1 Borges tinha razão, mas não foi razoável
Creio que os jornais
fazem-se para o esquecimento,
enquanto os livros são para a memória. [1]
JORGE LUÍS BORGES
1-
O ano de 1946 decorria politicamente atribulado na República Argentina. Após ser
solto da prisão e se ter casado com Eva Duarte, Juan Domingo Perón ganhava nas urnas,
a 24 de fevereiro, o direito a residir, como presidente, na Casa Rosada. Uns meses
depois, o funcionário Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo foi remanejado
do seu lugar numa biblioteca municipal da Grande Buenos Aires, sendo mandado inspecionar
aves e coelhos nos mercados da capital.
Os motivos são notoriamentre políticos. O portenho de
47 anos, festejado inventor de Ficciones, havia assinado pronunciamentos
de intelectuais contra o general Perón. Um saneamento em coerência com os novos
tempos que sopravam nas margens do rio de la Plata.
Ignoro de todo se, em tão tumultuada época, o proscrito
já sustentava a controversa opinião expressa na epígrafe deste texto. Se já a defendia,
será caso para se dizer que o caudillo justicialista escreveu direito por linhas tortas. Nessa
conformidade, terá sido, outrossim, uma demissão com justa causa.
Embora seja difícil de acreditar que um bibliotecário
cônscio de suas responsabilidades e de suas competências segregasse um preconceito
tão bizarro, a ponto de sobrestimar os livros e de subestimar os jornais, enquanto,
eternamente perenes os primeiros, e visceralmente efêmeros os segundos, receptáculos
da memória do conhecimento humano.
2-
Seria deveras surpreendente que na biblioteca onde Borges funcionava desde 1938,
as chefias julgassem os jornais feitos para o esquecimento e os exilassem para o
sótão ou os porões do esquecimento. Tal desatino garantidamente não aconteceu.
Revestiria também o viés do inconcebível se exemplares
da edição do L’Aurore de 13 de janeiro
de 1898 e do Le Figaro de 20 de fevereiro
de 1909 fossem atirados para a Geena do
esquecimento, apenas porque não foram publicadas sob o formato de livro. O primeiro
estampava na 1ª página a carta J’ Accuse, de Émile Zola, ao presidente Felix
Faure sobre o “Caso Dreyfus”. O segundo divulgava, em primeira mão, o Manifesto
do Futurismo congeminado por Marinetti. Queremos
demolir museus e bibliotecas, avisava, no artigo 10, seu exaltado paridor. Nem
esta desabrida ameaça teria legitimado que a Biblioteca Nacional de Paris, num ato
de represália, utilizasse os exemplares para atiçar as chamas das lareiras.
Qualquer pessoa sensata consideraria um despautério,
se acaso a Biblioteca Municipal do Porto votasse, ao ostracismo do esquecimento,
exemplares do Jornal do Porto de 1866.
Afinal, foi nesse periódico que Júlio Diniz pré-publicou, em folhetins, o célebre
As Pupilas do Senhor Reitor.
Nas bibliotecas dos EUA creio não terem perecido, no
deserto do esquecimento, os exemplares do North
American Newspaper Alliance, que acolheram as reportagens de Ernest Hemingway
sobre a Guerra Civil de Espanha. Eu nunca li um romance do autor de Paris é uma Festa, mas devorei, avidamente
suas avassaladoras matérias jornalísticas.
Ademais, dificilmente acredito que, na época em que
proferiu tão sardônica boutade, Borges já não mantivesse, a bom recato, em
seus arquivos, a página do jornal portenho El
País, de 1909, onde se estampava sua versão em castelhano de O Príncipe Feliz,
de Oscar Wilde. Tinha ele apenas 10 anos.
O poeta de Los Conjurados se inclui no escol
de escritores canônicos que não iniciaram suas carreiras publicando (em) livros.
Antes de ver editado seu título de estreia – Fervor de Buenos Aires – colaborou em jornais. Em 1919, residindo em Madrid, viu mesmo recusada
a publicação de um conto pelo jornal La Esfera.
E nos anos seguintes, à medida que se tornava um consagrado, continuou associado
a periódicos. Destaco suas contribuições no suplemento literário do vespertino portenho
Crítica, onde agilizou a pré-publicação
de Historia Universal de la Infamia. No ano em que foi
saneado da biblô, assumiu a direção de Anales
de Buenos Aires, onde fez publicar Casa Tomada, um dos primeiros
contos de um promissor Julio Cortázar.
3-
A 16 de junho de 1955 desabou sobre Buenos Aires, o Bombardeio da Praça de Maio.
Forças rebeldes atacaram a Casa Rosada. Três meses depois, uma rebelião em Córdoba
obrigaria Perón a renunciar e a exilar-se. E El hacedor vê-se nomeado
diretor da Biblioteca Nacional. Ao assumir funções, ele deve ter-se deparado com
centenas, centenas de livros que nunca tinham sido requisitados, lidos, sequer folheados.
Todos mergulhados no limbo do esquecimento.
Nas nossas bibliôs pessoais também mantemos livros que
foram apenas folheados. Em contrapartida, muitos de nós, com senso de arquivista,
recortam e coletam em dossiês, matérias jornalísticas que desejamos memorar, protegendo-as,
assim, das garras do esquecimento.
Duas décadas passadas, o peronismo regressaria ao poder
nas terras do Sol de Mayo. Coerente na oposição ao restaurado regime, Borges foi
compelido a demitir-se. O afastamento terá sido contemporâneo da taxativa resposta
à pergunta de Marcos R. Barnatán. No mínimo perplexante, se tivermos em conta que
por esses anos, o prosador de El Libro de Arena escrevia com regularidade
para o jornal La Nación.
4-
Não é suficiente alegar ter razão. Para tê-la e mantê-la é preciso ser razoável,
filosofou Agostinho da Silva. E, el tigre portenho podia ter razão, mas não
foi razoável. Em regra, os jornais têm um prazo de validade muito curto, uma vida
escassa, breve, fugaz. A novidade, a atualidade de que são arautos caducam ao fim
de 24 horas, no tempo de uma semana. Concebidos para o presente, seus conteúdos
estão fadadas ao esquecimento. Todavia, não faltam exceções a essa fatal evanescência,
conforme evidenciado.
Em regra, os livros aspiram a ter uma precisão rigorosa,
quase científica, uma ponderação conceitual exigente, uma codificação apurada e
depurada. Concebidos para o presente e para o futuro, nascem vocacionados para fruírem
uma posteridade longa e desejadamente perene.
Ao articular sua leviana provocação, o biógrafo
de Evaristo Carriego propendeu a confundir o conteúdo com o continente. Editada
em formato jornal, A Rayuela de Cortázar continuaria sendo superlativa obra
de arte literária. O The Sun, editado
em formato livro, papel couché e capa dura, continuaria sendo um reles e descartável
tabloide sensacionalista. O hábito não faz o monge…
4-
Fisicamente extinto em 1986, o progenitor de Emma Zunz ficou privado de testemunhar
o advento das vertiginosas ciber-tecnologias de informação/das ágeis ciber-culturas
e impedido de vivenciar seus benefícios e malefícios. Por muitos defeitos especiais
que essas funcionalidades/utensilagens revistam, elas tendem a atenuar a alegada
antinomia entre jornais e livros.
É na vastidão sideral do ciberespaço que pipocam revistas
digitais como a Athena, veículos de expressão/comunicação
de culturarte nascidos livres da matéria que restringe, aptos a expandir o espírito
que eleva. Nessa dimensão dialética, a redutora antítese teorizada por Borges já
se tornou obsoleta, caminhando célere para a superação.
Num futuro já presente todos vamos ter nos bolsos uma
biblioteca USB Flash Drive, onde coabitam, em plena harmonia, as memórias sugeridas
pelos conteúdos de milhares de livros e jornais, cujos corpos espirituais não estarão
confinados ao corpo físico do papel.
NOTA
1. Conhecer Borges
e a sua obra, de Marcos R. Barnatán, Editora Ulisseia, Lisboa, s/d, p. 97.
2. I will survive ao GNR
Mais amigo é aquele que me critica porque me corrige, do que aquele que
me adula para me corromper.
SANTO AGOSTINHO
Ao longo da vida, muitas vezes encontramos o que queremos sem procurar.
Em regra, essa epifania acontece depois de muito procurarmos sem encontrar. Eu já
estava desistindo, quando, por acaso, numa loja do Shopping Cedofeita, avistei o
disco pousado na vitrine. Entrei, pedi autorização para apreciá-lo. Solícita, a
balconista indagou: quer ouvi-lo? Não, obrigado. E anunciei. Vai virar um disco
voador…em direção ao Brasil. É uma encomenda.
Consultando o line up, leio os nomes dos anarbandistas:
Jorge Lima Barreto/JLB (percussão, piano e sintetizador Arp Odyssey) e Rui Reininho/RR
(guitarra elétrica de braço duplo… traficada).
Rui Reininho!? Este Rui deve ser o meu (quase) colega do Alexandre Herculano.
Quase porque no ano em que ingressei no liceu, ele se mudou para o António Nobre.
Uma mudança surpreendente, sabendo-se que residia a uns cinco minutos (a pé) do
Alex. Ele aparecia de vez em quando no pedaço para conviver com os ex-colegas, vestido
segundo o lisérgico figurino hippie.
Nos anos seguintes, nos perdemos de vista, em tempos tingidos de ilusão,
utopia e delírio, pelas convulsões pós Abril 74. E a arte do reencontro se concretizou
em dois capítulos, tendo como senha “Anar Band”. Primeiro, em 1977, mediada, pelos
sulcos sonoros do vinil em apreço. A segunda, em 1978.
Na Associação de Estudantes da Faculdade de Letras do Porto pintou a
ideia de se convidar o Anar Band para um concerto aberto. E de bom grado e com agrado,
aceitei a incumbência de coproduzir o inusitado show, que lotaria o grande auditório.
Nas tarefas de produção, o Rui foi meu interlocutor mais próximo. E aproveitamos
para pôr a conversa em dia. O tema dominante teria de ser a rockamrrolesca
atualidade da seara do pop rock, semeado de cizânia e de trigo pelo movimento punk.
Não seria preciso aprofundar muito o diálogo para intuir que Reininho
já não estava muito antenado nas inebriações sônicas deste projeto de música improvisada num contexto eletroacústico,
de duas cabeças anarcas, segundo a definição de JLB. Muito pelo contrário, nesse
tempo, ele já tentava atravessar a bridge over troubled water, sintonizando
uma nova frequência cuja senha podia ser clamada em tom de mantra: God save the king… pop rock!
E 1979, seria para ele e para o rock um ano crucial. Nesse tempo, Rui
estanciava na Londres de Camden Town, Camden Lock, do Electric Ballroom, em demanda
de unkown pleasures, captando os acordes de uma nouvelle
vague. RR sondava, à imagem do Joy Division, an ideal
for living, um território firme onde sediar seu reininho. No
final da década, assume a opção de se mirar no Espelho e de tomar Atitudes, muito
inspirado na brisa soprada pelo paradigma new wave, finalmente escapada à tutela
do punk. Formações que, todavia, se finaram sem registrar sequer um single. A maior
proeza do evanescente Atitudes consistiu no privilégio de fazer a primeira parte
dos concertos de Joe Jackson em Portugal. Uma atitude drástica estava à caminho.
Em setembro de 1981, leio nos jornais que RR passava a integrar o line up
do GNR, acrônimo de Grupo Novo Rock. Rei foi a um concerto da banda, no Pavilhão
do Académico, no Porto. No final, entrevistando os guardas, escutou a convocatória para ser um gnr. Ele que tinha as malas
feitas para ir estudar cinema na escola do Conservatório de Lisboa, aceitou alistar-se
na corporação. E logrou, sagaz como é, conciliar os projetos.
Num depoimento a Blitz, o baixista Vítor Rua esclareceu
que Rui foi convidado para tocar guitarra, mas
rapidamente se chegou a conclusão que ele era um excelente performer (mais que um cantor) e era o que precisávamos:
alguém que assumisse o lugar de vocalista (…). Liderada pelo quadrumvirato Rua,
Alexandre Soares, Tóli e Reininho, a força musical compõe, em tempo record, o álbum
Independança (1982). Um certeiro, apunhalante
soco no estômago das convenções e vulgaridades do nacional pop-rockeirismo. Não
hesito em classificá-lo como o mais disrruptivo agente provocador, agitador do estereótipo
que se impunha no país, um movimento em crise, perdido na Rua do Carmo, perfumado
pelo aroma Patchouly. Uma obra-prima, em duplo sentido, visto que o quinteto (com
Miguel Megre) atingia o ápice dos Himalaias, à primeira tentativa de escalada da
indú$tria fonográfica indígena.
Yes, isto é mesmo novo rock, comentei, efusivo ao terminar a audição, escutando uma, duas, três
vezes, a faixa “Avarias”, instrumental de 26’, alardeando audácia, ousadia. Porém,
o cúmulo do desplante aconteceu no Festival de Vilar de Mouros desse ano, com a
banda avariando quase meia-hora, enquanto o gado, em manada ululante,
queria era ouver “Portugal na CEE”. Será quase escusado recordar que o
álbum foi brindado com críticas muito estimulantes. Constituiu, todavia, rotundo
fracasso de vendas. Portugal no seu melhor…O que, por paradoxo, pode ser lido como
um bom sinal. O flop estourou com o grupo,
resumiria o guitarra Alex. Os desaires não são bons conselheiros.
É a primeira avaria na máquina, provoca a deserção de um de seus mentores
intelectuais. Vítor Rua joga a toalha no palco. Ao longo desses anos 80, o GNR foi
desertando do novo rock e eu também fui desertando das suas operações discográficas.
Enquanto ouvinte, sua música deixou de estar sob escuta, de fazer parte do meu show.
Nessa década falo com o Rui uma única vez, no Fantasporto, onde ele era jurado do
festival.
No começo dos anos 90, agendamos uma entrevista para o CM, motivada pela
edição do álbum In Vivo (1990). Ao vivo,
disparo à queima-roupa. GNR significa agora Grupo Novo Reininho, em que só as líricas
não são descartáveis? Ele replica, justificando estar cansado da atitude altiva típica da avant-garde. E eu elucido
que, embora irônica, a indagação aponta para um reconhecimento. Sempre é melhor
ser esse GNR do que ser confundido como Grupo Novo Roxy…, riposto.
Nesses anos, pelo menos do ponto de vista da visibilidade pública, Rui
assomava como o líder carismático, o porta-voz inconteste do grupo, a imagem de
marca, o ator do papel protagonista, o performer, dando razão a Rua quando sugeriu
sua cooptação. Falava-se de Reininho e numa associação sinestésica configurava-se
o GNR ou, em rigor, o GN(R)R. E vice-versa. Numa comparação – nada elogiosa –, ele
ameaçava tornar-se o Brian Ferry do rock – ou roxy – lusitano. Embora os homens não se querem bonitos. O meu Reininho
não é desse mundinho. Auguro-lhe um mundo mundo. Um mundo limpo do lixo ocidental
pop(ulista), em que ele seja entronizado como um soberano RR, Rebelde e Radical.
A avaria provocada pelo viru$ do pop main$tream parecia
ser irreparável. A correnteza da deriva popless tendia a se precipitar imparável,
suscetível de transbordar o (Rock in) Rio Douro. Então desertei de vez da egrégia
instituição a$$olada por defeito$, embora e$peciai$. O $om não era me$mo, a minha
praia de Ipanema. Todavia, se tapei os ouvidos para as estragagância$
$onora$ da formação, abri, rasgados, os olhos para as extravagâncias das régias
letras nunca protestadas.
Foi essa verve fulgurante, exuberando no jogo perigoso e primoroso das
palavras, que o bardo soube plasmar nas líricas poético-literárias. (leia-se Sifilis versus Bilitis). Continuei não visitando
a (Psico)pátria geenerriana. Porém, com a Ana, lee ‘Líricas
Come on & Anas’, testemunhando que se a mú$ica do agrupamento não se sustentava
sem as letras reininhianas, estas além de autorais tinham essência e existência
autônomas, dispensando o acompanhamento da guarda pretoriana. Mesmo em voos domésticos,
el
comandante não ligava o piloto automático. Suas líricas podem não ser
sempre hardcore, mas nunca abandonam o 1º escalão. São luxo só!
Em março de 2002, tomei chá, café & etc com o monarca num sunset
boulevard da Praia de Leça da Palmeira. E sublinhei o benfazejo lenitivo de suas
líricas me terem livrado das errância$ errática$ da banda. Afinal, não abdicaste,
de todo, de estar vinculado à vanguarda. Rui sente-se alfinetado e reitera gratidão
e gratificação pelos múltiplos dividendos da aposta na onda pop. Pode ser uma coisa mais boba, mas é, de certeza,
muito mais sincera, enfatizou.
2008, ano talismã. Um álbum indie
indicia que era possível o reinado da sinceridade, isento do pecado original da
bobagem. Rei desfila ladeado por um séquito invejável, na Companhia das Indias,
de Yoko Mono, de Laika Virgem, de MORGana Penélope, do Al Fakir, do Dr. Optimista,
do Amante Preguiçoso, das Doce, de Cazuza., Não sendo um bem bombom registro, o
disco teve o condão de me reconciliar musicartisticamente com sua majestade.
Rui me disse um dia que não curtia glórias efêmeras. Para ele, Gloria
só vale a pena se for a Swanson. Se decidisse manter a esboçada Independança,
ainda teria tempo de deixar a Gloria Estefan e conquistar a Gloria Gaynor. Então,
ele poderia regiamente proclamar: I Will Survive’ ao GNR.
3 Françoise Dorléac, a peau douce de uma camélia
Suas entrevistas eram ricas em aforismos exigentes
sobre a vida e sobre o amor.
FRANÇOIS TRUFFAUT
Caminhava
impetuoso para o fastígio o verão de 1967. Num dos primeiros dias do mês de julho,
eu folheava um exemplar do Paris Match, que ganhara de um primo migrado em
França. Era uma edição toldada pelos fumos negros do luto, nas páginas onde se reportava
o desastre que vitimara uma bela e talentosa atriz dos novos tempos do Cinema francês.
Uma atriz que eu não conhecia de Carnaval nenhum e muito menos de um filme. Pelas
fotos da matéria, a extinta parecia ser uma pessoa pulsante de sangue bom, quente
e latino. Aparentava ter sido, melhor escrevendo.
No dia 26 de junho, ela dirigia, vinda de Saint Tropez,
um Renault 10 alugado, na autoestrada La Provençale/A8. Seguia em direção a Nice,
onde pegaria um avião para Paris. Receando perder o voo, acelerou em demasia, desafiando
uma chuva persistente e intensa. De repente, perdeu o controle do veículo, embatendo
num sinal de trânsito, à saída de Villeneuve-Loubet, a 10 quilómetros do aeroporto.
O carro capotou, rolou alguns metros e explodiu.
Testemunhas declararam ter visto a motorista tentando
escapar do Renault, sem conseguir abrir a porta. Quando os bombeiros dominaram as
chamas, depararam com o um corpo carbonizado no interior da carcaça ainda fumegante.
No momento era impossível apurar ser o da esbelta manequim da Christian Dior. A
polícia só a identificou a partir de fragmentos de um livro de cheques, de um diário
e da carteira de motorista. Seu nome era/é Françoise Paulette Louise Dorléac, nascida
em Paris, no dia da primavera de 1942.
France tinha pressa, muita pressa de chegar a Orly.
Não poderia falhar a conexão para Londres. No dia seguinte esperava-a uma longa
jornada de trabalho. Na agenda estava a conclusão de sua participação em Billion
Dollar Brain, de Ken Russell, uma convencional fita de espionagem. A
Solange de Les Demoiselles de Rochefort, de Jacques Demy, planejava ficar
mais um tempo na capital inglesa, promovendo a estreia deste filme que, em definitivo,
a credenciou junto do grande público e da crítica.
Quando, nos anos 80, encontrei Demy no Festival de Avellino
(Itália), consegui ser muito sincero com ele. Sem desprimor por Lola ou Les Parapluies de Cherbourg,
a fita sua que mais me agrada é Les
Demoiselles de Rochefort, muito por
culpa da Françoise Dorléac. Aquele desastre…
Françoise era uma atriz fascinante…
Um sorriso tímido, porém cordial, se acendeu espontâneo
nos lábios carmins do autor de Peau d’Âne. Na verdade, ela era especial. Uma profissional dedicada, uma ótima companheira
de trabalho. Não era só uma mulher bonita. Sendo mais preciso, a France é e será
sempre uma talentosa atriz. Não é apenas a irmã da Catherine, tragicamente desaparecida,
quando caminhava para o apogeu.
Entremeando produções de cariz comercial com filmes
de vocação artensaística, sua breve carreira de sete anos e 16 longas atinge o zênite
sob a direção de François Truffaut e Roman Polanski.
A empatia gerada entre Françoise e François torna Nicole
Chomette, a aeromoça de La Peau Douce, sua mais memorável prestação, que
estende bons auspícios para a composição da sensual e divertida Teresa de Cul-de-Sac.
Um exercício virtuoso de um tempo em que Polanski ainda conseguia ser um autor
alternativo.
Alguns anos depois, num depoimento soando a epicédio,
Truffaut contou que todas as vezes que lhe escrevia, colocava no sobrescrito “Mademoiselle
Framboise Dorléac”. De certeza, acreditava, ela leria a carta sorrindo.
Ela podia lançar sobre
alguém de quem desconfiasse, um olhar subitamente muito duro. A vida ainda não a
curtira, a indulgência viria mais tarde, sublinharia
um nostálgico François.
Sem dar chances a dúvidas, o diretor francês Emmanuel
Laurent observa que Peau Douce é um presente de amor para Françoise, pela
maneira como Truffaut a filma. Ele a seduz
com a câmera.
Se ambos fossem vivos, François imaginaria presentear
a atriz amada com uma corbeille de camélias. Foi essa a homenagem que a mana Catherine
Deneuve prestou a 15 de outubro de 2010, dia em que foi apresentada em Courbon,
uma deslumbrante variedade de camélias, batizada com o nome da irmã menos nova.
Híbrida, a flor resultou da fusão da Camellia sasanqua “Crimson King” e da
Camellia oleifera “Jaune”. O fruto desse enlace é uma flor em tons rosáceos,
onde vibram estames amarelos. No ensejo, Catherine comentou o simbolismo desse ato:
Dar a uma planta o nome de alguém que amamos
é um tributo eterno e muito reconfortante.
A intérprete da Delphine de Les Demoiselles de Rochefort já tinha homenageado France, publicando
em 1996, o livro – ilustrado de fotos de ambas – Ele s’appelait
Françoise, em colaboração com Patrick Modiano (Prêmio Nobel de Literatura em
2014). A essas lembranças se seguiu a dos Correios de França que em 2012 emitiu
um selo postal. Em Rochefort, os fãs podem se recordar dela, calcorreando a praça
batizada com seu nome.
Passadas mais de cinco décadas sobre seu súbito desaparecimento,
a flor plantada por Françoise nos ecrãs continua prenhe de viço, frescor, aroma,
perseverando imarcescível, seduzindo os cinéfilos disponíveis para afagar a pele
doce dessa camélia, colhida de uma Nova Vaga em terna e eterna preamar.
4 Eça de
Queiroz no panteão? Sim, mas com uma condição…
Ao rei tudo, menos a honra.
CALDERÓN DE LA BARCA.
I – Eça de Queiroz. A exemplaridade da sua vida, a excelência da sua
obra, a modernidade da sua herança cultural, artística, intelectual merecem ser
(bem) lembradas, são credoras de reiterados tributos. Como, por exemplo, a projeção
num ecrã de O Mandarim, a montagem num
palco de A Capital, a publicação de um
ensaio crítico sobre A Relíquia. O que
este insigne autor de dimensão universal não merece, de certeza, é ver seu descanse em paz perturbado, ter suas (prezável) memória e (impoluta)
honorabilidade molestadas pelo viés da vendeta, da armação, da instrumentalização
típicas da (baixa) política. Distorções que denunciou, deplorou, até execrou, com
estóica têmpera e fértil poder fabulatório, seja enquanto inspirado ficcionista
e talentoso romancista, seja enquanto incisivo cronista e aquilino publicista.
II- Então, concretamente, o que está acontecendo? Nos últimos dois anos,
o cidadão José Maria de Eça de Queiroz tem tido inusitada difusão nos mass
media..
Bem-vinda e melhor acolhida seria ela se nos trouxesse a notícia alvissareira de
uma mais ampla e eficaz divulgação da sua superlativa e cada vez mais atual, pertinente
e atraente opera omnia. Como testemunho dessa atração, revele-se
que numa entrevista, o poeta Jorge Luís Borges referiu que tal como ele, sua mãe
lia, prazerosa, os romances queirosianos. Triangulando com Luís de Camões e Fernando
Pessoa, o nosso estimado Zé Maria se nobilita como uma antena da raça humana. Apostamos
que Erza Pound estará de acordo.
O enredo desse mediatismo atingiu o primeiro clímax a 21 de janeiro de
2021. Nesse dia invernoso, a Assembleia da República aprovava, por unanimidade,
a resolução 55/2021, que tem como escopo conceder honras de Panteão Nacional ao
arquiteto d’A Ilustre Casa de Ramires.
A proposta tem o timbre do Grupo Parlamentar do PS, sensibilizado para a pertinência
da honraria pelo deputado José Luís Carneiro, atuando em sintonia com a direção
da Fundação Eça de Queiroz-Casa de Tormes, liderada por um trineto do escritor.
Contemplando o direito de sangue, os 22 bisnetos foram instados a se pronunciar.
Treze manifestaram apoio à trasladação, seis se opuseram e três se abstiveram.
Em sequência, o quarto (!!!) funeral deste imortal de reputação ilibada
esteve agendado para o dia 27 de setembro p.p., Lépidos, os acácios e os abranhos
já estavam alargando as fatiotas ou comprando farpela nova. Um cortejo sem pejo.
Eis que, alegando haver anomalias técnicas no processo, a oposição familiar impetrou uma providência cautelar. A fundação não tem poder de representação da
família e nos apresentou a proposta como facto consumado, após negociação com o deputado, ex-presidente
da Câmara de Baião. O cadáver do nosso bisavô não é uma sociedade por quotas,
alfineta, veemente, António Eça de Queiroz. Detalhando as objeções, realça que a
filosofia de vida de Eça está nos antípodas da famígera resolução. Se esta farsa se consumar, será um insulto à
sua memória, alerta o bisneto, incisivo cronista.
III- Perante o unanimismo obtido na AR, perante a maioria alcançada no
seio dos descendentes, a democraticidade do processo aparenta ser incontestável.
Convém lembrar, todavia, que uma deliberação democrática não se legaliza e não se
legitima somente no amparo de votações, por mais majoritárias que sejam. No caso
em apreço, o diploma estará isento de tortuosidades inconstitucionais, ainda que
tanja a cláusula pétrea da Carta Magna atinente aos direitos, liberdades e garantias
dos cidadãos. Similar normalidade não se vivencia no domínio da legitimidade ética,
moral, cívica, civilizacional. Uma decisão política como a vertente tem notório
défice de legitimidade. Denota desrespeitar a dignidade humana do homenageado, subestima
a biografia do cidadão, parecendo desentender o conteúdo e as mensagens de seu espólio
artístico-literário. Desconsidera, além de tudo, suas idiossincrasias pessoais,
sua filosofia de vida, seus contextos culturais, seus hábitos morigerados, seus
valores espirituais, seus estados de alma, suas perplexidades existenciais, seu
ideário político-ideológico.
Convirá, assim, evitar que uma ilegitimidade se imponha e perpetue. Precaver
que sob o manto diáfano de uma honraria da Pátria, se dissimule a iconoclastia da
profanação de uma (boa) memória e se alardeie a desfaçatez do desdouro de uma vida
coerente, íntegra e consequente. O bom consenso deve ter como irmão siamês o bom
senso. Este binômio não se corporizou no hemiciclo de S. Bento. Envolvido no fumo
do incenso, esse consenso não passa de filho único da insensatez e da insensibilidade.
Aquelas virtudes demonstraram ter, em 1989, o presidente da República.
Sabendo da exumação dos restos imortais de Eça no Cemitério do Alto de S. João,
em Lisboa, ele sugeriu a trasladação para o panteão. Agradecendo a distinção, as netas
foram categóricas. Ele será inumado no cemitério de Santa Cruz do Douro.
Ensejo para que o construtor de A Cidade e
as Serras reeditasse a arte do encontro com sua amada Tormes. E Mário Sores acatou com serena lhaneza
a (boa) vontade dos descendentes.
IV – A ignorância é muito atrevida, alerta a sabedoria popular. Além
de usarem de mau senso, de insensatez, de insensibilidade, os parlamentares abusam
no desentendimento da ópera do bárbaro prosador. Na sua maioria,
eles terão tido um convívio apenas epidérmico com ela, lendo, coagidos na escola,
no máximo, umas sem páginas (sem,
não tem gralha aqui). E bastaria que tivessem lido umas cem páginas de O Conde Abranhos ou de O Primo Basílio para, sendo judiciosos, descartarem
ab
initio tão necrófila obsessão. Diante de seus olhos se evidenciaria
que Eça de Queiroz não daria agrément à compelida mudança de morada, sob pena de
renegar, desmentir, invalidar as concepções, as opiniões sobre a fauna política.
Embora, este seja um raciocínio especulativo, seria surpreendente que, alterando
e adulterando suas ideias sobre o ecossistema político, concordasse em ser armazenado
por toda a eterna idade, num bafiento, soturno e desengraciado edifício,
erguido na ainda centralista e macrocéfala Lisboa. Com a agravante de ser um templo
religioso, quando é sabido que o reto cidadão foi um livre pensador, um agnóstico,
descrente da religião, por muito que admirasse Jesus de Nazaré (O Suave Milagre). Se a trasladação se realizar,
o conspícuo Eça será forçado a coabitar com vizinhos nada recomendáveis, da laia
de um Sidónio Pais e de um Óscar Carmona, militares – políticos golpistas e antidemocráticos.
Enfim, a presepada não tem atos, tem desacatos. E o que mais espanta é ter como
autor um Carneiro vizinho de Tormes… Pelo contrário, se ao lerem seus escritos,
o entenderam, pior ainda. Tem jogo perigoso nesse lance parlamentar.
V- A liminar do Supremo Tribunal Administrativo acendeu o sinal amarelo
ao recurso dos bisnetos. Aguarda-se agora a decisão final. Que os ministros tenham
benzina à mão de semear. A demissão do Governo e a dissolução da AR deixa o dossiê
em banho-maria, quando não, no congelador. Estime-se que o tribunal faça Direito
e não reitere a dura lex.
Nesse ínterim, a Athena não
se omite nem se demite de ter uma opinião e uma posição. Opinião contrária à trasladação…
para Lisboa e uma posição proativa, em busca de uma solução de compromisso. Em falação,
a maioria dos deputados é paladina da regionalização. Se forem coerentes, na certa
apoiarão a construção de uma sucursal do Panteão Nacional, em Santa Cruz do Douro.
Revele-se que não seria uma situação inédita. Em contrapartida, o notável intelectual
seria memorado no Panteão lisboeta com um cenotáfio. Eis as nossas condições para
se gerar uma alternativa.
Como vibração final, expressamos a ideia de que apartá-lo de Tormes seria
um crime de lesa memória mais condenável que o do Pe. Amaro. Se Deus criou o universo,
José Maria criou Tormes. Ele não pode ser banido do (seu) Éden, expulso do (seu)
Paraíso…
5 RomAnita, Anita Ekberg, uma
ninfa muito fellina
Quando os jornalistas mencionavam
La Dolce Vita, eu
respondia, direto, Anita Ekberg…
FEDERICO FELLINI
Certa
noite, alguém importunou a Srª D. Kerstin Anita Marianne Ekberg indagando quantos
homens ela já tivera. A deusa escandinava ouviu, suspirou e não podia ter sido mais
sibilina. Você quer dizer quantos homens,
além dos meus?!
Não serei eu a cometer a deselegância de tentar calcular
quantos homens a diva terá tido, além dos seus. Isso não é da sua conta, poderia ela ripostar. Contudo, sou menino para
arriscar a ousadia de sugerir que um dos seus
foi, é e será o donjuanesco Marcello Rubini de La Dolce Vita (1960), de
Federico Fellini, a quem aliciou para um mergulho matto, matto no
líquido subitamente escaldante da Fontana di Trevi.
Era notte a Roma, quando
visitei a barroca fonte. Perante o monumento, tentei resistir ao truísmo e ao turismo.
Desiderato igualmente perfilhado por Glauber Rocha em Claro, 1975, longa
filmado nos territórios sagrados e profanos da cidade (e)terna. E evitei capitular
a superstição. Coerente, não cumpri o ritual votivo de atirar nesse leito aquático,
a lira augúrio de boas venturas.
Embevecido, preferi puxar La Dolce… atrás e recordei
a mítica cena. Eis ainda agora, la bionda Sylvia Rank, fellina náiade,
vestindo/despindo um tomara que caia preto, afeito a desnudar o generoso torso,
encimado por lívidas saboneteiras. Marcello, come here!, desafia, num cálido
apelo de inocência e sensualidade, se a associação é autorizada.
Eu a vi pela primeira
vez numa revista americana:
uma pantera poderosa
representando a menina
travessa montada no corrimão
de uma escada.
Meu Deus – eu pensei
– não me deixes encontrá-la!
Contudo, a prece de Federico não foi, bem-aventuradamente,
escutada. Um certo dia, numa intervista com Tulio Kesich, crítico de cinema
e biógrafo de Fellini, eu não desperdicei a oportunidade de lhe perguntar se ele
conhecia a origem da luminosa ideia do banho de Silvia Rank nas Acqua Vergine da
fonte dedicada a Trívia, a menina que, reza a legenda, indicou a nascente de água
a sedentos legionários romanos.
Na resposta, Kezich tendeu a enredar o enigma, porém
sempre foi adiantando que o insight terá sido sugerido pela própria intérprete
da fogosa Sylvia.
O Federico nunca esclareceu,
nem tinha que esclarecer, esse mistério, urdido pelos críticos, jornalistas, imbuídos
de um espírito voyeur. Eu tenho a minha teoria. O Fellini vira uma foto de 1958,
em que ela aparecia com água até aos joelhos num riacho. Era uma imagem muito impressiva,
prenhe de uma estética deslumbrante. Ele terá tido, nesse momento, a inspiração
de a incluir no enredo. [1]
O banho santo nas águas benzidas pelo Papa Federico
não teve, de todo, o efeito de fechar o venerado corpo de Marianne para trivialidades
fílmicas similares aquelas de que participara na década de 50.
Personalidade suficiente parecia não escassear, todavia,
a Miss Suécia-1951, desde as eras em que foi starlet da Universal Pictures.
Prova dessa virtude é a veemência com que contestou
as pretensões de Howard Hughes. O excêntrico produtor exigira a americanização do seu sobrenome e uma plástica corretora do
nariz e dos dentes, para lhe acender em pleno as luzes dos spotlights. Pelo
menos a primeira intimação, ela recusou.
Afinal, Kerstin apenas precisava de deparar com um diretor
que iluminasse o carisma da sua cinegenia. Quis a buona fortuna que esse
cineasta fosse alguém que acreditava na música da luz. Não será descabido afirmar
que se Deus criou a Mulher, se Vadim criou a BB, Fellini inventou a Anita Ekberg.
O ser venturosamente modelado não poderia almejar maior fellicidade.
A teofania da ninfa da Fontana renderia amplos
dividendos, financeiros e estéticos, a ponto da cena se ter tornado uma das mais
representativas da História da Beleza nas Artes. Ou o Cinema não fosse a arte do
terno e eterno feminino. La cinecittà delle donne é uma felicidade, uma venturosa
Cinelândia.
Êmulo de Mandrake, Fellini continuou obtendo, com as
luci del varietà a capitalização artística da sua magicarte. A auréola de
Ekberg refulge em Boccaccio 70 (1962), no episódio Le Tentazioni
de l Dottor Antonio, onde a bombshell de Malmö dá corpo a um modelo de outdoor,
que se transforma numa tentação obsessiva na vida de um puritano cavalheiro.
Um ajuste de contas de Fellini com os moralistas que
patrulharam as licenciosidades de La
Dolce… Posteriormente integrada ao cast de insípidas produções comerciais, a
pantera poderosa faz uma fulgurante aparição
cameo em I Clowns (1970), da lavra do seu protetor.
Decorria o ano de 1987 e a cinquentona Anita continuava
bonita. Embora mais volumosa, ainda que sempre voluptuosa. Em Intervista,
sequestrado por Fellini, um Marcello Mastroianni fantasiado de Mandrake visitou-a
na Villa Pandora, a sul de Roma. Surpreendida, a anfitriã passou depressa da frieza
protocolar – Federico, tu sei un gran bugiardo
(és um grande mentiroso) – a expansão dos sinceros afetos.
E enquanto a visitada serve vinho e castanhas assadas,
Marcellodrake maneja sua bengala de condão e todos são transportados para dentro
da aguardente da Fontana, num comovente flashback da lendária passagem. Comovida,
a menina travessa não consegue evitar
que uma lágrima rebelde deslize por suas alvas faces.
Lágrimas de raiva foram aquelas que libertou, anos depois,
ao saber que um grupo anarquista protestara seu repúdio a sociedade burguesa, inquinando
de tinta vermelha as venerandas águas da Fontana. A desfaçatez deixou Anita escarlate
de revolta e de repulsa. Foi um deplorável
ato de vandalismo e uma ofensa a Roma. E o detalhe da fontana do filme
ser uma réplica erguida na Cinecittà não retira legitimidade a sua indignação.
Apesar do desaparecimento físico da diva, estou certo
de que no que de Anita depender, nunca a sua fonte mergulhará nas águas polutas
das trevas, nomeadamente as do esquecimento que ameaçam a memória do Cinemarte,
essa bela, imorredoura, imarcescível grande ilusão que torna la vita mais
dolce.
NOTA
1. Rembrandt é o autor de uma tela intitulada
Hendrickje Bathing in a river, que surpreende uma mulher em pose semelhante
a de Anita na aludida fotografia. Fellini conheceria, certamente, esse óleo do pintor
holandês, datado de 1654. Integra o acervo da National Gallery de London (United
Kingdom).
DANYEL GUERRA (aka Danni Guerra). Faz parte do Conselho Editorial de Athena, desde a Edição Zero. Nasceu na cidade do Rio de Janeiro, Brasil. Tem uma licenciatura em História Universal da Infâmia pela FLUP. É jornalista nas horas (mal) pagas e autor literário nas horas com vagas. Publicou os livros Tomás Gonzaga-Em Busca da Musa Clio, Amor, Città Aperta, O Céu sobre Berlin, Excitações Klimtorianas, O Apojo das Ninfas, Oito e demy, Fernando de Barros – O Português do Cinemoda, Os Homens da Minha Vida e Corpo Estranho. Tem uma licenciatura em História pela FLUP. E vem-se dedicando ao estudo da História do Cinema. Após ter lecionado História no Ensino Secundário, transitou para o Jornalismo, trabalhando como repórter e redator efetivo nos diários Notícias da Tarde, Jornal de Notícias e Correio da Manhã.
ARIADNA PINEDA (México, 1980). Estudió la Licenciatura en Artes Visuales en la Facultad de Bellas Artes de la UMSNH, así como Diseño de moda en Instituto INMODART en la ciudad de Morelia, Michoacán. Su experiencia profesional se ha forjado creando pintura, escenografía teatral, diseño de vestuario teatral y dancístico, escultura, fotografía, ilustración y muralismo. Sus exposiciones individuales han girado la mayoría en torno al arte con técnicas experimentales realizando obras arte háptico-senso-perceptual para personas con discapacidad visual, otras exposiciones de arte fumage y pintura al óleo, todas con su particular estilo surrealista. A la fecha son 13 sus exposiciones individuales desde el 2011. Participa en exposiciones colectivas desde 1996 dando un total de 38 colectivos. Algunas de sus obras se encuentran en Italia, Canadá, EU, en manos de coleccionistas privados. Ariadna en su creación encontró un nuevo camino con precedencia a partir de años de exploración, experimentación y especialización en la pintura al óleo y el arte fumage, encontrando su propio lenguaje, hoy busca dar a conocer con luz propia su obra surrealista más reciente para tomar con mayor fuerza los caminos de la creación. Ariadna Pineda es la artista invitada de esta edición especial de Agulha Revista de Cultura.
Agulha Revista de Cultura
CODINOME ABRAXAS # 06 – ATHENA (PORTUGAL)
Artista convidada: Ariadna Pineda (México, 1980)
Editores:
Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com
Elys Regina Zils | elysre@gmail.com
ARC Edições © 2025
∞ contatos
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FLORIANO MARTINS | floriano.agulha@gmail.com
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