sábado, 21 de março de 2026

LUCI COLIN (1964)

 


Luci Collin (Curitiba, Paraná, 1964). Escritora, tradutora, professora universitária, musicista. Sua obra se destaca pela experimentação e pela abordagem de temas da pós-modernidade, como as metanarrativas e as crises identitárias. Transitando por gêneros como a poesia, o conto, o romance e o teatro, investe estruturalmente na musicalidade e na fragmentação textual. Na década de 1980, Luci realiza curso superior de piano, além de um bacharelado em percussão, ambos na Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Seu primeiro livro de poemas, Estarrecer (1984), publicado em Curitiba, é muito bem recebido pela crítica local. Embora a autora abandone a música profissionalmente, sua formação musical a acompanha tanto na escrita literária quanto no trabalho de tradução. Traduz textos de e. e. cummings (1894-1962). Uma parte da fortuna crítica investiga as articulações entre teoria musical e a escrita de Luci Collin. Assim como músicos e dançarinos utilizam ressonância, polifonia, repetição, cadência e espaçamento para produzir sentidos, Luci incorpora esses elementos ao texto literário, o que gera diversas possibilidades semânticas e estilísticas. Outra linha interpretativa investiga as metalinguagens e conexões entre diferentes recursos estilísticos usados pela autora. Exemplos disso são as vozes literárias fragmentadas, que tomam forma por meio de rupturas e ausências no corpo textual. Em Vozes Num Divertimento (2008), Luci desconstrói ferramentas literárias tradicionais, como o discurso direto e o enredo coerente, com começo, meio e fim. A escrita de Luci Collin é intimista e experimental. Embora não se restrinja a fórmulas e temas específicos, o uso de técnicas literárias inovadoras torna seus textos singulares, e permite atribuir-lhe um lugar de destaque na literatura brasileira contemporânea.

 

 

PASSE

 

então decidiu ser sem relógios

e agora dorme com mouros e papalvos

e ouve trombetas e se quiser contrai escarlatina

e alimenta pombos nas fotografias dos turistas

e não depende de ponteiros

nem de aguaceiro ou de fresca

e tanto pode ser a velha renga a segurar sacolinhas

quanto o guarda noturno que espia vergonhas nuas

quanto o caracol abolido por falta de estiga

quanto as mãos instruídas que adivinham

cadências vulcânicas e gritos de anacronia

quanto a jovem crua e negligente

com aquilo que lhe escorre pelas coxas

quanto o vilão com cara de flandres

que apodrece em circunstância de bruma

quanto a menina antiquíssima que se fia

em angras e vaus e reticências

quanto o cardeal a abençoar sopa nenhuma

quanto a estátua movediça que cala e consente

quanto o helianto que acompanha a lua

quanto a boca que se esqueceu como é

que se mastiga

 

 

HISTÓRIA NATURAL

 

Manhã inteira revisando um livro mergulhada

na nossa língua portuguesa e as regras que prevalecem

 

café lentamente e olhar pela janela olhando olhando

bem longe muito longe mesmo a serra do mar — lá está

encoberta (lá está pra sempre neste minuto)

 

olhando a árvore de nome comprido: sibipiruna do qual

sempre me esqueço está depenada pelo inverno

mas a canjarana persiste mas a canafístula perdura mas

o araribá resiste às piores geadas e o freixo-comum

e a lavanda floresce e suporta a escassez suporta as

temperaturas mais frias porque como os pássaros

têm estratégias têm corportamentos vários por exemplo

hibernação ou a inquietude migratória tudo é estratégia

 

a minha: o mergulho na revisão da língua do livro e

às vezes olhar pela janela à espera de quando

eu mesma puder voltar.

 

 

ACONTECIDO

 

buscava a outra claridade

aquilo do invisível que o gato vê

aquilo de esmero na confusão do jardim

 

buscava o outro ouro

aquilo do magma no exercício de fundir-se

aquilo do frescor num recitar juramento

 

buscava o outro final da saga

aquilo de soprar deixas no escuro

aquilo de fundar os dogmas juntos

 

buscava a outra simetria

aquilo de imortal na ode ao rosário

aquilo de avocar a rescisão das jaulas

 

além de tudo buscava

cavalos já saciados numa fortuna

de pasto de verão e de afago

 

além de tudo buscava

a mesma boca a mesma sede fecunda

no querer da mesma água

num só trago

 

 

INCOMBINADOS

 

esta algazarra dentro do peito

esta noite longuíssima

o sinal que fecha

e eu tanta pressa

essa valsa em que se tropeça

eu tentando segurar as águas

querendo soltar as rédeas

regando o que quer que seja que fosse

e esse estar alheio a tudo que é de fora

esse dia cheio de tantas horas

o sinal que abre e eu a marcha lentíssima

cena editada esse iceberg no meio da estrada

tal o inesperado abraço no vagão do metrô

e vem taquicardia mas é retrô e só rima

fanfarra tal gambiarra no meu peito

essa prece indébita tal mal súbito

a alforria que foi parar no lixo

esse lapso esse colapso

a praxe do trocadilho

esse não faz isso

esse está feito

esse vício

 

 

AOS PÉS DA LETRA

 

não sei você

mas eu por dentro estou quase num

nem existo______quase na lona no limbo

na face escura da lua

na rua a ver navios

quase imprevisto

 

não sei você mas eu

por dentro estou com um estrepe um engasgo

parece indeferimento

por dentro é rés movimento

é sem balanço___sem serventia

por dentro um estrago

 

não fosse o colibri aqui faz pouco

tinha me abstido dessa cena

tinha desistido desse filme

— espelho bissexto e algo turvo —

não fora o sol que entendi esplêndido

passava batido o entardecer vermelho

 

pela natureza desse ofício

pelo oficioso desse esforço

não sei você mas eu por dentro

sou só

_________texto





ROLANDO TOPOR (França, 1938-1997). Pintor, ilustrador, poeta, cançonetista, dramaturgo, encenador, cineasta e fotógrafo, artista impossível de catalogar, começou por destacar-se com os desenhos grotescos que publicou na revista satírica Hara-Kiri. Vencedor do Grand Prix de L’Humour Noir em 1961, bebeu dos surrealistas e respondeu-lhes com o movimento Pânico, que fundou com Fernando Arrabal e Alejandro Jodorowsky, entre outros. Em sua obra, Topor nos leva para um mundo do avesso, e a crueldade animalesca, o erotismo, a escatologia e a tétrica ironia das suas obras valeram-lhe o desprezo de críticos, vários projetos ruinosos e ameaças de morte quotidianas. Graças a uma sempre amável sugestão de João Antônio Buhrer, Rolando Topor agora está conosco como artista convidado desta edição da Agulha Revista de Cultura.

  



Agulha Revista de Cultura

Número 264 | março de 2026

Artista convidado: Rolando Topor (França, 1938-1997)

Editores:

Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com

Elys Regina Zils | elysre@gmail.com

ARC Edições © 2026


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