A FRASE QUE SE ESQUECE
Na noite morta o céu resplandece, estrelado.
Em baixo, a confusão negra da casaria.
E eu, contemplando o céu de um veludo
azulado,
nem sinto a noite, a noite morta, a noite
fria!
Vem à minha memória uma frase esquecida.
Uma frase de há muito... Uma pequena frase...
Dessas que a gente vai deixando pela vida,
ditas a uma mulher que a gente amava, quase,
e que ficou também, como a frase, esquecida.
"Tu viverás em mim como um adeus
distante..."
Ela era feia e desgraçada... Eu tinha pena.
Grave, não aceitei sua boca ofertante
quando ela veio um dia, humilhada e serena,
Ela era feia e desgraçada... Eu tinha pena.
Como se abandonasse em meus braços, chorando,
eu, a passar-lhe a mão pelo rosto molhado,
a boca murcha, o olhar piedoso, o gesto
brando,
sentimental como um poeta enamorado,
afastei-a, movendo a cabeça, negando...
Ela bem compreendeu a renúncia e a meiguice.
E porque fosse imensa a dor daquele instante,
querendo consolar a nós dois foi que eu
disse:
"Tu viverás em mim como um adeus
distante..."
Olhando agora o céu da noite adormecida,
pus-me a chorar, chorar silenciosamente,
sofrendo a dolorosa ironia da vida,
só porque, sem querer, me despertou na mente
aquela pobre fase esquecida... esquecida...
O ESTRANGEIRO
Andando eu por Paris num vago dia
De violetas e cinza pelo ar,
Senti que a vaga dor que me doía
Vinha mais do esquecer que do lembrar.
O Sena sob a chuva, como eu via,
Levando barcos lentos para o mar,
Era uma imagem da melancolia,
O adeus da Capital crepuscular.
A ninguém que passava eu poderia
Estender minha mão, querer falar,
Pedir fraternidade e companhia.
Era só, na paisagem milenar,
Paris de Santa Genoveva ̶ e a fria
Sombra da noite sobre o boulevard.
̻HORIZONTES DE ZAGREB
A planície que passa está toda nevada.
Dormem as granjas, luz nenhuma se divisa.
No chão em movimento ainda é noite fechada,
Mas não deve tardar a manhã indecisa.
Aos poucos, neste escuro, há sinais de alvorada:
No nascente um primeiro azul se ruboriza.
Levanta-se do campo a névoa delicada
Com gestos de mulher que despe uma camisa.
Brancas, pelo horizonte ondulam as colinas.
Entre bosques, ao pé dos vales de entremeio,
Fumam as chaminés vermelhas das usinas.
Que é que faz com que tanto o coração me bata?
Como que tudo é meu e a nada sou alheio
No gracioso acordar da paisagem croata.
ILHA DISTANTE
Ilha
de melancolia,
Sem
portos e sem cidades —
Só
praias de areia fria
E
coqueiros com saudades;
Praias
de uma areia morta,
Conchas
que ninguém apanha,
Coqueiros
que o vento corta,
Brandido
por mão estranha;
Morta
já à flor da onda
A
espuma a sumir na areia;
Nenhuma
voz que responda
Aos
ais que o vento semeia;
Ilha
deserta, deserta,
Nem
sequer junto a outra ilha;
E
à noite uma luz incerta
Que
não se sabe onde brilha;
Ilha
de um só habitante,
Com
seu mar fora do mundo,
Mar
que na maré vazante
Cava
cem braças de fundo —
Ainda
hás de ser a alegria
De
um vaporzinho cargueiro
Que
a ti chegará um dia
Perdido
no nevoeiro.
SANTOS
Sobre a cidade a tarde cai de manso.
Começam a acender-se luzes mortiças
Nos longos mastros dos transatlânticos ancorados.
Como é longo o cais envolvendo a cidade inteira
Com os chatos armazéns e os guindastes em fila!
Como é longo o cais junto às águas oleosas!
Presos à amurada baloiçam botes vazios.
Vêm conversas confusas de marinheiros
Dentre vagões atulhados de carvão de pedra.
Nossa Senhora do Monte Serrat protege o comércio.
A igrejinha branca lá está, no alto do morro,
Abençoando a fadiga dos homens suarentos.
Junto a estas águas oleosas nasci.
Nasci para sonhar o bem difícil das viagens,
O encanto triste dos amanhãs do exílio.
O apito imenso das sereias, nas partidas,
Foi a música maravilhosa dos meus ouvidos de criança.
Ó transatlânticos com bandeiras enfeitadas,
Não é verdade que viestes para levar-me?
ROLANDO TOPOR (França, 1938-1997). Pintor, ilustrador, poeta, cançonetista, dramaturgo, encenador, cineasta e fotógrafo, artista impossível de catalogar, começou por destacar-se com os desenhos grotescos que publicou na revista satírica Hara-Kiri. Vencedor do Grand Prix de L’Humour Noir em 1961, bebeu dos surrealistas e respondeu-lhes com o movimento Pânico, que fundou com Fernando Arrabal e Alejandro Jodorowsky, entre outros. Em sua obra, Topor nos leva para um mundo do avesso, e a crueldade animalesca, o erotismo, a escatologia e a tétrica ironia das suas obras valeram-lhe o desprezo de críticos, vários projetos ruinosos e ameaças de morte quotidianas. Graças a uma sempre amável sugestão de João Antônio Buhrer, Rolando Topor agora está conosco como artista convidado desta edição da Agulha Revista de Cultura.
Agulha Revista de Cultura
Número 264 | março de 2026
Artista convidado: Rolando Topor (França, 1938-1997)
Editores:
Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com
Elys Regina Zils | elysre@gmail.com
ARC Edições © 2026
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