WP | A
escolha do tema deve-se à atualidade do debate sobre o racismo e a violência no
Brasil onde uma série de publicações, em anos recentes, documenta o interesse
renovado pelo pensamento seminal de Frantz Fanon. O trabalho em torno da obra
fanoniana se insere numa investigação teatro-coreográfica do poder iniciada
pela Taanteatro Companhia desde a segunda metade dos anos 1990, em ciclos de
encenações em torno de autores como Artaud, Nietzsche, Deleuze, entre outros.
Em anos mais recentes e em obras como Mensagens
de Moçambique (2018) e Chissano – Rito para Mabungulane (2020),
focamos no complexo colonial e na diáspora africana. Para a programação do
projeto [des]colonizações, em 2019, convidamos o performer
guadalupense Médrick Varieux com sua palestra-performance O preto
bonito está cagando para você madame! Essa performance baseada no
ensaio Experiência vivida do Negro – título que não por acaso
remete à Histoire Vecue d’Artaud-Momo –
chamou nossa atenção para os temas e a intensidade oratória de Fanon. Desde
2022, trabalhamos no projeto Da Violência: Fanon, finalmente
selecionado no ano passado pelo Programa Municipal de Fomento à Dança para a
Cidade de São Paulo, a ponto de coincidir com o centenário de nascimento de
Frantz Fanon em 20 de julho de 2025.
Não foi Jean-Paul Sartre, mas Hanna Arendt, quem
localizou Fanon entre os autores de peso a glorificar a violência por
si mesma. [1] Em seu prefácio à primeira edição de Os
Condenados da Terra, Sartre afirma que o Terceiro
Mundo se descobre e se expressa por meio d[ess]a voz [2]
de Fanon, uma voz dirigida não aos colonizadores, mas às sociedades colonizadas
e movida pelo dever de expulsar o colonialismo por todos os meios [3]
e propor a união dos países africanos, não em torno da volta a uma mítica
cultura africana ancestral, mas rumo a um socialismo revolucionário. Sartre
entendeu que Fanon analisa a violência, ao mesmo tempo, como aspecto intrínseco
à colonização ocidental e como meio justificado da decolonização para alcançar
a autodeterminação nacional dos povos colonizados.
Para compreender Os Condenados da Terra e
situar o prefácio de Sartre, que contribuiu bastante ao êxito desse conjunto de
ensaios militantes, é preciso considerar o contexto colonial daquela época,
especialmente, o processo de colonização francesa da Argélia desde 1830. Fanon
chegou na Argélia Colonial em 1953, um ano antes da eclosão da Guerra de
Independência que terminou com a vitória argelina, em 1962, um ano depois da
publicação do livro e da morte de Fanon. A Guerra da Argélia, marcada por
massacres de civis, destruições de milhares de aldeias e deslocamentos de dois
milhões de argelinos para campos de concentração, causou, em dez anos, a morte
de centenas de milhares de argelinos. A última década da vida de Fanon
coincidiu com seu envolvimento militante nessa luta contra o poder colonial
francês.
Sartre escreve que a violência colonial visa
desumanizar e aniquilar os colonizados e só chega contra sua própria vontade à
descolonização, por não poder levar o massacre até o genocídio. [4]
Considera a violência revolucionária argelina como reversão da violência
colonial. Como tal proporciona – através da expulsão armada do colono e da
restauração da relação do colonizado com sua terra, nação e liberdade – a
recomposição do sujeito colonizado e leva, por consequência, à cura da
neurose colonial. [5]
De acordo com Sartre, a reversão da violência implica,
por parte do europeu, que se tornou ser humano graças à escravização, na
necessidade de um exame interior. Um exame que revela um humanismo racista e
uma cumplicidade genocida, ainda que passiva, com um regime de opressão
milenar. O que resta ao europeu, face à decolonização, é extirpar o
colono que habita dentro de cada um de nós. [6]
Nove anos depois de seu lançamento, Hanna Arendt
analisa Os Condenados da Terra por causa de sua grande influência
na atual geração de estudantes. [7] Do acordo com Arendt, essa Nova
Esquerda herdou uma intromissão maciça da violência criminosa na
política [8] e passa a considerar o uso da violência como cura
universal dos males sociais. Arendt critica os excessos retóricos de
Fanon como irresponsáveis, mas concede ao autor martinicano
ter muito mais dúvidas sobre a violência [9] e manter-se
mais próximo da realidade do que a maioria [10] de seus
admiradores.
Em Sartre, Arendt enxerga uma apropriação que excede o
argumento da re-humanização do colonizado por meio da violência proposta por
Fanon. A teórica política considera o existencialista francês inconsciente
de sua discordância básica com relação a Marx sobre a questão da violência,
[11] tendo em vista que o materialismo de Marx atribuía ao trabalho a
capacidade de auto-recriação humana enquanto o idealismo de Hegel a reservava
ao pensamento.
De acordo com Arendt, o louvor do valor terapêutico da
violência pertence a uma tradição filosófica, exemplificada por Nietzsche e
Bergson, que concebe a vida como eterno combate e a violência como
força criadora de vida. [12] O perigo teórico dessa justificação da
violência em termos biológicos reside em seu caráter
antipolítico e sua inadequação à solução de conflitos no contexto
constitucional de comunidades civilizadas, levando não à cura
e transformação do mundo, mas ao pesadelo coletivo.
O estudo e a reflexão crítica sobre os ensaios de
Fanon devem se conscientizar de seu contexto histórico, cultural e geopolítico
bem como suas intenções estratégicas. Temos de levar em consideração que
sensibilidades, ideias, valores e prioridades, incluindo nossa visão da
violência, estão sujeitos ao câmbio perspectivista de tais contextos.
A meu ver, Fanon defendeu o uso da violência como
direito e meio de autodefesa dos povos colonizados contra séculos de ocupação,
exploração e violência colonial. O Code Noir, emitido
por Luis XIV, em 1865, regulou o estatuto jurídico dos escravos nas colônias
francesas declarando-os bens móveis. Esse código privou os escravos
da agência própria e de seus direitos civis, inclusive, sob ameaça da pena de
morte, do direito de agredir seus senhores. Em vista a história colonial,
considero válido afirmar que Fanon restituiu à coisa colonizada o
direito romano de repelir força com força ou, nas palavras de
Lutero, o direito à resistência justificada.
Formulado por John Locke, como direito à autodefesa, o
direito natural de um povo oprimido se levantar para quebrar
aquele odioso jugo de opressão ingressou, em 1859, na Declaração
de Liberdade – Pelos Representantes da População Escrava dos Estados Unidos da
América e fez seu caminho até o artigo 51 da Carta das Nações
Unidas como direito inerente de legítima defesa individual ou
coletiva no caso de ocorrer um ataque armado. [13]
A colonização europeia na África, Ásia e nas América
foi um violento processo de ocupação genocida. Pensar que o autor de um livro
em defesa dos colonizados, publicado dezesseis anos depois da assinatura
da Carta das Nações Unidas, em 1945, seja
desqualificado como mero apologista da violência em si, equivale a uma denúncia
de terrorismo, ainda que literário, e diz mais sobre seus detratores do que
sobre Fanon. Historicamente, foi a luta armada que levou, entre 1950 e 1975, à
decolonização e resistiu a soberania política aos países africanos.
O significado de nossa encenação em torno de Fanon é
de uma tentativa tripla: uma homenagem ao pensador e militante antirracista e
anticolonial, uma revisitação de seu pensamento à luz das manifestações de
violência na atualidade e uma investigação das possibilidades de transposição
de suas ideias para campo teatro-coreográfico.
FM | Por
ocasião da circulação internacional do vídeo-documentário Sobre a
violência: nove cenas de autodefesa anti-imperialista, de Göran Hugo Olsson,
em 2014, que tinha por base o livro Os condenados da terra (1961),
de Frantz Fanon, uma crítica indiana, Gayatri Chakravorty Spivak, observou que
não apenas Fanon, mas também outros porta-vozes da causa anticolonial,
negligenciaram a violência contra a mulher, vendo-a parcialmente como existente
apenas entre colonizadores. Esta estudiosa recorda ainda que pobreza, racismo,
ausência de exercício pleno de liberdade e mesmo a indiferença às questões de
gênero, são aspectos que as lutas anticoloniais não conseguiram eliminar ou
mesmo reduzir. No caso da montagem em que trabalha agora a Taanteatro
Companhia, me parece que se toma em conta mais prioritariamente um outro
livro, Pele Negra, Máscaras Brancas (1952). Há alguma
distinção, no que toca ao plano de adaptação cênica, entre os dois livros? E
como exatamente vocês levarão para o palco uma linguagem ensaística tão
complexa como esta?
WP |
Desconheço o comentário de Gayatri Spivak, mas concordo que o desenvolvimento
sociopolítico dos países africanos e asiáticos que se libertaram do domínio
colonial europeu evidenciou a existência e persistência dos males por ela
apontados. Por outro lado, seria equivocado esperar que o encerramento de meio
milênio de colonialismo resulte, rapidamente, na cura afetiva dos
ex-colonizados e em condições sociopolíticas e econômicas paradisíacas. Cabe
analisar as causas de tais evoluções sem cair na tentação simplificadora e
tendenciosa de invalidar a luta anticolonial em função de seus fracassos. O
oprimido não se torna virtuoso simplesmente por ser vítima. Mas a ausência
desse automatismo não justifica sua opressão. Pelo contrário, a restituição do
direito humano à autodeterminação inclui, necessariamente, a possibilidade da
falha ética e do crime, não como direito, mas como possibilidade de agência. De
todo modo, o insucesso na promoção da ideia de igualdade e justiça a modo
europeu não é defeito exclusivo de países antigamente colonizados, mas uma
caraterística perniciosa universal, inclusive nas supostas democracias ocidentais
onde a concentração de renda, o surgimento de nova oligarquias e movimentos
supremacistas estão cada vez mais acentuados.
Na crítica feminista da obra de Fanon a observação da
invisibilidade da mulher é recorrente. A escritora Grada Kilomba ressalta em
seu prefácio a Pele Negra, Máscaras Brancas o impacto valioso
desse livro sobre sua vida. Ao mesmo tempo, atesta a Fanon que cometeu
um erro fatal por escolher o homem negro como sujeito do seu
livro [14] e por falar do homem como a condição humana [15]
e, dessa maneira, invisibilizar a mulher negra [16]
sob o perigo de tornar o status ontológico das mulheres negras [17]
inexistente. Ainda assim. Kilomba concede, em 2020, que este livro talvez
seja a obra que o Brasil mais precisa neste momento (…) para desobedecer à
ausência e para viver na existência. [18]
Fanon nasceu em 1925 e passou seus anos de formação
diante do horizonte cultural, epistêmico e linguístico da cultura
franco-martinicana dos anos 1930 e 1940. Durante a Segunda Guerra Mundial,
quando foi combatente na Europa, ocorreu uma intensificação sem precedentes da
atuação de mulheres tanto na indústria de guerra quanto nas forças armadas onde
operaram como atiradoras, guerrilheiras, artilheiras antiaéreas, pilotos de
combate e oficiais. Logo depois da guerra, Simone de Beauvoir, com quem Fanon
dialogava, publicou O Segundo Sexo (1949) e somente em
1963, A Mística Feminina de Betty Friedan impulsionou,
gradativamente, a chamada Segunda Onda do feminismo. Um argumento para
a libertação das mulheres negras como uma força revolucionária, [19]
de Mary Ann Weathers, foi lançado em 1969 e o movimento queer que critica os
escritos de Fanon sobre a sexualidade e homossexualidade negras ganharam relevo
nos anos 1980.
Em outras palavras, a escrita revolucionária e
anticolonial de Fanon, publicada entre 1952 e 1961, coincide com um período de
grandes transformações no plano de geopolítica, mas precede o boom das
políticas feministas dos anos 1960/70. É verdade que sua escrita privilegia as
expressões homem (homme) ou homem negro, no
entanto, vale lembrar que, diferente, por exemplo do alemão, onde Mann designa
o ser humano masculino e Mensch o gênero humano, as línguas
latinas, geralmente atentas às diferenças de gênero, não fazem essa distinção
linguística. A declaração universal dos direitos humanos (La
Déclaration universelle des droits de l’homme),
assinada em 1948, em Paris, pelos então 58 estados-membros da Assembleia Geral
das Nações Unidas, afirma em seu primeiro artigo que todos os seres
humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos (Tous les
êtres humains naissent libres et égaux en dignité et en droits.) [20]
Penso que Frantz Fanon usou o termo l’homme na linha de raciocínio que orientava a
declaração dos direitos humanos. No primeiro parágrafo de Os Condenados
da Terra, Fanon caracteriza a decolonização como a
substituição de uma espécie de homens [os colonos] por
outra espécie de homens [os colonizados] e
ressalta a necessidade dessa transformação (…) na consciência e na vida
das mulheres e dos homens colonizados. [21] A meu ver, o novo
homem ou homem total vislumbrado por Fanon passou
pelo processo que Nietzsche chamou de transvaloração de todos os
valores, porém aplicado ao complexo colonial. Por consequência, diz
respeito a um tipo de ser humano que superou a negatividade não só das
dicotomias raciais, mas também de gênero. Quando Fanon fala em novo
humanismo e novo homem, refere-se a uma outra espécie de
homens e de mulheres e à libertação do ser humano – seja
negro, seja branco [22] – do círculo vicioso do
racismo.
Sabemos que nossa encenação não será capaz de abarcar
a complexidade e profundidade temática dos ensaios de Fanon. A Taanteatro
Companhia trabalhará com referências de Pele Negra, Máscaras Brancas, Os
Condenados da Terra e com alguns de seus artigos políticos. A ideia
subjacente à encenação é abordar formas de violência racial
contemporânea na perspectiva de uma dança decolonial e impulsionado pela
crítica político-filosófica visceral e revolucionária de Frantz Fanon. [23]
O pré-roteiro que guia nosso trabalho na fase atual é
composto por 7 cenas – 5 movimentos emoldurados por um prelúdio e um poslúdio –
e aponta para os complexos temáticos entrelaçados: racismo – colonialismo –
violência – linguagem – psiquiatria – combate anticolonial – autonomia
política. Faz referência ao já mencionado Code Noir; salta para a
violência policial e as palavras finais de George Floyd, prefiguradas nas
linhas sobre o sufoco do colonizado em Pele Negra, Máscaras Brancas; aborda
o poder da linguagem colonial sobre o corpo colonizado; investiga, a partir da
psiquiatria fanoniana, os efeitos do racismo e da colonização sobre a saúde
mental; invoca o protesto popular antirracista e a ideia de libertação e de uma
África por vir; e problematiza o assassinato de líderes revolucionários
africanos por intervenção de países coloniais e em decorrências de disputas
internas de facções pós-coloniais.
De que maneira essas intenções artísticas se
concretizarão em termos cênicos e coreográficos veremos mais adiante.
FM | Como
estão integrados os trabalhos de Thiago Consp (curadoria visual), Anderson
Kaltner (música), Otis Selimane Remane (percussão) e Gabriele Souza
(iluminação)? De que modo Mabalane Jorge Ndlozy (coreografia) tem adequado a
equipe em torno de uma compreensão do fenômeno da dança e do transe? E de que
modo se pretende questionar o veredito fanoniano negativo acerca das
capacidades revolucionárias da dança?
WP | As
condições de integração criativa desses artistas da cena paulista estarão mais
claras por volta de julho, quando iniciaremos os ensaios e conheceremos os
locais de apresentação do espetáculo. O equipamento técnico desses espaços em
combinação com os modestos recursos disponíveis determinará o escopo e as
qualidades de nossa cooperação.
O projeto conta ainda com a consultoria de Deivison
Nkosi Faustino, professor da USP e autor de Frantz Fanon e as
encruzilhadas (Ubu, 2022) e Frantz Fanon: um revolucionário,
particularmente negro (Ciclo Contínuo, 2018), e de Médrick Varieux,
performer de Guadalupe e doutorando no departamento de filosofia da USP.
O dançarino moçambicano Mabalane Jorge Ndlozy é integrante
da Taanteatro Companhia desde 2017. Nos solos que Ndlozy e eu realizamos desde
então – Mensagens de Moçambique (2018), Chissano –
Rito para Mabungulane (2020) e Código Negro (2024) –
exploramos danças tradicionais e dimensões performativas da cultura curandeira
moçambicana. Vamos retomar e coletivizar essa investigação em Da
Violência: Fanon, apesar ou justamente por causa da avaliação cética das
tradicionais práticas dançantes e extáticas feita por Fanon.
Em Sobre a Violência, Fanon escreve que é
preciso compreender o fenômeno da dança e do transe porque veremos
a afetividade do colonizado esgotar-se em danças que podem levar ao êxtase.
[24] Nesse ensaio, Fanon caracteriza o corpo negro como campo de combate
entre as forças antagônicas da colonização e da descolonização. Ele diagnostica
nos corpos dos colonizados um estado de tensão permanente imposto por valores e
políticas coloniais e expressas em sintomas – hipertensão muscular incessante,
pressão sanguíneo elevada, batida cardíaca acelerada – frequentemente liberados
em atos autodestrutivos. Do ponto de vista político de sua análise libidinal, o
potencial revolucionário desses estados de hipertensão é neutralizado nos
cultos de danças que, segundo Fanon, colaboram com uma função econômica
primordial na estabilidade do mundo colonizador por dissolverem
periodicamente, a agressão sedimentada nos (…) músculos [25]
dos corpos colonizados. Em função do aspecto supostamente antirrevolucionário
do êxtase, Fanon se opõe à orgia muscular da dança.
De perspectiva do teatro coreográfica de
tensões (taanteatro), essas considerações de Fanon constituem, em pelo
menos dois sentidos, um desafio instigante: por um lado, nos permitem abordar o
problema colonial a partir da investigação das intra- e inter-tensões corporais;
por outro lado, nos convidam a questionar sua visão reducionista da dança.
Tradicionalmente, em todas as culturas, a dança exerce
funções sociais fundamentais e a proibição de danças indígenas integra,
habitualmente, os protocolos de colonização. Sabemos, através das biografias,
que Fanon gostava das danças populares da Martinica, mas seus escritos limitam
a dança ao catártico esgotamento energético. Talvez por adotar uma lente
psicanalítica demasiado europeia, Fanon perde de vista a ativação e autoafirmação
comunitárias proporcionadas pela dança sem, fatalmente, levar ao esvaimento da
pulsão agressiva e do posicionamento político.
Na encenação, exploraremos vocabulários cinéticos
ancestrais, mas iremos também em busca de danças por vir, danças decoloniais,
como que criadas pelo novo ser humano profetizado por Fanon.
FM | Acaso
vocês encontraram algum obstáculo da produção de um espetáculo como este que,
afinal, toca em questões tão incômodas na (de)formação permanente da sociedade
brasileira que, a rigor, é dispersa, desinformada e consequentemente demasiado
ingênua em relação aos mecanismos violentos em torno do tema?
WP |
Iniciamos o projeto no começo de março, com o Núcleo Taanteatro: Formação,
Pesquisa, Criação formado por doze artistas da dança que serão introduzidos à
metodologia do teatro coreográfico de tensões e criarão, até o início de julho,
sob orientação de integrantes da Taanteatro Companhia, um conjunto de solos
inspirados pelos escritos de Fanon. Esses trabalhos serão apresentados no
Complexo Cultural Funarte São Paulo, em torno do aniversário de Fanon, em 20 de
julho de 2025. A seguir, iniciaremos os ensaios do espetáculo previsto para
estrear e entrar em temporada no mês de novembro.
Os maiores obstáculos enfrentados até agora foram a
demora de quase três anos para encontrar um financiamento, os limites estreitos
dos recursos obtidos e as dificuldades na cessão de salas adequadas de ensaio e
apresentação. Essas dificuldades devem-se menos ao rechaço a temas incômodos do
que à saturação populacional e cultural de São Paulo. Há um desequilíbrio
acentuado entre o número imenso de artistas em busca de realização, o volume de
verba disponível e a quantidade e qualidade dos espaços cênicos. Essa
disparidade, frequentemente em detrimento das condições de trabalho, leva a uma
atomização dos recursos materiais e espaciais.
NOTAS
Entrevista realizada especialmente para esta edição,
em março de 2025. As imagens que acompanham esta página integram o acervo
da Taanteatro Companhia e foram gentilmente cedidas por Wolfgang Pannek.
1. Arendt, Hanna. Da Violência. Coletivo
Sabotagem. 2004.
2. FANON, Frantz. Os condenados da terra.
Zahar. Rio de Janeiro, 2020.
3. Ibid.
4. FANON, Frantz. Os condenados da terra.
Zahar. Rio de Janeiro, 2020.
5. Ibid.
6. Ibid.
7. Arendt,
Hanna. Da violência. Coletivo Sabotagem. 2004.
8. Ibid.
9. Ibid.
10. Ibid.
11. Ibid.
12. Ibid.
13. www.oas.org/dil/port/1945%20Carta%20das%20Nações%20Unidas.pdf.
14.
KILOMBA, Grada. Prefácio. Fanon, Existência, Ausência em FANON, Frantz. Pele
Negra, Máscaras Brancas. Ubu, São Paulo.
15. Ibid.
16. Ibid.
17.
Ibid.
18.
Idem.
19.
WEATHERS, Mary Ann. An Argument For Black Women’s Liberation As a Revolutionary Force. https://web.archive.org/web/20200116075843/https://library.duke.edu/specialcollections/scriptorium/wlm/fun-games2/argument.html
20. www.un.org/fr/universal-declaration-human-rights/.
21. FANON, Frantz. Os
Condenados da Terra.
22. FANON, Frantz. Pele Negra,
Máscaras Brancas. Ubu, São Paulo.
23. Trecho do projeto da Taanteatro
Companhia Da Violência: Fanon, contemplado pelo Programa Municipal
de Fomento à Dança para Cidade de São Paulo.
24. FANON, Frantz. Os
Condenados Terra.
25. Ibid.
FLORIANO MARTINS (Fortaleza, 1957). Poeta, editor, dramaturgo, ensaísta, artista plástico e tradutor. Criou em 1999 a Agulha Revista de Cultura. Coordenou (2005-2010) a coleção “Ponte Velha” de autores portugueses da Escrituras Editora (São Paulo). Curador do projeto “Atlas Lírico da América Hispânica”, da revista Acrobata. Esteve presente em festivais de poesia realizados em países como Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, El Salvador, Equador, Espanha, México, Nicarágua, Panamá, Portugal e Venezuela. Curador da Bienal Internacional do Livro do Ceará (Brasil, 2008), e membro do júri do Prêmio Casa das Américas (Cuba, 2009), foi professor convidado da Universidade de Cincinnati (Ohio, Estados Unidos, 2010). Tradutor de livros de César Moro, Federico García Lorca, Guillermo Cabrera Infante, Vicente Huidobro, Hans Arp, Juan Calzadilla, Enrique Molina, Jorge Luis Borges, Aldo Pellegrini e Pablo Antonio Cuadra. Entre seus livros mais recentes se destacam Un poco más de surrealismo no hará ningún daño a la realidad (ensaio, México, 2015), O iluminismo é uma baleia (teatro, Brasil, em parceria com Zuca Sardan, 2016), Antes que a árvore se feche (poesia completa, Brasil, 2020), Naufrágios do tempo (novela, com Berta Lucía Estrada, 2020), Las mujeres desaparecidas (poesia, Chile, 2022), Sombras no jardim (prosa poética, Brasil, 2023), e Obra-prima da confusão entre dois mundos (poesia, Brasil, 2026).
NELSON MIRANDA (Brasil, 1977). Fotógrafo que atua nesse campo há 25 anos. Como ele próprio costuma dizer, entende que seu trabalho sobre dança é uma arte de capturar o momento e a emoção, transformando o corpo e a imagem em poesia visual. Tendo acompanhado ensaios e montagens de Da violência: Fanon, Miranda assina todas as fotos desse encarte especial de Agulha Revista de Cultura.
Agulha Revista de Cultura
Número 264 | março de 2026
Artista convidado: Rolando Topor (França, 1938-1997)
Editores:
Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com
Elys Regina Zils | elysre@gmail.com
ARC Edições © 2026
∞ contatos
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