sábado, 21 de março de 2026

RIBEIRO COUTO (1898-1963)



Ribeiro Couto (Rui Ribeiro Couto), diplomata, poeta, contista, romancista, magistrado e jornalista, nasceu em Santos, SP, em 12 de março de 1898, e faleceu em Paris, França, em 30 de maio de 1963. Publicou o seu primeiro livro de poemas, O jardim das confidências, em 1921. Trabalhou em diversos jornais, até 1922. Participou da Semana de Arte Moderna e, em seguida, retirou-se para o interior de São Paulo, em tratamento de saúde. Naquele ano saíram os volumes de contos A casa do gato cinzento e O crime do estudante Batista. Residiu dois anos em Campos do Jordão, passando a exercer depois o cargo de delegado de polícia em São Bento do Sapucaí. Nomeado promotor público em São José do Barreiro, ocupou esse cargo até 1925, ano em que se transferiu para Pouso Alto, MG, em busca de um clima propício à sua saúde. Ali exerceu a promotoria pública até 1928. Nesse ano regressou ao Rio de Janeiro, entrando para o Jornal do Brasil como redator. Designado para o posto de auxiliar de consulado m Marselha, partiu em fins de 1928 para aquela cidade francesa, onde o cônsul-geral Mateus de Albuquerque o indicou para vice-cônsul honorário. Em 1931, foi removido para Paris, onde serviu um ano como adido junto ao consulado-geral. O governo provisório, por designação do ministro Afrânio de Melo Franco, em 1932, promoveu-o a cônsul de terceira classe. Foi 2º secretário de legação na Holanda, de 1935 a 1940; 1º secretário de legação, em 1942; encarregado de Negócios em Lisboa, de 1944 a 1946; ministro plenipotenciário na Iugoslávia, de 1947 a 1952; embaixador do Brasil na Iugoslávia, de 1952 até aposentar-se. Durante a sua permanência na Europa, ocupou-se também de divulgar a literatura brasileira. Não interrompeu a colaboração para o Jornal do BrasilO Globo e A Província (de Pernambuco), sobre literatura e acontecimentos do estrangeiro. Seu primeiro livro, O jardim das confidências, ainda é simbolista. Foi definido por Ronald de Carvalho como “intimista”, em virtude do tom de confidência, dos temas simples e cotidianos, próprios de uma tendência do período (1910-1920) de transição, herdeiro do Simbolismo, e que foi intitulado de Penumbrismo, um momento precursor do Modernismo, a que Ribeiro Couto se ligou a partir de 1922, sem sacrifício, contudo, de seu feitio peculiar. Escreveu versos em francês no livro Le jour est long (O dia é longo), pelo qual conquistou, em 1958, em Paris, o prêmio internacional de poesia, outorgado anualmente a poetas estrangeiros cuja obra honra a França. Suas obras em prosa, romances, contos, crônicas também refletem a mesma atmosfera, ao retratar episódios simples, a gente humilde dos subúrbios e a vida anônima das pequenas ruas e casas pobres.

 

 

A FRASE QUE SE ESQUECE

 

Na noite morta o céu resplandece, estrelado.

Em baixo, a confusão negra da casaria.

E eu, contemplando o céu de um veludo azulado,

nem sinto a noite, a noite morta, a noite fria!

 

Vem à minha memória uma frase esquecida.

Uma frase de há muito... Uma pequena frase...

Dessas que a gente vai deixando pela vida,

ditas a uma mulher que a gente amava, quase,

e que ficou também, como a frase, esquecida.

 

"Tu viverás em mim como um adeus distante..."

 

Ela era feia e desgraçada... Eu tinha pena.

Grave, não aceitei sua boca ofertante

quando ela veio um dia, humilhada e serena, Ela era feia e desgraçada... Eu tinha pena.

 

Como se abandonasse em meus braços, chorando,

eu, a passar-lhe a mão pelo rosto molhado,

a boca murcha, o olhar piedoso, o gesto brando,

sentimental como um poeta enamorado,

afastei-a, movendo a cabeça, negando...

 

Ela bem compreendeu a renúncia e a meiguice.

E porque fosse imensa a dor daquele instante,

querendo consolar a nós dois foi que eu disse:

"Tu viverás em mim como um adeus distante..."

 

Olhando agora o céu da noite adormecida,

pus-me a chorar, chorar silenciosamente,

sofrendo a dolorosa ironia da vida,

só porque, sem querer, me despertou na mente

aquela pobre fase esquecida... esquecida...

 

 

O ESTRANGEIRO

 

Andando eu por Paris num vago dia

De violetas e cinza pelo ar,

Senti que a vaga dor que me doía

Vinha mais do esquecer que do lembrar.

 

O Sena sob a chuva, como eu via,

Levando barcos lentos para o mar,

Era uma imagem da melancolia,

O adeus da Capital crepuscular.

 

A ninguém que passava eu poderia

Estender minha mão, querer falar,

Pedir fraternidade e companhia.

 

Era só, na paisagem milenar,

Paris de Santa Genoveva  ̶  e a fria

Sombra da noite sobre o boulevard.

 

 

̻HORIZONTES DE ZAGREB

 

A planície que passa está toda nevada.

Dormem as granjas, luz nenhuma se divisa.

No chão em movimento ainda é noite fechada,

Mas não deve tardar a manhã indecisa.

 

Aos poucos, neste escuro, há sinais de alvorada:

No nascente um primeiro azul se ruboriza.

Levanta-se do campo a névoa delicada

Com gestos de mulher que despe uma camisa.

 

Brancas, pelo horizonte ondulam as colinas.

Entre bosques, ao pé dos vales de entremeio,

Fumam as chaminés vermelhas das usinas.

 

Que é que faz com que tanto o coração me bata?

Como que tudo é meu e a nada sou alheio

No gracioso acordar da paisagem croata.

 

 

ILHA DISTANTE

 

Ilha de melancolia,

Sem portos e sem cidades —

Só praias de areia fria

E coqueiros com saudades;

 

Praias de uma areia morta,

Conchas que ninguém apanha,

Coqueiros que o vento corta,

Brandido por mão estranha;

 

Morta já à flor da onda

A espuma a sumir na areia;

Nenhuma voz que responda

Aos ais que o vento semeia;

 

Ilha deserta, deserta,

Nem sequer junto a outra ilha;

E à noite uma luz incerta

Que não se sabe onde brilha;

 

Ilha de um só habitante,

Com seu mar fora do mundo,

Mar que na maré vazante

Cava cem braças de fundo —

 

Ainda hás de ser a alegria

De um vaporzinho cargueiro

Que a ti chegará um dia

Perdido no nevoeiro.

 

 

SANTOS

 

Sobre a cidade a tarde cai de manso.

Começam a acender-se luzes mortiças

Nos longos mastros dos transatlânticos ancorados.

Como é longo o cais envolvendo a cidade inteira

Com os chatos armazéns e os guindastes em fila!

Como é longo o cais junto às águas oleosas!

 

Presos à amurada baloiçam botes vazios.

Vêm conversas confusas de marinheiros

Dentre vagões atulhados de carvão de pedra.

 

Nossa Senhora do Monte Serrat protege o comércio.

A igrejinha branca lá está, no alto do morro,

Abençoando a fadiga dos homens suarentos.

 

Junto a estas águas oleosas nasci.

Nasci para sonhar o bem difícil das viagens,

O encanto triste dos amanhãs do exílio.

O apito imenso das sereias, nas partidas,

Foi a música maravilhosa dos meus ouvidos de criança.

 

Ó transatlânticos com bandeiras enfeitadas,

Não é verdade que viestes para levar-me?





ROLANDO TOPOR (França, 1938-1997). Pintor, ilustrador, poeta, cançonetista, dramaturgo, encenador, cineasta e fotógrafo, artista impossível de catalogar, começou por destacar-se com os desenhos grotescos que publicou na revista satírica Hara-Kiri. Vencedor do Grand Prix de L’Humour Noir em 1961, bebeu dos surrealistas e respondeu-lhes com o movimento Pânico, que fundou com Fernando Arrabal e Alejandro Jodorowsky, entre outros. Em sua obra, Topor nos leva para um mundo do avesso, e a crueldade animalesca, o erotismo, a escatologia e a tétrica ironia das suas obras valeram-lhe o desprezo de críticos, vários projetos ruinosos e ameaças de morte quotidianas. Graças a uma sempre amável sugestão de João Antônio Buhrer, Rolando Topor agora está conosco como artista convidado desta edição da Agulha Revista de Cultura.

  



Agulha Revista de Cultura

Número 264 | março de 2026

Artista convidado: Rolando Topor (França, 1938-1997)

Editores:

Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com

Elys Regina Zils | elysre@gmail.com

ARC Edições © 2026


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