sábado, 21 de março de 2026

FLORIANO MARTINS Uma cifra imaginária, a partitura natural de Itiberê Zwarg

 


Este encontro estava escrito em uma partitura universal há tempos. Primeiramente eu trouxe para a mesa de diálogo outro músico nascido e criado no ambiente mágico da música de Hermeto Pascoal: Jovino Santos Neto: https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2016/04/floriano-martins-musica-livre-de-jovino.html. Desde então ficou o desejo me rondando de conversar com o Itiberê Zwarg, outro imenso maestro do acaso. A regência do inconsciente, o entrelaçamento de mundos, tudo nele é fascinante. Mago dos ritmos, a euforia de suas pulsações antecipa os caminhos que a música toma e com os quais nos envolve. Baixista e compositor, nascido em 1950, desde os 20 anos integra o grupo que acompanha o músico Hermeto Pascoal. A partir de 1992 passou a assinar alguns projetos como compositor e arranjador, criando em 1999 a Itiberê Orquestra Família, reunindo alunos de seminários de música que ministrava na escola Pro-Arte no Rio de Janeiro. Nosso diálogo é a partitura sagrada de um improviso, e sua publicação agora tem o sabor de uma sabedoria deste músico encantador: a busca de colocar claramente a individualidade a serviço do Coletivo. [FM]

 

FM | Vamos começar pela expressão natural, a percepção da música. Como recebes a música e o que ela fala contigo?

 

IZ | A música está em mim! Eu tenho conexão com a Entidade MÚSICA.

 

FM | Dos estudos de música com teu pai até a criação de um Método Intuitivo, como se dá o passo da escritura e leitura harmônica até a improvisação?

 

IZ | Quando eu e meu pai caminhávamos pela praia na saudosa infância em Itanhaén, cantávamos a duas vozes, para que eu treinasse fazer a segunda voz. De lá para cá, eu fui aumentando o número de vozes se entrelaçando. Eu aprendi a ler música aos 27 anos, já tocando com o Hermeto, e escrevo para qualquer formação, pois tive na minha formação, além de meu Pai e o Hermeto, a minha riquíssima experiência com a Itiberê Orquestra Família, que me gabaritou escrever para qualquer formação!

Quanto à Harmonia, te digo que eu vim para este mundo para curtir as belezas e desafios que ela pode nos proporcionar. Este sempre foi o meu game preferido!

A improvisação reside em tudo o que faço, pois acredito no que a minha cabeça imagina.

 

FM | Recordo que em meu aniversário de 16 anos, ganhei de presente o álbum A música livre de Hermeto Pascoal, que foi para mim uma revelação. Passei dias que não escutava outra. Recordo minha paixão intensa pela música de outro bruxo, Frank Zappa, e desde então passei a observar o vínculo invisível, a afinidade cósmica, entre ambos. Não sei se estás de acordo. Aos 27 anos começas a tocar com o Hermeto. Como o conheceste? O primeiro álbum de que participas é o Zabumbê-bum-á (1979)?

 

IZ | Sim foi o primeiro álbum, seguido do Live at Montreaux. A gente passa a vida toda formatando tipos de interações com o mundo, nos resguardando, cultivando o medo de não sermos aceitos e amados. Mas quem tem a coragem de romper esse mecanismo ancestral (como os músicos citados) de defesa e se arrojam no objetivo por amor à arte, são privilegiados, pois colhem os frutos da arte pura!

 

FM | O baixista Paulo Brandão elogia a tua capacidade em lidar com o coletivo, de tornar fáceis as partes mais difíceis, de fazer brotar confiança na própria intuição de quem dava os primeiros passos.

 


 IZ | O meu querido parceiro Paulo Brandão, cúmplice em muitos trabalhos fonográficos que fizemos, me conhece muito bem, pois nos autoproclamamos chineses aposentados, tal o grau de meticulosidade em nossos trabalhos.

Quanto à minha vocação para lidar com o coletivo, te digo que eu sempre quis aprender música, e não ensinar, mas a vida me mostrou que nem sempre o que eu originalmente pensava, iria continuar para sempre.

O que importa, é cada um doar a sua cota. Então me apareceu a Itiberê Orquestra Família, e eu, através dos resultados vindos da prática, percebi que era mais  professor do que  pensava, e que tinha um ativo que vinha da minha paixão pela música, somado à maneira intuitiva de transpor dificuldades, ou seja: valorizar o que cada um sentia, sem impor o meu jeito de resolver problemas, fazendo com que cada um valorize o que é, onde está no momento, e que possam ir se transformando em melhores e mais  conscientes músicos!

É preciso uma entrega intensa, onde os mais adiantados colaboram e entendem o quão precioso é sentir a força do coletivo. Para eles eu sempre escrevo no nível em que serão confrontados pelas dificuldades, e, para os que estão ainda na base da montanha, eu escrevo no nível apropriado, puxando um pouco a mais. Colaboração para o Todo, que passa a ser uma entidade energética que não tem limites conhecidos.

Quando começamos, éramos uma Oficina da Música Universal. Isso foi evoluindo até eu perceber que havia nascido o meu projeto didático de vida, a SEMENTEIRA DO SOM, onde proponho levar a todos o que aprendi com o Hermeto e com a vida!

Com a orquestra original gravamos dois CDs duplos e um simples, e depois disso fui para o mundo e produzi a Itiberê Orquestra Família do Japão, depois a da França, e a da Alemanha.

Precisamos do 100% de doação de cada um, uma entrega.

Coisas importantes acontecem quando os da base enxergam os mais adiantados como referências, e, ao contrário, quando os mais adiantados sentem a importância do trabalho coletivo!

Isso cria uma aura rica artisticamente.

 

FM | O Alceu Valença costuma dizer que, mesmo não tendo nada contra a influência estrangeira na música brasileira, ele não se considera influenciado por qualquer outra instância que não seja a forte tradição da música nordestina. Em teu caso, como consideras essa questão das influências? Aproveita para falar da criação da Oficina de Música Universal, onde exploras uma música que engloba vários estilos, brasileiros e de outras partes do mundo, inclusive sem se prender aos limites do erudito e do popular.

 

IZ | O Brasil é um pais com grandes aquisições vindas dos imigrantes que para cá vieram, depois das guerras.

Gosto de dizer que somos o liquidificador cultural do planeta, e que somos vira-latas puro sangue, pois por aqui tudo é misturado, produzindo amálgamas únicas!

Por exemplo: o nosso Xote, nada mais é do que o Vira português, só que com o tempero cultural de cada região onde é tocado.

Não existe música genuinamente brasileira!

Somos únicos exatamente por assimilar o que a vida nos legou, transformando, criando dentro das misturas.

Os americanos estiveram no Recife, na época da segunda guerra e, graças a isso, temos hoje uma Orquestra Spok de Frevo e outros projetos de primeira linha!

 


 FM | Como surge a ideia de criar a Itiberê Orquestra Família?

 

IZ | O Campeão (como chamávamos o Hermeto na intimidade) me orientou a não sair do grupo antes de adquirir o nível que me gabaritasse a fazer um trabalho consistente, e ainda me disse que quando houvesse datas conflitantes com o Hermeto Pascoal & Grupo, eu colocasse um Sub no HP&G, pois o meu projeto precisaria de atenção por estar começando.

Por aí, um pouquinho de o quanto o Campeão é dadivoso.

Em 1999, ele deu aval para eu me colocar, dizendo: Agora você tem que fazer seu trabalho autoral, pois o mundo precisa disso, dessa qualidade artística espalhada, ampliada. Daí, fui pro mundo e me ocorreu que seria difícil, para não dizer impossível, tocar com, por exemplo, um pianista desse nível e que estivesse à minha disposição.

Como eu tinha experiência de como ensaiar, de como reconhecer onde precisa de tratos, comecei por uma Oficina da Música Universal na escola Pró-Arte aqui no Rio de Janeiro.

Logo percebi que tinha nascido um filho e que tinha as responsabilidades de liderança penduradas.

Olha só o que aconteceu: Eu estava aprendendo ensinando! Confesso que fiquei surpreso quando a ficha caiu. Só os antigos sabem o que é isso.

Eu estava ensinando aprendendo!

 

FM | Conheces o trabalho de outras bandas, como Levitation Orchestra, Snarky Puppy ou a fascinante Maria Schneider Orchestra?

 

IZ | Conheço outros trabalhos, Spok Orquestra de Frevo, Pífanos de Caruaru, tive as informações vindas do Jazz, (Miles Davis, Bill Evans) do Rock (Emerson, Lake & Palmer), do sertanejo (Inesita Barroso), Astor Piazolla no tango, mas a minha principal inspiração é a vida!

 

FM | Mariana e Ajurinã são os dois filhos músicos que te seguiram sempre. Isto me lembra os dois filhos do Egberto Gismonti, que também são músicos excepcionais. Essa fraternidade me parece que seja uma forte característica da música, muito mais do que das outras formas de expressão artística. Isto talvez venha do fato de que a linguagem musical, sobretudo a instrumental, permita mais interação, em um ambiente intuitivo e experimental?

 

IZ | Sim, os meus filhos, viveram no mundo dos sons, pois estiveram nos ensaios do HP&G, desde a barriga da mãe, durante a infância e adolescência.

Daí em diante foi um pulo pra a Itiberê Orquestra Família e o mundo!

 

FM | A música instrumental no Brasil, qual a extensão de sua variedade e sua aceitação em termos de público e mercado? Gostarias de destacar alguns aspectos relevantes?

 

IZ | O Brasil é primeiro mundo em música. Muitos produtores precisam despertar para isso, pois não entendem essa realidade!

O potencial artístico não pode ser confundido com o potencial meramente comercial.

O público ama aquilo que sente. Sempre tivemos casas cheias em nossos concertos!

 

FM | Uma coisa que observo na canção popular brasileira é a ausência de improvisações de instrumentos, sendo inclusive bem reduzido o tempo de execução da música, sem maior espaço para os solos. Creio que este é um hábito que vem da preocupação com a execução radiofônica, mas nem mesmo nos shows essa característica é rompida, quando se poderia dar mais liberdade à criação. Achas que me equivoco?

 


 IZ | Não, você está correto. Isso é o amor maior pelo dinheiro do que pela arte. O Hermeto sempre que acompanhava cantores na noite ou em TV, exigia solo dele entre os coros.

 

FM | Entre acordes, escalas, progressões, há um vastíssimo tecido com suas veias, trilhas, fiações, que permitem uma riqueza experimental, intuitiva, improvisada, que enriquece não apenas a música em si, mas o próprio espírito do músico. Isto naturalmente permite a transcendência das mais variadas fronteiras, ao permitir o diálogo aberto entre pessoas, emoções, criatividade, despertando até mesmo uma sensação transformadora. Sendo o Brasil um país tão musical, as escolas de música, em especial aquelas que estimulam uma maior intensidade intuitiva, deveriam ser uma constante promovida pelo Estado. O que pensas a este respeito?

 

IZ | Sigo com minha didática, com o meu projeto de vida que é aprender ensinando na Sementeira do Som, e ficarei muito feliz de ganhar parceiros nessa empreitada!

Por exemplo: suas perguntas maravilhosas me falam que você é o mais novo parceiro.

Espero (mas em atividade) que outros parceiros cheguem, pois o que mais precisamos é primeiro a consciência da importância do coletivo!

Vamos colocar claramente a nossa individualidade a serviço do Coletivo!

 

FM | Esquecemos algo?

 

IZ |O que eu acrescento é que a Nave Mãe, nome que o Campeão deu ao grupo, continua com a missão de disseminar essa arte pelo mundo. Dela saem em missão várias outras naves com finalidades múltiplas para pintar com os sons universais tudo e todos nesse e em outros mundos!

Também coloquei no mundo o projeto online, que se chama: O Método Intuitivo de Itiberê Zwarg, com a ajuda do filho Ajurinã, que me auxiliou na parte em que a tecnologia era demasiado difícil para mim!

Estamos distribuindo para muita gente no mundo todo.

Obrigado pelas excelentes questões, parceiro!




FLORIANO MARTINS (Fortaleza, 1957). Poeta, editor, dramaturgo, ensaísta, artista plástico e tradutor. Criou em 1999 a Agulha Revista de Cultura. Coordenou (2005-2010) a coleção “Ponte Velha” de autores portugueses da Escrituras Editora (São Paulo). Curador do projeto “Atlas Lírico da América Hispânica”, da revista Acrobata. Esteve presente em festivais de poesia realizados em países como Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, El Salvador, Equador, Espanha, México, Nicarágua, Panamá, Portugal e Venezuela. Curador da Bienal Internacional do Livro do Ceará (Brasil, 2008), e membro do júri do Prêmio Casa das Américas (Cuba, 2009), foi professor convidado da Universidade de Cincinnati (Ohio, Estados Unidos, 2010). Tradutor de livros de César Moro, Federico García Lorca, Guillermo Cabrera Infante, Vicente Huidobro, Hans Arp, Juan Calzadilla, Enrique Molina, Jorge Luis Borges, Aldo Pellegrini e Pablo Antonio Cuadra. Entre seus livros mais recentes se destacam Un poco más de surrealismo no hará ningún daño a la realidad (ensaio, México, 2015), O iluminismo é uma baleia (teatro, Brasil, em parceria com Zuca Sardan, 2016), Antes que a árvore se feche (poesia completa, Brasil, 2020), Naufrágios do tempo (novela, com Berta Lucía Estrada, 2020), Las mujeres desaparecidas (poesia, Chile, 2022), Sombras no jardim (prosa poética, Brasil, 2023), e Obra-prima da confusão entre dois mundos (poesia, Brasil, 2026).




ROLANDO TOPOR (França, 1938-1997). Pintor, ilustrador, poeta, cançonetista, dramaturgo, encenador, cineasta e fotógrafo, artista impossível de catalogar, começou por destacar-se com os desenhos grotescos que publicou na revista satírica Hara-Kiri. Vencedor do Grand Prix de L’Humour Noir em 1961, bebeu dos surrealistas e respondeu-lhes com o movimento Pânico, que fundou com Fernando Arrabal e Alejandro Jodorowsky, entre outros. Em sua obra, Topor nos leva para um mundo do avesso, e a crueldade animalesca, o erotismo, a escatologia e a tétrica ironia das suas obras valeram-lhe o desprezo de críticos, vários projetos ruinosos e ameaças de morte quotidianas. Graças a uma sempre amável sugestão de João Antônio Buhrer, Rolando Topor agora está conosco como artista convidado desta edição da Agulha Revista de Cultura.

  



Agulha Revista de Cultura

Número 264 | março de 2026

Artista convidado: Rolando Topor (França, 1938-1997)

Editores:

Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com

Elys Regina Zils | elysre@gmail.com

ARC Edições © 2026


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