sábado, 21 de março de 2026

ANDRÉ DE SENA (1975)

 


Poeta, escritor e músico nascido em Recife em 26 de novembro de 1975, André de Sena filia-se, na prosa literária, a diversas tradições e modalidades imaginativas setecentistas e oitocentistas; na poesia, a um universo pessoal, mas também intertextual, que tem como base o onírico, o simbólico, o imanentista; na música, às linhagens do rock, do progressivo, do experimentalismo. Doutor em letras pela Universidade Federal de Pernambuco, com estágio na Université Blaise Pascal de Clermont-Ferrand (França), com mestrado em letras (2002) pela UFPB e graduação em jornalismo (1999) pela UEPB, tem experiência na área de literatura, teoria e crítica literárias, poética, literatura comparada, especializando-se na literatura oitocentista brasileira e de outros países, com ênfase especial nas séries, gêneros, subgêneros e modalidades imaginativas (romantismo, ultrarromantismo, literatura fantástica, gótica, de horror, narrativas de viagem, contos de fadas, modo simbolista etc.), mas também interessado e estudioso de literatura antiga (clássica), medieval, renascentista, barroca e árcade. É o idealizador e líder do Belvidera – Núcleo de Estudos Oitocentistas (grupo de estudos fundado em 2011 na UFPE/CNPq), do Departamento de Letras da Universidade Federal de Pernambuco, onde ensina, como professor Adjunto IV; membro-pesquisador dos grupos de estudo Vertentes do Fantástico (UNESP-SP), Núcleo de Estudos sobre Gêneros (NIG-UFPE), Associação de Estudos Portugueses Jordão Emerenciano (UFPE, fundada em 1954, sendo seu atual presidente desde 2016), além de autor/organizador de livros teóricos, ensaísticos e literários, e membro fundador do grupo/projeto de rock progressivo e literário Mar Assombrado.

 

 

AS PALAVRAS 




As palavras, imunes à lembrança,

flutuam na noite de coral,

inquietas hamadríades ao sabor dos ventos…

Escorregam pelos canteiros,

despem-se em arpejos vegetais,

borboleteiam a luz, antecipam as mariposas

e se deixam embalar nas ondas, turmalinas.

Na água branca, no cisne incolor,

por trás da paisagem, como um poema de dor.

E lhes foge apenas a esfíngica morte

no grito de animal inventado,

fabular e inominável.

Mas são delas os lampiões apagados.

  

EXTENSÃO

 

No não me entender,

lancei-me ao caos;

e quis entender todo o caos.

 

Em não entendê-lo,

achei-me como ele;

e perdi metade dos dentes.

 

Ó fruta maldita,

que jamais saibo ler.

Tomé acredita,

o corpo quer ver.

 

Perdidos no vulto do tempo,

(donde vim? pron’ vou?)

metade de mim é resposta:

Não sei — Eu Sou.

 

 

DO CÉU DECAI UM VENTO

 

Do céu decai um vento

de velhos arvoredos.

Adormeceu com lamentos

das estrelas todo medo.

Quanta calma, no claro raio

que prestes me enlouquece!

Bendigo a lua e saio

de meu corpo que adormece.

Sobre sonhos,

lagos que as asas refletem,

caí no abismo

de uma convulsão de água e Letes.

 

 

FANTASMAS DE SOM

 

Fantasmas de som, girassóis de nuvens,

risos de cobre, veias de prata e Jasmins.

As ruas são ventos e correm na mata –

a mata corre e faz o vento –

canto as que teus passos embalam.

Cortinas de raios, andaimes da lua,

crestar da imensidão, voo pelo vazio

(teus olhos, o tempo é sal,

perdi um grão de ouro musical

da harpa dórica de teus cílios).

Taverna sem som, dupla primavera,

limite de árvores, garrafa cheia e aberta.

A clareira é paço de estranhas luzes,

sonho aberto numa arcádia de ramos,

que projeta teu corpo de nu azulado.

 

 

ARS POETÍCA

 

Pássaros cantam, despertando flores

antes murchas na janela.

É quando sinos luminosos tocam

e anunciam a hora especial

em que montado num cisne deslumbrante

entrarei naquela primavera,

na pupila das crianças.

Hora em que legião de seres

me circunda os ombros invisíveis,

alimentando-me a escrita cem vozes,

noturnas canções de um tempo esquecido.

E a lua se balança, tríplice e una,

acorrentada a lição de jasmins.

Por sendas cristalinas,

um jardim extraordinário

cercado por mosaicos e espelhos

em cujos limites dragões ecoam mármore

e peixes confundem ares sonâmbulos.





ROLANDO TOPOR (França, 1938-1997). Pintor, ilustrador, poeta, cançonetista, dramaturgo, encenador, cineasta e fotógrafo, artista impossível de catalogar, começou por destacar-se com os desenhos grotescos que publicou na revista satírica Hara-Kiri. Vencedor do Grand Prix de L’Humour Noir em 1961, bebeu dos surrealistas e respondeu-lhes com o movimento Pânico, que fundou com Fernando Arrabal e Alejandro Jodorowsky, entre outros. Em sua obra, Topor nos leva para um mundo do avesso, e a crueldade animalesca, o erotismo, a escatologia e a tétrica ironia das suas obras valeram-lhe o desprezo de críticos, vários projetos ruinosos e ameaças de morte quotidianas. Graças a uma sempre amável sugestão de João Antônio Buhrer, Rolando Topor agora está conosco como artista convidado desta edição da Agulha Revista de Cultura.

  



Agulha Revista de Cultura

Número 264 | março de 2026

Artista convidado: Rolando Topor (França, 1938-1997)

Editores:

Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com

Elys Regina Zils | elysre@gmail.com

ARC Edições © 2026


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