1 FLORIANO MARTINS | O olhar de Cacilda Teixeira da Costa Sobre Wesley Duke Lee
A historiadora, crítica de artes e curadora
Cacilda Teixeira da Costa (1941) é um personagem extraordinário no ambiente das
artes plásticas no Brasil, em especial no que diz respeito à compreensão do
período de vanguarda e seu realce no mundo contemporâneo. Sua biografia inclui
o pioneirismo de ter sido coordenadora do primeiro núcleo de videoarte em um
museu brasileiro, criado em 1976 no MAC-USP a convite de Walter Zanini. Cacilda
teve atuações igualmente expressivas como diretora do Museu de Arte Moderna de
São Paulo (MAM-SP) nos anos 1990 e curadora de videoarte na 16ª Bienal de São
Paulo, assim como editora executiva da História Geral da Arte no Brasil,
livro fundamental organizado por Walter Zanini. O trabalho de Cacilda Teixeira
da Costa possui a importância singular de haver profissionalizado a curadoria
no Brasil, ao unir o rigor acadêmico da historiografia à prática institucional
em um momento de grandes mudanças tecnológicas. Graças à sua presença decisiva
no ambiente da videoarte, ela facilitou que artistas usassem equipamentos caros
e raros, transformando o espaço onde coordenava o núcleo de videoarte em um
laboratório de criação. Cabe lembrar que ela ajudou a definir o fazer
curatorial como uma atividade de pesquisa profunda, e que sua atuação como
editora executiva da referida obra História Geral da Arte no Brasil
levou à criação de uma base teórica necessária para que curadores tivessem
ferramentas de análise histórica sólidas. Entre seus livros encontram-se 70 Anos de Arte Brasileira (1977), e Wesley Duke Lee: Um Salmão
na Corrente Taciturna (2005), assim como sua
colaboração em Arte no Brasil: 1950-1985 (2004).
Graças à
publicação de A questão Wesley (2025), confirmamos esta que foi uma das
mais longevas parcerias entre crítica e artista no Brasil, uma profunda relação
de amizade que manteve com Wesley Duke Lee (1931-2010). Organizadora de
mostras, Cacilda foi também responsável pela sistematização teórica da obra
deste artista, tendo dedicado mais de 20 anos de pesquisa à sua vida e obra.
Cacilda teve acesso privilegiado aos diários e escritos pessoais de Wesley, o
que permitiu que ela fizesse uma curadoria interna, conectando a técnica
rigorosa do artista às suas obsessões pessoais, como o misticismo e a
sexualidade, temas que ela ajudou a legitimar no ambiente acadêmico. Desde um
primeiro momento, com a publicação de Wesley Duke Lee: Um Salmão na Corrente Taciturna (2005), ela já havia chamado a atenção
para a singularidade da rebeldia na obra do artista, evidenciando, dentre
outros aspectos, a criação do Grupo Rex
(1966-1967), por ela considerado um movimento de guerrilha cultural e deboche
institucional, essencial para o nascimento da arte contemporânea no Brasil. O
livro documenta o fato do grupo não se interessar apenas pela criação de um
espaço para vender quadros, mas sim de um local de provocação, descrevendo a
Rex Gallery & Sons como uma paródia das galerias comerciais, onde o grupo
buscava dessacralizar o objeto artístico. O grupo também editou o jornal Rex
Time, que estava muito além de ser apenas uma publicação informativa,
constituindo uma peça de arte em si. E o faz ao analisar as colunas satíricas e
o uso da estética Pop como uma ferramenta de crítica direta aos críticos de
arte da época e ao mercado, funcionando como um manifesto contínuo de liberdade
criativa.
Ao abordar
especificamente a liderança de Wesley Duke Lee no grupo, Cacilda utiliza a
metáfora do salmão para descrever essa rebeldia, seu esforço exaustivo de nadar
contra a correnteza do bom gosto burguês e do academicismo, mesmo que
isso custasse seu isolamento comercial. Enfim, ela defende que o Grupo Rex
profissionalizou a rebeldia ao dar a ela um suporte intelectual e documental
(através do jornal e das ações registradas), permitindo que o humor fosse
levado a sério como ferramenta crítica. Cacilda Teixeira da Costa utilizou
grandes exposições para consolidar o lugar de Wesley Duke Lee e do Grupo Rex na
história da arte, transformando o que era rebeldia transitória em um legado
histórico. Dado imperativo de se mencionar é que ela não curou apenas as
exposições, como mostras temporárias, tendo curado a história, ao levar o
sistema de arte a aceitar que o deboche e a crítica institucional eram, na
verdade, contribuições intelectuais de altíssimo nível.
O sabor especial
que assume a publicação agora desta edição de A questão Wesley é dado pela
configuração de uma amizade que superou a simples relação profissional,
resultando em uma parceria intelectual e afetiva que durou quase 40 anos,
marcada por uma confiança absoluta. Wesley sempre foi um interlocutor constante
e sumamente divertido em sua vida, pois seu humor crítico era sobretudo um
gesto de amor em relação à arte. Wesley foi artista que acumulou milhares de
anotações, desenhos em guardanapos e diários densos, tendo confiado a Cacilda o
acesso total a esse caos pessoal. Sua decisão de dedicar um doutorado a Wesley
foi um gesto de amizade e reconhecimento. Na época, muitos na academia ainda o
viam como um rebelde maldito ou apenas um pop extemporâneo. Ao escrever sobre
ele com rigor acadêmico, deu ao amigo a legitimidade que o mercado e a
universidade relutavam em oferecer. Não esquecer que o artista, conhecido por
ser genioso e avesso a críticas superficiais, aceitava as análises de Cacilda
porque sabia que elas vinham de alguém que realmente compreendia suas obsessões
(como o misticismo e a heráldica). Após a sua morte, Cacilda percebeu que era
uma das poucas pessoas que conseguia decifrar os manuscritos e as intenções por
trás de obras inacabadas, o que a levou a atuar como consultora essencial para
museus e colecionadores que precisavam autenticar ou entender a cronologia do
artista, tornando-se assim uma voz ativa contra o esquecimento da importância
de Wesley Duke Lee. Em entrevistas e palestras pós-2010, ela frequentemente
criticava como o mercado de arte tendia a simplificá-lo como apenas um artista
pop, reforçando sempre a complexidade intelectual e mística que ela conheceu de
perto. Em 2015, Cacilda, em parceria com a sobrinha do artista e o
galerista Ricardo Camargo, criou o Wesley Duke Lee Art Institute.
2 ELYS REGINA ZILS
& FLORIANO MARTINS | A entrevista
ERZ
| Nos anos 1970, quando o vídeo ainda era uma linguagem
experimental e de difícil acesso técnico no Brasil, você participou diretamente
da criação do núcleo de vídeo do MAC-USP ao lado de Walter Zanini, ajudando a
estruturar um campo que praticamente não existia institucionalmente. Você
acompanhou de perto o surgimento da videoarte no país, desde os primeiros
experimentos até sua inserção em museus, bienais e circuitos internacionais. Como
você avalia a trajetória da videoarte brasileira desde aqueles primeiros
experimentos até a produção contemporânea? O vídeo ainda preserva hoje algum
potencial de ruptura ou se institucionalizou como linguagem assimilada pelo
sistema da arte?
CTC
| O
vídeo é uma linguagem a que os artistas podem recorrer normalmente dependendo
da obra. Por si só não é uma ruptura, que será definida pela obra. O uso do VT
já foi uma ruptura em si, mas creio que hoje não é mais.
ERZ | Ao longo da sua trajetória, você atuou
em museus, bienais, televisão e projetos de formação cultural, sempre
refletindo sobre os modos de circulação e recepção da arte contemporânea no
Brasil. No texto Caminho das Pedras: A
arte da proximidade, entre outros, você discute como a arte contemporânea
desafia classificações estáveis e exige do público novas formas de percepção
diante da constante incorporação de tecnologias, linguagens e experiências
híbridas. Hoje, olhando para o cenário brasileiro das artes visuais, você
acredita que a arte contemporânea se tornou mais acessível ao público ou ainda
existe uma distância entre produção artística, instituições e sociedade?
CTC
| A arte
contemporânea é acessível (vejam os grafites por exemplo), mas nem todos estão
interessados, e ela pertence àqueles que a procuram. Mas por muitas vezes por
ser inusitada nem sempre é compreendia e degustada.
FM | Essas duas décadas foram tempos de misturar arte e
vida de forma visceral, algo muito presente no Grupo Rex e na própria vanguarda
que você acompanhou de perto. Hoje, em um mundo tão digitalizado e muitas vezes
previsível, você acha que perdemos um pouco daquela eletricidade e do perigo
que a arte representava?
CTC | Atualmente não convivo mais com as vanguardas, mas
acredito que essa eletricidade permanece – de outras formas talvez.
ERZ | No livro Roupa de artista, você investiga como o vestuário deixa de ser
apenas elemento complementar para tornar-se linguagem autônoma dentro da arte
contemporânea, atravessando performance, corpo, moda e artes visuais. O que o
vestuário revela sobre o corpo e a subjetividade na arte contemporânea que
outras linguagens talvez não consigam expressar? E como você percebe hoje a
relação entre moda, performance e artes visuais no Brasil?
CTC
| A roupa pode ser
também um meio de expressão como outros. Vestir ou desvestir são possibilidades
de expressão.
CTC
| Quem me induziu a
procurar Wesley foi o professor Walter Zanini com quem estudei e trabalhei
muitos anos. Wesley era para ele o salmão na corrente taciturna, no
sentido de estar sempre nadando contra a corrente, desafiando as normas
estabelecidas. Assim, estudá-lo era sempre surpreendente e ao final
gratificante. Mas fiz também pesquisas sobre a arquitetura do ferro, sobre
roupa de artista, livros de arte no Brasil etc., além de trabalhar em diversos
projetos. Enfim, Wesley foi certamente a figura mais singular que estudei, mas
não foi a única.
FM | Cacilda, passar anos lendo os diários e anotações
pessoais de alguém de certa forma nos torna cúmplices dessa pessoa. Quem era o
Wesley que você encontrou nesses papéis particulares e que o público que
frequentava os vernissages barulhentas dele nunca chegou a conhecer?
CTC | Era o que já mencionei, um espírito independente
voltado para o autoconhecimento, como à procura do sentido das coisas e
principalmente de registrar sua visão do mundo. Wesley desenhou, pintou,
gravou, construiu espaços e objetos para se conhecer e registrar sua visão de
mundo.
ERZ | Ao longo da sua pesquisa, você
acompanhou os debates críticos em torno da arte brasileira das décadas de 1960
e 1970, especialmente em um momento marcado pela expansão da pop art, das novas
figurações e das linguagens experimentais no país. Na sua visão, quais aspectos
da obra e da trajetória de Wesley Duke Lee ainda provocam mais desafios para a
crítica e para a historiografia da arte brasileira? E de que maneira a produção
dele continua dialogando com questões presentes na arte contemporânea?
CTC
| Wesley, nas
palavras de Walter Zanini, era um espírito brilhante e singular em choque
permanente com o meio artístico, e isso sempre será um desafio para a
historiografia da arte.
FM | A sua pesquisa mostra que, por trás do artista
polêmico e performático, havia um trabalhador obsessivo, metódico e muito
ligado à escrita. Como era essa intimidade dele com as palavras?
CTC |
Sim, era um trabalhador obsessivo à procura sempre de novos desafios,
mas principalmente no campo da expressão plástica, por meio de todas as formas
disponíveis, inclusive a escrita.
FM | O acervo do Museu Virtual Wesley Duke Lee guarda
registros de obras e colaborações que cruzam os universos de dois notáveis
artistas, ele e Zuca Sardan, ambos em uma mesma frequência de irreverência e
sátira fina. Como era a sua relação com o Zuca e como você enxerga o diálogo
entre o humor gráfico/poético dele e o espírito do Wesley? Eles chegaram a
trocar figurinhas ou influências nessa São Paulo efervescente?
CTC |
Sim. Entre eles havia uma sintonia muito grande e mesmo depois que deixaram
de conviver como no início, eles sempre descobriam com assombro que as preocupações
de um eram as mesmas do outro, mesmo sem se falarem por meses e vivendo em
partes longínquas do mundo.
FM | Tanto o Wesley quanto o Zuca Sardan parecem ter
criado universos muito particulares — o Wesley com seu realismo mágico e
cartografias, e o Zuca com seu teatro de sombras e fábulas satíricas. Você acha
que o meio artístico da época demorou a entender a genialidade dessa ficção
irônica que eles faziam?
CTC |
Sim, sem dúvida, e o Wesley sempre se ressentiu disso. Creio que o Zuca
era mais filósofo.
CTC |
A definição que também acho belíssima, de um Salmão na corrente taciturna
é de Walter Zanini em seu texto Phases em São Paulo de 1964. E continua:
… um espírito brilhante singular em choque permanente com o meio artístico. Não
posso afirmar, mas creio que ele continuaria crítico e irônico como sempre foi.
ERZ | Sua trajetória atravessa pesquisa
acadêmica, crítica de arte, curadoria, televisão e educação cultural. Em um
contexto em que a circulação das imagens se tornou instantânea e acelerada, o
papel do crítico e do curador também parece ter mudado profundamente. Qual você
considera ser hoje o principal desafio da crítica e da curadoria de arte? A
necessidade de interpretar a produção contemporânea, aproximar o público das
obras, lidar com o excesso de imagens e informações, acompanhar as
transformações tecnológicas, ou talvez outras questões que você considere mais
urgentes atualmente?
CTC
| Creio
que será sempre possível fazer uma aproximação sensível das obras de arte sem
preconceitos ou ideias ultrapassadas.
FM | Para fechar: se um jovem leitor da nossa revista
quiser travar um primeiro contato com a obra de Wesley Duke Lee hoje, por qual
trabalho, série ou conceito você sugere que ele comece a olhar para compreender
a força do artista?
CTC | Talvez O Trapézio ou uma Confissão, de 1966
da coleção da Pinacoteca de SP, ou as obras da coleção do MASP.
FLORIANO MARTINS (Brasil, 1957). Poeta, editor, dramaturgo, ensaísta, artista plástico e tradutor. Criou em 1999 a Agulha Revista de Cultura. Coordenou (2005-2010) a coleção “Ponte Velha” de autores portugueses da Escrituras Editora (São Paulo). Curador do projeto “Atlas Lírico da América Hispânica”, da revista Acrobata. Esteve presente em festivais de poesia realizados em países como Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, El Salvador, Equador, Espanha, México, Nicarágua, Panamá, Portugal e Venezuela. Curador da Bienal Internacional do Livro do Ceará (Brasil, 2008), e membro do júri do Prêmio Casa das Américas (Cuba, 2009), foi professor convidado da Universidade de Cincinnati (Ohio, Estados Unidos, 2010). Tradutor de livros de César Moro, Federico García Lorca, Guillermo Cabrera Infante, Vicente Huidobro, Hans Arp, Juan Calzadilla, Enrique Molina, Jorge Luis Borges, Aldo Pellegrini e Pablo Antonio Cuadra. Entre seus livros mais recentes se destacam Un poco más de surrealismo no hará ningún daño a la realidad (ensaio, México, 2015), O iluminismo é uma baleia (teatro, Brasil, em parceria com Zuca Sardan, 2016), Antes que a árvore se feche (poesia completa, Brasil, 2020), Naufrágios do tempo (novela, com Berta Lucía Estrada, 2020), Las mujeres desaparecidas (poesia, Chile, 2022), Sombras no jardim (prosa poética, Brasil, 2023), e Obra-prima da confusão entre dois mundos (poesia, Brasil, 2026).
ELYS REGINA ZILS (Brasil, 1986). Poeta, artista visual, tradutora. Doutoranda e Mestre em Estudos da Tradução pela PGET/Universidade Federal de Santa Catarina. Possui graduação em Letras-Língua Espanhola e Literaturas e Letras-Português também pela Universidade Federal de Santa Catarina/Florianópolis, Brasil. Se dedica à Literatura Latinoamericana, pesquisando principalmente Vanguardas Literárias e Artísticas com ênfase em Literatura Surrealista Latinoamericana. Editora da Agulha Revista de Cultura (a partir de 2023), revista criada por Floriano Martins. Tem sido responsável, parcialmente, pela curadoria e tradução de poetas hispano-americanos para o Atlas Lírico da América Hispânica, da revista Acrobata. A Sol Negro Edições, casa de livros artesanais, publicou Os elementos terrestres, de Eunice Odio, e Druida, de Marosa di Giorgio, ambas edições bilíngues organizadas e traduzidas por ela. Atualmente tem em preparação a tradução de livro de Olga Orozco, para a mesma Sol Negro Edições. Recentemente criou a Editora Mamma Quilla, cujo catálogo estreia com O dia dos cinco orgasmos (Leila Ferraz), Susana Wald – Visões vertiginosas da criação (ensaio e entrevista, ERZ) e Fragmentos de silêncio (poesia e colagem, ERZ), todos em 2024. Acaba de publicar A língua aprende a morder (poesia, 2026).
JAN ŠVANKMAJER (República Tcheca, 1934). Artista surrealista, marionetista, animador e cineasta, é conhecido por suas releituras sombrias de contos de fadas famosos e pelo uso vanguardista da animação stop-motion tridimensional combinada com filmagens em live-action. Alguns críticos o elogiaram por privilegiar os elementos visuais em detrimento do enredo e da narrativa, outros por seu uso de fantasia sombria. Adaptou obras literárias como Alice e Fausto. Sua obra Šílení (2005, Loucura) foi descrita como uma história de terror cômica que demonstra a influência do escritor americano Edgar Allan Poe e do nobre francês Marquês de Sade. Hmyz (2018, Inseto) é baseado na peça Ze ivota hmyzu (1921, A Peça dos Insetos) de Karel e Josef Čapek. A obra plástica de Jan Švankmajer nos acompanha nesta edição de Agulha Revista de Cultura em que é nosso artista convidado. Também podemos encontrar uma reveladora entrevista que lhe fez Floriano Martins, publicada em três idiomas.
Agulha Revista de Cultura
Número 265 | junho de 2026
Artista convidado: Jan Švankmajer (República Tcheca, 1934)
Editores:
Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com
Elys Regina Zils | elysre@gmail.com
ARC Edições © 2026
∞ contatos
https://www.instagram.com/agulharevistadecultura/
http://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/
FLORIANO MARTINS | floriano.agulha@gmail.com
ELYS REGINA ZILS | elysre@gmail.com











Nenhum comentário:
Postar um comentário