Foram escritas dentro do mesmo espírito
anárquico que sempre caracterizou o fazer poético dos dois poetas. Em todas, o
leitor irá encontrar também uma série de colagens e vinhetas de autoria de
Floriano e desenhos de Zuca Sardan. O
encontro desses dois excepcionais criadores oferece ao leitor experimentos de
pura sátira, experiência um tanto rara na história da poesia e da literatura
brasileiras.
Na primeira das peças reunidas, Circo
Cyclame, os intervenientes estão disfarçados por outros nomes ou
apelidos, mas pode-se extrair algumas observações curiosas e igualmente
pertinentes, como as declarações que são atribuídas ao personagem Mago Kefir,
que, de certo modo, definem o momento que vivemos em que legiões de crianças
vivem hipnotizadas pelas imagens de um aparelho celular ou telemóvel e crescem
sem aprender a escrever direito e sem saber pensar:
(...)
O Uruguai não é uma sociedade deformada pelo agrotóxico. Hoje seu maior dilema
é o elogio da pobreza. Aqui caímos no conto de que a esperança é imortal. Já na
Promise Land, a devastação pela overdose virtual e
sonora castrou de uma paulada só lucidez e percepção, daí que certo tipo de
criminoso – sobretudo aqueles criados em meio ao turbilhão fanático dos jogos
de guerra – mereça mais um sanatório do que a cadeia. No Pa-tro-pi,
não, aqui ainda somos casos de xilindró. Porque o espalhafato da imagem e do
ruído gera uma mescla suicida de tolice e esperteza. Somos um povo barbarizado
pela malandragem e o besteirol”.
II | Em Trem Carthago, a
segunda peça, lê-se o diálogo em que um personagem de nome Xavier Chavigny diz
que os ufólogos, com o desaparecimento dos discos voadores, foram perdendo seu
prestígio.
Mas
conviria saber por que os discos voadores de repente deixaram de aparecer. Duas
hipóteses se levantam: a primeira, de natureza comercial, é a de que a fábrica
de discos foi à falência. A segunda, pouco favorável ao nosso prestígio no
Cosmos, é a de que os extraterrestres se desencantaram com nossa ignara empáfia
e o espírito destrutivo, e acharam que não havia maior interesse em
aproximarem-se duma espécie que está destroçando aceleradamente o próprio
planeta.
Trata-se de uma observação que, feita
há pelo menos uma década, torna-se a cada dia mais vaticinadora nestes tempos
em que um político desvairado, como Donald Trump, que nada fica a dever a um Adolf
Hitler (1889-1945) ou a um Josef Stalin (1878-1953) e seus holocausto e
holodomor, parece disposto a destruir o mundo inteiro.
Ainda nesta segunda parte, Floriano
Martins, num diálogo com Zuca Sardan, relembra sua infância, uma época em que
não existiam atrações virtuais:
(...)
Sair das páginas de um livro para as varandas da história e logo em seguida
vadiar pelas ruas, tudo isto me interessava na medida em que podia fazê-lo sem
a guarda de fronteiras da razão. O romance era a grande aventura da infância e
recordo que costumava embaralhar os personagens das diversas narrativas, e que não
me detinha em seus autores. Uma atenção muito particular em alguns deles – José
de Alencar, por exemplo, porque em casa tínhamos praticamente tudo dele, ou o
Stevenson da Ilha do Tesouro e o
estranhíssimo caso de Hyde & Jekyll –, mas, em geral
era comum embaralhar tudo como se fosse um roteiro único e delirante que me
atiçava a imaginação.
A resposta de Zuca Sardan segue na
mesma linha saudosista, mas enfática:
Na
infância eu gostava dumas revistas de comics americanas, porque o colorido
me fascinava e achava os personagens mais interessantes porque falavam palavras
misteriosas… O inglês era para mim tão indecifrável quanto o sânscrito ou o
hindu… Então as histórias ficavam muito mais misteriosas e interessantes que as
dos comix brasileiros… de que os enredos eram óbvios e sem graça… Acho
que vem daí minha poesia, com essa ideia de que as palavras devem criar OUTRA
ztória, que paira secretamente sobre a ztória que ztá no livro.
Depois de ler estas observações, a
pergunta (sem resposta) que se impõe é se a atual geração de infantes terá do
que se lembrar quando já estiver adulta e pretender criar contos, romances ou
poemas. E se terão capacidade intelectual para os criar.
III | Nascido em Fortaleza, no Ceará, onde
vive, Floriano Martins (1957), poeta, editor, ensaísta, artista plástico e
tradutor, tem se dedicado, em particular, ao estudo da literatura
hispano-americana, sobretudo no que diz respeito à poesia. Foi editor do jornal
Resto do Mundo, 1988/89) e da revista Xilo (1999).
Em janeiro de 2001, criou o projeto Banda Hispânica, banco de
dados permanente sobre poesia de língua espanhola, de circulação virtual,
integrado ao Jornal de Poesia.
São de sua autoria também o projeto Atlas
Lírico da América Hispânica, tradução de poesia,
que realiza nas páginas virtuais da revista Acrobata, do Piauí; e a Coleção
Livros Impossíveis, e-books distribuídos
gratuitamente, em parceria com a poeta salvadorenha Juana M. Ramos.
Em 1999, criou a Agulha Revista
de Cultura e o selo ARC Edições, com mais de uma centena de livros
publicados de autores de diversos países. Um dos maiores estudiosos do Surrealismo
na América, é autor de dois livros de ensaios nessa área: Um novo continente
– Poesia e Surrealismo na América (Fortaleza, ARC Edições, 2016) e Escritura
conquistada – Poesia hispano-americana (Fortaleza, ARC Edições, 2018).
Entre as suas obras mais recentes,
destacam-se: Sombras no jardim (Natal-RN, Sol Negro
Edições, 2023); Tríptico da agonia, em parceria com Berta
Lucía Estrada (Natal, Sol Negro Edições, 2021); A grande obra da carne (Fortaleza,
ARC Edições, 2017); Un poco más de Surrealismo
no hará ningún daño a la realidad
(ensaio, Universidad Autonoma de la Ciudad de
México, 2015); Antes que a árvore se feche
(Fortaleza, ARC Edições, 2020); Naufrágios do tempo, novela,
em parceria com Berta Lucía Estrada (Fortaleza, ARC Edições, 2020); El frutero
de los sueños (poesia, Wilmington, EUA, Generis
Publishing, 1997), e A volta da baleia Beluxa
(Fortaleza, ARC Edições, 2017-2020), também em co-autoria com Zuca Sardan. Com
Leontino Filho, organizou Confissões de um espelho:
Cruzeiro Seixas (Fortaleza, ARC Edições, 2016).
Traduziu livros de César Moro
(1903-1956), Federico García Lorca (1898-1936), Guillermo Cabrera Infante
(1929-2005), Vicente Huidobro (1893-1948), Enrique Molina (1910-1997), Jorge
Luis Borges (1899-1986), Aldo Pellegrini (1903-1973) e Pablo Antonio Cuadra
(1912-2002), entre outros autores espanhóis e hispano-americanos.
Esteve presente em festivais literários
realizados em países como Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República
Dominicana, El Salvador, Equador, Espanha, México, Nicarágua, Panamá, Portugal
e Venezuela. Foi curador da Bienal Internacional do Livro do Ceará (Brasil,
2008) e membro do júri do Prêmio Casa de las Américas (Cuba, 2009), do Concurso
Nacional de Poesia (Venezuela, 2010) e do Prêmio Anual da Fundação Biblioteca
Nacional (Brasil, 2015). Atuou, em 2010, como professor convidado da
Universidade de Cincinnati, em Ohio, Estados Unidos.
IV | Zuca Sardan, nome literário do carioca
Carlos Felipe Alves Saldanha (1933), é poeta, escritor, desenhista e diplomata
aposentado. É um dos representantes da poesia marginal brasileira da década de 1970.
Sua obra é marcada pela irreverência e pela ironia. Filho do artista plástico e
arquiteto Firmino Saldanha (1906-1985), começou a seguir a carreira de pintor,
mas, inspirado no filme Orfeu, do poeta e romancista Jean Cocteau
(1889-1963), decidiu tornar-se “um famoso poeta surrealista desconhecido”, como
disse, certa vez.
Formou-se em Arquitetura pela
Universidade do Brasil (UnB), em 1956. Entre 1963 e 1965, fez o curso
preparatório para diplomata no Instituto Rio Branco, no Rio de Janeiro. Serviu
como diplomata na Argélia, República Dominicana, Estados Unidos, União
Soviética, Holanda e Alemanha, onde se radicou na cidade de Hamburgo e vive até
hoje. O artista assinava suas obras como Carlos Saldanha, depois como Zuca
Sardan, tendo finalmente adotado este nome em 1993, com a publicação de Osso
do coração (Editora Unicamp, 1993). Publicou também Ás de
colete (Editora da Unicamp, 1994); Babylon (Companhia das Letras,
2004); Ximerix (Cosac Naify, 2013); Voe no Zepelin
(Maria Papelão, 2014); e Xorox Kopox (Vento Norte Cartonero,
2015), entre outros.
ADELTO GONÇALVES (Brasil, 1951), jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012), Direito e Justiça em terras d´el-rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os vira-latas da madrugada (José Olympio Editora, 1981; Letra Selvagem, 2015) e O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Londres, Robbin Laird, editor, 2024), lançado na Inglaterra e nos Estados Unidos.
JAN ŠVANKMAJER (República Tcheca, 1934). Artista surrealista, marionetista, animador e cineasta, é conhecido por suas releituras sombrias de contos de fadas famosos e pelo uso vanguardista da animação stop-motion tridimensional combinada com filmagens em live-action. Alguns críticos o elogiaram por privilegiar os elementos visuais em detrimento do enredo e da narrativa, outros por seu uso de fantasia sombria. Adaptou obras literárias como Alice e Fausto. Sua obra Šílení (2005, Loucura) foi descrita como uma história de terror cômica que demonstra a influência do escritor americano Edgar Allan Poe e do nobre francês Marquês de Sade. Hmyz (2018, Inseto) é baseado na peça Ze ivota hmyzu (1921, A Peça dos Insetos) de Karel e Josef Čapek. A obra plástica de Jan Švankmajer nos acompanha nesta edição de Agulha Revista de Cultura em que é nosso artista convidado. Também podemos encontrar uma reveladora entrevista que lhe fez Floriano Martins, publicada em três idiomas.
Agulha Revista de Cultura
Número 265 | junho de 2026
Artista convidado: Jan Švankmajer (República Tcheca, 1934)
Editores:
Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com
Elys Regina Zils | elysre@gmail.com
ARC Edições © 2026
∞ contatos
https://www.instagram.com/agulharevistadecultura/
http://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/
FLORIANO MARTINS | floriano.agulha@gmail.com
ELYS REGINA ZILS | elysre@gmail.com









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