quarta-feira, 19 de setembro de 2018

RODRIGO PETRONIO | Jorge de Lima: transfigurado



Multiplicidade de vozes dramáticas, amplitude de visão e enquadramento, apelo sacramental e mítico, diversidade vertiginosa de motivos e formas, mergulho na paisagem ancestral da memória, história da literatura plasmada pela consciência poética, biografia total, narrativa cósmica, reminiscências da Queda e procissão de mártires sobre a Terra, sagração da vida comum e divinização da arte, itinerário imaginado e factual de viagens e descobertas, murmúrios de personagens célebres e resíduos de antepassados, gnose integral, demiurgia em delírio, febre, sonho, alucinação a serviço da maquinaria de um engenheiro noturno, amor, morte e transfiguração.
Estes são alguns dos epítetos que poderíamos apor à poesia de Jorge de Lima, doravante referidos à sua obra maior e mais conhecida, Invenção de Orfeu, de 1952. Como bem notou Murilo Mendes, em artigo publicado em três partes durante o mês de junho do mesmo ano, no suplemento Letras e Artes do jornal carioca A Manhã, essa fertilidade formal e metafísica da odisseia teológica de Jorge de Lima é consequência da grande permeabilidade de sua voz poética a outras vozes. Isso, antes de se configurar como uma crítica, é sim um elogio e uma virtude.
Demonstra a elasticidade de sua dicção, capaz de dialogar com outros poetas, tradições e obras criadas, incorporando-os a seu repertório imaginário. Essa característica, atípica no panorama da poesia brasileira, será a base para a confecção deste gigantesco afresco poético da história, de traço oblíquo e enviesado, de volumosos jogos de luzes e sombras narrando a origem do mundo e do homem. Penso aqui nas obras magníficas da escola de Siena do século XV, em Simone Martini, por exemplo, ou na sobreposição de planos de Piranesi, misto de poeta-arquiteto e artesão dos meandros do imaginário.
O mesmo Murilo chegou a definir a Invenção de Orfeu, com graça e leveza, como uma obra escrita pelo menino Lautréamont depois de ter sido amamentado nos fartos seios da musa de Camões, Góngora, Tasso e Marino. Isso quer dizer que sua inspiração fortemente cristã não se dissocia nunca de certa abordagem da natureza decaída da humanidade. Mostra esta como sendo irreconciliável com a pureza da origem divina que um dia lhe dimanou o ser, segundo Agostinho. Sendo assim, perpassa toda a obra do poeta alagoano um duelo de forças centrífugas e centrípetas, de impulso natural do caos ao cosmos e da matéria amorfa à lapidação das mãos do artífice, que lhe dá forma e lhe insufla vida.
Esse ritual de passagem pode ser visto alegoricamente como a batalha do Anjo contra as forças ínferas, do herói contra o desconcerto do mundo e, tomado por antonomásia, do próprio poeta contra a perda e o esvaziamento do humano em um mundo sem sentido, tomando-se ares de uma espécie de autobiografia total, hipótese de leitura que pode ser identificada nos próprios versos da obra. Já em termos poéticos, pode ser visto como a ordenação que a palavra empresta ao mundo. Redimindo-o de seu estado de latência e transitoriedade, eleva-o a uma dimensão externa à experiência onde os sentidos se veem presos aos dados como um pássaro se sente preso ao próprio voo.
Com isso, Jorge de Lima recupera uma vertente que, feitas algumas exceções, é até hoje muito pouco cultivada no Brasil, em parte devido à hegemonia de uma linha interpretativa com uma ausculta pouco desenvolvida para as relações produtivas entre ontologia e poesia. Ou seja: Jorge de Lima instaura em língua portuguesa uma poesia de base transcendental, em certo sentido na contracorrente da linhagem modernista que se tornou hegemônica. Creio que esses dois aspectos centrais de sua obra, a maleabilidade da voz que incorpora outras vozes e a radicalidade de uma ontologia transcendental, são os principais motivos de uma série de erros interpretativos. Vejamos alguns pontos.
É sabida a dívida que a intelectualidade brasileira paga ao positivismo. Embora saibamos da importância das ideias positivas para a construção da República, para formação de um Estado laico e para o fim da escravidão, não deixa de ser intrigante ver um poeta da altitude de Jorge de Lima se manter em um segundo plano, quase que em uma zona de sombras da nossa tradição. Ainda mais se levarmos em conta que essa mesma tradição é referendada por um conjunto de valores que ressaltam o diálogo produtivo das artes com as matrizes culturais de etnias, culturas e povos minoritários.



Nessa abordagem, o autor de Mira-Celi desempenha o papel de espírito telúrico e mágico da cultura brasileira. Alguém que estaria próximo de seus componentes mais arcaicos, não conseguindo assim inserir decisivamente o Brasil no debate internacional e na descolonização do nosso imaginário na mesma proporção da arte e da poesia de inspiração construtivista, sintonizada com as vanguardas europeias. Essa diagnose é bastante equivocada se pensarmos nessa poesia como o lado mais engajado na causa cristã, sobretudo Tempo e Eternidade, sofre dos defeitos que todo o engajamento traz à arte? Sim. Seja esse engajamento político ou religioso. Contudo, formal e mentalmente essa poesia sobreviveu a si mesma e a seu tempo. Alceu Amoroso Lima, em meados da década de 50, em tom de triste previsão, disse certa vez que a poesia de Jorge de Lima só seria entendida e devidamente apreciada dentro de 50 anos. Parece que profecia veio se cumprir agora.
 Seja como forma de manifestação de Deus no mundo ou entendendo a palavra como casa do ser, na acepção de Heidegger, a poesia nasce do tempo e a ele retorna transfigurada. Talvez seja essa a sua magia: conseguir brotar daquilo que lhe circunscreve, sendo tanto mais eterna quanto mais temporal. Nesse sentido, a obra de Jorge de Lima, no bojo dos tempos e espaços sobrepostos que mobiliza em si, ironicamente previu e erigiu a sua própria ressurreição.



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RODRIGO PETRONIO. Escritor e filósofo. Professor titular da FAAP, desenvolve pós-doutorado no Centro de Tecnologias da Inteligência e Design Digital (TIDD|PUC-SP). Edição preparada por Floriano Martins. Agradecimentos a todos os colaboradores, assim como a Juliana Hoffmann, artista convidada desta edição.

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Agulha Revista de Cultura
Número 119 | Setembro de 2018
editor geral | FLORIANO MARTINS | floriano.agulha@gmail.com
editor assistente | MÁRCIO SIMÕES | mxsimoes@hotmail.com
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revisão de textos & difusão | FLORIANO MARTINS | MÁRCIO SIMÕES





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