quarta-feira, 4 de setembro de 2019

MÁRIO-HENRIQUE LEIRIA | Dicionário modesto para famílias de poucos haveres


A
ANIMAL – Disse, na intimidade, de um general muito animado.

Variante:
ANÍBAL – Qualquer canibal que, nos dias santos, use anilha.

B
BATATA – Quando aquele que escreve a ata veste a bata usa-se este fonema, mas com extremo cuidado.

Variante:
BATOTA – Acto de bater com a bota. Pratica-se especialmente em operações financeiras, donde o dizer-se usualmente, “a finança é uma batota”.

C
CABIDE – Objecto que os agentes da PIDE usavam no preciso lugar da cabeça. Como em todas as polícias especializadas, tratava-se de um disfarce. Realmente não possuíam cabeça.

Variante:
CABODE – Palavra que não quer dizer nada. No entanto os exorcistas usam-na frequentemente, soletrando-a e batendo três vezes com o pá direito no chão. À meia-noite, é evidente.

D
DOMÍNIO – Acção de graças que se realiza ao domingo nas terras trasmontanas. O oficiante bate na cabeça dos crentes com uma barra de alumínio especialmente benzida.

Variante:
DEMÓNIO – Segunda parte da acção de graças acima referida. No entanto só se realiza em dias determinados, e com uma barra de antimónio.

E
ESTUDO – Festa particular e requintada em que os antigos ministros de Estado se encontravam, na época do entrudo.

Variante:
ESTADO – Estabelecimento encerrado, para obras. Vocábulo bastante usado nos países subdesenvolvidos.

F
FACA – Pessoa que vai ao talho e vê os preços. Fica de maca. Em gíria popular, claro.

Variante:
FOCA – Estado em que fica qualquer manifestante depois de levar com a moca da P.S.P.

G
GATUNO – Indivíduo pertencente a um grupo minoritário do povo dos Hunos. Usavam o gato como arma ofensiva e daí a sua avançada fulgurante através da Europa, até às portas de Pavia.

Variante:
GATILHO – Gatuno que usava ceroulas de atilho. Bastate mal visto dentro da tribo. No entanto, nunca deixou de puxar o gatilho.

H
HIENA – Diz-se de uma pequena que anda muito preocupada com o hímen.

Variante:
HIANTE – Quando Dante encontrou uma hiena, o vocábulo definiu-se. Passou a dizer-se, como é voz corrente: “a pequena Beatriz hiante é uma hiena”. Vox Populi.

I
INFANTE – Infecção que soi acontecer na tromba de elefante. Só no asiático, sabe-se.

Variante:
INFAME – Chama-se, na Itália e nas Ilhas Canárias, ao salame de categoria inferior.

J
JANTAR – Objecto curvo e afiado introduzido na Península Ibérica pelos exércitos árabes de Tarik. Serve para matar fiscais de impostos, mas só em Janeiro.

Variante:
JANAR – Acto de produzir ar, virado para uma janela. Dialecto antigo do Alentejo.

L
LIMÃO – Posição tomada por qualquer administrador geral quando puxa a liga da secretária, com a mão.

Variante:
LIÇÃO – Diz-se daquele que se obstina em não pagar a licença da televisão.

M
MARTELO – Vitelo algarvio que gosta de passar as tardes a ver o mar.

Variante:
MARMELO – Espécie de camelo usado pelos marítimos dos séculos XV e XVI nos seus comércios com as povoações ribeirinhas.

N
NATAL – Bolo festivo muito popular nos Carpatos. É feito com pardal recheado de natas.

Variante:
NAUTA – Aquele que toca flauta com naturalidade.

O
OPERAÇÃO – Processo de interrogatório policial que consistia em tirar o coração a um operário. Comunista, claro. Parece que deixou de ser usado.

Variante:
OPINIÃO – Diz-se da oportunidade que é frequentemente dada a qualquer capitão para fazer o pino.

P
PILOTO – Jogador de loto que também costuma pilhar galinhas.

Variante:
POLÍTICO – Polícia que se encontra em estado crítico. No entanto, esta definição é controversa.

Q
QUELHA – Poeticamente, descreve a velha que ainda quer.

Variante:
QUILHADO – Velha que gosta de pôr a quilha no telhado. Por isso se diz: “quem tem velha no telhado, está quilhado.”

R
REVOLUÇÃO – Aquele que se revolve e não acha solução para tal coisa.

Variante:
REPETIÇÃO – Republicano ético que usa calção durante toda a semana.

S
SOLDADO – Palavra usada num antiquíssimo jogo asiático onde se troca um sol por sete luas. Quando o jogador pratica essa troca e dá o sol que tem, diz: “soldado”. Nessa altura deve esfregar o joelho esquerdo e puxar sete vezes a orelha do mesmo lado. Se não o fizer, perde o sol.

Variante:
SOLIDÃO – Quando Adão se solidarizou com a Serpente. Bíblico.

T
TESTAMENTO – Grafa-se como o lamento daquele que bate com a testa, seja lá onde for.

Variante:
TESTEMUNHA – Doença na unha. Reconhece-se fazendo um teste múltiplo à unha atingida.

U
UNIVERSO – Poeta que só conhece um único verso e o repete exaustivamente. Exemplo típico, David Mourão Ferreira.

Variante:
UNIVERSIDADE – Vocábulo complexo. Na sua etimologia verifica-se a necessidade de ser único no momento de verter águas.

V
VENATÓRIO – Indivíduo que pratica a vénia atenta no momento de entrar no escritório.

Variante:
VELÓRIO – Diz-se do funcionário com menos de 16 anos que acende as velas no cartório da sacristia.

X
XISTO – Jogador de xadrez que tem um quisto.

Variante:
XIÇA – Senhora xique que usa peliça trazida de Londres.

Z
ZEBELINA – Animal quase extinto, que por vezes ainda se encontra no deserto do Gobí. É um cruzamento de zebu e da tia Adelina.

Variante:
ZAROLHO – Quando o repolho tem o azar de perder o a. Usa-se pouco, por ser nitidamente um fonema irudito.


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EDIÇÃO COMEMORATIVA | CENTENÁRIO DO SURREALISMO 1919-2019
Artista convidado: John Richardson (Inglaterra, 1958)


Agulha Revista de Cultura
20 ANOS O MUNDO CONOSCO
Número 144 | Outubro de 2019
editor geral | FLORIANO MARTINS | floriano.agulha@gmail.com
editor assistente | MÁRCIO SIMÕES | mxsimoes@hotmail.com
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