terça-feira, 28 de dezembro de 2021

CARLOS PAPEL | MPB – Origens do formato e outras histórias

 


Os anos 60, 70 e 80 do século XX, marcaram o auge do que conhecemos como MPB, uma abreviatura de Música Popular Brasileira, importante para as grandes corporações, quanto à venda de fonogramas, com a clara intenção de sistematizar o sentido amplo da expressão e direcionar público alvo para a finalidade e mesmo para quem não tenha afeição às siglas, se torna conveniente aceitar que possa ser um identificador de preferências, embora também apresente-se como objeto de separação e por isto um possível gerador de preconceitos, mas a síntese colou e todos os produtos ligados a esse mercado também são marcados cada qual com seu acrônimo.

O que se pretende nessa abordagem é um mergulho através dos tempos, para minimamente refletir sobre a origem do formato desse gênero, que dentre outras coisas mostrou grande força e influência, no enfrentamento aos terríveis anos de chumbo (1964/1985), quando criadores de música, precisavam usar de subterfúgios para a liberação de canções, tais como a troca de títulos ou alterações nas letras, muitas vezes trocando palavras por outra com o mesmo significado, seis por meia dúzia como diz o ditado, manobras suficientes para ludibriar uma achavascada censura de época. Taiguara é um perfeito exemplo desse procedimento, a música “Mais valia” (Taiguara), uma guarania de poesia marxista:

 

Mais valia eu ter te amado

Que ter te explorado

tanto fiz capital, te explorando

fiz o mal, nos separando!

 

Em sua camuflagem de música de amor, passou desapercebida pelo capataz, sem uma chicotada sequer, diferente de outras de suas canções que fizeram de Taiguara um dos compositores mais censurados no período. Em tempo a maioria dos artistas fora, depois de passarem algum tempo presos, forçada ao exílio, para evitar mais torturas e até ameaças de morte. O fato é que mesmo com a ausência desses compositores e cantores no Brasil, a MPB resistiu com sua qualidade poética e musical, reforçando movimentos e dando alento aos que por aqui ficaram.

Na época o plano estadunidense, de controle da América latina, orientava ditaduras militares a primordialmente perseguir intelectuais, censurar suas criações em geral, queimar livros em praças públicas, tal e qual a humanidade já havia presenciado no nazismo, só para citar um modelo de dominação de massas. É aí que a música brasileira aparece para o enfrentamento ao regime e compositores como Chico Buarque, Geraldo Vandré, Edu Lobo, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Sergio Ricardo e Taiguara dentre outros, adicionam suas obras à mensagens de resistência e desafios ao status quo. Os festivais da TV Record nos anos 60, nos mostraram um verdadeiro panorama dos conflitos entre arte e ditadura, quando num ambiente vigiado, como mostra a canção “Disparada” (Geraldo Vandré e Théo de Barros) defendida por um frenético Jair Rodrigues, levando a plateia a loucura na apresentação final, como vencedora em 1966, ali misturados ao público e também nos bastidores se vê uma milícia atônita e incomodada com a desafiadora reação da plateia quando nos versos:

 

Porque gado a gente marca, tange, ferra, engorda e mata,

mas com gente é diferente!

 

E superando a questão da competição propriamente dita, fardo proposto por esse modelo de festival, afinal de contas o público elegia suas favoritas como abraçou “Roda viva” de Chico Buarque:

 

Roda mundo, roda gigante,

roda moinho, roda peão,

o tempo rodou num instante,

nas rodas do meu coração

 

Mesmo ficando em terceiro em 1967 “Roda viva”, em seu loop crescendo, não só levantou a plateia, como a integrou dentro do arranjo, fazendo naturalmente com que essa crescesse em reação, em uma apresentação memorável com Chico e o MPB4.

Contudo os bastidores do próprio setor, possuíam conturbações ocasionadas por desentendimentos com choques entre setores puristas e outros que traziam como proposição a inovação na música, como por exemplo o episódio das guitarras defendido por compositores como Gil e Caetano, em contraste à resistência de outros compositores. A Tropicália surgia então, dentro desse contraponto, com artistas de várias tendências, como Hélio Oiticica, Torquato Neto, Tom Zé, maestros Júlio Medalha e Rogério Duprat, na canção Domingo no Parque, 1967, de Gilberto Gil, Duprat inova com a fusão de timbres sinfônicos, ruídos de um parque de diversões, misturados à ritmos marcadamente brasileiros e instrumentos elétricos, o que traz singularidade ao arranjo, a criação então abraça a tragédia, brinca na alegria dos domingos, e confere coerência ao poema:

 

O rei da brincadeira Ê, José,

o rei da confusão Ê, João,

um trabalhava na feira, Ê José,

outro na construção Ê João,

 


transita pela alegria de um parque aos domingos:

 

Foi que ele viu,

Juliana na rosa com João,

uma rosa eu um sorvete na mão,

Juliana seu sonho uma ilusão,

Juliana e o amigo João

 

à tragédia em:

 

Olha a faca (Olha a faca),

Olha o sangue na mão Ê José,

Juliana no chão Ê José,

Outro corpo caído Ê José,

Seu amigo João Ê José!!

 

É preciso destacar o papel da banda Os Mutantes, primordial no complemento das orquestrações dessa fase. Polêmicas à parte o fato é que esse debate se demonstrou pertinente e ganharam a nova música e o público que passou a absorvê-la.

Provavelmente vaias e apupos de uma plateia de festivais, universitários em sua maioria, provocaram não só a reação de Caetano Veloso que reagiu com esse discurso:

 

Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder? Vocês tem coragem de aplaudir, uma música, um tipo de música que vocês não teriam coragem de aplaudir no ano passado! São a mesma juventude que vão sempre, sempre, matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem!

 

Esses incidentes dentro dos festivais na época, fizeram protagonismo a um importante movimento que se contrastava, melhor, se opunha aos paradigmas daqueles tempos. Outro episódio com a participação de uma plateia enfurecida, foi a do compositor Sergio Ricardo e sua canção; “Beto bom de bola”, quando tentava cantar em meio à intensas vaias,

 

Beto vai chutando pedra cheio de amargura,

num terreno tão baldio,

o quanto a vida é dura!”

 

Diante dos insistentes apupos Sergio perde a paciência e numa intempestiva reação, quebra o violão e sai do palco.

E os Festivais da Record ficaram na história dos anos 60 chegando ao fim e deixando de bandeja para a TV Globo criar um novo formato, mais comprometido com resultados e patrocinadores, além de subserviente ao regime, como era hábito da emissora apoiadora do golpe de 1964. Mesmo assim a força da MPB criou surpresas inesperadas à emissora, que se viu forçada à malabarismos para sempre se justificar junto ao poder. Casos como o de Geraldo Vandré em “Pra não dizer que não falei das flores”, saia justa nos versos:

 

Há soldados armados amados ou não,

quase todos perdidos de armas na mão,

nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição,

de morrer pela pátria e viver sem razão,

 

para chegar no icônico refrão:

 

Vem vamos embora que esperar não é saber,

quem sabe faz a hora não espera acontecer!”

 

E tentando conter os apupos de uma plateia inconformada com “Sabiá”, vencedora daquele concurso, no afã de solicitar respeito à Chico Buarque e Tom Jobim, autores da canção, e não conseguindo controlar as vaias, Vandré coloca uma pá de cal nos modelos de festivais competitivos e sentencia ao vivo em pleno Maracanãzinho:

 

A vida não se resume em festivais!


Outras canções de origem andina, como as de Violeta Parra e Vitor Jara, compositores chilenos, pra citar alguns, acrescentaram força ancoradas nas vozes de Mercedes Sosa e Milton Nascimento, fortalecendo e também agregando novas tendências ao que já se conhecia como MPB. Um episódio que retrata os acontecimentos da época são a queda de braço entre Chico Buarque e a Rede Globo (apoiadora do regime), vencida pelo compositor para que os poetas e compositores cubanos Silvio Rodríguez e Pablo Milanés, pudessem não só entrar no Brasil, como participarem de um show histórico com Chico no Canecão.


Enxertada por todas essas correntes a MPB cresceu ainda mais e foi por tudo isso, um instrumento de incontestável força para o enfrentamento aos anos de chumbo e nesse sentido uma compreensão histórica desse flagrante amadurecimento é a reflexão proposta aqui.

 

A origem

No final do século XIX, o fruto das inquietações humanas essencialmente na música, encontra no Brasil uma grande vontade de transformação em contraponto à forte influência da Europa. A modinha, bastante cultuada na corte e recheada de versos amorosos, precisava principalmente beber das águas de uma outra fonte, para fundamentar o que viria a ser o começo de um novo formato para a futura música popular brasileira. É nesse cenário que o Lundu, considerado música profana e seus tambores, ritmo originário de Angola, trazido pelos negros escravizados e festejado nos terreiros, ali também tratado como umbigada, toma conta de uma parte da sociedade e encontra uma jovem compositora e maestra de enorme talento e coragem; Chiquinha Gonzaga, pianista, filha de mãe escrava alforriada e pai militar, uma combinação bombástica que forjaria sua forte personalidade, uma mulher muito a frente daqueles tempos.

Consta que Joaquim Calado, considerado o pai do choro, autor do primeiro choro, “Flor amorosa”, para muitos chorões o hino do chorinho, era o protetor de Chiquinha em tempos de total ausência feminina na sociedade, Calado apresentou a maestra em rodas de choro da época, aliás o choro também surgiu segundo relatos, da fusão de lundu, polca e modinhas e se atribui a Chiquinha Gonzaga o mérito por fazer a ponte para a compreensão dessas mesclas, principalmente em relação a polca, gênero que a compositora dominava, considerando-se também a presença de Chiquinha nos terreiros de Lundu, contrariando as severidades paternas e os olhares da moral vigente. Chiquinha Gonzaga também teve forte presença nos primórdios do carnaval carioca, criando a marcha; “O abre alas”, que virou hino de abertura daquele evento e começava passando pela porta da casa de Chiquinha, com as grandes sociedades em desfile entoando a canção em louvor à maestra e o carnaval também faz parte da argila que serviu de molde para o que tratamos aqui de formato da MPB. Como se não bastasse deve-se a maestra a criação da primeira sociedade de proteção ao direito autoral, a SBAT (Sociedade Brasileira de Autores teatrais).

Época da efervescência da música que brotava dos instrumentos, como o chorinho e outros gêneros, mais uma vez é preciso aceitar nomenclaturas que embora muitos não concordem é preciso digerir, pois definida como instrumental nos tempos modernos era provavelmente no início do século XX, celebrada como música tão somente e o jovem flautista compositor Patápio Silva por exemplo, desde os 19 anos dominava a preferência nos salões da corte no Rio de Janeiro, de 1900 até 1907, quando teve morte precoce.

 

O formato


Noel Rosa é um capítulo à parte na reflexão sobre a forma da música popular brasileira, bebendo naturalmente de todas essas referências e as juntando ao samba, para muitos Noel definiu o formato do que conhecemos hoje como MPB. Compositor, poeta, esse cronista do dia a dia da cidade do Rio de Janeiro, tinha a espontaneidade aliada a um sentido agudo de humor e ironia em suas obras; “Com que roupa” é um clássico exemplo das entrelinhas nas canções de Noel:

 

Agora eu não ando mais fagueiro,

pois o dinheiro não é fácil de ganhar,

mesmo eu sendo um cara trapaceiro,

não consigo ter nem pra gastar!

 

Na verdade uma alusão à quebra da bolsa de Nova York em 1929 segundo se especula. Noel demonstrava total descompromisso com a moral vigente, o que lhe atribuía um sentido de liberdade único, avesso à hipocrisias, acabou pagando com a vida acometido por uma tuberculose, fruto da intensa boemia que escolheu pra viver e sem a qual provavelmente não teria construído esse incomparável acervo, Noel Rosa por ter forjado o formato da música do Brasil, vive até hoje nas canções dos compositores dos séculos XX e XXI.

Alguns teóricos atuais ironizam que a MPB acabou em 1985, certamente numa alusão à falsa abertura política, o cavalo de Tróia presente dado pela ditadura militar, porém o que ocorre de fato é que a mídia e as grandes corporações fonográficas, escolheram novos modelos para aumentarem seus ganhos e pulverizaram ricos acervos de antes, propondo questionáveis paradigmas de unilateralidade através de um domínio financeiro sobre veículos de mídia (Rádio e TV) e rifando a pluralidade. Essas ações, no entanto, não impediram que compositoras e compositores de agora, criassem novos modelos de música e performance, que alguns chamam de alternativa, mas que segue mostrando a qualidade da nossa boa, velha e sempre atual MPB, em tempos de internet, Noel Rosa vive!

 

Referências: vídeos

Taiguara. Mais valia.

https://www.youtube.com/watch?v=UiKVtQjDGVQ

Jair Rodrigues. Disparada.

https://www.youtube.com/watch?v=82dRs2z6iQs

Chico Buarque. Roda viva.

https://www.youtube.com/watch?v=3ALZNNUQdYM

Gilberto Gil e Os Mutantes. Domingo no parque.

https://www.youtube.com/watch?v=pinZdm2lC9w

Caetano Veloso e Os Mutantes

https://www.youtube.com/watch?v=4xEz2uva_ZE

Sergio Ricardo. Beto bom de bola.

https://www.youtube.com/watch?v=S6jGBptVU6k&t=245s

Geraldo Vandré. Pra não dizer que não falei das flores

https://www.youtube.com/watch?v=wkEGNgib2Yw

O Lundu por Mario de Andrade

https://www.youtube.com/watch?v=XH2XkZUM7BM&t=42s

Chiquinha Gonzaga. Polca. Sultana

https://www.youtube.com/watch?v=2gnb91dB6OY

Lysia Condé. Flor amorosa. Joaquim Calado

https://www.youtube.com/watch?v=-xwgCUWnhD8

Noel Rosa. Com que roupa

https://www.youtube.com/watch?v=rETSGoLBjjk

 

 

Carlos Papel, compositor, cantor e violonista brasileiro, transita com desenvoltura no meio cultural do Espírito Santo, onde mora, respeito adquirido por seus diversos trabalhos autorais, trilhas para peças de teatro, cinema e mercado publicitário. É um dos compositores mais gravados em terras capixabas por artistas de todas as gerações. Em 2020 produziu seu primeiro Song Book, coordenado por Fernanda Nali da FiNA produtora, que gerencia sua carreira. Com um espectro diversificado de temas com recorrência de assuntos políticos, filosóficos, ecológicos e regionais, ressalta-se a força e a importância da palavra na obra de Carlos Papel, capaz de traduzir visões de mundo e promover uma relação íntima entre volume da letra e conteúdo da música. Nota-se ainda presença de diálogos com grandes vertentes e referências da MPB. Atualmente Carlos Papel é graduando em Música/bacharelado, na Universidade Federal do Espírito Santo, sexto período.




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[A partir de janeiro de 2022]
 

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Número 198 | dezembro de 2021

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