sábado, 19 de setembro de 2026

FLORIANO MARTINS | Não volte para casa, um romance de Daniel Adjafre

 


Quando um autor se decide a explorar o tema da casa mal-assombrada, sabe que está diante de um clássico em que corre o risco de uma recorrência esvaziada de sentido mais profundo. Tudo pode se limitar a mera repetição dos artifícios da memória, refletindo uma imaginação desprovida de ousadia. É o tema absorvendo a liberdade criativa, deformando aquele desejo proibido, nas palavras de Nietzsche, que dá à criação a sua face mais intensa e reveladora. Nesse caso, sendo o tema a presença de uma casa mal-assombrada como uma mise-en-scène de um estranho ser que se apodera do livre-arbítrio de seus moradores, o romancista pode ser sugado pelo centro de um labirinto e ele próprio se tornar um morador dessa narrativa-casa que o obriga a repetir velhos truques de indução e possessão, ao ponto de ser devorado por suas intenções. Com alguma indesejada frequência vemos isto acontecer nos roteiros cinematográficos que recorrem a este tema, narcotizados pelos vícios de linguagem. Outra recorrência, realçada até o umbral do desgaste pelo cinema, é a cena final que funciona como um start, geralmente enfadonho, para a retomada de um ciclo seguinte.

Na simbologia do fogo, a destruição está associada ao plano terrestre, o único possível de anular o elo existente entre a maldição — esta será sempre vista como um dos estados sutis da imaginação — e o ambiente factual. Desde o gótico clássico o fogo afirma-se como o elemento libertador de toda forma de confinamento do ser, desde o trauma psicológico até a possessão que fratura a consciência. Historicamente o século XVIII é o marco inicial dessa complexa relação entre ser e matéria. Inicialmente o cenário evocava castelos medievais com um passado sombrio, repletos de acidentes inexplicáveis que apontam a existência de entidades fantasmais. Leitor e personagens são assombrados pela visão e a audição, nem sempre tangíveis. Essa fluência externa aos poucos é reorientada no sentido de se confundir com um vinco psicológico, oriundo de uma perda ou outra forma de declínio existencial. O espaço físico (arquitetônico, doméstico) se converte em uma projeção de infortúnios traumáticos que se alimentam do medo, da insegurança, do preconceito. Estes são sintomas que dão início ao plano literário definido pelo tema da casa mal-assombrada.

Com a modernidade, esse plano assume uma outra característica, mais aterradora, envolvendo aspectos como a indução e a possessão. A casa deixa de ser o simples catalisador de sombras e sons aterradores, e se torna um personagem ativo na violação de egos. O que poderíamos chamar de gramática visual se converte em uma centelha sensorial interna que altera os estados psicológicos de suas vítimas. Do ponto de vista da narrativa, a descrição de cenas passa a ser muito mais envolvente e assustadora. A psicologia se utiliza de um termo que define a inversão de valores, no que diz respeito ao lar, que passa, do lugar sagrado de conforto espiritual, para o espaço promotor de perigos. Com isto também se altera a perspectiva de origem do mal, as fontes originárias dessa metamorfose ou deterioração do ninho. A partir dessa probabilidade — a rigor uma afirmação do imaginário — a casa se torna , ou seja, assume seu papel ativo de personagem dentro do ambiente da narrativa. E o faz transpondo para si todos os desvios psicológicos que eram até então sinais da psique humana. A casa identifica-se como um elemento catalisador dos piores impulsos de seus moradores.

Na medida em que esse processo é filtrado e ganha traços sofisticados de maquinações, um novo aspecto evita o desgaste de recursos, fazendo com que saia de cena o princípio da decadência familiar ou da maldição registrada apenas como aceleradora de um colapso na linhagem de moradores ao longo dos tempos. Ou seja, as casas deixam de ser transferidas a parentes naturais por morte de seus precedentes e passam a ser alugadas ou vendidas, mesmo em caso de testamentos malquistos. A suposta maldição se vê obrigada a alterar a raiz de sua configuração. Em mãos alheias, a casa talvez agora queira simplesmente ser esvaziada ou destruída. Mesmo longe do ambiente romanesco se proliferam antigas construções abandonadas que gozam do valor por vezes imprudente de lugares assombrados. Mais do que os romances, as cidades estão repletas de casas mal-assombradas, como reflexo de uma condição social precária. A literatura e o cinema jamais dariam conta de todas elas, desses espíritos sorrateiros que cobiçam crenças e ilusões.


Até o momento em que luto e paranoia se mesclam em um cenário de sutil desfiguração, puxando a linha desde o princípio do que estamos relatando, autores se destacam como aqueles que sobrepujaram os desafios do tema, dentre eles Horace Walpole, seguido de Ann Radcliffe, Shirley Jackson, Edgar Allan Poe, Margaret Atwood, Charlotte Brontë, Stephen King, Lúcio Cardoso, Charlotte Perkins Gilman — a lista é finita, porém extensa —, até que chegamos a um perfil que se define como o maior aterrorizante de todos, o da casa como um ser faminto que se alimenta da fragilidade espiritual de seus moradores. Este é o momento em que se passa a explorar as estruturas psicológicas do livre-arbítrio. Há casos em que a casa incita o conflito entre seus inquilinos, outros em que promove uma afinidade entre eles em torno de um alvo a ser combatido, e mesmo aqueles em que os torna tão alheios entre si que passam a atuar de modo aleatório. Caberá ao escritor definir se optará pelos processos de indução ou possessão ao estabelecer os traços significativos de sua narração.

O autor transfere sempre para a casa o destino de seus residentes. E o faz ao eleger o comportamento de um narrador que irá apresentar os rumos da tragédia e as perspectivas de sua eventual anulação. Como apresentar esse narrador? Há casos em que também ele é o organismo doente que compactua com a casa os sinais esquizoides aproximados, atuando na destruição dos residentes, coadjuvantes de seus distúrbios. Podem ser intencionalmente negligentes, deixando ao acaso o comando da narrativa. Ou desafiar toda a lógica saturada do tema. O narrador se tornaria o protagonista e ele próprio destruiria sacrificadores e vítimas. A casa perderia aí a sua grande representação simbólica. O tema seria anulado ou convertido em outra versão de si mesmo. Há um raro caso assim, o da combustão social, onde o narrador assume a personalidade de um legislador sobre os alicerces, sobretudo morais, dos inquilinos, neste caso uma metáfora de toda uma realidade mais complexa do que propriamente os interiores de uma residência doméstica. De tudo isto, o que nos interessa distinguir é o potens do acaso, o modo como o inesperado pode superar todas as frias anotações estruturais.

O acaso e a deformação da realidade. Este talvez seja o ponto mais caro à criação artística. Já não se trata de observar as nuances da alteração psicológica no comportamento dos habitantes de uma casa, mas sim perceber de que forma o mundo se modifica ou deixa modificar na medida em que o acaso opera sobre suas particularidades. Quando, em um romance que se aventura a percorrer o desgastado território de um tema como o da casa mal-assombrada, observamos as sutis astúcias de seu autor ao mover de lugar as peças de um xadrez existencial, é interessante perceber que temos que mudar também de lugar alguns conceitos. O primeiro deles talvez, não sei, não estaremos nunca certos nesse terreno, seja o fato, bastante delicado, de que um dos personagens se confunde com um dilema exterior ao da narração em si. Há uma espécie de protagonismo paralelo que elimina a certeza de que tudo na narrativa segue uma dada direção. Outra nota singular é que o narrador não sacrifica suas escolhas em alguns momentos da história, ou seja, ele quer fazer parte da trama, embora saiba que isto é impossível. Mais aspectos? A casa em si é um provérbio de algo maior. Não vemos, na extensão do corpo da narrativa, aqueles atributos comuns — mesmo o descaso com a arrumação do lar, o mofo, a falta de organização, não são senão lembretes furtivos de que estamos percorrendo um cenário de terror — como determinantes estéticos. Sim, mesmo um romance de terror exige uma presença estética.

Quem são os personagens deste romance de Daniel Adjafre? Indago pelo perfil determinante de sua narrativa. A casa, em primeiro lugar. Uma casa que é determinada por um ambiente maldito no sentido de afetação de linhagem. A casa habitada por uma pequena família, casal com filho de 11 anos, não estabelece o menor canal de comunicação com o passado do ambiente. O passado registrado na residência aponta em algo incomum. O morador originário estava decidido a romper com os vínculos primários do livre-arbítrio. Há aí muitas possibilidades de canais alterados na comunicação entre espírito e matéria. A narrativa deste curioso romance Não volte para casa aborda ainda uma dissensão, o ato violento em si, que determina o destino da narrativa, tem sua origem no acaso. Não há propriamente um exorcismo, se o caso fosse de expulsão de um demônio, assim como não é propriamente a destruição ígnea da casa o que a torna uma estrutura desfeita em si mesma. Não há um fim previsto para nada do que ocorreu.

A imaginação não acredita em fim de linhagem. Há uma tradição que no Brasil relaciona o tema como uma interferência sobrenatural de um passado escravocrata. Dentro e fora dessa tradição, o final imponderável é a destruição da casa, na forma de um assassinato da entidade, impedindo que haja um ressurgimento da maldição. Daniel Adjafre escreveu um romance que não se encaixa nessa validação do tema. Se observamos bem, tudo está ali presente. Os mesmos recursos, evocações e soluções encontradas etc. A condição esquizoide que se distribui entre os moradores, o modo como a memória vai definhando ao ponto de criar uma aura de certa equivalência entre eles na mesma condição de possuídos, assim como a impossibilidade de determinar o que seja verdadeiro. Há uma máxima fascinante que o autor soube se apropriar dela: O horror não é uma opinião do personagem, é um fato físico registrado pela narração. Certa crueza narrativa que nos conta a história de Não volte para casa sabe muito bem distinguir a clareza da necessidade intrínseca de fazer com que o sentido mais profundo permaneça nas sombras.

A memória humana é o registro de detalhes triviais. Quando somos meticulosos em nosso comportamento por vezes ignoramos o mofo no teto da sala ou o excesso de folhas secas nas pequenas plantas que regamos. Os dias se alteram de tal forma que a memória pode gerar uma indissolúvel aflição. Sob esse aspecto não devemos nunca voltar para casa. Até o último instante Daniel Adjafre soube resistir a toda forma de recorrência do tema. Sua casa mal-assombrada teve um sobrevivente. Um filho. Que não se sabe se da família residente ou da casa em si. Tampouco importa. O que ele nos sugere — e o faz com uma fluidez fascinante — é que o acaso pode ter uma atuação distinta em nossa vida daquela a que nos determinamos.




FLORIANO MARTINS (Fortaleza, 1957). Poeta, editor, dramaturgo, ensaísta, artista plástico e tradutor. Criou em 1999 a Agulha Revista de Cultura. Coordenou (2005-2010) a coleção “Ponte Velha” de autores portugueses da Escrituras Editora (São Paulo). Curador do projeto “Atlas Lírico da América Hispânica”, da revista Acrobata. Esteve presente em festivais de poesia realizados em países como Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, El Salvador, Equador, Espanha, México, Nicarágua, Panamá, Portugal e Venezuela. Curador da Bienal Internacional do Livro do Ceará (Brasil, 2008), e membro do júri do Prêmio Casa das Américas (Cuba, 2009), foi professor convidado da Universidade de Cincinnati (Ohio, Estados Unidos, 2010). Tradutor de livros de César Moro, Federico García Lorca, Guillermo Cabrera Infante, Vicente Huidobro, Juan Calzadilla, Enrique Molina, Jorge Luis Borges, Aldo Pellegrini e Pablo Antonio Cuadra. Entre seus livros mais recentes se destacam Un poco más de surrealismo no hará ningún daño a la realidad (ensaio, México, 2015), Antes que a árvore se feche (poesia completa, Brasil, 2020), Naufrágios do tempo (novela, com Berta Lucía Estrada, 2020), Las mujeres desaparecidas (poesia, Chile, 2022), Sombras no jardim (prosa poética, Brasil, 2023), e Obra-prima da confusão entre dois mundos (poesia, Brasil, 2026). O texto acima foi incluído no romance de Daniel Adjafre como prefácio (Guaratinguetá: Editora Littetralux, 2026).



PATRICK LEPETIT (França, 1953). Poeta, ensaísta, colagista e pesquisador ligado à rede acadêmica internacional Mélusine. Com forte atuação no Surrealismo contemporâneo, sua produção intelectual e artística investiga as correntes subterrâneas do movimento, mapeando os pontos de contato entre a criação estética, os mitos tradicionais, o hermetismo e as tradições esotéricas. É autor de diversas coletâneas de poesia (como Rouge solaire e Beauté du funambule) e de ensaios fundamentais, entre os quais Le Surréalisme. Parcours souterrain — obra laureada pelo Institut Maçonnique de France —, Surrealism and Operative Alchemy e La tête d’Ogmius. Surréalisme et mythes celtiques. Na vertente plástica, expande esse mesmo lirismo hermético para o campo das colagens e composições oníricas, projetando imagens ocultas do horizonte de nosso tempo. É o artista convidado da presente edição de Agulha Revista de Cultura.

  



Agulha Revista de Cultura

Número 266 | setembro de 2026

Artista convidado: Patrick Lepetit (França, 1953)

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