A música teve especial importância para o movimento
da Consciência Negra, liderado por Biko. Vários músicos se envolveram com o
movimento. Alguns, como os Malombo Jazz Makers, viajaram pelo país junto
com Biko, e ele chegou a citar James Brown em um de seus textos: Fale alto!
Sou negro e tenho orgulho de ser negro! (Say it Loud – I’m black and I’m
proud).
Já nas primeiras décadas do século XX, o jazz
norte-americano foi adotado pelas camadas da população negra urbanizada como
uma forma de escapar por instantes da realidade daquela África do Sul dominada
pelos colonialistas brancos. Os Estados Unidos eram o país do linchamento de
negros, do sul segregado e outros tantos horrores racistas, mas era também o
país de nobres como Duke Ellington e Count Basie, e a imagem elegante de
músicos como eles era inspiradora.
Por anos, o objetivo pareceu ser copiar os famosos
artistas afro-americanos tanto quanto possível, não só musicalmente, mas também
no visual. Aos poucos, porém, os sons africanos começaram a se misturar com
tudo aquilo e naqueles bares começou a surgir um jazz que tinha personalidade
distinta. O grupo que talvez melhor simbolize esse novo momento surge no final
dos anos 1950: o The Jazz Epistles, formado pelo pianista Dollar Brand (depois
conhecido como Abdullah Ibrahim), Kippie Moeketsi (sax), Hugh Masekela
(trompete), Jonas Gwangwa (trombone) e Makaya Ntshoko (bateria). O próprio
Abdullah Ibrahim dá a explicação para o impacto que teve o grupo:
A chave foi tocar nossa própria música. E o Kippie
[Moeketsi] foi a força motriz, dizendo que isso era uma afirmação da nossa
cultura e tradição. Em algumas composições ele injetou um pouco da música
tradicional dançante.
Essa nova música do Jazz Epistles, do The Blue
Notes e outros músicos articulava um senso de comunidade, levantava a
autoestima e expressava sentimentos daquela população vivendo sob o jugo da
minoria branca. Mais ainda: aquele cosmopolitismo negro parecia levar às ideias
panafricanas, pelo menos aos olhos da paranoica repressão fascista (mas, como
se diz, às vezes paranoicos têm inimigos reais). O regime conseguia lidar com a
música tradicional africana, mas aquela música negra urbana era um desafio para
a visão racista de qual deveria ser o lugar do negro na sociedade sul-africana
(no Brasil, vimos algo parecido com o samba, a soul music, o hip hop, o funk…).
Talvez por entender isso, o regime do Apartheid,
desde que foi implantado em 1948, fez um combate sem trégua contra o jazz
sul-africano. Derrubou bairros inteiros onde havia bares que tocavam jazz,
proibiu não apenas as bandas miscigenadas, mas também plateias miscigenadas.
Cada avanço da repressão política (depois, por exemplo, do massacre de
Sharperville, em 1960, ou depois do massacre de Soweto e o assassinato de Steve
Biko, em 1976/77) foi acompanhado de um aumento da perseguição aos artistas.
Muitos dos melhores talentos tiveram que deixar o país. Quem ficou sofreu todo
tipo de pressão para ser silenciado. Kippie Moeketsi, um dos principais nomes
na história do jazz sul-africano, teve seu instrumento confiscado e passou
vários anos sem permissão para trabalhar.
No início dos 1970, os Malombo Jazz Makers e os
Freedom’s Children, o mais importante grupo branco de rock progressivo do país,
bolaram uma maneira de driblar a proibição de negros e brancos tocarem juntos:
entraram no palco do Durban City Hall com máscaras de esqueleto, os braços e as
mãos pintadas com tinta florescente. Ramsay Mackay, líder dos Freedom’s
Children, conta que foi um momento tenso e hilário. Mas no meio dessa
maluquice, Lucky Ranku, guitarrista dos Malombo, virou para mim com lágrimas
escorrendo por trás da máscara e disse: Eu só posso tocar no meu próprio país
vestido de assombração.
Uma demonstração do quão terrível foi a repressão
do regime contra a música na África do Sul é o florescimento que o jazz
sul-africano teve depois do fim do Apartheid. A lista a seguir é bem subjetiva
e longe de mim me pretender um especialista no tema. Mas espero que inspire os leitores
a outras descobertas na África do Sul.
Essa gravação de 1964 mostra o The Blue Notes se apresentando no
festival de jazz de Antibes, no sul da França, logo após partirem para o
exílio. A situação do Blue Notes na África do Sul era especialmente precária,
por ser uma mixed-race band. O pianista, e líder da banda, Chris
McGregor era branco. Isso fazia eles serem muito visados pela polícia do regime
do Apartheid.
Se a gravação demonstra o nível de excelência que
os Blue Notes haviam atingido no domínio da gramática do jazz norte-americano,
o que vem nos anos seguintes é o que nos faz ver o Blue Notes não como uma
banda, mas como um manancial de maravilhas sonoras. Chris McGregor, Dudu
Pukwana (sax), Mongezi Feza (trompete), Nikele Moyake (sax), Johnny Dyani
(baixo), Louis Moholo-Moholo (bateria) e os músicos em torno deles seguiram
reinventando o Blue Notes, às vezes com outros nomes (Brotherhood of Breath,
Chris McGregor Group, South African Exiles…), do free jazz ao afro-rock (ouça a
banda Assagai, formada por Pukwana, Feza e Moholo no início dos anos 1970).
Abdullah Ibrahim
Dollar Brand voltou do exílio em 1968. Ele havia partido no início dos
anos 1960, quando o regime do Apartheid apertou o cerco contra a cena de jazz
sul-africana. No exílio, Brand gravou com Duke Ellington, tocou no Newport Jazz
Festival e teve contatos com músicos como John Coltrane, Ornette Coleman,
Pharoah Sanders, Cecil Taylor e Archie Shepp. Teve também maior contato com o
movimento Black Power. Mas em 1968 ele está de volta a Cape Town, já convertido
ao islamismo e com um novo nome: Abdullah Ibrahim.
É um momento em que ele começa a trabalhar mais com a musicalidade africana. E
nesse movimento chega a essa maravilha que é o álbum Underground in
Africa, de 1974. Nesse mesmo ano, ele convida os saxofonistas Basil Coetzee
e Robbie Jansen, que haviam participado do álbum, para uma nova gravação.
Conta-se que “Mannenberg” foi gravada em um só take. O título refere-se a uma
área onde o regime do Apartheid despejou a população negra depois de expulsá-la
de suas casas em Cape Town.
A música tem mais de 13 minutos, não tem slogans,
nem mesmo letra, apenas algumas poucas palavras gritadas no final: Oh
Mannenberg! Jy kan na New York gaan, maar ons bly hier in Mannenberg! (Você pode ir para Nova York, mas nós estaremos
aqui em Mannenberg!). Apesar disso, tornou-se imediatamente um hino
antiapartheid, tocada em todas as manifestações contra o regime.
Tanto que Abdullah teve que novamente partir para o
exílio dois anos depois.
Hugh Masekela
Em 1967, nesse mesmo dia do Festival de Monterrey em que se apresentou
com sua banda, Hugh Masekela tocou também com os Byrds, com quem ele já havia
gravado. Exilado pelo regime do Apartheid, vigiado pelo FBI, perseguido pelos
seus demônios interiores, Masekela levou seu jazz para além de todas as fronteiras.
Quantos mais podem se vangloriar de ter tocado com Miles Davis, Jimi Hendrix e
Sly Stone? Masekela tocou com Bob Marley na Jamaica e com Fela Kuti em
Lagos. Gravou músicas de Tom Jobim e Jorge Benjor, e emplacou um hit, “Grazing
in the Grass”, no topo das paradas de sucesso dos Estados Unidos. Compôs dois
dos principais hinos da luta contra o Apartheid: “Soweto Blues” e “Bring Him
Back Home”, esta última feita em homenagem à Nelson Mandela, que era um grande
fã de Masekela.
Junto com sua ex-mulher, Miriam Makeba, Masekela
foi por muito tempo o mais famoso embaixador da resistência sul-africana. E
conseguiu sobreviver a tudo, para ver o final do regime do Apartheid.
Malombo Jazz Makers
A introdução dos tambores malopo, tradicionalmente usados pelo povo Bapedi para ritos de cura, na música dos Malombo Jazzmen originais foi um momento crucial de
radicalismo político e cultural para o jazz sul-africano, colocando os sons e a
cultura locais novamente no centro do jazz. Na década seguinte, os Malombo Jazz
Makers se envolveram profundamente na oposição política ao Apartheid. Sua
recuperação dos sons nativos os tornou os porta-estandartes musicais do
movimento da Consciência Negra, e eles excursionaram clandestinamente pela
África do Sul com o escritor e ativista antiapartheid Steve Biko – Do texto que acompanhou o relançamento, em 2023,
do disco Down Lucky’s Way, gravado em 1969.
Nos anos 1970, sob pressão do aparato repressivo do
Apartheid, a banda resolveu deixar o país. O flautista e vocalista Abbey Cindi
não conseguiu viajar, porque as autoridades o detiveram e tomaram seu
passaporte. O percussionista Julian Bahula e o guitarrista Lucky Ranku se
exilaram na Inglaterra, onde formaram o grupo Jabula, que teve a participação
de Dudu Pukwana. Lucky Ranku também fez parte do grupo South African Exiles,
liderado por Chris McGregor.
Bahula, Ranku e Cindi continuaram muito ativos na
luta contra o Apartheid. Os dois primeiros propagandeando a causa pela Europa e
Estados Unidos. Cindi na África do Sul, junto ao Movimento da Consciência
Negra.
Bahula foi um dos organizadores e uma das
principais atrações do Africa Sounds!, o concerto de 1983 para comemorar os 65
anos de Nelson Mandela que marcou o início da campanha internacional pela
libertação do líder sul-africano.
“Lumumba” é uma composição de Bongi Makeba, filha de Miriam. Um dos
filhos de Bongi, Nelson Lumumba Lee (nascido em 1968), tinha esse nome em
homenagem a Nelson Mandela e Patrice Lumumba, e foram declarações de Miriam
Makeba a respeito do assassinato de Lumumba que supostamente fizeram o regime
do Apartheid bani-la do país.
Bongi compôs diversas músicas que se tornaram
sucessos do repertório de Miriam, entre elas “Malcolm X” e “A Luta Continua”,
esta última celebrando a independência de Moçambique. Bongi, que nasceu em
dezembro de 1950, com a África do Sul já sob a opressão do regime fascista,
nunca chegou a ver o fim do Apartheid: morreu em 1985, aos 34 anos.
Chris McGregor and the Brotherhood of Breath
Tem a ver com a polirritmia africana. Comecei a ouvir as possibilidades
de coisas acontecendo em muitos níveis rítmicos diferentes. Havia uma roda
girando então, as coisas fluindo juntas…, Chris McGregor descreve assim o desenvolvimento dos arranjos para
esse primeiro disco do Brotherhood of Breath, uma big band formada por ele,
seus companheiros do Blue Notes (Pukwana, Feza, Moholo e, às vezes, Johnny
Dyani), outros exilados sul-africanos, junto com músicos europeus. “MRA”
(equivalente de “Bra”, gíria para “brother”) é uma composição de Pukwana que já
fazia parte do repertório do Blue Notes. O produtor é Joe Boyd, que na época
estava também produzindo o Bryter Layter, do Nick Drake. Talvez por
isso, McGregor toca piano em “Poor Boy”.
Há também, no YouTube, uma ótima apresentação do
Brotherhood of Breath com Archie Shepp em Stuttgart, em 1989.
Johnny Dyani
O disco Song for Biko foi gravado em julho de 1978,
meses depois do brutal assassinato de Steve Biko pela polícia do Apartheid.
Dyani reuniu parceiros de longa data: Don Cherry, Dudu Pukwana (do The Blue
Notes) e Makaya Ntshoko, baterista do The Jazz Epistles.
No mesmo ano, Dyani gravou outro disco, Witchdoctor’s
Son, junto com Pukwana e John Tchicai, dinamarquês de origem congolesa.
Entre os músicos de acompanhamento estão os brasileiros Luiz Carlos “Chuim” de
Siqueira (bateria) e Alfredo Nascimento, do grupo Boa Nova. Nascimento toca o
violão em “Ntyilo, Ntylo”.
Moses Taiwa Molelekwa
Em meados dos anos 1980, Molelekwa surgiu como um herdeiro de Abdullah
Ibrahim ou de Herbie Hancock. Gravou com Miriam Makeba e Flora Purim, foi
convidado por Hugh Masekela para fazer parte de sua banda e ganhou vários
prêmios. Morreu jovem, em 2001, com apenas 28 anos. É uma referência muito
importante para as novas gerações de jazzistas sul-africanos. “Rapela” é de seu
segundo disco, Genes and Spirits, lançado um ano antes de sua
morte. Na bateria está o camaronês Brice Wassy (que, entre tantas outras
coisas, tocou na banda de Manu Dibango).
Bheki
Mseleku
Autodidata, Bheki Mseleku era pianista,
saxofonista, guitarrista, compositor e arranjador. Começou sua carreira em uma banda de rhythm and
blues em meados dos anos 1970 em Johannesburg, mas logo teve que deixar África
do Sul, como tantos outros artistas negros. Passou um tempo em Estocolmo e
depois se estabeleceu em Londres.
Em 1991, gravou seu primeiro disco, Celebration, e
foi a consagração. A partir daí ele assinou com a Verve, e gravou com astros do
jazz como Abbey Lincoln e Elvin Jones. Mseleku é citado como importante
influência por Thembi Dunjana e outros representantes do novo jazz
sul-africano. Ele morreu em 2008, aos 53 anos.
A morte de Andre Petersen, vítima da Covid em 2021, foi um acontecimento
trágico para o jazz sul-africano. Ele tinha 43 anos, e não apenas era um
dos principais nomes do jazz no país, mas era também um grande professor e
incentivador de novos talentos. Aqui, uma gravação dele com um de seus
ex-alunos, Bokani Dyer (nascido em Botswana, mas criado na África do Sul). E a
versão dele e da também sul-africana Kathleen Tagg para “Rapela”, de Moses
Molelekwa.
Thembi Dunjana
Creio, e espero, que ouviremos falar muito da pianista, vocalista e
compositora Thembi Dunjana. “Intyatyambo” é a faixa que dá nome ao seu primeiro
disco, de 2021. Em 2024, ela lançou God Bless iKapa. God Bless Mzantsi.
NOTAS
[1] https://www.npr.org/2017/04/26/525696698/the-legacy-of-the-jazz-epistles-south-africas-short-lived-but-historic-group.
[2] https://www.psychedelicbabymag.com/2012/04/freedoms-children-interview-with-ramsay.html.
[3] O
percussionista Julian Bahula, responsável por colocar os tambores malopo no
Malombo Jazzmen, saiu da banda e criou os Malombo Jazz Makers.
ROGÉRIO DE CAMPOS. Editor, tradutor, jornalista, ensaísta, escritor. Idealizou e editou diversas revistas, entre elas a revista Animal, que lhe rendeu o Troféu HQ Mix de melhor editor de 1989 e a revista General. Foi fundador da editora Conrad Editora e da Editora Veneta, na qual atualmente é diretor editorial. Como diretor editorial da Conrad foi o responsável pela área de livros e quadrinhos. Atuou no lançamento no Brasil dos mangás japoneses e manhwas coreanos e no lançamento de autores como Hakim Bey, Stewart Home, Wu Ming, Raoul Vaneigem, Albert Cossery, Joe Sacco, Alison Bechdel, Jacques Tardi, Suehiro Maruo, B. Traven, Gil Scott-Heron, Hervé Bourhis e outros. Vários dos autores que publicou na Conrad seguiram com ele para a Veneta, como Robert Crumb, Marcello Quintanilha e Alan Moore. Também seguiu para o catálogo da Veneta a Baderna, coleção de livros sobre ativismo que inclui obras de autores como Hakim Bey, Luther Blissett, Raoul Vaneigem, Matteo Guarnaccia e outros. O primeiro livro dessa nova fase da Baderna, já na Veneta, foi A Revoada dos Galinhas Verdes, de Fúlvio Abramo. Em 2015, publicou pela Veneta o livro Imageria - O nascimento das histórias em quadrinhos e, em 2018, Super-Homem e o Romantismo de Aço, pela Ugra Press, uma análise do lugar que o Superman ocupa na cultura atual, marcando o aniversário de 80 anos da personagem. É autor de livros como Um Santo em Marte, O Segredo da Sedução do Inocente e Revanchismo.
JAN ŠVANKMAJER (República Tcheca, 1934). Artista surrealista, marionetista, animador e cineasta, é conhecido por suas releituras sombrias de contos de fadas famosos e pelo uso vanguardista da animação stop-motion tridimensional combinada com filmagens em live-action. Alguns críticos o elogiaram por privilegiar os elementos visuais em detrimento do enredo e da narrativa, outros por seu uso de fantasia sombria. Adaptou obras literárias como Alice e Fausto. Sua obra Šílení (2005, Loucura) foi descrita como uma história de terror cômica que demonstra a influência do escritor americano Edgar Allan Poe e do nobre francês Marquês de Sade. Hmyz (2018, Inseto) é baseado na peça Ze ivota hmyzu (1921, A Peça dos Insetos) de Karel e Josef Čapek. A obra plástica de Jan Švankmajer nos acompanha nesta edição de Agulha Revista de Cultura em que é nosso artista convidado. Também podemos encontrar uma reveladora entrevista que lhe fez Floriano Martins, publicada em três idiomas.
Agulha Revista de Cultura
Número 265 | junho de 2026
Artista convidado: Jan Švankmajer (República Tcheca, 1934)
Editores:
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