AS PALAVRAS
As palavras,
imunes à lembrança,
flutuam na
noite de coral,
inquietas
hamadríades ao sabor dos ventos…
Escorregam
pelos canteiros,
despem-se em
arpejos vegetais,
borboleteiam a
luz, antecipam as mariposas
e se deixam
embalar nas ondas, turmalinas.
Na água
branca, no cisne incolor,
por trás da
paisagem, como um poema de dor.
E lhes foge
apenas a esfíngica morte
no grito de
animal inventado,
fabular e
inominável.
Mas são delas
os lampiões apagados.
EXTENSÃO
No não me
entender,
lancei-me ao
caos;
e quis
entender todo o caos.
Em não
entendê-lo,
achei-me
como ele;
e perdi
metade dos dentes.
Ó fruta
maldita,
que jamais
saibo ler.
Tomé
acredita,
o corpo quer
ver.
Perdidos no
vulto do tempo,
(donde vim?
pron’ vou?)
metade de
mim é resposta:
Não sei — Eu
Sou.
DO CÉU DECAI UM
VENTO
Do céu decai um vento
de velhos arvoredos.
Adormeceu com lamentos
das estrelas todo medo.
Quanta calma, no claro raio
que prestes me enlouquece!
Bendigo a lua e saio
de meu corpo que adormece.
Sobre sonhos,
lagos que as asas refletem,
caí no abismo
de uma convulsão de água e Letes.
FANTASMAS DE SOM
Fantasmas de som, girassóis de nuvens,
risos de cobre, veias de prata e Jasmins.
As ruas são ventos e correm na mata –
a mata corre e faz o vento –
canto as que teus passos embalam.
Cortinas de raios, andaimes da lua,
crestar da imensidão, voo pelo vazio
(teus olhos, o tempo é sal,
perdi um grão de ouro musical
da harpa dórica de teus cílios).
Taverna sem som, dupla primavera,
limite de árvores, garrafa cheia e aberta.
A clareira é paço de estranhas luzes,
sonho aberto numa arcádia de ramos,
que projeta teu corpo de nu azulado.
ARS POETÍCA
Pássaros cantam, despertando flores
antes murchas na janela.
É quando sinos luminosos tocam
e anunciam a hora especial
em que montado num cisne deslumbrante
entrarei naquela primavera,
na pupila das crianças.
Hora em que legião de seres
me circunda os ombros invisíveis,
alimentando-me a escrita cem vozes,
noturnas canções de um tempo esquecido.
E a lua se balança, tríplice e una,
acorrentada a lição de jasmins.
Por sendas cristalinas,
um jardim extraordinário
cercado por mosaicos e espelhos
em cujos limites dragões ecoam mármore
e peixes confundem ares sonâmbulos.
ROLANDO TOPOR (França, 1938-1997). Pintor, ilustrador, poeta, cançonetista, dramaturgo, encenador, cineasta e fotógrafo, artista impossível de catalogar, começou por destacar-se com os desenhos grotescos que publicou na revista satírica Hara-Kiri. Vencedor do Grand Prix de L’Humour Noir em 1961, bebeu dos surrealistas e respondeu-lhes com o movimento Pânico, que fundou com Fernando Arrabal e Alejandro Jodorowsky, entre outros. Em sua obra, Topor nos leva para um mundo do avesso, e a crueldade animalesca, o erotismo, a escatologia e a tétrica ironia das suas obras valeram-lhe o desprezo de críticos, vários projetos ruinosos e ameaças de morte quotidianas. Graças a uma sempre amável sugestão de João Antônio Buhrer, Rolando Topor agora está conosco como artista convidado desta edição da Agulha Revista de Cultura.
Agulha Revista de Cultura
Número 264 | março de 2026
Artista convidado: Rolando Topor (França, 1938-1997)
Editores:
Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com
Elys Regina Zils | elysre@gmail.com
ARC Edições © 2026
∞ contatos
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