Mas é enquanto crítico literário e cultural que Vaz Pinto é mais
conhecido. Há razões para isso, pois desde há anos que publica regularmente em
vários jornais nacionais – o diário i,
o semanário Sol, a revista Ler – e mantém um blog, “O melhor
amigo”, onde aprofunda as críticas que, sob forma mais condensada (e consumível,
diga-se), publica nas páginas dos jornais, mas onde também disponibiliza outras
que por razões várias nunca viram a luz nas publicações em papel.
Demais, a linguagem crítica de Vaz Pinto, apesar dalguns empanes, parece,
ao menos à primeira vista, ter nervo e ser destemida. O autor não só mostra à
superfície vocação e desembaraço para o discurso crítico como não hesita em
atirar-se aos autores e aos livros consagrados, nem tão-pouco aos mecanismos do
sistema literário, descobrindo fragilidades, pondo à vista charcos, recusando
repetir os lugares-comuns da consagração balofa.
Diogo Vaz Pinto acabou agora de reunir os seus textos críticos, ou
aqueles em que mais se revê, em livro, que intitulou O anticrítico (Maldoror, Dezembro de 2023). Trata-se dum volume com
quase 700 páginas, dividido em nove secções, a que juntou uma dedicatória, uma
epígrafe, um prólogo (com dois complementos) e um posfácio. Fez bem o autor em
reunir os seus textos que considera mais representativos num único volume e em
disponibilizá-lo ao leitor, que tem assim uma ocasião privilegiada para avaliar
com mais atenção uma actividade que até hoje tinha andado ou muito dispersa ou
quase inacessível.
No livro reencontramos alguns dos textos que justificam o interesse
desta crítica. Estão lá dois textos quase intocáveis sobre o sistema literário
português – sistema social que aliás pode hoje ser alargado e universalizado a
qualquer sistema em que a literatura tenha de viver nas actuais condições de
mercado industrial e de mercado institucional. Refiro-me aos seguintes textos,
ambos publicados no jornal i e
escritos com uma brevidade que não põe de parte, antes reforça, a eficácia com
que a ferida é isolada e o ponto
crítico posto à mostra: “Festivais literários. Vinte anos depois não está na
altura de repensar o modelo?” e “A Feira do Livro está maior. E mais? Não. É
só”.
Também as peças sobre o prémio Camões atribuído a Manuel Alegre (Sol, 10-6-2027), sobre o livro A morte sem mestre de Herberto Helder (i, 30-5-2019), sobre o ministro e poeta
Luís Filipe Castro Mendes (Sol,
18-3-2018), sobre as sucessivas revisões a que Joaquim Manuel Magalhães tem
submetido os seus poemas (i,
11-12-2018), sobre uma brincadeira para adolescentes de Jorge Reis-Sá (i, 13-9-2018), sobre um romance de
Afonso Reis Cabral (i, 9-10-2018),
fazem prova, ao menos à superfície e não obstante o impasse de certas passagens,
das qualidades críticas já indicadas.
O mesmo se pode dizer para as leituras dos livros de Pedro Eiras, de
Rosa Maria Martelo, de Margarida Vale de Gato, de Rosa Oliveira, de Madalena de
Castro Campos e de Sebastião Belfort Cerqueira, embora o que nelas possa haver
de impugnação pouco represente em casos destes, de menor visibilidade, como
aliás se vê no texto dedicado a um livro de Ricardo Domeneck.
Tome-se como exemplo o texto sobre Manuel Alegre, “Camões: um prémio de
consolação”. Não ponho aqui em causa que é tarefa meritória questionar a
atribuição dum prémio como o Camões. O que ponho em causa é que essa
contestação seja feita porque foi Manuel Alegre a recebê-lo. Nas mãos dele, diz
Vaz Pinto, o prémio “desluzia-se” – nas de outros já ganhava lustre. Diante da
ousadia de questionar a escolha do júri, revelando cumplicidades políticas entre
o premiado e alguns jurados, isto que é capital – refutar a existência dum
prémio em lugar de contestar a poesia de Manuel Alegre – passa depressa a
secundário no espírito do leitor de ocasião. O problema é que numa compilação
com este grau de exigência esta questão, não contestar o prémio em si mas
julgar que certos nomes (duvidosos ou não) o abrilhantavam, não pode ser
silenciada e torna-se até a pedra-de-toque para avaliar o texto, que passa
assim a fazer figura de mera bravata sem nexo e sem alvo.
Dou outro exemplo. Há uma secção do livro que se chama “Louvores
sinceros”. O texto de abertura, que é de resto o mais compacto e extenso do subconjunto,
intitula-se “Agustina, uma lição sobre a miséria”. Mesmo o leitor desprevenido,
mas com um mínimo de informação, não pode deixar de desconfiar de tal escolha.
Se Agustina Bessa-Luís hoje reclama alguma coisa da crítica é que esta não
repita os mesmos elogios de sempre. Uma crítica que seja capaz de ser um
contributo válido para o presente, precisa de desfazer os lacinhos felizes com
que envernizaram a autora durante tantos anos. Reconhecer o inegável talento
verbal da autora d’A Sibila não chega
nem serve para nada. Um crítico que conheça a lição da crítica de identificação
– e Vaz Pinto conhece-a tão bem que a cita como modelo – sabe que nos dias de
hoje qualquer reconhecimento desse tipo adia o principal e alimenta a cortina
de fumo que nos puseram diante dos olhos.
Fazer de Agustina uma figura modelar do nosso imaginário literário e
cultural é mesmo o pior serviço que se pode prestar no presente à literatura em
Portugal. Se o texto sobre a atribuição do prémio Camões a Manuel Alegre passa
ao lado daquilo que mais importa, este “louvor sincero” a Agustina, partindo
duma verdade incontestável, o talento verbal da autora, falha no essencial. A
única crítica que hoje pode ter interesse sobre Agustina é uma crítica que nos
saiba dizer por que razão a autora não é um modelo cultural. Ela é talvez entre
nós a figura que hoje mais necessita duma avaliação que faça do princípio da
crítica de identificação – “diz-me como vives, dir-te-ei como escreves” – o seu
instrumento de leitura.
Dou mais um exemplo. Na mesma secção dos “Louvores sinceros” há um texto
chamado “Manuel Hermínio Monteiro. Vinte anos depois, porque foi esquecido o
mais cúmplice editor dos poetas”. Hermínio foi um editor inteligente, esperto,
com visão estratégica e com um sentido de oportunidade aguçado e certeiro. Tinha
um carisma pessoal incontestável que sabia cativar de forma natural. Não era
porém, nem tinha, muito mais que isso. Assim não se percebe muito bem o que é
que este texto sobre uma figura que aos 40 anos foi comendador da Ordem do
Infante D. Henrique faz num livro que pretende romper consensos, desmontar
análises, instituir polémicas e criar leituras controversas e contrastantes.
Transcrevo um passo do texto:
Ao ler esta passagem percebe-se por que razão o editor da Assírio
recebeu uma comenda das mãos do presidente da república – não se percebe é o
motivo para um tal discurso cor-de-rosa figurar num livro que pretende quebrar
unanimidades e falar sem papas na língua.
O texto ainda se torna mais duvidoso quando se lê no livro, na secção
“Coveiros da própria consciência”, a peça dedicada a Luís Oliveira, “A Antígona
é ele”, originalmente dada a lume no blog (24-6-2019). Pode-se não gostar da
editora Antígona, pode-se até brincar com algumas das suas rábulas e historietas,
não se pode é porém deixar de reconhecer que esta editora, hoje a caminho dos
50 anos, editou o que ninguém mais editou, deixando em legado um catálogo raro
e venerável. Pode-se ainda não gostar da figura do seu fundador, pode-se
detestar o seu feitio, pode-se até não lhe querer falar nem estar com ele à
mesa, mas não se pode é confundir este homem, na singularidade da sua vida e da
sua obra, com uma comenda da Ordem do Infante D. Henrique, a dinamização dos
cinemas King e a feitura de programas radiofónicos e televisivos.
Atendendo ao título do seu livro, chamou-se Diogo Vaz Pinto a si próprio
de anticrítico. Aceite-se que a sua actividade, a anticrítica, começa por ter facetas
meritórias e simpáticas, sobretudo quando os textos são lidos de forma isolada
e ocasional, mas reconheça-se também, depois de tudo o que vimos, que ela acaba,
quando apreciada em conjunto, por mostrar inanidades insuperáveis. Tais lacunas
ainda mais sobressaem numa colecção de quase 700 páginas, onde encontramos
momentos em que o autor intenta justificar o esforço e o interesse em publicar
um cartapácio de muitas centenas de páginas.
Que dizer por exemplo da seguinte frase, escrita no meio da polémica que
manteve com Miguel Serras Pereira sobre a tradução de Rimbaud: “Não tenho o
menor interesse em defender-me da reputação de crápula.” E desta, a propósito
da mesma polémica: “Por isso, e por agora, avilto-me o mais que posso.” E ainda
desta, num texto sobre João Paulo Cotrim: “Nesta época, só deposito alguma fé
nos crápulas.”
O que se pode dizer é que estas frases são despropósitos – um desbaratar
de palavras num frenesim sem alvo nem interesse. É por isso que estas 700
páginas são, assim em conjunto, um desperdício e um logro. Não passam de
agitação – excitação vã, que leva o anticrítico a dizer nos parágrafos do
prólogo, onde esperávamos dele alguma solidez, algum vislumbre teórico
convincente, esta tolice de puberdade: “Neste aspecto, fui sempre um ás. Eu
sarrazinava-os.” Nada é tão verdade neste livro, como a sua capa, onde vemos um
garotinho a atirar para o ar bolinhas de neve.
Nos últimos tempos o anticrítico tem publicado na revista Ler. No Outono de 2023 publicou sobre
Zeca Afonso. No Inverno de 2023 regressou sobre João Miguel Fernandes Jorge. No
Verão de 2024 voltou com uma nota sobre Joaquim Castro Caldas e logo a seguir,
no Outono de 2024, deu-nos um texto sobre Vasco Graça Moura, que começa assim:
“Um perfil assombroso”? “Ele soube prender nas mãos o fulgor das
sínteses que renovam a consistência do mundo”? “O seu enlevo renascentista”?
Estamos a falar do Graça Moura que escrevia versos, despachava uma artigalhada
semanal para os diários a dar traulitada ou na oposição parlamentar ou no
governo, consoante este e aquela eram do PS, e apanhava de vez em vez o jacto
para ir ao parlamento europeu ocupar o lugar para onde fora eleito nas listas
do PSD?... Por este caminho, Vaz Pinto não tarda a fazer o “louvor sincero” do
presidente da Academia das Ciências de Lisboa.
A anticrítica existe? Se existe é berraria de garotos, uma gritaria sem
nexo nem estratégia, uma guerra de alecrim e manjerona, uma brincadeira sem
jeito nem rumo, que tanto leva à injusta cacetada desbragada como ao baixo
elogio untuoso. Como é que se pode acreditar num tipo que diz de si: “(...) por
agora, avilto-me o mais que posso.” Ele que se avilte o mais que possa, que a
nós basta-nos a crítica, quando ela sabe o que diz e para onde vai. Um
parágrafo crítico de Alberto Velho Nogueira sobre Agustina vale mais que toda a
anticrítica junta de Vaz Pinto. Foi ele que soube dizer o que era necessário
ser dito sobre os romances da autora d’A
Sibila. A anticrítica não nos faz falta nenhuma, não nos incomoda, nem nos
serve para nada. R.I.P.
ANTÓNIO CÂNDIDO FRANCO (Portugal, 1956) | Ensaísta e editor. Nasceu e cresceu em Lisboa, num dos mais vetustos bairros da cidade, a Graça. Aos sete anos foi aluno de Alice Gomes. Há quase quatro décadas que está ligado ao ensino público, onde se esforça por desaprender muito do que lhe ensinaram. Coordena, edita e dirige desde 2012 a revista de “cultura libertária” A Ideia, que se publica desde 1974 e onde Mário Cesariny colaborou em vida. Tudo o que procura é poder inscrever no seu registo o que um inspirado escritor francês mandou gravar na sua lápide: Je cherche l’or du temps.
ROLANDO TOPOR (França, 1938-1997). Pintor, ilustrador, poeta, cançonetista, dramaturgo, encenador, cineasta e fotógrafo, artista impossível de catalogar, começou por destacar-se com os desenhos grotescos que publicou na revista satírica Hara-Kiri. Vencedor do Grand Prix de L’Humour Noir em 1961, bebeu dos surrealistas e respondeu-lhes com o movimento Pânico, que fundou com Fernando Arrabal e Alejandro Jodorowsky, entre outros. Em sua obra, Topor nos leva para um mundo do avesso, e a crueldade animalesca, o erotismo, a escatologia e a tétrica ironia das suas obras valeram-lhe o desprezo de críticos, vários projetos ruinosos e ameaças de morte quotidianas. Graças a uma sempre amável sugestão de João Antônio Buhrer, Rolando Topor agora está conosco como artista convidado desta edição da Agulha Revista de Cultura.
Agulha Revista de Cultura
Número 264 | março de 2026
Artista convidado: Rolando Topor (França, 1938-1997)
Editores:
Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com
Elys Regina Zils | elysre@gmail.com
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