sábado, 21 de março de 2026

FLORIANO MARTINS | O maldito no feminino – A escrita literária transgressiva em língua portuguesa, de Maria Lúcia Dal Farra



A Editora da Unicamp acaba de publicar este livro fundamental da poeta e ensaísta Maria Lúcia Dal Farra. Na sinopse divulgada pela editora, lemos:

 

Com o intuito de conhecer e inquirir os modos de transgressão feminina que vieram conferir a certas escritoras a pecha da maldição literária, este livro examina, de início, duas lendas medievais galaico-portuguesas que expõem tipos antagônicos de mulher, para poder ir trilhando, ao longo da história literária de expressão portuguesa, a geração e a intermitência dessa linhagem (que produz um fértil elenco de nuances do proibido, incluindo o erotismo), acompanhando-a até a contemporaneidade. Trata-se apenas de um recorte efetuado sobre vastos domínios (literaturas portuguesa, brasileira e africanas de expressão portuguesa) que vai atualizando o conceito (visitado na acepção baudelairiana, recuperada por Verlaine), mercê do trato íntimo com as obras eleitas. Outras tantas variações de maldito – do ponto de vista cultural, histórico-social, antropológico, psicanalítico, sexual, religioso etc. – são confrontadas a ponto de se obter um acorde aberto de hipóteses, ao menos um alarde sobre o trajeto transformativo do maldito, que instigue novas especulações.

 

A poeta Maria Lúcia Dal Farra é mestre e doutora em Letras Vernáculas pela Universidade de São Paulo (USP), livre-docente pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e professora titular pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), onde foi pró-reitora de Pós-Graduação. Tem pós-doutorado na Universidade de Lisboa e na École Pratique de Hautes Études de Paris; lecionou na USP, na Unicamp (onde integrou a equipe fundadora do Instituto de Estudos da Linguagem com Antonio Candido), na UFS e na Universidade de Berkeley, Califórnia (EUA). No que pese a relevância inquestionável de seu pensamento crítico, Maria Lúcia Dal Farra, vencedora do Prêmio Jabuti de Poesia (2012), é uma exímia poeta, autora de uma obra densa e reveladora. Ao conversar com ela sobre O maldito no feminino, improvisamos uma brevíssima entrevista, assim formatada:


FM | Quando começaste a escrever O maldito no feminino? O livro partiu do projeto de ser escrito assim, sobre mulheres, ou sua estrutura só surgiu quando já tinhas escrito alguns ensaios?


MLDF | É que estudo e leio a Florbela Espanca desde cedo, e nunca me conformei com essa história de ela ser apodada de maldita. Isso porque eu sempre por pura ingenuidade adolescente ainda, supunha que era um palavrão que devia ofendê-la demais e à sua obra. Claro que, na altura, eu não estava de todo enganada. 

Ora, à medida em que fui avançando nas minhas leituras, descobri que esse mérito não era exclusivo dela, mas também de certas mulheres tanto em língua portuguesa quanto em quaisquer outras línguas estrangeiras. Daí que eu tivesse, sempre que a tomava como objeto de algum estudo, buscar uma contemporânea sua para pensá-la nas afinidades ou não, de maneira que fui penetrando num universo poético muito incógnito e surpreendente. Assim, adotei também, como coleguinhas minhas de escrita, essas outras mulheres do mesmo naipe, por assim dizer: a Edna Saint-Vincent Millay, a Anne Sexton, a Laura Riding, a Virginia Woolf, a Judith Teixeira, a Maria Teresa Horta, as Três Marias Portuguesas, a Gilka Machado, a  Yde Schlöenbach Blumenschein (a Colombina), a Alfonsina Storni, a Alejandra Pizarnik, a Sylvia Plath, a Yona Wolach, a Matsi Chatzilazaron (que, aliás, você me apresentou), a Maria Pawlikowska-Jasnorzewska, a Ada Negri, a Adília Lopes, a Inês Pedrosa, a Ana Luísa Amaral, para citar algumas.


Assim, quis conhecer profundamente a acepção do maldito: desde o seu uso como concernente a um ser deplorável, censurável, imoral, insubmisso, mal visto, indecoroso, e todo o elenco de adjetivos nocivos, como também entender o seu uso positivo e produtivo. Este era o caso da matização que lhe confere Verlaine, trazendo à tona uma tradição que percorria os séculos surda e cegamente censurada. E então, me pus a estudar pelo menos a versão que dele recolhiam para a Modernidade o Poe e o Baudelaire. Descerrando, também e, no entanto, e infelizmente, o uso que dela faz hoje o mercado cultural, que utiliza toda a detratação sofrida, no caso, pelas escritoras (e não só!), como uma espécie de cota substancial de valor de bolsa dentro do comércio literário. 

Então, ao mesmo tempo, eu quis entender, desde a mais remota escrita sobre mulher, a medieval, nas cantigas e nos Livros de Linhagem (1340) até a contemporaneidade (passando pelas literaturas brasileira, portuguesa e africanas de expressão portuguesa), como era tratado tal conceito e cada nuance que vai sendo acrescentado a este, expondo as vicissitudes tenebrosas pelas quais tais mulheres passaram, cada uma no seu tempo. Era uma necessidade aprofundar cada existência poética e os pecados cometidos, sobretudo aqueles que permitiram que uma alcunha assim tão perversa as acompanhasse sempre. 

 

FM | Por que a ideia de destacar, na tradição literária brasileira, uma escrita herética realizada unicamente por mulheres?

 

MLDF | Bem, porque a escrita sempre foi um poder masculino dentro do território literário e para eles assunto nenhum lhes fora interdito. E creio que os homens não precisavam ser defendidos das acusações que se dirigiam apenas às mulheres, porque todas as detratações exalavam, basicamente, a falta de compostura, de pudor, de indiferença pela reputação burguesa – coisa de mulher. O Malleus Maleficarum da Inquisição que o diga! 

Não que eu quisesse fazer um trabalho feminista, mas que a questão do gênero passava por essa equação, não há dúvida. Daí que busquei apoio na Hélène Cixous, na Beatrice Didier, na Lucy Irigaray, na Monique Schneider, por exemplo, porque elas me sustentavam nessa perquirição. E também porque eu mesma, na minha escrita, queria abrir um lugar de luz e paz para mim, ou seja, pretendia me alforriar dos limites tradicionalmente impostos ao comportamento poético feminino. E precisava nomear e honrar aquelas que teriam aberto, com o próprio corpo e a duras penas, essa trilha. Lembrar, por exemplo, da Sóror Mariana Alcoforado (que pode bem ser uma ficção masculina, como se supõe, não importa!), mas que adquire voz, liberdade de pensamento e sentimento através da escrita, descerrando, através desta, o seu erotismo. 


***

Pois bem, de acordo com as palavras da autora, O maldito no feminino é um livro que merece ser lido e relido com toda a atenção, pelo que revela da dimensão humana e poética de suas autoras estudadas, ao mesmo tempo em que permite uma melhor compreensão do tema em si, em especial por sua atualidade em nosso tempo, que ainda não livrou desse enxame de preconceitos em relação à mulher, e não apenas no âmbito da criação literária. Parabéns à Editora da Unicamp, por abrir caminho para a leitura desse livro transgressor.




FLORIANO MARTINS (Fortaleza, 1957). Poeta, editor, dramaturgo, ensaísta, artista plástico e tradutor. Criou em 1999 a Agulha Revista de Cultura. Coordenou (2005-2010) a coleção “Ponte Velha” de autores portugueses da Escrituras Editora (São Paulo). Curador do projeto “Atlas Lírico da América Hispânica”, da revista Acrobata. Esteve presente em festivais de poesia realizados em países como Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, El Salvador, Equador, Espanha, México, Nicarágua, Panamá, Portugal e Venezuela. Curador da Bienal Internacional do Livro do Ceará (Brasil, 2008), e membro do júri do Prêmio Casa das Américas (Cuba, 2009), foi professor convidado da Universidade de Cincinnati (Ohio, Estados Unidos, 2010). Tradutor de livros de César Moro, Federico García Lorca, Guillermo Cabrera Infante, Vicente Huidobro, Hans Arp, Juan Calzadilla, Enrique Molina, Jorge Luis Borges, Aldo Pellegrini e Pablo Antonio Cuadra. Entre seus livros mais recentes se destacam Un poco más de surrealismo no hará ningún daño a la realidad (ensaio, México, 2015), O iluminismo é uma baleia (teatro, Brasil, em parceria com Zuca Sardan, 2016), Antes que a árvore se feche (poesia completa, Brasil, 2020), Naufrágios do tempo (novela, com Berta Lucía Estrada, 2020), Las mujeres desaparecidas (poesia, Chile, 2022), Sombras no jardim (prosa poética, Brasil, 2023), e Obra-prima da confusão entre dois mundos (poesia, Brasil, 2026).



ROLANDO TOPOR (França, 1938-1997). Pintor, ilustrador, poeta, cançonetista, dramaturgo, encenador, cineasta e fotógrafo, artista impossível de catalogar, começou por destacar-se com os desenhos grotescos que publicou na revista satírica Hara-Kiri. Vencedor do Grand Prix de L’Humour Noir em 1961, bebeu dos surrealistas e respondeu-lhes com o movimento Pânico, que fundou com Fernando Arrabal e Alejandro Jodorowsky, entre outros. Em sua obra, Topor nos leva para um mundo do avesso, e a crueldade animalesca, o erotismo, a escatologia e a tétrica ironia das suas obras valeram-lhe o desprezo de críticos, vários projetos ruinosos e ameaças de morte quotidianas. Graças a uma sempre amável sugestão de João Antônio Buhrer, Rolando Topor agora está conosco como artista convidado desta edição da Agulha Revista de Cultura.

  



Agulha Revista de Cultura

Número 264 | março de 2026

Artista convidado: Rolando Topor (França, 1938-1997)

Editores:

Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com

Elys Regina Zils | elysre@gmail.com

ARC Edições © 2026


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