A recorrência desse motivo possibilita
observar transformações na construção da subjetividade poética, sobretudo
quando se contrastam os poemas de autoria exclusiva da poeta com aqueles
elaborados a quatro mãos. Essa diferença revela mudanças no funcionamento do
espelho como dispositivo simbólico, imaginário e político, passíveis de exame à
luz das contribuições teóricas de Gaston Bachelard, Luce Irigaray, Julia
Kristeva e Hélène Cixous.
Na obra de Leila Ferraz, o espelho
constitui um dos núcleos simbólicos mais persistentes e complexos. Sua função
ultrapassa a tradição da autocontemplação e do reconhecimento identitário. O
espelho configura-se como superfície de crise, espaço de dissociação do eu e
instância de confronto entre corpo, linguagem e desejo. Produz estranhamento,
fragmentação e deslocamento, situando-se no centro de uma poética surrealista
atravessada por uma perspectiva feminista.
Nos poemas da década de 1970, o espelho
aparece associado diretamente à experiência do corpo feminino e à impossibilidade
de apropriação de si. No poema iniciado por “imagem imóvel”, o espelho surge
como superfície silenciosa e acusatória, diante da qual o sujeito experimenta a
falha do reconhecimento.
imagem imóvel
refletida em silêncio
me olha com um olhar de serpente
estendo a mão e não me toco
mas meu corpo sente
um frio de cores claras
no lugar das carnes quentes
meus olhos se enfrentam
dois a dois
e se perfuram em uma vastidão de verdes
e eu me atiro nesse lago imenso
vou embaralhando-me na confusão de meus cabelos
soltando o corpo em uma profunda queda
partindo em mil pedaços
o meu próprio espelho
Essa passagem do reflexo imóvel ao
“lago imenso” marca uma transposição decisiva do regime visual para o regime
aquático. O espelho deixa de operar como instância de duplicação e passa a
funcionar como espaço de profundidade. Para Bachelard (1978), a água mobiliza
uma imaginação que tende à perda dos contornos e à instabilidade fecunda, pois
aceita múltiplas imagens sem se fixar em nenhuma delas. No poema, essa
instabilidade se traduz na fragmentação do corpo e do eu, descrita como queda e
estilhaçamento.
A imagem final, em que o sujeito se
parte em “mil pedaços” juntamente com “o meu próprio espelho”, pode ser
compreendida como consequência direta dessa imersão. A água, enquanto matéria
transitiva, dissolve formas rígidas e impede a fixação narcísica da identidade.
O espelho aquático não devolve uma imagem íntegra, mas produz uma multiplicação
instável de reflexos, coerente com a lógica surrealista do poema.
Essa dinâmica ganha densidade quando
articulada à experiência histórica do corpo feminino. O verso “estendo a mão e
não me toco” condensa a impossibilidade de posse de si, marcada por uma cisão
entre gesto e resultado. O espelho, nesse sentido, encarna a violência
simbólica que impede o corpo feminino de coincidir consigo mesmo. A queda no
lago interrompe o regime disciplinador do olhar e inaugura um espaço de
desorganização produtiva da subjetividade.
Essa leitura dialoga diretamente com a
crítica de Luce Irigaray ao espelho enquanto tecnologia simbólica do pensamento
ocidental. Em Speculum de l’autre femme (1985),
Irigaray demonstra como o feminino foi historicamente constituído como
superfície refletora do masculino, privado de um regime próprio de
representação. Nos poemas de Leila Ferraz, o espelho encarna essa assimetria,
produzindo um corpo separado de si, atravessado por discursos que impedem o
toque e o reconhecimento.
Ao mesmo tempo, Irigaray (1985) propõe
a possibilidade de um espelhamento entre mulheres, no qual a subjetividade
feminina se constrói não como reflexo do outro, mas como relação múltipla. O
estilhaçamento do espelho em Leila Ferraz pode ser lido como condição para essa
abertura, na medida em que recusa a imagem única e normativa.
Essa fratura também pode ser pensada à
luz da noção de sujeito em processo formulada por Julia Kristeva (1984). Para a
autora, o sujeito constitui-se em um movimento contínuo entre o simbólico e o
semiótico, entre a linguagem estruturada e a pulsão corporal. No poema, o
espelho assinala o ponto de ruptura do simbólico, permitindo a irrupção do
corpo em uma escrita atravessada por sensações, cores e afetos. A fragmentação
do eu passa, assim, a inscrever uma subjetividade em trânsito, marcada pela
instabilidade e pela transformação contínua.
INSÓLITA
SOLIDÃO
Um espelho intrigante que tudo reflete,
que avança sobre o futuro como um baralho vaticinador.
Cada carta deitada é marcada a fogo em meu corpo.
Aparentemente tão claro. Quase transparente.
Ergo a minha taça solitária na vastidão desta noite.
Traçando um risco de nanquim no meu horizonte.
Enlaço meu vulto com a ponta da unha.
Reconhecendo as dores das minhas limitações.
Eu me dissipo de olhos abertos no poder da minha cegueira
e assim me vejo latejando a própria vida.
Já em “Pavor noturno”, publicado no
capítulo “A língua imantada do amor” com poemas mais recentes, o espelho aparece de forma
indireta, associado à sombra e ao aprendizado das feições. Ao se definir como
“a sombra no espelho do aprendizado”, o sujeito desloca o espelho da essência
para o processo. O reflexo não revela uma identidade, mas registra marcas,
deformações e atravessamentos, configurando um saber adquirido pela experiência
e não pela identificação.
Em “As luvas da raposa”, outro poema
mais recente, o espelho surge em diálogo com o mito de Narciso e com a busca do
andrógino primordial. A afirmação “Quanta verdade revela um espelho” desloca a
tradição narcísica ao sugerir que a verdade não reside na confirmação da
imagem, mas na exposição de sua instabilidade. O espelho revela a
multiplicidade do desejo e a fluidez da identidade, abrindo espaço para a
metamorfose e a recusa de pertencimentos fixos.
Em “Cartas marítimas de um sonho”, o
encontro “face a face” com o espelho ocorre em meio a uma poética da errância e
da fragmentação: “Face a face eu me encontro em meu espelho. / Cruzo o voo
migratório para além do horizonte que tu levantas”. O espelho surge como mais
um enigma em um universo em que identidade e linguagem permanecem instáveis.
Essa mudança pode ser compreendida a
partir da condição da escrita compartilhada, que introduz uma alteridade
concreta no processo criativo. O espelho passa a figurar a relação entre
sujeitos, afastando-se da unilateralidade do olhar. A identidade se constrói
como interface, e não mais como ferida.
Ao longo da obra de Leila Ferraz, o
espelho não confirma o eu. Ele expõe fissuras, desmonta imagens estabilizadas e
instaura um regime de instabilidade produtiva. Nos poemas de autoria exclusiva,
o espelho é experiência corporal de crise e enfrentamento histórico. Nos poemas
em coautoria, ele se desloca para uma função reflexiva e relacional. Essa
passagem não elimina a tensão inicial, mas a reinscreve na linguagem.
Assim, o espelho em Leila Ferraz
revela-se como espaço de luta simbólica. Ver-se no espelho implica entrar em
crise, perder a forma e, justamente por isso, abrir outras possibilidades de
existência e de escrita.
REFERÊNCIAS
BACHELARD,
Gaston. A
poética do devaneio.
Tradução de Antonio de Pádua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 1988.
FERRAZ, Leila. Leila
Ferraz. O dia dos cinco orgasmos. Indaial:
MamaQuilla, 2024.
IRIGARAY, Luce. Speculum
de l’autre femme. Nova york : Cornell University Press, 1985.
KRISTEVA, Julia. Revolution
in poetic language. New York:
Columbia University Press, 1984.
ELYS REGINA ZILS (Brasil, 1986). Poeta, artista visual, tradutora. Doutoranda e Mestre em Estudos da Tradução pela PGET/Universidade Federal de Santa Catarina. Possui graduação em Letras-Língua Espanhola e Literaturas e Letras-Português também pela Universidade Federal de Santa Catarina/Florianópolis, Brasil. Se dedica à Literatura Latinoamericana, pesquisando principalmente Vanguardas Literárias e Artísticas com ênfase em Literatura Surrealista Latinoamericana. Editora da Agulha Revista de Cultura (a partir de 2023), revista criada por Floriano Martins. Tem sido responsável, parcialmente, pela curadoria e tradução de poetas hispano-americanos para o Atlas Lírico da América Hispânica, da revista Acrobata. A Sol Negro Edições, casa de livros artesanais, publicou Os elementos terrestres, de Eunice Odio, e Druida, de Marosa di Giorgio, ambas edições bilíngues organizadas e traduzidas por ela. Atualmente tem em preparação a tradução de livro de Olga Orozco, para a mesma Sol Negro Edições. Recentemente criou a Editora Mamma Quilla, cujo catálogo estreia com O dia dos cinco orgasmos (Leila Ferraz), Susana Wald – Visões vertiginosas da criação (ensaio e entrevista, ERZ) e Fragmentos de silêncio (poesia e colagem, ERZ), todos em 2024. Acaba de publicar A língua aprende a morder (poesia, 2026).
JAN ŠVANKMAJER (República Tcheca, 1934). Artista surrealista, marionetista, animador e cineasta, é conhecido por suas releituras sombrias de contos de fadas famosos e pelo uso vanguardista da animação stop-motion tridimensional combinada com filmagens em live-action. Alguns críticos o elogiaram por privilegiar os elementos visuais em detrimento do enredo e da narrativa, outros por seu uso de fantasia sombria. Adaptou obras literárias como Alice e Fausto. Sua obra Šílení (2005, Loucura) foi descrita como uma história de terror cômica que demonstra a influência do escritor americano Edgar Allan Poe e do nobre francês Marquês de Sade. Hmyz (2018, Inseto) é baseado na peça Ze ivota hmyzu (1921, A Peça dos Insetos) de Karel e Josef Čapek. A obra plástica de Jan Švankmajer nos acompanha nesta edição de Agulha Revista de Cultura em que é nosso artista convidado. Também podemos encontrar uma reveladora entrevista que lhe fez Floriano Martins, publicada em três idiomas.
Agulha Revista de Cultura
Número 265 | junho de 2026
Artista convidado: Jan Švankmajer (República Tcheca, 1934)
Editores:
Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com
Elys Regina Zils | elysre@gmail.com
ARC Edições © 2026
∞ contatos
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FLORIANO MARTINS | floriano.agulha@gmail.com
ELYS REGINA ZILS | elysre@gmail.com










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