FM |
Vamos começar pela expressão natural, a percepção da música. Como recebes a
música e o que ela fala contigo?
IZ |
A música está em mim! Eu tenho conexão com a Entidade MÚSICA.
FM |
Dos estudos de música com teu pai até a criação de um Método Intuitivo, como se
dá o passo da escritura e leitura harmônica até a improvisação?
IZ | Quando
eu e meu pai caminhávamos pela praia na saudosa infância em Itanhaén,
cantávamos a duas vozes, para que eu treinasse fazer a segunda voz. De lá para
cá, eu fui aumentando o número de vozes se entrelaçando. Eu aprendi a ler
música aos 27 anos, já tocando com o Hermeto, e escrevo para qualquer formação,
pois tive na minha formação, além de meu Pai e o Hermeto, a minha riquíssima
experiência com a Itiberê Orquestra Família, que me gabaritou escrever para
qualquer formação!
Quanto
à Harmonia, te digo que eu vim para este mundo para curtir as belezas e
desafios que ela pode nos proporcionar. Este sempre foi o meu game preferido!
A
improvisação reside em tudo o que faço, pois acredito no que a minha cabeça
imagina.
FM |
Recordo que em meu aniversário de 16 anos, ganhei de presente o álbum A
música livre de Hermeto Pascoal, que foi para mim uma revelação. Passei
dias que não escutava outra. Recordo minha paixão intensa pela música de outro
bruxo, Frank Zappa, e desde então passei a observar o vínculo invisível, a
afinidade cósmica, entre ambos. Não sei se estás de acordo. Aos 27 anos começas
a tocar com o Hermeto. Como o conheceste? O primeiro álbum de que participas é
o Zabumbê-bum-á (1979)?
IZ | Sim
foi o primeiro álbum, seguido do Live at
Montreaux. A gente passa a vida toda formatando tipos de interações com o
mundo, nos resguardando, cultivando o medo de não sermos aceitos e amados. Mas
quem tem a coragem de romper esse mecanismo ancestral (como os músicos citados)
de defesa e se arrojam no objetivo por amor à arte, são privilegiados, pois
colhem os frutos da arte pura!
FM | O baixista Paulo Brandão elogia a tua capacidade em lidar com o
coletivo, de tornar fáceis as partes mais difíceis, de fazer brotar confiança
na própria intuição de quem dava os primeiros passos.
Quanto à minha vocação para lidar com o coletivo, te
digo que eu sempre quis aprender música, e não ensinar, mas a vida me mostrou
que nem sempre o que eu originalmente pensava, iria continuar para sempre.
O que importa, é cada um doar a sua cota. Então me
apareceu a Itiberê Orquestra Família, e eu, através dos resultados vindos da
prática, percebi que era mais professor
do que pensava, e que tinha um ativo que
vinha da minha paixão pela música, somado à maneira intuitiva de transpor
dificuldades, ou seja: valorizar o que cada um sentia, sem impor o meu jeito de
resolver problemas, fazendo com que cada um valorize o que é, onde está no
momento, e que possam ir se transformando em melhores e mais conscientes músicos!
É preciso uma entrega intensa, onde os mais
adiantados colaboram e entendem o quão precioso é sentir a força do coletivo. Para
eles eu sempre escrevo no nível em que serão confrontados pelas dificuldades, e,
para os que estão ainda na base da montanha, eu escrevo no nível apropriado,
puxando um pouco a mais. Colaboração
para o Todo, que passa a ser uma
entidade energética que não tem limites conhecidos.
Quando começamos, éramos uma Oficina da Música Universal.
Isso foi evoluindo até eu perceber que havia nascido o meu projeto didático de
vida, a SEMENTEIRA DO SOM, onde
proponho levar a todos o que aprendi com o Hermeto e com a vida!
Com a orquestra original gravamos dois CDs duplos e
um simples, e depois disso fui para o mundo e produzi a Itiberê Orquestra
Família do Japão, depois a da França, e a da Alemanha.
Precisamos do 100% de doação de cada um, uma entrega.
Coisas importantes acontecem quando os da base
enxergam os mais adiantados como referências, e, ao contrário, quando os mais
adiantados sentem a importância do trabalho coletivo!
Isso cria uma aura rica artisticamente.
FM | O Alceu Valença costuma dizer que, mesmo não tendo nada contra a
influência estrangeira na música brasileira, ele não se considera influenciado
por qualquer outra instância que não seja a forte tradição da música
nordestina. Em teu caso, como consideras essa questão das influências?
Aproveita para falar da criação da Oficina de Música Universal, onde
exploras uma música que engloba vários estilos, brasileiros e de outras partes
do mundo, inclusive sem se prender aos limites do erudito e do popular.
IZ | O Brasil é um pais com grandes aquisições vindas dos imigrantes que para
cá vieram, depois das guerras.
Gosto de dizer que somos o liquidificador cultural
do planeta, e que somos vira-latas puro sangue, pois por aqui tudo é misturado,
produzindo amálgamas únicas!
Por exemplo: o nosso Xote, nada mais é do que o Vira
português, só que com o tempero cultural de cada região onde é tocado.
Não existe música
genuinamente brasileira!
Somos únicos exatamente por assimilar o que a vida
nos legou, transformando, criando dentro das misturas.
Os americanos estiveram no Recife, na época da
segunda guerra e, graças a isso, temos hoje uma Orquestra Spok de Frevo e
outros projetos de primeira linha!
IZ | O Campeão (como chamávamos o
Hermeto na intimidade) me orientou a não sair do grupo antes de adquirir o
nível que me gabaritasse a fazer um trabalho consistente, e ainda me disse que
quando houvesse datas conflitantes com o Hermeto Pascoal & Grupo, eu
colocasse um Sub no HP&G, pois o
meu projeto precisaria de atenção por estar começando.
Por aí, um pouquinho de o quanto o Campeão é
dadivoso.
Em 1999, ele deu aval para eu me colocar, dizendo: Agora você tem que fazer seu trabalho
autoral, pois o mundo precisa disso, dessa qualidade artística espalhada,
ampliada. Daí, fui pro mundo e me ocorreu que seria difícil, para não dizer
impossível, tocar com, por exemplo, um pianista desse nível e que estivesse à
minha disposição.
Como eu tinha experiência de como ensaiar, de como
reconhecer onde precisa de tratos,
comecei por uma Oficina da Música Universal na escola Pró-Arte aqui no Rio de
Janeiro.
Logo percebi que tinha nascido um filho e que tinha
as responsabilidades de liderança penduradas.
Olha só o que aconteceu: Eu estava aprendendo
ensinando! Confesso que fiquei surpreso quando a ficha caiu. Só os antigos sabem o que é isso.
Eu estava ensinando aprendendo!
FM | Conheces o trabalho de outras bandas, como Levitation Orchestra,
Snarky Puppy ou a fascinante Maria Schneider Orchestra?
IZ | Conheço outros trabalhos, Spok Orquestra de Frevo, Pífanos de Caruaru,
tive as informações vindas do Jazz, (Miles Davis, Bill Evans) do Rock (Emerson,
Lake & Palmer), do sertanejo (Inesita Barroso), Astor Piazolla no tango,
mas a minha principal inspiração é a vida!
FM | Mariana e Ajurinã são os dois filhos músicos que te seguiram sempre.
Isto me lembra os dois filhos do Egberto Gismonti, que também são músicos
excepcionais. Essa fraternidade me parece que seja uma forte característica da
música, muito mais do que das outras formas de expressão artística. Isto talvez
venha do fato de que a linguagem musical, sobretudo a instrumental, permita
mais interação, em um ambiente intuitivo e experimental?
IZ | Sim, os meus filhos, viveram no mundo dos sons, pois estiveram nos
ensaios do HP&G, desde a barriga da mãe, durante a infância e adolescência.
Daí em diante foi um pulo pra a Itiberê Orquestra
Família e o mundo!
FM | A música instrumental no Brasil, qual a extensão de sua variedade e
sua aceitação em termos de público e mercado? Gostarias de destacar alguns
aspectos relevantes?
IZ | O Brasil é primeiro mundo em música. Muitos produtores precisam despertar
para isso, pois não entendem essa realidade!
O potencial artístico não pode ser confundido com o
potencial meramente comercial.
O público ama aquilo que sente. Sempre tivemos casas
cheias em nossos concertos!
FM | Uma coisa que observo na canção popular brasileira é a ausência de
improvisações de instrumentos, sendo inclusive bem reduzido o tempo de execução
da música, sem maior espaço para os solos. Creio que este é um hábito que vem
da preocupação com a execução radiofônica, mas nem mesmo nos shows essa
característica é rompida, quando se poderia dar mais liberdade à criação. Achas
que me equivoco?
FM | Entre acordes, escalas, progressões, há um vastíssimo tecido com suas
veias, trilhas, fiações, que permitem uma riqueza experimental, intuitiva,
improvisada, que enriquece não apenas a música em si, mas o próprio espírito do
músico. Isto naturalmente permite a transcendência das mais variadas
fronteiras, ao permitir o diálogo aberto entre pessoas, emoções, criatividade,
despertando até mesmo uma sensação transformadora. Sendo o Brasil um país tão
musical, as escolas de música, em especial aquelas que estimulam uma maior
intensidade intuitiva, deveriam ser uma constante promovida pelo Estado. O que
pensas a este respeito?
IZ | Sigo com minha didática, com o meu projeto de vida que é aprender
ensinando na Sementeira do Som, e
ficarei muito feliz de ganhar parceiros nessa empreitada!
Por exemplo: suas perguntas maravilhosas me falam
que você é o mais novo parceiro.
Espero (mas em atividade) que outros parceiros
cheguem, pois o que mais precisamos é primeiro a consciência da importância do
coletivo!
Vamos colocar claramente a nossa individualidade a
serviço do Coletivo!
FM | Esquecemos algo?
IZ |O que eu acrescento é que a Nave Mãe, nome que o Campeão deu ao grupo,
continua com a missão de disseminar essa arte pelo mundo. Dela saem em missão várias
outras naves com finalidades múltiplas para pintar com os sons universais tudo
e todos nesse e em outros mundos!
Também coloquei no mundo o projeto online, que se
chama: O Método Intuitivo de Itiberê
Zwarg, com a ajuda do filho Ajurinã, que me auxiliou na parte em que a
tecnologia era demasiado difícil para mim!
Estamos distribuindo para muita gente no mundo todo.
Obrigado pelas excelentes questões, parceiro!
FLORIANO MARTINS (Fortaleza, 1957). Poeta, editor, dramaturgo, ensaísta, artista plástico e tradutor. Criou em 1999 a Agulha Revista de Cultura. Coordenou (2005-2010) a coleção “Ponte Velha” de autores portugueses da Escrituras Editora (São Paulo). Curador do projeto “Atlas Lírico da América Hispânica”, da revista Acrobata. Esteve presente em festivais de poesia realizados em países como Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, El Salvador, Equador, Espanha, México, Nicarágua, Panamá, Portugal e Venezuela. Curador da Bienal Internacional do Livro do Ceará (Brasil, 2008), e membro do júri do Prêmio Casa das Américas (Cuba, 2009), foi professor convidado da Universidade de Cincinnati (Ohio, Estados Unidos, 2010). Tradutor de livros de César Moro, Federico García Lorca, Guillermo Cabrera Infante, Vicente Huidobro, Hans Arp, Juan Calzadilla, Enrique Molina, Jorge Luis Borges, Aldo Pellegrini e Pablo Antonio Cuadra. Entre seus livros mais recentes se destacam Un poco más de surrealismo no hará ningún daño a la realidad (ensaio, México, 2015), O iluminismo é uma baleia (teatro, Brasil, em parceria com Zuca Sardan, 2016), Antes que a árvore se feche (poesia completa, Brasil, 2020), Naufrágios do tempo (novela, com Berta Lucía Estrada, 2020), Las mujeres desaparecidas (poesia, Chile, 2022), Sombras no jardim (prosa poética, Brasil, 2023), e Obra-prima da confusão entre dois mundos (poesia, Brasil, 2026).
ROLANDO TOPOR (França, 1938-1997). Pintor, ilustrador, poeta, cançonetista, dramaturgo, encenador, cineasta e fotógrafo, artista impossível de catalogar, começou por destacar-se com os desenhos grotescos que publicou na revista satírica Hara-Kiri. Vencedor do Grand Prix de L’Humour Noir em 1961, bebeu dos surrealistas e respondeu-lhes com o movimento Pânico, que fundou com Fernando Arrabal e Alejandro Jodorowsky, entre outros. Em sua obra, Topor nos leva para um mundo do avesso, e a crueldade animalesca, o erotismo, a escatologia e a tétrica ironia das suas obras valeram-lhe o desprezo de críticos, vários projetos ruinosos e ameaças de morte quotidianas. Graças a uma sempre amável sugestão de João Antônio Buhrer, Rolando Topor agora está conosco como artista convidado desta edição da Agulha Revista de Cultura.
Agulha Revista de Cultura
Número 264 | março de 2026
Artista convidado: Rolando Topor (França, 1938-1997)
Editores:
Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com
Elys Regina Zils | elysre@gmail.com
ARC Edições © 2026
∞ contatos
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http://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/
FLORIANO MARTINS | floriano.agulha@gmail.com
ELYS REGINA ZILS | elysre@gmail.com










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