WP | Nossa
primeira conversa sobre o projeto Da Violência: Fanon ocorreu em junho
de 2025, quatro meses antes da estreia. As intenções iniciais de encenação se
materializaram durante o processo criativo, moduladas pelo aprofundamento
temático, pelos eventos políticos do período de criação, bem como pelas
contingências da produção.
O principal desafio consistiu na necessidade de
encontrar um recorte convincente capaz de transpor o universo intelectual,
biográfico e histórico de Frantz Fanon para uma encenação teatro-coreográfica
de noventa minutos de duração e, em dois meses de ensaio, criar uma atmosfera
tensiva, composta pelas linguagens da dança, literatura, música, das artes
plástica e do filme, apta de transmitir a um público do ano 2025 a relevância e
atualidade de ideias e eventos do período de 1950/60. Creio que o espetáculo
preservou as intenções citadas por você, apesar das necessidades de
condensação.
A dramaturgia de Da Violência: Fanon conta com
sete cenas, cada uma com foco temático e linguagem específicos. Rádio Haiti,
a abertura, introduz à biografia de Fanon e enfatiza aspectos chaves de seu pensamento
e da recepção de sua obra. O primeiro movimento, Código Negro, traz o
fundamento jurídico da escravidão no império francês, na forma do decreto
emitido pelo Luís XIV, em 1685, que definia os escravos como bens móveis.
Não consigo respirar, o movimento seguinte, impulsiona a dramaturgia
para o tempo presente, com uma coreografia que evoca o sufoco brutal exercido
pela violência policial contra pessoas negras. Com Distúrbios Mentais,
nos deslocamos para o Hospital Psiquiátrico Blida-Joinville, na Argélia, onde o
médico chefe Frantz Fanon deu início ao seu engajamento na revolução
anticolonial. Racismo e Cultura, o quarto movimento, encena, em forma de
dança e texto projetado, a palestra homônima proferida por um Fanon já exilado,
na Universidade de Sorbonne, em 1956. Dessa intervenção crítica numa fortaleza
do conhecimento colonial francês, a ação se transfere em A África por vir
para o Instituto Nacional de Saúde de Bethesda, nos Estados Unidos, onde o
autor de Os Condenados da Terra agoniza, em 1961, durante seu tratamento contra
a leucemia. Decódigo, o encerramento, reinterpreta o primeiro movimento
através de uma desconstrução alegre e guerreira das máscaras coloniais.
A defesa fanoniana da violência, não como um fim em
si, mas como legítima temporária estratégia de libertação do sistema colonial,
a meu ver, não constitui uma objeção a essa constatação. Como a maioria de seus
companheiros engajados na luta anticolonial, Fanon estava ciente que os
governantes europeus dos anos 1950/60 não estavam à altura dos valores que
fundamentam a Declaração Universal de Direitos Humanos publicada em 1948, e
sabia que jamais abandonariam suas colônias voluntariamente. Autores renomados,
principalmente de países com tradição colonial, se mostraram chocados com a
proposta fanoniana de um potencial terapêutico positivo da violência
anticolonial, mais precisamente, com a ideia que a agência e autonomia
experienciadas na resistência e luta armada, mas negadas pelo sistema colonial,
ocasionariam efeitos catárticos na psique dos colonizados, com o efeito de
restaurar sua saúde mental.
O exercício de uma violência anticolonial libertadora
contra o sistema de opressão violenta das potências coloniais na África
certamente não restaurou a saúde mental dos colonizados em todos os casos. Mas,
sem dúvida, a reconquista da soberania territorial e política obtida através
dessas lutas contribuiu de forma substancial para a recuperação da autoestima
entre os povos africanos, além de reduzir significativamente os ressentimentos
induzidos pela colonização. Para os descendentes de povos deportados durante o
tráfico transatlântico de escravos, tal retomada simultânea de autonomia
política e pátria ancestral ficou praticamente impossível. As feridas
infligidas por rupturas em todos os planos – ambiental, ancestral, econômico,
cultural, linguístico – e praticamente impossíveis de cicatrizar por inteiro,
alimentam, inevitavelmente, saudades do mundo perdido e a desconfiança dos
herdeiros dos senhores coloniais, contribuindo assim à ressonância do movimento
da Negritude na diáspora africana.
Nosso espetáculo aborda a crítica de Fanon à Negritude
logo no começo, em Radio Haiti. Nessa cena, baseada em uma entrevista
concedida por Josie Fanon, esposa de Frantz, ao editor da emissora, Jean
Leopold Dominique, em 1979, Josie elucida a discordância de Fanon do conceito
de Negritude formulado pelo poeta e presidente do Senegal, Léopold Sédar
Senghor. Josie explica que Fanon rejeitava a orientação racial e nostálgica
do conceito senghoriano definido como a totalidade dos valores culturais da
África Negra. Aos olhos de Fanon, a ideia da redescoberta de uma
essência negra idealizada não passava de uma miragem. O novo homem
vislumbrado por Fanon havia superado o paradigma de essências e dicotomias
raciais e dirigiria sua atenção para o futuro e uma ordem social pós-racial.
FM | Queria falar da revisitação
de seu pensamento, elogiando a escolha do espetáculo se abrir com uma
encenação de entrevista na Rádio Haiti, 1979, com a viúva de Fanon. Confesso
que fiquei imaginando que igual impacto poderia ter causado a cena em leito de
morte em que Fanon finaliza, narrando à sua esposa, o livro Os condenados da
terra, que ele não chega a ver impresso. Sim, esta cena se dá
posteriormente. Seja como for, nas duas opções nós teríamos uma soma de entrada
na matéria biográfica e expressão do pensamento. O sociólogo Joaze Bernardino
Costa, em um estudo sobre Fanon, observa que O homem somente se torna humano
no momento que é reconhecido pelo outro. Uma leitura de Hegel onde é bom
averiguar que esse outro também se localiza no eu. Joaze frisa
ainda uma afirmação de Fanon no sentido de que o colono cria o colonizado.
Assim retornamos ao tema central do livro anterior, Pele negra, máscaras
brancas, e a indagação que faço antecipa o que conversaremos sobre a
teatralização desses conceitos, ou seja, no instante de apresentar o pensamento
de Fanon o que foi prioridade na utilização das máscaras – imperativa afirmação
cênica –, quais aspectos centrais da biografia, da complexidade do tema
escolhido, a verificação de sua atualidade etc., qual a máscara descarnada em
Fanon para que se expusesse autor e obra de modo impactante?
WP | Em
termos dramatúrgicos, foi fundamental saber da importância da jornalista
francesa Marie-Joseph Dublé para a vida de Fanon. Josie e Frantz se conhecerem
em 1949, ainda estudantes. Casaram, se mudaram, em 1953, para a Algéria onde
militaram na luta anticolonial argelina e tiveram um filho em 1955. A partir de
1956, expulsos pelo governo francês, viveram no exílio na Tunísia onde escreveram
para a revista revolucionária Al Moudjahid. Conviveram até a morte prematura de
Fanon, em 1961. Josie era conhecedora íntima dos escritos de Fanon pois
digitava seus ditados. Ela cuidou de sua obra após sua morte e continuou
trabalhando para revistas africanas até o seu suicídio em 1989.
A personagem de Josie nos possibilitou falar de Fanon
a partir da perspectiva ao mesmo tempo amorosa e militante de uma mulher
altamente politizada. Parceira de vida, trabalho e luta, entre 1949 e 1961,
Josie conhecia Fanon melhor do que qualquer outra pessoa. Na abertura do
espetáculo, Josie introduz o público à pessoa e trajetória de Fanon. No
penúltimo movimento chamado A África por vir, ela reaparece para um
pas-de-deux de despedida do marido moribundo e enunciar a visão pan-africana do
falecido. A relação entre Josie e Frantz transportou o espetáculo para um plano
afetivo que a escrita fanoniana sozinha não seria capaz de transmitir. Com
certeza é adequado qualificar a convivência entre Frantz Fanon e Josie Dublé
como um reconhecimento mútuo; um devir bilateral – entre o psiquiatra negro
nascido na Martinica colonizada e a jornalista branca oriunda da França
colonizadora – que supera dicotomias raciais através do compartilhamento do
afeto humano e da ação política.
O não-reconhecimento do Outro enquanto ser humano é um
dos aspectos essenciais do colonialismo. Colonização pressupõe objetificação do
subjugado. O movimento Código Negro, citada anteriormente, evidencia que
a proposição o colonizador cria o colonizado não é metafórica, mas a
descreve um fato histórico. Nessa cena, vemos como Luís XIV cria o colonizado
por meio de um ato legislativo que define o status ontológico da pessoa negra
escravizada como bem móvel. O decreto real, revestido de autoridade
divina e repleto de proibições e ameaças de punição, nega os direitos, a
autonomia e a humanidade da pessoa escravizada e sinaliza a disposição colonial
de impor a objetificação, se necessário, com força letal.
A criação do colonizado implica o colonizador como sua
contraparte. Em outras palavras, o colonizador cria a relação
colonizador-colonizador que inclui a ideia de uma dívida infinita por parte da
criatura (o colonizado), na medida em que ela deve sua existência e história ao
seu criador (o colonizador). No âmbito de um pensamento pós-colonial, essa
relação de dívida foi invertida. As gerações contemporâneas são, por lado dos
descendentes de povos colonizados, herdeiras de um sofrimento histórico e, por
lado das antigas forças coloniais, da culpa histórica.
No caminho para a justiça moral e econômica, uma
reconciliação satisfatória dessas posições permanece, por ora, distante e
exige, apesar de certas melhorias sociais, a permanente recriação do
colonizador pelos herdeiros do colonizado para manter viva a memória dos crimes
cometidos. A melhorias já alcançadas ainda são tão incipientes e provisórias e
os efeitos danosos de séculos de discriminação e exploração tão profundos que
poucas décadas de mitigação não bastam para recompensar as injustiças
históricas e dispensar o apego à função e ao valor identitários das dicotomias
raciais.
O processo de teatralização dos conceitos de Fanon
ocorreu de maneira intuitiva apesar ou talvez justamente por decorrer estudos
extensos da vida-obra em questão. Faculdades analíticas e imaginativas
cooperaram nas escolhas poéticas de maneira indistinguível. A leitura dos
escritos de Fanon, de suas biografias e análises de sua obra bem como de textos
sobre o período colonial me proporcionou uma visão ao mesmo tempo panorâmica e
multi-perspectivista do universo fanoniano e salientou certas linhas de sua
trajetória que a dramaturgia precisava levar em conta.
Era preciso abordar temas fundamentais – racismo,
colonialismo, prática psiquiátrica, pan-africanismo, o novo ser humano etc. –, sem
gerar sobrecargas teóricas, mas também sem abrir mão das ideias e da oratória
típicas de Fanon. Para tornar presente o tom original de Fanon, condensei
vários de seus textos de maneira poética. Cada cena do espetáculo deveria
proporcionar um ambiente poético com determinações geográficas, históricas e
biográficas distintas para abordar um problema específico com uma linguagem
híbrida singular. Ao mesmo tempo, cada cena precisava integrar um arco
dramatúrgico direcionado, com transições sensoriais e energéticas convincentes.
O arco dramatúrgico de nosso espetáculo leva à morte
de Fanon, acompanhado por Josie, nos Estados Unidos. O casal está apartado das
terras de combate, mas investido, até o fim, na luta de libertação nacional e
união pan-africana. Vemos a agonia final de Fanon frente a um horizonte sonoro
distante formado por artilharia, bombardeios, hinos nacionais, discursos
pró-coloniais de De Gaulle, apelos revolucionários da resistência argelina e os
avisos de Eisenhower sobre a ameaça do complexo militar-industrial. Nessa cena,
incluindo o pas-de-deux com Josie, a dança de Fanon oscila entre os
extremos de Eros e Thanatos e revela, além de seu vigor feroz, sua
vulnerabilidade e seu amor pela vida. Creio que o impacto citado por você
resultou do jogo de tensões atmosféricas exemplificadas por essa cena.
FM | O terceiro aspecto que eu
gostaria de mencionar diz respeito à transposição das ideias de Fanon para o
ambiente coreográfico. A presença da dança, por exemplo, roça a própria
curiosidade do movimento do corpo e o entendimento catártico da dança segundo
alguns textos de Fanon. Claro, ali estão em palco um estímulo de contradições.
E é fascinante como a dança se mescla com a projeção em grande dimensão, quando
se descortina a cena “Não
consigo respirar”, que atualiza plasticamente esse esgotamento energético
que a dança representava segundo Fanon. Tenho que referir Aimé Césaire, com
quem Fanon manteve alguma discordância, os dois martinicanos ligados ao tema da
negritude, que coincidiam em seus interesses políticos, porém se distanciavam
na utilização do palco como cenário ideal para transposição de suas ideias.
Césaire chegou mesmo a escrever para teatro. Levar o pensamento de Fanon para o
teatro-dança até que ponto foi um desafio no sentido de se perceber certa
discordância entre os dois ambientes no caráter do próprio Fanon?
WP | A relação de Fanon com a
dança era ambivalente. Pessoalmente, ele gostava de dançar ao som de música
tradicional da Martinica, mas ele considerava o transbordamento e o êxtase na
dança contraproducentes em termos do direcionamento das energias reprimidas dos
colonizados a favor da revolução.
Incentivado por peças de
Jean-Paul Sartre e Albert Camus, Fanon escreveu pelo menos duas obras para o
teatro, L'Oeil se noie (O olho que se afoga) e Les Mains parallèles (Mão
paralelas), ambas finalizadas em 1949, dois anos antes de Pele Negra,
Máscaras, mas redescobertas e publicadas apenas por volta de 2015/16.
Segundo os editores, O olho que se afoga formula uma crítica da
Negritude e, portanto, também de seus fundadores Aimé Césaire, Léon Damas e
Senghor, ao argumentar que diferenças étnicas deveriam ser tratadas com
indiferença. Duvido que o Fanon efetivamente rejeitou o palco como lugar de articulação
de ideias, inclusive de ideias políticas. Ele admirou o teatro de Sartre, mas
provavelmente se deu conta da necessidade de encontrar uma linguagem mais
próxima de seu temperamento.
A coreografia de Da
Violência: Fanon tem assinatura do dançarino moçambicano Mabalane Jorge
Ndlozy, integrante da Taanteatro Companhia desde 2017. A concepção coreográfico
decorre da dramatúrgia do espetáculo e segue as intenções de direção. Além
disso, como é típico para taanteatro ou teatro coreográfico de
tensões, cada cena conta com contribuições dos dançarinos.
Como aludido antes, cada um
dos movimentos demandava uma linguagem corporal peculiar, mas a referência
recorrente para todas as coreografias seria o estado de hipertensão muscular do
corpo colonizado diagnosticado por Fanon. Por consequência, as coreografias
modulam estados de tensão extrema de acordo com as referências culturais de
cada movimento do libreto.
Código Negro, por exemplo, contrasta o
ensaio de dança do Rei Sol, patrono do balé clássico, como a cósmica vibração
ancestral dos corpos Dogon. Em Não consigo respirar, movimento com
título inspirado nas últimas palavras de George Floyd e uma frase fanoniana
quase homônima sobre o sufoco existencial do corpo colonizado, uma dinâmica de
dança urbana é atravessada por motivos de fuga, suspensões e compressões no
embate de corpos negros com a violência policial contemporânea. Em Decódigo,
para dar um outro exemplo, a coreografia problematiza o combate entre um
vocabulário corporal europeu e uma linguagem de dança africana (dança barroca e
dança xigubo) nos mesmos corpos.
Naturalmente, as artes
performativas não solucionam os problemas sociopolíticos que vivemos, mas
possuem um potencial poético de presentificação e contágio afetivo diferente do
texto escrito e dotado da capacidade de interferir sensorialmente no estado
psicofísico do público, fazendo-o pensar. Em função de sua formação erudita na
Martinica e na França e das tendências revolucionárias de sua época, Fanon
talvez subestimou o valor do resgate ancestral, não como mera sacralização de
passado perdido, mas como via de desalienação, retomada de uma evolução
cultural interrompida e ponto de partida da construção de futuros com base em
saberes ecumênicos.
FM | Logo vemos dança, música,
cenário em construção e acho que essa fusão dá à apresentação do texto em si
uma ampla tela fascinante de identificação e desejo de sua defesa. Na técnica
de assimilação utilizada na construção do espetáculo, eu penso, recordo, uma
passagem de seus escritos em que Fanon observa: Desde que era impossível
livrar-me de um complexo inato, decidi me afirmar como negro. Uma vez que o
outro hesitava em me reconhecer, só havia uma solução: fazer-me conhecer.
Quero lançar aqui um conceito. Quando vejo Da violência: Fanon, não
penso mais naqueles três aspectos que abordamos, mas sim na complexidade de
fusão de elementos históricos na busca de referir uma leitura do mundo em que
vivemos. Sendo assim, eu penso em algo que se poderia chamar de dialética
da imprevisibilidade. Se observarmos em detalhe as épocas que nos separam
da ocasião biográfica de Frantz Fanon e a sistemática e perversa desconstrução
da realidade que caracteriza nosso tempo, vamos lá naquela ideia que ele tinha
de uma violência absoluta. Ele próprio dizia: O colonizado, ao se libertar,
não está apenas invertendo o papel com o colonizador, mas inventando uma
humanidade que ainda não existe. Indagar alguma coisa agora é de uma delicadeza
extrema. No entanto, pergunto: as sociedades humanas – são várias, mesmo – se
tornaram melhores em algum sentido?
WP | Sabemos que a morte chega,
mas não sabemos quando e como. Creio que essa fatalidade aberta seja crucial
para ativar e intensificar o desejo de estar vivo, incluindo a vontade de
saber. A imprevisibilidade emerge do encontro entre o perene e o descontínuo, o
conhecido e o desconhecido, e é essencial para tornar obras de arte cativantes
e envolventes. A previsibilidade absoluta seria tão insuportável quanto a
imprevisibilidade desenfreada.
Aceitar o fato inato de ser
negro era o amor fati de Fanon. Mas a solução de buscar reconhecimento
enquanto ser humano, fazendo-se conhecer através de sua obra, abriu as portas
de uma trajetória imprevisível que fascina até hoje.
A figura do novo homem,
respectivamente, a ideia de invenção de uma nova humanidade, é um tema
recorrente no final do século XIX e no início do século XX, quando assume
formas tanto comunistas quanto fascistas. Esse ímpeto inovador rumo a nova
humanidade acarretou não somente a questão de como revolucionar uma espécie
essencialmente evolutiva, mas levantou também a dúvida sobre o destino do velho
ser humano. Infelizmente, a história nos familiarizou com um excesso de
soluções finais horripilantes concebidas pelos arautos do novo ser humano.
Na filosofia de Nietzsche, o Übermensch
supera o último homem e o homem superior; na poética de Artaud, o
esquelético corpo sem órgãos destrona o roliço corpo social.
Seria um acaso que tanto Nietzsche quanto Artaud ficaram loucos? A meu ver, o imaginário
criativo desses poetas-pensadores é sinal de saúde mental face a uma realidade
enlouquecedora. De todo modo, o anseio demasiado compreensível por um novo ser
humano traduz uma sensação asfixiante de decadência e exaustão dos modos de
vida tradicionais.
Pode-se argumentar que Fanon,
na década de 1950, chamou com boas razões a nossa atenção para o prazo vencido
da superação do velho homem, aprisionado em dicotomias racistas e
colonialistas. Mas, Fanon demonstrou também que a mera inversão das relações de
poder e das polarizações raciais não libertaria de sua insidiosa lógica
subjacente. Com isso, tocou numa tarefa titânica: a transformação de formas
milenares de pensar e viver em sociedade humana.
Neste contexto, diante do
valor da obra de Fanon e do fato de colocar sua vida em cheque frente à
opressão colonial francesa, considero importante destacar a fragilidade ética
de certos autores contemporâneos que, a partir de suas confortáveis cátedras,
apontam, com dedo em riste, para supostas lacunas ou incorreções
político-linguísticas em escritos feitos sessenta a setenta anos atrás, a fim
de exaltar as virtudes de suas notas de rodapé epistemológicas, que somente se
tornaram possíveis graças às obras comentadas.
É difícil afirmar de maneira
genérica se as sociedades humanas se
tornaram melhores. O psicólogo cognitivo canadense Steven Pinker, por
exemplo, argumenta que, em termos históricos, e contrário à percepção subjetiva
de uma brutalidade crescente no mundo, as condições de vida social melhoraram
em quase todos os níveis graças à razão, ciência e tecnologia. A charada da
melhora do mundo implica múltiplos critérios de uma só vez: questões acerca dos
valores, dos modos de vida e das sensibilidades que norteiam e influenciam
nossos juízes; questões acerca da variabilidade geográfica, cultural e
histórica de tais critérios. Avaliamos o passado e o futuro com base em
critérios possivelmente irrelevantes tanto para nossos ancestrais quanto nossos
descendentes.
Dadas essas dificuldades e em
vista do tema em debate, sugiro reduzir o escopo de sua pergunta para saber se
os problemas centrais discutidos por Fanon passaram por avanços em algum
sentido. Daí, eu diria: Sim, sem dúvida. Apesar da proliferação global de
intervenções neocoloniais, creio haver um número substancial de indicadores
para sustentar a proposição que gerações anteriores encararam condições de vida
e formas de injustiça mais severas. Ocorre que naturalizamos rapidamente os
avanços sociais herdados e esquecemos que direitos humanos, p. ex., não são
dados, mas conquistados por meio de lutas históricas e podem ser perdidos outra
vez. Não creio numa teleologia do progresso humano, mas, sim, no desafio
permanente de atualizar o combate contra a persistência da ignorância e
violência humanas.
FM | Volto ao tema da
imprevisibilidade porque havia uma pendência reflexiva em torno do
Existencialismo e do Surrealismo. De um lado, Sartre foi um parceiro errado,
enquanto que Breton foi severamente mal interpretado graças à defesa de um
dogma poético que contrastava com o dogma científico – quase diria que duas
faces da mesma moeda. Talvez por conta desse abismo aparente, Fanon tenha
acabado por opor à dialética a noção de imprevisibilidade. De algum modo,
vivemos este impasse até os dias atuais, o que nos vale não apenas para o
presente tema, mas sim para a indagação mais simples que nos fazemos a cada
manhã diante do espelho: o que vejo diante de mim, a quem pertence? Remete à
velha e contraditória afirmação de que um corpo não pode ser retirado de si mesmo.
Vamos a um ponto interessante: a diferença. De que modo o homem pode viver a
sua diferença? Indago isto porque na medida em que se monta um espetáculo como
este há uma inquietação que perdura o tempo todo: O que está aqui, no
teatro, precisamente agora, o que significa para mim?
WP | Em minha juventude, li
obras de Sartre, entre peças teatrais, ensaios filosóficos e romances, e
estudei com paixão maior o surrealismo, sua história, seus manifestos e um
número substancial de obras e biografias de seus protagonistas. Mas não sou um
conhecedor profundo e tampouco acompanhei de perto eventuais atritos
ideológicos, estéticos e temperamentais entre Breton e Sartre. Por
consequência, tudo que direi sobre essa questão é pouco mais do que sensação e
conjectura.
Pelo que sei, tanto Breton
quanto Sartre se identificaram com a esquerda, se opuseram ao colonialismo
francês e, vindo de áreas distintas – Breton da poesia, Sartre da filosofia e
do teatro – faziam parte do star system da cultura francesa. A
discordância entre Breton e Sartre, girava em torno do papel do inconsciente
respectivamente da consciência no que diz respeito à função política das artes,
particularmente face ao contexto histórico da Segunda Guerra Mundial e do
período pós-guerra, com seus atritos frios entre capitalismo e comunismo.
Breton defendia a potência libertadora de uma arte espontânea adubada pelo
inconsciente e Sartre favorecia formas artísticas politicamente comprometidas
impulsionadas pela razão. Em termos gerais, entendo assim o que você chamou de
duas faces da mesma moeda do engajamento desses autores em favor da liberdade.
Fanon tinha grande admiração
por Sartre, mas em termos de linguagem sua escrita se aproxima mais do fervor e
da cadência dos manifestos surrealistas. Tenho a impressão que Fanon, como
pessoa, escritor, psiquiatra, dificilmente poderia se ater a uma única dimensão
da psique humana. Na linha do que eu disse acima, penso que em Fanon, o
invisível e o visível interagem, bem como numa máscara. Se a ruptura
revolucionária é imprevisível na medida em que provoca caos no complexo
colonial, esse descontrole do poder não faz com que a ordem de dominação seja
puramente racional. Inversamente, o fato da descolonização desorganizar o
sistema colonial não significa que a violência revolucionária esteja
inteiramente desprovida de razão.
Parece que os novos e
singulares seres humanos concebidos por Fanon superaram hierarquias de poder,
dicotomias raciais e abismos econômicas da sociedade colonial em direção a uma
comunidade igualitária e pós-racial.
Análogo às Três
transformações do espírito em Assim falou Zaratustra, onde o leão
destrói o fardo de obrigações do camelo, ao dizer eu quero, o desejo
revolucionário fanoniano rompe com a ordem colonial para dar lugar ao Novo, ou
seja, à criança em Nietzsche. Mas o Novo, como diferença absoluta, não pode ser
representado sem entrar em contradição com si mesmo.
Viver a diferença; efetuar
diferença através do ato performativo (o que é) e em direção ao ato da
recepção (o que significa). É difícil falar sobre essas questões sem
recorrer a palavras que soam oraculares, porque elas tocam no antigo problema
da separação binária entre corpo e alma, matéria e espírito, que permeia nosso
vocabulário e molda nosso pensamento.
Eu diria: na diferença,
linguagem não vira sombra do acontecimento, representação de realidade
transcendente. Realizar a diferença requer fusão e coesão de força e forma, de
energia e sentido, de ser e significar, como duas dimensões-leituras do mesmo
processo vital. Performar diferença é transmitir energia-signo indivisível,
aqui e agora, para um espectador consciente de sua perspectiva singular em meio
a uma multiplicidade de subjetividades.
FM | Considerando
o título do espetáculo, Da Violência: Fanon, eu queria indagar sobre um
conceito curioso, de emergência criativa, que me leva a pensar em um personagem
aparentemente imortal (risos), Edgar Morin. De um lado a necessidade de
organizar o caos, de outro o imperativo da ruptura histórica. Quando se trata
de um tema como a Negritude, como distinguir um imperativo do outro?
WP | Caos e cosmos não designam reinos separados, mas
estados distintos do mesmo mundo, com paisagens e condições ambientais apensas
parcialmente conhecidas e compreendias. Vejo a emergência criativa como uma
irrupção decorrente da exploração e intensificação experimental dos estados do
conhecido. O que chamamos de "ruptura" não rasga o tecido da
realidade, mas denomina antes o abandono voluntário de condutas e simbolizações
normativas que deixaram de dar conta do real. Descrever uma realidade como
caótica talvez diz mais sobre os limites de nossa compreensão e capacidade de
adaptação do que sobre essa realidade. Se o caos desorienta, causando disfunção
e falência afetiva, cognitiva e operativa, ele também desafia e estimula nosso
potencial criativo, pedindo formas inéditas de coabitação entre corpo e meio
ambiente.
Ruptura e revolução, essas palavras inflamam paixões,
impulsionam a auto-dramatização do artista. E, muitas vezes, o uso de anteolhos
é condição necessária da paixão visionária nas artes para trilhar caminhos que
sem a limitação lateral e absolutização da perspectiva permaneceriam
inexplorados. Em termos socio-político-econômicos e diante de agentes e
sistemas opressivos e sufocantes enfrentamos situações infindáveis que exigem
um resoluto e sonoro Basta!, um sagrado dizer Não.
No movimento Rádio Haiti, a entrevistadora
pergunta à viúva de Fanon: Josie, alguém poderia objetar: A senhora não é
negra. Como pode estar falando de negritude? E Josie responde: Acho que
todos podem falar, mas com cuidado. O fato de sermos negros ou brancos não nos
torna mais perspicazes, revolucionários ou solidários.
Dito isso, e a partir da perspectiva de um homem
branco, me parece compreensível que populações minoritárias tenham interesse
limitado em solidarizar-se com grupos maioritários que historicamente as
exploraram e desumanizaram. Tendências autorreferenciais e separatistas visam a
afirmação da autoestima e autossuficiência de grupos marginalizados bem como seu
fortalecimento sociocultural e econômico, seja como reflexo inconsciente ou
posicionamento estratégico.
Mas, a longo prazo, visto que todos nos dividimos o
mesmo ar no planeta Terra, o separatismo extremo, não importa sua procedência,
tende a ser estéril, xenófobo e, ultimamente, hostil à vida. Neste sentido,
aplaudo a Josie Fanon quando ela continua a esclarecer: A revolução almejada
por Fanon transcende polarizações racializadas, visa um novo começo, um novo
modo de pensar, um novo ser humano.
FM | Em
meio a essa soma de aspectos contraditórios que podem funcionar como uma
técnica de reconstrução da humanidade, um ponto não pode ser deixado de fora, o
que contempla a equidistância entre sanidade e loucura. A ideia que Fanon tinha
da loucura como uma patologia da liberdade de que modo atua na construção de um
espetáculo como este?
WP | Em Da
Violência: Fanon, nos aproximámos da experiência da loucura em Fanon no
movimento Distúrbios Mentais. A leitura de seus textos clínicos
subsidiou a construção da cena, não no sentido de uma exposição literal de suas
teorias, mas a título de um fermento subjacente à poética do movimento. No
pensamento psiquiátrico de Fanon, nos interessou sua crítica da transferência
direta de um corpo teórico europeu para contextos geográficas, étnicos e
culturais distintos; sua ideia da emergência de quadros patológicos causados
por violência colonial; sua proposta de anamneses, diagnósticos e tratamentos
culturalmente específicos e seu interesse pela dialética da violência na relação
entre o torturador e o torturado.
Distúrbios Mentais
começa com a projeção de fotografias cujas imagens se dissolvem, retratos de
pacientes em clínicas psiquiátricas africanas extremamente precárias. A seguir,
acompanhados por sons estridentes, corpos indistinguíveis de seus invólucros
metálicos tubulares invadem a cena. Desses tubos reluzentes, cobertos por
símbolos africanos, emergem cantos de mulheres, em Yoruba e Suaíli, que
testemunham a experiência do negro interno, da vida preta, do mal
da escravidão. Os corpos se debatem contra seus invólucros, reverberando os
cantos cada vez mais exaltados. Fanon, o médico chefe, aparece, se aproxima,
ausculta, se dirige com gestos empáticos aos corpos enclausurados e sai de
cena. Pouco a pouco, incentivadas pela presença e dança de Fanon, as mulheres
saem de seus invólucros, se revelam e, libertas, passam a comunicar-se umas com
as outras.
Essa descrição rudimentar,
distante e pálida quando comparada à experiência teatral ao vivo (sugiro
assistir ao vídeo), talvez proporcione ainda assim uma noção desse movimento. A
ação de Distúrbios Mentais é elementar, mas composta por elementos
estranhos, contrastantes e sugestivos nos planos sonoro, visual e cinético. A
intenção era encenar uma atmosfera delirante – transmitida pelos sentidos, sem
necessidade de recorrer a traduções conceituas ou estereótipos de zoonose – que
responde a uma situação trágica com beleza desvairada.
FM | Já
não recordo quem observou acerca das dívidas de Fanon em relação a Suzanne
Césaire e Simone de Beauvoir. Não creio que se possa considerar as leves
discordâncias dele em relação aos companheiros de ambas. O historiador Gustavo
de Andrade Durão considera que, influenciado por Sartre, Merleau-Ponty e
Simone de Beauvoir, Fanon identificou-se com o existencialismo e fez da experiência
vivida específica do negro algo mais próximo de uma práxis da negritude.
Ou seja, essa experiência tinha maior utilidade para Fanon do que uma mera
teorização das capacidades intuitivas ou emocionais típicas dos negros, na
visão de Senghor e Césaire. Esses aspectos afetam de algum modo o que
estamos conversando?
WP | Comentadores
contemporâneos não raro denunciam as dívidas dos autores falecidos que
interpretam para inflar o valor de seus próprios comentários. É importante
reconhecer e documentar influências e filiações, mas dívida é uma
palavra com cheiro de ressentimento.
Sem dúvida, Fanon admirava Sartre, Simone de Beauvoir
e Merleau-Ponty. Não por acaso buscou a chancela de Sartre, o mais importante
filósofo francês da época, para Os Condenados da Terra. O nome Aimé Césaire
perpassa Pele Negra, Máscaras Brancas do começo ao fim. Fanon buscou a
proximidade com esses autores, mas tinha consciência de seu próprio valor, e
mesmo se distanciasse deles, reconheceu a importância de suas obras para o seu
próprio desenvolvimento.
A filosofia de Sartre distingue entre existência e
essência. A existência é dada, a revelia de nosso querer, e precede a essência
que é adquirida por meio de atos conscientes de decisão e escolha face a
situações limites em que vidas e valores estão em jogo. Não custa muito
imaginar o fascínio dessa proposição para o jovem Fanon. De modo mais
elementar, implicava e reafirmava que o fato de ter nascido como negro numa
ilha caribenha dominada pelo império colonial francês, não o impedia ser um
homem livre graças aos seus atos de consciência e sua prática social. Devido ao
seu temperamento enérgico e sua inteligência aguçada, Fanon deve ter sentido
mais afinidade com a concepção de liberdade existencialista, fundada na agência
individual do sujeito moderno, do que com o apelo a essências culturais
coletivas inatas ou tradicionalmente herdadas da Negritude.
Nosso espetáculo, não toma partido neste quesito. O
individualismo pode se tornar tão tirânico quanto o coletivismo exacerbado. As
polarizações irreconciliáveis da atualidade
oferecem bons motivos para reexaminar as tensões entre coletividade e
individualidade. A subjetividade tem a intersubjetividade como condição
necessária, mas a pluralidade deveria favorecer o florescimento da
singularidade.
Para Fanon, o complexo colonial é um mundo dividido
em dois: a zona branca do ser versus a zona negra do não-ser. Fanon
participa ativamente da luta dos oprimidos contra seus opressores, mas, em
última análise, sua luta visa a libertação do ser humano, do negro e do branco,
do colonizador e do colonizado, do homem e da mulher. Por essa razão, propõe a
superação de uma ótica binária constitutiva da consciência e ação humanas. Da
Violência: Fanon tematiza essas questões em Não consigo respirar, no
canto falado do personagem título e no responsório do coro com uma letra que
adapta a Introdução de Pele Negra, Máscaras Brancas.
FM | A dança, a dança, a expressão
do corpo em sua essência, esse lugar por vir que representa cada movimento,
acompanhado de voz ou não, o modo como o corpo se comunica e revela suas
escuridões mais relevantes. De posse de todas as informações, Wolfgang, onde
radica a criação?
WP | Você fala da dança como uma
manifestação poética dos impulsos não discursivos do corpo, que dão origem a
novas realidades.
No taanteatro ou teatro
coreográfico de tensões, conforme concebido por Maura Baiocchi, falamos do eterno
originar e de seu elusivo lugar. O lugar da criação é o ent[r]e,
ente e processo, aos mesmo tempo, onde forças, formas e signos se encontram,
chocam, mesclam e transformam. Desse ponto de vista, o corpo é um ent[r]e em
contato e habitado por outros ent[r]es, de tal modo que o corpo não possui
fronteiras absolutas, mas se estende a outros ambientes por porosidade,
conectividade e interatividade.
Nas artes performativas como
na vida em geral, é um desafio prático tremendo habitar zonas de transição. Belas
palavras – eruditas ou técnicas – sobre a universalidade do potencial criativo
humano são bem vindas, mas não bastam para tornar o corpo poético. A
proliferação de discursos sem um saber ou, pelo menos, uma disposição de
impulsionar os corpos para fora das zonas de conforto técnico e expressivo se
torna circular e contraproducente.
É preciso encarar o fato que
repetir é regra, criar é um estado de excepção. Por essa razão, para um artista
digno desse nome, é preferível experimentar seu potencial criativo não somente
no porto seguro da disciplina de seu ofício, mas também arriscando-se em zonas
desconhecidas, terras de ninguém, onde as certezas técnicas e estéticas se
perdem. No intuito de sintetizar as energias e sensibilidades do corpo e o voo
da imaginação com rigor metodológico, a Taanteatro Companhia desenvolve desde a
sua inauguração, em 1991, práticas psicofísicas, processos poéticos e conceitos
que estimulam a consciência ambiental e autonomia do performer.
FM | A ideia de um confronto ou
pano de fundo que permita a reflexão entre dois tempos. A arte em suas variadas
instâncias alimenta esse choque ou pendência. Trazer aquele ambiente histórico
em grande parte definido em face da guerra de independência da Argélia – nem de
longe uma questão em isolado – não significa uma identificação, mas antes um
alerta de que a violência se repete e que o homem caberá sempre em si mesmo na
medida em que souber aceitar a diferença entre o que é e o que deseja ser,
observando bem que o outro, esse seu reflexo existencial, pode desejar
exatamente o inverso. O homem está pronto para isso?
WP | Quem vê nosso espetáculo,
logo nota que não almejamos uma reconstrução histórica do Caribe, da Argélia,
França ou dos Estados Unidos dos anos 1950/60. Da Violência: Fanon evoca
um locus do imaginário, porém, subsidiado por eventos reais.
Nossa invocação fragmentária e
sem nexo causal óbvio de vestígios visuais, acústicos e discursivos de um
passado longínquo gera, de meu ponto de vista, uma ficcionalização cativante de
certos fatos históricos e convida o público a construir associações com as
tragédias geopolíticas do tempo presente. Sim, obras de arte dificilmente
solucionam impasses existenciais ou sociais, mas como artistas ainda assim
esperamos que nossas invenções colaboram com renovações de perspectivas.
Desejo é definido por
diferença. Conciliar desejo e realidade seria reconciliá-lo com sua própria
natureza, ou seja, afirmar diferença, distância e dissonância ao invés de
sonhar com sua abolição.
Elogiamos a diferença, mas
sofremos com a dificuldade imunológica de absorver diferenças extremas ou
demasiado numerosas. Eis dizer, o ser humano nunca está pronto, mas sempre
dispõe da oportunidade de aprimorar sua prontidão.
FM | Até onde o teatro representa a
essência do ser humano? Da violência: Fanon se sente bem representada
pela ideia que faz de si a Taanteatro Companhia?
WP | Ao longo de sua história,
as artes performativas abordaram a relação do ser humano com seu destino,
refletiram sobre conflitos sociais, morais, políticos e econômicos, além de
explorar questões psicológicas e de linguagem. No que diz respeito ao público,
as estéticas distintas visavam a representação do poder, catarse moral,
reflexão, entretenimento, participação e ativismo, dependendo do contexto
sócio-histórico da encenação e das intenções dos autores e encenadores. Quer
dizer que essas artes, tradicionalmente realizadas ao vivo e face ao seu
público, se engajaram na representação de problemas humanos e, paralelamente,
no desenvolvimento de teorias, técnicas e tecnologias de representação.
Mesmo que a encenação de
problemas humanos não visa necessariamente a representação de uma essência
humana, é verdade que todas as formas e teorias de representação se baseiam,
ainda que de modo implícito, em ideias antropológicas. Por isso, poderíamos
dizer que a representação de uma questão humana expõe, inevitavelmente, uma
ideia daquilo que seja humano.
No âmbito metodológico e
conceitual da Taanteatro Companhia, proposto pela coreógrafa brasileira Maura
Baiocchi e desenvolvido com minha colaboração, buscamos uma despedida daquilo
que chamamos de AntropoCena em direção à SimbioCena. Nesse
contexto, conceitos-práticas como ecorporaldidade e ecoperformance operam
a favor da superação da perspectiva antropocêntrica das artes performativas
rumo a um novo paradigma ambiental.
Com Da Violência: Fanon,
demos continuidade a uma série de obras voltadas para o problema do colonialismo,
entre as quais Mensagens de Moçambique (2018) e Chissano: rito para
Mabungulane (2021). A realização de um projeto dessa natureza abrange um
período extenso de dedicação, muito além da fase de ensaio e apresentação.
Inclui pesquisa multidisciplinar anterior à elaboração do libreto, sem falar do
processo de produção e da interação com as equipes de criação e técnica. Da
ideia inicial até o fechamento das contas, passam-se dois a três anos de muito
trabalho, as vezes mais, e dentro de estreitos limites orçamentários.
Cito essas contingências
porque sua pergunta a respeito da relação entre o espetáculo e nossa companhia
envolve, além das satisfações ou frustrações artísticas, uma experiência
colaborativa extensa e, às vezes, exaustiva. No Brasil, artistas da dança e do
teatro sempre realizam pequenos milagres para levar suas obras à cena.
Mas, sem firulas, posso dizer
que ficamos satisfeitos com a qualidade do espetáculo e sua recepção pelo
público. O tema nos exigiu soluções criativas à altura de sua gravidade e nos
incentivou a ampliar nosso vocabulário artístico. Essa é uma das maiores
alegrias do processo. Acredito que oferecemos uma resposta válida aos desafios
postos por Fanon.
FM | É possível traçar uma síntese
das realizações da Taanteatro Companhia que defina afinidades intencionais com
o tema da violência em geral ou da negritude em particular?
WP | Violência é um ingrediente
fundamental da vida natural e social. Por consequência, é um tema constitutivo
das artes.
Na Taanteatro Companhia,
tematizámos violência em contextos diversos, a partir de perspectivas variadas.
Vale citar os espetáculos de Maura Baiocchi sobre a pintora mexicana Frida
Kahlo (1991 e 2007), obras do Ciclo Nietzsche (2000 a 2009), encenações em
torno de Artaud, entre as quais a trilogia cARTAUDgrafia (2015) e Artaud,
le Momo (2016), e os já mencionados projetos ligados ao colonialismo.
Lidamos com violência política, de gênero, psiquiátrica, ambiental e colonial.
Considerando a recorrência do tema ao longo de trinta e cinco anos, podemos
falar de uma constante de nosso repertório. A tematização mais explicita da
violência nos últimos anos decorreu com da abordagem de problemáticas
coloniais, raciais e migratórias. Sem dúvida, o ingresso do dançarino e
coreógrafo moçambicano Jorge Ndlozy, em 2017, intensificou meu interesse no
fenômeno do colonialismo e suas consequências.
A experiência vivida num país
da África confere ao Jorge uma ótica diferente que enriquece o debate e as opções
de criação. Em Da Violência: Fanon, contamos ainda com a ajuda de
artistas e acadêmicos negros do Brasil, Guadalupe e Moçambique. A experiência
pessoal desses colaboradores e sua competência específica nas áreas da
sociologia, filosofia e psicologia foram de grande importância para refletir
sobre a questão da violência racial e colonial e da Negritude, a partir de
ângulos complementares.
FM | Gostarias de destacar alguma
observação acertada da crítica?
WP | Ao longo das vinte e quatro
apresentações do espetáculo, e em dois formatos de encenação, um para espaços
teatrais convencionais, outro ao ar livre, no pátio de ruínas urbanas do Centro
Cultural Itororó, tivemos um público numeroso. A temática da obra e sua boa
repercussão atraíram uma plateia de pessoas negras que anteriormente não haviam
assistido às encenações da Taanteatro Companhia. O espetáculo fui muito
aplaudido e bem comentado. Apesar de sua divulgação em todo tipo de veículo -
revistas, jornais, websites e blog - não recebeu críticas dos grandes jornais,
nem da crítica especializada on-line.
A única resenha crítica, da
autoria de Max Mu e publicada pelo Jornal Empoderado, elogiou o grupo
de performers valorosos, carismáticos e de movimentos precisos que se conectam
com o público e nos mantém imersos a cada ação. Mu considerou Da
Violência: Fanon: uma aula de espetáculo e um espetáculo-aula para a
vida.
Deivison Nkosi Faustino, o
maior especialista brasileiro em Fanon na atualidade, que realizou um seminário
para nosso elenco e uma palestra por ocasião da ocupação Fanon 100 Anos, que
integrou a programação complementar de nosso projeto, me escreveu depois da
apresentação e se disse muito feliz com o espetáculo. Em sua mensagem,
nos atestou que fomos fiéis a pontos muito sensíveis da biografia e obra de
Fanon, sem ceder a modismos e simplificações e elogiou que fomos rigorosos
e, ao mesmo tempo, generosos com o público que não conhece o tema e o autor a
fundo. Naturalmente, ficamos muito agradecidos por essa apreciação.
FM | É cedo para falar de um
próximo projeto?
WP | Sim e não. Acabamos de volta de Milão, na Itália, onde apresentamos Chissano: rito para Mabungulane a convite do Premio Internazionale Il Teatro Nudo di Teresa Pomodoro. Estamos estudando novas opções de encenação, mas, sobretudo, estamos focados em obter recursos de produção para o CineFestival Internacional de Ecopeformance, um projeto de realização anual que iniciamos em 2021.
NOTA
Entrevista realizada especialmente para esta edição, em março de 2026. As imagens que acompanham esta página integram o acervo da Taanteatro Companhia e foram gentilmente cedidas por Wolfgang Pannek.
FLORIANO MARTINS (Fortaleza, 1957). Poeta, editor, dramaturgo, ensaísta, artista plástico e tradutor. Criou em 1999 a Agulha Revista de Cultura. Coordenou (2005-2010) a coleção “Ponte Velha” de autores portugueses da Escrituras Editora (São Paulo). Curador do projeto “Atlas Lírico da América Hispânica”, da revista Acrobata. Esteve presente em festivais de poesia realizados em países como Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, El Salvador, Equador, Espanha, México, Nicarágua, Panamá, Portugal e Venezuela. Curador da Bienal Internacional do Livro do Ceará (Brasil, 2008), e membro do júri do Prêmio Casa das Américas (Cuba, 2009), foi professor convidado da Universidade de Cincinnati (Ohio, Estados Unidos, 2010). Tradutor de livros de César Moro, Federico García Lorca, Guillermo Cabrera Infante, Vicente Huidobro, Hans Arp, Juan Calzadilla, Enrique Molina, Jorge Luis Borges, Aldo Pellegrini e Pablo Antonio Cuadra. Entre seus livros mais recentes se destacam Un poco más de surrealismo no hará ningún daño a la realidad (ensaio, México, 2015), O iluminismo é uma baleia (teatro, Brasil, em parceria com Zuca Sardan, 2016), Antes que a árvore se feche (poesia completa, Brasil, 2020), Naufrágios do tempo (novela, com Berta Lucía Estrada, 2020), Las mujeres desaparecidas (poesia, Chile, 2022), Sombras no jardim (prosa poética, Brasil, 2023), e Obra-prima da confusão entre dois mundos (poesia, Brasil, 2026).
NELSON MIRANDA (Brasil, 1977). Fotógrafo que atua nesse campo há 25 anos. Como ele próprio costuma dizer, entende que seu trabalho sobre dança é uma arte de capturar o momento e a emoção, transformando o corpo e a imagem em poesia visual. Tendo acompanhado ensaios e montagens de Da violência: Fanon, Miranda assina todas as fotos desse encarte especial de Agulha Revista de Cultura.
Agulha Revista de Cultura
Número 264 | março de 2026
Artista convidado: Rolando Topor (França, 1938-1997)
Editores:
Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com
Elys Regina Zils | elysre@gmail.com
ARC Edições © 2026
∞ contatos
https://www.instagram.com/agulharevistadecultura/
http://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/
FLORIANO MARTINS | floriano.agulha@gmail.com
ELYS REGINA ZILS | elysre@gmail.com















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