sábado, 21 de março de 2026

LÚCIO CARDOSO (1912-1968)



Lúcio Cardoso nasceu em Curvelo, Minas Gerais. Junto com os romancistas Otávio de Faria e Cornélio Penna e o poeta Vinicius de Moraes, Lúcio Cardoso é considerado expoente da literatura de cunho intimista e introspectiva que despontou no Brasil na década de 1930. Embora sua escrita costume ser associada à chamada literatura psicológica, iniciou sua carreira com dois romances de cunho sociológico, Maleita (1934) e Salgueiro (1935), com marcada mudança de rumo em Luz no Subsolo (1936). Sua literatura, a partir de então, prioriza o questionamento da condição humana e de valores como o bem e o mal, como nos romances Mãos Vazias, Inácio, Dias Perdidos e nas novelas O Enfeitiçado e Baltazar, dentre outras da década de 1940. Sua obra inaugura na literatura brasileira um mergulho no cerne do indivíduo moderno, em que os dramas, as dúvidas e os questionamentos existenciais se sobrepujam à descrição naturalista ou à crítica social. Sua obra-prima Crônica da Casa Assassinada (1959) é um dos livros mais cultuados da literatura brasileira, tendo sido traduzido para o francês,  italiano e inglês. A literatura de Cardoso teria imenso impacto sobre a obra de Clarice Lispector, de quem foi amigo e mentor, e a qual lhe dedicou uma ligação amorosa explicitada em sua correspondência. Ao longo das décadas de 1940 e 1950, Cardoso manteve colaboração ativa com a imprensa, escrevendo no jornal A Noite, entre outros. Essa época marcou também sua atuação mais intensa como autor teatral, com peças como Angélica, A Corda de Prata, e O Filho Pródigo, esta última a primeira obra brasileira encenada pelo Teatro Experimental do Negro, em 1947, com Abdias do Nascimento e Ruth de Souza. O envolvimento com o teatro abriu caminho para sua verdadeira paixão, o cinema. Em 1948, Cardoso escreveu o roteiro para o filme Almas Adversas (1949), dirigido por Leo Marten, e, no ano seguinte, escreveu e dirigiu A Mulher de Longe, longa-metragem inacabado, que foi tema do documentário do mesmo nome, realizado em 2012 por Luiz Carlos Lacerda. Apesar da frustração com esse projeto, sua relação com o cinema perdurou. Com Paulo César Saraceni realizou o primeiro longa-metragem do cinema novo, Porto das Caixas, do qual foi o roteirista. Após sua morte, várias de suas obras foram adaptadas para o cinema. Em 2015, por exemplo, seu texto inacabado Introdução à música do sangue foi transformado em filme homônimo de Luiz Carlos Lacerda. Lúcio Cardoso foi, no Brasil, uma das primeiras figuras culturais de destaque a assumir sua homossexualidade. Deixou em seu Diário (1958), escrito entre os anos de 1949 a 1958, relato bastante contundente sobre sua orientação sexual, assim como as dúvidas e culpas geradas por sua formação católica. Em 1962 teve um derrame cerebral, que paralisou o lado direito do seu corpo, impedindo-o de escrever. Passou então a se dedicar com afinco à pintura e chegou a realizar duas exposições em vida.



POEMA DO FERRO E DO SANGUE

 

Esqueceram os campos revolvidos

onde vegetam perdidos

os ossos obscuros

calcinados

de dez milhões de mortos.

 

Esqueceram as cruzes improvisadas

erguendo para o alto

preces de galhos retorcidos.

 

E esqueceram o rumor das granadas

revolvendo a terra e os vivos

devorando os mortos

destruindo.

 

 

A CASA DO SOLTEIRO

 

A casa do solteiro é alta e de paredes de angústia,

muros escorrem como verdes contornos

e colunas de mármore frio guardam seus limites.

Há quatro anjos sentados no teto solene e casto

e com luzes vermelhas, entre ciprestes,

sondam os anjos – guardiões – os fundamentos

que se apoiam com gemidos nos porões e adegas,

no rio escuro e na água morta

de correntes que foram vencidas – despedaçadas.

A casa do solteiro é cor de chama,

de silêncio aflito e aurora sem contemplação.

São pedras de crime e de agonia,

são negras pedras de delírio e de remorso.

São duras estacas de alumínio e febre,

são traves de cristais e de luxúria.

Há um descampado em torno: nostálgicos,

cemitérios se evaporam no crepúsculo

e ruínas de azul e ópio cintilam,

entre guitarras e navalhas abandonadas.

Há flores quentes e de carne, flores mesmas,

cor de whisky, de pêssegos feridos, e raízes

quentes de sofrimento e decomposição.

A casa do solteiro é o sol posto

quando perdemos a fé e o amor se foi,

o começo da noite quando não há horizonte,

a quilha partida e a lança sem gume.

A casa do solteiro se abre como a música,

é triste e macia, fechada como a do príncipe,

fechada, entre janelas longas de ferro,

enquanto lá fora o vento ruge e há relâmpagos.

Não há vertigem, e nem espaço, e nem sossego,

tudo sucede como se morrêssemos aos poucos,

os móveis andam, e nos olhares estranhos,

como róseos desmaios e garras de ultraje.

Se não fossem tão lúcidos, morreriam de cólera,

abraçando manequins de aço, corpos de rampas

em madrugadas de rompimento e viagens.

Esqueceriam as malas – e iriam muito altos,

olhando as hortas onde cresce o mato que assassina.

E estão quietas: jogam as cartas verdes

e suspiram impossíveis paisagens de mar.

Quatro anjos grandes velam no alto do telhado,

com quatro rosas voltadas para o mar,

a mais escura é que os guia. Rosas frias,

de pétalas aguçadas e de mortal traição.

A casa do solteiro é que eles elegeram,

ilha, jangada no silêncio do céu,

vasto navio abandonado e cheio de tormenta,

escândalo e aflição – a casa do solteiro flutua

50 e é como uma vasta cortina de sangue e maldição,

chorando as tardes, os corpos, o coração perdido,

tudo – neste silêncio único onde existe

como uma grande alma sozinha batendo

na infindável noite que não se acaba

e nem se acabará NUNCA,

A CASA DO SOLTEIRO.

 

 

RECEITA DE HOMEM

 

Depois deve ser alto,

sem lembrar o frio estilo da palmeira.

Moreno sem excesso para que se encontre

tons de sol de agosto em seus cabelos.

E nem louro demais para que, de repente

no olhar cintile algo da cigana pátria adormecida.

E que tenha mãos grandes, para demorados carinhos

e adeuses que se retardem ao peso do próprio gesto.

Pés grandes, também, por que não,

para que os regressos sejam breves

e haja resistência para as conjuntas caminhadas.

Os olhos falem, falem sempre, falem

de amor, de ciúme, de morte ou traição.

Mas que falem. Porque o homem sem a música dos olhos

é como sepultura exposta ao sol do meio-dia.

E que o riso relembre um pouco da infância,

para que se tenha, no fervor do beijo,

uma memória de pitanga e amora esmagadas

Ah, o corpo! Sucedam alvoradas ao longo do tórax gentil,

e escureça a penugem até o sexo velado.

(Mas não definitivamente.)

E o seu passo lembre a dança, mas com firmeza,

e o seu rastro fale de perfume, sem perfume

e escorram pausados rios em seus flancos hieráticos.

E que ele cante, sem cantar

por toda a sua humana contextura,

para que também em torno dele as coisas cantem,

quando, como o primeiro homem,

nu ele se erguer defronte ao mar.

 

 

ÚNICO POEMA DE AMOR

 

tudo tão calmo

a vida dormindo

como agora que tombasse sem murmúrio

na planície do meu pensamento …

folhas mortas que não voam,

pássaros imóveis que não cantam,

água parada que não corre …

e teu corpo como um lírio sobre a terra,

e a terra muda impregnada de perfume,

teus olhos grandes como flores noturnas,

flores que se abrem na doçura do silêncio

e minha sombra como uma nuvem perdida

debruçada sobre teus cabelos imóveis

que boiam na água da planície…

 

 

AMANHECER

 

A noite está dentro de mim,

girando no meu sangue.

Sinto latejar na minha boca

as pupilas cegas da lua.

Sinto as estrelas, como dedos

movendo a solidão em que caminho.

Logo o perfume da poesia

sobe aos meus olhos trêmulos, cerrados,

ouço a música das coisas que acordam

sobre o corpo negro da terra

e a voz do vento distante

e a voz das palmeiras abertas em raios

e a voz dos rios viajantes.

 

E a noite está dentro de mim.

Como um pássaro,

meu sonho ergue as asas no coração da sombra.

Ouço a música das flores que tombam,

o tropel das nuvens que passam

e a minha voz que se eleva

como uma prece na planície solitária.

 

Então sinto a noite fugindo de mim,

sinto a noite fugindo dos homens

e o sol que avança na garupa do mar

e as nuvens curvas que enchem o céu

como grandes corcéis de fogo cor-de-rosa

desaparecendo sugados pela treva.





ROLANDO TOPOR (França, 1938-1997). Pintor, ilustrador, poeta, cançonetista, dramaturgo, encenador, cineasta e fotógrafo, artista impossível de catalogar, começou por destacar-se com os desenhos grotescos que publicou na revista satírica Hara-Kiri. Vencedor do Grand Prix de L’Humour Noir em 1961, bebeu dos surrealistas e respondeu-lhes com o movimento Pânico, que fundou com Fernando Arrabal e Alejandro Jodorowsky, entre outros. Em sua obra, Topor nos leva para um mundo do avesso, e a crueldade animalesca, o erotismo, a escatologia e a tétrica ironia das suas obras valeram-lhe o desprezo de críticos, vários projetos ruinosos e ameaças de morte quotidianas. Graças a uma sempre amável sugestão de João Antônio Buhrer, Rolando Topor agora está conosco como artista convidado desta edição da Agulha Revista de Cultura.

  



Agulha Revista de Cultura

Número 264 | março de 2026

Artista convidado: Rolando Topor (França, 1938-1997)

Editores:

Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com

Elys Regina Zils | elysre@gmail.com

ARC Edições © 2026


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