terça-feira, 9 de junho de 2026

FLORIANO MARTINS | Os tempos modernos da família Crumb

 


Tempos Modernos é uma antologia em quadrinhos lançada no Brasil pela Editora Veneta que reúne histórias criadas em família por Robert Crumb, Aline Kominsky-Crumb e Sophie Crumb, respectivamente esposa e filha. O livro funciona como uma crônica ácida, íntima e humorística sobre a vida familiar e o colapso da sociedade ocidental no início do século XXI. As histórias trazem um olhar mordaz sobre a obsessão pelas telas, o consumismo, o turismo de massa e o cenário político contemporâneo. O diferencial da HQ está na sobreposição de estilos. Robert, Aline e Sophie dividem as páginas, muitas vezes desenhando a si mesmos e interrompendo os quadrinhos uns dos outros para debater as próprias neuroses familiares. A crueza underground e detalhista de Robert Crumb se funde ao traço expressionista e intimista de Aline, somando-se à perspectiva geracional e igualmente irônica trazida por Sophie. Embora as histórias tenham sido produzidas individualmente ou em dupla ao longo de anos, a leitura linear transforma o livro em uma verdadeira crônica continuada. Essa forte identidade e coesão acontecem por três fatores principais: a neurose familiar, a costura metalinguística e a modernidade situada como inimigo comum.

Os Crumb operam em um regime de exposição total. Como os três desenham suas próprias vidas e dividem o mesmo teto — atualmente eles vivem na França rural —, os temas orbitam em torno dos mesmos fantasmas: o envelhecimento, a hipocondria, a obsessão com a alimentação e o estranhamento com o mundo exterior. A obsessão de um alimenta a paranoia do outro, criando um eco narrativo perfeito entre as páginas. A obra não parece uma colagem de gaveta porque os autores frequentemente invadem o espaço do outro. É comum ver Robert desenhando uma página e Aline interrompendo a vinheta para corrigi-lo ou brigar com ele sobre como foi retratada. Essa constante autocrítica em tempo real amarra os textos de datas diferentes, dando a sensação de que estamos assistindo a uma longa e ininterrupta discussão de domingo na mesa de jantar. Por sua vez, o fio condutor definitivo é a repulsa compartilhada pelo século XXI. Seja uma história de 2000 ou de 2015, o alvo é o mesmo: a invasão dos smartphones, a superficialidade do turismo moderno, a gentrificação e a degradação cultural. Essa postura crítica e o olhar estrangeiro que eles lançam sobre o próprio tempo funcionam como a cola ideológica que unifica o índice.

A transição geracional e a fusão dessas três vozes em uma assinatura única funcionam como o verdadeiro motor alquímico de Tempos Modernos. Em vez de gerar um choque que fragmenta a obra, a entrada de Sophie e o diálogo com seus pais criam uma das polifonias mais raras das histórias em quadrinhos. Essa assinatura coletiva se amarra através de dinâmicas muito específicas. Sophie cresceu vendo o pai ser aclamado como o gênio do quadrinho contracultural e a mãe como pioneira do quadrinho confessional feminino. Em Tempos Modernos, a voz dela desarma essa aura monumental. Ela os retrata não como ícones, mas como pais reais: teimosos, hipocondríacos, obcecados por queijos franceses e apavorados com a tecnologia. Ao humanizar Robert e Aline, Sophie traz um frescor que impede o livro de soar como um manifesto de velhos reclamando do presente. Ela valida as neuroses dos pais, mas insere a crueza de quem precisa lidar com o peso desse sobrenome no mundo real.

A unidade do livro impressiona porque os traços são radicalmente diferentes, mas operam na mesma frequência de acidez. Robert Crumb traz a obsessão técnica, as hachuras milimétricas e o rigor da perspectiva, mas usa essa precisão para desenhar sua própria decadência física e suas paranoias. Aline Kominsky-Crumb usa o estilo grunge, expressionista, propositalmente feio, focado na urgência da emoção e na autodepreciação corporal. Sophie Crumb atua como a ponte estética. O traço dela carrega a crueza visceral que herdou da mãe, mas flerta com o detalhismo urbano e a deformação satírica do pai. Há, portanto, uma assinatura Crumb, que não é mais a partilha de três cartunistas e sim a criação de uma voz única, onde precisamente o que torna o texto uma história única é que nenhum deles tenta anular o outro para sobressair. Existe um pacto implícito de honestidade brutal. Quando Sophie assume o foco, ela adota o mesmo DNA satírico e auto-exposto dos pais, mas sob a ótica de uma jovem adulta tentando encontrar sentido em uma sociedade hiper-conectada. O resultado não é uma colagem de três artistas convidados, mas uma mente familiar tripartida que assina a obra.

Tomemos o caso de um dos personagens. A escolha de Mode O’Day para amarrar o exílio na França e a fusão de vozes é cirúrgica. Embora ela tenha sido criada por Robert Crumb para satirizar o verniz cultural e o fetiche da moda de Nova York, a presença dela dentro de Tempos Modernos ganha uma nova camada de leitura quando contrastada com a realidade física e geracional da família Crumb no interior francês. A personagem serve perfeitamente para ilustrar como o exílio e a polifonia familiar moldam a identidade única do livro. Mode O’Day é a personificação da futilidade urbana americana — uma garota provinciana obcecada pelo circuito cool, pela aparência e pelo desejo de estar entre a elite artística. Ao editar e revisitar essas histórias vivendo no sul da França, isolados da engrenagem cultural norte-americana, os Crumb usam a personagem como um espécime de laboratório. O tédio rural e a rotina bucólica dos autores na França agem como um espelho invertido de Mode O’Day. Enquanto ela busca desesperadamente a validação das metrópoles hiper-conectadas, a vida real dos Crumb na antologia celebra o recolhimento, a comida local e a desconexão técnica. A personagem vira o exemplo máximo daquilo que eles rejeitam na modernidade. Embora Mode O’Day seja textualmente uma criação solo de Robert, ela opera em total sintonia com o ecossistema mental de Aline e Sophie. A sátira à obsessão estética e à superficialidade feminina de Mode conversa diretamente com os quadrinhos confessionais de Aline Kominsky-Crumb. Enquanto Robert ridiculariza o fetiche da moda de fora para dentro, Aline faz o mesmo de dentro para fora, rindo de suas próprias inseguranças corporais. Duas vozes diferentes atacando o mesmo monstro. Mode O’Day quer parecer moderna e conectada, mas soa datada e vazia. Sophie, ao entrar na antologia com o traço cru e jovem, traz a perspectiva da geração que herdou os escombros desse mundo que a personagem idolatrava. O olhar irônico de Sophie sobre os jovens do século XXI valida o cinismo do pai em relação à juventude fútil de décadas anteriores. A genialidade de colocar Mode O’Day no índice de Tempos Modernos é que ela deixa de ser apenas um sketch de humor dos anos 80/90 para se transformar em um sintoma do colapso. Quando lemos as páginas da personagem e, logo em seguida, vemos Robert, Aline e Sophie discutindo na cozinha sobre o horror das redes sociais ou o turismo de massa, Mode deixa de parecer ficção. Ela se torna a ancestral direta da sociedade fútil que a família Crumb tenta, desesperadamente, evitar no exílio francês.


Não é a primeira vez que leio os quadrinhos de Robert Crumb pensando em Frank Zappa, como paradigmas brilhantes que tocam no nervo cirúrgico da contracultura estadunidense. Embora operando em mídias diferentes, ambos funcionam como antropólogos do bizarro, usando a acidez, o escárnio e a sátira de costumes para dissecar o American Way of Life. A conexão entre a família Crumb em Tempos Modernos — especialmente com personagens como Mode O’Day — e o universo de Zappa se manifesta em pontos muito claros, que englobam a sátira à frivolidade e aos costumes culturais, a construção de crônicas polifônicas e corais, o dinamismo familiar na criação e até mesmo o exílio como resposta ao horror estadunidense.

Assim como Crumb criou Mode O’Day para rir do verniz intelectual e estético dos jovens urbanos, Zappa fez exatamente o mesmo na música. A faixa “Valley Girl” (de Zappa com sua filha, Moon Unit Zappa) é o equivalente musical exato de Mode O’Day. Ambas as obras satirizam a futilidade, o consumismo e o jargão vazio das garotas suburbanas americanas obcecadas por aparências. Tanto Crumb quanto Zappa odiavam o conformismo disfarçado de rebeldia. Eles não poupavam nem os conservadores caretas nem os hippies/hipsters fúteis. Certos álbuns de Zappa, como Joe’s Garage ou Thing-Fish, operam como Tempos Modernos, ao reunir sketches, personagens recorrentes e diálogos absurdos para contar uma história única sobre a decadência moral, o fanatismo religioso e o controle social. Se avançamos em uma leitura análoga, observamos que em Tempos Modernos várias vozes e datas diferentes são reunidas para estabelecer o clima final de uma narrativa só, igual sensação que temos ao ouvir a discografia de Zappa, onde uma piada interna ou um personagem de 1968 reaparece transformado em 1985. A participação de Sophie e Aline com Robert encontra eco na forma como Zappa trazia sua família para o caos criativo. Além de gravar com a filha Moon Unit, Zappa frequentemente envolvia o filho Dweezil e transformava a própria dinâmica doméstica em combustível para sua arte iconoclasta. Em ambos os casos, a família não é um refúgio sagrado e intocável, mas parte do próprio experimento satírico. Lembremos ainda que Zappa passou a vida criticando a censura, a ignorância política e o puritanismo dos Estados Unidos, chegando a dizer que o país era governado por uma teocracia fascista disfarçada. Robert Crumb levou essa repulsa às últimas consequências ao se exilar fisicamente na França. Tempos Modernos é o diário desse exílio: o olhar de quem observa o colapso da cultura americana à distância de segurança, com o mesmo desespero divertido que Zappa destilava em suas músicas.

Agora pensemos em outra joia comparativa, a conexão histórica e estética que aproxima Robert Crumb e Frank Zappa do universo de Robert Wilson e Tom Waits, especialmente em obras-primas do Teatro do Absurdo musical como The Black Rider e Alice, onde a crônica social se transforma em ópera expressionista. Esses quatro criadores não estão apenas documentando a realidade; eles a deformam através de uma performance altamente estilizada e teatral para evidenciar o absurdo da condição humana. A fusão entre o cinismo de Crumb/Zappa e o expressionismo de Wilson/Waits se manifesta em três pilares fundamentais: o vaudeville macabro e a estilização do grotesco; o cinismo como escudo contra o otimismo corporativo; e a polifonia e o cabaré familiar/coletivo. Tanto em Tempos Modernos quanto nos palcos de Wilson e Waits, os personagens não agem de forma naturalista. Eles são caricaturas expressionistas, bonecos de engrenagem quebrada. Mode O’Day e o cão Doggo de Crumb, por exemplo, operam no mesmo registro de atuação dos personagens bizarros e maquiados de The Black Rider. Zappa usava o deboche e a colagem musical vanguardista como figurino performático. Em Crumb, o figurino é o próprio traço: as hachuras excessivas e os corpos deformados funcionam como a iluminação expressionista e os cenários geométricos e artificiais de Robert Wilson. A estética rigorosa é usada para encapsular o caos. O pessimismo social de Crumb e Zappa em relação ao futuro encontra eco absoluto na melancolia junk de Tom Waits. Enquanto Crumb desenha a si mesmo como um velho ranzinza apavorado com telas digitais em Tempos Modernos, e Zappa fuzila o consumismo em suas letras, Tom Waits canta sobre os desajustados, os bêbados e os perdedores que caíram pelas frestas do capitalismo. No Teatro do Absurdo clássico — como Beckett ou Ionesco —, a linguagem colapsa porque o mundo perdeu o sentido. Em Tempos Modernos, a conversa familiar em loop dos Crumb na cozinha francesa traduz esse mesmo esvaziamento. A realidade virou um hospício performático; a única resposta artística possível é rir do próprio horror.

A parceria Wilson e Waits funciona porque une a precisão visual matemática de um com a poesia visceral, suja e analógica do outro. É o mesmo choque controlado que podemos encontrar em Tempos Modernos. O rigor técnico e quase geométrico das hachuras de Robert Crumb atua como os cenários cirúrgicos de Robert Wilson. Já o traço cru, visceral e confessional de Aline e Sophie funciona como os ruídos industriais, os grunhidos e a instrumentação arcaica de Tom Waits. Ao ler Tempos Modernos sob essa ótica, o livro deixa de ser apenas uma antologia de quadrinhos underground. Ele se transforma em um libreto de cabaré. Os Crumb não estão apenas vivendo; eles estão encenando as próprias neuroses em um palco de papel, cientes de que, do lado de fora do teatro, o mundo moderno está desmoronando exatamente como Frank Zappa previu e Tom Waits cantou.

Por outro lado, observamos também o fato de que as páginas de Tempos Modernos se parecem com cenas vivas, o que revela que Robert Crumb — segundo Art Spiegelman, um dos maiores cartunistas que o mundo já teve — consegue projetar essa visceralidade brutal na página estática através de recursos puramente gráficos que operam como som e movimento na mente do leitor. As figuras de Crumb têm gravidade. É possível sentir o peso dos corpos, a densidade das carnes, o suor na pele dos personagens e a textura dos tecidos. Não há nada idealizado ou etéreo; tudo é massivo, tátil e excessivo. Essa densidade física quase incômoda é o que puxa o leitor para dentro do quadrinho, transformando o papel em carne viva. O uso obsessivo das hachuras não serve apenas para sombrear. O traço de Crumb vibra. Há uma pulsação elétrica em cada milímetro da página que traduz visualmente a paranoia, a ansiedade e a energia nervosa dos personagens. É um desenho que emana ruído, a saturação de tinta preta evoca a mesma estática pesada e o ruído industrial de uma canção de Tom Waits ou o arranjo cortante de Frank Zappa. Os personagens de Crumb não posam; eles se contorcem, gesticulam dramaticamente e colapsam. O expressionismo dele está na capacidade de desenhar a psicologia do personagem estampada em sua linguagem corporal. Quando Robert desenha a si mesmo curvado, com as mãos trêmulas ou os olhos arregalados diante de uma tela de computador, o leitor não está apenas vendo um desenho, está testemunhando uma performance física real de pânico existencial. Em Tempos Modernos, essa visceralidade atinge o ápice porque ela é aplicada à intimidade real da família. Ao dar esse tratamento gráfico brutal e vivo para as brigas domésticas, para o envelhecimento dos corpos de Aline e dele próprio, e para as crises de Sophie, o quadrinho deixa de ser uma representação da vida e passa a ser a própria vida pulsando e sangrando na página.


Um dos exemplos clássicos do que afirmo encontramos logo no início de Tempos Modernos, com TV Blues, que é um cartão de visitas perfeito para essa visceralidade, onde encontramos o uso de Etaoin Shrdlu, destacando o mais puro gênio gráfico de seu autor. Esse momento sintetiza perfeitamente o porquê de os quadrinhos dele parecerem cenas vivas. O uso do termo Etaoin Shrdlu é uma chave valiosa, uma das maiores sacadas metalinguísticas de Crumb. Originalmente, Etaoin Shrdlu era a sequência das doze letras mais frequentes da língua inglesa, que ocupavam as duas primeiras colunas das antigas máquinas de escrever Linotipo. Quando os operadores de prensa cometiam um erro tipográfico, eles passavam o dedo por essa fileira de teclas para preencher a linha de chumbo e indicar ao revisor que aquela linha deveria ser descartada. Às vezes, por erro, a frase saía impressa nos jornais. Ao colocar isso em TV Blues, Crumb faz uma mágica tripla: a expressão funciona como a representação visual do curto-circuito cerebral causado pelo bombardeio da televisão. É o erro de digitação da alma humana sob o efeito das telas; mesmo sem som, quando o leitor bate o olho naquelas letras estranhas e repetitivas emolduradas pelo traço vibrante do Crumb, praticamente consegue ouvir a estática magnética do tubo da TV, o zumbido irritante e a cacofonia da modernidade; por último, sendo um colecionador e um apaixonado pelo mundo analógico pré-digital, Crumb resgata um termo fantasma da velha era da imprensa industrial para atacar o monstro eletrônico da televisão.

Em TV Blues, o magnetismo da tela não é desenhado de forma sutil. A luz da televisão deforma o cenário, as hachuras parecem irradiar eletricidade e o personagem é sugado fisicamente por aquele eletrodoméstico. Crumb consegue transformar o ato passivo de assistir à TV em uma luta corporal expressionista. O espectador fica hipnotizado, com os olhos arregalados, enquanto a repetição mental de Etaoin Shrdlu atua como um feitiço hipnótico. É uma cena viva porque traduz a nossa própria paralisia física e o nosso esvaziamento mental diante do fluxo de informação. A partir dessas primeiras páginas, o leitor já sabe que não vai apenas ler uma história, mas vai ser arrastado para dentro da tela de papel, sentindo a mesma estática e o mesmo blues existencial que consome os autores.

Eu penso em outra analogia, de alguma forma complementar, envolvendo tecnologias. É o caso da série para TV Person of Interest, criada por Jonathan Nolan, em que se utiliza uma Inteligência Artificial para prever crimes violentos antes que eles aconteçam. No caso de Crumb, afeito essencialmente aos sinais mais tragicômicos da realidade, ele se utiliza da passagem da TV para o cenário de aparelhos celulares que, neste caso, não antecipam crimes, mas conectam uma rede de superfluidades, onde o fluxo de informação é utilizado, criminalmente, para degenerar a sociedade. Evidente que tal leitura eleva a discussão a um patamar filosófico contemporâneo, permitindo traçar um paralelo entre os controles macro (a distopia de ficção científica) e micro (a distopia da vida cotidiana). Enquanto em Person of Interest a Inteligência Artificial monitora o crime explícito e a violência física, no ecossistema de Tempos Modernos a Máquina opera um crime invisível e muito mais insidioso: o crime cultural e existencial. A passagem da televisão para os smartphones, mapeada ao longo da antologia, é o registro histórico dessa mutação.

Essa degeneração social operada pelo fluxo de superfluidades se manifesta no livro através de três aspectos centrais: o panóptico voluntário, a futilidade criminosa como engenharia social e o efeito Etaoin Shrdlu do Século XXI. Na série de Jonathan Nolan, as pessoas são vigiadas pelas câmeras de segurança do Estado. No universo de Crumb, as pessoas compram o próprio instrumento de vigilância e o carregam no bolso com alegria. As superfluidades — as dancinhas, as selfies, a validação de curtidas e o consumo desenfreado — funcionam como a anestesia perfeita. O fluxo de informação não liberta; ele satura o cérebro até que a capacidade de pensamento crítico seja completamente destruída. É o crime perfeito, porque a vítima abraça o carrasco. A conexão de uma rede de superfluidades é o cerne das histórias mais recentes do livro, especialmente onde Sophie e Aline dividem o diagnóstico. Os celulares transformam o cidadão em um turista eterno de sua própria vida, incapaz de contemplar o silêncio, a natureza ou o próprio envelhecimento. Para os Crumb, esse esvaziamento da profundidade humana é uma atividade criminosa em massa perpetrada pelas corporações de tecnologia. A sociedade é degenerada não pela escassez, mas pelo excesso de lixo informacional. Se na abertura de TV Blues o personagem sofria o curto-circuito mental diante do tubo catódico isolado em sua sala, nas histórias posteriores o curto-circuito é ubíquo. O feitiço se torna portátil. As cenas em que os personagens andam pelas ruas da França ou de Nova York trombando uns nos outros porque estão hipnotizados pelas telas dos celulares são o equivalente visual exato dos crimes previstos pela IA de Person of Interest. A diferença é que a tragédia prevista por Crumb já aconteceu: a perda da nossa humanidade em troca de estímulos vazios.


Tempos Modernos acaba funcionando, portanto, como o relatório de uma investigação criminal em andamento. Os Crumb usam o traço visceral não apenas para fazer piada, mas para deixar registrado o modus operandi desse sistema que degenera a civilização através da distração. Tal analogia talvez nos fizesse crer que o fluxo de informação, atuando como uma força de degeneração social, faria com que a obra terminasse com um tom de capitulação total diante desse cenário. No entanto, o próprio ato de publicar um livro analógico, cru e familiar como este ainda guarda uma ponta de sabotagem e resistência contra essa máquina. Acho uma coisa impressionante que a linguagem utilizada neste caso seja a das histórias em quadrinhos que, a rigor, possui uma aceitação de mercado que supera o livro. Mesmo que a frase final de Tempos Modernos seja: Não há solução, o objeto em si possui esse tom anarquista de sabotagem. É como recorda Alan Moore, ao dizer que Robert Crumb é uma das joias da linguagem. Suas conexões — de Frank Zappa a Robert Wilson, de Tom Waits à engenharia social de Person of Interest — jogam uma luz cirúrgica sobre a profundidade desse livro. Por isto trouxe para este texto a lembrança de Alan Moore como um fecho de ouro insuperável. Moore sempre entendeu que os quadrinhos não são um subgênero da literatura, mas uma linguagem autônoma e devastadora. Ao usar essa mídia de apelo massivo para entregar uma obra tão cáustica, os Crumb realizam o ato anarquista definitivo: usam o próprio mercado como cavalo de Troia. O livro grita: Não há solução, mas a existência do objeto físico e analógico prova que a resistência pelo afeto e pela arte visceral ainda é possível.

Como observação final é bom lembrarmos uma inestimável curiosidade. A edição brasileira de Tempos Modernos deve ser vista como original, sendo ela uma coletânea inédita mundialmente, concebida e publicada diretamente no Brasil. O livro foi editado e lançado no mercado brasileiro pela Editora Veneta em fevereiro de 2026. O editor brasileiro, Rogério de Campos, viajou à França e trabalhou diretamente com o próprio Robert Crumb e com a pesquisadora Laora Fontain. Juntos, eles vasculharam o arquivo da família e selecionaram as histórias que comporiam o índice. O nome Tempos Modernos — assim como o conceito de transformá-lo nessa crônica unificada que discutimosfoi amarrado para esta edição brasileira. O objetivo era reunir a produção mais contemporânea delesdas últimas décadas até o período da pandemia de Covid, focando no ativismo ecológico, no horror tecnológico e no ambiente político recente. Conseguiram uma verdadeira obra-prima.




FLORIANO MARTINS (Brasil, 1957). Poeta, editor, dramaturgo, ensaísta, artista plástico e tradutor. Criou em 1999 a Agulha Revista de Cultura. Coordenou (2005-2010) a coleção “Ponte Velha” de autores portugueses da Escrituras Editora (São Paulo). Curador do projeto “Atlas Lírico da América Hispânica”, da revista Acrobata. Esteve presente em festivais de poesia realizados em países como Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, El Salvador, Equador, Espanha, México, Nicarágua, Panamá, Portugal e Venezuela. Curador da Bienal Internacional do Livro do Ceará (Brasil, 2008), e membro do júri do Prêmio Casa das Américas (Cuba, 2009), foi professor convidado da Universidade de Cincinnati (Ohio, Estados Unidos, 2010). Tradutor de livros de César Moro, Federico García Lorca, Guillermo Cabrera Infante, Vicente Huidobro, Hans Arp, Juan Calzadilla, Enrique Molina, Jorge Luis Borges, Aldo Pellegrini e Pablo Antonio Cuadra. Entre seus livros mais recentes se destacam Un poco más de surrealismo no hará ningún daño a la realidad (ensaio, México, 2015), O iluminismo é uma baleia (teatro, Brasil, em parceria com Zuca Sardan, 2016), Antes que a árvore se feche (poesia completa, Brasil, 2020), Naufrágios do tempo (novela, com Berta Lucía Estrada, 2020), Las mujeres desaparecidas (poesia, Chile, 2022), Sombras no jardim (prosa poética, Brasil, 2023), e Obra-prima da confusão entre dois mundos (poesia, Brasil, 2026). 



JAN ŠVANKMAJER (República Tcheca, 1934). Artista surrealista, marionetista, animador e cineasta, é conhecido por suas releituras sombrias de contos de fadas famosos e pelo uso vanguardista da animação stop-motion tridimensional combinada com filmagens em live-action. Alguns críticos o elogiaram por privilegiar os elementos visuais em detrimento do enredo e da narrativa, outros por seu uso de fantasia sombria. Adaptou obras literárias como Alice e Fausto. Sua obra Šílení (2005, Loucura) foi descrita como uma história de terror cômica que demonstra a influência do escritor americano Edgar Allan Poe e do nobre francês Marquês de Sade. Hmyz (2018, Inseto) é baseado na peça Ze ivota hmyzu (1921, A Peça dos Insetos) de Karel e Josef Čapek. A obra plástica de Jan Švankmajer nos acompanha nesta edição de Agulha Revista de Cultura em que é nosso artista convidado. Também podemos encontrar uma reveladora entrevista que lhe fez Floriano Martins, publicada em três idiomas.

  



Agulha Revista de Cultura

Número 265 | junho de 2026

Artista convidado: Jan Švankmajer (República Tcheca, 1934)

Editores:

Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com

Elys Regina Zils | elysre@gmail.com

ARC Edições © 2026


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