1
No
Primeiro Manifesto do Surrealismo, André
Breton formula assim um verbete para surrealismo:
SURREALISMO, s.m. Automatismo psíquico puro pelo qual se propõe
exprimir, seja verbalmente, seja por escrito, seja de qualquer outra maneira, o
funcionamento real do pensamento. Ditado do pensamento, na ausência de todo controle
exercido pela razão, fora de toda preocupação estética ou moral. [1]
Trata-se de ir ao encontro de uma experiência performativa
automática, sem controle, tema ou meta
pré-determinada. Mais adiante, Breton enuncia a estratégia desta proposição: Composição surrealista escrita, ou primeiro e
último jato.
Deixe aparecer o que escrever, depois de se estabelecer
em um lugar tão favorável quanto possível para a concentração de seu espírito sobre
ele mesmo. Coloque-se no estado o mais passivo, ou receptivo, que você possa. Abstraia-se
de seu gênio, de seus talentos e daqueles de todos os outros. Pense que a literatura
é um dos mais tristes caminhos que levam a tudo. Escreva rápido sem assunto pré-concebido,
suficientemente rápido para não se deter e não ficar tentado a reler. A primeira
frase virá sozinha, já que a cada segundo há uma frase estranha a nosso pensamento
consciente pedindo para ser exteriorizada. É bem difícil se pronunciar sobre a frase
seguinte. Ela participa, sem dúvida ao mesmo tempo, de nossa atividade consciente
e da outra, se admitimos que o fato de ter escrito a primeira provoca um mínimo
de percepção. Pouco importa, aliás; é nisso que reside, em geral, o interesse do
jogo surrealista. É certo que a pontuação se opõe à continuidade absoluta do fluxo
desejado, ainda que ela pareça tão necessária quanto a distribuição dos nós em uma
corda vibrante. Continue o quanto quiser. Confie no caráter inesgotável do murmúrio.
Se o silêncio ameaça se instaurar quando você comete um erro, um erro, digamos,
de desatenção, rompa sem hesitar com uma linha bem clara. Após a uma palavra cuja
origem parece suspeita, coloque uma letra qualquer, a letra l por exemplo, sempre a letra l, e reduza o arbitrário impondo esta letra
como a inicial da palavra seguinte. [2]
O procedimento surrealista de escrita consiste,
portanto, em conectar de maneira direta, desimpedida e descontrolada, os fluxos
do pensamento e do movimento da pena, da caneta, das teclas, das vozes e dos corpos,
atacando papeis, telas e espaços. Nos anos 60, especialmente no processo de ensaios
de O Príncipe Constante com o ator Cieslak,
Grotowski vai perseguir obstinadamente a encenação deste procedimento, para a anulação
da distância entre o impulso interior e a ação exteriorizada. Sua chave corporal
será a exaustão. Entretanto, o exemplo cardinal de um dizer automático em fluxo
contínuo é a conferência O Teatro e a Peste,
proferida e performada por Antonin
Artaud, o poeta da palavra dilacerada,
[3] a convite de René Allendy, na Sorbonne.
O único relato desta noite de 6 de abril de 1933 [4] Anaïs Nin registrou em seu diário:
Este relato impressionante capta o ator em fluxo
contínuo de ritmo e ressonância das palavras, lançadas pelo atleta do afeto, para
quem as pausas portavam um caráter andrógino do ciclo respiratório e se transformavam
em plataformas de contaminação da peste. Artaud performa o surreal, habita corajosamente
o espaço entre loucura e lucidez. Artaud encenava a escrita automática no espaço.
Quase duas décadas depois, este processo dinâmico vai se estruturar no happening.
2
Em
1952, no Black Mountain College, na Carolina
do Norte, o Untitled Event, nomeado posteriormente Theatre Piece n. 1, inaugura o aparecimento
dos happenings. Wânia Storóli enfeixa
assim algumas lembranças do público na descrição do evento:
Este acontecimento nasceu da leitura de Cage de
O Teatro e seu Duplo, de Artaud, em que
o surrealista francês preconiza um teatro sem texto, e, além disso, a presença e
a fluência de várias linguagens, sem controle e nenhuma conexão feita a priori:
como na escrita automática, o acaso rege a encenação. No espaço cênico, o público
ocupa quatro triângulos convergentes, voltados para uma arena quadrada, singularizando
a percepção de cada espectador. Também aqui observam-se pressupostos de Artaud,
que preconizava o envolvimento do público pela cena. [7] Feche os olhos e imagine a sonoridade onírica de vozes, sons e ruídos,
a dança liberada no espaço, as projeções espectrais: rastros surrealistas no evento
estadunidense. Se no happening, regida
pelo contato, a casualidade se instala
pela ação ativa de celebrantes do acontecimento, ou seja, o receptivo depende de
um pacto com o criativo, na composição Tacet
4’33”, de 1952, o acaso é o regente absoluto da peça, dividida em três movimentos.
O pianista senta-se ao piano, fecha a tampa do teclado e permanece em silêncio durante
4’33”. Limita-se sua performance a abrir o instrumento ao fim de cada movimento
e a fechá-lo no início do seguinte. Baseada na constatação de que há sempre som
no silêncio, trata-se de uma escuta do acaso: a música prescinde de executante,
a escrita automática, de escritor. A respeito do contato com a escuta de uma composição
de Cage, Barthes afirma que “escuto cada som, um após o outro, não em sua extensão
sintagmática, mas em sua significância bruta e como que vertical: ao desconstruir-se, a escuta exterioriza-se,
obriga o indivíduo a renunciar à sua intimidade.”
[8] Essa escuta tende a uma exterioridade
pura. O percurso da escrita automática ao happening
desemboca no silêncio.
3
As
personagens da peça A cantora careca,
contemporânea da composição de John Cage, imersas em uma trama de silêncios, falam
sem dizer sentidos, como se saídas de um manual de aprendizado de línguas.
Interior burguês inglês, com poltronas inglesas. Uma noitada
inglesa. O Sr. Smith, um inglês, em sua poltrona e com chinelos ingleses, fuma seu
cachimbo inglês e lê um jornal inglês, perto de uma lareira inglesa. Usa óculos
ingleses, um bigodinho grisalho, inglês. Ao seu lado, numa outra poltrona inglesa,
a Sra. Smith, uma inglesa, remenda meias inglesas. Um longo momento de silêncio
inglês. O relógio inglês bate 17 badaladas inglesas. [9]
A solenidade inglesa da cena emoldura o contato vazio. A esse respeito, Sábato Magaldi
comenta que “como o resultado da viagem interior de Ionesco é o silêncio, as palavras,
furiosamente lançadas pelas personagens, mais servem para sublinhar a incomunicabilidade.”
[10] São palavras mudas, desvocalizadas,
privadas de ressonância e de afeto e voltadas absolutamente à comunicação utilitária.
[11] Magaldi afirma que as peças de Ionesco
oscilam “entre dois extremos, que se sustentam no palco: a rigidez das atitudes
exteriores absolutamente convencionais e o absurdo quase surrealista da introspecção
dissolvente. As personagens ficam suspensas entre esses polos, sem que o recurso
ao passado indique uma saída, e por isso, terminada a peça, retornam quase sempre
ao ponto de partida.” [12]
O deslocamento do realismo cria uma lacuna de estranheza.
Ao contrário do estranhamento brechtiano, que historiciza a situação cênica e nos
convida a criticar a realidade para poder superá-la, a proposição de Ionesco confirma
a conformidade das personagens às relações de poder estabelecidas, pois, para ele,
é em vão todo esforço para nos libertarmos
do mundo. [13]
4
Victor ou As crianças no
poder, de
Roger Vitrac, estreada em 24 de dezembro de 1928, com o Théâtre Alfred Jarry e encenação
de Antonin Artaud, configura-se peça paradigmática do Teatro Surrealista. Eis uma
sinopse, escrita pelo dramaturgo e diretor Jean Anouihl:
[…] Neste instante, o mundo toma sua forma mortal e definitiva
para Victor. O conhecimento lhe é dado como o fim do tempo do paraíso terrestre.
Ele vai agir, para nossa alegria, quebrando tudo […]. [14]
No segundo ato, a aparição de Ida Mortemart, personagem
fantasmática, coloca Victor entre o conhecimento e a morte. Em carta à atriz que
a interpretou, Artaud expõe o desmantelamento final:
Nela [na peça], porém, a angústia
se encontra condensada, quero dizer, que existe concretamente, que traz em si mesma
seu próprio desenlace, para concluir-se com a matança geral do fim, quando tudo
se destrói, porque o drama tendo atingido seu paroxismo e os personagens cumprido
sua função, não há mais razão para que a peça continue e deixe após si, seus personagens
vivos. […] Há nesta peça um terrível desejo de crueldade, de luz projetada nos porões
mais imundos do inconsciente humano. [15]
Promessa de continuidade de poder e domínio, a criança
é agente da aniquilação da família burguesa.
A sala familiar emoldura a ação de O futuro está nos ovos, [16]
texto de Ionesco de 1957. Jacques
e Roberta II casaram-se, mas namoram todo o tempo, ao invés de procriar, produzir
e dar continuidade à estirpe. As famílias se reúnem para resolver o impasse e corrigir
a disfunção provocada pelo casal enamorado. Curioso paradoxo, a separação dos dois
e a compreensão por Jacques de seu papel no processo reprodutivo, causada pela notícia
da morte do avô, suscita a eclosão de uma avalanche de ovos. Eis um traço surrealista
na obra: os humanos são ovíparos. A máquina burguesa volta a funcionar, para garantir
a produção e o lucro, como declara Jacques Pai. Em oposição a Victor, que rompe
a estrutura familiar, Jacques se amolda. Ao equiparar o ato reprodutivo da espécie
ao ato produtivo da indústria, Ionesco naturaliza a estrutura social vigente. Os
ingredientes desta naturalização explicitam-se no título alternativo da peça: Tudo o que é preciso para fazer um mundo.
Não por acaso, Ionesco declara o gênero da peça como comédia naturalista.
Sábato Magaldi sintetiza:
Ionesco, depois de fazer uma fatal vivissecção do cotidiano,
acaba repondo-o na maioria das vezes em seus dados anteriores, para mostrar que
a mecanização é uma forma de suicídio, mas a única forma em que nos é facultado
sobreviver. Estranha dialética, em que afirmação e negação se confundem, numa síntese
de beco sem saída para as suas personagens. [17]
As personagens de Ionesco enredam-se em um mundo
estruturalmente fixo, permanente e imutável, capturadas pela linguagem (A cantora careca) e pelas relações de produção
(O futuro está nos ovos). Esta concepção
desmonta o sonho utópico surrealista.
5
Carlos
Lima, em O teatro surrealista, afirma
que o surrealismo
teve como força motriz uma força revolucionária, com o objetivo
de fundar a utopia do novo homem, baseada na tríade do sonho: Poesia, Amor e Liberdade.
No domínio do surrealismo, […] a imaginação se funda, não mais na opinião, mas na
sabedoria, a imaginação sábia da inteligência narrativa, fundamento de uma poiesis da utopia […] É disto que tratamos quando falamos
de teatro onírico, o teatro da anarquia e da beleza convulsiva. [18]
Embora identifiquemos traços formais surrealistas
nessas obras da primeira fase do dramaturgo, sua proposta desconsidera a tríade do sonho, desde que admitamos vínculo
recíproco entre os elementos do trinômio. O sonho encontra-se em luta com a embriaguez,
presente na proposta surrealista, como afirma Walter Benjamin: “Em todos os seus
livros e iniciativas, a proposta surrealista tende ao mesmo fim: mobilizar para
a revolução as energias da embriaguez. Podemos dizer que essa é a sua tarefa mais
autêntica. […] Esse elemento é de caráter anárquico.” [19]
Liberdade e revolução, utopia e embriaguez são pressuposto,
processo e fim do projeto poético surrealista, atributos que não parecem estar presentes
nessas dramaturgias de Eugène Ionesco.
Fontes
BARTHES,
Roland. A Escuta. Paris: Encyclopédie Enaudie, 1976.
BRETON, André. Les Manifestes
du Surrealisme. Paris: Éditions du Sagittaire, 1946.
BENJAMIN,
Walter. O surrealismo. O último instantâneo
da inteligência europeia. In: Magia e
técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. Tradução
de Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, v. I, 1987.
DAL
FARRA MARTINS, José Batista (Zebba). Palavra
Muda. Sobre poéticas para vozes em Estado de Sítio. São Paulo: Giostri, 2020.
LIMA,
Carlos. O teatro surrealista. In: GUINSBURG,
Jacó e LEINER, Sheila (org.). O surrealismo.
São Paulo: Perspectiva, 2012.
IONESCO,
Eugène. A cantora careca. Tradução de
Maria Lucia Pereira.
___.
O futuro está nos ovos ou Tudo o que é preciso
para fazer um mundo. Lisboa: [s.n.], [s.d.].
MAGALDI,
Sábato. O texto no teatro. São Paulo:
Perspectiva, 1989.
NIN,
Anaïs. Diário I (1932-1934). Barcelona:
Editorial RM, 1977.
STORÓLI,
Wânia. John Cage e o surgimento de novas formas
artísticas. Manaus: XVIII Congresso da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação
em Música, 2018.
VITRAC,
Roger. Victor ou as crianças no poder.
Programa da montagem carioca de 1963.
NOTAS
1.
BRETON, 1946. Tradução minha.
2.
BRETON, 1946. Tradução minha.
3.
Expressão de Julio Cortázar, citada por LIMA, 2012.
4.
Neste ano, Hitler conquistara o poder na Alemanha e Mussolini imperava na Itália:
a peste do nazi-fascismo não era viral, mas propagava a contaminação do temor e
da morte.
5.
NIN, 1977. Tradução minha.
6.
STORÓLI, 2018.
7.
Id., ibid.
8.
BARTHES.
9.
IONESCO, 2021.
10.
MAGALDI, 1989.
11.
Esta língua-máquina, tomada como absurda
no início dos anos 50, tornou-se digital e nos é crescentemente familiar, submetidos
que somos à superficialidade veloz do virtual. Ver DAL FARRA MARTINS, 2020.
12.
MAGALDI, 1989.
13.
Citado por MAGALDI, 1989.
14.
VITRAC, 2021.
15.
Id., ibid. Assisti em 1974 uma inesquecível montagem de Victor dirigida por Celso Nunes, com o grupo da Escola de Arte Dramática
que se tornaria o Pessoal do Victor. Guardo
na memória o impressionante ímpeto destruidor da criança: multiplicada em quatro
personagens, essa potência quadruplicava.
16.
Segundo Ionesco, trata-se de continuação da peça Jacques ou a submissão. Escrita em 1950, narra a personagem presa em
um universo de convenções do qual não consegue escapar.
17. MAGALDI, 1989.
18. LIMA, 2012.
19. BENJAMIN, 1987.
JOSÉ BATISTA (ZEBBA) DAL FARRA MARTINS | Músico, encenador, ator e cantor, Zebba Dal Farra é professor e pesquisador livre-docente sênior do Departamento de Artes Cênicas (ECA-USP). Atua nos campos do teatro e da música, dedicando-se especialmente ao estudo da voz e das vocalidades poéticas, atrelado à canção brasileira. Em 2020, publicou os livros Palavra Muda. Sobre poéticas para vozes em Estado de Sítio e O ser aprendiz. Um itinerário com Myrian Muniz, pela Editora Giostri.
ANA SABIÁ | Artista visual e pesquisadora independente. Doutora em Artes Visuais pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), mestra em Psicologia Social (UFSC) e graduada em artes visuais pela FAAP (SP). Participa ativamente da cena fotográfica contemporânea de exposições, palestras, mostras e festivais em todo o território nacional. Em 2017 foi premiada com o 1° lugar (categoria foto única) no 13° Festival Internacional de Fotografia Paraty em Foco (RJ); com o 2° lugar do júri oficial do Prix Photo Web Aliança Francesa e selecionada em convocatória do SESC Galerias, para a mostra individual “Do porão ao sótão” itinerante em três cidades catarinenses. Em 2019 foi selecionada para a mostra coletiva “Vento Sul” no 9° Foto em Pauta Festival de Fotografia de Tiradentes (MG) e convidada pela curadoria da 14ª Bienal Internacional de Curitiba para integrar a programação com a mostra individual “Panorâmicas do Desejo”. Em 2020 foi selecionada no edital “Arte como respiro” do Itaú Cultural (SP); também selecionada no 25° Salão Anapolino de Arte (GO) e, neste mesmo ano, na leitura de portfólio do FESTFOTO (POA), obteve o Prêmio Aquisição do Museu da Fotografia de Fortaleza.
Agulha Revista de Cultura
Série SURREALISMO SURREALISTAS # 01
Número 200 | janeiro de 2022
Artista convidada: Ana Sabiá (Brasil, 1978)
editor geral | FLORIANO MARTINS | floriano.agulha@gmail.com
editor assistente | MÁRCIO SIMÕES | mxsimoes@hotmail.com
concepção editorial, logo, design, revisão de textos & difusão | FLORIANO MARTINS
ARC Edições © 2022
∞ contatos
Rua Poeta Sidney Neto 143 Fortaleza CE 60811-480 BRASIL
https://www.instagram.com/floriano.agulha/
https://www.linkedin.com/in/floriano-martins-23b8b611b/
Nenhum comentário:
Postar um comentário