sábado, 21 de março de 2026

ANTÓNIO CÂNDIDO FRANCO | Diogo Vaz Pinto, autópsia da anticrítica

 


Diogo Vaz Pinto nasceu em 1985, em Lisboa. Fez uma formação típica de quem nasceu depois da revolução e do seu Termidor, interessou-se pela literatura e fez poemas, muitos poemas, que publicou em livro, o último dos quais até à data Sombra Selvagem (2023). Meteu-se ainda na edição, sendo um dos fundadores da editora Língua Morta, que, embora com flutuações, tem editado com gosto e algum acerto, de que a recente edição de Diário Selvagem de Luiz Pacheco é um bom exemplo.

Mas é enquanto crítico literário e cultural que Vaz Pinto é mais conhecido. Há razões para isso, pois desde há anos que publica regularmente em vários jornais nacionais – o diário i, o semanário Sol, a revista Ler – e mantém um blog, “O melhor amigo”, onde aprofunda as críticas que, sob forma mais condensada (e consumível, diga-se), publica nas páginas dos jornais, mas onde também disponibiliza outras que por razões várias nunca viram a luz nas publicações em papel.

Demais, a linguagem crítica de Vaz Pinto, apesar dalguns empanes, parece, ao menos à primeira vista, ter nervo e ser destemida. O autor não só mostra à superfície vocação e desembaraço pa­ra o discurso crítico como não hesita em atirar-se aos autores e aos livros consagrados, nem tão-pouco aos mecanismos do sistema literário, des­cobrindo fragilidades, pondo à vista charcos, recusan­do repetir os lugares-comuns da consagração balofa.

Diogo Vaz Pinto acabou agora de reunir os seus textos críticos, ou aqueles em que mais se revê, em livro, que intitulou O anticrítico (Maldoror, Dezembro de 2023). Trata-se dum volume com quase 700 páginas, dividido em nove secções, a que juntou uma dedicatória, uma epígrafe, um prólogo (com dois complementos) e um posfácio. Fez bem o autor em reunir os seus textos que considera mais representativos num único volume e em disponibilizá-lo ao leitor, que tem assim uma ocasião privilegiada para avaliar com mais atenção uma actividade que até hoje tinha andado ou muito dispersa ou quase inacessível.

No livro reencontramos alguns dos textos que justificam o interesse desta crítica. Estão lá dois textos quase intocáveis sobre o sistema literário português – sistema social que aliás pode hoje ser alargado e universalizado a qualquer sistema em que a literatura tenha de viver nas actuais condições de mercado industrial e de mercado institucional. Refiro-me aos seguintes textos, ambos publicados no jornal i e escritos com uma brevidade que não põe de parte, antes reforça, a eficácia com que a ferida é isolada e o ponto crítico posto à mostra: “Festivais literários. Vinte anos depois não está na altura de repensar o modelo?” e “A Feira do Livro está maior. E mais? Não. É só”.

Também as peças sobre o prémio Camões atribuído a Manuel Alegre (Sol, 10-6-2027), sobre o livro A morte sem mestre de Herberto Helder (i, 30-5-2019), sobre o ministro e poeta Luís Filipe Castro Mendes (Sol, 18-3-2018), sobre as sucessivas revisões a que Joaquim Manuel Magalhães tem submetido os seus poemas (i, 11-12-2018), sobre uma brincadeira para adolescentes de Jorge Reis-Sá (i, 13-9-2018), sobre um romance de Afonso Reis Cabral (i, 9-10-2018), fazem prova, ao menos à superfície e não obstante o impasse de certas passagens, das qualidades críticas já indicadas.

O mesmo se pode dizer para as leituras dos livros de Pedro Eiras, de Rosa Maria Martelo, de Margarida Vale de Gato, de Rosa Oliveira, de Madalena de Castro Campos e de Sebastião Belfort Cerqueira, embora o que nelas possa haver de impugnação pouco represente em casos destes, de menor visibilidade, como aliás se vê no texto dedicado a um livro de Ricardo Domeneck.


Mas este livro, ao facultar uma leitura de conjunto, que resulta do desdobramento de leituras de pormenor mais aprofundadas, acaba também por deixar à mostra com uma reverberação muito mais forte aqueles impasses que antes referimos e que logo nas leituras mais rápidas e superficiais não deixam de saltar à vista. Mas o que numa leitura ocasional pode não passar de suspeita, que depressa se esquece sem se sistematizar, ganha aqui, numa obra desta magnitude com qua­se 700 páginas e 67 textos, uma amplitude que pode acabar por fazer ruir os fundamentos e os predicados desta crítica.

Tome-se como exemplo o texto sobre Manuel Alegre, “Camões: um prémio de consolação”. Não ponho aqui em causa que é tarefa meritória questionar a atribuição dum prémio como o Camões. O que ponho em causa é que essa contestação seja feita porque foi Manuel Alegre a recebê-lo. Nas mãos dele, diz Vaz Pinto, o prémio “desluzia-se” – nas de outros já ganhava lustre. Diante da ousadia de questionar a escolha do júri, revelando cumplicidades políticas entre o premiado e alguns jurados, isto que é capital – refutar a existência dum prémio em lugar de contestar a poesia de Manuel Alegre – passa depressa a secundário no espírito do leitor de ocasião. O problema é que nu­ma compilação com este grau de exigência esta questão, não contestar o prémio em si mas julgar que certos nomes (duvidosos ou não) o abrilhantavam, não pode ser silencia­da e torna-se até a pedra-de-toque para avaliar o texto, que passa assim a fazer figura de mera bravata sem nexo e sem alvo.

Dou outro exemplo. Há uma secção do livro que se chama “Louvores sinceros”. O texto de abertura, que é de resto o mais compacto e extenso do subconjunto, intitula-se “Agustina, uma lição sobre a miséria”. Mesmo o leitor desprevenido, mas com um mínimo de informação, não pode deixar de desconfiar de tal escolha. Se A­gustina Bessa-Luís hoje reclama alguma coisa da crítica é que esta não repita os mesmos elogios de sempre. Uma crítica que seja capaz de ser um contributo válido para o presente, precisa de desfazer os lacinhos felizes com que envernizaram a autora durante tantos anos. Reconhecer o inegável talento verbal da autora d’A Sibila não chega nem serve para nada. Um crítico que conheça a lição da crítica de identificação – e Vaz Pinto conhece-a tão bem que a cita como modelo – sabe que nos dias de hoje qualquer reconhecimento desse tipo adia o principal e alimenta a cortina de fumo que nos puseram diante dos olhos.

Fazer de Agustina uma figura modelar do nosso imaginário li­te­rário e cultural é mesmo o pior serviço que se pode prestar no presente à literatura em Portugal. Se o texto sobre a atribuição do prémio Camões a Manuel Alegre passa ao lado daquilo que mais importa, este “louvor sincero” a Agustina, partindo duma verdade incontestável, o talento verbal da autora, falha no essencial. A única crítica que hoje pode ter interesse sobre Agustina é uma crítica que nos saiba dizer por que razão a autora não é um modelo cultural. Ela é talvez entre nós a figura que hoje mais necessita duma avaliação que faça do princípio da crítica de identificação – “diz-me como vives, dir-te-ei como escreves” – o seu instrumento de leitura.

Dou mais um exemplo. Na mesma secção dos “Louvores sinceros” há um texto chamado “Manuel Hermínio Monteiro. Vinte anos depois, porque foi esquecido o mais cúmplice editor dos poetas”. Hermínio foi um editor inteligente, esperto, com visão estratégica e com um sentido de oportunidade aguçado e certeiro. Tinha um carisma pessoal incontestável que sabia cativar de forma natural. Não era porém, nem tinha, muito mais que isso. Assim não se percebe muito bem o que é que este texto sobre uma figura que aos 40 anos foi comendador da Ordem do Infante D. Henrique faz num livro que pretende romper consensos, desmontar análises, instituir polémicas e criar leituras controversas e contrastantes. Transcrevo um passo do texto:

 


Hermínio criou ainda no espaço da Assírio, na Rua Passos Manuel, em Lisboa, uma galeria de arte. Dinamizou as livrarias nos cinemas King, de Lisboa, e no Porto. Foi autor de programas radiofónicos e televisivos. Prefaciou livros e escreveu textos para catálogos de exposições e esteve com Miguel Esteves Cardoso na criação da revista K, tendo colaborado ainda na revista Ler, e integrado o conselho editorial da revista Espacio/Espaço Escrito, de Badajoz. Entrou também na criação da revista hispano-americana de poesia Hablar/Falar de Poesia, e colaborou numa série de outras publicações como O Independente, Jornal de Letras, Artes e Ideias, Douro-net, revista Barata, jornal La Vanguardia etc.

 

Ao ler esta passagem percebe-se por que razão o editor da Assírio recebeu uma comenda das mãos do presidente da república – não se percebe é o motivo para um tal discurso cor-de-rosa figurar num livro que pretende quebrar unanimidades e falar sem papas na língua.

O texto ainda se torna mais duvidoso quando se lê no livro, na secção “Coveiros da própria consciência”, a peça dedicada a Luís Oliveira, “A Antígona é ele”, originalmente dada a lume no blog (24-6-2019). Po­de-se não gostar da editora Antígona, pode-se até brincar com algumas das suas rábulas e historietas, não se pode é porém deixar de reconhecer que esta editora, hoje a caminho dos 50 anos, editou o que ninguém mais editou, deixando em legado um catálogo raro e venerável. Po­de-se ainda não gostar da figura do seu fundador, pode-se detestar o seu feitio, pode-se até não lhe querer falar nem estar com ele à mesa, mas não se pode é confundir este homem, na singularidade da sua vida e da sua obra, com uma comenda da Ordem do Infante D. Henrique, a dinamização dos cinemas King e a feitura de programas radiofónicos e televisivos.

Atendendo ao título do seu livro, chamou-se Diogo Vaz Pinto a si próprio de anticrítico. Aceite-se que a sua actividade, a anticrítica, começa por ter facetas meritórias e simpáticas, sobretudo quando os textos são lidos de forma isolada e ocasional, mas reconheça-se também, depois de tudo o que vimos, que ela acaba, quando apreciada em conjunto, por mostrar inanidades insuperáveis. Tais lacunas ainda mais sobressaem numa colecção de quase 700 páginas, onde encontramos momentos em que o autor intenta justificar o esforço e o interesse em publicar um cartapácio de muitas centenas de páginas.

Que dizer por exemplo da seguinte frase, escrita no meio da polémica que manteve com Miguel Serras Pereira sobre a tradução de Rimbaud: “Não tenho o menor interesse em defender-me da reputação de crápula.” E desta, a propósito da mesma polémica: “Por isso, e por agora, avilto-me o mais que posso.” E ainda desta, num texto sobre João Paulo Cotrim: “Nesta época, só deposito alguma fé nos crápulas.”

O que se pode dizer é que estas frases são despropósitos – um desbaratar de palavras num frenesim sem alvo nem interesse. É por isso que estas 700 páginas são, assim em conjunto, um desperdício e um logro. Não passam de agitação – excitação vã, que leva o anticrítico a dizer nos parágrafos do prólogo, onde esperávamos de­le alguma solidez, algum vislumbre teórico convincente, esta tolice de puberdade: “Neste aspecto, fui sempre um ás. Eu sarrazinava-os.” Nada é tão verdade neste livro, como a sua capa, onde vemos um garotinho a atirar para o ar bolinhas de neve.

Nos últimos tempos o anticrítico tem publicado na revista Ler. No Outono de 2023 publicou sobre Zeca Afonso. No Inverno de 2023 regressou sobre João Miguel Fernandes Jorge. No Verão de 2024 voltou com uma nota sobre Joaquim Castro Caldas e logo a seguir, no Outono de 2024, deu-nos um texto sobre Vasco Graça Moura, que começa assim:

 


Passados 10 anos sobre a morte de Vasco da Graça Moura, a exigência de lembrá-lo coloca-nos perante a tensão de um perfil assombroso, num contraste decisivo face a uma época em que as consciências se estilhaçam e só se exprimem por meio de detritos. Com o seu balanço e enlevo renascentista, ele soube prender nas mãos o fulgor das sínteses que renovam a consistência do mundo.

 

“Um perfil assombroso”? “Ele soube prender nas mãos o fulgor das sínteses que renovam a consistência do mundo”? “O seu enlevo renascentista”? Estamos a falar do Graça Moura que escrevia versos, despachava uma artigalhada semanal para os diários a dar traulitada ou na oposição parlamentar ou no governo, consoante este e aquela eram do PS, e apanhava de vez em vez o jacto para ir ao parlamento europeu ocupar o lugar para onde fora eleito nas listas do PSD?... Por este caminho, Vaz Pinto não tarda a fazer o “louvor sincero” do presidente da Academia das Ciências de Lisboa.

A anticrítica existe? Se existe é berraria de garotos, uma gritaria sem nexo nem estratégia, uma guerra de alecrim e manjerona, uma brincadeira sem jeito nem rumo, que tanto leva à injusta cacetada desbragada como ao bai­xo elogio untuoso. Como é que se pode acreditar num tipo que diz de si: “(...) por agora, avilto-me o mais que posso.” Ele que se avilte o mais que possa, que a nós basta-nos a crítica, quando ela sabe o que diz e para onde vai. Um parágrafo crítico de Alberto Velho Nogueira sobre Agustina vale mais que toda a anticrítica junta de Vaz Pinto. Foi ele que soube dizer o que era necessário ser dito sobre os romances da autora d’A Sibila. A anticrítica não nos faz falta nenhuma, não nos incomoda, nem nos serve para nada. R.I.P.




ANTÓNIO CÂNDIDO FRANCO (Portugal, 1956) | Ensaísta e editor. Nasceu e cresceu em Lisboa, num dos mais vetustos bairros da cidade, a Graça. Aos sete anos foi aluno de Alice Gomes. Há quase quatro décadas que está ligado ao ensino público, onde se esforça por desaprender muito do que lhe ensinaram. Coordena, edita e dirige desde 2012 a revista de “cultura libertária” A Ideia, que se publica desde 1974 e onde Mário Cesariny colaborou em vida. Tudo o que procura é poder inscrever no seu registo o que um inspirado escritor francês mandou gravar na sua lápide: Je cherche l’or du temps.




ROLANDO TOPOR (França, 1938-1997). Pintor, ilustrador, poeta, cançonetista, dramaturgo, encenador, cineasta e fotógrafo, artista impossível de catalogar, começou por destacar-se com os desenhos grotescos que publicou na revista satírica Hara-Kiri. Vencedor do Grand Prix de L’Humour Noir em 1961, bebeu dos surrealistas e respondeu-lhes com o movimento Pânico, que fundou com Fernando Arrabal e Alejandro Jodorowsky, entre outros. Em sua obra, Topor nos leva para um mundo do avesso, e a crueldade animalesca, o erotismo, a escatologia e a tétrica ironia das suas obras valeram-lhe o desprezo de críticos, vários projetos ruinosos e ameaças de morte quotidianas. Graças a uma sempre amável sugestão de João Antônio Buhrer, Rolando Topor agora está conosco como artista convidado desta edição da Agulha Revista de Cultura.

  



Agulha Revista de Cultura

Número 264 | março de 2026

Artista convidado: Rolando Topor (França, 1938-1997)

Editores:

Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com

Elys Regina Zils | elysre@gmail.com

ARC Edições © 2026


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