quinta-feira, 4 de setembro de 2025

DANYEL GUERRA | A doce vida crítica

 


1 Borges tinha razão, mas não foi razoável

 

Creio que os jornais fazem-se para o esquecimento,

enquanto os livros são para a memória. [1]

 

JORGE LUÍS BORGES

 

1- O ano de 1946 decorria politicamente atribulado na República Argentina. Após ser solto da prisão e se ter casado com Eva Duarte, Juan Domingo Perón ganhava nas urnas, a 24 de fevereiro, o direito a residir, como presidente, na Casa Rosada. Uns meses depois, o funcionário Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo foi remanejado do seu lugar numa biblioteca municipal da Grande Buenos Aires, sendo mandado inspecionar aves e coelhos nos mercados da capital.

Os motivos são notoriamentre políticos. O portenho de 47 anos, festejado inventor de Ficciones, havia assinado pronunciamentos de intelectuais contra o general Perón. Um saneamento em coerência com os novos tempos que sopravam nas margens do rio de la Plata.

Ignoro de todo se, em tão tumultuada época, o proscrito já sustentava a controversa opinião expressa na epígrafe deste texto. Se já a defendia, será caso para se dizer que o caudillo justicialista escreveu direito por linhas tortas. Nessa conformidade, terá sido, outrossim, uma demissão com justa causa.

Embora seja difícil de acreditar que um bibliotecário cônscio de suas responsabilidades e de suas competências segregasse um preconceito tão bizarro, a ponto de sobrestimar os livros e de subestimar os jornais, enquanto, eternamente perenes os primeiros, e visceralmente efêmeros os segundos, receptáculos da memória do conhecimento humano.

 

2- Seria deveras surpreendente que na biblioteca onde Borges funcionava desde 1938, as chefias julgassem os jornais feitos para o esquecimento e os exilassem para o sótão ou os porões do esquecimento. Tal desatino garantidamente não aconteceu.

Revestiria também o viés do inconcebível se exemplares da edição do L’Aurore de 13 de janeiro de 1898 e do Le Figaro de 20 de fevereiro de 1909 fossem atirados para a Geena do esquecimento, apenas porque não foram publicadas sob o formato de livro. O primeiro estampava na 1ª página a carta J’ Accuse, de Émile Zola, ao presidente Felix Faure sobre o “Caso Dreyfus”. O segundo divulgava, em primeira mão, o Manifesto do Futurismo congeminado por Marinetti. Queremos demolir museus e bibliotecas, avisava, no artigo 10, seu exaltado paridor. Nem esta desabrida ameaça teria legitimado que a Biblioteca Nacional de Paris, num ato de represália, utilizasse os exemplares para atiçar as chamas das lareiras.

Qualquer pessoa sensata consideraria um despautério, se acaso a Biblioteca Municipal do Porto votasse, ao ostracismo do esquecimento, exemplares do Jornal do Porto de 1866. Afinal, foi nesse periódico que Júlio Diniz pré-publicou, em folhetins, o célebre As Pupilas do Senhor Reitor.

Nas bibliotecas dos EUA creio não terem perecido, no deserto do esquecimento, os exemplares do North American Newspaper Alliance, que acolheram as reportagens de Ernest Hemingway sobre a Guerra Civil de Espanha. Eu nunca li um romance do autor de Paris é uma Festa, mas devorei, avidamente suas avassaladoras matérias jornalísticas.

Ademais, dificilmente acredito que, na época em que proferiu tão sardônica boutade, Borges já não mantivesse, a bom recato, em seus arquivos, a página do jornal portenho El País, de 1909, onde se estampava sua versão em castelhano de O Príncipe Feliz, de Oscar Wilde. Tinha ele apenas 10 anos.

O poeta de Los Conjurados se inclui no escol de escritores canônicos que não iniciaram suas carreiras publicando (em) livros. Antes de ver editado seu título de estreia – Fervor de Buenos Aires colaborou em jornais. Em 1919, residindo em Madrid, viu mesmo recusada a publicação de um conto pelo jornal La Esfera. E nos anos seguintes, à medida que se tornava um consagrado, continuou associado a periódicos. Destaco suas contribuições no suplemento literário do vespertino portenho Crítica, onde agilizou a pré-publicação de Historia Universal de la Infamia. No ano em que foi saneado da biblô, assumiu a direção de Anales de Buenos Aires, onde fez publicar Casa Tomada, um dos primeiros contos de um promissor Julio Cortázar.

 

3- A 16 de junho de 1955 desabou sobre Buenos Aires, o Bombardeio da Praça de Maio. Forças rebeldes atacaram a Casa Rosada. Três meses depois, uma rebelião em Córdoba obrigaria Perón a renunciar e a exilar-se. E El hacedor vê-se nomeado diretor da Biblioteca Nacional. Ao assumir funções, ele deve ter-se deparado com centenas, centenas de livros que nunca tinham sido requisitados, lidos, sequer folheados. Todos mergulhados no limbo do esquecimento.

Nas nossas bibliôs pessoais também mantemos livros que foram apenas folheados. Em contrapartida, muitos de nós, com senso de arquivista, recortam e coletam em dossiês, matérias jornalísticas que desejamos memorar, protegendo-as, assim, das garras do esquecimento.

Duas décadas passadas, o peronismo regressaria ao poder nas terras do Sol de Mayo. Coerente na oposição ao restaurado regime, Borges foi compelido a demitir-se. O afastamento terá sido contemporâneo da taxativa resposta à pergunta de Marcos R. Barnatán. No mínimo perplexante, se tivermos em conta que por esses anos, o prosador de El Libro de Arena escrevia com regularidade para o jornal La Nación.

 

4- Não é suficiente alegar ter razão. Para tê-la e mantê-la é preciso ser razoável, filosofou Agostinho da Silva. E, el tigre portenho podia ter razão, mas não foi razoável. Em regra, os jornais têm um prazo de validade muito curto, uma vida escassa, breve, fugaz. A novidade, a atualidade de que são arautos caducam ao fim de 24 horas, no tempo de uma semana. Concebidos para o presente, seus conteúdos estão fadadas ao esquecimento. Todavia, não faltam exceções a essa fatal evanescência, conforme evidenciado.

Em regra, os livros aspiram a ter uma precisão rigorosa, quase científica, uma ponderação conceitual exigente, uma codificação apurada e depurada. Concebidos para o presente e para o futuro, nascem vocacionados para fruírem uma posteridade longa e desejadamente perene.

Ao articular sua leviana provocação, o biógrafo de Evaristo Carriego propendeu a confundir o conteúdo com o continente. Editada em formato jornal, A Rayuela de Cortázar continuaria sendo superlativa obra de arte literária. O The Sun, editado em formato livro, papel couché e capa dura, continuaria sendo um reles e descartável tabloide sensacionalista. O hábito não faz o monge…

 

4- Fisicamente extinto em 1986, o progenitor de Emma Zunz ficou privado de testemunhar o advento das vertiginosas ciber-tecnologias de informação/das ágeis ciber-culturas e impedido de vivenciar seus benefícios e malefícios. Por muitos defeitos especiais que essas funcionalidades/utensilagens revistam, elas tendem a atenuar a alegada antinomia entre jornais e livros.

É na vastidão sideral do ciberespaço que pipocam revistas digitais como a Athena, veículos de expressão/comunicação de culturarte nascidos livres da matéria que restringe, aptos a expandir o espírito que eleva. Nessa dimensão dialética, a redutora antítese teorizada por Borges já se tornou obsoleta, caminhando célere para a superação.

Num futuro já presente todos vamos ter nos bolsos uma biblioteca USB Flash Drive, onde coabitam, em plena harmonia, as memórias sugeridas pelos conteúdos de milhares de livros e jornais, cujos corpos espirituais não estarão confinados ao corpo físico do papel.

 

NOTA

1. Conhecer Borges e a sua obra, de Marcos R. Barnatán, Editora Ulisseia, Lisboa, s/d, p. 97.

 

 

2. I will survive ao GNR

 

Mais amigo é aquele que me critica porque me corrige, do que aquele que me adula para me corromper.

 

SANTO AGOSTINHO

 

Ao longo da vida, muitas vezes encontramos o que queremos sem procurar. Em regra, essa epifania acontece depois de muito procurarmos sem encontrar. Eu já estava desistindo, quando, por acaso, numa loja do Shopping Cedofeita, avistei o disco pousado na vitrine. Entrei, pedi autorização para apreciá-lo. Solícita, a balconista indagou: quer ouvi-lo? Não, obrigado. E anunciei. Vai virar um disco voador…em direção ao Brasil. É uma encomenda.


Chegando em casa, antes de rodar LP no toca-discos, vibrei. Tomara que o Paulo César tenha gosto refinado. Ele adiantou que é do gênero eletrônico, estilo experimental. Aos primeiros acordes o som gerou em mim uma brusca sensação de estranhamento. No final, dei o agrément Ave Caesar, valeu!.

Consultando o line up, leio os nomes dos anarbandistas: Jorge Lima Barreto/JLB (percussão, piano e sintetizador Arp Odyssey) e Rui Reininho/RR (guitarra elétrica de braço duplo… traficada).

Rui Reininho!? Este Rui deve ser o meu (quase) colega do Alexandre Herculano. Quase porque no ano em que ingressei no liceu, ele se mudou para o António Nobre. Uma mudança surpreendente, sabendo-se que residia a uns cinco minutos (a pé) do Alex. Ele aparecia de vez em quando no pedaço para conviver com os ex-colegas, vestido segundo o lisérgico figurino hippie.

Nos anos seguintes, nos perdemos de vista, em tempos tingidos de ilusão, utopia e delírio, pelas convulsões pós Abril 74. E a arte do reencontro se concretizou em dois capítulos, tendo como senha “Anar Band”. Primeiro, em 1977, mediada, pelos sulcos sonoros do vinil em apreço. A segunda, em 1978.

Na Associação de Estudantes da Faculdade de Letras do Porto pintou a ideia de se convidar o Anar Band para um concerto aberto. E de bom grado e com agrado, aceitei a incumbência de coproduzir o inusitado show, que lotaria o grande auditório. Nas tarefas de produção, o Rui foi meu interlocutor mais próximo. E aproveitamos para pôr a conversa em dia. O tema dominante teria de ser a rockamrrolesca atualidade da seara do pop rock, semeado de cizânia e de trigo pelo movimento punk.

Não seria preciso aprofundar muito o diálogo para intuir que Reininho já não estava muito antenado nas inebriações sônicas deste projeto de música improvisada num contexto eletroacústico, de duas cabeças anarcas, segundo a definição de JLB. Muito pelo contrário, nesse tempo, ele já tentava atravessar a bridge over troubled water, sintonizando uma nova frequência cuja senha podia ser clamada em tom de mantra: God save the king… pop rock!

E 1979, seria para ele e para o rock um ano crucial. Nesse tempo, Rui estanciava na Londres de Camden Town, Camden Lock, do Electric Ballroom, em demanda de unkown pleasures, captando os acordes de uma nouvelle vague. RR sondava, à imagem do Joy Division, an ideal for living, um território firme onde sediar seu reininho. No final da década, assume a opção de se mirar no Espelho e de tomar Atitudes, muito inspirado na brisa soprada pelo paradigma new wave, finalmente escapada à tutela do punk. Formações que, todavia, se finaram sem registrar sequer um single. A maior proeza do evanescente Atitudes consistiu no privilégio de fazer a primeira parte dos concertos de Joe Jackson em Portugal. Uma atitude drástica estava à caminho.

Em setembro de 1981, leio nos jornais que RR passava a integrar o line up do GNR, acrônimo de Grupo Novo Rock. Rei foi a um concerto da banda, no Pavilhão do Académico, no Porto. No final, entrevistando os guardas, escutou a convocatória para ser um gnr. Ele que tinha as malas feitas para ir estudar cinema na escola do Conservatório de Lisboa, aceitou alistar-se na corporação. E logrou, sagaz como é, conciliar os projetos.

Num depoimento a Blitz, o baixista Vítor Rua esclareceu que Rui foi convidado para tocar guitarra, mas rapidamente se chegou a conclusão que ele era um excelente performer (mais que um cantor) e era o que precisávamos: alguém que assumisse o lugar de vocalista (…). Liderada pelo quadrumvirato Rua, Alexandre Soares, Tóli e Reininho, a força musical compõe, em tempo record, o álbum Independança (1982). Um certeiro, apunhalante soco no estômago das convenções e vulgaridades do nacional pop-rockeirismo. Não hesito em classificá-lo como o mais disrruptivo agente provocador, agitador do estereótipo que se impunha no país, um movimento em crise, perdido na Rua do Carmo, perfumado pelo aroma Patchouly. Uma obra-prima, em duplo sentido, visto que o quinteto (com Miguel Megre) atingia o ápice dos Himalaias, à primeira tentativa de escalada da indú$tria fonográfica indígena.

Yes, isto é mesmo novo rock, comentei, efusivo ao terminar a audição, escutando uma, duas, três vezes, a faixa “Avarias”, instrumental de 26’, alardeando audácia, ousadia. Porém, o cúmulo do desplante aconteceu no Festival de Vilar de Mouros desse ano, com a banda avariando quase meia-hora, enquanto o gado, em manada ululante, queria era ouver “Portugal na CEE”. Será quase escusado recordar que o álbum foi brindado com críticas muito estimulantes. Constituiu, todavia, rotundo fracasso de vendas. Portugal no seu melhor…O que, por paradoxo, pode ser lido como um bom sinal. O flop estourou com o grupo, resumiria o guitarra Alex. Os desaires não são bons conselheiros.

É a primeira avaria na máquina, provoca a deserção de um de seus mentores intelectuais. Vítor Rua joga a toalha no palco. Ao longo desses anos 80, o GNR foi desertando do novo rock e eu também fui desertando das suas operações discográficas. Enquanto ouvinte, sua música deixou de estar sob escuta, de fazer parte do meu show. Nessa década falo com o Rui uma única vez, no Fantasporto, onde ele era jurado do festival.

No começo dos anos 90, agendamos uma entrevista para o CM, motivada pela edição do álbum In Vivo (1990). Ao vivo, disparo à queima-roupa. GNR significa agora Grupo Novo Reininho, em que só as líricas não são descartáveis? Ele replica, justificando estar cansado da atitude altiva típica da avant-garde. E eu elucido que, embora irônica, a indagação aponta para um reconhecimento. Sempre é melhor ser esse GNR do que ser confundido como Grupo Novo Roxy…, riposto.

Nesses anos, pelo menos do ponto de vista da visibilidade pública, Rui assomava como o líder carismático, o porta-voz inconteste do grupo, a imagem de marca, o ator do papel protagonista, o performer, dando razão a Rua quando sugeriu sua cooptação. Falava-se de Reininho e numa associação sinestésica configurava-se o GNR ou, em rigor, o GN(R)R. E vice-versa. Numa comparação – nada elogiosa –, ele ameaçava tornar-se o Brian Ferry do rock – ou roxy – lusitano. Embora os homens não se querem bonitos. O meu Reininho não é desse mundinho. Auguro-lhe um mundo mundo. Um mundo limpo do lixo ocidental pop(ulista), em que ele seja entronizado como um soberano RR, Rebelde e Radical.

A avaria provocada pelo viru$ do pop main$tream parecia ser irreparável. A correnteza da deriva popless tendia a se precipitar imparável, suscetível de transbordar o (Rock in) Rio Douro. Então desertei de vez da egrégia instituição a$$olada por defeito$, embora e$peciai$. O $om não era me$mo, a minha praia de Ipanema. Todavia, se tapei os ouvidos para as estragagância$ $onora$ da formação, abri, rasgados, os olhos para as extravagâncias das régias letras nunca protestadas.

Foi essa verve fulgurante, exuberando no jogo perigoso e primoroso das palavras, que o bardo soube plasmar nas líricas poético-literárias. (leia-se Sifilis versus Bilitis). Continuei não visitando a (Psico)pátria geenerriana. Porém, com a Ana, lee ‘Líricas Come on & Anas’, testemunhando que se a mú$ica do agrupamento não se sustentava sem as letras reininhianas, estas além de autorais tinham essência e existência autônomas, dispensando o acompanhamento da guarda pretoriana. Mesmo em voos domésticos, el comandante não ligava o piloto automático. Suas líricas podem não ser sempre hardcore, mas nunca abandonam o 1º escalão. São luxo só!

Em março de 2002, tomei chá, café & etc com o monarca num sunset boulevard da Praia de Leça da Palmeira. E sublinhei o benfazejo lenitivo de suas líricas me terem livrado das errância$ errática$ da banda. Afinal, não abdicaste, de todo, de estar vinculado à vanguarda. Rui sente-se alfinetado e reitera gratidão e gratificação pelos múltiplos dividendos da aposta na onda pop. Pode ser uma coisa mais boba, mas é, de certeza, muito mais sincera, enfatizou.

2008, ano talismã. Um álbum indie indicia que era possível o reinado da sinceridade, isento do pecado original da bobagem. Rei desfila ladeado por um séquito invejável, na Companhia das Indias, de Yoko Mono, de Laika Virgem, de MORGana Penélope, do Al Fakir, do Dr. Optimista, do Amante Preguiçoso, das Doce, de Cazuza., Não sendo um bem bombom registro, o disco teve o condão de me reconciliar musicartisticamente com sua majestade.

Rui me disse um dia que não curtia glórias efêmeras. Para ele, Gloria só vale a pena se for a Swanson. Se decidisse manter a esboçada Independança, ainda teria tempo de deixar a Gloria Estefan e conquistar a Gloria Gaynor. Então, ele poderia regiamente proclamar: I Will Survive’ ao GNR.

 

 

3 Françoise Dorléac, a peau douce de uma camélia

 

Suas entrevistas eram ricas em aforismos exigentes

sobre a vida e sobre o amor.

 

FRANÇOIS TRUFFAUT

 

Caminhava impetuoso para o fastígio o verão de 1967. Num dos primeiros dias do mês de julho, eu folheava um exemplar do Paris Match, que ganhara de um primo migrado em França. Era uma edição toldada pelos fumos negros do luto, nas páginas onde se reportava o desastre que vitimara uma bela e talentosa atriz dos novos tempos do Cinema francês. Uma atriz que eu não conhecia de Carnaval nenhum e muito menos de um filme. Pelas fotos da matéria, a extinta parecia ser uma pessoa pulsante de sangue bom, quente e latino. Aparentava ter sido, melhor escrevendo.

No dia 26 de junho, ela dirigia, vinda de Saint Tropez, um Renault 10 alugado, na autoestrada La Provençale/A8. Seguia em direção a Nice, onde pegaria um avião para Paris. Receando perder o voo, acelerou em demasia, desafiando uma chuva persistente e intensa. De repente, perdeu o controle do veículo, embatendo num sinal de trânsito, à saída de Villeneuve-Loubet, a 10 quilómetros do aeroporto. O carro capotou, rolou alguns metros e explodiu.

Testemunhas declararam ter visto a motorista tentando escapar do Renault, sem conseguir abrir a porta. Quando os bombeiros dominaram as chamas, depararam com o um corpo carbonizado no interior da carcaça ainda fumegante. No momento era impossível apurar ser o da esbelta manequim da Christian Dior. A polícia só a identificou a partir de fragmentos de um livro de cheques, de um diário e da carteira de motorista. Seu nome era/é Françoise Paulette Louise Dorléac, nascida em Paris, no dia da primavera de 1942.

France tinha pressa, muita pressa de chegar a Orly. Não poderia falhar a conexão para Londres. No dia seguinte esperava-a uma longa jornada de trabalho. Na agenda estava a conclusão de sua participação em Billion Dollar Brain, de Ken Russell, uma convencional fita de espionagem. A Solange de Les Demoiselles de Rochefort, de Jacques Demy, planejava ficar mais um tempo na capital inglesa, promovendo a estreia deste filme que, em definitivo, a credenciou junto do grande público e da crítica.

Quando, nos anos 80, encontrei Demy no Festival de Avellino (Itália), consegui ser muito sincero com ele. Sem desprimor por Lola ou Les Parapluies de Cherbourg, a fita sua que mais me agrada é Les Demoiselles de Rochefort, muito por culpa da Françoise Dorléac. Aquele desastre… Françoise era uma atriz fascinante…

Um sorriso tímido, porém cordial, se acendeu espontâneo nos lábios carmins do autor de Peau d’Âne. Na verdade, ela era especial. Uma profissional dedicada, uma ótima companheira de trabalho. Não era só uma mulher bonita. Sendo mais preciso, a France é e será sempre uma talentosa atriz. Não é apenas a irmã da Catherine, tragicamente desaparecida, quando caminhava para o apogeu.


Filha do ator Maurice Dorléac e da atriz Renée Simonot, Françoise tirocinou em produções um tanto triviais. Após esse aprendizado, obtém um papel mais exigente na comédia dramática Ce Soir ou Jamais, dirigida por Michel Deville. Sua Danièle agradou tanto ao criterioso Philippe de Broca, a ponto de ser escalada para encarnar Agnès, noiva de Adrien (Jean-Paul Belmondo) em L’Homme de Rio, um filme de aventura com locações no Rio de Janeiro e em Brasília.

Entremeando produções de cariz comercial com filmes de vocação artensaística, sua breve carreira de sete anos e 16 longas atinge o zênite sob a direção de François Truffaut e Roman Polanski.

A empatia gerada entre Françoise e François torna Nicole Chomette, a aeromoça de La Peau Douce, sua mais memorável prestação, que estende bons auspícios para a composição da sensual e divertida Teresa de Cul-de-Sac. Um exercício virtuoso de um tempo em que Polanski ainda conseguia ser um autor alternativo.

Alguns anos depois, num depoimento soando a epicédio, Truffaut contou que todas as vezes que lhe escrevia, colocava no sobrescrito “Mademoiselle Framboise Dorléac”. De certeza, acreditava, ela leria a carta sorrindo.

Ela podia lançar sobre alguém de quem desconfiasse, um olhar subitamente muito duro. A vida ainda não a curtira, a indulgência viria mais tarde, sublinharia um nostálgico François.

Sem dar chances a dúvidas, o diretor francês Emmanuel Laurent observa que Peau Douce é um presente de amor para Françoise, pela maneira como Truffaut a filma. Ele a seduz com a câmera.

Se ambos fossem vivos, François imaginaria presentear a atriz amada com uma corbeille de camélias. Foi essa a homenagem que a mana Catherine Deneuve prestou a 15 de outubro de 2010, dia em que foi apresentada em Courbon, uma deslumbrante variedade de camélias, batizada com o nome da irmã menos nova. Híbrida, a flor resultou da fusão da Camellia sasanqua “Crimson King” e da Camellia oleifera “Jaune”. O fruto desse enlace é uma flor em tons rosáceos, onde vibram estames amarelos. No ensejo, Catherine comentou o simbolismo desse ato: Dar a uma planta o nome de alguém que amamos é um tributo eterno e muito reconfortante.

A intérprete da Delphine de Les Demoiselles de Rochefort já tinha homenageado France, publicando em 1996, o livro – ilustrado de fotos de ambas –  Ele s’appelait Françoise, em colaboração com Patrick Modiano (Prêmio Nobel de Literatura em 2014). A essas lembranças se seguiu a dos Correios de França que em 2012 emitiu um selo postal. Em Rochefort, os fãs podem se recordar dela, calcorreando a praça batizada com seu nome.

Passadas mais de cinco décadas sobre seu súbito desaparecimento, a flor plantada por Françoise nos ecrãs continua prenhe de viço, frescor, aroma, perseverando imarcescível, seduzindo os cinéfilos disponíveis para afagar a pele doce dessa camélia, colhida de uma Nova Vaga em terna e eterna preamar.

 

 

4 Eça de Queiroz no panteão? Sim, mas com uma condição…

 

Ao rei tudo, menos a honra.

 

CALDERÓN DE LA BARCA.

 

I – Eça de Queiroz. A exemplaridade da sua vida, a excelência da sua obra, a modernidade da sua herança cultural, artística, intelectual merecem ser (bem) lembradas, são credoras de reiterados tributos. Como, por exemplo, a projeção num ecrã de O Mandarim, a montagem num palco de A Capital, a publicação de um ensaio crítico sobre A Relíquia. O que este insigne autor de dimensão universal não merece, de certeza, é ver seu descanse em paz perturbado, ter suas (prezável) memória e (impoluta) honorabilidade molestadas pelo viés da vendeta, da armação, da instrumentalização típicas da (baixa) política. Distorções que denunciou, deplorou, até execrou, com estóica têmpera e fértil poder fabulatório, seja enquanto inspirado ficcionista e talentoso romancista, seja enquanto incisivo cronista e aquilino publicista.

 

II- Então, concretamente, o que está acontecendo? Nos últimos dois anos, o cidadão José Maria de Eça de Queiroz tem tido inusitada difusão nos mass media.. Bem-vinda e melhor acolhida seria ela se nos trouxesse a notícia alvissareira de uma mais ampla e eficaz divulgação da sua superlativa e cada vez mais atual, pertinente e atraente opera omnia. Como testemunho dessa atração, revele-se que numa entrevista, o poeta Jorge Luís Borges referiu que tal como ele, sua mãe lia, prazerosa, os romances queirosianos. Triangulando com Luís de Camões e Fernando Pessoa, o nosso estimado Zé Maria se nobilita como uma antena da raça humana. Apostamos que Erza Pound estará de acordo.

O enredo desse mediatismo atingiu o primeiro clímax a 21 de janeiro de 2021. Nesse dia invernoso, a Assembleia da República aprovava, por unanimidade, a resolução 55/2021, que tem como escopo conceder honras de Panteão Nacional ao arquiteto d’A Ilustre Casa de Ramires. A proposta tem o timbre do Grupo Parlamentar do PS, sensibilizado para a pertinência da honraria pelo deputado José Luís Carneiro, atuando em sintonia com a direção da Fundação Eça de Queiroz-Casa de Tormes, liderada por um trineto do escritor. Contemplando o direito de sangue, os 22 bisnetos foram instados a se pronunciar. Treze manifestaram apoio à trasladação, seis se opuseram e três se abstiveram.

Em sequência, o quarto (!!!) funeral deste imortal de reputação ilibada esteve agendado para o dia 27 de setembro p.p., Lépidos, os acácios e os abranhos já estavam alargando as fatiotas ou comprando farpela nova. Um cortejo sem pejo. Eis que, alegando haver anomalias técnicas no processo, a oposição familiar impetrou uma providência cautelar. A fundação não tem poder de representação da família e nos apresentou a proposta como facto consumado, após negociação com o deputado, ex-presidente da Câmara de Baião. O cadáver do nosso bisavô não é uma sociedade por quotas, alfineta, veemente, António Eça de Queiroz. Detalhando as objeções, realça que a filosofia de vida de Eça está nos antípodas da famígera resolução. Se esta farsa se consumar, será um insulto à sua memória, alerta o bisneto, incisivo cronista.

 

III- Perante o unanimismo obtido na AR, perante a maioria alcançada no seio dos descendentes, a democraticidade do processo aparenta ser incontestável. Convém lembrar, todavia, que uma deliberação democrática não se legaliza e não se legitima somente no amparo de votações, por mais majoritárias que sejam. No caso em apreço, o diploma estará isento de tortuosidades inconstitucionais, ainda que tanja a cláusula pétrea da Carta Magna atinente aos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos. Similar normalidade não se vivencia no domínio da legitimidade ética, moral, cívica, civilizacional. Uma decisão política como a vertente tem notório défice de legitimidade. Denota desrespeitar a dignidade humana do homenageado, subestima a biografia do cidadão, parecendo desentender o conteúdo e as mensagens de seu espólio artístico-literário. Desconsidera, além de tudo, suas idiossincrasias pessoais, sua filosofia de vida, seus contextos culturais, seus hábitos morigerados, seus valores espirituais, seus estados de alma, suas perplexidades existenciais, seu ideário político-ideológico.

Convirá, assim, evitar que uma ilegitimidade se imponha e perpetue. Precaver que sob o manto diáfano de uma honraria da Pátria, se dissimule a iconoclastia da profanação de uma (boa) memória e se alardeie a desfaçatez do desdouro de uma vida coerente, íntegra e consequente. O bom consenso deve ter como irmão siamês o bom senso. Este binômio não se corporizou no hemiciclo de S. Bento. Envolvido no fumo do incenso, esse consenso não passa de filho único da insensatez e da insensibilidade.

Aquelas virtudes demonstraram ter, em 1989, o presidente da República. Sabendo da exumação dos restos imortais de Eça no Cemitério do Alto de S. João, em Lisboa, ele sugeriu a trasladação para o panteão. Agradecendo a distinção, as netas foram categóricas. Ele será inumado no cemitério de Santa Cruz do Douro. Ensejo para que o construtor de A Cidade e as Serras reeditasse a arte do encontro com sua amada Tormes. E Mário Sores acatou com serena lhaneza a (boa) vontade dos descendentes.

 

IV – A ignorância é muito atrevida, alerta a sabedoria popular. Além de usarem de mau senso, de insensatez, de insensibilidade, os parlamentares abusam no desentendimento da ópera do bárbaro prosador. Na sua maioria, eles terão tido um convívio apenas epidérmico com ela, lendo, coagidos na escola, no máximo, umas sem páginas (sem, não tem gralha aqui). E bastaria que tivessem lido umas cem páginas de O Conde Abranhos ou de O Primo Basílio para, sendo judiciosos, descartarem ab initio tão necrófila obsessão. Diante de seus olhos se evidenciaria que Eça de Queiroz não daria agrément à compelida mudança de morada, sob pena de renegar, desmentir, invalidar as concepções, as opiniões sobre a fauna política. Embora, este seja um raciocínio especulativo, seria surpreendente que, alterando e adulterando suas ideias sobre o ecossistema político, concordasse em ser armazenado por toda a eterna idade, num bafiento, soturno e desengraciado edifício, erguido na ainda centralista e macrocéfala Lisboa. Com a agravante de ser um templo religioso, quando é sabido que o reto cidadão foi um livre pensador, um agnóstico, descrente da religião, por muito que admirasse Jesus de Nazaré (O Suave Milagre). Se a trasladação se realizar, o conspícuo Eça será forçado a coabitar com vizinhos nada recomendáveis, da laia de um Sidónio Pais e de um Óscar Carmona, militares – políticos golpistas e antidemocráticos. Enfim, a presepada não tem atos, tem desacatos. E o que mais espanta é ter como autor um Carneiro vizinho de Tormes… Pelo contrário, se ao lerem seus escritos, o entenderam, pior ainda. Tem jogo perigoso nesse lance parlamentar.


Quem ora lê este arrazoado, conhece, certamente, tanto ou até mais do que nós, o (mau) conceito reputacional expresso por Eça acerca da natureza e comportamento de políticos grávidos de empáfia, prenhes de prosápia, inchados de húbris, odres repletos de sonsice. Façanhas e tropelias, boçalidades e venalidades que flechou certeiro, setas embebidas em ironia, sarcasmo, mordácia e humor, disparadas de uma pena afiada e ferina. Por esse motivo, não vamos chover no molhado. O modo mais genuíno de honrar o nome, a memória e a herança deste egrégio avô será ler e estudar seus livros. Translação em vez de trasladação. Eis o caso emblemático de Erich von Stroheim, gênio banido de Hollywood. Ele leu O Primo Basílio e ficou tão fascinado que cogitou adaptá-lo ao ecrã. A morte malogrou essa intenção.

 

V- A liminar do Supremo Tribunal Administrativo acendeu o sinal amarelo ao recurso dos bisnetos. Aguarda-se agora a decisão final. Que os ministros tenham benzina à mão de semear. A demissão do Governo e a dissolução da AR deixa o dossiê em banho-maria, quando não, no congelador. Estime-se que o tribunal faça Direito e não reitere a dura lex.

Nesse ínterim, a Athena não se omite nem se demite de ter uma opinião e uma posição. Opinião contrária à trasladação… para Lisboa e uma posição proativa, em busca de uma solução de compromisso. Em falação, a maioria dos deputados é paladina da regionalização. Se forem coerentes, na certa apoiarão a construção de uma sucursal do Panteão Nacional, em Santa Cruz do Douro. Revele-se que não seria uma situação inédita. Em contrapartida, o notável intelectual seria memorado no Panteão lisboeta com um cenotáfio. Eis as nossas condições para se gerar uma alternativa.

Como vibração final, expressamos a ideia de que apartá-lo de Tormes seria um crime de lesa memória mais condenável que o do Pe. Amaro. Se Deus criou o universo, José Maria criou Tormes. Ele não pode ser banido do (seu) Éden, expulso do (seu) Paraíso…

 

 

5 RomAnita, Anita Ekberg, uma ninfa muito fellina

 

Quando os jornalistas mencionavam La Dolce Vita, eu

respondia, direto, Anita Ekberg…

 

FEDERICO FELLINI

 

Certa noite, alguém importunou a Srª D. Kerstin Anita Marianne Ekberg indagando quantos homens ela já tivera. A deusa escandinava ouviu, suspirou e não podia ter sido mais sibilina. Você quer dizer quantos homens, além dos meus?!

Não serei eu a cometer a deselegância de tentar calcular quantos homens a diva terá tido, além dos seus. Isso não é da sua conta, poderia ela ripostar. Contudo, sou menino para arriscar a ousadia de sugerir que um dos seus foi, é e será o donjuanesco Marcello Rubini de La Dolce Vita (1960), de Federico Fellini, a quem aliciou para um mergulho matto, matto no líquido subitamente escaldante da Fontana di Trevi.

Era notte a Roma, quando visitei a barroca fonte. Perante o monumento, tentei resistir ao truísmo e ao turismo. Desiderato igualmente perfilhado por Glauber Rocha em Claro, 1975, longa filmado nos territórios sagrados e profanos da cidade (e)terna. E evitei capitular a superstição. Coerente, não cumpri o ritual votivo de atirar nesse leito aquático, a lira augúrio de boas venturas.

Embevecido, preferi puxar La Dolce… atrás e recordei a mítica cena. Eis ainda agora, la bionda Sylvia Rank, fellina náiade, vestindo/despindo um tomara que caia preto, afeito a desnudar o generoso torso, encimado por lívidas saboneteiras. Marcello, come here!, desafia, num cálido apelo de inocência e sensualidade, se a associação é autorizada.

 

Eu a vi pela primeira vez numa revista americana:

uma pantera poderosa representando a menina

travessa montada no corrimão de uma escada.

Meu Deus – eu pensei – não me deixes encontrá-la!

 

Contudo, a prece de Federico não foi, bem-aventuradamente, escutada. Um certo dia, numa intervista com Tulio Kesich, crítico de cinema e biógrafo de Fellini, eu não desperdicei a oportunidade de lhe perguntar se ele conhecia a origem da luminosa ideia do banho de Silvia Rank nas Acqua Vergine da fonte dedicada a Trívia, a menina que, reza a legenda, indicou a nascente de água a sedentos legionários romanos.

Na resposta, Kezich tendeu a enredar o enigma, porém sempre foi adiantando que o insight terá sido sugerido pela própria intérprete da fogosa Sylvia.

 

O Federico nunca esclareceu, nem tinha que esclarecer, esse mistério, urdido pelos críticos, jornalistas, imbuídos de um espírito voyeur. Eu tenho a minha teoria. O Fellini vira uma foto de 1958, em que ela aparecia com água até aos joelhos num riacho. Era uma imagem muito impressiva, prenhe de uma estética deslumbrante. Ele terá tido, nesse momento, a inspiração de a incluir no enredo. [1]

 

O banho santo nas águas benzidas pelo Papa Federico não teve, de todo, o efeito de fechar o venerado corpo de Marianne para trivialidades fílmicas similares aquelas de que participara na década de 50.

Personalidade suficiente parecia não escassear, todavia, a Miss Suécia-1951, desde as eras em que foi starlet da Universal Pictures.

Prova dessa virtude é a veemência com que contestou as pretensões de Howard Hughes. O excêntrico produtor exigira a americanização do seu sobrenome e uma plástica corretora do nariz e dos dentes, para lhe acender em pleno as luzes dos spotlights. Pelo menos a primeira intimação, ela recusou.

Afinal, Kerstin apenas precisava de deparar com um diretor que iluminasse o carisma da sua cinegenia. Quis a buona fortuna que esse cineasta fosse alguém que acreditava na música da luz. Não será descabido afirmar que se Deus criou a Mulher, se Vadim criou a BB, Fellini inventou a Anita Ekberg. O ser venturosamente modelado não poderia almejar maior fellicidade.

A teofania da ninfa da Fontana renderia amplos dividendos, financeiros e estéticos, a ponto da cena se ter tornado uma das mais representativas da História da Beleza nas Artes. Ou o Cinema não fosse a arte do terno e eterno feminino. La cinecittà delle donne é uma felicidade, uma venturosa Cinelândia.

Êmulo de Mandrake, Fellini continuou obtendo, com as luci del varietà a capitalização artística da sua magicarte. A auréola de Ekberg refulge em Boccaccio 70 (1962), no episódio Le Tentazioni de l Dottor Antonio, onde a bombshell de Malmö dá corpo a um modelo de outdoor, que se transforma numa tentação obsessiva na vida de um puritano cavalheiro.

Um ajuste de contas de Fellini com os moralistas que patrulharam as licenciosidades de La Dolce… Posteriormente integrada ao cast de insípidas produções comerciais, a pantera poderosa faz uma fulgurante aparição cameo em I Clowns (1970), da lavra do seu protetor.

Decorria o ano de 1987 e a cinquentona Anita continuava bonita. Embora mais volumosa, ainda que sempre voluptuosa. Em Intervista, sequestrado por Fellini, um Marcello Mastroianni fantasiado de Mandrake visitou-a na Villa Pandora, a sul de Roma. Surpreendida, a anfitriã passou depressa da frieza protocolar – Federico, tu sei un gran bugiardo (és um grande mentiroso) – a expansão dos sinceros afetos.

E enquanto a visitada serve vinho e castanhas assadas, Marcellodrake maneja sua bengala de condão e todos são transportados para dentro da aguardente da Fontana, num comovente flashback da lendária passagem. Comovida, a menina travessa não consegue evitar que uma lágrima rebelde deslize por suas alvas faces.

Lágrimas de raiva foram aquelas que libertou, anos depois, ao saber que um grupo anarquista protestara seu repúdio a sociedade burguesa, inquinando de tinta vermelha as venerandas águas da Fontana. A desfaçatez deixou Anita escarlate de revolta e de repulsa. Foi um deplorável ato de vandalismo e uma ofensa a Roma. E o detalhe da fontana do filme ser uma réplica erguida na Cinecittà não retira legitimidade a sua indignação.

Apesar do desaparecimento físico da diva, estou certo de que no que de Anita depender, nunca a sua fonte mergulhará nas águas polutas das trevas, nomeadamente as do esquecimento que ameaçam a memória do Cinemarte, essa bela, imorredoura, imarcescível grande ilusão que torna la vita mais dolce.

 

NOTA

1. Rembrandt é o autor de uma tela intitulada Hendrickje Bathing in a river, que surpreende uma mulher em pose semelhante a de Anita na aludida fotografia. Fellini conheceria, certamente, esse óleo do pintor holandês, datado de 1654. Integra o acervo da National Gallery de London (United Kingdom).

 

 


DANYEL GUERRA (aka Danni Guerra). Faz parte do Conselho Editorial de Athena, desde a Edição Zero. Nasceu na cidade do Rio de Janeiro, Brasil. Tem uma licenciatura em História Universal da Infâmia pela FLUP. É jornalista nas horas (mal) pagas e autor literário nas horas com vagas. Publicou os livros Tomás Gonzaga-Em Busca da Musa Clio, Amor, Città Aperta, O Céu sobre Berlin, Excitações Klimtorianas, O Apojo das Ninfas, Oito e demy, Fernando de Barros – O Português do Cinemoda, Os Homens da Minha Vida e Corpo Estranho. Tem uma licenciatura em História pela FLUP. E vem-se dedicando ao estudo da História do Cinema. Após ter lecionado História no Ensino Secundário, transitou para o Jornalismo, trabalhando como repórter e redator efetivo nos diários Notícias da Tarde, Jornal de Notícias e Correio da Manhã.




ARIADNA PINEDA (México, 1980). Estudió la Licenciatura en Artes Visuales en la Facultad de Bellas Artes de la UMSNH, así como Diseño de moda en Instituto INMODART en la ciudad de Morelia, Michoacán. Su experiencia profesional se ha forjado creando pintura, escenografía teatral, diseño de vestuario teatral y dancístico, escultura, fotografía, ilustración y muralismo. Sus exposiciones individuales han girado la mayoría en torno al arte con técnicas experimentales realizando obras arte háptico-senso-perceptual para personas con discapacidad visual, otras exposiciones de arte fumage y pintura al óleo, todas con su particular estilo surrealista. A la fecha son 13 sus exposiciones individuales desde el 2011. Participa en exposiciones colectivas desde 1996 dando un total de 38 colectivos. Algunas de sus obras se encuentran en Italia, Canadá, EU, en manos de coleccionistas privados. Ariadna en su creación encontró un nuevo camino con precedencia a partir de años de exploración, experimentación y especialización en la pintura al óleo y el arte fumage, encontrando su propio lenguaje, hoy busca dar a conocer con luz propia su obra surrealista más reciente para tomar con mayor fuerza los caminos de la creación. Ariadna Pineda es la artista invitada de esta edición especial de Agulha Revista de Cultura.

 


Agulha Revista de Cultura

CODINOME ABRAXAS # 06 – ATHENA (PORTUGAL)

Artista convidada: Ariadna Pineda (México, 1980)

Editores:

Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com

Elys Regina Zils | elysre@gmail.com

ARC Edições © 2025




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