sábado, 21 de março de 2026

Encarte especial # 1 | Da violência: Fanon (Taanteatro Companhia)

 


 1 | Em seu livro What Fanon said: A philosophical introduction to his life and thought, Lewis R. Gordon considera que Frantz Fanon (Martinica, 1925-1961) desenvolveu uma profunda análise social existencial do racismo antinegro, o que o levou a identificar condições de racionalidade e razão distorcidas nos discursos contemporâneos sobre o ser humano. Ao avaliar, sempre de corpo presente – no Caribe, na Europa e, em especial, em vários países africanos –, as circunstâncias originárias e decorrentes da colonização, o fez considerando sua ação em ambientes tanto filosóficos e sociológicos quanto psiquiátricos, tendo sido ele próprio um notável psiquiatra, por muitos considerado o pai do nacionalismo africano, epíteto que não lhe devia agradar de todo, pois o termo nacionalismo poderia levar a uma compreensão distorcida do papel fundamental desempenhado por ele. Não estava interessado propriamente em um patriotismo, em seu sentido político, mas antes no entendimento de que a África deveria mergulhar em suas raízes para a melhor compreensão de seus problemas, consequentemente buscando soluções que fossem compatíveis com a sua estrutura social, estabelecendo assim referências próprias que exigissem equilíbrio e desenvolvimento constantes. Intelectual de destaque durante a guerra de libertação da Argélia, então colônia francesa, Fanon, que trabalhava como psiquiatra no hospital do exército francês, acabou por se unir à resistência argelina, logo se tornando ativo participante na política africana pós-colonial. A partir de suas viagens por vários países africanos, defendendo a necessidade de expansão da guerra de libertação, Fanon foi surpreendido com o diagnóstico de leucemia, justamente quando está escrevendo uma de suas obras fundamentais, Os condenados da terra, que viria a se juntar a um livro anterior, Pele negra, máscaras brancas (1952), como volumes relevantes no que diz respeito ao estudo do colonialismo e suas interrelações funcionais em vários ambientes, o que acabaria marcando seu autor como um dos nomes centrais referentes a questões culturais, pós-coloniais e afro-americanas. Frantz Fanon foi casado com Josie Fanon (1930-1989), jornalista e ativista política, que se tornou sua companheira intelectual e, após sua morte, continuou a viver na Argélia, a defender as causas anticoloniais e cuidar da edição e difusão da obra de seu marido. A ela Fanon costumava ditar seus textos, não gostando muito de escrevê-los fisicamente, de modo que ela, com o tempo, passou a atuar como editora e colaboradora em diversas passagens. Seus dois livros essenciais foram publicados no Brasil, Pele negra, máscaras brancas em 1963 e Os condenados da terra em 1968. A Taanteatro Companhia projetou uma valiosa homenagem ao centenário de nascimento de Frantz Fanon, preparando o espetáculo Da violência: Fanon, sob a direção de Wolfgang Pannek. Consistente, medular, revelador, surpreendente, ao mesmo tempo que um desdobramento relevante da estética que a companhia vem desenvolvendo desde o princípio, Da violência: Fanon traz à tona os aspectos primordiais do pensamento de Frantz Fanon, permitindo não apenas conhecê-lo mais a fundo como também identificar as relações desse pensamento com o tempo presente, a realidade que o tema enfrenta hoje, sobretudo no Brasil. Seu diretor, Wolfgang Pannek (Alemanha, 1964), residente no Brasil desde 1992, é autor, ator e diretor teatral e de cinema. Além disso, é idealizador e promotor de eventos artísticos e culturais. Master of Arts (Filosofia, Letras e Psicologia) pela FernUniversität Hagen, Alemanha. Ao lado de Maura Baiocchi, é diretor da Taanteatro Companhia e diretor do Cinefestival Internacional de Ecoperformance. Pannek dirigiu espetáculos de grande repercussão entre os quais cARTAUDgrafia (2015), 1001 Platôs (2017) e produziu projetos internacionais, abrangendo artes cênicas, literatura, artes plásticas, filosofia e cinema. Também dirigiu projetos cinematográficos e atuou em longas e séries de streaming (HBO Brasil, TV Globo, Amazon Prime, Netflix, Disney+). Com Maura Baiocchi, é autor de livros sobre o taanteatro e publicou artigos em revistas acadêmicas no Brasil e no exterior. A edição que preparamos, este primeiro encarta especial da Agulha Revista de Cultura, apresenta uma série de três entrevistas com Wolfgang Pannek, onde conversamos sobre o projeto de pesquisa, a realização do espetáculo, seus bastidores e repercussão. O amplo ensaio fotográfico que acompanha todo o encarte tem a assinatura de Nelson Miranda (Brasil, 1977), que atua no campo da fotografia há 25 anos. Como ele próprio costuma dizer, entende que seu trabalho sobre dança é uma arte de capturar o momento e a emoção, transformando o corpo e a imagem em poesia visual. Esperamos que nossos leitores desfrutem essa oportunidade. A íntegra de Da violência: Fanon pode ser vista aqui: https://vimeo.com/1165445903.



 

2 | En su libro What Fanon said: A philosophical introduction to his life and thought, Lewis R. Gordon sostiene que Frantz Fanon (Martinica, 1925-1961) desarrolló un profundo análisis social existencial del racismo anti-negro, lo que le llevó a identificar condiciones distorsionadas de racionalidad y razón en los discursos contemporáneos sobre los seres humanos. Al evaluar, siempre presente físicamente —en el Caribe, en Europa y especialmente en varios países africanos— las circunstancias originales y posteriores de la colonización, lo hizo teniendo en cuenta sus acciones en ámbitos filosóficos, sociológicos y psiquiátricos, siendo él mismo un psiquiatra notable, considerado por muchos como el padre del nacionalismo africano, un epíteto que probablemente no le complacía del todo, ya que el término nacionalismo podía conducir a una comprensión distorsionada del papel fundamental que desempeñó. No le interesaba particularmente el patriotismo en su sentido político, sino más bien comprender que África debía profundizar en sus raíces para entender mejor sus problemas y, en consecuencia, buscar soluciones compatibles con su estructura social, estableciendo así sus propias referencias que exigían un equilibrio y un desarrollo constantes. Intelectual destacado durante la Guerra de Independencia de Argelia, entonces colonia francesa, Fanon, que trabajaba como psiquiatra en el hospital del ejército francés, acabó uniéndose a la resistencia argelina y pronto se convirtió en un participante activo de la política africana poscolonial. Basándose en sus viajes por diversos países africanos, abogando por la expansión de la guerra de liberación, Fanon se sorprendió al recibir un diagnóstico de leucemia, precisamente cuando escribía una de sus obras fundamentales, Los condenados de la tierra, que se uniría a su libro anterior, Piel negra, máscaras blancas (1952), como volúmenes relevantes para el estudio del colonialismo y sus interrelaciones funcionales en diversos entornos, lo que finalmente lo consagró como una de las figuras centrales en temas culturales, poscoloniales y afroamericanos. Frantz Fanon estuvo casado con Josie Fanon (1930-1989), periodista y activista política, quien se convirtió en su compañera intelectual y, tras su muerte, continuó viviendo en Argelia, defendiendo causas anticoloniales y supervisando la edición y difusión de la obra de su esposo. Fanon solía dictarle sus textos, pues no le gustaba escribirlos a mano, por lo que, con el tiempo, ella comenzó a actuar como editora y colaboradora en varias ocasiones. Sus dos libros fundamentales se publicaron en Brasil: Piel negra, máscaras blancas en 1963 y Los condenados de la tierra en 1968. La compañía Taanteatro ha preparado un valioso homenaje al centenario del nacimiento de Frantz Fanon con la obra Da violência: Fanon, dirigida por Wolfgang Pannek. Coherente, central, reveladora y sorprendente, y a la vez representativa de un desarrollo relevante de la estética que la compañía ha cultivado desde sus inicios, Da violência: Fanon saca a la luz los aspectos primordiales del pensamiento de Frantz Fanon, permitiendo no solo una comprensión más profunda del mismo, sino también la identificación de las relaciones entre este pensamiento y el presente, la realidad que enfrenta el tema hoy, especialmente en Brasil. Su director, Wolfgang Pannek (Alemania, 1964), residente en Brasil desde 1992, es autor, actor y director de teatro y cine. Además, es creador y promotor de eventos artísticos y culturales. Wolfgang Pannek posee una maestría en Filosofía, Literatura y Psicología por la FernUniversität Hagen, Alemania. Junto con Maura Baiocchi, es director de la Compañía Taanteatro y del Festival Internacional de Cine Ecoperformance. Pannek ha dirigido espectáculos muy aclamados, como cARTAUDgrafia (2015) y 1001 Plateaus (2017), y ha producido proyectos internacionales que abarcan artes escénicas, literatura, artes visuales, filosofía y cine. También ha dirigido proyectos cinematográficos y actuado en largometrajes y series de streaming (HBO Brasil, TV Globo, Amazon Prime, Netflix, Disney+). Junto con Maura Baiocchi, es autor de libros sobre taanteatro y ha publicado artículos en revistas académicas de Brasil y del extranjero. Esta edición, el primer suplemento especial de Agulha Revista de Cultura, presenta una serie de tres entrevistas con Wolfgang Pannek, donde hablamos sobre el proyecto de investigación, la creación del espectáculo, sus aspectos tras bambalinas y su impacto. El extenso ensayo fotográfico que acompaña a todo el folleto es de Nelson Miranda (Brasil, 1977), quien ha trabajado en el campo de la fotografía durante 25 años. Como él mismo suele decir, concibe su trabajo en la danza como un arte de capturar el momento y la emoción, transformando el cuerpo y la imagen en poesía visual. Esperamos que nuestros lectores disfruten de esta oportunidad. La versión completa de Da violência: Fanon puede verse aquí: https://vimeo.com/1165445903.

 



3 | In his book What Fanon Said: A Philosophical Introduction to His Life and Thought, Lewis R. Gordon argues that Frantz Fanon (Martinique, 1925-1961) developed a profound existential social analysis of anti-Black racism, leading him to identify distorted conditions of rationality and reason in contemporary discourses about human beings. Always physically present—in the Caribbean, in Europe, and especially in various African countries—he assessed the original and subsequent circumstances of colonization, taking into account its impact on philosophical, sociological, and psychiatric fields. He was himself a renowned psychiatrist, considered by many to be the father of African nationalism, an epithet that likely did not entirely please him, as the term nationalism could lead to a distorted understanding of the fundamental role he played. He was not particularly interested in patriotism in its political sense, but rather in understanding that Africa needed to delve into its roots to better understand its problems and, consequently, seek solutions compatible with its social structure, thus establishing its own reference points that demanded constant balance and development. A prominent intellectual during the Algerian War of Independence, then a French colony, Fanon, who worked as a psychiatrist in the French army hospital, ended up joining the Algerian resistance and soon became an active participant in postcolonial African politics. Based on his travels through various African countries, advocating for the expansion of the liberation war, Fanon was surprised to receive a diagnosis of leukemia, precisely when he was writing one of his fundamental works, The Wretched of the Earth, which would join his earlier book, Black Skin, White Masks (1952), as relevant volumes for the study of colonialism and its functional interrelations in diverse contexts, ultimately establishing him as one of the central figures in cultural, postcolonial, and African American issues. Frantz Fanon was married to Josie Fanon (1930-1989), a journalist and political activist, who became his intellectual partner and, after his death, continued living in Algeria, advocating for anti-colonial causes and overseeing the publication and dissemination of her husband’s work. Fanon often dictated his texts to her, as he disliked writing them by hand, and so, over time, she began to act as his editor and collaborator on several occasions. His two fundamental books were published in Brazil: Black Skin, White Masks in 1963 and The Wretched of the Earth in 1968. The Taanteatro company has prepared a valuable tribute to the centenary of Frantz Fanon's birth with the play Da violência: Fanon, directed by Wolfgang Pannek. Coherent, central, revealing, and surprising, and at the same time representative of a significant development in the aesthetic that the company has cultivated since its inception, Da violência: Fanon brings to light the fundamental aspects of Frantz Fanon’s thought, allowing not only a deeper understanding of it but also the identification of the relationships between this thought and the present, the reality that confronts the issue today, especially in Brazil. Its director, Wolfgang Pannek (Germany, 1964), a resident of Brazil since 1992, is an author, actor, and theater and film director. He is also a creator and promoter of artistic and cultural events. Wolfgang Pannek holds a master’s degree in Philosophy, Literature, and Psychology from FernUniversität Hagen, Germany. Together with Maura Baiocchi, he is the director of the Taanteatro Company and the Ecoperformance International Film Festival. Pannek has directed highly acclaimed shows such as cARTAUDgrafia (2015) and 1001 Plateaus (2017), and has produced international projects encompassing performing arts, literature, visual arts, philosophy, and film. He has also directed film projects and acted in feature films and streaming series (HBO Brasil, TV Globo, Amazon Prime, Netflix, Disney+). Together with Maura Baiocchi, he is the author of books on taanteatro and has published articles in academic journals in Brazil and abroad. This edition, the first special supplement of Agulha Revista de Cultura, features a series of three interviews with Wolfgang Pannek, in which we discuss the research project, the creation of the show, its behind-the-scenes aspects, and its impact. The extensive photo essay accompanying the entire booklet is by Nelson Miranda (Brazil, 1977), who has worked in the field of photography for 25 years. As he himself often says, he conceives of his work in dance as an art of capturing the moment and the emotion, transforming the body and the image into visual poetry. We hope our readers enjoy this opportunity. The full version of Da violência: Fanon can be viewed here: https://vimeo.com/1165445903.

Os Editores

  

 

Índice

 

FLORIANO MARTINS | Da violência: Fanon, diálogos com Wolfgang Pannek – Parte I

https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2026/03/floriano-martins-da-violencia-fanon.html

 

FLORIANO MARTINS | Da violência: Fanon, diálogos com Wolfgang Pannek – Parte II

https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2026/03/floriano-martins-da-violencia-fanon_21.html

 

FLORIANO MARTINS | Da violência: Fanon, diálogos com Wolfgang Pannek – Parte III

https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2026/03/floriano-martins-da-violencia-fanon_78.html


 

EPÍLOGO

 

Da Violência: Fanon, espetáculo teatro-coreográfico da Taanteatro Companhia encenado entre setembro e dezembro de 2025, em São Paulo, com libreto e direção de Wolfgang Pannek, contou com uma seleção de textos diversos, sobretudo, falados e cantados em cena, e, parcialmente, reproduzidos por áudio e projetados em formato de vídeo. 

Nessa seleção, figuram adaptações de ensaios de Frantz Fanon e do Código Negro decretado por Luís XIV em 1685, trechos de discursos do presidentes francês Charles de Gaulle (A Argélia jamais existiu, 1959), do presidente norte-americano Dwight D. Eisenhower (Farewell Address, 1961), citações de comunicados públicos do Governador e do Estado de São Paulo, Tarcísio Freitas, e do Ex-Secretário de Segurança do Estado de São Paulo, Tarcísio Freitas e Guilherme Derrite, bem como poemas inspirados por obras das autoras brasileiras Maria Firmina dos Reis (A escrava, 1887), Carolina Maria de Jesus, (Quarto de despejo, 1960) e Beatriz Nascimento (Meu negro interno, 1974).

Entre os textos da autoria de Frantz Fanon, integrados à dramaturgia do espetáculo encontram-se a Introdução a Pele Negra, Máscaras Brancas (1952), o ensaio Racismo e Cultura (1956) e Essa África por vir (1964).

A título de ilustração da transposição dos textos fanonianos para um formato cênico, reproduzimos aqui duas adaptações feitas por Wolfgang Pannek. A Introdução do primeiro livro de Frantz Fanon foi adaptada para uma canção falada intitulada Zona do Não-Ser e encenada como um responsório, entre o personagem Fanon e o coro, na segunda parte do movimento Não consigo respirar. A versão poema-manifesto do ensaio Essa África por vir é interpretada no movimento homônimo pela personagem Josie Fanon ao lado do leito morte de seu marido.

 

 

ZONA DO NÃO SER

 

A explosão não ocorre hoje 

Cedo demais

Tarde demais

A explosão não ocorre hoje 

 

Verdades, verdades, verdades

Não chego munido de verdades definitivas

Mas certas coisas devem ser ditas

Essas coisas direi, não gritarei

O grito saiu da minha vida faz tempo

 

Por que falar?

Alguém me pediu? 

E então?

Então, respondo calmamente:

Há imbecis demais nesta terra!

 

O que quer o homem?

O que quer o homem negro?

Ao perigo de emputecer meus irmãos de cor

digo: 

 

O negro não é um homem

O negro é um homem negro 

Negro, negro, negro

 

Há uma região árida, despojada até o essencial                       

onde uma insurgência autêntica poderia nascer

uma zona do não-ser 

mas, em geral

o homem negro não chega a descer

a esses verdadeiros infernos

 

O homem é um Sim

um Sim que vibra com as harmonias cósmicas                                                

 

O negro é um homem arrancado, disperso, confuso

confinado num mundo de contradições 

de onde é preciso tirá-lo

 

O negro quer ser branco, o branco quer ser humano 

mas adorar negros é tão doentio quanto execrar negros

querer ser branco é tão infeliz quanto pregar ódio ao branco

 

Queremos nada menos

Queremos nada menos que

libertar o homem de cor

de si mesmo 

                                                                      

Pois existem dois campos:

o branco e o negro

 

É preciso libertar o homem 

do círculo vicioso de um mundo 

dividido em dois:

 

Campo branco                                  Zona do poder 

Campo negro                                     Zona do não ser

 

Mundo branco                                Civilização? 

Mundo negro                                                             Alienação?

 

Raça branca                                                              Tara superior

Raça negra                                                                 Tara inferior

 

Homem branco                                 enfermo na brancura 

Homem negro                                    encerrado na negrura

 

Alma branca                                                             Mito manco

Alma Negra                                                              Construção de branco

 

Gana branca                                                             é virar humano

Gana negra                                                                 virar humano branco

 

Branco-Negro                                  Complexo colonial 

Negro-Branco                                  Desvio existencial

 

Campo branco                                  Zona do poder

Campo negro                                     Zona do não ser

 

Zonas!

 

O que quer, o que quer o homem? 

O que quer, o que quer a mulher?

Luta-luta, luta-luta, econômica e social

Luta, luta, luta, racial e bilateral

 

O que quer, o que quer o homem?

O que quer, o que quer a mulher?

 

Luta, luta, objetiva e subjetiva

Luta, luta, luta, pessoal e coletiva

 

O que quer, o que quer o homem?

O que quer, o que quer a mulher?

 

Consciência? Compreensão?

Transcendência? Afirmação?

 

Desalienação, material e espiritual

Decolonização, evolução e criação

 

Libertar, libertar, libertar 

O ser humano de si

Futuro!

O ser humano é um SIM

 

Vibração, vibração, vibração 

Negro, branco, irmã, irmão

 

Vibração, vibração, vibração 

Ser humano sem distinção

 

Vibração, vibração, vibração

Terra, vida, nação

 

 


ESSA ÁFRICA POR VIR

 

Á fri ca, África

Colocar a África em movimento

Colaborar com um continente

em movimento

segundo princípios revolucionários

Essa tarefa escolhi

em definitivo                                         

 

Primeiro Guiné, então Mali                      

decidido, fervoroso, brutal, coerente e afiado

O Congo em contradições, indeciso

Ainda é preciso esperar

antes de intervir efetivamente

nas cidadelas coloniais:

 

Angola, Moçambique, Quênia

União Sul-Africana

Mas, tudo está em seu lugar

 

O espectro do Ocidente

segue ativo e presente por toda parte

Zonas vivas de poder:

 

França, Inglaterra, Espanha

Portugal, Israel, Alemanha

E, acima de todos, os Estados Unidos

Dólares na cabeça

 

O sistema de colonização fragmenta a lava de libertação

de homens e mulheres, de mulheres e homens

É preciso provar união, um continente em cooperação

de mulheres e homens, de homens e mulheres

 

O sol ainda está alto no céu

ainda ouvimos o ranger das correntes

o grito da carne esmagada

mas também a júbilo

das cidades libertadas

 

O sol ainda está alto neste meio-dia abrasador

mas em cada esquina vozes nos respondem

braços se estendem, mãos nos acenam

 

O continente se move

O povo é impaciente

O povo diz: eu quero

Quero fazer, dizer, brincar      

Quero amar, respeitar, criar

Quero me construir como nação

 

Á fri ca, África

A África não dos poetas

A África não do sono

Mas a África que impede dormir

África do dia-a-dia

África mobilizada

África continental

África ofensiva

Essa África por vir




WOLFGANG PANNEK (Alemanha, 1964). Residente no Brasil desde 1992, é autor, ator e diretor teatral e de cinema. Além disso, é idealizador e promotor de eventos artísticos e culturais. Master of Arts (Filosofia, Letras e Psicologia) pela FernUniversität Hagen, Alemanha. Ao lado de Maura Baiocchi, é diretor da Taanteatro Companhia e diretor do Cinefestival Internacional de Ecoperformance. Pannek dirigiu espetáculos de grande repercussão entre os quais cARTAUDgrafia (2015), 1001 Platôs (2017) e produziu projetos internacionais, abrangendo artes cênicas, literatura, artes plásticas, filosofia e cinema. Também dirigiu projetos cinematográficos e atuou em longas e séries de streaming (HBO Brasil, TV Globo, Amazon Prime, Netflix, Disney+). Com Maura Baiocchi, é autor de livros sobre o taanteatro e publicou artigos em revistas acadêmicas no Brasil e no exterior.



NELSON MIRANDA (Brasil, 1977). Fotógrafo que atua nesse campo há 25 anos. Como ele próprio costuma dizer, entende que seu trabalho sobre dança é uma arte de capturar o momento e a emoção, transformando o corpo e a imagem em poesia visual. Tendo acompanhado ensaios e montagens de Da violência: Fanon, Miranda assina todas as fotos desse encarte especial de Agulha Revista de Cultura.



  



Agulha Revista de Cultura

Número 264 | março de 2026

Artista convidado: Rolando Topor (França, 1938-1997)

Editores:

Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com

Elys Regina Zils | elysre@gmail.com

ARC Edições © 2026


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FLORIANO MARTINS | floriano.agulha@gmail.com

ELYS REGINA ZILS | elysre@gmail.com

 





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