WP | Da Violência: Fanon é, ao mesmo tempo,
o título de um projeto da Taanteatro Companhia contemplado pelo Programa
Municipal de Fomento à Dança para a Cidade de São Paulo e do espetáculo a ser
encenado no contexto desse projeto. Realizado ao longo do ano de 2025, esse
projeto incluía o NUTAAN 2025, a ocupação Fanon 100 Anos, o espetáculo Da
Violência: Fanon e a Ocupação Da Violência: Fanon. O projeto
foi idealizado por mim e produzido pela Mônica Bernardes.
NUTAANs são programas de
formação, pesquisa e criação realizados pela Taanteatro Companhia desde a sua
fundação no começo dos anos 1990. Nesses programas, com duração variada, entre
3 e 12 meses, artistas da cena são introduzidos aos conceitos e à metodologia
do teatro coreográfico de tensões (taanteatro) e, sob orientação e direção de
coordenadores da Taanteatro, canalizam seu aprendizado para a criação e
apresentação de solos e espetáculos coletivos. O NUTAAN 2025 deu início ao
nosso projeto em torno da vida e obra de Frantz Fanon. Durante quatro meses, os
doze participantes desse núcleo se familiarizam com nossa metodologia,
participaram de uma oficina coordenada por Deivison Faustino sobre o pensamento
de Fanon e, sob orientação de Mabalane Jorge Ndlozy e Janina Arnaud, criaram o
conjunto de danças individuais Solos. Cada um desses trabalhos de Solos
abordava a experiência pessoal dos performers com formas diversas de violência
e se nutria de referências ligadas à leitura dos textos de Fanon. Solos foi apresentado durante a
ocupação Fanon 100 Anos realizada pela Taanteatro Companhia no Complexo
Cultural Funarte São Paulo por ocasião do centenário de nascimento de Fanon,
celebrado no dia 20 de junho de 2025.
Entre os participantes do NUTAAN,
selecionamos o Gustavo Braunstein e a Angela Mendes para integrarem o elenco de
Da Violência: Fanon. Não há relação criativa direta entre os resultados
artísticos do NUTAAN e o espetáculo da Taanteatro Companhia.
FM | Como destacar as coordenações de
Janina Arnaud e Mabalane Jorge Ndlozy? E como vocês três chegaram à definição
do corpus da peça?
WP | A Janina Arnaud e o Mabalane Jorge
Ndlozy são profissionais competentes familiarizados com o trabalho da
Taanteatro. Desde 2015, a Janina participou de núcleos de formação e de
espetáculos da companhia, entre as quais cARTAUDgrafia (2015) e 1001
Platôs (2017). O Jorge Ndlozy conhecemos em 2005, em Moçambique, quando
colaboramos durante dois meses com a Companhia Municipal de Canto e Dança da
Matola. Na época, sob direção coreográfica de Maura Baiocchi e em cooperação
com essa companhia, apresentamos o espetáculo Xiphamanine – eterno originar
da árvore mphama no Teatro Cine África, em Maputo. O Mabalane é integrante
da Taanteatro Companhia desde 2017. A Janina atuou como uma das coordenadoras
do NUTAAN, mas não participou de Da Violência: Fanon, diferentemente do
Mabalane que fez a coreografia e o papel título desse espetáculo.
FM | Na ocupação Fanon 100 Anos,
no Complexo Cultural Funarte São Paulo, o espetáculo foi apresentado ao lado de
uma série de palestras, inclusive uma palestra-performance. Gostaria de
comentários teus sobre a estrutura desse evento, inclusive que falasses um
pouco de seus palestrantes.
WP | A ocupação Fanon 100 Anos comemorou
o centenário de nascimento de Frantz Fanon por meio de ações artísticas e
acadêmicas. Serviu também como lançamento público do nosso projeto.
A programação dessa ocupação
incluiu os já mencionados Solos, uma série de palestras de intelectuais
convidados e Código Negro, um esboço do primeiro movimento de Da
Violência: Fanon.
A programação teórica se iniciou
com Violência em 3 atos: a política, a ética e a estética na
contra-violência de Frantz Fanon, palestra proferida pelo professor da USP
e especialista em Fanon, Deivison Faustino, seguida por Sociogênese,
Psicologia e Educação Antirracista: Práticas psicológicas comprometidas com a
descolonização do humano, uma contribuição de Valéria Campinas Braunstein,
presidente do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo, e Ivani Oliveira,
presidente do Conselho Federal de Psicologia. O filósofo e ator guadalupense,
Médrick Varieux, que nos apresentou o pensamento de Fanon em 2019 como
convidado de nosso projeto [dez]colonizações, apresentou a
palestra-performance Máscaras brancas e antimáscaras negras: estratégias de
simulacro. Programamos essa série no intuito abordar o pensamento fanoniano
a partir de perspectivas multidisciplinares contemporâneas, oriundas da
sociologia, psicologia e filosofia.
Concebido e dirigido por mim e
apresentado no dia de aniversário de Fanon, Código Negro contou com a
dança e atuação de Ndlozy, Mônica Bernardes, Gustavo Braunstein e Triz
Cristinni, além de trombone ao vivo de Anderson Kaltner e graffiti de Thiago
Consp.
Vale acrescentar que encerramos o
projeto em dezembro de 2025, no Galpão do Folias, com a Ocupação Da
Violência: Fanon, idealizada pela Mônica Bernardes. A programação desse
evento contou com a palestra Pele árabe, máscaras judias: Dinâmicas
coloniais na relação entre israelenses e palestinos do filósofo Peter Pál
Pelbart, performances convidadas de Maria Emília Gomes, Urubatan Miranda e Dani
Mara e as apresentações finais Da Violência: Fanon da Taanteatro
Companhias.
FM | Durante os ensaios o espetáculo
sofre alterações ou texto e coreografia são apresentados ao grupo já de forma
definitiva?
WP | O rascunho inicial do libreto
de Da Violência: Fanon data de 2023, quando apresentamos o projeto pela
primeira vez ao Fomento à Dança em São Paulo. A partir de 2025, ao definir o
elenco composto por Mabalane Jorge Ndlozy, Mônica Bernardes, Gustavo
Braunstein, Angela Mendes, Thaíse Reis e Acauã Solí, comecei a revisar e
desenvolver a concepção inicial.
Em função das condições
orçamentárias, tivemos apenas dois meses de ensaio até a pré-estreia em 25 de
setembro. Entre a pré-estreia e a última apresentação em 14 de dezembro,
realizamos 24 apresentações.
Ao chegar no dia do primeiro
ensaio, duas cenas estavam bem delineadas em termos de dramaturgia, coreografia
e texto, o desenvolvimento dos demais movimentos, cinco no total, dependia da
interação direta com o elenco e a equipe artística. Em outras palavras, ensaios,
detalhamento do libreto e criação de coreografia corriam de forma paralela e
interdependente.
Nesse contexto, é preciso
sublinhar que no rascunho de libreto as coordenadas gerais da encenação estavam
bem estabelecidas, com exceção da abertura, eis dizer, da entrevista com Josie
Fanon; uma ideia feliz que somente surgiu após estudos mais extensos do entorno
da obra de Frantz Fanon.
Um fator que facilitou bastante o
processo coreográfico foi a vasta experiência de colaboração performativa estabelecida
entre Mabalane Jorge Ndlozy e eu desde 2017.
Outra razão que motivou a criação
coreográfica no decorrer dos ensaios é de natureza metodológica. No teatro
coreográfico de tensões, as contribuições individuais de cada performer são de
grande importância, ainda que o tema e a orientação geral da obra sejam
estabelecidos pela direção.
FM | Cenografia, iluminação,
vestuário, música, vídeo, de que modo essas partes vão sendo introduzidas até a
afinação final?
WP | Nossa equipe de criação contou com
colaboradores talentoso e reconhecidos no mundo das artes de São Paulo. Tivemos
a Gabriele Souza no desenho da iluminação, o produtor musical Anderson Kaltner
na criação sonora e o artista plástico Thiago Consp responsável por graffiti,
máscaras e desenhos projetados. Eu assinei libreto, direção, cenografia e vídeo
do espetáculo.
O processo colaborativo entre a
direção, o coreógrafo e esses artistas convidados se iniciou com base em meu storyboard
que sintetizava as principais dimensões temáticas, espaciais, cinéticas,
visuais e sonoras do espetáculo por vir. A assistência aos ensaios
proporcionava a esses artistas uma compreensão mais tangível das dinâmicas e
atmosferas pretendidas. Em resumo, todas as modalidades de linguagem da
encenação foram desenvolvidas de forma concomitante, acompanhando os ensaios.
No Brasil, com frequências maior,
por motivo da disponibilidade restrita dos teatros e de outras limitações de
produção, os próprios criadores cênicos veem suas obras completadas somente no
dia da estreia. Essa condição de produção reduz as possibilidades de
experimentação e correção antecipada da encenação em sua totalidade antes da
apresentação e agrega significativas pressões psicológicas à finalização do
trabalho. Em contrapartida, estimula as capacidades de antevisão artística, ou
seja, a visualização da obra no imaginário dos realizadores, além de enfurecer
a garra dos artistas brasileiros da cena.
WP | Ao longo de seus 35 anos de
existência, as obras da Taanteatro Companhia têm sido muito bem recebidas pela
crítica, no Brasil e em países como Argentina, França, Rússia e Alemanha. A
crítica tem consistentemente elogiado a singularidade, complexidade,
imprevisibilidade e radicalidade de nossas produções, destacando a natureza
imaginativa e onírica de nossa linguagem e enfatizando o refinamento, o rigor e
a intensidade da presença cênica dos artistas da Taanteatro Companhia. O que
chamou a atenção dos comentaristas em tempos mais recentes foram efeitos
dramatúrgicos inovadores, decorrentes de nossa pesquisa voltada à
ecoperformance, por situar o agente humano no mesmo plano como agentes não
humanos.
Em relação à comparação entre a
recepção crítica de nosso trabalho no Brasil e no exterior, é difícil escapar
do velho ditado de que santo de casa não faz milagre (a menos que
pertença a alguma panela tribal, educacional ou ideológica).
As excelentes críticas recebidas
no Brasil ao longo de décadas nunca melhoraram de forma substancial nossas
condições de produção artística. E, obviamente, compartilhamos esse destino com
outros artistas.
Um fator adicional, que sempre
desafia a capacidade de resistência, é que nas artes cênicas brasileiras,
poucas pessoas desenvolveram uma abordagem cênica documentada com conceitos e
metodologia originais. O teatro coreográfico de tensões de Maura Baiocchi, a
diretora-fundadora da Taanteatro Companhia, constitui um desses raros casos,
mas o reconhecimento desse fato artístico e histórico é maior no exterior do
que aqui.
WP | Tentarei responder à sua
pergunta da maneira mais sintética possível, fazendo referência a uma distinção
básica na teoria de tensões proposta por Maura Baiocchi. O teatro coreográfico
de tensões distingue entre intratensões, intertensões e infratensões.
Intratensões designam relações de forca dentro de um corpo, por exemplo, seu
jogo de tensões musculares. Intertensões se referem a relações de forças entre
corpos, não só corpos humanos, mas de todos os tipos. E infratensões dizem
respeito às relações energéticas do campo sócio-histórico, cultural e econômico
em que vivemos e no qual o acontecimento performativo se realiza. A interação e
interdependência de intra-, inter- e infratensões no espaço-tempo constitui o fluxo
de tensão do acontecimento performativo.
Naturalmente, não aplicamos essas
distinções com pedantismo didático a um projeto, mas visando a criação de uma
obra poética.
Todavia, a título ilustrativo,
posso rascunhar a aplicação do princípio tensão em um dos movimentos de Da
Violência: Fanon. Em Pele Negra, Máscaras Brancas, Fanon tematiza a intratensão
corporal do colonizado como resposta à opressão colonial. Ou seja, a
hipertensão muscular do colonizado resulta, segundo Fanon, da intertensão entre
corpos brancos e corpos negros no violento contexto do complexo colonial, isto
é, de um mundo dividido em duas esferas ontológicas, a zona do ser e a zona do
não ser. Por sua vez, a tensão entre essas duas zonas resulta da genealogia do
jogo de forças, valores e ideias de um complexo processo histórico
(infratensões).
No movimento Não consigo respirar,
investigamos então as intratensões do corpo preto perseguido por violência
policial e suas intertensões com o corpo perseguidor branco. Por outro lado,
indagamos como e até que ponto duas tendências opostas – a de exercer e a de
sofrer violência – coexistem no mesmo corpo e de que maneira essa dialética
pode ser expressa coreograficamente, nos planos da dança coletiva e solo. Em
sentido complementar, exploramos como as correspondências infratensivas entre
discursos coloniais do passado e as narrativas de repressão do Estado no
presente afetam os estados e dinamismos do corpo.
Essa pesquisa coreográfica,
subsidiada por reflexões fanonianas em torno dos estados de tensão do corpo
colonizado, demandava, por sua vez, o entendimento das tensões intermodais entre
o corpo em movimento e todas as demais linguagens empregadas na cena em
questão.
FM | A montagem de uma das partes que
compõem Da Violência: Fanon, como foi o caso de Código Negro,
permite esse desdobramento em outras oportunidades, como parte integrante de um
projeto maior? O que denominas de cerimônia coreográfica audiovisual,
essa experiência poética que se movimenta em torno do pensamento de Frantz
Fanon, tratando de atualizar se escopo em nossa contemporaneidade que segue
apresentando diversas modalidades de violência racial. Essa ousadia de vocês
tem encontrado boa empatia com as diversas plateias?
WP | Conforme mencionei anteriormente, cada um dos
movimentos de Da Violência: Fanon deveria traduzir seu tema com uma
poética própria e, ao mesmo tempo, integrar o dinamismo tensivo do conjunto
da obra. Em função de sua profundidade
temática, estrutura dramática e riqueza de linguagem, eu diria que pelo menos
três desses sete movimentos – Código Negro, Não consigo respirar
e Distúrbios mentais – teriam potencial para se tornarem espetáculos
completos e independentes. Os outros movimentos funcionam muito bem, mas sua
inteligibilidade depende dos demais.
Dentro do universo social de São
Paulo e ao longo de dois meses, nosso espetáculo teve um público numeroso e
diversificado. Apresentamos no centro e na periferia da cidade, em teatros
convencionais e ao ar livre, e, dependendo das caraterísticas do bairro, para
plateias maioritariamente negras respectivamente brancas. De acordo com minhas
impressões, era possível observar atitudes iniciais distintas por partes dessas
plateias.
Muitos espectadores negros vinham
motivados pela ideia de ver um espetáculo sobre um autor icônico para a
militância negra. Por essa razão, assistiram com uma predisposição afirmativa,
mas também com certa reserva crítica, querendo saber se nossa encenação estaria
à altura de Fanon, inclusive por ser dirigida por um homem branco. O público
branco não reverberava a mesma identificação temática, mas assistiu às apresentações
com muito interesse e simpatia.
Acontece que no decorrer das
apresentações, essas expectativas inicias se diluíam. No final de cada sessão,
os performers foram agraciados com aplausos generosos e efusivos. Receberam
comentários elogiosos, tanto pelo público em geral como por parte dos colegas e
profissionais presentes. Sem dúvida, o espetáculo encontrou uma ressonância
muito positiva.
FM | Quais os próximos passos de Da
violência: Fanon?
WP | Acabou a grana. Não sabemos se
teremos a oportunidade de apresentar a obra no futuro.
NOTA
FLORIANO MARTINS (Fortaleza, 1957). Poeta, editor, dramaturgo, ensaísta, artista plástico e tradutor. Criou em 1999 a Agulha Revista de Cultura. Coordenou (2005-2010) a coleção “Ponte Velha” de autores portugueses da Escrituras Editora (São Paulo). Curador do projeto “Atlas Lírico da América Hispânica”, da revista Acrobata. Esteve presente em festivais de poesia realizados em países como Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, El Salvador, Equador, Espanha, México, Nicarágua, Panamá, Portugal e Venezuela. Curador da Bienal Internacional do Livro do Ceará (Brasil, 2008), e membro do júri do Prêmio Casa das Américas (Cuba, 2009), foi professor convidado da Universidade de Cincinnati (Ohio, Estados Unidos, 2010). Tradutor de livros de César Moro, Federico García Lorca, Guillermo Cabrera Infante, Vicente Huidobro, Hans Arp, Juan Calzadilla, Enrique Molina, Jorge Luis Borges, Aldo Pellegrini e Pablo Antonio Cuadra. Entre seus livros mais recentes se destacam Un poco más de surrealismo no hará ningún daño a la realidad (ensaio, México, 2015), O iluminismo é uma baleia (teatro, Brasil, em parceria com Zuca Sardan, 2016), Antes que a árvore se feche (poesia completa, Brasil, 2020), Naufrágios do tempo (novela, com Berta Lucía Estrada, 2020), Las mujeres desaparecidas (poesia, Chile, 2022), Sombras no jardim (prosa poética, Brasil, 2023), e Obra-prima da confusão entre dois mundos (poesia, Brasil, 2026).
NELSON MIRANDA (Brasil, 1977). Fotógrafo que atua nesse campo há 25 anos. Como ele próprio costuma dizer, entende que seu trabalho sobre dança é uma arte de capturar o momento e a emoção, transformando o corpo e a imagem em poesia visual. Tendo acompanhado ensaios e montagens de Da violência: Fanon, Miranda assina todas as fotos desse encarte especial de Agulha Revista de Cultura.
Agulha Revista de Cultura
Número 264 | março de 2026
Artista convidado: Rolando Topor (França, 1938-1997)
Editores:
Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com
Elys Regina Zils | elysre@gmail.com
ARC Edições © 2026
∞ contatos
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FLORIANO MARTINS | floriano.agulha@gmail.com
ELYS REGINA ZILS | elysre@gmail.com














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