quinta-feira, 20 de março de 2025

ALEXANDRE RIBONDI, OSWALDO FAUSTINO | Dança Du-Elo

 


1. ALEXANDRE RIBONDI | As Magas desnudas 

 

Entre a primeira e segunda parte do espetáculo Du-Elo, que as excelentes bailarinas brasilienses Maura Baiocchi e Eliana Carneiro estão apresentando na Sala Martins Pena, o público assiste a um momento raro no mundo da dança: há apenas uma cadeira de braço coberto com filó enquanto a música escorre pelo palco. Em seguida, fecha-se a cortina para abrí-la novamente instantes depois. Não há ninguém no palco, ouve-se apenas a música, a mesma de antes. Enquanto isso, durante este balé sem corpos ou movimentos, o publicou mal sabe o que fazer. Alguns tossem, outros mostram declaradamente um longo bocejo, poucos vaiam e se retiram e muitos, muitos outros permanecem cada vez mais curiosos. E é isto o que dá a principal característica do Du-Elo: curiosidade fortes pinceladas da mais pura ousadia. E é por isto que o trabalho de Eliana e Maura deve ser visto com atenção, para vaias ou aplausos escancarados. Mas nunca para a indiferença.

De qualquer jeito, não é só isto que marca o espetáculo. No primeiro quadro, ou na primeira parte, as duas mulheres se apresentam para falar do umbigo e de seus próprios corpos, de certa maneira. Elas se contorcem e entram em uma luta harmónica, fazendo com que, talvez, daí tenha surgido o título Du-Elo. A música, de Dieter Kaufmann, Bildnis einer Frau im Spiegel [Retrato de uma mulher no espelho], emite sons cortados, gemidos, gargalhadas, ruídos de dores. As duas bailarinas se entreolham, se procuram e dão a impressão de não se encontrarem realmente nunca.  As vozes de crianças, que falam, cochicham e riem, trazem à memória de que se tratam de duas mulheres cuja feminilidade passa também pela criação de filhos.

O que marca em Du-Elo é sem dúvida alguma a ausência de virtuosismos ou grandes demonstrações de domínio da técnica das danças (que Eliana e Maura reconhecidamente tem). Pelo contrário, o que elas mostram são momentos de intimidade e revelações, como duas magas que se desnudam e despem seu segredos e truques. Aliás, ninguém mesmo se pergunta como elas conseguem os movimentos que fazem: eles são simples, aparentemente, e parecem em extremamente fáceis. Dá vontade de acompanhá-las.

Enquanto isso, em Tradição nostálgica (com música do Steve Reich, Music for 18 musicians), seus rostos estão cobertos por longos metros de filó amarelo. As dançarinas tentam se desvencilhar deles, seus gestos e movimentos mostram agonia, mas a sombra refletida no ciclorama envia outra mensagem - uma certa cadência harmônica, como se as duas fossem mulheres que se requebram ao som de instrumentos. Se bem pensado, porque não acreditar que a malemolência feminina é, na verdade, uma tentativa de escapar de seus próprios mundos sufocantes? E aqui cabe mencionar o muito bom trabalho de iluminação criado por Sérgio Pessanha, que com os spots e as cores acompanha o clima do Du-Elo. Mas, por outro lado, faz pensar o que seria da dança se não estivesse em uma sala de espectáculos tão bem equipada como a Martins Pena.

Em pouquíssimos momentos, Maura e Eliana se perdem em seus passos. No momento em que duelam ao redor de um tapete de papel, elas correm o (breve) risco de dançarem no vazio. Mas isto conta pouco no clima geral de todo o espectáculo que, a bem da verdade, parece mesmo não querer contar nenhuma história narrável com palavras. Du-Elo não se conta nem se descreve. Observa-se com olhos bem abertos. Para várias aplausos ou muita emoção. (…)

 

NOTA

Originalmente publicado no Jornal de Brasília (03/05/86).

 

 


2. OSWALDO FAUSTINO | Du-Elo, hoje no Festival Nacional de Dança 86

 

A Maura e Eliana. Vi a sua dança acompanhada por uma música estranha. Lembro-me de pote de fundição de alquimia. Deixa cair de seu interior os casacos do universo, um a um. Parece uma substância estranha que um mágico vai deixando cair na terra. Aquela substância estranha, será que é placenta que testemunha o nascimento de uma vida? O corpo físico e o casaco do universo que veste o espírito. O leite materno começa a se derramar, cobrindo a terra.

KAZUO OHNO

 

Dá para imaginar os dedos delgados de Kazuo Ohno manejando a pena como se fosse uma dança, impressionado com o espetáculo que acabara de assistir no Distrito Federal. Se há fidelidade na tradução dos ideogramas, a gente pode detectar um estado de forte emoção, diante de algo que foi considerado tão belo quanto um parto.

Mas quem são estas duas mulheres cujo trabalho despertou tal emoção no pai da dança moderna japonesa? Elas chamam-se Maura Baiocchi e Eliana Johansson Carneiro e estão se apresentando hoje e amanhã no teatro Sérgio Cardoso, à Rua Rui Barbosa 193, às 21h00, na sala Pascoal Carlos Magno, iniciando a terceira semana do Festival Nacional de Dança 86, uma realização da Secretaria de Estado da Cultura.

Dança Du-Elo é o nome do espetáculo concebido, coreografado e interpretado por estas duas bailarinas que assinam também os figurinos. Elas integram o Centro de Criatividade da Fundação Cultural do Distrito Federal.

O espetáculo se compõe de duas partes: Du-Elo, criado a partir de Bildnis einer Frau im Spiegel [Retrato de uma mulher no espelho], de Dieter Kaufmann e Conexão invisível, criado sobre Sinos tibetanos. No original, há ama terceira parte, Tradição nostálgica, que não poderá ser apresentada por problemas técnicos ocorridos durante a viagem.

Tudo o que a crítica escreveu sobre o trabalho de Maura e Eliana por ocasião de suas apresentações de Du-Elo no Rio de Janeiro e em Brasília, só tem sido elogios. E uma pessoa que teve a oportunidade de assistir o ensaio do espetáculo, o diretor teatral Celso Nunes: Além de uma proposta claramente definida para a dança, Eliana e Maura se mostram bem preparadas enquanto bailarinas e intérpretes, possuindo domínio de seus recursos expressivos, bom controle das técnicas de tensão [e] relaxamento indispensáveis ao ato de dançar e uma empatia flagrante  desde os primeiros instantes de apresentação. E continua: Saí do ensaio ensaio com a sensação de que algo me tocara, àquela tarde. Também me comoveu o caráter experimental do trabalho e penso que todos os esforços não deveriam ser medidos para que elas consigam levar adiante de sua proposta.

Falando de Du-Elo, Maura Baiocchi e Eliana Carneiro a afirmam: A nossa dança não tem estilo definido. Tem uma tendência de movimentação que é sua que, vem de uma pesquisa constante e de uma constante reformulação.

Desde que trabalharam juntas no Grupo Experimental de Dança dirigido por Regina Miranda, na primeira fase do Centro de Criatividade, as duas bailarinas já descobriram uma empatia e uma comunhão na ideia do que seria uma espetáculo de dança que elas e como poderiam realizar um trabalho juntas.


Mas não foi naquela época que nasceu Du-Elo. Antes foi necessário um longo trabalho de desenvolvimento artístico individual das duas bailarinas que seguiram rumos diferentes, até se encontrarem há cerca de um ano. Foram necessário sete meses de trabalho de trabalho diário e constante para sentirem que Du-Elo estava pronto para ser apresentado.

Depois explicam que este pronto não significa terminado e imutável: É um trabalho que não tem tempo para ficar pronto e pode ter vários prontos, hoje, amanhã, depois. Seu tempo varia por não ter estrutura rígida, por ser livre, bem trabalhado, afirma Maura.

Para Eliana a não determinação de um estilo único deve-se ao fato de não se fechar numa proposta o que prejudica, mata a possibilidade de se experimentar outras propostas, principalmente, aquelas que ainda não foram experimentadas. Mataríamos o germe da transmutação do movimento, da expressividade.

Eliana Johansson Carneiro iniciou seus estudos de dança e teatro em São Paulo, em 1971. Depois seguiu para Brasília onde desenvolveu uma série de atividades: primeiro integrou integrou o grupo experimental do Centro de Criatividade sobre orientação de Regina Miranda, em 1977. Depois, o grupo Reticências, encenando A invasão de Dias Gomes. Em seguida, participou da Trupe dos Nefelibatas. Estudou balé clássico moderno, dança contemporânea, mímica e improvisação em São Paulo, Rio de Janeiro e Nova Iorque, além de dança sacra na Escócia. Seu currículo é vastíssimo com apresentações ao lado de grandes nomes da dança como Ana Botafogo. Atualmente dirige oficinas de dança no Centro de Criatividade da Fundação Cultural do Distrito Federal e criou com Maura Baiocchi o Centro de Criatividade Previsão do Tempo que existe desde março último.

Maura Baiocchi nasceu na zona rural paraense e em 1964 mudou-se para Brasília onde estudou balé clássico. Interessava-se, porém, também por música, poesia e teatro. Formou-se em Comunicação Social frequentando também o curso de "Improvisação e análise do movimento" de Regina Miranda. Conta também com vasto currículo.


Os primeiros trabalhos juntamente com Eliana, sob orientação de Regina Miranda, mesclavam dança, música instrumental e expressão vocal. Mas, além da dança, atuou várias vezes como atriz. Veio a São Paulo e aperfeiçoou-se nos estúdio do Ballet Stagium, na Escola de Teatro Macunaíma e no grupo teatral Pod Minoga. De volta à Brasília, passou a ministrar aulas de Jazz livre, realizando vários trabalhos com alunos e também ao lado de Eliana Carneiro

Dança Du-Elo em uma boa pedida para quem gosta do não convencional. É um trabalho que expressa simultaneamente um duelo que separa as pessoas em constante processo de disputa e o elo que ajude permanentemente. Um bonito espetáculo que não se pode perder. Os ingressos custam 30 Cr$. Só hoje e amanhã, às 21 horas, no Teatro Sérgio Cardoso.

 

NOTA

Originalmente publicado no Diário Popular (02/09/1986).

 


ALEXANDRE RIBONDI
(Brasil, 1952-2023). Artista, dramaturgo, diretor, ator e sócio-fundador do Espaço Multicultural Casa dos Quatro. Escreveu e atuou em peças teatrais como Filó Brasiliense (1975), Os Rapazes da Banda (1981), Crépe Suzette, o Beijo da Grapette (1980), Abigail é Mais Velha que Procópio (1986), No Verão de 62 (1985), A Última Vida de Um  ato (2002), Virilhas (2005), Felicidade (2015) e Mimosa (2018). Foi colaborador do jornal Lampião e membro fundador do Grupo de Luta Homossexual Beijo Livre. Escreveu os romances Na Companhia dos Homens e Da Vida dos Pássaros. Integrou o Retratação (2021), coletivo de comunicadores e artistas, oferecendo produtos criativos e autorais, como produção, performances, consultorias, coberturas, fotografia e videografia.




OSWALDO FAUSTINO
(Brasil). Nascido em Mairinque, no interior paulista, vive em São Paulo desde a infância. Jornalista desde 1976, atuou em rádio, TV, revistas e em vários jornais, como a Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo, onde trabalhou como repórter por 26 anos. Foi também editor de Cultura do Diário Popular, entre 1985 e 1990. Integra a Cojira-Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial, do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo. É colaborador fixo da revista Raça Brasil e desde as primeiras edições, há 15 anos. Entre as atividades em TV, atuou na TV da Gente, de Netinho de Paula, onde viveu o personagem Tio Bah, um contador de histórias do programa infantil, que vivia num baobá. É co-autor – com Aroldo Macedo dos livros: A Cor do Sucesso (Editora Gente, 1999), Luana, a Menina que Viu o Brasil Nenem (FTD, 2000), Luana e as Semente de Zumbi (FTD, 2004), Luana, Capoeira e Liberdade (FTD, 2009) e Luana e as Asas da Liberdade (FDT, 2010). Lançou, pela Editora Selo Negro/Summus, a biografia do escritor e compositor Nei Lopes (2009), da Coleção Retratos do Brasil Negro, e o romance histórico A Legião Negra (2011), que fala sobre a participação de batalhões voluntários negros na Revolução Constitucionalista de 1932 e sobre a presença negra na cidade de São Paulo, nas primeiras décadas do Século XXI. Também em 2011, no segundo semestre foi o locutor do programa sociocultural de web rádio intitulado Rádio Tambor.

 


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CODINOME ABRAXAS # 02 – TAANTEATRO COMPANHIA (BRASIL)

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