sábado, 21 de março de 2026

FLORIANO MARTINS | Chá para dois – conversando com Nelly Sanchez

 


O encontro com Nelly Sanchez é um desses brindes do acaso e que chegam com a fortuna mágica de muitos fragmentos de uma realidade maravilhosa. Nascida na França, em 1974, ela é uma artista plástica e colagista. Esses dois domínios são completos, bem como a reflexão sobre a mulher de letras que ecoa no universo surrealista de suas obras onde predomina o humor e a mulher, pois Nelly Sanchez é uma especialista na literatura feminina francesa do final do século XIX e da estreia do século XX; Rachilde, Renée Vivien, Lucie Delarue-Mardrus, são algumas das autoras que ela tem estudado. Nossa conversa gira em torno desse tríplice ambiente: a poesia, a colagem e seus estudos sobre a escrita feminina. [FM]


FM | Há pouco conversamos sobre a mescla de criação e reflexão crítica de nossas obras, e me dizias que preferia criar. Quando falamos acerca do tempo que dedicamos a tudo o que fazemos, lembro que eu te disse: Não acho que alcançamos o tempo, ele está sempre diante de nós. O que distingue as pessoas é o que elas podem, sabem e querem fazer com o tempo. Começo este nosso diálogo indagando sobre a tua relação com o tempo.


NS | O tempo é uma espécie de cartela de cores. Cada hora tem sua própria cor, sua sombra distinta, seu próprio sabor. Cada hora também tem seu próprio ritmo: os minutos não se comportam da mesma maneira ao meio-dia e à meia-noite.

O tempo não escorre por entre meus dedos; sinto como se habitasse o tempo. Quando a noite cai, eu me acomodo para escrever e criar. As horas se estendem como uma paisagem tranquila, envolvendo-me, e eu vivo no centro delas.


FM | Em seguida passamos para o interlocutor, essa entidade por vezes imperceptível com a qual conversamos ao criar. Eu não me refiro exatamente a influências, mas sim a um duplo espiritual com quem dialogas em tua criação.


NS | Essa interlocutora... É uma espécie de caçadora de tesouros, colhedora de cogumelos ou plantas silvestres, é também uma menina que coleciona conchas e pedaços de vidro polido encontrados na praia. Essa dupla espiritual é uma questionadora incansável do mundo que a rodeia e que detesta a resposta: É assim e não de outra forma.

Isso implica um questionamento permanente e uma grande sede de aprender. Acho que vou precisar de várias vidas para conseguir fazer tudo o que quero.


FM | O espectro de tua criação/reflexão engloba a colagem, o poema e os estudos sobre a vida e a obra de mulheres na tradição literária francesa, sobretudo aquelas relacionadas ao Naturalismo. Considerando aspectos como a condição obscura da maior parte dessas escritoras, o imperativo de trazer à cena sua genealogia literária e a tua própria afinidade com o Surrealismo, nunca pensaste em ampliar o espectro de tuas leituras envolvendo escritoras surrealistas, cuja misoginia localizada sobretudo no momento inaugural deste movimento tenha sido um obstáculo à projeção das obras dessas mulheres?


NS | De fato, considerei incluir surrealistas em minha pesquisa. Acho até que uma das minhas primeiras dissertações, quando era estudante, foi sobre a linguagem nos poemas dadaístas de Tristan Tzara. Você está certo, os homens são raros em minha pesquisa: poderia citar Saint-John Perse, Arthur Rimbaud ou Yves Bonnefoy. Há também aqueles que gravitam em torno das escritoras que estudo, mas são figuras secundárias. Talvez eu me sinta estranha à linguagem dos homens; não me sinto no direito de estudá-la.

Não sei como explicar essa preferência por escritoras. Precisamente porque elas são esquecidas, porque oferecem uma perspectiva diferente e sua história não é a do homem branco que se estabeleceu como norma para a humanidade. Elas revelam outra maneira de entender o mundo e a realidade. Cada mulher de letras que estudo desperta um eco, o de uma irmandade esquecida.



 FM | A partir de uma crítica assinada por Mylène Bédard à correspondência de Georges de Peyrebrune, volume organizado por ti, eu queria indagar algumas coisas. A primeira delas diz respeito a uma analogia possível entre o teu trabalho, de recuperação da escrita feminina, e outras estudiosas, a exemplo de Charlotte Kerner, Nicole Casanova e Sylvie Ducas. É possível traçar uma relação à tua percepção do tema e a percepção delas?


NS | Nossas abordagens acadêmicas e literárias apresentam, de fato, muitos pontos em comum. Exploramos, com nossa sensibilidade pessoal e nossos centros de interesse, o campo muitas vezes negligenciado da literatura feminina, sua história, as relações que existem entre as mulheres de letras. Às vezes, me apresento como uma arqueóloga da literatura, pois desenterro mulheres de letras esquecidas e procuro revelar seu valor e o lugar que ocuparam em sua época, como Camille Delaville, Rachilde, Georges de Peyrebrune ou, mais recentemente, Renée Vivien.


FM | Mylène Bedard também observa que teu estudo sobre Georges de Peyrebrune, embora ilumine zonas fundamentais de vida e obra dessa romancista, não explica o esquecimento precoce em que ela cai gradualmente a partir de 1910. Gostaria que me falasses a este respeito, estendendo o tema a outras autoras de teu interesse, inclusive mencionando até que ponto foi uma influência negativa a ser considerada nessas escritoras o espectro da bas-bleu que caracterizava o período.


NS | O espectro das bas-bleu desapareceu com o século XIX. Até à véspera da Primeira Guerra Mundial, as autoras femininas eram, pelo contrário, as novas rainhas da cena literária, graças à publicidade. Elas renovaram o género do romance e ofereceram uma nova abordagem à poesia.

Com o aumento das tensões entre a França e a Alemanha (1910-1914), os valores masculinos e guerreiros reapareceram. O espírito de vingança voltou à tona e rapidamente ofuscou todas essas autoras. Georges de Peyrebrune caiu no esquecimento porque foi incapaz de se reinventar e ficou ultrapassada.

Entre as décadas de 1930 e 1940, diante do crescente nacionalismo, as autoras tiveram muita dificuldade em se destacar e sua fama era muitas vezes muito efêmera. A literatura feminina desse período é sempre suspeita de ser piegas, frívola e sentimental. Para escapar desses preconceitos, muitas mulheres usam um pseudônimo masculino. Se eu resumir a situação, não estarei exagerando.


FM | A recuperação de traços biográficos, reprodução epistolar e a presença ampliada de estudos críticos sobre criadores literários, sejam homens ou mulheres, nem sempre corresponde ao acesso às próprias obras, o que deixa os leitores, de certo modo, à mercê da opinião crítica sobre esses autores. Ou seja, é bom que se saiba acerca de estilos, temas característicos, recepção crítica, porém isto só faz sentido quando é possível também ler os livros, a criação literária em si. Neste sentido, como o mercado editorial tem reagido à necessidade de inclusão em seus catálogos de livros das autoras às quais tens dedicado teus estudos? – refiro autoras como Renée Vivien, Camille Delaville, Georges de Peyrebrune, Anna de Noailles, dentre outras.



 NS | A reedição de obras esquecidas depende de muitos fatores. Por exemplo, no caso de Rachilde, cuja obra fui uma das primeiras a explorar na minha tese, o seu trabalho teve de cair no domínio público antes de poder ser reeditado e revelado ao público.

A moda desempenha um papel importante na redescoberta de autores esquecidos. Em 2024, comemoramos o centenário do Manifesto Surrealista de André Breton, e muitos textos, cartas e obras foram reeditados e exibidos.

Se as editoras não perceberem o valor de republicar as obras que você lhes apresenta — estou pensando nas de Camille Delaville —, elas não correrão riscos e recusarão. Elas republicarão uma ou duas obras do autor, sempre as mesmas, as mais conhecidas, mas nada mais. Os romances são preferidos aos contos e à poesia.


FM | Agora conversaremos sobre a tua criação, em primeiro plano a relação possível, segundo teu entendimento, entre imagem plástica e imagem poética, ou seja, colagens e poemas. De que modo a fonte ulterior, o espírito criativo, reconhece que deve se expressar na forma plástica ou poética?


NS | Tudo começa com uma palavra ou uma imagem encontrada por acaso. Cada elemento tem o poder de uma chave para abrir uma porta que dá acesso a uma realidade insuspeita. Mas a metáfora do quebra-cabeça é, sem dúvida, mais adequada. Cada imagem, cada palavra associada a outras revela uma nova visão do mundo. Ao reorganizar as imagens e as palavras, reorganizamos a realidade. Uma nova verdade é revelada para ser descoberta.


FM | O fato de, nas colagens, não utilizares a tecnologia digital, é apenas uma característica, onde te sentes melhor recorrendo ao mundo manual da tesoura, cola e papel, ou alguma fobia tecnológica?


NS | É uma característica do meu trabalho e da minha relação com o mundo. Há todo o prazer tátil, sensual, de tocar o papel, de apreciá-lo. Segue-se o prazer de dar vida, com os dedos, com uma tesoura ou um bisturi, a cada elemento das minhas colagens.

E é também uma forma de solicitar o acaso, a sorte e estimular a minha imaginação: criar a partir do que encontro, do que me é dado pelo mundo.


FM | Já disseste que tuas colagens são inscritas no prolongamento de teus estudos literários sobre o romance feminino, o que nos leva a pensar que entendes a colagem como um procedimento narrativo, como se individualmente, ou mesmo no conjunto de uma série apresentada, estivesses a contar uma história. É isto mesmo? E quando saltas da colagem para o poema, com sua essência lírica, de que modo esse princípio narrativo se verifica?


NS | Minhas colagens têm, de fato, uma dimensão narrativa, já que peço ao espectador que construa uma história diante de cada imagem, cada paisagem que lhes apresento. O título das minhas colagens existe apenas para incentivá-los a entrar no jogo. O título é simplesmente um convite para atravessar o espelho das convenções e seguir sua imaginação. O ponto em comum entre minhas colagens e minha escrita é o trabalho com fragmentos.

Para as minhas colagens, recorto papel; para as minhas pesquisas sobre literatura feminina, recolho elementos narrativos, biográficos, etc., para construir sentido, para alimentar a minha reflexão. É por isso que adoro ler romances policiais e que gosto de os escrever. Tudo não passa de uma busca de sentido, de verdade.

A poesia não foge à regra: meus poemas são construídos a partir de palavras que recorto das páginas dos livros. Através dessas linhas, busco o sentido oculto das palavras, o coração vivo da linguagem. Seu lirismo.

Essa maneira de escrever poesia é o espelho que me sirvo para escapar da mediocridade das convenções.



 FM | De que modo a presença feminina na literatura francesa encontra hoje um mundo mais atento à sua genealogia?


NS | A ideia da genealogia feminina é totalmente nova. Acredito ter sido uma das primeiras a identificá-la. Durante muito tempo, acreditava-se que as escritoras estavam isoladas umas das outras, isoladas do mundo e das tendências, cegas e surdas em uma torre de marfim. Isso ignorava o fato de que elas são as leitoras mais ávidas!

A ideia de genealogia está ganhando espaço, auxiliada pelos estudos de gênero. Além disso, as autoras estão mais dispostas a revelar suas fontes de inspiração. Elas mostram seu conhecimento do mundo e de sua época, suas habilidades.


FM | Esquecemos algo? Gostarias de conversar sobre algum outro tema?


NS | Tenho a impressão de que percorremos todo o meu universo, exploramos recantos insuspeitados e trilhamos novos caminhos. Obrigado por me permitir refletir sobre certas coisas, como minha relação com o tempo e meu duplo espiritual!

Espero que, ao sintetizar meu pensamento, não o tenha tornado muito obscuro. Mais uma vez, obrigado por esta entrevista! Tenha um ótimo dia!




FLORIANO MARTINS (Fortaleza, 1957). Poeta, editor, dramaturgo, ensaísta, artista plástico e tradutor. Criou em 1999 a Agulha Revista de Cultura. Coordenou (2005-2010) a coleção “Ponte Velha” de autores portugueses da Escrituras Editora (São Paulo). Curador do projeto “Atlas Lírico da América Hispânica”, da revista Acrobata. Esteve presente em festivais de poesia realizados em países como Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, El Salvador, Equador, Espanha, México, Nicarágua, Panamá, Portugal e Venezuela. Curador da Bienal Internacional do Livro do Ceará (Brasil, 2008), e membro do júri do Prêmio Casa das Américas (Cuba, 2009), foi professor convidado da Universidade de Cincinnati (Ohio, Estados Unidos, 2010). Tradutor de livros de César Moro, Federico García Lorca, Guillermo Cabrera Infante, Vicente Huidobro, Hans Arp, Juan Calzadilla, Enrique Molina, Jorge Luis Borges, Aldo Pellegrini e Pablo Antonio Cuadra. Entre seus livros mais recentes se destacam Un poco más de surrealismo no hará ningún daño a la realidad (ensaio, México, 2015), O iluminismo é uma baleia (teatro, Brasil, em parceria com Zuca Sardan, 2016), Antes que a árvore se feche (poesia completa, Brasil, 2020), Naufrágios do tempo (novela, com Berta Lucía Estrada, 2020), Las mujeres desaparecidas (poesia, Chile, 2022), Sombras no jardim (prosa poética, Brasil, 2023), e Obra-prima da confusão entre dois mundos (poesia, Brasil, 2026).




ROLANDO TOPOR (França, 1938-1997). Pintor, ilustrador, poeta, cançonetista, dramaturgo, encenador, cineasta e fotógrafo, artista impossível de catalogar, começou por destacar-se com os desenhos grotescos que publicou na revista satírica Hara-Kiri. Vencedor do Grand Prix de L’Humour Noir em 1961, bebeu dos surrealistas e respondeu-lhes com o movimento Pânico, que fundou com Fernando Arrabal e Alejandro Jodorowsky, entre outros. Em sua obra, Topor nos leva para um mundo do avesso, e a crueldade animalesca, o erotismo, a escatologia e a tétrica ironia das suas obras valeram-lhe o desprezo de críticos, vários projetos ruinosos e ameaças de morte quotidianas. Graças a uma sempre amável sugestão de João Antônio Buhrer, Rolando Topor agora está conosco como artista convidado desta edição da Agulha Revista de Cultura.

  



Agulha Revista de Cultura

Número 264 | março de 2026

Artista convidado: Rolando Topor (França, 1938-1997)

Editores:

Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com

Elys Regina Zils | elysre@gmail.com

ARC Edições © 2026


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