ruinosos y amenazas de muerte diarias. En otras palabras, para él también el tiempo se convierte en un elemento vital que debe preservarse. Gracias a la siempre amable sugerencia de João Antônio Buhrer, Rolando Topor nos acompaña como artista invitado en esta edición de Agulha Revista de Cultura.

 


 03 | Time flows through us in many ways. Its spirit finds distinct rhythms within our being. Or perhaps we invent it according to our anxieties and determinations. 2026 begins now in this edition # 264 of Agulha Revista de Cultura. The first edition of the year brings its own notion of time and recognizes itself in its folds, on the horizon of each of its virtual pages. We have always been a magazine marked by the accent of a singular time. Since 1999, we have nourished the most diverse forms of hunger for time. And the very space in which we operate holds within it a collection of clocks with their indelible marks of dream and wakefulness. This valuable mixture of what we are and what we wish to be. Time, in some way, is within each of us like fables that have exchanged the vials with the moral destined for them. Someone once told us: When we insist so much on the same mistake, there must be some truth there. Our insistence may be revealing of another time. Perhaps it is worth waiting for something to happen. Meanwhile, we invited the multifaceted artist Rolando Topor (France, 1938-1997), winner of the Grand Prix de L’Humour Noir in 1961, who drew inspiration from the Surrealists and responded to them with the Panic movement, founded with Fernando Arrabal and Alejandro Jodorowsky, among others. In his work, Topor takes us to an upside-down world, and the animalistic cruelty, eroticism, scatology, and grim irony of his works earned him the scorn of critics, several ruinous projects, and daily death threats. In other words, for him too, time becomes a vital element to be preserved. Thanks to an always kind suggestion from João Antônio Buhrer, Rolando Topor is now with us as the guest artist of this edition of Agulha Revista de Cultura.

Os Editores 

 

 

∞ índice

 

ANTÓNIO CÂNDIDO FRANCO | Diogo Vaz Pinto, autópsia da anticrítica

https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2026/03/antonio-candido-franco-diogo-vaz-pinto.html

 

DAVID FRICKE | Frank Zappa, one size fits all

https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2026/03/david-fricke-frank-zappa-um-tamanho.html

 

ELYS REGINA ZILS | A tradutora como espécie companheira: Perspectivas ecofeministas na tradução de Druida, de Marosa di Giorgio

https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2026/03/elys-regina-zils-tradutora-como-especie.html

 

FLORIANO MARTINS | Uma cifra imaginária, a partitura natural de Itiberê Zwarg

https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2026/03/floriano-martins-uma-cifra-imaginaria.html

 

LORENA GUSMÃO DIAS | Floriano Martins, la música de un creador de mundos

https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2026/03/lorena-gusmao-dias-floriano-martins.html

 

LUZ HELENA CORDERO VILLAMIZAR | Las hermanas Brontë y la literatura como pasión e insumisión

https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2026/03/luz-helena-cordero-villamizar-las.html

 

PATRICK LEPETIT | Ithell Colquhoun, “Soror Splendidor Vitro” e surrealista

https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2026/03/patrick-lepetit-ithell-colquhoun-soror.html

 

FLORIANO MARTINS | Chá para dois – Uma conversa com Nelly Sanchez

https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2026/03/floriano-martins-cha-para-dois.html

 

SANTIAGO MONTOBBIO | Gaudí, aire nuestro

https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2026/03/santiago-montobbio-gaudi-aire-nuestro.html

 

SUSANA WALD & FLORIANO MARTINS | Los animales con que vivimos

https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2026/03/susana-wald-y-floriano-martins-los.html

 

Encarte especial

 

TAANTEATRO COMPANHIA | Da violência: Fanon

https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2026/03/encarte-especial-1-da-violencia-fanon.html

 

Libreto # 15

 

ADELTO GONÇALVES | Flávia Resende e a imagem mítica de Antígona revivida

https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2026/03/adelto-goncalves-flavia-resende-e.html

 

FLORIANO MARTINS | O maldito no feminino, de Maria Lúcia Dal Farra

https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2026/03/floriano-martins-o-maldito-no-feminino.html

 

GLADYS MENDÍA | Sobre Veios do horizonte, de Beatriz Saavedra Gastélum en su versión al portugués

https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2026/03/gladys-mendia-sobre-veios-do-horizonte.html

 

MARIELLA NIGRO | Hacia atrás, remando – Una lectura de Club, de Teresa Korondi

https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2026/03/mariella-nigro-hacia-atras-remando-una.html

 

R. LEONTINO FILHO | La encrucijada del abismo tras el espejo, sobre Tríptico de la Agonía, de Floriano Martins & Berta Lucía Estrada

https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2026/03/r-leontino-filho-la-encrucijada-del.html

 

 

DOCUMENTA | Poesia brasileira

 

ANDRÉ DE SENA (1975)

https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2026/03/andre-de-sena-1975.html


ISABEL CÂMARA (1940-2006)

https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2026/03/isabel-camara-1940-2006.html


LUCI COLIN (1964)

https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2026/03/luci-colin-1964.html


LÚCIO CARDOSO (1912-1968)

https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2026/03/lucio-cardoso-1912-1968.html


RIBEIRO COUTO (1898-1963)

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Rolando Topor


Agulha Revista de Cultura

Número 264 | março de 2026

Artista convidado: Rolando Topor (França, 1938-1997)

Editores:

Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com

Elys Regina Zils | elysre@gmail.com

ARC Edições © 2026


∞ contatos

https://www.instagram.com/agulharevistadecultura/

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FLORIANO MARTINS | floriano.agulha@gmail.com

ELYS REGINA ZILS | elysre@gmail.com

 




 

RIBEIRO COUTO (1898-1963)



Ribeiro Couto (Rui Ribeiro Couto), diplomata, poeta, contista, romancista, magistrado e jornalista, nasceu em Santos, SP, em 12 de março de 1898, e faleceu em Paris, França, em 30 de maio de 1963. Publicou o seu primeiro livro de poemas, O jardim das confidências, em 1921. Trabalhou em diversos jornais, até 1922. Participou da Semana de Arte Moderna e, em seguida, retirou-se para o interior de São Paulo, em tratamento de saúde. Naquele ano saíram os volumes de contos A casa do gato cinzento e O crime do estudante Batista. Residiu dois anos em Campos do Jordão, passando a exercer depois o cargo de delegado de polícia em São Bento do Sapucaí. Nomeado promotor público em São José do Barreiro, ocupou esse cargo até 1925, ano em que se transferiu para Pouso Alto, MG, em busca de um clima propício à sua saúde. Ali exerceu a promotoria pública até 1928. Nesse ano regressou ao Rio de Janeiro, entrando para o Jornal do Brasil como redator. Designado para o posto de auxiliar de consulado m Marselha, partiu em fins de 1928 para aquela cidade francesa, onde o cônsul-geral Mateus de Albuquerque o indicou para vice-cônsul honorário. Em 1931, foi removido para Paris, onde serviu um ano como adido junto ao consulado-geral. O governo provisório, por designação do ministro Afrânio de Melo Franco, em 1932, promoveu-o a cônsul de terceira classe. Foi 2º secretário de legação na Holanda, de 1935 a 1940; 1º secretário de legação, em 1942; encarregado de Negócios em Lisboa, de 1944 a 1946; ministro plenipotenciário na Iugoslávia, de 1947 a 1952; embaixador do Brasil na Iugoslávia, de 1952 até aposentar-se. Durante a sua permanência na Europa, ocupou-se também de divulgar a literatura brasileira. Não interrompeu a colaboração para o Jornal do BrasilO Globo e A Província (de Pernambuco), sobre literatura e acontecimentos do estrangeiro. Seu primeiro livro, O jardim das confidências, ainda é simbolista. Foi definido por Ronald de Carvalho como “intimista”, em virtude do tom de confidência, dos temas simples e cotidianos, próprios de uma tendência do período (1910-1920) de transição, herdeiro do Simbolismo, e que foi intitulado de Penumbrismo, um momento precursor do Modernismo, a que Ribeiro Couto se ligou a partir de 1922, sem sacrifício, contudo, de seu feitio peculiar. Escreveu versos em francês no livro Le jour est long (O dia é longo), pelo qual conquistou, em 1958, em Paris, o prêmio internacional de poesia, outorgado anualmente a poetas estrangeiros cuja obra honra a França. Suas obras em prosa, romances, contos, crônicas também refletem a mesma atmosfera, ao retratar episódios simples, a gente humilde dos subúrbios e a vida anônima das pequenas ruas e casas pobres.

 

 

A FRASE QUE SE ESQUECE

 

Na noite morta o céu resplandece, estrelado.

Em baixo, a confusão negra da casaria.

E eu, contemplando o céu de um veludo azulado,

nem sinto a noite, a noite morta, a noite fria!

 

Vem à minha memória uma frase esquecida.

Uma frase de há muito... Uma pequena frase...

Dessas que a gente vai deixando pela vida,

ditas a uma mulher que a gente amava, quase,

e que ficou também, como a frase, esquecida.

 

"Tu viverás em mim como um adeus distante..."

 

Ela era feia e desgraçada... Eu tinha pena.

Grave, não aceitei sua boca ofertante

quando ela veio um dia, humilhada e serena, Ela era feia e desgraçada... Eu tinha pena.

 

Como se abandonasse em meus braços, chorando,

eu, a passar-lhe a mão pelo rosto molhado,

a boca murcha, o olhar piedoso, o gesto brando,

sentimental como um poeta enamorado,

afastei-a, movendo a cabeça, negando...

 

Ela bem compreendeu a renúncia e a meiguice.

E porque fosse imensa a dor daquele instante,

querendo consolar a nós dois foi que eu disse:

"Tu viverás em mim como um adeus distante..."

 

Olhando agora o céu da noite adormecida,

pus-me a chorar, chorar silenciosamente,

sofrendo a dolorosa ironia da vida,

só porque, sem querer, me despertou na mente

aquela pobre fase esquecida... esquecida...

 

 

O ESTRANGEIRO

 

Andando eu por Paris num vago dia

De violetas e cinza pelo ar,

Senti que a vaga dor que me doía

Vinha mais do esquecer que do lembrar.

 

O Sena sob a chuva, como eu via,

Levando barcos lentos para o mar,

Era uma imagem da melancolia,

O adeus da Capital crepuscular.

 

A ninguém que passava eu poderia

Estender minha mão, querer falar,

Pedir fraternidade e companhia.

 

Era só, na paisagem milenar,

Paris de Santa Genoveva  ̶  e a fria

Sombra da noite sobre o boulevard.

 

 

̻HORIZONTES DE ZAGREB

 

A planície que passa está toda nevada.

Dormem as granjas, luz nenhuma se divisa.

No chão em movimento ainda é noite fechada,

Mas não deve tardar a manhã indecisa.

 

Aos poucos, neste escuro, há sinais de alvorada:

No nascente um primeiro azul se ruboriza.

Levanta-se do campo a névoa delicada

Com gestos de mulher que despe uma camisa.

 

Brancas, pelo horizonte ondulam as colinas.

Entre bosques, ao pé dos vales de entremeio,

Fumam as chaminés vermelhas das usinas.

 

Que é que faz com que tanto o coração me bata?

Como que tudo é meu e a nada sou alheio

No gracioso acordar da paisagem croata.

 

 

ILHA DISTANTE

 

Ilha de melancolia,

Sem portos e sem cidades —

Só praias de areia fria

E coqueiros com saudades;

 

Praias de uma areia morta,

Conchas que ninguém apanha,

Coqueiros que o vento corta,

Brandido por mão estranha;

 

Morta já à flor da onda

A espuma a sumir na areia;

Nenhuma voz que responda

Aos ais que o vento semeia;

 

Ilha deserta, deserta,

Nem sequer junto a outra ilha;

E à noite uma luz incerta

Que não se sabe onde brilha;

 

Ilha de um só habitante,

Com seu mar fora do mundo,

Mar que na maré vazante

Cava cem braças de fundo —

 

Ainda hás de ser a alegria

De um vaporzinho cargueiro

Que a ti chegará um dia

Perdido no nevoeiro.

 

 

SANTOS

 

Sobre a cidade a tarde cai de manso.

Começam a acender-se luzes mortiças

Nos longos mastros dos transatlânticos ancorados.

Como é longo o cais envolvendo a cidade inteira

Com os chatos armazéns e os guindastes em fila!

Como é longo o cais junto às águas oleosas!

 

Presos à amurada baloiçam botes vazios.

Vêm conversas confusas de marinheiros

Dentre vagões atulhados de carvão de pedra.

 

Nossa Senhora do Monte Serrat protege o comércio.

A igrejinha branca lá está, no alto do morro,

Abençoando a fadiga dos homens suarentos.

 

Junto a estas águas oleosas nasci.

Nasci para sonhar o bem difícil das viagens,

O encanto triste dos amanhãs do exílio.

O apito imenso das sereias, nas partidas,

Foi a música maravilhosa dos meus ouvidos de criança.

 

Ó transatlânticos com bandeiras enfeitadas,

Não é verdade que viestes para levar-me?





ROLANDO TOPOR (França, 1938-1997). Pintor, ilustrador, poeta, cançonetista, dramaturgo, encenador, cineasta e fotógrafo, artista impossível de catalogar, começou por destacar-se com os desenhos grotescos que publicou na revista satírica Hara-Kiri. Vencedor do Grand Prix de L’Humour Noir em 1961, bebeu dos surrealistas e respondeu-lhes com o movimento Pânico, que fundou com Fernando Arrabal e Alejandro Jodorowsky, entre outros. Em sua obra, Topor nos leva para um mundo do avesso, e a crueldade animalesca, o erotismo, a escatologia e a tétrica ironia das suas obras valeram-lhe o desprezo de críticos, vários projetos ruinosos e ameaças de morte quotidianas. Graças a uma sempre amável sugestão de João Antônio Buhrer, Rolando Topor agora está conosco como artista convidado desta edição da Agulha Revista de Cultura.

  



Agulha Revista de Cultura

Número 264 | março de 2026

Artista convidado: Rolando Topor (França, 1938-1997)

Editores:

Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com

Elys Regina Zils | elysre@gmail.com

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LÚCIO CARDOSO (1912-1968)



Lúcio Cardoso nasceu em Curvelo, Minas Gerais. Junto com os romancistas Otávio de Faria e Cornélio Penna e o poeta Vinicius de Moraes, Lúcio Cardoso é considerado expoente da literatura de cunho intimista e introspectiva que despontou no Brasil na década de 1930. Embora sua escrita costume ser associada à chamada literatura psicológica, iniciou sua carreira com dois romances de cunho sociológico, Maleita (1934) e Salgueiro (1935), com marcada mudança de rumo em Luz no Subsolo (1936). Sua literatura, a partir de então, prioriza o questionamento da condição humana e de valores como o bem e o mal, como nos romances Mãos Vazias, Inácio, Dias Perdidos e nas novelas O Enfeitiçado e Baltazar, dentre outras da década de 1940. Sua obra inaugura na literatura brasileira um mergulho no cerne do indivíduo moderno, em que os dramas, as dúvidas e os questionamentos existenciais se sobrepujam à descrição naturalista ou à crítica social. Sua obra-prima Crônica da Casa Assassinada (1959) é um dos livros mais cultuados da literatura brasileira, tendo sido traduzido para o francês,  italiano e inglês. A literatura de Cardoso teria imenso impacto sobre a obra de Clarice Lispector, de quem foi amigo e mentor, e a qual lhe dedicou uma ligação amorosa explicitada em sua correspondência. Ao longo das décadas de 1940 e 1950, Cardoso manteve colaboração ativa com a imprensa, escrevendo no jornal A Noite, entre outros. Essa época marcou também sua atuação mais intensa como autor teatral, com peças como Angélica, A Corda de Prata, e O Filho Pródigo, esta última a primeira obra brasileira encenada pelo Teatro Experimental do Negro, em 1947, com Abdias do Nascimento e Ruth de Souza. O envolvimento com o teatro abriu caminho para sua verdadeira paixão, o cinema. Em 1948, Cardoso escreveu o roteiro para o filme Almas Adversas (1949), dirigido por Leo Marten, e, no ano seguinte, escreveu e dirigiu A Mulher de Longe, longa-metragem inacabado, que foi tema do documentário do mesmo nome, realizado em 2012 por Luiz Carlos Lacerda. Apesar da frustração com esse projeto, sua relação com o cinema perdurou. Com Paulo César Saraceni realizou o primeiro longa-metragem do cinema novo, Porto das Caixas, do qual foi o roteirista. Após sua morte, várias de suas obras foram adaptadas para o cinema. Em 2015, por exemplo, seu texto inacabado Introdução à música do sangue foi transformado em filme homônimo de Luiz Carlos Lacerda. Lúcio Cardoso foi, no Brasil, uma das primeiras figuras culturais de destaque a assumir sua homossexualidade. Deixou em seu Diário (1958), escrito entre os anos de 1949 a 1958, relato bastante contundente sobre sua orientação sexual, assim como as dúvidas e culpas geradas por sua formação católica. Em 1962 teve um derrame cerebral, que paralisou o lado direito do seu corpo, impedindo-o de escrever. Passou então a se dedicar com afinco à pintura e chegou a realizar duas exposições em vida.



POEMA DO FERRO E DO SANGUE

 

Esqueceram os campos revolvidos

onde vegetam perdidos

os ossos obscuros

calcinados

de dez milhões de mortos.

 

Esqueceram as cruzes improvisadas

erguendo para o alto

preces de galhos retorcidos.

 

E esqueceram o rumor das granadas

revolvendo a terra e os vivos

devorando os mortos

destruindo.

 

 

A CASA DO SOLTEIRO

 

A casa do solteiro é alta e de paredes de angústia,

muros escorrem como verdes contornos

e colunas de mármore frio guardam seus limites.

Há quatro anjos sentados no teto solene e casto

e com luzes vermelhas, entre ciprestes,

sondam os anjos – guardiões – os fundamentos

que se apoiam com gemidos nos porões e adegas,

no rio escuro e na água morta

de correntes que foram vencidas – despedaçadas.

A casa do solteiro é cor de chama,

de silêncio aflito e aurora sem contemplação.

São pedras de crime e de agonia,

são negras pedras de delírio e de remorso.

São duras estacas de alumínio e febre,

são traves de cristais e de luxúria.

Há um descampado em torno: nostálgicos,

cemitérios se evaporam no crepúsculo

e ruínas de azul e ópio cintilam,

entre guitarras e navalhas abandonadas.

Há flores quentes e de carne, flores mesmas,

cor de whisky, de pêssegos feridos, e raízes

quentes de sofrimento e decomposição.

A casa do solteiro é o sol posto

quando perdemos a fé e o amor se foi,

o começo da noite quando não há horizonte,

a quilha partida e a lança sem gume.

A casa do solteiro se abre como a música,

é triste e macia, fechada como a do príncipe,

fechada, entre janelas longas de ferro,

enquanto lá fora o vento ruge e há relâmpagos.

Não há vertigem, e nem espaço, e nem sossego,

tudo sucede como se morrêssemos aos poucos,

os móveis andam, e nos olhares estranhos,

como róseos desmaios e garras de ultraje.

Se não fossem tão lúcidos, morreriam de cólera,

abraçando manequins de aço, corpos de rampas

em madrugadas de rompimento e viagens.

Esqueceriam as malas – e iriam muito altos,

olhando as hortas onde cresce o mato que assassina.

E estão quietas: jogam as cartas verdes

e suspiram impossíveis paisagens de mar.

Quatro anjos grandes velam no alto do telhado,

com quatro rosas voltadas para o mar,

a mais escura é que os guia. Rosas frias,

de pétalas aguçadas e de mortal traição.

A casa do solteiro é que eles elegeram,

ilha, jangada no silêncio do céu,

vasto navio abandonado e cheio de tormenta,

escândalo e aflição – a casa do solteiro flutua

50 e é como uma vasta cortina de sangue e maldição,

chorando as tardes, os corpos, o coração perdido,

tudo – neste silêncio único onde existe

como uma grande alma sozinha batendo

na infindável noite que não se acaba

e nem se acabará NUNCA,

A CASA DO SOLTEIRO.

 

 

RECEITA DE HOMEM

 

Depois deve ser alto,

sem lembrar o frio estilo da palmeira.

Moreno sem excesso para que se encontre

tons de sol de agosto em seus cabelos.

E nem louro demais para que, de repente

no olhar cintile algo da cigana pátria adormecida.

E que tenha mãos grandes, para demorados carinhos

e adeuses que se retardem ao peso do próprio gesto.

Pés grandes, também, por que não,

para que os regressos sejam breves

e haja resistência para as conjuntas caminhadas.

Os olhos falem, falem sempre, falem

de amor, de ciúme, de morte ou traição.

Mas que falem. Porque o homem sem a música dos olhos

é como sepultura exposta ao sol do meio-dia.

E que o riso relembre um pouco da infância,

para que se tenha, no fervor do beijo,

uma memória de pitanga e amora esmagadas

Ah, o corpo! Sucedam alvoradas ao longo do tórax gentil,

e escureça a penugem até o sexo velado.

(Mas não definitivamente.)

E o seu passo lembre a dança, mas com firmeza,

e o seu rastro fale de perfume, sem perfume

e escorram pausados rios em seus flancos hieráticos.

E que ele cante, sem cantar

por toda a sua humana contextura,

para que também em torno dele as coisas cantem,

quando, como o primeiro homem,

nu ele se erguer defronte ao mar.

 

 

ÚNICO POEMA DE AMOR

 

tudo tão calmo

a vida dormindo

como agora que tombasse sem murmúrio

na planície do meu pensamento …

folhas mortas que não voam,

pássaros imóveis que não cantam,

água parada que não corre …

e teu corpo como um lírio sobre a terra,

e a terra muda impregnada de perfume,

teus olhos grandes como flores noturnas,

flores que se abrem na doçura do silêncio

e minha sombra como uma nuvem perdida

debruçada sobre teus cabelos imóveis

que boiam na água da planície…

 

 

AMANHECER

 

A noite está dentro de mim,

girando no meu sangue.

Sinto latejar na minha boca

as pupilas cegas da lua.

Sinto as estrelas, como dedos

movendo a solidão em que caminho.

Logo o perfume da poesia

sobe aos meus olhos trêmulos, cerrados,

ouço a música das coisas que acordam

sobre o corpo negro da terra

e a voz do vento distante

e a voz das palmeiras abertas em raios

e a voz dos rios viajantes.

 

E a noite está dentro de mim.

Como um pássaro,

meu sonho ergue as asas no coração da sombra.

Ouço a música das flores que tombam,

o tropel das nuvens que passam

e a minha voz que se eleva

como uma prece na planície solitária.

 

Então sinto a noite fugindo de mim,

sinto a noite fugindo dos homens

e o sol que avança na garupa do mar

e as nuvens curvas que enchem o céu

como grandes corcéis de fogo cor-de-rosa

desaparecendo sugados pela treva.





ROLANDO TOPOR (França, 1938-1997). Pintor, ilustrador, poeta, cançonetista, dramaturgo, encenador, cineasta e fotógrafo, artista impossível de catalogar, começou por destacar-se com os desenhos grotescos que publicou na revista satírica Hara-Kiri. Vencedor do Grand Prix de L’Humour Noir em 1961, bebeu dos surrealistas e respondeu-lhes com o movimento Pânico, que fundou com Fernando Arrabal e Alejandro Jodorowsky, entre outros. Em sua obra, Topor nos leva para um mundo do avesso, e a crueldade animalesca, o erotismo, a escatologia e a tétrica ironia das suas obras valeram-lhe o desprezo de críticos, vários projetos ruinosos e ameaças de morte quotidianas. Graças a uma sempre amável sugestão de João Antônio Buhrer, Rolando Topor agora está conosco como artista convidado desta edição da Agulha Revista de Cultura.

  



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Número 264 | março de 2026

Artista convidado: Rolando Topor (França, 1938-1997)

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