quarta-feira, 10 de junho de 2026

FLORIANO MARTINS | A selva nos seus olhos, de Luís Perdiz

 


A selva nos seus olhos é o novo livro de poemas do escritor, editor e compositor paulista Luís Perdiz, lançado pela Editora Primata (2026). A obra foi contemplada pelo Programa de Ação Cultural (ProAC/PNAB) do Estado de São Paulo e marca a primeira publicação de poemas inéditos do autor desde Desejo de terra (2019). O livro propõe uma imersão no que o autor chama de tempo da floresta, afastando-se do ritmo acelerado do mundo tecnológico. Abrange assim, temas como erotismo, natureza, transfiguração sensorial, mantendo uma acentuada musicalidade. A poesia investiga a conexão profunda entre o corpo humano, o desejo e a terra, misturando suores, peles, seivas e elementos naturais. Os poemas evocam imagens sinestésicas fortes, transitando entre seres visíveis da fauna brasileira e o misticismo indígena. O texto destaca-se pela sofisticada elaboração de imagens e ritmo sonoro marcante.

O projeto literário expandiu-se para além do papel e ganhou vida em múltiplos formatos: um álbum musical, que traz leituras dos poemas por Luís Perdiz com arranjos instrumentais do músico Bruno Gazoni; uma versão em áudio completa para aproximar o público da oralidade dos versos, e leituras públicas e pockets shows que fundem literatura e música, com passagens por espaços culturais variados em São Paulo. Luís Perdiz é um escritor, editor e compositor nascido em Campinas (SP), fortemente influenciado pelo modernismo brasileiro, tropicália, surrealismo e a geração beat. Suas obras são marcadas por uma linguagem sinestésica que une o erotismo e as paisagens naturais brasileiras.

Suas obras já receberam prefácios e elogios de grandes nomes da cultura nacional, como Jorge Mautner e Claudio Willer. O poeta estreou com Saudade Mestiça (2016). Depois, lançou Visão Incurável (2018), a antologia Você me enche de areia (2023) e Desejo de terra (2019).


A versão musical do livro não funciona apenas como uma leitura de fundo, mas como uma extensão sensorial projetada para fazer com que os poemas atuem como um poema-canto contínuo. Toda a atmosfera sonora do disco foi construída pelo músico Bruno Gazoni, que desenvolveu arranjos instrumentais específicos para casar com o ritmo da fala do poeta. O álbum traz o próprio Luís Perdiz recitando os versos. O objetivo é resgatar a tradição da poesia falada, criando uma experiência imersiva no que o autor chama de tempo da floresta. O projeto conta com colaborações de vozes da cena contemporânea paulistana, como a cantora e compositora Malu Maria, que participa em uma das faixas do audiolivro.

Este livro possui uma forte condicionante, o tema da natureza, o que situa seu autor como pertencente a uma linhagem dos poetas da natureza. O poeta possui um olhar selvagem, com uma virtude visionária que lhe permite identificar as forças interiores da paisagem. Pode-se dizer que ele não apenas contempla a natureza, mas a incorpora de forma visceral e mística. Estes aspectos aproximam sua obra do xamanismo literário e do surrealismo, onde o poeta atua como um decodificador das energias ocultas da terra. Ao ler A selva nos seus olhos, é possível perceber o diálogo do autor com grandes nomes dessa tradição, destacando sinais de identificação em truques de linguagem que abordam o olhar atento ao insignificante e a comunhão integral com a terra e os animais, ao mesmo tempo em que é possível detectar a presença da poesia como uma forma de gnose, transe e expansão da consciência através do contato com o sagrado e o selvagem. Há também ali uma fusão mística com divindades como Jaci e o transe cósmico, acentuando ainda a concepção da paisagem em um ambiente antropomórfico, onde ela ganha carne, suor e desejo e os corpos dos amantes se transformam em rios, folhagens e terra úmida. Graças a esse olhar visionário do autor é que se rejeita o tempo mecânico das metrópoles, convidando o leitor a desacelerar e sintonizar com o ritmo biológico e ancestral das marés e do crescimento das plantas.

 


As nuvens noturnas

são pedaços da eternidade.

Lar dos espíritos

e dos sonhos xamânicos

que atravessam os milênios

e cintilam em nós

à beira da praia

neste outro infinito

onde a espuma do copo

se mistura com a do mar.

 

Podemos considerar aspectos transcendentes, como o olhar que enxerga divindades, deuses e forças místicas na paisagem, o sexo e o erotismo vistos como rituais de conexão com o cosmos e com a própria terra, o entendimento da natureza sem o filtro do pensamento ocidental, a percepção da floresta com seus sentidos puros, antes das palavras e das definições científicas, a transfiguração constante dos elementos da natureza, tudo isto desembocando em uma plasticidade mágica que contempla a facilidade com que um rio vira veia e uma árvore vira um braço na construção das imagens poéticas deste jovem poeta que, embora a crítica o aproxime de autores como Roberto Piva, Herberto Helder, Michael McClure, dentre outros, não posso deixar de perceber uma íntima afinidade – diálogo ulterior repleto de revelações – com Raul Bopp. Assim como o autor de Cobra Norato, Luís Perdiz sabe como evocar em tua criação o tempo da floresta, sabe que os olhos ardem para atingir a beleza, e que, ao final de cada viagem, todos somos engolidos pela vida.




FLORIANO MARTINS (Brasil, 1957). Poeta, editor, dramaturgo, ensaísta, artista plástico e tradutor. Criou em 1999 a Agulha Revista de Cultura. Coordenou (2005-2010) a coleção “Ponte Velha” de autores portugueses da Escrituras Editora (São Paulo). Curador do projeto “Atlas Lírico da América Hispânica”, da revista Acrobata. Esteve presente em festivais de poesia realizados em países como Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, El Salvador, Equador, Espanha, México, Nicarágua, Panamá, Portugal e Venezuela. Curador da Bienal Internacional do Livro do Ceará (Brasil, 2008), e membro do júri do Prêmio Casa das Américas (Cuba, 2009), foi professor convidado da Universidade de Cincinnati (Ohio, Estados Unidos, 2010). Tradutor de livros de César Moro, Federico García Lorca, Guillermo Cabrera Infante, Vicente Huidobro, Hans Arp, Juan Calzadilla, Enrique Molina, Jorge Luis Borges, Aldo Pellegrini e Pablo Antonio Cuadra. Entre seus livros mais recentes se destacam Un poco más de surrealismo no hará ningún daño a la realidad (ensaio, México, 2015), O iluminismo é uma baleia (teatro, Brasil, em parceria com Zuca Sardan, 2016), Antes que a árvore se feche (poesia completa, Brasil, 2020), Naufrágios do tempo (novela, com Berta Lucía Estrada, 2020), Las mujeres desaparecidas (poesia, Chile, 2022), Sombras no jardim (prosa poética, Brasil, 2023), e Obra-prima da confusão entre dois mundos (poesia, Brasil, 2026). 



JAN ŠVANKMAJER (República Tcheca, 1934). Artista surrealista, marionetista, animador e cineasta, é conhecido por suas releituras sombrias de contos de fadas famosos e pelo uso vanguardista da animação stop-motion tridimensional combinada com filmagens em live-action. Alguns críticos o elogiaram por privilegiar os elementos visuais em detrimento do enredo e da narrativa, outros por seu uso de fantasia sombria. Adaptou obras literárias como Alice e Fausto. Sua obra Šílení (2005, Loucura) foi descrita como uma história de terror cômica que demonstra a influência do escritor americano Edgar Allan Poe e do nobre francês Marquês de Sade. Hmyz (2018, Inseto) é baseado na peça Ze ivota hmyzu (1921, A Peça dos Insetos) de Karel e Josef Čapek. A obra plástica de Jan Švankmajer nos acompanha nesta edição de Agulha Revista de Cultura em que é nosso artista convidado. Também podemos encontrar uma reveladora entrevista que lhe fez Floriano Martins, publicada em três idiomas.

  



Agulha Revista de Cultura

Número 265 | junho de 2026

Artista convidado: Jan Švankmajer (República Tcheca, 1934)

Editores:

Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com

Elys Regina Zils | elysre@gmail.com

ARC Edições © 2026


∞ contatos

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FLORIANO MARTINS | floriano.agulha@gmail.com

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