O projeto literário expandiu-se para além do
papel e ganhou vida em múltiplos formatos: um álbum musical, que traz leituras
dos poemas por Luís Perdiz com arranjos instrumentais do músico Bruno Gazoni; uma
versão em áudio completa para aproximar o público da oralidade dos versos, e leituras
públicas e pockets shows que fundem literatura e música, com passagens por
espaços culturais variados em São Paulo. Luís Perdiz é um escritor, editor e
compositor nascido em Campinas (SP), fortemente influenciado pelo modernismo
brasileiro, tropicália, surrealismo e a geração beat. Suas obras são marcadas
por uma linguagem sinestésica que une o erotismo e as paisagens naturais brasileiras.
Suas obras já receberam prefácios e elogios
de grandes nomes da cultura nacional, como Jorge Mautner e Claudio Willer. O
poeta estreou com Saudade Mestiça (2016). Depois, lançou Visão
Incurável (2018), a antologia Você me enche de areia (2023) e Desejo
de terra (2019).
Este livro
possui uma forte condicionante, o tema da natureza, o que situa seu autor como
pertencente a uma linhagem dos poetas da natureza. O poeta possui um olhar
selvagem, com uma virtude visionária que lhe permite identificar as forças
interiores da paisagem. Pode-se dizer que ele não apenas contempla a natureza, mas a incorpora de forma visceral e
mística. Estes aspectos aproximam sua obra do xamanismo literário e do
surrealismo, onde o poeta atua como um decodificador das energias ocultas da
terra. Ao ler A selva nos seus olhos, é possível perceber o diálogo do
autor com grandes nomes dessa tradição, destacando sinais de identificação em
truques de linguagem que abordam o olhar atento ao insignificante e a
comunhão integral com a terra e os animais, ao mesmo tempo em que é possível
detectar a presença da poesia como uma forma de gnose, transe e expansão da
consciência através do contato com o sagrado e o selvagem. Há também ali uma
fusão mística com divindades como Jaci e o transe cósmico, acentuando ainda a
concepção da paisagem em um ambiente antropomórfico, onde ela ganha carne, suor
e desejo e os corpos dos amantes se transformam em rios, folhagens e terra
úmida. Graças a esse olhar visionário do autor é que se rejeita o tempo
mecânico das metrópoles, convidando o leitor a desacelerar e sintonizar com o
ritmo biológico e ancestral das marés e do crescimento das plantas.
As nuvens noturnas
são pedaços da eternidade.
Lar dos espíritos
e dos sonhos xamânicos
que atravessam os milênios
e cintilam em nós
à beira da praia
neste outro infinito
onde a espuma do copo
se mistura com a do mar.
Podemos considerar aspectos transcendentes,
como o olhar que enxerga divindades, deuses e forças místicas na paisagem, o
sexo e o erotismo vistos como rituais de conexão com o cosmos e com a própria
terra, o entendimento da natureza sem o filtro do pensamento ocidental, a
percepção da floresta com seus sentidos puros, antes das palavras e das
definições científicas, a transfiguração constante dos elementos da natureza,
tudo isto desembocando em uma plasticidade mágica que contempla a facilidade
com que um rio vira veia e uma árvore vira um braço na construção das imagens
poéticas deste jovem poeta que, embora a crítica o aproxime de autores como
Roberto Piva, Herberto Helder, Michael McClure, dentre outros, não posso deixar
de perceber uma íntima afinidade – diálogo ulterior repleto de revelações – com
Raul Bopp. Assim como o autor de Cobra Norato, Luís Perdiz sabe como
evocar em tua criação o tempo da floresta, sabe que os olhos ardem para
atingir a beleza, e que, ao final de cada viagem, todos somos engolidos
pela vida.
FLORIANO MARTINS (Brasil, 1957). Poeta, editor, dramaturgo, ensaísta, artista plástico e tradutor. Criou em 1999 a Agulha Revista de Cultura. Coordenou (2005-2010) a coleção “Ponte Velha” de autores portugueses da Escrituras Editora (São Paulo). Curador do projeto “Atlas Lírico da América Hispânica”, da revista Acrobata. Esteve presente em festivais de poesia realizados em países como Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, El Salvador, Equador, Espanha, México, Nicarágua, Panamá, Portugal e Venezuela. Curador da Bienal Internacional do Livro do Ceará (Brasil, 2008), e membro do júri do Prêmio Casa das Américas (Cuba, 2009), foi professor convidado da Universidade de Cincinnati (Ohio, Estados Unidos, 2010). Tradutor de livros de César Moro, Federico García Lorca, Guillermo Cabrera Infante, Vicente Huidobro, Hans Arp, Juan Calzadilla, Enrique Molina, Jorge Luis Borges, Aldo Pellegrini e Pablo Antonio Cuadra. Entre seus livros mais recentes se destacam Un poco más de surrealismo no hará ningún daño a la realidad (ensaio, México, 2015), O iluminismo é uma baleia (teatro, Brasil, em parceria com Zuca Sardan, 2016), Antes que a árvore se feche (poesia completa, Brasil, 2020), Naufrágios do tempo (novela, com Berta Lucía Estrada, 2020), Las mujeres desaparecidas (poesia, Chile, 2022), Sombras no jardim (prosa poética, Brasil, 2023), e Obra-prima da confusão entre dois mundos (poesia, Brasil, 2026).
JAN ŠVANKMAJER (República Tcheca, 1934). Artista surrealista, marionetista, animador e cineasta, é conhecido por suas releituras sombrias de contos de fadas famosos e pelo uso vanguardista da animação stop-motion tridimensional combinada com filmagens em live-action. Alguns críticos o elogiaram por privilegiar os elementos visuais em detrimento do enredo e da narrativa, outros por seu uso de fantasia sombria. Adaptou obras literárias como Alice e Fausto. Sua obra Šílení (2005, Loucura) foi descrita como uma história de terror cômica que demonstra a influência do escritor americano Edgar Allan Poe e do nobre francês Marquês de Sade. Hmyz (2018, Inseto) é baseado na peça Ze ivota hmyzu (1921, A Peça dos Insetos) de Karel e Josef Čapek. A obra plástica de Jan Švankmajer nos acompanha nesta edição de Agulha Revista de Cultura em que é nosso artista convidado. Também podemos encontrar uma reveladora entrevista que lhe fez Floriano Martins, publicada em três idiomas.
Agulha Revista de Cultura
Número 265 | junho de 2026
Artista convidado: Jan Švankmajer (República Tcheca, 1934)
Editores:
Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com
Elys Regina Zils | elysre@gmail.com
ARC Edições © 2026
∞ contatos
https://www.instagram.com/agulharevistadecultura/
http://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/
FLORIANO MARTINS | floriano.agulha@gmail.com
ELYS REGINA ZILS | elysre@gmail.com









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