segunda-feira, 27 de junho de 2022

MÁRCIO CATUNDA | Antonin Artaud e os estados de delírio da poesia

 


Antoine Marie Joseph Artaud, conhecido como Antonin Artaud, natural de Marseille, nasceu no dia 4 de setembro de 1896. Filho Antoine Roi Artaud e Euphrasia Nalpas. Seu pai foi um empresário de transportes marítimos.

Depois de uma infância difícil, em que a meningite lhe deixou sequelas, Artaud sofreu uma crise depressiva, após a morte de sua irmã Germaine, em 1905. Em consequência, interrompeu os estudos e, pouco depois, o serviço militar em Digne-les-Bains, no sul da França. Os médicos lhe diagnosticaram neurastenia e sífilis hereditária e lhe aplicaram remédios à base de arsênio, mercúrio e láudano, para ajudá-lo a superar as dores de cabeça.

Rosto ascético de profeta e mártir, olhos fulgurantes, inflamados de paixão, ele ingressa no sanatório de Neuchatel, onde permanece quase um ano. Ao deixar o hospital suíço, chega a Paris, em 1920, aos 24 anos, já sob os cuidados de um alienista. Instala-se numa casa em Villejuif e depois se muda para uma pensão em Passy.

Iniciou sua combativa carreira teatral no Théâtre de l’Atelier, na rue Honoré-Chevalier, nº 7, próximo ao jardin du Luxembourg, à igreja de Saint-Sulpice e ao Théâtre du Vieux-Colombier.

De apenas duas quadras, a rue Honoré-Chevalier, curta e estreita, no sexto arrondissement, começa perpendicular à rue Bonaparte e termina na quadra seguinte, na rue Cassette. Na parede de tijolos marrons do edifício, lê-se a inscrição: “Em 1921, Charles Dullin criou seu Théâtre de l’Atelier, no rez du chaussée”.

Nesse endereço, Artaud devotou fervores ao teatro (dez horas por dia) e à atriz Génica Athanasiou, romena, de origem albanesa, pela qual se apaixonou.

Superdotado para a dramaturgia, já no ano seguinte Artaud estreia, no Théâtre du Vieux-Colombier, na peça Chantage, comédia em um ato, de Max Jacob.

Em 1922, quando Charles Dullin transfere suas atividades dramatúrgicas para o Théâtre Montmartre, na praça Dancourt, Artaud é o ator versátil e extravagante do papel de Tirésias, em Antígona, de Cocteau (com cenário de Picasso), na qual Génica Athanasiou foi Antígona.

Artaud ingressa na equipe da Comédie des Champs-Élysées. Ele dormia no subsolo desse teatro, até que lhe arranjaram um quarto num imóvel da avenida Montaigne. Sua atuação em Seis Personagens à Procura de um Ator, de Pirandello, chamou a atenção por sua gesticulação exaltada, agarrando a cabeça com as mãos crispadas e trêmulas, a fronte banhada em suor e exibindo os olhos visionários.

Confome atesta Florence Mèredieu, em seu livro Eis Artaud (compilação de textos), certa vez, saltaram o papel de Artaud, num domingo à tarde. De volta ao teatro, às 8 horas, ele perguntava: “Como, é domingo? Havia matinê?” (MÈREDIEU, 2011).

 Interlocutor de magos e alquimistas, desde 1923 ele se aplicava ópio como um analgésico: “não se pode considerar em mim o ópio, sem a pavorosa dor”.

Ele passa uma parte do ano de 1923 em Marselha, oscilando entre o marasmo e a lucidez. Descreve-se como um andrajo vivo. Toma injeções para se livrar das dores. Revoltado com sua condição, escreveu: “cuspo nas ejaculações do espírito”. Numa viagem de trem, quebrou a vidraça do vagão, provocando um estrondo tremendo.

O ano da morte de seu pai, 1924, foi profícuo em sua carreira artística. Foi publicada sua correspondência com Jacques Rivière, editor da Nouvelle Revue Française (NRF) e Artaud aderiu ao movimento surrealista. Estreou no cinema com o filme Surcouf, roi des corsaires, no qual interpreta o vilão Morel, consagrado entre os clássicos da cinematografia francesa. Também em 1924 Artaud publica dois de seus primorosos livros: L’ombilic des limbes e Le pèse-nerfs.

A chuva, no après-midi de 18 de agosto de 2019, concedeu-me a licença poética de caminhar pela rue de Vaugirard ao boulevard Raspail e dele ao boulevard du Montparnasse. Na legendária esquina daquelas avenidas, encontrei a exótica estátua de Balzac, feita por Auguste Rodin, cercada de plantas, num círculo gradeado. No lado direito da mesma esquina, acha-se o restaurante La Rotonde, um dos lugares da boemia dos poetas daqueles tempos áureos da literatura francesa. O restaurante tem grandes letreiros dourados, no toldo vermelho, e a frente redonda, de que vem o nome. Dentro, cortinas vermelhas e pequenos candelabros em forma de flores. Tudo ali recorda a presença de Artaud, sempre inquieto, rabiscando seus cadernos e murmurando coisas insólitas. Ao lado do restaurante La Rotonde fica o cinema do mesmo nome.

Le Dôme, outro dos restaurantes prediletos dos poetas, fica exatamente em frente ao La Rotonde, do outro lado do boulevard du Montparnasse. Tem seu nome gravado em letras cursivas, incrustadas de pequenas luzes pontilhadas. Dentro, elegantes paredes de madeira talhada. Tanto o Le Dôme quanto o La Rotonde têm cadeiras nas calçadas.

Um pouco mais adiante, na mesma quadra do largo e civilizado boulevard, no número 102, fica o La Coupole, existente desde 1927. Ocupa o térreo de um prédio de vidro espelhado, brilhante ao reflexo da luz solar. Na área interna, chama a atenção a grande cúpula em tom violeta, que deu origem ao nome do local.

São esses os lugares de Montparnasse mais frequentados pelos legendários poetas do surrealismo, desde o período que antecede à Primeira Guerra Mundial até depois de 1960, época em que foram assíduos Breton, Prévert e Aragon, por exemplo, que viveram mais do que a maioria.

Regresso à estação Montparnasse-Bienvenüe, ponto de referência de minhas visitas à Fnac da rue de Rennes. Avisto, pelo caminho, a vistosa e alta fachada da igreja de Notre-Dame-des-Champs, construída de 1867 a 1876. Local nada frequentado pelos poetas, exceto por Max Jacob, que ali participou da cerimônia em que se converteu ao catolicismo.

Peguei um táxi e nele segui, com o propósito de ver onde funcionou o Bureau Central de Pesquisas Surrealistas, do qual Artaud foi uma autoridade eminente. Eu ia tão absorto, que só depois de pagar o valor da corrida foi que reparei que o taxista, um rapaz deveras perspicaz, me cobrou, sem ligar o taxímetro, o valor de 15 euros, no curto trajeto de Montparnasse até a estreita e tranquila rue de Grenelle nº 15.

A rue de Grenelle começa no Carrefour de la Croix-Rouge, a partir do qual caminho pela rue du Vieux- Colombier, onde, no número 22, está o teatro do mesmo nome. Por sinal, um teatro que tantos serviços prestou à cultura, ao longo de sua história, tendo acolhido escritores e teatrólogos que nele fizeram conferências ou representaram suas peças – inclusive Artaud, que ali se apresentou pela primeira vez como ator.

Na rue de Grenelle, número 15, admiro um prédio de charme especial: o hôtel de Bérulle, de estilo neoclássico, onde o versátil Artaud dirigia o Bureau Central de Pesquisas Surrealistas, ao qual ele, intransigentemente, exigia o comparecimento dos sócios pelo menos por duas horas semanais.

Depois desse período, Artaud tem novo endereço: rue de Seine, 57. É nesse tempo que ele participa de vários espetáculos no Vieux-Colombier. Breton o descreve: “muito belo, como era então, ao se deslocar ele arrastava consigo uma paisagem de romance negro, trespassado de clarões”. Max Jacob o considera “um instrumento da fatalidade, emissário de Deus, autor de milagres”. Aragon anuncia Artaud em Madri, em 1925, como “um ditador que se lançou ao mar, arrastando os homens a um abismo desconhecido”.

Respirei os ares serenos do jardin du Luxembourg, e depois percorri algumas quadras da rua de Condé. Cruzei o boulevard Saint-Germain e a rue de Buci, para visitar a rue de Seine, 57, a terceira residência de Artaud, desde sua chegada a Paris. O edifício tem, atualmente, a inscrição “Henri Diéval, Maître Imprimeur”, afixada sobre a larga porta azul. A rue de Seine me conduziu ao quai de Conti, à Pont des Arts e ao Louvre. Revisitei o local, na viagem posterior, quando localizei as galerias cuja importância na vida de Artaud mencionarei nas próximas páginas.

Em 1925, Artaud foi, durante três meses (de janeiro a abril), o diretor da Central de Pesquisas Surrealistas. Em outubro, ele se instala na rue La Bruyère, 58. Mantém-se ativo na literatura, escrevendo textos para a revista La Révolution Surréaliste, cujo terceiro número foi por ele editado. Viajou a Nápoles, para interpretar o personagem Cecco, no filme Graziella, dirigido por Marciel Vandal, baseado na obra de Lamartine. Artaud foi uma das três estrelas principais desse filme, lançado em 1926.

A mãe de Artaud, Euphrasie Nalpas, foi morar com ele, em 1926, na place de la Porte d’Auteil, 178, após o falecimento do pai do poeta. O triunfo de Artaud como ator no filme Napoléon (1927), de Abel Gance, foi reconhecido pela interpretação fiel do rosto atormentado de Marat, no momento em que Charlotte Corday o assassinou em 1793. Essa trágica cena do filme foi inspirada na imagem pintada por Jacques-Louis David no ano da morte do revolucionário Jean-Paul Marat.

 Artaud fundou, com o Dr. Allendy, psicanalista, diretor, na Sorbonne, do Grupo de Estudos Filosóficos e Científicos, o Teatro Alfred Jarry, que ele dirigiu, com Roger Vitrac. O teatro, que durou dois anos, funcionou em distintos locais e produziu peças montadas por Artaud, entre as quais, Le ventre brûlé, dele próprio, bem como Les mystères de l’amour e Les enfants au pouvoir, de Roger Vitrac, além de Partage du midi, de Paul Claudel, e Le rêve de Torkel, de Strindberg, em cuja encenação Artaud manteve um bate-boca com Breton. Era o começo de sua ruptura com os surrealistas.

Reagindo a provocações, Artaud estigmatizou a atitude dos surrealistas, como de “pessoas sem fé nem lei, guiadas em tudo pelo sexo, por um odor de leito e de adegas”. Para ele, o ponto de vista da Revolução integral era de essência espiritual. Que cada homem se preocupasse apenas com sua sensibilidade profunda, de seu íntimo. Ele se retira do grupo e, em seguida, os surrealistas o expulsaram, juntamente com Philippe Soupault. A discordância decorria, sobretudo, da inclinação política de Breton, Aragon e Éluard pelo Partido Comunista.

Não era possível manter juntos, por muito tempo, artistas tão rebeldes e inquietos como os surrealistas. Era de se esperar que eles acabassem se desentendendo.

No ano de 1927, Artaud atuou no papel do monge Jean Massieu, em La passion de Jeanne d’Arc, filme de Carl Theodor Dreyer. Trabalhava intensamente, mas não deixava de circular pelos cafés, de Montmartre a Montparnasse, usando um turbante negro, cujas extremidades se arrastavam pelo chão. O anedotário era pródigo em difundir as excentricidades da sua vida noturna, sua irreverência e seu sentido de humor. O seu comprometimento com o cinema continuou, com a escrita de roteiros e a filmagem, em Nice, do filme de Raymond Bernard, sobre a vida de Tarakanova, a assim denominada princesa russa.

Caminhando pela rue du Vieux-Colombier, avisto a cúpula da portentosa igreja de Saint-Sulpice, de fachada imponente com duas altas torres, coroadas por um alpendre circular. Jorra água das bocas das gárgulas na fonte, ao redor da qual sobressaem, acima dos gigantescos leões, as estátuas de Bossuet, Fénelon, Massillon e Fléchier, eminentes predicadores da literatura mística francesa, no período de Louis XIV.

Vou, em poucos minutos, de Saint-Sulpice a Saint-Germain-des-Prés, onde há, vizinhos à igreja, dois restaurantes de extrema importância para a história da literatura francesa: Les Deux-Magots e o café de Flore, assiduamente frequentados por Antonin Artaud, em suas noites de boemia.

O rompimento com Génica Athanasiou se deu quando Artaud escrevia o cenário para o filme surrealista La coquille et le clergyman (1928), dirigido por Germaine Dulac. Ela não aceitava a condição de Artaud, um dependente do ópio.


Alexandra Pecker, a nova namorada, é conivente com o consumo da droga e o ajuda a obter láudano nas farmácias.

De 1930 em diante, Artaud se entrega mais ao láudano, sob o pretexto de que suas dores aumentaram. Não negligencia o trabalho artístico, apesar do vício no alcance da mão. O ópio lhe dissolvia a dor como a água desmancha o açúcar. Ele pedia ao seu terapeuta, Dr. Toulouse, tratamentos mais pesados como “injeções de suco testicular ou fosfato de sódio misturado com sal”, ou, ainda, que lhe inoculasse “os germes da malária” para subverter seu metabolismo.

Afinal, tudo era culpa dos feiticeiros satânicos, do excremento do mundo impuro e das seitas do mal que o atacavam. Os feiticeiros satânicos não lhe davam trégua. Os apaches o haviam esfaqueado em Marselha. O seu Théâtre et son double reflete sua convicção de que o mundo está dominado pelas forças do mal. Por isso, é conceituado como Teatro da Crueldade. Sua teoria da dramaturgia, publicada na Nouvelle Revue Française, em 1931, propõe a interação total do ator com a plateia, como se o processo da dramatização fosse um exorcismo mágico. Mediante a predominância da ação sobre a reflexão, as transições bruscas e as flutuações extremas no ritmo, “como um redemoinho de forças superiores", pode-se resgatar a magia e o ritual da experiência cerimonial primitiva. Por esse meio, seria libertado o subconsciente humano para revelar o homem a si mesmo, mostrando ao espectador a baixeza de seu mundo. O jogo teatral tinha que ser um delírio comunicativo, para provocar misteriosas alterações no espírito. Dizia Artaud: “Respiro com os haustos apropriados, tal um guerreiro atônito que grita de medo nas cavernas. Esse grito é um sopro no peito do espectador.”

O Dr. Allendy, coordenador do grupo de estudos artísticos da Sorbonne, muito o incentivou. Promoveu palestras do poeta na Universidade e lhe recomendou livros, que ele devorava com avidez. Sua capacidade de trabalho era fenomenal. Enquanto escrevia ensaios e poemas, ele atuava em Coup de feu à l’aube, um filme de gânsteres e dava aulas de teatro numa sala da Comédie des Champs-Élysées, na avenue Montaigne, 15.

 Aos 38 anos, com intensa atividade no teatro e no cinema, Artaud escreveu Héliogabale ou l’anarchiste couronée, em 1934.

Artaud pesquisou em fontes históricas para descrever seu personagem como um monstro tarado, um estorvo da pior espécie. Resumo, abaixo, o texto, para que se tenha uma noção do requinte de crueldade dos temas de que o poeta se ocupava.

Heliogábalo, imperador adolescente, pederasta nato e inimigo da ordem, adota o símbolo fálico como divisa. Chega a Roma, procedente da Antioquia, com uma carruagem, em que carregava um falo de dez toneladas, com um cortejo de jovens desnudas e touros inoculados de soporífero. Heliogábalo entra na cidade de costas, com a intenção de ser “enrabado” pelo Império Romano. Era um insurreto, agindo contra tudo e contra todos, inclusive contra si. Lançava objetos rituais sobre a fornalha nos degraus do templo de Hércules. Entregava à luxúria todas as cavidades do corpo. Comprazia-se em apalpar homens prostituídos e perverter a juventude. Imitava, publicamente, com gestos, o ato da fornicação. Teve morte ignominiosa. Sua guarda o perseguiu. Ele se jogou nas latrinas. A tropa o agarrou pelos cabelos, arrastou-o. Despedaçaram-lhe o corpo a golpes de gládio e o jogaram no Tibre.

Artaud fez, a convite do Dr. Allendy, duas palestras na Sorbonne, que causaram estupefação. A primeira teve por título La mise en scéne et la métaphisique. Era o elogio à tela de Lucas Van Leyden, Les filles de Loth, do acervo do Louvre, referente ao capítulo 19 do Gênesis, que testifica a cólera divina que se abate sobre Sodoma, quando Lot é seduzido pelas próprias filhas.

Em minha quarta, conclusiva viagem de estudos a Paris, fui ver no Louvre essa obra pictórica de Van Leyden, pintor holandês, que a teria realizado por volta de 1520. Atravessei os incontáveis corredores dos pavilhões do grande palácio cultural, até ser informado de que, naquele dia, o setor onde se encontra o quadro não estava aberto a visitas. Estudei, no entanto, a respeito daquela obra pictórica. A disposição das figuras na tela mostra Lot reclinado sobre uma das filhas, enquanto a segunda preenche uma cratera para embriagar seu pai. Elas agem assim, na ilusão de que ter filhos com o próprio pai era melhor do que com os ímpios. No canto direito do quadro, a mulher de Lot é transformada em estátua de sal, por haver desobedecido à ordem de não olhar para trás. Nota-se que a riqueza das vestimentas contrasta com a desolação da paisagem de fundo.

A segunda palestra que Artaud fez na Sorbonne, no dia 6 de abril de 1934, teve por título Le théâtre et la peste. Em ambas, ele falou com a hiperbólica ênfase que lhe era distintiva. Explicou suas teorias sobre encenação e metafísica, com os olhos dilatados, o rosto em convulsões, os cabelos suados, berrando, delirando, atormentado. Em sua tese, o ator é um empestado que, no encalço da sensibilidade, torna-se vitorioso e vingador. “Levando os homens a serem como são, o teatro faz cair a máscara, põe à mostra a mentira, a frouxidão, a baixeza e a hipocrisia.”

Esteve, no final do ano, internado no hospital Henri-Rousselle, mas logo voltou às lides do trabalho, cumprindo expediente na rádio Luxembourg e dedicando-se às filmagens de Les croix de bois, de Raymond Bernard, em que interpretou o personagem Soldat Vieublé, sem senso de qualquer limite, empenhando-se até o esgotamento intelectual. Para incrementar sua devoção ao trabalho, recorria a médicos, videntes e taumaturgos.

Antonin Artaud fez o inventário dos dons de seu alterego, Gérard de Nerval, no texto Les chimères de Nerval. Segundo Artaud, Nerval transformou os mitos em criaturas novas, nos sonetos em que fez flutuar os desvarios, mostrando-se perito em todos os rudimentos do insondável incriado. E, em razão de sua vidência, sofreu, pavorosamente, dos tarôs, da alquimia e da história, sendo forçado, por possessão, a se enforcar.

Les Cenci, peça escrita à luz de textos de Percy Shelley e de Stendhal, teve representações no Théâtre des Folies-Wagram, na avenue Wagram, 35, nos vinte primeiros dias de maio de 1935. Artaud fez o papel do pai que viola a filha e é por ela assassinado. O teatro Folies-Wagram funcionou de 1928 a 1964. A peça recebeu elogios de Pierre-Jean Jouve, na Nouvelle Revue Française (NRF). No cinema, a derradeira atuação de Artaud foi em Lucrèce Borgia, de Abel Gance, no papel de Savonarole, em 1936.

A ambição de Artaud estava voltada para aventuras desafiadoras. Com o apoio de Jean Paulhan, ele obteve uma bolsa do Ministério da Educação para viajar, em 1936, ao México, onde tentaria, em Chihuahua, liberar-se da heroína, mediante a ingestão de peiote, no ritual dos índios tarahumaras. Em 28 dias, ele subiu os seis mil metros da Sierra Madre, a cavalo, enfermo dos nervos e com o corpo moído, para experimentar o peiote. Aquelas experiências o fizeram sentir-se semelhante a um chiclete gigante e inflamado. Considerou positivo o princípio ativo do peiote, porque lhe dava imaginação. Registrou tais sofridas experiências no livro Voyage au Pays des Tarahumaras.

No regresso a Paris, Artaud foi com a mala direto ao café-restaurante Le Dôme, para contar as novidades aos amigos. Entre Notre-Dame-des-Champs e Le Dôme, andando pelo boulevard du Montparnasse, travou terrível batalha com os demônios. Aliás, um episódio semelhante ao que lhe ocorrera antes, quando os demônios o assediaram, durante o intervalo de cinco dias, entre o Domingo de Ramos e a Sexta-Feira Santa, mudando a consciência humana, alterando nela a verdade aprendida com o Mestre. Nesse regresso a Paris, após as experiências com o peiote, Artaud conseguiu, a duras penas, retomar seus hábitos nos cafés de Montparnasse, onde reencontrou, entre outros, os escritores Roger Blin e Robert Desnos, e o pintor André Derain.

No ano de 1937, Artaud fez tratamento de desintoxicação, mas não desistiu do consumo de seu narcótico preferido: “o ópio só intoxica porque está desnaturado”, diz ele, convictamente. Prefere morar na rua. Já não se acomodava ao conforto e ao ritmo cotidiano de um lar.

Viajou a Bruxelas, para uma palestra acadêmica sobre os intelectuais de Paris, mas acabou falando dos efeitos da masturbação nos jesuítas. Ficou noivo de uma moça belga, de nome Cécile Schramme, e os pais da noiva se assustaram com o boêmio de Paris. O projeto de casamento durou pouco.

Em permanente depuração sentimental, Artaud quis fazer desaparecer o próprio nome. Passou a assinar-se “O Revelado” (Le Révélé). A imagem da loucura do mundo encarnara num homem torturado. Enumerava fúrias, sob o peso do pensamento que gira: eis o fósforo secreto, na espiral instantânea.

Com uma bengala de madeira (“l’epée des missionnaires”), que ele acreditava pertencer a São Patrício, Artaud viajou para a Irlanda, em agosto de 1937, “para devolver ao país, em Cobh, o cajado de treze nós de São Patrício”. Queria conhecer de perto a cultura celta. Deambulou por Dublin, neutralizando a angústia, mediante um estonteante conhecimento imediato de si. Embriagou-se de cosmogonias, no extremo estado da exaltação mística. Sem recursos para pagar os hotéis, em vão apelou para o Consulado francês. Numa noite brumosa, tentou hospedar-se no Jesuit College, mas não foi aceito. Protestou em voz alta e um frade o expulsou do recinto. Aconteceram murros e pontapés. A polícia o confinou no presídio de Mountjoy, no centro de Dublin, e o deportou.

Em sua viagem de volta, de navio, Artaud sentiu-se perseguido por dois membros da tripulação. Ao “defender-se das agressões”, foi preso, colocado em camisa-de-força e internado no hospital geral do Havre. Macilento, convulsionado por paixões extremas, numa agitação incontrolável, foi submetido a eletrochoques e transferido ao asilo para doentes mentais de Quatre-Mares, em Sotteville-lès-Rouen, na Normandia. Sua mãe o visitou ali e ele não a reconheceu.

Em 1º de abril de 1938, foi admitido ao hospício de Sainte-Anne, onde permaneceu 11 meses. No dia 22 de fevereiro de 1939, os médicos o destinaram ao hospital psiquiátrico de Ville-Évrard, a 20 quilômetros de Paris, onde o poeta sofreu quatro anos de isolamento. Nesse período de reclusão, declarou que uma feiticeira tentou asfixiá-lo. “O suplício dentro do qual fui preso não serviu senão para favorecer a ignomínia intrauterina de todas as fêmeas.” Os outros pacientes se queixavam de seus ritos e exorcismos contra os demônios.


O exorcista das atmosferas infernais denunciou, em carta ao Dr. Foulks, em 1940, do hospital de Ville-Évrard, os feiticeiros do café Le Dôme, que tentaram asfixiá-lo. Ameaçou cometer suicídio se não fosse libertado. Já não lhe interessava resolver nada. Aduziu: “Je suis Dieu, Jean Foulks, et il importe au salut universel des êtres?”

 Profetizou que a civilização cristã desapareceria, quando a Destruição explodisse em relâmpagos e o Torturado se convertesse no Revelado.

Pretendia curar, com ópio e heroína, as abjeções infectas da magia negra de uma sociedade que, como uma grande cobra, devorava seus melhores filhos. O penitente, o pária dos manicômios, sempre escrevendo, em convulsão mental, sofreu na vida todos os suplícios. Alucinado e visionário, proclamou a verdade veneranda, com a luz da lucidez, no inferno escuro. Era preciso combater as forças do Anticristo, que colaboravam com a fábula policial da alienação mental.

A partir de 1943, ele permanece interno no hospital psiquiátrico de Rodez, de onde escreveu, a seu psiquiatra, Dr. Ferdière, diversas cartas que compõem o conjunto de sua obra literária e revelam o sofrimento de um mártir da psiquiatria. As ameaças do médico, no sentido de dar-lhe novos eletrochoques, apenas agravavam o seu misticismo alucinado. Ele assinava Antonin Nalpas, o homem novo que um dia voltará ao estado original, sem sexo nem órgãos digestivos, com o alimento eliminado por “evaporação lombar”. Recordou-se de encarnações anteriores: recebera o nome de Santo Hipólito, bispo de Pireu, no século II d. C.

Sob a tutela do Dr. Ferdière, Artaud traduziu textos de autores ingleses e escreveu ensaios. “Resolvi ser eu mesmo”, gritava com fervor, lutando contra Deus e contra a psiquiatria. Falava de um mal anterior a si mesmo e ansiava pelo delírio febril, como revés das absurdas esperanças.

O desafeto das seitas do mal, dramaturgo que fizera estropícios no palco e no cinema, era o marginal consumidor de ópio, que enfrentava as “imperceptíveis ondas de furiosas bruxarias”. Apaixonado pela vida, consolava-se com a ideia de que um dia seria um corpo sem órgãos, livre das trevas absolutas.

Com a França ocupada pelos nazistas, havia escassez de víveres no hospício. Artaud se revolta contra a psiquiatria: “um invento da sociedade degenerada para combater as inteligências lúcidas”. Constata que foram os anjos que criaram o mal e fizeram o corpo, essa múmia onde se instalam as trevas absolutas. Estava perdido na miragem de um cais acessível aos tormentos. Os instantes de deslizamento e o sem sentido das palavras eram raptos furtivos em sua medula.

Em 1942, a mãe de Artaud, com a ajuda de Robert Desnos, contata o Dr. Gaston Ferdière, médico-responsável pelo manicômio de Rodez, e só não consegue a transferência imediata do poeta daquele hospital porque não havia onde alojá-lo em Paris. Ferdière viria a trasladá-lo dali somente em 1946, e Artaud pouco sobreviveria à nova fase de existência, depois de quase dez anos de isolamento em vários manicômios.

Artaud passou três anos sob os cuidados do Dr. Ferdière. O médico reconhece o valor do poeta e o incentiva a retomar a atividade literária. Não entende, porém, suas obsessões em criar feitiços, mapas astrológicos e desenhar imagens perturbadoras. Portanto, o submete a um tratamento de 58 eletrochoques:

 

L’électrochoc me désespère, il m’enlève la mémoire, il fait de moi un absent qui se connaît absent et se voit pendant des semaines à la poursuite de son être, comme un mort à côté d’un vivant qui n’est plus lui.

 

Os 58 eletrochoques, ao longo de dois anos consecutivos, causaram-lhe a perda de todos os dentes e o rompimento de uma vértebra cervical.

O livro Nouveaux écrits de Rodez, editado por Gallimard, na coleção L’Imaginaire, traz a lume as cartas escritas por Antonin Artaud no asilo de alienados de Rodez, destinadas ao psiquiatra Gaston Ferdière e à amiga do dramaturgo, Marie Dubuc, diretora de uma escola em Landes (Montfort-en-Chalosse), no sudoeste da França. As cartas a Marie Dubuc correspondem ao período de outubro de 1935 a agosto de 1937.

A correspondência com o Dr. Ferdière abrange o período de fevereiro de 1943, quando Artaud entra no asilo de Rodez, até 23 de maio de 1946, quando dali se transfere para uma casa de repouso em Ivry-sur-Seine. São cinco os principais assuntos tratados nessa correspondência: a) Artaud denuncia o dano que os espíritos do mal causam à humanidade; b) Reclama da desconfiança do Dr. Ferdière em relação a seu trabalho de exorcista, realizado mediante cantos de magia contra os maus espíritos, e escreve um verdadeiro tratado de poesia mística, para explicar que a prática do exorcismo não é um sintoma de enfermidade mental; c) Queixa-se da violência do tratamento de eletrochoques e dos maus tratos que sofrera em Dublin e nos hospícios anteriores; d) Manifesta o seu desejo de ficar livre do regime de cárcere em que é mantido em Rodez; e) Faz o elogio de alguns amigos poetas, reconhecendo-lhes o mérito.

Artaud lamenta que o Dr. Ferdière não entenda o seu relevante trabalho, fundado em estudos da Cabala, conforme os livros Zohar e Sepher Ietzirah. Os maus espíritos teriam incutido na cabeça do médico a ideia de que as percepções espirituais são delírio. Argumenta que a metade dos cantos da igreja católica se compunha de exorcismo no início da era cristã.

Artaud critica o erotismo vulgar e as imagens libidinosas, nefastas e deprimentes, como uma operação das trevas. Repudia a conjunção carnal, como “rencontre infectante des sexes et consécration excreméntielle de l’orgasme inventé par Satan”. Em suas confissões de contrição, censura a vilania dos sacerdotes e considera o apego à sexualidade como algo contrário ao amor-caridade pregado por Jesus Cristo. De tal modo, a melhor maneira de se desembaraçar dos demônios é ser casto.

Pede ao Dr. Ferdière que cessem as sessões de eletrochoque, um suplício que durou três meses. Manifesta mágoa pelo fato de a medicina ter-se colocado às ordens da polícia, na ocasião em que o prenderam em Dublin e o internaram nos hospitais do Havre (17 dias em camisa-de-força) e de Sainte-Anne, depois das aventuras da viagem à Irlanda, em agosto de 1937. Apenas porque tentara devolver àquele país a sagrada bengala de São Patrício, fora preso por seis dias em Dublin e depois deportado e transferido para sucessivos hospícios, sem ter sido examinado por nenhum médico.

Não se julgava enfermo mental. Se o fosse, os surrealistas também seriam. Vira Aragon, certa feita, diante de uma lâmpada na avenida des Champs-Élysées, cultivando um estado voluntário de alucinação (carta de 13 de agosto de 1943). Relata o incômodo que sente na atmosfera do asilo de alienados. Ser espiado, viver como um prisioneiro e ser considerado um louco o mantinha numa ansiedade invencível.

Artaud abomina o desumano tratamento de eletrochoque, depois do qual rompera algumas vértebras, e elogia o efeito do peyotl, que experimentou no México. Reafirma sua convicção de que a mescalina faz despertar a consciência, com a exata percepção de onde se vem, do que se é, e de que se necessita. Ele explana sua tese no texto Le rite du peyotl chez les Tarahumaras. Em seguida, pede ao Dr. Ferdière liberdade e mescalina. Afirma que os sacerdotes mexicanos lhe ensinaram a correta dosagem terapêutica, de 3 ou 4 vezes ao dia, para que a consciência não se desgarre ou se entregue a impressões falsas.

Ao expressar sua estima por alguns amigos, declara que a poesia de Breton é, no domínio do profano, expressão que se compara à dos Grandes Místicos, que evocam as elevações a Deus. Breton o fazia lembrar-se do Arcanjo Gabriel, quando se alumbrava nas manifestações surrealistas de 1924 a 1937.

Considerava Robert Desnos, que se havia esforçado para libertá-lo do manicômio, uma flor rara neste mundo, no qual só pôde viver sufocado e asfixiado.

Já na perspectiva de deixar o asilo de Rodez, numa carta datada de 5 de agosto de 1945, Antonin faz planos de rever Jean Paulhan, que vinha preparando a logística de sua saída da clínica de Rodez, e Raymond Queneau, a quem pediria emprestado algum dinheiro. Alegra-se, sobretudo, com a ideia de que sua mãe ficará feliz com sua liberação. Em menos de um ano estaria na casa de repouso de Ivry-sur-Seine, em Paris, onde desfrutaria de total liberdade, sob os cuidados do Dr. Achille Delmas, psiquiatra e escritor.

Em meio às cartas ao Dr. Ferdière, há duas endereçadas ao Presidente do Conselho de Vichy, Pierre Laval, datadas de 20 de setembro e 15 de outubro de 1943, em que o poeta pede socorro para livrar-se do cativeiro do manicômio. Ele apela para a memória do autocrata, para fazê-lo recordar-se de que, em 1930, fora por ele visitado em seu endereço de então, quai d’Auteil, nº 178 (hoje quai Louis-Blériot, em homenagem ao aviador francês). Também, que Laval retribuíra a visita, atendendo a convite para jantar na residência de Artaud. Mencionou, ainda, que Laval viera assistir a uma representação da sua peça Les Cenci, em maio de 1935.

 As cartas à professora Marie Dubuc, em tom de confiança e intimidade, são anteriores a esse período de internamento em Rodez. A primeira, datada de outubro de 1935, foi escrita do endereço rue Victor-Considérant, nº 12, Paris XIX. A segunda, de agosto de 1937, tem como endereço do remetente a rue Daguerre, nº 21. Nesta, ele confessa a necessidade de consumir ópio para recuperar os dons adquiridos.

O referido livro, que contém as cartas supracitadas, traz também um precioso anexo: um CD com as gravações do discurso de André Breton, no Théâtre Sarah Bernhardt, em homenagem a Antonin Artaud, no dia 16 de julho de 1946, e de uma entrevista com o Dr. Gaston Ferdière, a respeito de sua amizade com o poeta.


Depois de nove anos de sofrimento nas clínicas psiquiátricas, teve Artaud ainda forças para se reintegrar à vida boêmia de Paris. Em 1946, recebeu ajuda de Jean Paulhan, o editor da NRF, que organizou, na Galerie Pierre, rue des Beaux-Arts, a exposição dos desenhos de Artaud e de obras ofertadas por diversos artistas. Jean-Louis Barrault realizou um leilão e arrecadou um milhão de francos, valor que seria concedido a Artaud parceladamente, a fim de pagar seu alojamento na clínica psiquiátrica de Ivry-sur-Seine, onde ele acreditava que estivera Nerval. Ali, ele seria mais bem alimentado e teria liberdade para sair e ver a quem desejasse. O estabelecimento foi encontrado por seus amigos Arthur Adamov, Marthe Robert e Paule Théverin, que rastrearam Paris, em busca de uma “maison de santé” que satisfizesse às condições requeridas pelo Dr. Ferdière.

 Por fim, liberado por seu médico do hospício de Rodez, o poeta chega a Paris em maio de 1946 e vai diretamente ao café de Flore, em Saint-Germain-des-Prés. Estava decrépito, balbuciava, com gemidos agudos e tiques nervosos, enquanto escrevia num caderno. Tinha puída a roupa, queimada de cigarros.

No dia 7 de julho de 1946, sete meses depois de sua saída de Rodez, Artaud foi homenageado por Breton, Barrault, Roger Blin, Jean Paulhan, André Gide, Pablo Picasso e outros intelectuais que haviam requerido a sua liberação e arrecadado os recursos para a sua subsistência. Eles organizaram uma palestra de Artaud, no Théâtre Sarah-Bernhardt, hoje Théâtre de la Ville, tendo André Breton feito a abertura do evento, com um caloroso discurso de admiração e reconhecimento.

Desdentado e enrugado, mergulhado na amargura, Artaud desabafou sua mágoa pelas agressões sofridas nos internamentos em asilos, que foram prisões a que a sociedade o condenara. Declarou-se o corpo único, do qual, mesmo Deus, teve origem. Fez o elogio do ópio e leu sua carta ao Papa: “Fui eu (e não Jesus Cristo) o crucificado no Gólgota.” Reiterou a história, já contada no café Les Deux-Magots, de que Breton havia comparecido ao hospital geral do Havre, em outubro de 1937, sob as balas das metralhadoras, a fim de livrá-lo da camisa-de-força e das cordas que atavam seus pés à cama. E era possível que Breton fosse um clone do outro, que morrera na guerra, tentando defendê-lo. Chorou, quando aquele amigo disse não se recordar desse episódio. Dias depois, recusou-se a escrever para o catálogo da exposição surrealista que Breton realizou na Galerie Maeght, “porque lá não iriam operários nem gente que trabalha todo o dia, mas capitalistas esnobes que tratam a arte como valor mercantil”.

Com o clarão solar refletido na água, que flui com as gaivotas e os barcos, sento-me para contemplar a Pont des Arts, que é um caminho reto que liga o Louvre ao Institut de France, de imponente cúpula. O vento do dia invernal vem pleno de energia reconfortadora. Os galhos ressecados dos álamos se embalam e ressoam um assovio, quando a aragem os acaricia. Ou são os metais laterais da ponte, que brincam de ser flautas? Vou pelo vão de madeira e vejo as torres esplêndidas da Île de la Cité, além do ângulo que separa os dois fragmentos da Pont-Neuf. Como esqueci de trazer o mapa, pergunto a uma senhora onde fica a rue des Beaux-Arts e ela me diz que é a primeira à direita, indo pela rue de Seine. À esquerda está a rue Mazarine. Na altura do número 26 da rue de Seine, na qual vi diversas galerias, vislumbrei a Galerie Le Minotaure, que, nos tempos de Artaud, era chamada de Galerie Pierre. Foi o local onde se organizou a exposição filantrópica, cujos recursos custearam as despesas do poeta pobre, enfermo e cansado de tantas duras provações. A frente da galeria é moderníssima, com suas vidraças brilhantes e transparentes.

Prossigo pela esgalga rue de Seine, de prédios longilíneos. Na altura do número 31, aparece uma placa a indicar que George Sand ali viveu em 1831. A rue de Bucci aparece no cruzamento, com seus restaurantes nas calçadas. De pronto, estou no boulevard Saint-Germain.

Artaud fez nova palestra, desta feita no teatro Vieux-Colombier, em que abriu a Caixa de Pandora dos delírios e vociferações. Falou de seus sofrimentos e dos eletrochoques que o forçaram a “bramir, num estado de eructações rancorosas, cloacas e cãibras, no limiar da síncope”.

Declarou que “Nós ainda não nascemos no mundo. Ainda não há mundo. A razão de ser não foi encontrada”. Anunciou o Homem que fará o imanifesto corpo humano mergulhar no chão da natureza onde o sol o recolherá. Mencionou suas encarnações anteriores, cinco mil anos antes, na China, na Turquia e na Irlanda, e sua ressurreição sobre o Gólgota. Depois da palestra, foi dormir num banco entre a Fonte Médicis e a Livraria Corti.

Inchado pelas doses cada vez mais fortes de várias drogas, ele continua escrevendo nos cafés, golpeando as mesas com os punhos. Desenha figuras para assassinar a magia dos íncubos e súcubos que o atormentam. Há cerca de 40 cadernos seus, na Biblioteca Nacional da França, que só foram publicados parcialmente.

Ele gravou, de 22 a 29 de novembro de 1947, com gritos, grunhidos e onomatopeias, Pour en finir avec le Jugement de Dieu, cuja encenação foi proibida pelo gerente-geral da Radiodifusão Francesa, Wladimir Porché, que a considerou escatológica, antiamericana e antireligiosa. Fernand Pouey, diretor de transmissões dramáticas e literárias da emissora, convidou 50 artistas para uma transmissão privada da gravação. Compareceram Jean Cocteau, Paul Éluard, Raymond Queneau, Jean-Louis Barrault, René Clair, Jean Paulhan, Maurice Nadeau, Georges Auric, Claude Mauriac e René Char. Artaud reiterou, então, sua denúncia das atrocidades dos hospícios de alienados que, sob o manto da ciência e da justiça, são comparáveis à masmorra.

O Dr. Henri Mondor, ilustre ensaísta, recomenda que dispensem a Artaud o láudano de que ele precisa. O poeta Jacques-Marie Prével o abastece com os frascos da substância extasiante. Fora diagnosticado a Artaud um câncer colorretal.

Vim de táxi até o local da Mairie d’Ivry-sur-Seine, também chamada de Hôtel de Ville, em frente à qual se encontrava a clínica do Dr. Delmas, onde Artaud foi bem recebido e viveu seus derradeiros dias. Os gentis funcionários da Prefeitura (Mairie) confirmaram que o atual Parque Maurice Thorez, também chamado de Parc des Cormailles, é o exato lugar onde Artaud viveu seus derradeiros dias, com toda a liberdade de sair e chegar à hora que quisesse, benefício que não lhe permitia o Dr. Ferdière, em Rodez, por medo de que o poeta sofresse alguma crise e seus subsequentes constrangimentos. Uma senhora, muito atenciosa, presenteou-me com um exemplar da edição do lindo catálogo de uma exposição realizada em homenagem ao grande poeta.

 Pena que, na época em que esteve em Ivry, a doença dos nervos já o afetasse irremediavelmente e ele viesse a perecer da outra fatal enfermidade.

O local tem hoje árvores altas e frondosas e serve ao lazer das crianças, que ali brincam alegremente. Em diagonal à Mairie, depois do cruzamento da avenue Danielle Casanova com a avenue Georges Gosnat (que no tempo de Artaud se chamava rue de La Mairie), acha-se o edifício moderno, vermelho e envidraçado que abriga a Bibliothèque Médiatique d’Ivry-sur-Seine e o Auditorium Antonin Artaud.

O homem que andava maltrapilho pelas ruas, sujo de fezes e sangrando, era o autor do ensaio Van Gogh, Le suicidé de la société, que o Herald Tribune de Nova York elogiara. Van Gogh era, para ele, um revolucionário, cujas insuportáveis verdades tanto perturbaram o conformismo da burguesia, que a sociedade se recusou a escutá-lo. As estranhas forças da cúpula sombria dos maus espíritos da maioria das pessoas o oprimiu, portanto, com magia tentacular, para apagar sua consciência sobrenatural.

Dois meses depois do diagnóstico da grave enfermidade, sua amiga Paule Thévenin encontrou Artaud morto, no quarto do hospital de Ivry-sur-Seine, no dia 4 de março de 1948, ao pé de sua cama. Suspeitou-se de que ele morreu de uma dose letal de hidrato de cloral.

Ele planejava ainda uma viagem mística ao Tibete. Iria, no entanto, acompanhado de cinquenta bravos, armados com rifles e metralhadoras, para acertar contas com certas pessoas.

Artaud foi, certamente, dentre os surrealistas, o mais completo e o mais autêntico, no sentido da transfiguração criativa da linguagem. Breton elogia-lhe a impulsão inestimável com que transgrediu as próprias defesas e, sem medo das sanções, que se incorre quando se perdem as coordenadas habituais. Enaltece Artaud pelo fato de ter-se mantido lúcido em meio à violência do seu deboche verbal. Considera o seu ensaio sobre Van Gogh um texto escrito com a superlucidez de um grito que nasce das cavernas do ser.

Com efeito, Antonin Artaud foge a todos os padrões de conduta e de imaginação. Sua profunda pesquisa esotérica se refletiu no trabalho de artista polivalente, dramaturgo fecundo, ator incomparável, que atuou em 21 filmes, e poeta que se exprimiu em palavras de fogo. Seu procedimento foi um ato de denúncia de tudo quanto é injustiça, perseguição, hipocrisia e violência, situações que ele próprio sofreu, como uma espécie de Cristo revoltado ou santo em estado de delírio. Sempre sedento de Absoluto, foi um herói metafísico, corajoso, que pagou com a própria vida a ousadia com que investigou o conhecimento dos segredos mais sublimes da Natureza.

 

 


MÁRCIO CATUNDA | Escritor e diplomata. Nascido em Fortaleza em 1957. É membro da Associação Nacional de Escritores de Brasília, da Academia de Letras do Brasil, do Pen Clube do Brasil, com sede no Rio de Janeiro e da União Brasileira de Escritores. Escreveu cinquenta livros de poesia e prosa, alguns dos quais no idioma castelhano. Editou também diversos discos com seus poemas musicados e cantados por vários parceiros. Autor de um livro fundamental: Paris e seus poetas visionários (2021).

 

 


NELSON DE PAULA (Brasil, 1950) | Poeta, ensayista, cuentista y artista visual. En su obra integral pretende ser un traficante de sueños, y atravesar las fronteras de las dimensiones, con lo ilegal debajo del brazo. Ha publicado alrededor de 60 libros de poesía y arte visual. Entre otros destacamos: O Plasma, Vozes do Aquém, Projeto para uma Revolução Fundamentalista, A Hóstia de Isis, Sete pulos na encruzilhada. Como artista plástico, participó en Bienales, expos individuales y colectivas en Brasil y el resto del mundo. Fue miembro del Grupo Surrealista de São Paulo. Participó en la Exposición Surrealista “Las llaves del deseo”, Costa Rica, Cartago, 2016. Colaborador de la revista Matérika (Costa Rica). Reside en São Paulo.

 



Agulha Revista de Cultura

Série SURREALISMO SURREALISTAS # 12

Número 211 | junho de 2022

Artista convidado: Nelson de Paula (Brasil, 1950)

editor geral | FLORIANO MARTINS | floriano.agulha@gmail.com

editor assistente | MÁRCIO SIMÕES | mxsimoes@hotmail.com

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