1. ALEXANDRE RIBONDI | As Magas desnudas
Entre a primeira e
segunda parte do espetáculo Du-Elo, que as
excelentes bailarinas
brasilienses Maura Baiocchi e Eliana Carneiro estão
apresentando na Sala Martins Pena, o público assiste a um momento raro no mundo
da dança: há apenas uma cadeira de braço coberto com filó enquanto a música
escorre pelo palco. Em seguida, fecha-se a cortina para abrí-la novamente
instantes depois. Não há ninguém no palco, ouve-se apenas a música, a mesma de
antes. Enquanto isso, durante este balé sem corpos ou movimentos, o publicou
mal sabe o que fazer. Alguns tossem, outros mostram declaradamente um longo
bocejo, poucos vaiam e se retiram e muitos, muitos outros permanecem cada vez
mais curiosos. E é isto o que dá a principal característica do Du-Elo:
curiosidade fortes
pinceladas da mais pura ousadia. E é por isto que o trabalho de Eliana e Maura
deve ser
visto com atenção, para vaias ou aplausos escancarados. Mas nunca para a
indiferença.
De
qualquer jeito, não é só isto que marca o espetáculo. No primeiro quadro, ou na
primeira parte, as duas mulheres se apresentam para falar do umbigo e de seus
próprios corpos, de certa maneira. Elas se contorcem e entram em uma luta
harmónica, fazendo com que, talvez, daí tenha surgido o título Du-Elo. A
música, de Dieter Kaufmann, Bildnis
einer Frau im Spiegel [Retrato de uma mulher no espelho], emite sons
cortados, gemidos,
gargalhadas, ruídos de dores. As duas bailarinas se entreolham, se procuram e
dão a impressão de não se encontrarem realmente nunca. As vozes de crianças, que falam, cochicham e
riem, trazem à memória de que se tratam de duas mulheres cuja feminilidade
passa também pela criação de filhos.
O que
marca em Du-Elo é sem
dúvida alguma a ausência de virtuosismos ou grandes demonstrações de domínio da
técnica das danças (que Eliana e Maura reconhecidamente tem). Pelo contrário, o
que elas mostram são
momentos de intimidade e revelações, como duas magas que se desnudam e despem
seu segredos e truques. Aliás, ninguém mesmo se pergunta como elas conseguem os movimentos que
fazem: eles são simples, aparentemente, e parecem em extremamente fáceis. Dá
vontade de acompanhá-las.
Enquanto
isso, em Tradição nostálgica (com música do Steve Reich, Music for 18
musicians), seus rostos estão cobertos por longos metros de filó amarelo.
As dançarinas tentam se desvencilhar deles, seus gestos e movimentos mostram
agonia, mas a sombra refletida no ciclorama envia outra mensagem - uma certa
cadência harmônica, como se as duas fossem mulheres que se requebram ao som de
instrumentos. Se bem pensado, porque não acreditar que a malemolência feminina
é, na verdade, uma tentativa de escapar de seus próprios mundos sufocantes? E
aqui cabe mencionar o muito bom trabalho de iluminação criado por Sérgio
Pessanha, que com os spots e as cores acompanha o clima do Du-Elo. Mas,
por outro lado, faz pensar o que seria da dança se não estivesse em uma sala de
espectáculos tão bem equipada como a Martins Pena.
Em
pouquíssimos momentos, Maura e Eliana se perdem em seus passos. No momento em
que duelam ao redor de um tapete de papel, elas correm o (breve) risco de
dançarem no vazio. Mas isto conta pouco no clima geral de todo o espectáculo
que, a bem da verdade, parece mesmo não querer contar nenhuma história narrável
com palavras. Du-Elo não se conta nem se descreve. Observa-se com olhos
bem abertos. Para várias aplausos ou muita emoção. (…)
NOTA
Originalmente publicado
no Jornal de Brasília (03/05/86).
2. OSWALDO FAUSTINO | Du-Elo, hoje no Festival Nacional de Dança 86
A
Maura e Eliana. Vi a sua dança acompanhada por uma música estranha. Lembro-me
de pote de fundição de alquimia. Deixa cair de seu interior os casacos do
universo, um a um. Parece uma substância estranha que um mágico vai deixando
cair na terra. Aquela substância estranha, será que é placenta que testemunha o
nascimento de uma vida? O corpo físico e o casaco do universo que veste o
espírito. O leite materno começa a se derramar, cobrindo a terra.
KAZUO
OHNO
Dá para imaginar os
dedos delgados de Kazuo Ohno manejando a pena como se fosse uma dança,
impressionado com o espetáculo que acabara de assistir no Distrito Federal. Se há fidelidade na
tradução dos ideogramas, a gente pode detectar um estado de forte emoção,
diante de algo que foi considerado tão belo quanto um parto.
Mas
quem são estas duas mulheres cujo trabalho despertou tal emoção no pai da dança
moderna japonesa? Elas chamam-se Maura Baiocchi e Eliana Johansson Carneiro e
estão se apresentando hoje e amanhã no teatro Sérgio Cardoso, à Rua Rui Barbosa
193, às 21h00, na sala Pascoal Carlos Magno, iniciando a terceira semana do
Festival Nacional de Dança
86, uma realização da Secretaria de Estado da Cultura.
Dança
Du-Elo é o nome do espetáculo concebido, coreografado e
interpretado por estas duas bailarinas que assinam também os figurinos. Elas
integram o Centro de Criatividade da Fundação Cultural do Distrito Federal.
O
espetáculo se compõe de duas partes: Du-Elo, criado a partir de Bildnis
einer Frau im Spiegel [Retrato de uma mulher no espelho], de Dieter
Kaufmann e Conexão invisível, criado sobre Sinos tibetanos. No
original, há ama terceira parte, Tradição nostálgica, que não poderá ser
apresentada por problemas técnicos ocorridos durante a viagem.
Tudo o
que a crítica escreveu sobre o trabalho de Maura e Eliana por ocasião de suas
apresentações de Du-Elo no Rio de Janeiro e em Brasília, só tem sido
elogios. E uma pessoa que teve a oportunidade de assistir o ensaio do
espetáculo, o diretor teatral Celso Nunes: Além de uma proposta claramente
definida para a dança, Eliana e Maura se mostram bem preparadas enquanto
bailarinas e intérpretes, possuindo domínio de seus recursos expressivos, bom
controle das técnicas de tensão [e] relaxamento indispensáveis ao ato de dançar
e uma empatia flagrante desde os
primeiros instantes de apresentação. E continua: Saí do ensaio ensaio
com a sensação de que algo me tocara, àquela tarde. Também me comoveu o caráter
experimental do trabalho e penso que todos os esforços não deveriam ser medidos
para que elas consigam levar adiante de sua proposta.
Falando
de Du-Elo, Maura Baiocchi e Eliana Carneiro a afirmam: A nossa dança
não tem estilo definido. Tem uma tendência de movimentação que é sua que, vem
de uma pesquisa constante e de uma constante reformulação.
Desde
que trabalharam juntas no Grupo Experimental de Dança dirigido por Regina
Miranda, na primeira fase do Centro de Criatividade, as duas bailarinas já
descobriram uma empatia e uma comunhão na ideia do que seria uma espetáculo de
dança que elas e como poderiam realizar um trabalho juntas.
Depois
explicam que este pronto não significa terminado e imutável: É um
trabalho que não tem tempo para ficar pronto e pode ter vários prontos, hoje,
amanhã, depois. Seu tempo varia por não ter estrutura rígida, por ser livre,
bem trabalhado, afirma Maura.
Para
Eliana a não determinação de um estilo único deve-se ao fato de não se fechar
numa proposta o que prejudica, mata a possibilidade de se experimentar
outras propostas, principalmente, aquelas que ainda não foram experimentadas.
Mataríamos o germe da transmutação do movimento, da expressividade.
Eliana
Johansson Carneiro iniciou seus estudos de dança e teatro em São Paulo, em
1971. Depois seguiu para Brasília onde desenvolveu uma série de atividades:
primeiro integrou integrou o grupo experimental do Centro de Criatividade sobre
orientação de Regina Miranda, em 1977. Depois, o grupo Reticências, encenando A
invasão de Dias Gomes. Em seguida, participou da Trupe dos Nefelibatas.
Estudou balé clássico moderno, dança contemporânea, mímica e improvisação em
São Paulo, Rio de Janeiro e Nova Iorque, além de dança sacra na Escócia. Seu
currículo é vastíssimo com apresentações ao lado de grandes nomes da dança como
Ana Botafogo. Atualmente dirige oficinas de dança no Centro de Criatividade da
Fundação Cultural do Distrito Federal e criou com Maura Baiocchi o Centro de
Criatividade Previsão do Tempo que existe desde março último.
Maura
Baiocchi nasceu na zona rural paraense e em 1964 mudou-se para Brasília onde
estudou balé clássico. Interessava-se, porém, também por música, poesia e
teatro. Formou-se em Comunicação Social frequentando também o curso de
"Improvisação e análise do movimento" de Regina Miranda. Conta também
com vasto currículo.
Dança
Du-Elo em uma boa pedida para quem gosta do não convencional. É um
trabalho que expressa simultaneamente um duelo que separa as pessoas em
constante processo de disputa e o elo que ajude permanentemente. Um bonito
espetáculo que não se pode perder. Os ingressos custam 30 Cr$. Só hoje e
amanhã, às 21 horas, no Teatro Sérgio Cardoso.
NOTA
Originalmente publicado
no Diário
Popular (02/09/1986).
ALEXANDRE RIBONDI (Brasil, 1952-2023). Artista, dramaturgo, diretor, ator e sócio-fundador do Espaço Multicultural Casa dos Quatro. Escreveu e atuou em peças teatrais como Filó Brasiliense (1975), Os Rapazes da Banda (1981), Crépe Suzette, o Beijo da Grapette (1980), Abigail é Mais Velha que Procópio (1986), No Verão de 62 (1985), A Última Vida de Um ato (2002), Virilhas (2005), Felicidade (2015) e Mimosa (2018). Foi colaborador do jornal Lampião e membro fundador do Grupo de Luta Homossexual Beijo Livre. Escreveu os romances Na Companhia dos Homens e Da Vida dos Pássaros. Integrou o Retratação (2021), coletivo de comunicadores e artistas, oferecendo produtos criativos e autorais, como produção, performances, consultorias, coberturas, fotografia e videografia.
OSWALDO FAUSTINO (Brasil). Nascido em Mairinque, no interior paulista, vive em São Paulo desde a infância. Jornalista desde 1976, atuou em rádio, TV, revistas e em vários jornais, como a Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo, onde trabalhou como repórter por 26 anos. Foi também editor de Cultura do Diário Popular, entre 1985 e 1990. Integra a Cojira-Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial, do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo. É colaborador fixo da revista Raça Brasil e desde as primeiras edições, há 15 anos. Entre as atividades em TV, atuou na TV da Gente, de Netinho de Paula, onde viveu o personagem Tio Bah, um contador de histórias do programa infantil, que vivia num baobá. É co-autor – com Aroldo Macedo – dos livros: A Cor do Sucesso (Editora Gente, 1999), Luana, a Menina que Viu o Brasil Nenem (FTD, 2000), Luana e as Semente de Zumbi (FTD, 2004), Luana, Capoeira e Liberdade (FTD, 2009) e Luana e as Asas da Liberdade (FDT, 2010). Lançou, pela Editora Selo Negro/Summus, a biografia do escritor e compositor Nei Lopes (2009), da Coleção Retratos do Brasil Negro, e o romance histórico A Legião Negra (2011), que fala sobre a participação de batalhões voluntários negros na Revolução Constitucionalista de 1932 e sobre a presença negra na cidade de São Paulo, nas primeiras décadas do Século XXI. Também em 2011, no segundo semestre foi o locutor do programa sociocultural de web rádio intitulado Rádio Tambor.
Agulha Revista de Cultura
CODINOME ABRAXAS # 02 – TAANTEATRO COMPANHIA (BRASIL)
Imagens: Acervo Taanteatro
Editores:
Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com
Elys Regina Zils | elysre@gmail.com
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