Andava um dia a visitar
um museu em Espanha que tinha expostos diversos trabalhos de Salvador Dali, alguns
dos mais importantes e de maior destaque, quando um amigo me interpelou sobre o
porquê do meu gosto por uma pintura de bonecos
deformados? Sabendo eu do gosto dele pelo cubismo, contrapus que era o mesmo que
ele tinha pelas mesmas figuras distorcidas do cubismo, nomeadamente Picasso. Disse
que não: Picasso distorce coisas, figuras e pessoas que realmente existem; enquanto
que os surrealistas criam formas a partir das deformações que provocam naquilo que
recriam, e como lhes acrescentam muitos adereços, dizia o meu amigo, acabam por
vulgarizar a obra de arte, tal qual as crianças que vão originando coisas banais,
acrescentando riscos a riscos, cores a cores, sobrepondo uma quantidade de matérias
de forma indiferente na mesma composição. Surrealisticamente lembrei ao meu amigo
que o dramaturgo Henrik Ibsen (1828-1906) tinha, ainda no século XIX, escrito, contra
a corrente literária, a peça Uma
casa de bonecas (1879) para contestar a luta dos indivíduos ante os
constrangimentos das convenções da sociedade. A sua dramaturgia sob o signo da bonecada
ou do disfarce, foi essencial para uma nova abordagem da arte em causa. Assim sendo,
as bonecas e os bonecos, vistos na perspectiva da criação, seja ela qual for, tem
sido propícia aos movimentos de contracultura artísticos e literários de todos os
tempos e lugares.
Mas afinal o que é o
Surrealismo? A definição de surreal em diversas acessões que consta no Dicionário
Houaiss é a seguinte: “1 que denota estranheza; transgressão da verdade sensível,
da razão, ou que pertence ao domínio do sonho, da imaginação, do absurdo. 2 aquilo
que se encontra para além do real. 3 o que resulta da interpretação da realidade
à luz do sonho e dos processos psíquicos do inconsciente”. Seja qual for a atribuição
é algo que se sobrepõe ao real e hoje, o surrealismo comumente designa o movimento
artístico e literário nascido em Paris em 1924 que tem como teórico principal André
Breton (1896-1966) fortemente influenciado pela psicanálise freudiana com a qual
tinha tomado contato aquando da sua formação em medicina, mesmo que não deixe de
a censurar por circunscrever a realidade às manifestações do sexo e do instinto.
Na edição mais recente em português dos Manifestos
do Surrealismo (Letra Livre, 2016) André Breton, no manifesto de 1924
que o fundou, ante as insuficiências das explicitações anteriores, define-o assim:
“automatismo psíquico puro, pelo qual se pretende exprimir, verbalmente ou por escrito,
ou de qualquer outra maneira, o funcionamento real do pensamento. Ditado do pensamento,
na ausência de qualquer vigilância exercida pela razão, para além de qualquer preocupação
estética ou moral”. Pouco interessará saber se é possível uma vida surrealmente vivida nas condições
enunciadas. Naturalmente que enquanto o indivíduo for um ser racional e social,
e nunca deixará de o ser porque essa é a sua própria condição, os limites à sua
ação, por parte do outro, da biologia e da sociedade, serão marcantes nas escolhas
dos seus percursos. Como aconselhava o filósofo existencialista dinamarquês Soren
Kierkegaard (1813-1855), mesmo que detestemos a vida societária, convém a todos
os indivíduos que se mostrem de qualquer maneira à comunidade a que pertence, ou
passando pelos cafés, ou visitando as exposições da moda e outros eventos sociais,
ou simplesmente passear na rua em horas de maior afluência (na altura, os passeios
ao longo da tarde eram verdadeiros acontecimentos sociais).
Termino escolhendo deixar
impresso um dos seus poemas mais conhecidos incluído em Pena capital (1957), porque
tem a ver com o corpo e o espaço, a sensualidade e a sexualidade, ou apenas o desejo
místico, a experiência quase religiosa de ligação, de fusão, de inclusão do que
vivendo à parte, anseia pelo todo de que se sente distante, porque o imaterial não
é possível ser experiente sem o prévio contato com o material:
Em
todas as ruas te encontro
em
todas as ruas te perco
conheço
tão bem o teu corpo
sonhei
tanto a tua figura
que
é de olhos fechados que eu ando
a
limitar a tua altura
e
bebo a água e sorvo o ar
que
te atravessou a cintura
tanto tão perto
tão real
que
o meu corpo se transfigura
e
toca o seu próprio elemento
num
corpo que já não é seu
num
rio que desapareceu
onde
um braço teu me procura
Em todas as ruas te
encontro
em todas as ruas te
perco
A. SARMENTO MANSO (Portugal, 1964). Nascido pelo outono, ao cair das folhas, na aldeia transmontana de Izeda, ao longo de mais de meio século de existência tem-se dedicado à aprendizagem de pequenas coisas, do lugar que nos pode caber no mundo e de como a beleza nos haverá de tranquilizar.
ARIADNA PINEDA (México, 1980). Estudió la Licenciatura en Artes Visuales en la Facultad de Bellas Artes de la UMSNH, así como Diseño de moda en Instituto INMODART en la ciudad de Morelia, Michoacán. Su experiencia profesional se ha forjado creando pintura, escenografía teatral, diseño de vestuario teatral y dancístico, escultura, fotografía, ilustración y muralismo. Sus exposiciones individuales han girado la mayoría en torno al arte con técnicas experimentales realizando obras arte háptico-senso-perceptual para personas con discapacidad visual, otras exposiciones de arte fumage y pintura al óleo, todas con su particular estilo surrealista. A la fecha son 13 sus exposiciones individuales desde el 2011. Participa en exposiciones colectivas desde 1996 dando un total de 38 colectivos. Algunas de sus obras se encuentran en Italia, Canadá, EU, en manos de coleccionistas privados. Ariadna en su creación encontró un nuevo camino con precedencia a partir de años de exploración, experimentación y especialización en la pintura al óleo y el arte fumage, encontrando su propio lenguaje, hoy busca dar a conocer con luz propia su obra surrealista más reciente para tomar con mayor fuerza los caminos de la creación. Ariadna Pineda es la artista invitada de esta edición especial de Agulha Revista de Cultura.
Agulha Revista de Cultura
CODINOME ABRAXAS # 06 – ATHENA (PORTUGAL)
Artista convidada: Ariadna Pineda (México, 1980)
Editores:
Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com
Elys Regina Zils | elysre@gmail.com
ARC Edições © 2025
∞ contatos
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FLORIANO MARTINS | floriano.agulha@gmail.com
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