quinta-feira, 10 de agosto de 2017

JAGUAR & AMIGOS DA ONÇA | Belchior n’O Pasquim, 1982


Esta entrevista demorou pra acontecer mais que punheta de preguiça: 10 anos. Nesse ínterim Belchior ficou famoso, virou objeto sexual, o diabo a quatro. Às vezes a gente podia, ele não, aí ele sim, nós não, aí os dois podiam, mas discávamos e íamos tomar vinho, de preferência estrangeiro, porque é um pau-de-arara sofisticado, fuma charuto cubano, lê Virgílio no original. Mas agora pegamos o homem. Nos juntamos, Haroldo Zager, Ricky, Mara Tereza, mais eu mais o Bel na Taberna do Jaguar (perdão, leitores) dentro da Cantina Bolognesa. A entrevista, com fartos comes e bebes, providenciados pelo Rogério, adentrou pela noite, como o trem das onze. É isso aí. [Jaguar]

JAGUAR | Belchior, a primeira vez que te vi foi em 72, 73, batendo papo na casa de Sérgio Ricardo (cantor e compositor), você bem tipo retirante. Tomamos uma cachacinha e armamos o negócio do Disco de Bolso, que foi o teu lançamento como autor.

BELCHIOR | Bom, eu tinha vindo pro Rio de Janeiro em 70-71. Sou do norte do Ceará, do Sobral. Família nordestina típica de 23 filhos. Nordestino trabalha de dia e de noite: de dia no arado e de noite na aranha. Sou o 13, o galo. Vivo de canto e beleza. Meu pai pretendia fazer os 25 bichos (se referindo ao jogo do bicho), mas parou no 23, o urso, porque não queria veado nem vaca. Mas é interessante isso de ter muitos irmãos. No meu caso, destinado à vida artística, já tinha plateia em casa.

RICKY | Quantos ficavam do lado do palco?

BELCHIOR | Ninguém se dedicou profissionalmente à arte. Meu avô, um coronel do sertão, tocava sax e flauta. Minha mãe cantava no coro de igreja. Foi ouvindo eles, as músicas de violeiros, o serviço de alto-falante, que comecei a gostar de música. O alto-falante era uma maravilha, sonorizava toda a amplidão do sertão.

HAROLDO ZAGER | Quais eram os sucessos do lugar?

BELCHIOR | a GENTE OUVIA Cauby Peixoto, Nora Ney, Anísio Silva, Pixinguinha, Jacob do Bandolim, alguma música internacional… Muita música do Sul, instrumental, choro, mas quem dominava era Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, e mais recentemente o João do Vale.

RICKY | Você era desses garotos que cantavam?

BELCHIOR | Nunca tive muita inclinação para cantar. Meu grande desejo mesmo era escrever, fazer poesia. A primeira vez que cantei mesmo foi no coral do colégio dos padres, com 17, 18 anos. Estudei três anos no colégio dos frades franciscanos e lá fiz muitos hinos religiosos, salmos, essas coisas, que eram musicadas por um noviço que tocava órgão.

RICKY | Qual órgão?

HAROLDO ZAGER | O diapasão lá era apito-de-chamar-anjo?

BELCHIOR | Órgão harmônico.

RICKY | De onde vem esse nome: Belchior?

BELCHIOR | Meu nome é Antonio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, portanto, um dos grandes nomes da música popular brasileira. Carlos Gomes foi em homenagem ao compositor campineiro, e Belchior é um nome tradicional no Nordeste. No meu caso italianizei um pouco, porque normalmente você pronuncia Belshió, mas quando cheguei na universidade o pessoal começou a me chamar de Belquiôr, e aí achei interessante.

JAGUAR | Você é um dos 2% dos nordestinos que chegaram à universidade. Seu pai devia ser muito rico. Se eu tivesse 23 filhos, nenhum chegaria à universidade, e eu não chegaria nem à esquina, cercado pelos credores.

BELCHIOR | Essa quantidade de filhos no Nordeste é comum, porque a gente nasce muito e morre muito.

JAGUAR | Tem essa vantagem.

BELCHIOR | Na minha família morreram sete, todos crianças. Quer dizer, minha família participa com esse acréscimo no índice de mortalidade infantil do Nordeste.

JAGUAR | Mas vocês do Nordeste vão continuar fodidos por muito mais tempo. Agora, por exemplo, o Brasil vai comprar 50 bilhões de dólares em armas pra defender o Atlântico Sul, enquanto não gasta nem cinco dólares pra defender o Nordeste.

BELCHIOR | É preciso não esquecer o enorme espírito separatista existente no Nordeste. O Nordeste poderia ser autônomo em petróleo, autônomo em criação bovina, caprina…

RICKY | Autônomo em compositores cearenses…

BELCHIOR | Gerardo Mello Mourão já tem alertado pra esse sentimento separatista, que vem se acentuando a cada instante, na medida em que o Brasil Grande, o Brasil do Milagre, continua oprimindo o Nordeste. Tive a péssima notícia agora de que os homens investidos no poder em São Paulo estão querendo expulsar os imigrantes. Se tirarem os nordestinos de São Paulo, a Locomotiva do Brasil vai virar a Maria Fumaça do Brasil.

RICKY | Mas agora com a Rede Globo – aí tô falando de todos os veículos e culturas que massificam o país – essa separação ficou difícil.

BELCHIOR | Eu preferiria que outra coisa fosse o elemento integrador do Brasil. Não por nada, é que existem sentimentos mais importantes que uniriam o Norte, o Nordeste, Sul, Leste e Oeste brasileiros. Mas não está sendo um bom negócio por nordestino pagar tantos impostos e receber tão pouco da Federação.

JAGUAR | O carioca aí é tão explorado pela União quando o Nordestino. De cada 100 cruzeiros arrecadados em impostos, só ficam 4 aqui.

BELCHIOR | Outra coisa para a qual se deve chamar atenção é a pauperização. O interior do Brasil se tornou imensamente pauperizado com o planejamento e a programação “milagrosa”, de salvação nacional, do Centro-Sul.

JAGUAR | A Política do Planalto é essa: empobrecer para dominar.

BELCHIOR | Revisando a máxima: divide e impera. Pede outro vinho, Haroldo.

RICKY | Vamos falar do lado religioso de sua vida.

BELCHIOR | Estudei muito tempo em colégio de padre, em Fortaleza, no Sobral, e, dois anos como noviço franciscano, num mosteiro no interior do Ceará. Nesse tempo completei o curso de Filosofia, o que foi muito importante, tendo aprendido latim, pois podendo ler os textos no original me desvencilhei de todo o entulho religioso que até ali tinha atravancado minha cabeça. Ainda hoje leio os textos religiosos tradicionais – Bíblia, São Tomás de Aquino, Santo Agostinho – em latim.

HAROLDO ZAGER | Por que você entrou nessa? Pela família?

BELCHIOR | Não, até por rebeldia, porque minha família queria me destinar ao bacharelato nordestino. Advogado, engenheiro ou médico, eram as carreiras que davam status. Achei interessante a experiência religiosa, numa boa, porque foi ela que me revelou a negação de Deus e dos valores religiosos. Quem quiser tornar seu filho avesso à Religião basta por no seminário.

JAGUAR | Não precisei de tanto: bastou me colocar num colégio marista que virei ateu.

HAROLDO ZAGER | Quais eram suas obrigações?

BELCHIOR | Eram rigorosíssimas, desde levantar no meio da noite para cantar salmos, acordar de madrugada para entoar o Ofício Divino, a uma disciplina rígida totalmente voltada para a austeridade.

HAROLDO ZAGUER (insinuando) | Era todo mundo austero mesmo? Levavam a sério?

BELCHIOR | Claro. Naturalmente, tinha a imagem da Virgem amamentando o menino… cabras pastando solenes no meu jardim… algum padre que convida a gente pra mostrar a coleção de santinhos… Isso é importante porque desmistifica logo a condição religiosa.

HAROLDO ZAGER | Você teve alguma experiência homossexual lá dentro?

BELCHIOR (pensa) | Tive muita notícia. Eu era muito criança, era virgem ainda. E tinha um voto religioso de castidade. Fui muito disciplinado, me livrei disto justamente por ter exaurido a experiência até o fim. Mas ouvia notícias de padres superiores, consideradas por nós como escabrosas.

JAGUAR | Você ficou virgem até os 19 anos?

BELCHIOR | Isso é uma raridade no Nordeste, onde a coisa sexual é mais natural, pela aproximação entre as pessoas e com a Natureza (ri). Mas tenho tirado bem o atraso (sério, enchendo a taça). Mas não considero esses dois anos e meio como tempo perdido, a ser recuperado. Teve coisas importantes como aprender a beber vinho, e fabricar vinho, e, como você está constantemente na presença de Deus, que é estar na presença do nada, aprende a não ter medo do desconhecido. Pro Homem Contemporâneo essa é uma experiência maravilhosa.

HAROLDO ZAGER | Mas ao mesmo tempo aprender a temer Deus.

BELCHIOR | Do ponto de vista religioso, você é orientado a amar a Deus mais do que temer, mas chega realmente à conclusão de que isso é amar ao nada, percebendo que os valores religiosos são anacrônicos, absurdos, sem ter a ver com a realidade. Isso dá uma tranquilidade sem angústias nem remorsos místicos.

RICKY | E o remorso por estar servindo aos ricos e poderosos?

BELCHIOR | Minha relação com a Igreja foi significativa porque entrei para uma ordem religiosa que faz voto de pobreza, de uma pessoa a quem admiro muito que é Francisco de Assis. Claro, existe uma diferença enorme entre Evangelho, Catolicismo e Cristianismo. O Evangelho tem todas suas contradições históricas, textuais, gramaticais. O Catolicismo é a instituição de poder da Igreja, e sempre esteve no atendimento à sua clientela de poder, participando das lutas pelo poder, do estabelecimento da instituição, autora de 200 anos de repressão sexual, religiosa e institucional. Essa nunca me interessou. Me interessara o Evangelho de Cristo, algumas figuras histórias, e figuras de hoje como Dom Hélder, Dom Evaristo, Pedro Casaldáliga, pessoas que estão ao lado do homem, do pobre, do oprimido, do órfão, da viúva, contra o poder estabelecido.

[Pausa para os pedidos do jantar: fettuccine, provolone etc.]

JAGUAR | Essa entrevista tá muito séria. Fala aí da sua experiência como coroinha do Padre Bezerra.

BELCHIOR | Padre Bezerra era um vigário do interior do Ceará, a figura do vigário tradicional do sertão, que transava com o prefeito, com o político, casava os amancebados, batizava e crismava, e em troca disso recebia as propinas do sertão? Galinha, cabra, jerimum. A gente saía de jipe, de dia e de noite, viajando por aquelas estradas poeirentas, celebrando missas em capelinhas pequenas, com muito morcego. Então nasciam histórias fantásticas.

JAGUAR | Conta uma

BELCHIOR | Uma vez a gente estava no interior do sertão do Ceará e veio um sertanejo falar com Padre Bezerra: “Padre, quero celebrar uma missa para defunto”. “Mil cruzeiros, meu filho. Missa com catafalco, incenso, vela acesa e com canto.” O sertanejo falou: “Mas Padre Bezerra, é muito caro.” “Tá certo, meu filho: Missa só com incenso, canto e vela, sem catafalco: 800.” “Tá caro…” “Então vamos tirar as velas: fica missa com canto e incenso, 500.” “Tá caro…” “Vamos fazer o seguinte, meu filho: uma missa simples, sem vela, sem incenso, sem canto, sem catafalco, missa pura e simples, 300 paus. Agora lhe digo uma coisa: essa missa e merda é a mesma coisa.”

JAGUAR | Conta outra.

BELCHIOR | Chegamos no interior do Ceará, fomos pra sacristia, Padre Bezerra estava vestindo os paramentos, um sertanejo chegou e disse: “Padre, eu quero celebrar uma missa”. “Meu filho, 500 cruzeiros de espórtula”.

RICKY | Espórtula?

BELCHIOR | É o nome do pagamento. A igreja é hipócrita, né, e ao invés de falar em pagamento inventa uma palavra bonita.

JAGUAR | É o cachê.

BELCHIOR | É, o michê. O sertanejo falou: “Não dá pro senhor baixar um pouco?” “Não dá, meu filho.” O sertanejo ficou triste, tirou o chapéu, botou no peito, disse assim: “Ó, seu vigário, inclusive eu trouxe aqui essa galinhazinha pro senhor…” “Então me dá essa galinha” E celebrou a missa. Depois falei com ele: “Mas Padre Bezerra, o senhor celebrou a missa por uma galinha! Cumé que o senhor faz uma coisa dessas?”  “Deixa de besteira! Uma missa celebrada por mim e ajudada por ti não vale nem uma galinha dessas!”

RICKY | Como foi que você largou o convento?

BELCHIOR | Foi uma saída triunfal, uma vitória enorme. Eu não tinha coragem nem de dizer pro superior que tava com vontade de sair, mas já tinha começado a namorar com uma menina, que me deu de presente um charuto cubano e mil cruzeiros. Todo dinheiro que a gente recebia de fora tinha que entregar ao superior, e aquele eu guardei. Depois do almoço – uma festa religiosa em que tomei um belíssimo vinho italiano – me deitei numa rede nordestina, comecei a fumar o charuto, e pensei: “Daqui a meia hora vou falar com o superior que vou-me embora dessa casa e nunca mais eu volto”. Entrei na sala dele fumando esse Montecristo, que de cristão só tinha o final do nome, falei, e nem quis ouvir a resposta. Fui-me embora. Saí. Na primeira banca de jornal em que parei, depois de três anos sem poder sair à rua, vi uma notícia de jornal condenando os quadro cabeludos de Liverpool. Li aquilo apavorado. Quando cheguei em casa, ouvi “Love me do”, músicas dos Beatles traduzidas, cantadas por Márcio Greyck e Ronnie Von. Fiquei maravilhado pelo que estava acontecendo, sobretudo porque essas músicas têm uns arranjos religiosos. “Eleanor Rigby”, só de cordas, é quase à moda gregoriana. Foi aí que começou realmente a música. Comprei um violão e comecei a tocar. Dois meses depois estava enfrentando o vestibular para a Escola de Medicina.

RICKY | Com essa deserção você não tem medo de ir pro inferno, ficar ardendo nas chamas das profundezas?

BELCHIOR | Primeiro, não quero ser imortal, nem na Academia. A mortalidade é uma graça da Humanidade. Seria chatíssimo viver para sempre. Segundo, não tenho nenhum receio do sobrenatural. Somos nós mesmos que temos que resolver nossos problemas. Temos que nos defrontar é com nossos semelhantes mesmo, sendo sinceros, honestos e humanos.

[Chegam os pratos. Interrupção na entrevista. Deixamos a religião para tratar do estômago. Algum tempo depois, reiniciamos.]

JAGUAR | [ilegível] …entrando com outros amadores e amantes da música em Fortaleza?

BELCHIOR | Sempre fui tímido com relação a me aproximar de pessoas que estivessem fazendo alguma coisa. Frequentava bares aonde não ia ninguém. Mas na minha candidatura ao cargo de secretário do DCE fiz a campanha com música, cantando em todas as classes, mais ou menos com fez Rafael Alberti na sua volta à Espanha, candidatando-se a deputado. Só que decretaram-me inelegível e não pude ser empossado.

RICKY | Você participou do movimento estudantil de ‘68?

BELCHIOR | Participava, mas de forma alternativa, achando que devia seguir outro rumo, pois era voltado à própria instituição, quando cabia ao universitário repensar todo o ato político brasileiro naquele momento. Por exemplo: eu achava que cabia aos estudantes pensar as alternativas para uma mobilização política que não fosse capitalista ou socialista. Queria uma experiência anarquista, no sentido mais rígido da palavra, uma experiência desordenadora. Imaginava que podíamos aproveitar a oportunidade do movimento estudantil pra ser algo mais que caudatário do movimento político institucional. Pretendia uma coisa mais concreta e inovadora do que fazer passeatas de abaixo o imperialismo. Mas ao ultrapassar o movimento retórico fui vencido.

RICKY | O pessoal de ‘68 continuava agindo como nossos pais?

BELCHIOR | Ah, minha música colocou isso de modo mais nítido e possível. Acho o seguinte: sem prática anarquista, não dá pra reformar ou transformar as sociedades. Mesmo nas democracias, existe excesso de poder. O Governo deve ser um organismo de serviço e não de autoridade. O critério de manutenção do poder deve ser a competência em prestar esse serviço. Devemos lançar fora esse negócio de carisma, de visão mística da autoridade, ligada a preconceitos religiosos antigos. A visão contemporânea do poder hoje é a Pax Mercatoria, a paz dos interesses.

JAGUAR | Peraí, mas isso nem parece papo de compositor. E você não respondeu a minha primeira pergunta.

BELCHIOR | Através dos festivais, enturmei com os compositores cearenses: Fagner, Ednardo, Rodger, Teti, Fausto Nilo, e tal. Sou parceiro de todos os compositores que estão aí. Fui o produtor do primeiro programa de TV em Fortaleza que reuniu esses compositores, o “Porque hoje é sábado”, na apresentação de Gonzaga Vasconcelos, hoje na TVE do Rio. Fui o pioneiro desses percurso da música nordestina, o primeiro que teve a coragem de enfrentar Rio-São Paulo.

RICKY | Como foi sua chegada no Rio?

BELCHIOR | Passei dez dias em Fortaleza esperando oportunidade de viajar pelo Correio Aéreo Nacional. Como eu estava muito cabeludo, o comandante disse que eu não podia viajar em avião que comandava, e tive que descer em Salvador e cortar o cabelo. Não conhecia ninguém no Rio de Janeiro, sequer a cidade.

HAROLDO ZAGER | Qual era teu plano então?

BELCHIOR | Como eu entendia que trazia um trabalho nordestinamente novo, imaginava que iria chegar, apresentar isso, e os homens de rádio, disco e televisão se sensibilizariam.

HAROLDO ZAGER | Coisa de quem ficou dois anos em seminário.

BELCHIOR | Coisa de quem ficou muito tempo imaginando o Brasil visto do Nordeste. Eu tinha fascinação e sedução… [ilegível] …no rádio e na televisão, visualizava o Rio como um lugar livre, permissível, brilhante, onde acontecia as coisas artísticas e políticas. Todo o ambiente da Corte Antiga. Uma visão do Rio como deflagrador das energias nacionais, de grandes acontecimentos, onde as contribuições da cultura nova do Mundo ressoavam.

JAGUAR | Antes do Rio ser um balneário era assim.

RICKY | Como é que você fez para viver no Rio?

BELCHIOR | Ajuda de amigos. Morei em 26 lugares diferentes. Marechal Hermes, Tijuca, Leblon, Copacabana, Méier, Madureira, Ilha do Governador, Grajaú, três meses na Praia de Copacabana, dormindo na areia, dormi muitas vezes na Praia do Lido, em frente ao Bierklaus por achar mais seguro, fui perseguido pela polícia na Central do Brasil, jo Jardim de Alá, na Estação da Luz em São Paulo…

JAGUAR | Conta o lance do cidadão que te acordou, numa noite em frente ao Bierklaus.

BELCHIOR | Eu estava lá guardando meu banco pra poder dormir nele à noite. Tinha um hippie tradicional, bata, cabelo grande, incenso, passeando por ali querendo se deitar. Falei com ele: “Não tem papo, cumpadi. Durmo aqui há dois meses.” E me estendi logo. Daí a pouco fui acordado por um sujeito: “Cumequié amizade, você quer entrar numa buate e tomar um fogo comigo?” Segui ele, meio estremunhado. Entramos na boate, o cara logo começou a dançar, e perguntou o que eu queria beber. Tava com muita fome, falei: “Ó cara, quero um leite quente” “Leite quente numa buate?” Mas chamou o garçom: “Um leite quente pra esse nordestino aqui e uma vodca pura pra mim”.

JAGUAR [aproveitando o ensejo] | Garçom, vê um chope pra mim!

BELCHIOR | Depois vim saber que essa figura era Paulo César Pereio! Não sei, queria acordar algum mendigo na noite, “sair dessa lama, jacaré…”

HAROLDO ZAGER | Como é que você saiu da lama?

BELCHIOR | Olha, passei sete meses assim. Procurava por todas as gravadoras, ia praticamente todo dia atrás das pessoas. Foi o tempo em que andei mais a pé. Quando morava na casa de Jorginho Teles e Ivone Kassu, no Leblon, ia de lá ao centro da cidade e voltava, a pé. Fiz esse trajeto para assinar meu primeiro contrato, com a Copacabana, em ’71. Acordei às seis pra chegar às onze, debaixo de chuva. Como queria me apresentar bem, levei uma roupa dentro de um saco de p0lástico, entrei todo molhado, e me arrumei no banheiro. Na hora da assinatura estava mais seco que o rio da minha cidade. Consegui esse contrato por intervenção do Bob Fleming, meu amigo Moacir Silva.

RICKY | Chegou a gravar alguma coisa lá?

BELCHIOR | Fiz uma faixa de um compacto simples com “Na hora do almoço”, vencedor do Festival Universitário de ’71, por intervenção do meu amigo Lúcio Alves. Foi o sucesso dessa música que patenteou para o Sul a viabilidade comercial da nova música nordestina.

RICKY | Ah! Você é o responsável po essa onde nordestina que taí!

BELCHIOR | Não, sou o responsável por um novo sotaque na música popular brasileira. E você está esquecendo um fato fundamental da História da MPB: a influência nordestina nos grandes momentos definidores. Na bossa nova: Lauro Maia, cearense. No tropicalismo: Torquato Neto.

RICKY | Sim, mas aí eram agentes periféricos e não um movimento em si.

BELCHIOR | Acho esse movimento importante, tem muita coisa a informar para o resto do Brasil. Pela primeira vez a subcultura nordestina se expressa de forma não folclórica. São pessoas tipicamente nordestinas, mas infinitamente abertas para o mundo, fundindo ritmos novos que acontecem pelo mundo com a música tradicional do Nordeste. Naturalmente, isso não pode ser aceito de uma vez por todas, porque é uma tomada de poder muito incisiva.

RICKY | Não sei. Até que ponto houve uma tomada do poder musical pelos nordestinos, ou os que estão no poder está usando os nordestinos para tirar esse poder de uma estagnação.

BELCHIOR | Quanto a isso, só poderá continuar a acontecer coisas na música do Nordeste se houver forte dissidência, através de não querer incrementar os estereótipos que as gravadoras e a publicidade colocam. Quero errar tentando inventar o avião e não quero acertar tentando inventar o carro de boi.

MARA | Uma coisa que eu queria saber: de onde bem essa garra do nordestino? O que permite a eles virem pra cá, como você, e enfrentar essa batalha?

BELCHIOR | Vem do atavismo. Vivemos num mundo feudal, falamos um português medieval, e fomos criados dentro de valores que incrementavam a cultura medieval.  Precisamos ser agressivos para nos livrarmos desses laços. Precisamos ser agressivos para vencer a hostilidade da Natureza. Mas pela nossa própria ancestralidade temos uma força de libertação muito grande: somos descendentes de holandeses protestantes, de judeus perseguidos, de portugueses degredados, de franceses piratas. Somos sobreviventes.

JAGUAR [impaciente] | Mas filhinha, peraí, nós tamos esquecendo a história do Belchior. Aí veio “Mucuripe”.

BELCHIOR | “Mucuripe” foi depois, em ’72, ’73, quando Elis Regina gravou essa minha parceria com Fagner. Aí veio o Disco de Bolso do Pasquim, algo muito importante, o primeiro momento da música independente no Brasil.
 [Haroldo aproveita uma discussão ao fundo entre Mara e Jaguar, pede licença, diz que ficou no hospital até de madrugada com seu irmão, e sai.]
Depois de quatro anos na batalha Rio-São Paulo, fazendo trilha sonora pra curta-metragem, shows em prisões, igrejas, teatros de subúrbios, praças públicas, ninguém se abalançava a enfrentar meu trabalho, que trazia características novas. Foram quatro anos de purgatório dantesco. A primeira oportunidade aconteceu na Chantecler, onde gravei um LP, e depois passaria mais dois anos sem conseguir gravar. Só através da gravação de “Como nossos pais” e “Velha roupa colorida” por Elis, e da inclusão dessas músicas no show “Falso brilhante”, tive a oportunidade de ter um trabalho realmente encaminhado por uma gravadora, a Polygram. Meu disco de maior sucesso aconteceu em ’76: “Alucinação”. Tenho uma visão carinhosa desse disco, que discutiu os sentimentos, os pensamentos, os corações e a mente de toda uma juventude.

JAGUAR | Aí você passou a ser vendido como um mito sexual.

BELCHIOR | Essa coisa de sex symbol surgiu no momento em que fiz um show no João Caetano com Simone, em ’76. Foi o maior show na história daquele teatro em termos de público e de participação. Lotamos todos os shows e tivemos que fazer mais dois também lotados. E tivemos que botar serviço de autofalante fora do teatro. Depois disso, surgiu na imprensa essa coisa.

JAGUAR | Você usava umas roupas colantes:

BELCHIOR | Não, minhas roupas civis mesmo. Talvez seja por isso. Surgi na música popular numa época em que todo mundo cantava fantasiado. A grande onda era do andrógino.

RICKY | Mas, afinal de contas, teu físico de nordestino, baixo, um bigodão, nariz torto… Não é um Sidney Magall, né? Por que te jogaram nessa?

BELCHIOR | Olha, vou dizer as razões do meu sucesso: nasci em berço de ouro, sou um homem rico, bom de cama, bom de mesa, 1,92m sem salto alto e sem cartola. E tenho meu tráfico de influências [dá uma piscada], duas ou três vezes por mês visito Brasília, pago corretamente meus colunistas sociais, o pessoal do rádio, o pessoal da televisão… Então o que você acha? Tenho que fazer sucesso! Além disso, faço letra, faço música, faço capa de disco, desenho, faço 120 shows por ano, dou todas as entrevistas a que sou requisitado, respondo as cartas que recebo… Sou pequenino nordestino, pero muy cumpridor.

RICKY | Você fez ironia, mas confesse que teu segredo tá no bigode. O dia em que tirar o bigode, tua carreira acaba.

BELCHIOR | Teve um crítico que me chamou de “Humphrey Bogart do subúrbio” e outro que disse que eu era uma mistura de Waldick Soriano e Bob Dylan, o que até me agrada. Acho importante os sexs symbols num país onde existe uma grande repressão sexual, mas não preciso me valer muito disso porque existem pessoas dentro da MPB que assumiram essa tarefa de representar, simbolicamente, a sexualidade nova do Brasil: Fafá de Belém, Ney Matogrosso, Simone…

[Outra pausa, para pedir a sobremesa. Todos vão de melão.]

RICKY | Você continua apenas um rapaz latino-americano?

BELCHIOR | Claro, sou um brasileiro comum.

RICKY | Só que agora com dinheiro no banco.

BELCHIOR | Não é bem isso. Eu não confiaria nos bancos a esse ponto, né? Ainda tenho uma formação brechtiana.

RICKY | Cearense é como mineiro, quer guarda dinheiro no colchão?

BELCHIOR | As pessoas que falam em guardar dinheiro não sabem ou se esquecem de que existem os charutos perfumados, as mulheres bonitas, os bons vinhos, de que é importante a gente ver o Oriente, a Europa, e de que a acumulação do dinheiro, além de ser chato, não tem mais significado numa sociedade contemporânea de serviços e de comunicação eletrônica veloz.
[E passa a degustar um melão com pimenta em pó.]

RICKY | Com “Alucinação”, você estourou, causou polêmica com suas letras, virou um mito, mas, depois na tua arte você não se perdeu?

BELCHIOR | Absolutamente! Não concordo com isso! A crítica tem falado do meu trabalho sem me observar nem me ouvir, pois foi a partir daí que ele passou a ser ainda mais significativo. O mais importante surgiu depois que consegui o sucesso popular, até mesmo contra o elitismo intelectualizado da crítica institucional. A expectativa a que atendi com “Alucinação” era a burocrática, da crítica, e depois de vencida não me interessou mais. O trabalho estético não deve atender a expectativas, nem massagear os gostos. Quero estar onde a criação estiver.

JAGUAR | Queria que você desse sua opinião sobre aquele crítico que tem nome de planta venenosa, o Tinhorão?

BELCHIOR | É um arqueólogo da música. Gosta de coisas que já passaram, do lado histórico. Gosta de visitar os museus da MPB. Isso é importante. Agora, pessoalmente, não estou a fim de morrer ou de envelhecer pra ser querido pelo Tinhorão.

JAGUAR | Então “necrófilo” cabe melhor do que “arqueólogo”.

BELCHIOR | Mas a crítica em geral não gosta do meu trabalho.

JAGUAR | Uma das críticas que leio é que você tem letras demais pra música de menos.

RICKY | Ivan Lessa sugeriu uma vez que a parceria ideal seria as tuas letras com as melodias do Luís Melodia. A pior, então, seria o contrário.

BELCHIOR | Concordo com essas críticas. Acontece que tenho muita coisa pra dizer, e o Brasil tá precisando de pessoas que digam, depois de ter sido calado durante muito tempo. O ouvinte brasileiro deve tá lembrando e que no período em que começou meu sucesso a MPB era uma metáfora. Minha música chegou dizendo, sem intermediários ou interpretação.

RICKY | Outra constante nas críticas da crítica é que você canta muito mal.

BELCHIOR | Até concordo um pouco. Não que eu cante mal, canto diferente, dentro das limitações que tenho. Canto não convencionalmente. O fato de cantar vem da minha decisão de me identificar com um trovador da era eletrônica. Faço e canto minhas próprias canções, como quase todos os participantes da minha geração. A crítica diz que Erasmo Carlos canta mal, que João Gilberto canta mal, que Tom Jobim canta mal… Para mim, o que interessa não é o bem e o mal, e sim a eficácia. Neste sentido, Chico Buarque é um cantor extraordinário.

JAGUAR | Quem é o melhor letrista da MPB?

BELCHIOR | Caetano Veloso, o autor da modernidade musical do Brasil. Junto com Chico Buarque, Gilberto Gil e Jorge Ben.

JAGUAR | E Vinícius?

BELCHIOR | É a figura mais fantástica da MPB: abandonou a diplomacia e a poesia institucional para ser o grande trovador do cancioneiro popular. Está ao lado de Newton Mendonça, Tom Jobim e Toquinho. Ele amou o que fez. As pessoas tem se esquecido de que a Arte é uma exacerbação do Amor. A Arte é uma forma de exuberância. A gente faz cartum, música, letra, quadros, porque nosso amor é demais. A minha participação também na estética do Brasil é porque amo muito. E é incrível a gente ganhar muito dinheiro com aquilo que ama.

RICKY | Você diz que faz 120 shows por ano, por esse Brasil afora. No Pasquim dessa semana tem um artigo do Roberto Moura sobre o Pantanal do Mato Grosso. Já se apresentou por lá?

BELCHIOR | Já, fiz shows em Corumbá e em Cuiabá. O Pantanal é muito interessante. O transporte lá é que é muito difícil: no tempo das águas, as estradas ficam alagadas; no tempo das secas, ficam cheias de jacarés tomando sol. Não dá para passar. Fizemos uma viagem pelo interior com um coronel da região, e um dia estávamos, eu e os músicos, descendo um rio de lancha. Aí quiseram me levar mais adiante pra mostrar outra parte, os músicos não quiseram ir, então o fazendeiro encostou na margem e falou: “Vocês sobem aí nesse galho e ficam esperando”. Quando voltamos estava todo mundo no mais alto da árvore, e um bando de jacarés embaixo… [gesto de bocarra com a mão] Os jacarés mordiam as raízes da árvore e sacudiam pra ver se eles caíam. Os rapazes ricos lá da região saem de lancha pelos rios a toda velocidade, passando por cima de galhos, atropelando jacarés. São os pegas do Pantanal.

JAGUAR | Com essas viagens e essa atividade toda, você continua mantendo uma vida intelectual?

BELCHIOR | Claro, toda vez que viajo levo meu material de pintura – pincéis, tintas – e meu material de leitura, meus livros queridos.

JAGUAR | Quais são seus queridos?

BELCHIOR | São muitos. Por exemplo: poetas latinos como Catulo, Juvenal, Virgílio. Gosto de Homero, Píndaro, Gil Vicente, Camões, Sá de Miranda, Bocage, Antero de Quental, Cesário Verde, Sá Carneiro, Fernando Pessoa e os poetas concretos portugueses. Gosto de Gregório de Matos, Cláudio Manoel da Costa, Tomás Gonzaga, Álvares de Azevedo, Augusto dos Anjos, Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Oswald de Andrade, João Cabral de Melo Neto e os poetas concretos. Prosadores, gosto de Swift, Fielding, Flaubert, Emile Zola, Machado de Assis, Guimarães Rosa. Minha predileção é por aí.

JAGUAR | É a própria Edições de Ouro!

BELCHIOR | Não são meras citações, são leituras de muitos anos, muito cuidado e amor a essas pessoas.

RICKY | Você é uma salada de várias influências. Outro dia, tava me falando de Londres, contou dos inferninhos onde tinha visto – e curtido – grupos new wave como o Specials, o Police – antes deste ficar famoso –, o U2… Tradicionalmente, um compositor nordestino brasileiro não deveria curtir esses sons “alienantes”, né?

BELCHIOR | Aí é que tá. Não estou dentro desse estereótipo oficial. Minha rebeldia é não estar afim de incrementar visões tradicionais. Tudo isto de que falamos até aqui é Nordeste, pois a todos tive oportunidade de ler e ouvir no Nordeste. O que me interessa hoje na cultura brasileira nordestina é o hibridismo, a capacidade de deglutir tudo antropofagicamente, devolvendo a cultura brasileira de exportação. Meu desejo é realizar o lema da Universidade do Ceará: “Universal pelo regional”. Sou partidário de que devemos expressar um Nordeste novo, o bumba-meu-boi de plástico, a lamparina de querosene Shell. Isso nem é um projeto de modernidade, pois já foi incrementado por Oswald de Andrade, os poetas concretos e o movimento tropicalista. Acontece que os nordestinos têm raízes profundas, que querem sempre enfatizar, enquanto meu caráter é mais fresco, arejado. Sou um nordestino cool.

JAGUAR | Mas o brasileiro mais internacionalista é o cearense. Você encontra cearense em todo canto do Mundo.

BELCHIOR | Até nas Malvinas. Acabei de ler no jornal que encontraram três cearenses lá: um, disfarçado de argentino; outro, de inglês; e outro, de mediador americano.

JAGUAR | Qual é tua solução pro conflito lá?

BELCHIOR | Deixas as Malvinas para os pinguins. Os outros, go home.

JAGUAR | Por que não para os bolivianos, que não têm mar?

BELCHIOR | Gostaria que surgissem os pacifistas.

RICKY | Você também tem bronca da crítica?

BELCHIOR | Tenho o maior respeito cultural e democrático pela crítica, que tem uma função extracultural extraordinária, no sentido de ser a expressão da atividade intelectual livre. A crítica está dentro da Carta dos Direitos Humanos. Não tenho nenhum sentimento crítico.

RICKY | Pronto, já fez sua média. Agora diz o que você pensa.

BELCHIOR | Não, os críticos estão entre meus amigos e não entre os inimigos. Mas gostaria de ver uma crítica estética não anacrônica, não fora de tempo, porque normalmente ela trata de dilemas que a própria Arte já resolveu. Esse problema entre raízes e internacionalidade já foi resolvido pela MPB, por Cartola, Pixinguinha, Caetano, Fagner, Belchior, Alceu Valença, Tom, Vinicius. Outro ponto: a arte já resolveu o problema entre bom gosto e mau gosto brasileiro, entre tropicalidade e cultura europeia. Foi essa divisão que impediu durante muito tempo a apreciação estética do pessoal que fazia humor desenhado, acusados de não serem artistas por fazer bonequinhos. Por exemplo: comecei a desenhar quando vi os desenhos do Jaguar: “Pô, se esse cara desenha e é famoso, por que eu não posso desenhar?” No mesmo caso de Jaguar estão Picasso, Paul Klee…

RICKY | Ele malhou teu desenho e depois livrou a barra te comparando a Paul Klee.

JAGUAR | Por isso é que dizem que os cearenses são mineiros com mar.

BELCHIOR | Rapaz, já não podemos ficar por cima do muro, que os muros lá são baixos. Ponto três: já resolveu o problema de utilização de instrumentação eletrônica ou tradicional. Ponto quatro: já resolveu o problema da instintividade da música, se devemos dançar ou não. Gostaria de ver uma crítica que levantasse novos problemas a respeito da Arte, principalmente no seu sentido político. Gostaria que a crítica não observasse os artistas novos com uma visão de ’68. E também gostaria que a crítica fosse sincera nos seus propósitos, sem jogadas publicitárias, sem entrar no jogo econômico das grandes empresas. Gostaria que os críticos estivessem inseridos definitivamente na luta popular dos artistas brasileiros, contra o uso indevido dos direitos autorais, contra a censura vigente, aparente ou escondida, nas batalhas trabalhistas além das estéticas. Numa economia de carência, eu não gostaria que balas fossem desperdiçadas com o inimigo errado. Enfim: que seja uma atividade intelectual honesta, fecunda e participante. Não quero nem que seja construtiva, quero uma crítica destrutiva, mas apaixonada. Construção e criação faço eu. A crítica deve tentar destruir-me, se puder. A crítica deve participar da entropia desordenadora natural a toda sociedade.

JAGUAR | É o único compositor brasileiro que sabe o que é entropia.

BELCHIOR | Não, Paulinho da Viola é um grande curtidor de Física. Eu gostaria de deixar esclarecido também que é muito importante um dado de marginalidade na Arte. O casamento da Arte com o Poder não dá certo. A Arte é o poder da fecundidade e o Poder, a opressão, é o poder da esterilidade. De ’60 para cá, as duas contribuições culturais para o Brasil, as duas grandes novidades, são a Música e o Humor. As duas têm acontecido à margem da Cultura Acadêmica. Floresceram marginalmente. Por isso lanço de novo aquele velho lema: flower power. Claro, o amor e a flor. Por que não?

MARA | Por que você ficou dois anos sem gravar nenhum disco?

BELCHIOR | Nesses últimos dois anos fiz mais de 200 shows, produzi três LPs, fiz um livro de desenhos, acondicionei um espaço para que determinadas pessoas pintassem, escrevi artigos para diversos jornais – entre os quais o Pasquim –, participei de reuniões importantes para a MPB das quais a imprensa não participou, fiz debates em universidades, compus músicas, fui a programas de televisão, fiz diversas exposições de trabalhos gráficos, escrevi poemas… só não atendi à expectativa que a indústria fonográfica tem de mim.

RICKY | Recebi o seu disco novo agora, de modo que não vou poder comentar ele aqui, mas já vi que das dez músicas, só cinco são suas. Isso depois de dois anos. Então o que está acontecendo não é um recesso de criação?

BELCHIOR | Não, é uma coisa nova no meu trabalho, porque sempre tive pudor de gravar música de outra pessoa, nunca me aventurei a ser um intérprete. Mas a partir do ano passado refleti que meu espaço conquistado e aberto pode significar muito para outras pessoas, podendo avalizar trabalhos importantes de pessoas novas.

JAGUAR | A música brasileira não chegou a um beco sem saída?

BELCHIOR | Claro que não! A situação atual é altamente criativa.

RICKY | Mas pelo que toca nas rádios, na TV, o que as gravadoras promovem, esse beco tá fedendo muito a merda.

BELCHIOR | Ricky, eu gostaria de ver um rádio tocando tudo o que se faz na MPB: xote, forró, lambada, reggae, rock, baião, coco, bolero, merengue, fox, tudo, tudo. Vamos deixar crescer todas as flores.

JAGUAR | Essa onda de FMs que medram – atenção, revisão – por aí não adiantou o lado dos músicos brasileiros?

BELCHIOR | Tem que ter FM, AM, autofalante, fita, disco, videocassete, televisão, todos os veículos modernos, contemporâneos, lunares, interplanetários, mas a serviço das pessoas e não das empresas. Gosto do variado, do múltiplo, do rico. Defendo a Liberdade dentro do conceito spinoziano: “a Liberdade não é simplesmente o direito de escolha, é a aptidão física e espiritual de fazer simultaneamente muitas coisas diversas”. Spinoza: judeu, herético e dissidente.

JAGUAR | Essa de Spinoza, realmente, acaba com qualquer entrevista. Ficamos por aqui.
[desliga o gravador]


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Maurício Vendrami entrevista Belchior www.youtube.com/watch?v=8QOwr908zXc&t=159s


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Organização a cargo de Floriano Martins © 2017 ARC Edições
Reproduzimos aqui a íntegra entrevista dada por Belchior ao lendário Pasquim
Artista convidado | Belchior (Brasil, 1946-2017)
Caricatura © André Cerino
Imagens © Acervo Resto do Mundo / Acervo particular Jorge Mello
Agradecimentos especiais a Graco Braz Peixoto, Jorge Mello e Josy Teixeira
Esta edição integra o projeto de séries especiais da Agulha Revista de Cultura, assim estruturado:

1 PRIMEIRA ANTOLOGIA ARC FASE I (1999-2009)
2 VIAGENS DO SURREALISMO, I
3 O RIO DA MEMÓRIA, I
4 VANGUARDAS NO SÉCULO XX
5 VOZES POÉTICAS
6 PROJETO EDITORIAL BANDA HISPÂNICA
7 VIAGENS DO SURREALISMO, II
8 O RIO DA MEMÓRIA, II
9 ACAMPAMENTO MUSICAL

A Agulha Revista de Cultura teve em sua primeira fase a coordenação editorial de Floriano Martins e Claudio Willer, tendo sido hospedada no portal Jornal de Poesia. No biênio 2010-2011 restringiu seu ambiente ao mundo de língua espanhola, sob o título de Agulha Hispânica, sob a coordenação editorial apenas de Floriano Martins. Desde 2012 retoma seu projeto original, desta vez sob a coordenação editorial de Floriano Martins e Márcio Simões.

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