sábado, 21 de março de 2026

FLORIANO MARTINS | Da violência: Fanon, diálogos com Wolfgang Pannek – Parte III

 


 FM | Da Violência: Fanon originalmente integrava a programação do NUTAAN (Núcleo Taanteatro: formação, pesquisa & criação). Qual a sua primeira montagem? A peça estava inteiramente pronta ou novas montagens permitiram o acréscimo de cenas ou detalhes?

 

WP |  Da Violência: Fanon é, ao mesmo tempo, o título de um projeto da Taanteatro Companhia contemplado pelo Programa Municipal de Fomento à Dança para a Cidade de São Paulo e do espetáculo a ser encenado no contexto desse projeto. Realizado ao longo do ano de 2025, esse projeto incluía o NUTAAN 2025, a ocupação Fanon 100 Anos, o espetáculo Da Violência: Fanon e a Ocupação Da Violência: Fanon. O projeto foi idealizado por mim e produzido pela Mônica Bernardes.

NUTAANs são programas de formação, pesquisa e criação realizados pela Taanteatro Companhia desde a sua fundação no começo dos anos 1990. Nesses programas, com duração variada, entre 3 e 12 meses, artistas da cena são introduzidos aos conceitos e à metodologia do teatro coreográfico de tensões (taanteatro) e, sob orientação e direção de coordenadores da Taanteatro, canalizam seu aprendizado para a criação e apresentação de solos e espetáculos coletivos. O NUTAAN 2025 deu início ao nosso projeto em torno da vida e obra de Frantz Fanon. Durante quatro meses, os doze participantes desse núcleo se familiarizam com nossa metodologia, participaram de uma oficina coordenada por Deivison Faustino sobre o pensamento de Fanon e, sob orientação de Mabalane Jorge Ndlozy e Janina Arnaud, criaram o conjunto de danças individuais Solos. Cada um desses trabalhos de Solos abordava a experiência pessoal dos performers com formas diversas de violência e se nutria de referências ligadas à leitura dos textos de Fanon.  Solos foi apresentado durante a ocupação Fanon 100 Anos realizada pela Taanteatro Companhia no Complexo Cultural Funarte São Paulo por ocasião do centenário de nascimento de Fanon, celebrado no dia 20 de junho de 2025.

Entre os participantes do NUTAAN, selecionamos o Gustavo Braunstein e a Angela Mendes para integrarem o elenco de Da Violência: Fanon. Não há relação criativa direta entre os resultados artísticos do NUTAAN e o espetáculo da Taanteatro Companhia.

 

FM | Como destacar as coordenações de Janina Arnaud e Mabalane Jorge Ndlozy? E como vocês três chegaram à definição do corpus da peça?

 

WP | A Janina Arnaud e o Mabalane Jorge Ndlozy são profissionais competentes familiarizados com o trabalho da Taanteatro. Desde 2015, a Janina participou de núcleos de formação e de espetáculos da companhia, entre as quais cARTAUDgrafia (2015) e 1001 Platôs (2017). O Jorge Ndlozy conhecemos em 2005, em Moçambique, quando colaboramos durante dois meses com a Companhia Municipal de Canto e Dança da Matola. Na época, sob direção coreográfica de Maura Baiocchi e em cooperação com essa companhia, apresentamos o espetáculo Xiphamanine – eterno originar da árvore mphama no Teatro Cine África, em Maputo. O Mabalane é integrante da Taanteatro Companhia desde 2017. A Janina atuou como uma das coordenadoras do NUTAAN, mas não participou de Da Violência: Fanon, diferentemente do Mabalane que fez a coreografia e o papel título desse espetáculo.

 



FM | Na ocupação Fanon 100 Anos, no Complexo Cultural Funarte São Paulo, o espetáculo foi apresentado ao lado de uma série de palestras, inclusive uma palestra-performance. Gostaria de comentários teus sobre a estrutura desse evento, inclusive que falasses um pouco de seus palestrantes.

 

WP | A ocupação Fanon 100 Anos comemorou o centenário de nascimento de Frantz Fanon por meio de ações artísticas e acadêmicas. Serviu também como lançamento público do nosso projeto.

A programação dessa ocupação incluiu os já mencionados Solos, uma série de palestras de intelectuais convidados e Código Negro, um esboço do primeiro movimento de Da Violência: Fanon.

A programação teórica se iniciou com Violência em 3 atos: a política, a ética e a estética na contra-violência de Frantz Fanon, palestra proferida pelo professor da USP e especialista em Fanon, Deivison Faustino, seguida por Sociogênese, Psicologia e Educação Antirracista: Práticas psicológicas comprometidas com a descolonização do humano, uma contribuição de Valéria Campinas Braunstein, presidente do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo, e Ivani Oliveira, presidente do Conselho Federal de Psicologia. O filósofo e ator guadalupense, Médrick Varieux, que nos apresentou o pensamento de Fanon em 2019 como convidado de nosso projeto [dez]colonizações, apresentou a palestra-performance Máscaras brancas e antimáscaras negras: estratégias de simulacro. Programamos essa série no intuito abordar o pensamento fanoniano a partir de perspectivas multidisciplinares contemporâneas, oriundas da sociologia, psicologia e filosofia.

Concebido e dirigido por mim e apresentado no dia de aniversário de Fanon, Código Negro contou com a dança e atuação de Ndlozy, Mônica Bernardes, Gustavo Braunstein e Triz Cristinni, além de trombone ao vivo de Anderson Kaltner e graffiti de Thiago Consp.

Vale acrescentar que encerramos o projeto em dezembro de 2025, no Galpão do Folias, com a Ocupação Da Violência: Fanon, idealizada pela Mônica Bernardes. A programação desse evento contou com a palestra Pele árabe, máscaras judias: Dinâmicas coloniais na relação entre israelenses e palestinos do filósofo Peter Pál Pelbart, performances convidadas de Maria Emília Gomes, Urubatan Miranda e Dani Mara e as apresentações finais Da Violência: Fanon da Taanteatro Companhias.

 



FM | Durante os ensaios o espetáculo sofre alterações ou texto e coreografia são apresentados ao grupo já de forma definitiva?

 

WP | O rascunho inicial do libreto de Da Violência: Fanon data de 2023, quando apresentamos o projeto pela primeira vez ao Fomento à Dança em São Paulo. A partir de 2025, ao definir o elenco composto por Mabalane Jorge Ndlozy, Mônica Bernardes, Gustavo Braunstein, Angela Mendes, Thaíse Reis e Acauã Solí, comecei a revisar e desenvolver a concepção inicial.

Em função das condições orçamentárias, tivemos apenas dois meses de ensaio até a pré-estreia em 25 de setembro. Entre a pré-estreia e a última apresentação em 14 de dezembro, realizamos 24 apresentações.

Ao chegar no dia do primeiro ensaio, duas cenas estavam bem delineadas em termos de dramaturgia, coreografia e texto, o desenvolvimento dos demais movimentos, cinco no total, dependia da interação direta com o elenco e a equipe artística. Em outras palavras, ensaios, detalhamento do libreto e criação de coreografia corriam de forma paralela e interdependente.

Nesse contexto, é preciso sublinhar que no rascunho de libreto as coordenadas gerais da encenação estavam bem estabelecidas, com exceção da abertura, eis dizer, da entrevista com Josie Fanon; uma ideia feliz que somente surgiu após estudos mais extensos do entorno da obra de Frantz Fanon.

Um fator que facilitou bastante o processo coreográfico foi a vasta experiência de colaboração performativa estabelecida entre Mabalane Jorge Ndlozy e eu desde 2017.

Outra razão que motivou a criação coreográfica no decorrer dos ensaios é de natureza metodológica. No teatro coreográfico de tensões, as contribuições individuais de cada performer são de grande importância, ainda que o tema e a orientação geral da obra sejam estabelecidos pela direção.

 



FM | Cenografia, iluminação, vestuário, música, vídeo, de que modo essas partes vão sendo introduzidas até a afinação final?

 

WP |  Nossa equipe de criação contou com colaboradores talentoso e reconhecidos no mundo das artes de São Paulo. Tivemos a Gabriele Souza no desenho da iluminação, o produtor musical Anderson Kaltner na criação sonora e o artista plástico Thiago Consp responsável por graffiti, máscaras e desenhos projetados. Eu assinei libreto, direção, cenografia e vídeo do espetáculo.

O processo colaborativo entre a direção, o coreógrafo e esses artistas convidados se iniciou com base em meu storyboard que sintetizava as principais dimensões temáticas, espaciais, cinéticas, visuais e sonoras do espetáculo por vir. A assistência aos ensaios proporcionava a esses artistas uma compreensão mais tangível das dinâmicas e atmosferas pretendidas. Em resumo, todas as modalidades de linguagem da encenação foram desenvolvidas de forma concomitante, acompanhando os ensaios.

No Brasil, com frequências maior, por motivo da disponibilidade restrita dos teatros e de outras limitações de produção, os próprios criadores cênicos veem suas obras completadas somente no dia da estreia. Essa condição de produção reduz as possibilidades de experimentação e correção antecipada da encenação em sua totalidade antes da apresentação e agrega significativas pressões psicológicas à finalização do trabalho. Em contrapartida, estimula as capacidades de antevisão artística, ou seja, a visualização da obra no imaginário dos realizadores, além de enfurecer a garra dos artistas brasileiros da cena.   

 


 FM | Qual tem sido a recepção de crítica, incluindo as montagens já realizadas no exterior?

 

WP | Ao longo de seus 35 anos de existência, as obras da Taanteatro Companhia têm sido muito bem recebidas pela crítica, no Brasil e em países como Argentina, França, Rússia e Alemanha. A crítica tem consistentemente elogiado a singularidade, complexidade, imprevisibilidade e radicalidade de nossas produções, destacando a natureza imaginativa e onírica de nossa linguagem e enfatizando o refinamento, o rigor e a intensidade da presença cênica dos artistas da Taanteatro Companhia. O que chamou a atenção dos comentaristas em tempos mais recentes foram efeitos dramatúrgicos inovadores, decorrentes de nossa pesquisa voltada à ecoperformance, por situar o agente humano no mesmo plano como agentes não humanos.

Em relação à comparação entre a recepção crítica de nosso trabalho no Brasil e no exterior, é difícil escapar do velho ditado de que santo de casa não faz milagre (a menos que pertença a alguma panela tribal, educacional ou ideológica).

As excelentes críticas recebidas no Brasil ao longo de décadas nunca melhoraram de forma substancial nossas condições de produção artística. E, obviamente, compartilhamos esse destino com outros artistas.

Um fator adicional, que sempre desafia a capacidade de resistência, é que nas artes cênicas brasileiras, poucas pessoas desenvolveram uma abordagem cênica documentada com conceitos e metodologia originais. O teatro coreográfico de tensões de Maura Baiocchi, a diretora-fundadora da Taanteatro Companhia, constitui um desses raros casos, mas o reconhecimento desse fato artístico e histórico é maior no exterior do que aqui.

 


 FM | Como explicar ao leitor a relação existente entre o teatro coreográfico de tensões e a montagem de Da Violência: Fanon?

 

WP | Tentarei responder à sua pergunta da maneira mais sintética possível, fazendo referência a uma distinção básica na teoria de tensões proposta por Maura Baiocchi. O teatro coreográfico de tensões distingue entre intratensões, intertensões e infratensões. Intratensões designam relações de forca dentro de um corpo, por exemplo, seu jogo de tensões musculares. Intertensões se referem a relações de forças entre corpos, não só corpos humanos, mas de todos os tipos. E infratensões dizem respeito às relações energéticas do campo sócio-histórico, cultural e econômico em que vivemos e no qual o acontecimento performativo se realiza. A interação e interdependência de intra-, inter- e infratensões no espaço-tempo constitui o fluxo de tensão do acontecimento performativo.

Naturalmente, não aplicamos essas distinções com pedantismo didático a um projeto, mas visando a criação de uma obra poética.

Todavia, a título ilustrativo, posso rascunhar a aplicação do princípio tensão em um dos movimentos de Da Violência: Fanon. Em Pele Negra, Máscaras Brancas, Fanon tematiza a intratensão corporal do colonizado como resposta à opressão colonial. Ou seja, a hipertensão muscular do colonizado resulta, segundo Fanon, da intertensão entre corpos brancos e corpos negros no violento contexto do complexo colonial, isto é, de um mundo dividido em duas esferas ontológicas, a zona do ser e a zona do não ser. Por sua vez, a tensão entre essas duas zonas resulta da genealogia do jogo de forças, valores e ideias de um complexo processo histórico (infratensões).

No movimento Não consigo respirar, investigamos então as intratensões do corpo preto perseguido por violência policial e suas intertensões com o corpo perseguidor branco. Por outro lado, indagamos como e até que ponto duas tendências opostas – a de exercer e a de sofrer violência – coexistem no mesmo corpo e de que maneira essa dialética pode ser expressa coreograficamente, nos planos da dança coletiva e solo. Em sentido complementar, exploramos como as correspondências infratensivas entre discursos coloniais do passado e as narrativas de repressão do Estado no presente afetam os estados e dinamismos do corpo.

Essa pesquisa coreográfica, subsidiada por reflexões fanonianas em torno dos estados de tensão do corpo colonizado, demandava, por sua vez, o entendimento das tensões intermodais entre o corpo em movimento e todas as demais linguagens empregadas na cena em questão.

 



FM | A montagem de uma das partes que compõem Da Violência: Fanon, como foi o caso de Código Negro, permite esse desdobramento em outras oportunidades, como parte integrante de um projeto maior? O que denominas de cerimônia coreográfica audiovisual, essa experiência poética que se movimenta em torno do pensamento de Frantz Fanon, tratando de atualizar se escopo em nossa contemporaneidade que segue apresentando diversas modalidades de violência racial. Essa ousadia de vocês tem encontrado boa empatia com as diversas plateias?

 

WP |  Conforme mencionei anteriormente, cada um dos movimentos de Da Violência: Fanon deveria traduzir seu tema com uma poética própria e, ao mesmo tempo, integrar o dinamismo tensivo do conjunto da  obra. Em função de sua profundidade temática, estrutura dramática e riqueza de linguagem, eu diria que pelo menos três desses sete movimentos – Código Negro, Não consigo respirar e Distúrbios mentais – teriam potencial para se tornarem espetáculos completos e independentes. Os outros movimentos funcionam muito bem, mas sua inteligibilidade depende dos demais.

Dentro do universo social de São Paulo e ao longo de dois meses, nosso espetáculo teve um público numeroso e diversificado. Apresentamos no centro e na periferia da cidade, em teatros convencionais e ao ar livre, e, dependendo das caraterísticas do bairro, para plateias maioritariamente negras respectivamente brancas. De acordo com minhas impressões, era possível observar atitudes iniciais distintas por partes dessas plateias.

Muitos espectadores negros vinham motivados pela ideia de ver um espetáculo sobre um autor icônico para a militância negra. Por essa razão, assistiram com uma predisposição afirmativa, mas também com certa reserva crítica, querendo saber se nossa encenação estaria à altura de Fanon, inclusive por ser dirigida por um homem branco. O público branco não reverberava a mesma identificação temática, mas assistiu às apresentações com muito interesse e simpatia.

Acontece que no decorrer das apresentações, essas expectativas inicias se diluíam. No final de cada sessão, os performers foram agraciados com aplausos generosos e efusivos. Receberam comentários elogiosos, tanto pelo público em geral como por parte dos colegas e profissionais presentes. Sem dúvida, o espetáculo encontrou uma ressonância muito positiva.

 



FM | Quais os próximos passos de Da violência: Fanon?

 

WP | Acabou a grana. Não sabemos se teremos a oportunidade de apresentar a obra no futuro.


NOTA

Entrevista realizada especialmente para esta edição, em março de 2026. As imagens que acompanham esta página integram o acervo da Taanteatro Companhia e foram gentilmente cedidas por Wolfgang Pannek. 



FLORIANO MARTINS (Fortaleza, 1957). Poeta, editor, dramaturgo, ensaísta, artista plástico e tradutor. Criou em 1999 a Agulha Revista de Cultura. Coordenou (2005-2010) a coleção “Ponte Velha” de autores portugueses da Escrituras Editora (São Paulo). Curador do projeto “Atlas Lírico da América Hispânica”, da revista Acrobata. Esteve presente em festivais de poesia realizados em países como Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, El Salvador, Equador, Espanha, México, Nicarágua, Panamá, Portugal e Venezuela. Curador da Bienal Internacional do Livro do Ceará (Brasil, 2008), e membro do júri do Prêmio Casa das Américas (Cuba, 2009), foi professor convidado da Universidade de Cincinnati (Ohio, Estados Unidos, 2010). Tradutor de livros de César Moro, Federico García Lorca, Guillermo Cabrera Infante, Vicente Huidobro, Hans Arp, Juan Calzadilla, Enrique Molina, Jorge Luis Borges, Aldo Pellegrini e Pablo Antonio Cuadra. Entre seus livros mais recentes se destacam Un poco más de surrealismo no hará ningún daño a la realidad (ensaio, México, 2015), O iluminismo é uma baleia (teatro, Brasil, em parceria com Zuca Sardan, 2016), Antes que a árvore se feche (poesia completa, Brasil, 2020), Naufrágios do tempo (novela, com Berta Lucía Estrada, 2020), Las mujeres desaparecidas (poesia, Chile, 2022), Sombras no jardim (prosa poética, Brasil, 2023), e Obra-prima da confusão entre dois mundos (poesia, Brasil, 2026).




NELSON MIRANDA (Brasil, 1977). Fotógrafo que atua nesse campo há 25 anos. Como ele próprio costuma dizer, entende que seu trabalho sobre dança é uma arte de capturar o momento e a emoção, transformando o corpo e a imagem em poesia visual. Tendo acompanhado ensaios e montagens de Da violência: Fanon, Miranda assina todas as fotos desse encarte especial de Agulha Revista de Cultura.



  



Agulha Revista de Cultura

Número 264 | março de 2026

Artista convidado: Rolando Topor (França, 1938-1997)

Editores:

Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com

Elys Regina Zils | elysre@gmail.com

ARC Edições © 2026


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