terça-feira, 9 de junho de 2026

ELYS REGINA ZILS | Espelhos instáveis na poesia de Leila Ferraz

 


Este ensaio analisa a recorrência do espelho na poesia de Leila Ferraz, artista surrealista brasileira, desde os poemas de seu primeiro livro, Cometas (1977), até os textos escritos em coautoria com Floriano Martins em A mobília violenta do ar (2020). Ambos os conjuntos foram posteriormente reunidos em O dia dos cinco orgasmos (2024), o que permite uma leitura transversal da obra e evidencia deslocamentos significativos no estatuto simbólico do espelho ao longo do tempo e em diferentes condições de autoria.

A recorrência desse motivo possibilita observar transformações na construção da subjetividade poética, sobretudo quando se contrastam os poemas de autoria exclusiva da poeta com aqueles elaborados a quatro mãos. Essa diferença revela mudanças no funcionamento do espelho como dispositivo simbólico, imaginário e político, passíveis de exame à luz das contribuições teóricas de Gaston Bachelard, Luce Irigaray, Julia Kristeva e Hélène Cixous.

Na obra de Leila Ferraz, o espelho constitui um dos núcleos simbólicos mais persistentes e complexos. Sua função ultrapassa a tradição da autocontemplação e do reconhecimento identitário. O espelho configura-se como superfície de crise, espaço de dissociação do eu e instância de confronto entre corpo, linguagem e desejo. Produz estranhamento, fragmentação e deslocamento, situando-se no centro de uma poética surrealista atravessada por uma perspectiva feminista.

Nos poemas da década de 1970, o espelho aparece associado diretamente à experiência do corpo feminino e à impossibilidade de apropriação de si. No poema iniciado por “imagem imóvel”, o espelho surge como superfície silenciosa e acusatória, diante da qual o sujeito experimenta a falha do reconhecimento.

 

imagem imóvel

refletida em silêncio

me olha com um olhar de serpente

estendo a mão e não me toco

mas meu corpo sente

um frio de cores claras

no lugar das carnes quentes

meus olhos se enfrentam

dois a dois

e se perfuram em uma vastidão de verdes

e eu me atiro nesse lago imenso

vou embaralhando-me na confusão de meus cabelos

soltando o corpo em uma profunda queda

partindo em mil pedaços

o meu próprio espelho

 


A leitura desse poema pode ser aprofundada a partir da imaginação material da água, tal como formulada por Gaston Bachelard em El agua y los sueños: ensayo sobre la imaginación de la materia (1978). Na introdução da obra, Bachelard distingue as imagens produzidas pela imaginação formal daquelas que emergem daquilo que denomina “imaginação íntima” da matéria, ressaltando que a meditação sobre a matéria conduz a imagens dotadas de densidade afetiva, que se afastam da fixidez das formas. A água, nesse contexto, configura-se como elemento privilegiado de dissolução e metamorfose. No poema de Leila Ferraz, o espelho abandona progressivamente sua condição de superfície sólida e se converte em lago, culminando no gesto de imersão do sujeito lírico.

Essa passagem do reflexo imóvel ao “lago imenso” marca uma transposição decisiva do regime visual para o regime aquático. O espelho deixa de operar como instância de duplicação e passa a funcionar como espaço de profundidade. Para Bachelard (1978), a água mobiliza uma imaginação que tende à perda dos contornos e à instabilidade fecunda, pois aceita múltiplas imagens sem se fixar em nenhuma delas. No poema, essa instabilidade se traduz na fragmentação do corpo e do eu, descrita como queda e estilhaçamento.

A imagem final, em que o sujeito se parte em “mil pedaços” juntamente com “o meu próprio espelho”, pode ser compreendida como consequência direta dessa imersão. A água, enquanto matéria transitiva, dissolve formas rígidas e impede a fixação narcísica da identidade. O espelho aquático não devolve uma imagem íntegra, mas produz uma multiplicação instável de reflexos, coerente com a lógica surrealista do poema.

Essa dinâmica ganha densidade quando articulada à experiência histórica do corpo feminino. O verso “estendo a mão e não me toco” condensa a impossibilidade de posse de si, marcada por uma cisão entre gesto e resultado. O espelho, nesse sentido, encarna a violência simbólica que impede o corpo feminino de coincidir consigo mesmo. A queda no lago interrompe o regime disciplinador do olhar e inaugura um espaço de desorganização produtiva da subjetividade.

Essa leitura dialoga diretamente com a crítica de Luce Irigaray ao espelho enquanto tecnologia simbólica do pensamento ocidental. Em Speculum de l’autre femme (1985), Irigaray demonstra como o feminino foi historicamente constituído como superfície refletora do masculino, privado de um regime próprio de representação. Nos poemas de Leila Ferraz, o espelho encarna essa assimetria, produzindo um corpo separado de si, atravessado por discursos que impedem o toque e o reconhecimento.

Ao mesmo tempo, Irigaray (1985) propõe a possibilidade de um espelhamento entre mulheres, no qual a subjetividade feminina se constrói não como reflexo do outro, mas como relação múltipla. O estilhaçamento do espelho em Leila Ferraz pode ser lido como condição para essa abertura, na medida em que recusa a imagem única e normativa.

Essa fratura também pode ser pensada à luz da noção de sujeito em processo formulada por Julia Kristeva (1984). Para a autora, o sujeito constitui-se em um movimento contínuo entre o simbólico e o semiótico, entre a linguagem estruturada e a pulsão corporal. No poema, o espelho assinala o ponto de ruptura do simbólico, permitindo a irrupção do corpo em uma escrita atravessada por sensações, cores e afetos. A fragmentação do eu passa, assim, a inscrever uma subjetividade em trânsito, marcada pela instabilidade e pela transformação contínua.


Em “Insólita solidão”, o espelho assume caráter oracular. Ele “avança sobre o futuro como um baralho”, inscrevendo marcas no corpo do sujeito. A aparente transparência do espelho contrasta com sua função vaticinadora e violenta, que grava limites e dores. Dissipar-se “de olhos abertos no poder da própria cegueira” indica uma lucidez que coincide com a perda, instaurando um regime paradoxal de visão e cegueira.

 

INSÓLITA SOLIDÃO


Um espelho intrigante que tudo reflete,

que avança sobre o futuro como um baralho vaticinador.

Cada carta deitada é marcada a fogo em meu corpo.

Aparentemente tão claro. Quase transparente.

Ergo a minha taça solitária na vastidão desta noite.

Traçando um risco de nanquim no meu horizonte.

Enlaço meu vulto com a ponta da unha.

Reconhecendo as dores das minhas limitações.

Eu me dissipo de olhos abertos no poder da minha cegueira

e assim me vejo latejando a própria vida.

 

Já em “Pavor noturno”, publicado no capítulo “A língua imantada do amor” com poemas mais recentes, o espelho aparece de forma indireta, associado à sombra e ao aprendizado das feições. Ao se definir como “a sombra no espelho do aprendizado”, o sujeito desloca o espelho da essência para o processo. O reflexo não revela uma identidade, mas registra marcas, deformações e atravessamentos, configurando um saber adquirido pela experiência e não pela identificação.

Em “As luvas da raposa”, outro poema mais recente, o espelho surge em diálogo com o mito de Narciso e com a busca do andrógino primordial. A afirmação “Quanta verdade revela um espelho” desloca a tradição narcísica ao sugerir que a verdade não reside na confirmação da imagem, mas na exposição de sua instabilidade. O espelho revela a multiplicidade do desejo e a fluidez da identidade, abrindo espaço para a metamorfose e a recusa de pertencimentos fixos.


Nos poemas escritos em parceria com Floriano Martins, o estatuto do espelho se transforma de modo significativo. Ele deixa de ser vivido como trauma corporal imediato e passa a operar como instância reflexiva, relacional e metapoética. Em “Prateleiras da insônia”, os espelhos observam, ironizam e invertem razão e emoção. Eles desdobram o pensamento, instaurando um campo de reflexão sobre identidade e linguagem.

Em “Cartas marítimas de um sonho”, o encontro “face a face” com o espelho ocorre em meio a uma poética da errância e da fragmentação: “Face a face eu me encontro em meu espelho. / Cruzo o voo migratório para além do horizonte que tu levantas”. O espelho surge como mais um enigma em um universo em que identidade e linguagem permanecem instáveis.

Essa mudança pode ser compreendida a partir da condição da escrita compartilhada, que introduz uma alteridade concreta no processo criativo. O espelho passa a figurar a relação entre sujeitos, afastando-se da unilateralidade do olhar. A identidade se constrói como interface, e não mais como ferida.

Ao longo da obra de Leila Ferraz, o espelho não confirma o eu. Ele expõe fissuras, desmonta imagens estabilizadas e instaura um regime de instabilidade produtiva. Nos poemas de autoria exclusiva, o espelho é experiência corporal de crise e enfrentamento histórico. Nos poemas em coautoria, ele se desloca para uma função reflexiva e relacional. Essa passagem não elimina a tensão inicial, mas a reinscreve na linguagem.

Assim, o espelho em Leila Ferraz revela-se como espaço de luta simbólica. Ver-se no espelho implica entrar em crise, perder a forma e, justamente por isso, abrir outras possibilidades de existência e de escrita.

 

REFERÊNCIAS

BACHELARD, Gaston. A poética do devaneio. Tradução de Antonio de Pádua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 1988.

FERRAZ, Leila. Leila Ferraz. O dia dos cinco orgasmos. Indaial: MamaQuilla, 2024.

IRIGARAY, Luce. Speculum de l’autre femme. Nova york : Cornell University Press, 1985.

KRISTEVA, Julia. Revolution in poetic language. New York: Columbia University Press, 1984.

 


ELYS REGINA ZILS (Brasil, 1986). Poeta, artista visual, tradutora. Doutoranda e Mestre em Estudos da Tradução pela PGET/Universidade Federal de Santa Catarina. Possui graduação em Letras-Língua Espanhola e Literaturas e Letras-Português também pela Universidade Federal de Santa Catarina/Florianópolis, Brasil. Se dedica à Literatura Latinoamericana, pesquisando principalmente Vanguardas Literárias e Artísticas com ênfase em Literatura Surrealista Latinoamericana. Editora da Agulha Revista de Cultura (a partir de 2023), revista criada por Floriano Martins. Tem sido responsável, parcialmente, pela curadoria e tradução de poetas hispano-americanos para o Atlas Lírico da América Hispânica, da revista Acrobata. A Sol Negro Edições, casa de livros artesanais, publicou Os elementos terrestres, de Eunice Odio, e Druida, de Marosa di Giorgio, ambas edições bilíngues organizadas e traduzidas por ela. Atualmente tem em preparação a tradução de livro de Olga Orozco, para a mesma Sol Negro Edições. Recentemente criou a Editora Mamma Quilla, cujo catálogo estreia com O dia dos cinco orgasmos (Leila Ferraz), Susana Wald – Visões vertiginosas da criação (ensaio e entrevista, ERZ) e Fragmentos de silêncio (poesia e colagem, ERZ), todos em 2024. Acaba de publicar A língua aprende a morder (poesia, 2026).



JAN ŠVANKMAJER (República Tcheca, 1934). Artista surrealista, marionetista, animador e cineasta, é conhecido por suas releituras sombrias de contos de fadas famosos e pelo uso vanguardista da animação stop-motion tridimensional combinada com filmagens em live-action. Alguns críticos o elogiaram por privilegiar os elementos visuais em detrimento do enredo e da narrativa, outros por seu uso de fantasia sombria. Adaptou obras literárias como Alice e Fausto. Sua obra Šílení (2005, Loucura) foi descrita como uma história de terror cômica que demonstra a influência do escritor americano Edgar Allan Poe e do nobre francês Marquês de Sade. Hmyz (2018, Inseto) é baseado na peça Ze ivota hmyzu (1921, A Peça dos Insetos) de Karel e Josef Čapek. A obra plástica de Jan Švankmajer nos acompanha nesta edição de Agulha Revista de Cultura em que é nosso artista convidado. Também podemos encontrar uma reveladora entrevista que lhe fez Floriano Martins, publicada em três idiomas.

  



Agulha Revista de Cultura

Número 265 | junho de 2026

Artista convidado: Jan Švankmajer (República Tcheca, 1934)

Editores:

Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com

Elys Regina Zils | elysre@gmail.com

ARC Edições © 2026


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