Na simbologia
do fogo, a destruição está associada ao plano terrestre, o único possível de
anular o elo existente entre a maldição — esta será sempre vista como um dos
estados sutis da imaginação — e o ambiente factual. Desde o gótico clássico o
fogo afirma-se como o elemento libertador de toda forma de confinamento do ser, desde o trauma psicológico até a
possessão que fratura a consciência. Historicamente o século XVIII é o marco
inicial dessa complexa relação entre ser e matéria. Inicialmente o cenário
evocava castelos medievais com um passado sombrio, repletos de acidentes
inexplicáveis que apontam a existência de entidades fantasmais. Leitor e
personagens são assombrados pela visão e a audição, nem sempre tangíveis. Essa
fluência externa aos poucos é reorientada no sentido de se confundir com um
vinco psicológico, oriundo de uma perda ou outra forma de declínio existencial.
O espaço físico (arquitetônico, doméstico) se converte em uma projeção de
infortúnios traumáticos que se alimentam do medo, da insegurança, do
preconceito. Estes são sintomas que dão início ao plano literário definido pelo
tema da casa mal-assombrada.
Com a modernidade,
esse plano assume uma outra característica, mais aterradora, envolvendo
aspectos como a indução e a possessão. A casa deixa de ser o simples catalisador
de sombras e sons aterradores, e se torna um personagem ativo na violação de
egos. O que poderíamos chamar de gramática visual se converte em uma centelha
sensorial interna que altera os estados psicológicos de suas vítimas. Do ponto
de vista da narrativa, a descrição de cenas passa a ser muito mais envolvente e
assustadora. A psicologia se utiliza de um termo que define a inversão de
valores, no que diz respeito ao lar, que passa, do lugar sagrado de conforto
espiritual, para o espaço promotor de perigos. Com isto também se altera a
perspectiva de origem do mal, as fontes originárias dessa metamorfose ou
deterioração do ninho. A partir dessa probabilidade — a rigor uma afirmação do
imaginário — a casa se torna má, ou
seja, assume seu papel ativo de personagem dentro do ambiente da narrativa. E o
faz transpondo para si todos os desvios psicológicos que eram até então sinais
da psique humana. A casa identifica-se como um elemento catalisador dos piores
impulsos de seus moradores.
Na medida em
que esse processo é filtrado e ganha traços sofisticados de maquinações, um
novo aspecto evita o desgaste de recursos, fazendo com que saia de cena o
princípio da decadência familiar ou da maldição registrada apenas como aceleradora
de um colapso na linhagem de moradores ao longo dos tempos. Ou seja, as casas
deixam de ser transferidas a parentes naturais por morte de seus precedentes e
passam a ser alugadas ou vendidas, mesmo em caso de testamentos malquistos. A
suposta maldição se vê obrigada a alterar a raiz de sua configuração. Em mãos
alheias, a casa talvez agora queira simplesmente ser esvaziada ou destruída. Mesmo
longe do ambiente romanesco se proliferam antigas construções abandonadas que
gozam do valor por vezes imprudente de lugares assombrados. Mais do que os
romances, as cidades estão repletas de casas mal-assombradas, como reflexo de
uma condição social precária. A literatura e o cinema jamais dariam conta de
todas elas, desses espíritos sorrateiros que cobiçam crenças e ilusões.
O autor
transfere sempre para a casa o destino de seus residentes. E o faz ao eleger o
comportamento de um narrador que irá apresentar os rumos da tragédia e as
perspectivas de sua eventual anulação. Como apresentar esse narrador? Há casos
em que também ele é o organismo doente que compactua com a casa os sinais
esquizoides aproximados, atuando na destruição dos residentes, coadjuvantes de
seus distúrbios. Podem ser intencionalmente negligentes, deixando ao acaso o comando da narrativa. Ou desafiar toda a
lógica saturada do tema. O narrador se tornaria o protagonista e ele próprio
destruiria sacrificadores e vítimas. A casa perderia aí a sua grande
representação simbólica. O tema seria anulado ou convertido em outra versão de
si mesmo. Há um raro caso assim, o da combustão social, onde o narrador assume
a personalidade de um legislador sobre os alicerces, sobretudo morais, dos
inquilinos, neste caso uma metáfora de toda uma realidade mais complexa do que
propriamente os interiores de uma residência doméstica. De tudo isto, o que nos
interessa distinguir é o potens do
acaso, o modo como o inesperado pode superar todas as frias anotações
estruturais.
O acaso e a
deformação da realidade. Este talvez seja o ponto mais caro à criação
artística. Já não se trata de observar as nuances da alteração psicológica no
comportamento dos habitantes de uma casa, mas sim perceber de que forma o mundo
se modifica ou deixa modificar na medida em que o acaso opera sobre suas
particularidades. Quando, em um romance que se aventura a percorrer o
desgastado território de um tema como o da casa mal-assombrada, observamos as
sutis astúcias de seu autor ao mover de lugar as peças de um xadrez
existencial, é interessante perceber que temos que mudar também de lugar alguns
conceitos. O primeiro deles talvez, não sei, não estaremos nunca certos nesse
terreno, seja o fato, bastante delicado, de que um dos personagens se confunde com
um dilema exterior ao da narração em si. Há uma espécie de protagonismo
paralelo que elimina a certeza de que tudo na narrativa segue uma dada direção.
Outra nota singular é que o narrador não sacrifica suas escolhas em alguns
momentos da história, ou seja, ele quer fazer parte da trama, embora saiba que
isto é impossível. Mais aspectos? A casa em si é um provérbio de algo maior.
Não vemos, na extensão do corpo da narrativa, aqueles atributos comuns — mesmo
o descaso com a arrumação do lar, o mofo, a falta de organização, não são senão
lembretes furtivos de que estamos percorrendo um cenário de terror — como
determinantes estéticos. Sim, mesmo um romance de terror exige uma presença
estética.
Quem são os
personagens deste romance de Daniel Adjafre? Indago pelo perfil determinante de
sua narrativa. A casa, em primeiro lugar. Uma casa que é determinada por um
ambiente maldito no sentido de afetação de linhagem. A casa habitada por uma
pequena família, casal com filho de 11 anos, não estabelece o menor canal de
comunicação com o passado do ambiente. O passado registrado na residência
aponta em algo incomum. O morador originário estava decidido a romper com os
vínculos primários do livre-arbítrio. Há aí muitas possibilidades de canais
alterados na comunicação entre espírito e matéria. A narrativa deste curioso
romance Não volte para casa aborda
ainda uma dissensão, o ato violento em si, que determina o destino da
narrativa, tem sua origem no acaso. Não há propriamente um exorcismo, se o caso
fosse de expulsão de um demônio, assim como não é propriamente a destruição
ígnea da casa o que a torna uma estrutura desfeita em si mesma. Não há um fim
previsto para nada do que ocorreu.
A imaginação
não acredita em fim de linhagem. Há uma tradição que no Brasil relaciona o tema
como uma interferência sobrenatural de um passado escravocrata. Dentro e fora
dessa tradição, o final imponderável é a destruição da casa, na forma de um
assassinato da entidade, impedindo que haja um ressurgimento da maldição.
Daniel Adjafre escreveu um romance que não se encaixa nessa validação do tema.
Se observamos bem, tudo está ali presente. Os mesmos recursos, evocações e
soluções encontradas etc. A condição esquizoide que se distribui entre os
moradores, o modo como a memória vai definhando ao ponto de criar uma aura de
certa equivalência entre eles na mesma condição de possuídos, assim como a
impossibilidade de determinar o que seja verdadeiro. Há uma máxima fascinante
que o autor soube se apropriar dela: O
horror não é uma opinião do personagem, é um fato físico registrado pela
narração. Certa crueza narrativa que nos conta a história de Não volte para casa sabe muito bem
distinguir a clareza da necessidade intrínseca de fazer com que o sentido mais
profundo permaneça nas sombras.
A memória humana
é o registro de detalhes triviais. Quando somos meticulosos em nosso
comportamento por vezes ignoramos o mofo no teto da sala ou o excesso de folhas
secas nas pequenas plantas que regamos. Os dias se alteram de tal forma que a
memória pode gerar uma indissolúvel aflição. Sob esse aspecto não devemos nunca
voltar para casa. Até o último instante Daniel Adjafre soube resistir a toda
forma de recorrência do tema. Sua casa mal-assombrada teve um sobrevivente. Um
filho. Que não se sabe se da família residente ou da casa em si. Tampouco
importa. O que ele nos sugere — e o faz com uma fluidez fascinante — é que o
acaso pode ter uma atuação distinta em nossa vida daquela a que nos
determinamos.
FLORIANO MARTINS (Fortaleza, 1957). Poeta, editor, dramaturgo, ensaísta, artista plástico e tradutor. Criou em 1999 a Agulha Revista de Cultura. Coordenou (2005-2010) a coleção “Ponte Velha” de autores portugueses da Escrituras Editora (São Paulo). Curador do projeto “Atlas Lírico da América Hispânica”, da revista Acrobata. Esteve presente em festivais de poesia realizados em países como Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, El Salvador, Equador, Espanha, México, Nicarágua, Panamá, Portugal e Venezuela. Curador da Bienal Internacional do Livro do Ceará (Brasil, 2008), e membro do júri do Prêmio Casa das Américas (Cuba, 2009), foi professor convidado da Universidade de Cincinnati (Ohio, Estados Unidos, 2010). Tradutor de livros de César Moro, Federico García Lorca, Guillermo Cabrera Infante, Vicente Huidobro, Juan Calzadilla, Enrique Molina, Jorge Luis Borges, Aldo Pellegrini e Pablo Antonio Cuadra. Entre seus livros mais recentes se destacam Un poco más de surrealismo no hará ningún daño a la realidad (ensaio, México, 2015), Antes que a árvore se feche (poesia completa, Brasil, 2020), Naufrágios do tempo (novela, com Berta Lucía Estrada, 2020), Las mujeres desaparecidas (poesia, Chile, 2022), Sombras no jardim (prosa poética, Brasil, 2023), e Obra-prima da confusão entre dois mundos (poesia, Brasil, 2026). O texto acima foi incluído no romance de Daniel Adjafre como prefácio (Guaratinguetá: Editora Littetralux, 2026).
PATRICK LEPETIT (França, 1953). Poeta, ensaísta, colagista e pesquisador ligado à rede acadêmica internacional Mélusine. Com forte atuação no Surrealismo contemporâneo, sua produção intelectual e artística investiga as correntes subterrâneas do movimento, mapeando os pontos de contato entre a criação estética, os mitos tradicionais, o hermetismo e as tradições esotéricas. É autor de diversas coletâneas de poesia (como Rouge solaire e Beauté du funambule) e de ensaios fundamentais, entre os quais Le Surréalisme. Parcours souterrain — obra laureada pelo Institut Maçonnique de France —, Surrealism and Operative Alchemy e La tête d’Ogmius. Surréalisme et mythes celtiques. Na vertente plástica, expande esse mesmo lirismo hermético para o campo das colagens e composições oníricas, projetando imagens ocultas do horizonte de nosso tempo. É o artista convidado da presente edição de Agulha Revista de Cultura.
Agulha Revista de Cultura
Número 266 | setembro de 2026
Artista convidado: Patrick Lepetit (França, 1953)
Editores:
Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com
Elys Regina Zils | elysre@gmail.com
ARC Edições © 2026
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