quinta-feira, 3 de maio de 2018

DEZ POEMAS DE BETTY VIDIGAL



BLUSA

 Eu não sabia se abria mais a blusa
 ou se fechava até o último botão.
 Estava meio confusa;
 eu só queria a sua aprovação.

 Eu não sabia se me sentava comportadamente,
 joelhos bem juntinhos,
 mãos cruzadas no colo,
 como ensinavam as freiras no colégio,
 e aceitava uma xícara de chá,
 ou se cometia o sacrilégio
 de arriscar um vôo solo:
 me atirava, felina, no sofá,
 pés descalços sobre o braço do estofado
 e olhava para o lado,
 para o bar,
 com um olhar cheio de interrogações irônicas.

 Eu não sabia se encarnava a personagem
 das HQ que você tem na estante,
 a heroína urbana nervosa e agitada
 que está sempre a mil por hora e não tem tempo para nada
 ou se vestia uma imagem
 de mulher rasa, chã,
 perfeitamente plana,
 que se deita às dez da noite,
 levanta às seis da manhã
 e sai de casa sem nem ler o jornal
 porque afinal

 é tudo sempre igual,
 como nas tiras cômicas.

 Eu estava mesmo bem desnorteada,
 nem um pouco preocupada em ser autêntica.
 Queria tudo e não queria nada.
 Queria ser a sua musa excêntrica,
 a moça do calendário
 e a faxineira invisível
 que procura uma vassoura no armário
 debaixo da escada
 para deixar a sua casa um brinco.

 Eu queria ser uma única mulher,
 una, indivisível, coerente
 – e também ser cinco
 ou talvez dez,
 encenar todos os papéis,
 ser a sua irmãzinha confidente,
 a mãe doce, carinhosa e necessária,
 a professora loura do primário,
 a amante que conhece você profundamente
 e você leva ao delírio quando quer,
 a esposa submissa
 e também a vizinha assexuada
 que te diz para ir à Missa.

 E enquanto estava ali, parada
 no hall de entrada,
 olhando a sua sala iluminada
 como quem do limbo observa o paraíso,
 achei que era melhor criar juízo
 e nem entrar.

 Eu só queria a sua aprovação;
 te impressionar.


SEDUÇÃO

Você me pega de frente,
me convence, me alicia,
me finge que é transparente,
claro como um meio dia;
conta uma estória bonita
com um final que arrepia,
me pisca o olho de longe
– e quem te resistiria?

Você brinca com meus dedos,
me duela e desafia,
diz que vai se apaixonar,
diz que é pura fantasia,
me encanta com a sua voz,
me dá um show de energia;

você, que sempre ri tanto,
e até do que não devia,
resolve falar a sério
justo quando eu não queria.

Mas aí eu me interesso:
– que é que você dizia?


SUMIÇO

Vou desaparecer da tua vida,
e ela vai ficar tão aborrecida!

Vou deixar a tua vida lisa e plana,
sem graça como um início de semana,
uma semana dessas bem compridas,
sem expectativa de alegrias.

Uma sucessão de dias desbotados,
tardes frias,
noites descoloridas, madrugadas
pálidas e mal dormidas.

Vou sumir até mesmo dos teus sonhos,
não vou aparecer nem em delírios;
tenho planos detalhados e perfeitos
e quando os descobrires
será tarde demais,
não vai ter jeito:

tudo parecerá tão desenxabido,
tão tristonho,
tão desprovido de finalidade...
E quando não houver mais nada que te agrade,
te interesse,
todos dirão que é depressão, estresse,
mas nós dois saberemos que é saudade.


VESTIDO

O que escondo no bolso do vestido
 não é para ser visto por qualquer
 um que ambicione compreender
 ou que às vezes cobice esta mulher.

 O que guardo no bolso do vestido
 e que escondo assim, ciumentamente,
 é como um terço de vidro
 de contas incandescentes
 que se toca com as pontas dos dedos
 nos momentos de perigo,
 para afastar o medo;

 é como um rosário antigo
 que o fiel fecha na palma da mão
 para fazer fugir a tentação
 quando um terremoto lhe ameaça a fé:

 Jesus, Maria, José!
 Que meu microvestido esvoaçante
 não vos ofenda em vão os olhos castos;
 que minhas sandálias de prata
 não me falhem nos instantes de cansaço;
 que a tiara de princesa que não uso
 não se perca entre os dedos dos incautos,
 os sonhos dos reclusos.

 Que eu nunca quebre um salto!
 Que não me falta jamais um parafuso
 (não que se note);
 que com sorte, cautela e canja
 eu algum dia me transforme numa anja
 e lá do alto
 repique os sinos
 para congregar os loucos, os aflitos,
 os que vos chamam aos gritos,
 os que nunca têm respostas.

 Mas que mantenha no bolso,
 mas que mantenha nos olhos
 um breve contra os olhados
 bons e maus;
 que continuem assim os meus vestidos:
 precipitados nas costas,
 bem curtos, desaforados,
 malcomportados, bonitos.

 O que inda escondo nos bolsos
 e murmuro nos instantes adversos
 é um verso medieval
 escrito às pressas em dialeto provençal, é claro,
 por um bardo meio analfabeto
 com caracteres rabiscados, inseguros;
 é uma bola de cristal
 que não deixa prever o futuro;
 é uma invocação, um cântico,
 escapulário,
 um patuá romântico
 cheio de pétalas azuis,

 – para me proteger das bruxas que não fui;
 dos passes
 que jamais permiti que me encantassem;
 da maldição
 que não veio dos meus sins, mas sim de um não
 – de um único não,
 uma bobagem,
 que não daria jamais
 um furo de reportagem.


DE NOME E SEDE: O MANTRA

Teu nome, que repito como um mantra
porque conduz às sensações mais doidas,
toma-me de surpresa em meio ao trânsito,
acorda-me de espanto toda noite,
assalta-me em cada esquina e no entanto
tem qualquer coisa de reconfortante
que faz com que em seu som toda me envolva.

O nome que repito como um mantra
também é som que acalma, tranquiliza,
e assim tão singular que nem precisa
de rosto ou corpo que o acompanhe.
Nem me faz falta pêndulo, moeda
ou uma voz suave de comando
para re-induzir-me a entrar em transe:
o próprio som do nome hipnotiza.

Mas

o nome, simplesmente, repetido
como um mantra, esse som obsessivo,
talvez invoque um universo tântrico,
talvez provoque o transe que persigo
mas não aplaca a sede nem consigo
que o ópio desse som por um instante
sufoque a sensação imperativa
que o tempo todo fecha-me a garganta.

 (Porque, de sede, o que sabia Tântalo?)


OBSESSÃO

Tudo que desejo me obceca
e não quero querer pela metade.
Por desejar com tanta intensidade,
só desejo uma coisa a cada século.

Para o século vindouro,
o que me atiça,
que me desperta a cobiça,
tem um rosto de asceta e mãos de artista
e uns acessos de fúria nunca vista,
da qual, em meu desvelo,
quisera protegê-lo
para que jamais se fira
em sua própria ira.


GOLE

Toma um gole de mim que te sustente
por mais uma semana, um mês talvez.

Um hausto de palavras transparentes,
tela translúcida através da qual me vês
como uma silhueta, simplesmente.

Uma mulher que pensas conhecer?

Me deixa bêbada de ti. Por um momento,
quando te afastas, sei que vou morrer
de uma ressaca dessas violentas,
que fazem viciados renitentes
jurarem a si mesmos nunca mais beber.

Mas sei e sabes que estou sempre aqui,
e que sou e serei reincidente.


QUE SEJA

Está bem: que termine, que termine!
Se tem de ser assim... Enfim: que seja!

Que não mais o meu verso te ilumine
e nem tua magia me proteja
das coisas que não temo e em que não creio.
E os beijos de hortelã e de cereja
que trocaríamos noutra realidade,
que fiquem para sempre relegados
ao território das impossibilidades.

Não sou de ter saudades do passado,
mas do futuro, sim, terei saudade.


SAIA PLISSADA

Pois é – o que supunhas?

 Às vezes fico assim, bem-comportada,
 saia plissada, um pouco abaixo dos joelhos,
 e nas unhas,
 em vez dos tons vermelhos,
 uso estas cores claras, nacaradas.

 Às vezes fico assim: penteada,  maquiada,
 mas – ah! –  discretamente...
 Limito o rosto com brincos de madame
 – e brinco que inda assim há quem me ame,
 mesmo contida, formal, séria, reservada.

 E quando estou assim nem se pressente
 sob o verniz dos gestos controlados,
 meus precipícios, o espanto adolescente
 com cada pôr-de-lua em madrugada,
 cada renovação do sol nascente,
 com tudo, quase tudo. E com pequenos nadas,
 com ínfimos detalhes comoventes.

 Então: o que pensavas, afinal?
 Às vezes passo assim dias inteiros:
 tailleurs de tafetá,
 blusas de linho

 – e a alma e o coração, meu companheiro,
 descabelados,
 em permanente e completo desalinho.


PUNHAL

Deixa meu sorriso entrar feito um punhal
nesse teu coração, pedra de sal
onde nada frutifica nem floresce.

Deixa assim: um sorriso permanece
depois que todo o resto, por igual
se aplaina sob os ventos da memória.

O vendaval

que passou por sobre a tua, a nossa história
transformando em planície, em areal
deserto e árido aquilo que afinal
tinha um relevo definido, sensual,
contorno original,
topografia própria.

Sei que não devo, que não deveria,
mas cravo inda mais fundo este punhal
e giro a lâmina à medida que a retiro:
não por mal
e nem por covardia.
É um movimento natural
do pulso, essa torção.
Aguardo em sobressalto alguma reação:
em vão.
Nenhum sinal vital se manifesta.
Já não há nada (ou nunca houve) nesse coração.

Mas não:
no fio do punhal,
um minúsculo cristal ainda resta.
Toco-o com a ponta da língua, com cuidado,
por curiosidade.
Sem saudade,
sem ódio.

(É verdade:
é mesmo puro sal

de sódio.)


*****

BETTY VIDIGAL (São Paulo, 1948). Poeta, narradora e tradutora. Autora de livros como Eu e a vela (1965), Tempo de mensagem (1968) e Os súbitos cristais (2008). Página ilustrada com obras de Jasmine Thomas-Girvan (Jamaica, 1961), artista convidada desta edição.


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Agulha Revista de Cultura
Número 113 | Maio de 2018
editor geral | FLORIANO MARTINS | floriano.agulha@gmail.com
editor assistente | MÁRCIO SIMÕES | mxsimoes@hotmail.com
logo & design | FLORIANO MARTINS
revisão de textos & difusão | FLORIANO MARTINS | MÁRCIO SIMÕES
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