AS PALAVRAS
As palavras,
imunes à lembrança,
flutuam na
noite de coral,
inquietas
hamadríades ao sabor dos ventos…
Escorregam
pelos canteiros,
despem-se em
arpejos vegetais,
borboleteiam a
luz, antecipam as mariposas
e se deixam
embalar nas ondas, turmalinas.
Na água
branca, no cisne incolor,
por trás da
paisagem, como um poema de dor.
E lhes foge
apenas a esfíngica morte
no grito de
animal inventado,
fabular e
inominável.
Mas são delas
os lampiões apagados.
PROTEU
Ergo a vista ao profundo céu agora,
onde no ar digladiam mil brancas hostes,
retrato do que és e do que foste,
erguendo as mãos ao sangue das auroras.
Não somos mais os mesmos, os de outrora
(resta-nos a canção a confundir
o silêncio das coisas no porvir),
o vento leva as nuvens sem demora.
Quando os anjos da morte ressoarem
as pútridas cornetas pelos ares
e em teu batel vagares mansamente
o cintilante dorso da onda ausente,
contempla a natureza e te desfaz,
mudaste sempre, sempre mudarás.
DO CÉU DECAI UM
VENTO
Do céu decai um vento
de velhos arvoredos.
Adormeceu com lamentos
das estrelas todo medo.
Quanta calma, no claro raio
que prestes me enlouquece!
Bendigo a lua e saio
de meu corpo que adormece.
Sobre sonhos,
lagos que as asas refletem,
caí no abismo
de uma convulsão de água e Letes.
FANTASMAS DE SOM
Fantasmas de som, girassóis de nuvens,
risos de cobre, veias de prata e Jasmins.
As ruas são ventos e correm na mata –
a mata corre e faz o vento –
canto as que teus passos embalam.
Cortinas de raios, andaimes da lua,
crestar da imensidão, voo pelo vazio
(teus olhos, o tempo é sal,
perdi um grão de ouro musical
da harpa dórica de teus cílios).
Taverna sem som, dupla primavera,
limite de árvores, garrafa cheia e aberta.
A clareira é paço de estranhas luzes,
sonho aberto numa arcádia de ramos,
que projeta teu corpo de nu azulado.
ARS POETÍCA
Pássaros cantam, despertando flores
antes murchas na janela.
É quando sinos luminosos tocam
e anunciam a hora especial
em que montado num cisne deslumbrante
entrarei naquela primavera,
na pupila das crianças.
Hora em que legião de seres
me circunda os ombros invisíveis,
alimentando-me a escrita cem vozes,
noturnas canções de um tempo esquecido.
E a lua se balança, tríplice e una,
acorrentada a lição de jasmins.
Por sendas cristalinas,
um jardim extraordinário
cercado por mosaicos e espelhos
em cujos limites dragões ecoam mármore
e peixes confundem ares sonâmbulos.
ROLANDO TOPOR (França, 1938-1997). Pintor, ilustrador, poeta, cançonetista, dramaturgo, encenador, cineasta e fotógrafo, artista impossível de catalogar, começou por destacar-se com os desenhos grotescos que publicou na revista satírica Hara-Kiri. Vencedor do Grand Prix de L’Humour Noir em 1961, bebeu dos surrealistas e respondeu-lhes com o movimento Pânico, que fundou com Fernando Arrabal e Alejandro Jodorowsky, entre outros. Em sua obra, Topor nos leva para um mundo do avesso, e a crueldade animalesca, o erotismo, a escatologia e a tétrica ironia das suas obras valeram-lhe o desprezo de críticos, vários projetos ruinosos e ameaças de morte quotidianas. Graças a uma sempre amável sugestão de João Antônio Buhrer, Rolando Topor agora está conosco como artista convidado desta edição da Agulha Revista de Cultura.
Agulha Revista de Cultura
Número 264 | março de 2026
Artista convidado: Rolando Topor (França, 1938-1997)
Editores:
Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com
Elys Regina Zils | elysre@gmail.com
ARC Edições © 2026
∞ contatos
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