Desde meados do século XX, tradutoras e
pesquisadores têm adotado abertamente perspectivas feministas em seus
trabalhos. Em linhas gerais, abordar a tradução sob um viés feminista implica
reconhecer que a linguagem não é imune às estruturas de poder e que a tradução,
enquanto prática material e simbólica, tanto reproduz quanto pode subverter
tais hegemonias. Esse reconhecimento repercute em diferentes modalidades
(literária, audiovisual e, inclusive, automática) e incide decisivamente na
seleção de textos, nas estratégias de transposição e no posicionamento da
tradutora diante da obra (Castro & Spoturno, 2025).
Essa compreensão crítica orientou minha
decisão de traduzir Druida, de Marosa
di Giorgio. A escolha transcende o fato de a autora ser o objeto de minha tese
de doutorado; Druida convocou-me
justamente por sua linguagem transfronteiriça, que dilui os limites entre o
humano e o não humano, o familiar e o estranho, o corpo e a floresta, o erotismo
e a metamorfose. Traduzir Marosa significou adentrar esse campo de forças e
assumir o risco ético de deixar-me afetar profundamente por tal alteridade.
Marosa di Giorgio (1932–2004),
primogênita de imigrantes toscanos, manteve uma relação marcada pela presença
de sua irmã Nidia, figura essencial em sua trajetória artística. Criada em
Salto, no Uruguai, fez dessa localidade a matriz imaginativa de toda a sua
obra. Nas palavras da autora: “Vim à luz neste Salto do Uruguai florido e
cintilante, há um século, ou ontem mesmo, ou ainda agora, pois a cada instante
estou nascendo” (di Giorgio, 2021, p. 9). A infância na fazenda familiar
constitui o núcleo sensorial e simbólico de sua escrita. O jardim, observado
sob um estado de encantamento e estranhamento — uma espécie de voyeurismo
infantil diante do mundo natural —, torna-se o espaço de onde emergem relatos
mágicos, povoados por uma flora e fauna dotadas de agência própria. Em Marosa,
o ser mais ínfimo pode expandir-se até adquirir dimensões universais.
Sua relação com o sagrado é singular:
uma religiosidade livre e híbrida que articula o cristianismo a elementos do
misticismo e do paganismo. Em texto autobiográfico, observa:
Essa espiritualidade transformadora
perpassa sua poética, sugerindo um diálogo íntimo com forças naturais e divinas
que se manifestam em contínuas metamorfoses. Marosa iniciou sua trajetória
pública na década de 1950. Seu primeiro livro, Poemas, foi lançado em 1954 em edição de autora. Druida, publicado em 1959 pela Colección Lírica Hispana, foi seu
terceiro título e também contou com tiragem reduzida. No prólogo, a autora
justifica o título como uma referência às suas raízes celtas. É com esta obra
que ela estabiliza a assinatura que a consagraria, abandonando o sobrenome “de
Medicis” (García Helder, 2021).
A despeito de sua posição periférica,
Marosa di Giogio manteve uma produção obstinada, totalizando quatorze livros de
poesia, três coletâneas de contos e um romance. A partir das décadas de 1960 e
1970, sua obra alcançou reconhecimento institucional. Em 1982, após receber
bolsas de estudo, viajou a Israel e à Itália, gesto que reencenou o retorno
simbólico às origens familiares. Postumamente, em 2006, foi publicado Pasajes de un memorial al abuelo toscano
Eugenio Medici, obra que recupera fragmentos da relação entre memória e
ancestralidade (García Helder, 2021).
O universo literário de Marosa é um
jardim simultaneamente belo e perverso, erigido por uma linguagem lírica,
imagética e sensorial. O eu lírico observa o mundo em estado de hiperatenção;
troncos, pinheiros, carne e pássaros parecem possuir uma luminosidade
intrínseca. Influenciada pelo surrealismo, Marosa dialoga com autoras
rioplatenses como Delmira Agustini, Armonía Somers e Alejandra Pizarnik
(Nespoldo, 2013). Há, ainda, o eco de Lautréamont, perceptível na animalidade e
na violência sensorial de sua escrita. Ana Llurba (2014) descreve-a como uma
“musa lautréamontiana”, figura solitária e excêntrica cujos adornos evocavam o
selvagem.
Druida
reúne narrativas breves em prosa poética que, em conjunto, assemelham-se a um
romance fabuloso de cadência regular e tom reflexivo. A narradora revisita a infância
rural, onde a fronteira entre humano e não humano é dissolvida. O livro
delineia um ecossistema sensorial povoado por rituais, violências sutis e
epifanias. A natureza, onírica e ativa, espelha a instabilidade do corpo e da
memória, resultando em uma poética que afirma a interdependência radical entre
as formas de vida. Nesse território de hibridismos, a tradução deve atuar não
apenas como mediação linguística, mas como participante de um processo de
convivência multiespécie.
Em Druida,
essa perspectiva manifesta-se de modo visceral. Não há hierarquia entre flora,
fauna e figura humana; existe uma rede de presenças interdependentes. O eu
lírico não descreve o mundo, mas imbrica-se nele. Traduzir essa escrita exigiu
o reconhecimento de um tecido relacional em vez de conteúdos estáticos. Por
conseguinte, optei por preservar a sintaxe truncada, a ambiguidade intencional,
o excesso imagético e o vocabulário arcaico. Resistir à domesticação e manter a
opacidade do original tornou-se um gesto ético de respeito à alteridade
marosiana.
Esse gesto inscreve-se no debate sobre
a tradução feminista. Castro e Spoturno (2025) lembram que a tradução foi
historicamente associada ao feminino de maneira estigmatizante, com metáforas
que reproduzem papéis de gênero misóginos (Chamberlain, 1988). A dicotomia
entre autoria (masculina/original) e fidelidade (feminina/cópia) relegou a
tradução a um status secundário. Teóricas como Sherry Simon (1996) e Barbara
Godard (2022) contestam essa estrutura. Simon defende uma tradução que afirme a
presença da tradutora, enquanto Godard propõe que a tradutora intervém e cria
sentido, assumindo a prática como performativa e situada.
Em minha experiência, traduzir Marosa
exigiu uma postura ativa e política. Cada escolha linguística — uma pausa, um
termo arcaico ou um ritmo abrupto — configurou uma tomada de posição em um
mundo atravessado por ideologias hegemônicas. O desafio central consistiu em
preservar a agência do não humano e resistir à reconstrução hierárquica dos
sentidos. Essa perspectiva ecofeminista ilumina a obra de Marosa: nela, as
figuras femininas metamorfoseiam-se em plantas e animais, colocando em crise a
ideia de uma natureza à disposição do sujeito humano. Sua escrita antecipa
debates contemporâneos sobre justiça ambiental e direitos da natureza.
A edição brasileira de Druida foi publicada em 2025 pela
Editora Sol Negro, em versão bilíngue. O livro conta com prólogo de Floriano
Martins, que manteve correspondência com Marosa e conheceu sua irmã, oferecendo
assim uma perspectiva íntima e histórica da autora. As ilustrações são de
Susana Wald, artista visual surrealista nascida em Budapeste em 1937, cuja
série “Las mujeres de...” propõe um olhar crítico sobre a mulher tratada como
objeto (móvel, acessório ou extensão do espaço doméstico) e frequentemente
reconhecida apenas pela função de esposa. Desse modo, esse livro é um convite
para repensar as formas simbólicas que moldam a representação das mulheres e de
suas vozes.
REFERÊNCIAS
Castro,
O., & Spoturno, M. L. (2025). Tradução e feminismos. Belas Infiéis, 14. https://periodicos.unb.br/index.php/belasinfieis/article/view/55738/43290
Chamberlain,
L. (1998). Gênero e a metafórica da tradução (N. Viscardi, Trad.). In P. Ottoni
(Org.), Tradução: A prática da
diferença. FAPESP/UNICAMP.
di Giorgio, M. (2021). Los papeles salvajes (5ª ed.). Adriana Hidalgo Editora.
Echavarren, R. (1992). Marosa Di Giorgio, última poeta
del Uruguay. Revista Iberoamericana,
58.
García Helder, D. (2021). Organização, notas e síntese
bibliográfica. In M. di Giorgio, Los
papeles salvajes (5ª ed.). Adriana Hidalgo Editora.
Godard, B. (2022). Translation,
semiotics, and feminism: Selected writings of Barbara Godard. Routledge.
Haraway,
D. (2021). O manifesto das espécies
companheiras: cachorros, pessoas e alteridade significativa (P. Moreira,
Trad.). Bazar do Tempo.
Llurba, A. (2014, 8 de agosto). Acerca
de Marosa di Giorgio. Letras Libres. https://letraslibres.com/revista-mexico/acerca-de-marosa-di-giorgio/
Simon, S. (1996). Gender
in translation: Cultural identity and the politics of transmission. Routledge.
ELYS REGINA ZILS (Brasil, 1986). Poeta, artista visual, tradutora. Doutoranda e Mestre em Estudos da Tradução pela PGET/Universidade Federal de Santa Catarina. Possui graduação em Letras-Língua Espanhola e Literaturas e Letras-Português também pela Universidade Federal de Santa Catarina/Florianópolis, Brasil. Se dedica à Literatura Latinoamericana, pesquisando principalmente Vanguardas Literárias e Artísticas com ênfase em Literatura Surrealista Latinoamericana. Editora da Agulha Revista de Cultura (a partir de 2023), revista criada por Floriano Martins. Tem sido responsável, parcialmente, pela curadoria e tradução de poetas hispano-americanos para o “Atlas Lírico da América Hispânica”, da revista Acrobata. A Sol Negro Edições, casa de livros artesanais, publicou Os elementos terrestres, de Eunice Odio, e Druida, de Marosa di Giorgio, edições bilíngues organizadas e traduzidas por ela. Em 2004 publicou seu livro de esteia, Fragmentos de silêncio (poemas e colagens).
ROLANDO TOPOR (França, 1938-1997). Pintor, ilustrador, poeta, cançonetista, dramaturgo, encenador, cineasta e fotógrafo, artista impossível de catalogar, começou por destacar-se com os desenhos grotescos que publicou na revista satírica Hara-Kiri. Vencedor do Grand Prix de L’Humour Noir em 1961, bebeu dos surrealistas e respondeu-lhes com o movimento Pânico, que fundou com Fernando Arrabal e Alejandro Jodorowsky, entre outros. Em sua obra, Topor nos leva para um mundo do avesso, e a crueldade animalesca, o erotismo, a escatologia e a tétrica ironia das suas obras valeram-lhe o desprezo de críticos, vários projetos ruinosos e ameaças de morte quotidianas. Graças a uma sempre amável sugestão de João Antônio Buhrer, Rolando Topor agora está conosco como artista convidado desta edição da Agulha Revista de Cultura.
Agulha Revista de Cultura
Número 264 | março de 2026
Artista convidado: Rolando Topor (França, 1938-1997)
Editores:
Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com
Elys Regina Zils | elysre@gmail.com
ARC Edições © 2026
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