Digo
comigo mesmo que não devo voltar a página sem associar o ano de 1924, em que
Freud publicou a Autobiografia, ao aparecimento do primeiro manifesto do
surrealismo, da autoria de André Breton. É o momento crucial da fundação do
movimento, com um texto fundador, se bem que desde 1919 se possam detectar e em
larga escala os trabalhos preparatórios de grupo. No magma em que estou a
trabalhar esse texto interessa muito pelas relações com a teoria freudiana – os
trabalhos preparatórios acima referidos, com textos automáticos e anotações de
sonhos, foram todos concebidos e desenvolvidos debaixo do influxo das técnicas
psicanalíticas que Breton conhecia desde o meado da guerra de 1914-18 – e pelo
que nele se encontra, ao menos em estado embrionário, relativo a Platão e aos
seus desenvolvimentos.
Começo pela
designação do movimento que aparece no letreiro do primeiro manifesto,
surrealismo, manifeste du surréalisme. O nome, que na portuguesa língua
teve hesitações várias – O’Neill numa carta a Cesariny de Setembro de 1947 diz
por exemplo: passo a expor os meus projectos quanto a um possível movimento
super-realista (creio ser este o vocábulo a adoptar) português (in As
Mãos na Água a Cabeça no Mar, 1985: 294) – antes de se fixar naquela
que acabou por vingar e que hoje é corrente, adaptação directa do francês,
surrealismo, tem informes vários no manifesto de 1924, de modo a explicitar o
seu sentido, ou o que com ele pretendia Breton, o que se entende pela novidade
muito recente do vocábulo e o seu pouco ou nenhum uso, já que havia sido criado
em 1917-8 por Apollinaire para classificar em subtítulo, drame surréaliste,
sem mais, um livro seu, Les Mamelles de Tirésias. Significativa nesse
capítulo é a aproximação que Breton faz entre o que pretende dizer com a
palavra e aquilo que dois autores do século anterior, Carlyle em 1833-4 e
Nerval em 1853, disseram quando usaram a palavra super-naturalismo, o
primeiro no oitavo capítulo de Sartor Resartus e o segundo na
dedicatória das Filhas do Fogo. Em relação a Nerval, Breton chega mesmo
a dizer que ele possuiu no seu tempo, não a letra da palavra, que cabe a
Apollinaire, mas o seu espírito.
O prefixo tal
como Nerval o usa em supernaturalisme quer dizer acima de, o que
de resto coincide com o prefixo da palavra escolhida por Breton, o que dá no
primeiro caso acima do naturalismo e no segundo acima do realismo.
Entende-se assim a escolha de O’Neill ao procurar adaptar a palavra à língua; super-realismo
como aquilo que excede ou está acima do real. Posso ainda aceitar que o
elemento de formação inicial da palavra pode ser traduzida pela ideia que está
num outro prefixo da língua, supra, o que dá, e talvez melhor, que o
super-realismo é também o supra-realismo, e digo melhor já que super-realismo
se pode confundir, o que desastroso seria, por via da hipérbole, com
hiper-realismo. Neste caso tenho simplesmente um realismo grande, no
outro um além do realismo; a diferença é como se poder ver abissal. Nada
de tão estranho pois ao realismo, seja hiper ou mini, ou apenas médio, como o
surrealismo.
Nesta pesquisa
sobre o valor da palavra no momento da sua criação vale a pena trazer aqui um
outro parágrafo do manifesto, que reputo talvez o de maior alcance em todo o
conjunto. Breton abre o manifesto com considerações sobre o sonho, o que se
entende dada a importância do sonho na vida geral e nos trabalhos preparatórios
a que o autor e os seus amigos se entregavam desde há anos. Demais o sonho fora
o instrumento de que Freud se servira para justificar a presença autónoma da
segunda consciência e a pressão da sua lógica junto da primeira. Se os
conteúdos manifestos recalcados conseguiam furar o interdito do esquecimento
que a primeira consciência lhes impunha isso se devia em primeiro lugar ao
sonho. O sonho era a solução de compromisso que a primeira e a segunda
consciência estabeleciam entre si; nesse pacto, a primeira consciência abria a
porta aos conteúdos recalcados desde que estes procedessem por deslocamentos de
sentido, quer dizer, desde que recorressem a metáforas ou símbolos de disfarce
para se manifestarem; pelo seu lado a segunda consciência, para furar o
bloqueio a que estava sujeita, acedia em disfarçar os seus conteúdos, criando
tramas desconexas e sem sentido. O trabalho da análise era assim deslindar os
símbolos de disfarce, peneirando ou revelando os conteúdos recalcados que sob
forma simbólica a primeira consciência acedera em receber.
Depois de tecer algumas
considerações sobre o sonho, de permeio com outras sobre a realidade e a
consciência acordada, que com o sonho contrasta, o autor tem a seguinte
exclamação: Creio na resolução futura destes dois estados, na aparência tão
contraditórios, que são o sonho e a realidade, numa espécie de realidade
absoluta, de surrealidade, se assim se pode dizer. Espantoso, não
posso deixar de exclamar! Antes mesmo de falar de surrealismo Breton fala de
surrealidade, quid do surrealismo, se
assim posso dizer. E que diz ele? Que a surrealidade é uma realidade
absoluta, que resulta da conciliação entre a realidade sensível, da
primeira consciência, e o sonho, que é a realidade, mesmo que disfarçada
ou travestida, da segunda consciência.
Novalis falou dum real absoluto; Frederico Schlegel dum real autêntico por contraste com o real
sensível. Como
não ver essa espécie de realidade absoluta de que fala Breton,
resultante da conciliação entre a realidade dos sentidos e o sonho, como o real
absoluto de Novalis, de resto citado no texto de 1924 a partir do paralelismo,
mas não da homologia, entre séries ideais de acontecimentos e séries reais. E já agora
como não ligar, ao menos por um cordão de luz, essa surrealidade ao mundo das
ideias platónicas e à topografia do extra-mundo, com um litoral próximo e bem
demarcado e um oceano distante e indefinível, tal como a regista um platónico
como Sohravardi? A ligação é por demais evidente, para precisar de insistir
nela. Ainda assim paga a pena acrescentar que a surrealidade está referida ao
surreal e que este se entende como supra-real, quer dizer, o além mundo tal
como o encontrei nas experiências do sujeito lírico de Teixeira de Pascoaes no
livro Sombras.
Sombras, noto
agora? Sim, espera do entardecer do dia, anseio crepuscular, e exaltação febril
da noite escura pelo autor que pouco depois, por certo no seguimento deste
livro de 1907, escreveria Senhora da Noite (1909). Quer ver o leitor um
exemplo desta exaltação? Pois aí o tem no poema “A Sombra de Deus”, que continua
“A Sombra da Noite”: Noite maravilhosa que, em seu ventre,/ Dilatado, sentia
germinar/ Um braseiro de sóis, donde saíam,/ Como extintas faúlhas a voar,/
Grandes lágrimas de água e terra escura.// A Noite anterior, primeiro estado/
Fluídico e invisível da Matéria;/ Um sentimento apenas, desmaiado/ Sopro de
sombra, errando no Infinito.../ A Noite originária, espectro enorme,/ Que em si
continha a estranha Natureza;/ (...)// Aquela Noite universal de outrora,/
Donde tudo descende; e em nosso corpo,/ Humanizado e vivo, grita e chora/ E em
nosso coração é sombra pálida!// Ó resíduos da Origem, do Princípio!/ (...)// Ó
Noite universal, Noite de horror;/ Mas Noite criadora e maternal!/ (...)// O
tempo é noite; o espaço é noite; a luz/ É noite; o som é noite... Ó Noite
imensa/ Feita de sóis, de pedras, de alvoradas!/ (...)// Ó Noite criadora! Ó
Noite escura!/ Ó tenebrosa mãe de Satanás!
A noite apaga a
realidade sensível e revela o além mundo, o supra-real ou o real autêntico e
absoluto dos românticos alemães; a noite é o lugar origem, um mundo de
anti-matéria, de vazios ou de fogos estelares. Experiências de além mundo só de
noite se experimentam. Sem essa câmara escura, exterior ou interior, impossível
contemplar as estrelas ou as ideias. As viagens ao supra-real são nocturnas,
quer dizer, a resolução da oposição entre a realidade sensível e o sonho
necessita dum estado crepuscular, translúcido, em que as tinturas profundas da
noite se misturem ao brilho de esmalte, opaco, do dia. Vejo agora que esta
resolução a favor dessa nova realidade absoluta que é o supra-real tem tradução
em linguagem freudiana. Assim: resolver a oposição entre o sensível e o sonho
imaterial, chegar ao estado translúcido crepuscular, é permitir e incentivar o
pacto e a ponte entre as duas consciências. É a mascarada dos símbolos a
invadir a primeira consciência, a poesia a tomar conta da vidinha, a noite a
beber o dia.
O bailado dos
símbolos fica já a um passo de distância deste mundo; a atmosfera onde eles
dançam é rarefeita, perdeu espessura e gravidade. Que baile de máscaras! Que
corso carnavelesco! Que fábula! Dito doutro modo: a mascarada dos símbolos que
a segunda consciência tece para invadir a primeira, trabalho fabuloso, pertence
já ao mundo das imagens, ao inter-mundo, essa superfície exterior e perceptível
do extra-mundo platónico, e não ao chão material, grave e denso, da Terra.
Posso daqui tirar um novo fio: a terra do inter-mundo, mesmo não sendo ainda a
das ideias, é a terra das imagens ou dos arcanos. Terra? Porventura não. Se quiser
um símile adequado, direi mais nuvem que terra, mais éter que pedra, mais
sublimação da matéria que condensação ou solidificação dela.
Não posso fechar
sem associar o bailado dos símbolos que aqui se intrometeu, e que em linguagem
freudiana é a possibilidade contratual que os conteúdos da segunda consciência
têm de aceder à primeira, ao manifesto do surrealismo de 1924. Às tantas, no
momento em que dobra o meridiano do texto, Breton define, como um dicionário o
faria, de forma sintética, o surrealismo. E a definição que apresenta para esse
nome masculino (n.m.) é a seguinte: automatismo psíquico puro pelo qual se
exprime, seja verbalmente, seja por escrito, seja de qualquer outro modo, o
funcionamento real do pensamento. E ainda: Ditado do pensamento, na
ausência de qualquer controle exercido pela razão, à margem de qualquer
preocupação estética ou moral. O automatismo psíquico puro que o autor aqui
apresenta como sinónimo de surrealismo implica o contrato das duas
consciências, pois não pode haver funcionamento real do pensamento, ou captação
deste fora de qualquer censura, sem a possibilidade de dar lugar aos conteúdos
da segunda consciência. E pouco interessa a natureza destes para aquilo que
aqui se explicita. Na verdade pergunto-me se em Freud os conteúdos sexuais da
segunda consciência, tanto ou nada valorizados, não são afinal homólogos
daqueles que se agitam no extra-mundo de Platão, em cujo centro está o Amor.
Não importa!
Importa, sim, para já reter o quanto a poesia como trabalho de imagens analógicas,
construção de metáforas, é idêntica ao sonho e ao automatismo psíquico puro.
Talvez o leitor ainda não tenha alcançado o sentido deste. Tente-se uma
derradeira aproximação. O automatismo psíquico é o que permite a mascarada dos
símbolos; sem ele não há baile de máscaras.
E já agora a
propósito de símbolos paga bem a pena recorrer a Pítágoras de Samos e a um
tempo anterior a Platão. Consciente de que as coisas sensíveis são mensuráveis,
Pitágoras viu na expressão dessa medida a possibilidade de contactar com a alma
de cada coisa. Formou-se assim nos eleáticos, a ideia de que conhecer é
encontrar um número e que o número, revelando aspectos essenciais do mundo das
coisas, participa já da alma oculta dessas mesmas coisas. Não deixa de
impressionar a possibilidade de traduzir ou até de decalcar o pitagorismo em
linguagem freudiana: o número é o símbolo que a segunda consciência produz se
para poder manifestar no nível básico da consciência ou do mundo sensível.
*****
Capítulo integrante
do livro Notas para a compreensão do
Surrealismo em Portugal, gentilmente cedido pelo autor. Para conhecer
melhor vida e obra de António Cândido Franco, visite: http://literaturaliteraturaliteratura.blogspot.com.br/2014/02/conhecer-antonio-candido-franco-vida-e.html. Página ilustrada com fotografias de Teresa Sá Couto.
Nenhum comentário:
Postar um comentário