WP | Desde
2025, alguns dos seus trabalhos poéticos ganharam forma musical. Em menos de
dois anos, você lançou sete álbuns e cinco EPs. O que o motivou a transformar
seus poemas em canções e a que você atribui essa produção prolífica?
FM | Temos
que traçar algumas distinções. A primeira delas diz respeito ao fato de que
apenas parcialmente eu converti alguns poemas em letras de canção. Boa parte
dessa produção está constituída de letras originalmente escritas. A outra
distinção é que antes dessa temporada mais prolífica eu escrevia letras de
canção, algumas gravadas em álbuns de parceiros como Mário Montaut, Ana Lee e
Cássio Gava. As letras de canção me perseguem desde a adolescência, porém o
poema falava mais alto, exigia um radical de experiências envolvendo vários
truques de linguagem, desde aquelas mais características da poesia escrita até
o teatro, a narrativa, a construção de cenas e personagens, a reflexão
metafísica, e principalmente a fusão desses truques em um objeto único. Somente
décadas depois eu pude me sentir à vontade para voltar a me dedicar à canção.
Quando finalmente comecei a dominar a técnica, tornou-se uma espécie de
imperativo inconsciente certa profusão da escrita. Embora persistisse um jeito
muito pessoal do que eu chamo de gula existencial, dentro daquilo que Rimbaud
nos deixou escrito: Nós sabemos dar a vida inteira cada dia. Em meio
a tudo isto surge a ideia de programar harmonias, melodias, vozes e
instrumentos, quando então passo a compor priorizando temas e pensando em
projetos de álbuns mais densos.
WP | Como
seria de se esperar de um poeta, os títulos e letras poéticos e metafísicos dos
seus álbuns — como, por exemplo, The
Original Pains ou Les Nuit
Secrètes d’Alice Massénat et de Floriano Martins — estão
bem distantes da natureza facilmente assimilável da música pop típica. Além
disso, você lançou seus trabalhos musicais não apenas em português, mas também
em espanhol, francês, inglês e até em tcheco. Como percebeu a tradução das
suas letras para outros idiomas e tradições sonoras, e como esses trabalhos
foram recebidos nacional e internacionalmente?
WP | As
composições dos seus álbuns são caracterizadas, em parte, por encontros
inusitados entre instrumentos de mundos geográfica e culturalmente distantes.
Em geral, porém, prevalece uma atmosfera musical familiar, que contrasta, por
assim dizer, com a sofisticação e a complexidade de seus versos e narrativas,
que desafiam a recepção imediata — seja por sua estranheza evocativa
ou por não seguirem um esquema de rimas. Dada a repercussão dos trabalhos
publicados, como você avalia o potencial do uso da música para apresentar a
poesia a um público mais amplo e, talvez, menos voltado para a literatura? Por
outro lado, como a música moldou e enriqueceu seu trabalho como poeta?
FM | A
palavra chave se chama ritmo. É o modo como você diz que define a transmissão
de qualquer arte. E esse modo deve primar por certa cadência que exerça um
mínimo de fascínio. Não importa que se trate, em termos de literatura, de verso
livre, prosa narrativa ou diálogo teatral. O ritmo é a essência. Aprendi isto
lendo a melhor poesia, o melhor teatro, o melhor romance, mas sobretudo ouvindo
a melhor música. Em relação aos instrumentos, gosto de criar atmosferas
inesperadas, o encontro de instrumentos acústicos com aqueles característicos
da música eletrônica, sempre buscando uma nova relação. Para mim, foi uma grata
surpresa a descoberta de instrumentos como telarmônio, ondas Martenot,
trautônio e, em especial, o theremin. Mesclá-los com instrumentos bem
tradicionais, como o rebab (Palestina), o kamanjah (Síria),
o ütőgardon (Hungria) e a vina
(Índia), permitiu criar modulações antes inimagináveis. A mesma coisa se pode
dizer dos diversos tipos de pedais de distorção de guitarras elétricas, em
alguns casos usados apenas para pequenos detalhes. Quanto à estrutura complexa
dos versos, eu diria que aposto no elementar como algo fundamental e não
necessariamente simplório. A vida em si possui sua fascinante aura de
complexidade e é dentro desse ambiente que costumo criar. Há também que
destacar que a analogia tem sido uma das características da minha escrita, o
que enriquece o espírito de tudo o que faço e lhe dá essa decorrente
complexidade.
FM | Eis aí
uma questão de sensibilidade aguçada, aquele momento em que você aceita a
cumplicidade do acaso. Há um limite para a programação desses aplicativos e
mesmo diante de todas as formulações que fazemos eles podem nos surpreender com
um tipo de arpejo ou solo ou o timbre de uma voz. Nada é tão frio ou mecânico
como se possa deduzir. Pensemos na técnica do gotejamento, utilizada por
Jackson Pollock, onde ele recorre a aspectos como o acaso e a gravidade, o
fluxo energético do inconsciente e a ausência de contornos figurativos. Essa
soma de truques é um processo composicional, e o artista é quem determina o
instante em que a obra está acabada. Eu não
utilizo a Inteligência Artificial para escrever nada. Todas as letras funcionam
como a base da canção. A partir da letra eu defino que tipo de instrumentos
utilizarei, qual o andamento, as repetições, momento de solo etc. E toda essa
articulação é ajustada até o momento em que a minha ideia sonora, como dizes,
encontra seu ponto de conexão ideal com a letra. Eu utilizo um aplicativo
chamado MakeSong, cujo banco de dados é bastante amplo e eu mesmo vou lhe
acrescentando matizes na medida em que sugiro a utilização de novos
instrumentos. Neste sentido, sim, a atmosfera imaginada, requerida pela letra
em si, tem sido equivalente ao resultado. Mas claro que se trata de um
aprendizado, como tudo na vida, ou seja, na medida em que vou dominando melhor
as formulações as concepções vão sendo mais ousadas, melhor articuladas. Gosto
de tua ideia de um inconsciente poético digital. Tenho que voltar ao Pollock,
onde a
perda deliberada de controle total acaba por dar lugar a forças que operam além
da consciência imediata. Acho que se pensarmos em uma interseção envolvendo a
psicanálise, a filosofia da tecnologia e a arte generativa, ou seja, aquela em
que eu não crio diretamente, mas antes defino regras, fórmulas ou códigos e o
computador se encarrega de gerar o resultado final, neste caso, sim, é possível
falar de um inconsciente poético digital. É bom ter em mente que os grandes
modelos de linguagem são treinados com bilhões de textos, poemas, imagens e
conversas humanas, de modo que esse ecossistema de dados funciona como uma memória
coletiva oculta que a máquina reorganiza. Esse rearranjo, feito
considerando fragmentos da cultura humana, pode funcionar como uma espécie
inusitada de alucinação, gerando conexões inesperadas, a partir do acesso,
sempre de modo inesperado, a um inconsciente digital. Curiosamente pode
surgir o que tendemos a chamar de erro técnico, mas que o artista pode entender
como uma manifestação poética. Assim como a lógica do inconsciente
humano, no ambiente digital essas conexões são invisíveis e, quando menos
esperamos, criam pontes de significado, justaposições de imagens e fluxos de
informação que moldam nossa subjetividade alcançando um plano estético. Também
aí a criação artística pode ser vista como a soma inesperada de todos os erros.
WP | Seus
álbuns, alguns dos quais foram criados em colaboração com outros artistas,
estão disponíveis em plataformas acessíveis globalmente, como o Spotify. Além
do potencial comunicativo dessas plataformas, você também vê novas
oportunidades econômicas para poetas?
WOLFGANG PANNEK. Diretor, performer, autor, tradutor e produtor. Integrante (1992) e codiretor (1994) da Taanteatro Companhia. M.A. (filosofia, letras e psicologia) pela FernUniversität Hagen (Alemanha). Diretor de produção da Mostra 95 Butoh e Teatro Pesquisa, idealizador e diretor de produção de Artaud 100 Anos, coordenador do Intercâmbio Cultural Matola-Brasil (2005) e organizador da Hans Thies Lehmann Brasil Tour 2010. Idealizador e produtor da Ocupação Artaud (2016) e da Ocupação Deleuze (2017) no Teatro Aliança Francesa de São Paulo. Atuou como coreógrafo e ator em Os Sertões, sob direção de José Celso Martinez Corrêa. Criou e dirigiu a trilogia cARTAUDgrafia (2015) sobre a vida e obra de Antonin Artaud e o espetáculo 1001 PLATÔS (2017) baseado na obra Mil Platôs de Gilles Deleuze e Félix Guattari. Idealizou e produziu o filme coletivo The Theatre and the Plague (2020). Na televisão participou como ator do seriado “fdp” (HBO Brasil), da telenovela “Além do horizonte” (TV Globo) e da série “El Presidente: Jogo da Corrupção” (Amazon Prime). Com Floriano Martins acaba de editar o álbum The Transfigured Threads, com previsão de lançamento em todos os streamings para 20/06.
JAN ŠVANKMAJER (República Tcheca, 1934). Artista surrealista, marionetista, animador e cineasta, é conhecido por suas releituras sombrias de contos de fadas famosos e pelo uso vanguardista da animação stop-motion tridimensional combinada com filmagens em live-action. Alguns críticos o elogiaram por privilegiar os elementos visuais em detrimento do enredo e da narrativa, outros por seu uso de fantasia sombria. Adaptou obras literárias como Alice e Fausto. Sua obra Šílení (2005, Loucura) foi descrita como uma história de terror cômica que demonstra a influência do escritor americano Edgar Allan Poe e do nobre francês Marquês de Sade. Hmyz (2018, Inseto) é baseado na peça Ze ivota hmyzu (1921, A Peça dos Insetos) de Karel e Josef Čapek. A obra plástica de Jan Švankmajer nos acompanha nesta edição de Agulha Revista de Cultura em que é nosso artista convidado. Também podemos encontrar uma reveladora entrevista que lhe fez Floriano Martins, publicada em três idiomas.
Agulha Revista de Cultura
Número 265 | junho de 2026
Artista convidado: Jan Švankmajer (República Tcheca, 1934)
Editores:
Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com
Elys Regina Zils | elysre@gmail.com
ARC Edições © 2026
∞ contatos
https://www.instagram.com/agulharevistadecultura/
http://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/
FLORIANO MARTINS | floriano.agulha@gmail.com
ELYS REGINA ZILS | elysre@gmail.com










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