sábado, 21 de março de 2026

ISABEL CÂMARA (1940-2006)

 


Isabel Câmara nasceu em Três Corações, Minas Gerais, em 1940. Tornou-se conhecida com a peça As Moças, pela qual recebeu o Prêmio Molière de melhor autor em 1970, após a encenação do texto em São Paulo em 1969, com direção de Maurice Vaneau, e, no ano seguinte, com direção de Ivan de Albuquerque no Rio de Janeiro. Segundo o crítico Yan Michalski, “As Moças ocupa um lugar importante na dramaturgia do seu tempo, e revela uma singular sensibilidade, espontaneidade do diálogo, capacidade de envolver uma aguda observação psicológica numa aura de emocionada poesia, e um talento que poderia, em outras circunstâncias, ter aberto diante da autora o caminho para uma carreira mais duradoura”. Durante a década de 70, sua amizade com autores como Carlos Süssekind e Francisco Alvim a aproximaria dos poetas e escritores ativos no Rio de Janeiro. Teve alguns de seus poemas incluídos na antologia de Heloísa Buarque de Hollanda, 26 Poetas Hoje (1975), e parte de seu trabalho seria reunido no volume Coisas Coiós (Rio de Janeiro: 7 Letras, 1998), dos quais foram extraídos os poemas abaixo. Foi contemporânea de poetas tão distintos entre si quanto Orlando Parolini (1936-1991), Roberto Piva (1937-2010), Orides Fontela (1940-1998), Leonardo Fróes (1941-2026), Elisabeth Veiga (1941-2018), Torquato Neto (1944-1972) e Ana Cristina Cesar (1952-1983), entre tantos outros surgidos entre as décadas de 60 e 70. Isabel Câmara morreu em Goiânia, em 2006.



LIGHT-COCK-SONG

 

só para gênios, tímidos

e alguns porcos chauvinistas

desses que o padre vem me

benzer todo dia, e que quando

não vem ele cá vou eu lá:

Leva este caralho compra-me um maço

de cigarros Continental, umas cem

gramas de alho e o tempero, que te der na cuca.

E se o dinheiro render, um lacinho de fita

de seda ou crepom. Depois, na saída do cinema,

vem cedo pra casa, me leva pra cama, sem se

esqueça que o alho é para um aglio-olio.

 

 

DEZENOVE DO OITO DE MIL NOVECENTOS E SETENTA & QUATRO

 

Não entendo nada desta janela fechada

que me aperta a culpa

Doer não faça mais,

nem sangra –

Consegui o que queria:

ser despedido, ficar perdido

falida e sozinha

olhando o pálido da Comedia.

Sei que eu me chamo Bel

Mel de paixão

doce da boca louca

de onde sangra o coração

e chora a hora

do leito vazio

da falta de peito

do jeito do beijo

fácil, difícil, sutil.

 

A verdade é que vivo a mil

sonhando a morte em azul-anil.

 

 

HORA SAGRADA

 

Te espero.

Sob o travesseiro

uma tesoura segura

o ouro

o Trigo

o abraço ligeiro

de quem tem cheiro

das coisas pagas

anãs sob o linho fino

o vinho rastreiro.

Faço a feira

vivo beirando a beira

da Orgia

que pia, escorrega,

cortando ligeiramente

a noite do dia que me alivia.

E aí só cria

meu mundo de fantasia

Agora vê se não chia

Você não é minha tia.

 

 

LENÇÓIS

 

Aos domingos se vai ao longo…

Lavam-se panos brancos e os

denominamos roupas de cama:

Roupas de baixo

Roupas de cima –

Coisas da Casa

Aos Domingos todos se cansam cedo:

há links matutinos

e muitos hinos.

Aos domingos há missa, música

entreveros. Há quem chore

nalguma hora e há também

possibilidades novas:

Há pares, bares, porres.

Aos domingos semeia

como lavadeiras

seus lençóis azuis/brancos

lúcidos dos dias de semana.

Para elas lençóis

Prata da Casa

Lençóis louça de porcelana

 

 

PECADORA

 

Devoro teu voo ó pássaro pleno

comendo tuas asas

Teu Deus

me absolve

Devoro este pássaro

em cujas asas me apreendo Plena

 

Deus de tantas lousas & dos que

não tenho olhos não os tenho para ver

E todos sabem é plenilúnio

é plena pele amaciando outra coisa pele

 

Teus olhos sejam meus olhos ó pássaro Deus.

 

Minha poesia não vale nada

minha fé se perde a todo instante

e passo contente feito não tivesse nada

com o passado o futuro sequer o presente.

Meu português não é de todo ruim

maldosa é a palavra labutada

dando quase em nada.

O pior português

foi aquele meu avô que pisava feliz suas vindimas

e se o vinho era meio azedado foi quando tomei

meu primeiro porre na adega de sete chaves

numa bela manhã tricordiana.

Quem nasceu para ferreiro tem o ditado:

espeto de pau. Fiquei tão feliz em ser bêbada

na adega do ferreiro seu Miguel.

O forte em mim no entanto são cordas de celos

e o de menos é tudo que acho saber.

Sou um arremedo arretado trespasse de espadachim

cheio de espirros acorrentados.

É que respirar faz tão bem aos pulmões!

 

2

 

Sou farta em tripés

e cheia de tripas sangrando

feito veias. Sou plena em Maomés

e conhecer faz-me doer tanto que esqueço o mistério.

Já fui carregada nua no meio da rua nua

arrombaram-me a casa

arrombaram-me a castidade (desde mocinha)

                   e chega.

Ser tão vulgo é um visgo.

Porém não o ser é perder-me de mim e morrer antes da hora.

Que foram antes tantas.

Gostaria de amar mas desaprendi.

Como todo tolo faço-me de poeta

P’ralegria não ficar triste e morrer de saudade ou pena.

 

Os suicidas merecem nada mais que o céu?

Isto devia ser escrito ou questionado?

 

Perigoso demais.

No mais a mais et coetecera

que de coleira nascemos.

 

Ai os que de nós houver, ver, vir e por amor não perecer





ROLANDO TOPOR (França, 1938-1997). Pintor, ilustrador, poeta, cançonetista, dramaturgo, encenador, cineasta e fotógrafo, artista impossível de catalogar, começou por destacar-se com os desenhos grotescos que publicou na revista satírica Hara-Kiri. Vencedor do Grand Prix de L’Humour Noir em 1961, bebeu dos surrealistas e respondeu-lhes com o movimento Pânico, que fundou com Fernando Arrabal e Alejandro Jodorowsky, entre outros. Em sua obra, Topor nos leva para um mundo do avesso, e a crueldade animalesca, o erotismo, a escatologia e a tétrica ironia das suas obras valeram-lhe o desprezo de críticos, vários projetos ruinosos e ameaças de morte quotidianas. Graças a uma sempre amável sugestão de João Antônio Buhrer, Rolando Topor agora está conosco como artista convidado desta edição da Agulha Revista de Cultura.

  



Agulha Revista de Cultura

Número 264 | março de 2026

Artista convidado: Rolando Topor (França, 1938-1997)

Editores:

Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com

Elys Regina Zils | elysre@gmail.com

ARC Edições © 2026


∞ contatos

https://www.instagram.com/agulharevistadecultura/

http://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/

FLORIANO MARTINS | floriano.agulha@gmail.com

ELYS REGINA ZILS | elysre@gmail.com

 




 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário