quinta-feira, 20 de março de 2025

CÁSSIA NAVAS, CELSO ARAUJO, CÉLIA MUSILLI, NELSON DE SÁ, FRANCISCO WASILEWSKI, RENATO MENDONÇA | Taanteatro vezes quatro: Androgyne & Dan & Rit.U & Homem branca e cara vermelha


1. ANDROGYNE

 

CELSO ARAUJO | Androgenia passada a fogo

Publicação original: Poesia parque blog, 08/09/2014.

 

Um ser humano de qualquer lugar deste mundo, delicado, seguro, insinuante, recebe o público, em pé no centro de uma cena vazia, com um fundo cenográfico branco… Pode ser um bilheteiro de cinema, um vigilante de trem, um soldadinho de chumbo, um pierrô noturno e anônimo, uma garota à espera do outro. Mas a pequena criatura levada vagarosamente por uma onda de ironia se desfaz no escuro, e é da escuridão que surge em desdobramentos a figura da performer Alda Maria Abreu, integrante do núcleo Taanteatro, instalado em São Paulo, sob direção da mestra Maura Baiocchi, na obra intitulada Androgyne – Sagração do Fogo, no Teatro Garagem da 913 Sul.

A sintética instalação cenográfica é de Wolfgang Pannek, fera de múltiplas funções, como sua companheira Maura Baiocchi, uma das grandes criadoras de teatro/dança/performance das artes contemporâneas e que, em caso excepcional, atua até como bilheteira do próprio espetáculo que dirige. Imagina: Maura Baiocchi na bilheteria, ela que já levou espectadores de várias partes do mundo à loucura. A música é de Gustavo Lemos, replicando, multiplicando, acentuando bravamente o que logo se verá-viverá.

Um sopro e a boneca de vento vai traçando o seu teatro de operações, com as armas próprias do corpo. Corpo esquizo? Não, corpo são em mente sagrada, máxima pesquisa de dias e noites de método, pesquisa, associações libertas. E o que vai se desenhando diante dos olhos nossos é uma grande dor, uma cirurgia de musculaturas e tensões que se debatem, contorcem, refazem, descem e sobem (catábase e anábase), despertando-nos da letargia para uma presentificação em que o expressionismo parece ser a linha do trilho. Mas a estrada é mais fértil e farta: são poucos os minutos e largo o tempo em que Alda atravessa evocações do corpo andrógino, em sopros que evocam os sonhos de cada um. Não há alopração, hein! Tudo é resultado de uma partitura de signos quentes. Não há finalizações, como nas artes bem acabadas, há interrupções bruscas, cortes delicados, línguas dobradas. O corpo revela forças inauditas, ao expor tensões físicas, sintáticas, semânticas, intermodais e pragmáticas, como está claramente descrito no livro Mandala de Energia Corporal, de Maura e Wolfgang, em sua preciosa série de publicações do Taanteatro.

Cultura, história, ideologias, versões de filosofia e poética, se dissolvem no espaço e no tempo. Quanto à androgenia, o caminho mais direto é ler e ouvir-se em Sigmund Freud. Perdemos a noção, pois aqui a mandala se espatifa em átomos, para o olho imaginante, para a colheita de frutificações dos órgãos humanos. A questão em cena, declaradamente, é a de uma identidade sexual que também imaginamos existir. Alda vai longe…os horizontes são tão largos que podemos pensar no Egito antigo, no arcaico Japão de Hijikata (mestre do butô), nos ancestrais ritos afro-brasileiros, nos inclassificáveis classificados da espetacularidade contemporânea.

A performer, que é atriz e dançarina, vai às profundezas de sua musculatura e isso dói, nela talvez, em nós mais ainda. Planos, cortes, contorções, choques extremos nos membros, uma nudez que só se vê nos inconscientes movimentos da energia mutante. É uma arte de espelhos que se quebram, de cabeça, tronco e membros arregalados, num redemoinho que faz os leitores de Nietzsche, Artaud, Deleuze e outros pensadores de nossa alienação virem à tona, quase de maneira límpida e curativa.

Alda Maria Abreu, pequena figura que se amplia nas sombras e nas dobras e expõe seu ventre – suas coxas, sua vulva e sua língua, seus olhos de medusa e seus cabelos de uma antiguidade atualíssima – celebra sua passagem – travessia pelos nossos medos e perplexidades. Morde-se, morre-se, ressucita-se. Ressucita-me, ainda que mais não seja.

Uma dica: Taanteatro é uma das escolas mais radicais, refinadas e exigentes do teatro contemporâneo, leia mais no www.taanteatro.com. Outra: Alda é filha de santo de Maura, ambas filhas de santo de Hijikata, Kazuo, Frida, Chaplin, ou melhor, das florestas, dos yanomamis, dos tibetanos, dos nigerianos, dos bárbaros, de Isadora etc. Outra: depois do vôo sobre todas as indiferenças da vida, vejo logo depois, na realidade, uma pequena multidão que segue carros de som e palavras de ordem, na suja rodoviária do Plano Piloto, esbanjando-se nas buscas do que chamam de Parada do Orgulho LGBT. Tão próximos e tão distantes. No ônibus, a criançada que vinha da festa parecia falar do mesmo assunto, atônita, aleatória.

E mais uma dica: fico imaginando uma obra-operação como essa vista por uma multidão de sujeitos, o que não provocaria! Fibras se alargariam, nervos seriam expostos, as primitividades dariam em carnaval.

Por fim, para respirar fundo e tomar meu banho no quintal, ficam as palavras quase premonitórias da própria Alda Maria citada numa das preciosas publicações do núcleo Taanteatro: Desço abaixo do mundo. Triplico de tamanho. A pele solta do músculo, o músculo solta do osso e o osso da alma. Ouço a música de meus ossos chacoalhando. Grito esse som. A carícia do vento leva embora pequenos pedaços de pele e tira o véu que ritualiza meu encontro com o ar. Pele, músculo e osso ganham distância entre si e, a despeito das leis gravitacionais, levito por todos os lados, vejo meu corpo material expandir-se no ar. Só alma, só espírito, sou estado de matéria em suspensão.

O teatro, feliz ou infeliz(mente), ainda é para os que vão até à ágora aberta, às grutas ou catacumbas perfumadas, em que há saídas para o mais promissor dos pranas.

 

 

CÉLIA MUSILLI | Performance ecopoética em cartaz em São Paulo, expande as potencialidades do corpo

Publicação original: Carta Campinas, 23/09/2013.

 


Em busca do corpo total

Androgyne, a sagração do fogo, solo multimídia de Alda Maria Abreu, em cartaz no Mundo Pensante, em São Paulo, ressignifica o corpo no tempo e no espaço, pondo em evidência cada músculo, cada nervo, cada fibra, erguendo diante dos nossos olhos o esplendor do humano.

Uma viagem através da potencialidade corporal e sua capacidade plástica, maleável, desdobrável, tensa, expansiva, convulsiva, retrátil. Uma engenharia delicada que se revela em cada movimento ligado à bagagem cultural e emocional do corpo, tanto vezes mitigado pelo sofrimento de exercer-se pela metade.

O trabalho, dirigido por Maura Baiocchi, é multimídia, coloca a intérprete contracenando com a sua imagem em três telões, recurso visual que permite que ela vá para dentro de si, abrindo-se a uma viagem cujo destino é natureza e memória. Adentrando a natureza do corpo, encontram-se os reinos da matéria: mineral, vegetal, orgânico que levam à transcendência espiritual que transforma a performance num rito de passagem, um reencontro com o primitivo sagrado.

Tudo para resgatar o corpo, numa obra que também faz críticas às camadas de repressão cultural nas quais, há milênios, se enterra o humano. Tirá-lo desta opressão equivale a um renascimento. O meticuloso trabalho de pesquisa corporal remete à Artaud , incompreendido na sua tarefa inaugural de redimensionar a linguagem cênica, rompendo os limites da dramaturgia tradicional, tendo em vista a expressão total do corpo, sem limites, primitivo e eterno.

A temática abre-se para a androginia primordial, o macho e a fêmea que nos habitam na união dos gêneros. O tema desdobra-se em referências à Joana'Arc, queimada na fogueira da intolerância cujos ecos chegam aos nossos dias violentando e censurando o corpo e, por extensão, o pensamento. Católicos, evangélicos e até o Facebook – espécie de seita contemporânea – também são alvos de questionamento sobre a censura. Coloca-se em xeque o conceito da proibição e do pecado, esta camada grosseira na qual se sufoca o corpo numa armadura ideológica milenar que ainda resiste, embora se coloque em evidência o nu midiático, a carne humana como mercadoria.

A liberalidade de mentira, a falta de consciência sobre as potencialidades e o significado essencial do corpo são temas que se costuram com maestria na performance que traz a marca do trabalho investigativo do Taanteatro, plasmado nas ideias do professor e crítico alemão Hans-Thies Lehmann, que criou o conceito do teatro pós-dramático, extrapolando a dramaturgia convencional e a mimesis na interpretação.

Androgyne apresenta soluções cênicas eficientes, como a bailarina envolta em rolos de papel que viram combustível da fogueira da intolerância que arde através dos séculos. No papel trançam-se ainda a celulose, a floresta, a destruição da natureza da qual o homem é elemento. Uma cadeia orgânica que clama por respeito. A performance ecopoética põe em xeque valores e ideologias, utilizando uma estética criativa como a imagem de um ovo, símbolo mítico que se quebra e escorre remetendo ao início e ao fim do homem primordial. 

 

2. DAN

 


CASSIA NAVAS | DAN – Devir ancestral

Publicação original: 4ª Mostra do Fomento à Dança, 17/09/2010.

 

Saguão de entrada da Sala Paissandu/Galeria Olido: há rastros de alguma floresta/mata espalhados pelo ambiente, folhas e fiapos de paina. Imagens são projetas na parede. Fazem parte de uma espécie de libreto visual do solo de Maura Baiocchi, uma das grandes intérpretes criadoras do Brasil. De maneira poética, estas imagens apontam para o que poderemos ver, agindo sobre nossa percepção, aguçando sentidos, tirando-nos de nosso estado de ter-chegado-ao-teatro. Depois, na sala de espetáculos saberemos que se referem a fragmentos da pesquisa realizada pela artista, mas por hora é muito cedo para isto.

Passos ouvidos na escada de metal e seu som se junta ao de uma algaravia, espécie de gramelot, enunciada ao vivo pela intérprete transmutada em personagem-figura mítica de rosto maquiado em preto, corpo vestido de roupa alva como neve. Do todo se destacam olhos, voz e pequenos movimentos de se socar o solo com o corpo. Espécies de saudações xamânicas delicada e aleatoriamente são distribuídas por entre as pessoas e na atitude de espera, transmutada em atitude de procissão a seguir Baiocchi para o ventre do teatro.

No palco, a ambiência cênica está montada para receber o solo que se desenrolará a partir dessa experiência inicial, em espetáculo que inaugura o ciclo de ecoperformances da companhia e como um todo a montagem vai apresentar cuidado criterioso na escolha de elementos de cena e, sobretudo, figurinos.

Antes que Maura volte à cena, temos a exibição de mais imagens, que novamente podem ser encarados como elementos pára-coreográficos em relação a performance de sua dança-teatro do Taanteatro, mas que fazem parte do que a companhia chama de realização multimídia, a unir dança, foto-animação, vídeoenvironmentperformance, poesia música e instalação cênica.

Todos esses elementos juntos, em que pese a qualidade de cada um deles, evidentemente frutos de pesquisa, trabalho e produção de grande envergadura artística, tornam, no entanto o espetáculo de dança para o qual todos acorreram um híbrido no qual muitas vezes nós perdemos, sobretudo pela extensão do tempo decorrido para tudo se descortinar.

Toda a parte videográfica que traz à tona a questão do cerrado e de suas florestas de cabeça para baixo – os aquíferos do planalto central, responsáveis pelo manancial de água de uma região bem mais vasta do que se poderia imaginar.

Baiocchi está nos vídeos em performance de dança contínua a explicitar, junto a pedras, fontes, veios d’água e animais uma investigação corporal de fato realizada em proximidade, ou quase contiguidade com seu objeto de pesquisa, denotando a intensidade de seu trabalho.

Os aquíferos apontam para uma aura de mistério frente a recursos represados no seio da terra árida e as metáforas estéticas deles resultantes estão nas cenas da dança de Maura, quando ela, voltando à cena, nos apresenta à maneira de sua dança, o que vinha sendo anunciado em multimídia.


Também estão no título da obra DAN Devir Ancestral, que remete a futuro, (vir-a-ser) e passado (o que é fixado como tradição, na cultura ou hábito/repetição na natureza), preconizando um religare entre ambos, articulados em contínuo mítico pela dança de Maura.

Esta se apresenta ao mesmo tempo como minimalisticamente pós-moderna e derramadamente (pré)histórica, em figuras que se sucedem, até mesmo como história em quadrinhos como feto, mãe, êre, criança, deusa, índia, estátua. Todavia, fica o desejo de ver mais dança nesse híbrido apresentado, no qual, algumas vezes se resvala para uma espécie de aula espetáculo ou comunicação mais completa de pesquisa múltipla, que não poderia esgotar em seus conteúdos em tão curto intervalo de tempo. Tudo isso coloca em cena de maneira generosa, mas as metáforas se acumulam e perdemos um pouco da possibilidade de estar as conhecendo à maneira da dança.

A saga contida nesta ecoperformance carrega para a cena novas facetas de personagens ancestrais de uma grande bailarina, desde sempre conectada com a pulsação da arte contemporânea a partir de sua topologia íntima, da qual faz parte um solo de origem, neste caso o cerrado.

Um momento de recepção único para jovens gerações, momento de reflexão para o público mais experiente, vivência anímica e emotiva para aqueles que quase nunca podem ver dança. 

 

3. RIT.U

 


CASSIA NAVAS | Rit.U, o ritual em cena

Publicação original: 4ª Mostra do Fomento à Dança, 25/09/2010.

 

Rit.U é obra resultante de projeto que propôs uma dramaturgia coletiva a integrantes do Núcleo Taanteatro: Formação Pesquisa, Criação. Tendo como proposta uma discussão sobre ancestralidade e meio ambiente urbano organizou-se também por intervenções prévias em ruas, ruínas, praças e parques da cidade de São Paulo, apontando-se para um projeto híbrido com encenação fora e dentro de um espaço cênico propriamente dito. O apresentado na 4a Mostra Fomento à Dança carrega em sua estrutura os traços desta proposição de origem. Da mesma maneira, sendo uma proposta que engloba formação, pesquisa e criação, também se marca por outro índice original – seu elenco é composto por artistas em processo de formação, trazendo contrastes marcantes de atuação entre os integrantes.

Rit.U começa no saguão de O Lugar, e se comporá de uma série de ritosque o espetáculo nosso propõe, em justaposição. O primeiro deles – bailarinas, como integrantes do público estão por meio dele e pouco-a-pouco iniciam intervenções em que invertem seu papel social, de comportadas passam a agir por ações fora do padrão a se esperar de quem ali está. À semelhança do que poderia acontecer em terreiro de religião anímica embolam no meio do hall de entrada, passando de peruas chiques a moças um tanto descontroladas.

O próximo rito do espetáculo, ainda no hall de O Lugar, é o de um adestrador que entra da rua trazendo feras-intérpretes acorrentadas por coleira. De chicote em punho (há uma certa referencialidade à estética sadomasoquista), o adestrador controla as feras que farejam/mordem até serem soltos por sobre as intérpretes do início da função.

Na cena do palco há caixas e telas suspensas de papelão onde são projetas imagens. Por entre elas evoluem os intérpretes até que o espaço fica totalmente vazio. Nele sucedem-se cenas justapostas, entre si, como fragmentos de ritos deste Rit.U, até o momento que somos chamados para novamente sair para o hall de entrada.

Antes disso, temos uma heterodoxa e interessante chorus line na boca de frente e se, em algum momentos, a catarse presente como elementos de certos ritos parece ser um estado de emoção ao qual se almeja, sua tradução manifesta-se através de tentativas que beiram o amadorismo, como no momento de uma devoração entre quarto quatro artistas em cena.

Na sucessão dos fragmentos, há momentos de uma escrita coreográfica mais marcada, onde os intérpretes tentam a realização de movimentos em conjunto, terminando pelo chamado à plateia para a participação de uma dança sobre o palco. Neste momento, torna-se interessante o contraste entre profissionais e, em princípio, pessoas sem qualquer experiência de dança, acentuando-se a impressão de que o elenco apresenta performance muito irregular entre seus elementos, posto assemelharem, no que fazem, ao realizado pelos recém-chegados ao palco.

Esta cena remete aos espetáculos dos anos 60, onde a irreverência presente na quebra de barreira entre barco e plateia, em busca de rituais contemporâneos – que fizessem face ao ritual aristotélico do teatro abrissem em lugar na contracultura mundial. Muitos dos jovens de hoje não tem acesso a este tipo de espetáculo-obra-estética e, não é de se estranhar que se sintam atraídos por criações desta natureza, as mesmas constituindo-se em quase obras de repertório, em um sentido pós-moderno do termo .Por elas formam-se não somente alunos de teatro/dança, mas também públicos em começo de seu amor pela arte da cena.


Em Rit.U, depois da pista de dança neo-hippie instaurada na cena do palco, somos chamados a presenciar, no hall, os ritos de cada um dos integrantes do grupo e, neste momento, o destaque fica a cargo de uma delas, que vendada, expõe o momento de cegueira cênica, exortando-nos a partir de questão lançada que a circundam: Adoeça-me!

A Taanteatro Companhia, fundada e dirigida por Maura Baiocchi e Wolfgang Pannek, busca no espetáculo um processo de formação, o que fica evidente pelos intérpretes e seus tipos desiguais de performance. Ambos coordenam esta obra, articulando conteúdos e emprestando suas assinaturas aos artistas deste projeto da Companhia, desta feita voltado para temas do meio ambiente, trabalhado em outras obras/ações do grupo.

A opção pelo ritual em cena, tradução de rituais culturais de outra natureza, em estratégias presentes no Taanteatro e em outro sistema de informação cénica praticados por estes artistas, não se dá de forma superficial e distante da história da companhia. Pelo contrário, se funda em suas origens e se desenvolve organicamente em sua trajetória. Todavia, ao trabalhar-se com artistas pouco maduros ou em formação, apresenta-se um trabalho com fragilidades profissionais a serem pensadas, trabalhadas, para a consolidação de um elenco mais afinado entre si e deste com seus diretores.

O envolvimento destes atores, desde já, manifesta-se no engajamento que demonstram na realização da proposta – matizado de uma intensidade quase emocionada. Um sentimento que circula pelo público, sobretudo entre aqueles que pouco conhecem da história da arte da performance, que pode ser contada por livros, vídeos e cinema, mas que se presencia em obras, a história sendo vivenciada (ou revivida) pela e através da comoção que esperamos que ela produza. Neste sentido, Rit.U teria bem mais a oferecer, a partir de uma maturação de sua história e de uma mais fundamentada exposição de seus motivos, sobretudo os de natureza formativa. 

 

4. HOMEM BRANCO E CARA VERMELHA

 


NELSON DE SÁ | Homem Branco se perde no deserto americano

Publicação original: Folha de S. Paulo, 11/09/1998.

 

A Taanteatro Cia., de Maura Baiocchi e Wolfgang Pannek, é caso à parte. Suas peças, em salas fora do circuito, são bem realizadas, com intenso cuidado na criação e acabamento. O desenvolvimento dos textos e o estudo da ação física apontam caminhos únicos.

E seus temas causam estranheza, pela singularidade. A companhia busca pontes, mas é quase como se não fizesse parte do teatro paulistano, ou brasileiro. Em Homem Branco e Cara Vermelha a estranheza está de volta.

É um belo texto teatral do judeu húngaro, que viveu anos nos EUA, George Tabori. Fala de um judeu e sua filha, perdidos num deserto americano, e do contato que travam com um cara vermelha em crise de identidade. Com humor nada preconceituoso, duas minorias contrapõem as suas mazelas, numa crueza espantosa. É como se cavassem camada por camada toda a autocomiseração, até encontrar o maior, o verdadeiro derrotado. Há muito do chamado teatro do absurdo na placidez contraposta a um humor seco. O texto sugere tal caminho, a montagem o persegue, e o resultado é como que um espetáculo – não texto – estrangeiro.

Clownesco

Homem Branco tem uma atuação soberba, atlética, clownesca, de Linneu Dias. Mas é tão distante dos derrotados e das minorias daqui que não se consegue penetrar na peça por emoção, mas apenas por raciocínio, por fria compreensão.

 

 

FRANCISCO WASILEWSKI | Em busca do ator perdido

Publicação original: Palco e Plateia, Porto Alegre, 26/09/1998.

 

Ah! o ator, esse ser mágico. Sobre ele já dizia o mestre Stanislavski: Acima de tudo, o teatro existe para o ator, sem o qual não pode absolutamente existir. Pois, justamente ele tem sido algumas vezes colocado por certos encenadores em um segundo plano. Por isso que assistir Linneu Dias em Homem Branco e Cara Vermelha, no Porto Alegre em Cena, foi um prazer substituível.

O texto já é conhecido de nós (apesar de o diretor esquecer disso no programa da peça). Foi encenado por Camilo de Lélis há quatro anos, tendo o próprio no papel dos judeu e o saudoso Salimen Jr. interpretando o índio. Escrito pelo húngaro George Tabori, o texto narra o conflito entre o judeu que, viajando pelo deserto acompanhado de sua filha deficiente, planeja enterrar as cinzas da esposa. No meio do caminho encontrará o índio com quem estabelecerá um jogo dialética sobre todas as formas de exclusão em nossa sociedade.

Tabori coloca em seu texto muitas referências ao cinema, o que é facilmente explicável já que ele manteve uma longa carreira como roteirista em Hollywood. É notável a ironia com que o dramaturgo trata do modo de vida norte-americano e também a maneira cáustica com que o autor fala sobre discriminação, através de frases ácidas como: Arranhe bastante o verniz de um branco e um fascista se revelará. É verdade que às vezes o autor a peca em seu texto com excesso de verborragismo.

Quanto a encenação de Pannek, já na entrada da sala de espetáculos nós é colocado o clima opressivo da peça. Com cenário bem bolado (feito a base de papelão) e já vendo a sombria figura do Urubu (muito bem interpretado por Valter Felipe), o espectador fica na eminência do confronto que se estabelecerá. Outro ponto que merece destaque é a precisa iluminação de Lena Roque que pontua muito bem a passagem do tempo no texto.

Sobre as interpretações, é muito prazeroso ver um elenco tão homogêneo. Maura Baiocchi compôs seu papel com rara sensibilidade, não apelando para os recursos fáceis que os atores, muitas vezes, usam para interpretar personagens deficientes.


Porém, o destaque mesmo fica com os dois intérpretes principais: Antônio Galeão (índio) e Linneu Dias (o judeu). Eles já haviam feito um grande trabalho juntos (Fim de jogo) e agora, mais uma vez, comprovam o quanto é feliz o encontro de seus trabalhos.

Principalmente, Linneu Dias que mostra seu Weismann vais é o grande papel que o esperava há tempo. Compõe uma personagem irônica de humor terrivelmente cáustico e, além disso, o ator mostra uma incrível capacidade de hipnotização da plateia, conseguida algumas vezes apenas com pequeno gesto; com uma entonação especial de alguma forma ou então com um olhar sarcástico.

Aqueles que apreciam um grande trabalho de interpretação tiveram nesse Homem Branco e Cara Vermelha uma espécie de redenção. O trabalho de Linneu Dias é a comprovação de que Stanislavski tinha (e continua tendo) razão.

 

 

RENATO MENDONÇA | Choque de outsiders rende teatro de texto

Publicação original: Zero Hora, 29/09/1998.

 

Para quem reclama da falta do bom e velho teatro de texto, a peça Homem Branco e Cara Vermelha, apresentada na quinta e sexta-feira no Teatro do Museu do Trabalho, dentro do 5º Porto Alegre em Cena foi um prato cheio.

 

Apropriadamente, a ação se passa no meio de um deserto, sobre o olhar vigilante de uma abutre. Um comerciante judeu (Linneu Dias), acompanhado da filha deficiente Rute (Maura Baiocchi), tenta levar as cinzas de sua mulher até Nova Iorque. A ideia é espalhá-las no Rivers Side Park, mas o carro lhes é roubado e eles só podem contar com a ajuda de um índio pele-vermelha (Antonio Galleão) em crise de identidade e a um passo do suicídio.

O diretor alemão Wolfgang Pannek acerta no ponto, não apelando para exibicionismos na montagem. O importante é o texto e o autores. E o desafio intimida. O gaúcho Linneu Dias precisa fazer uma mistura de um ar patético com alguma respeitabilidade ao papel de Arnold Weisman. E é perfeito. Maura Baiocchi que nunca escorrega para o risível interpretando uma deficiente. Galleão consegue manter a mão firme para conduzir a transformação de seu personagem.

Homem Branco e Cara Vermelha é aparentemente o choque entre três outsiders, discriminados seja pela cor de sua pele, pelo nível de QI ou pela idade. Mas o autor George Tabori vai muito além. Propõe a admissão das próprias falhas sem culpa e sem assumir o discurso dominador Defende, com esperança, a possibilidade de transformação.

No final, enquanto estão envolvidos em uma disputa para ver qual povo é mais marcado por Deus, Weisman e o índio vão trocando de roupa entre eles. Num exercício de antropofagia, o pele-vermelha digere só as qualidades de seu oponente. Ao contrário de Weisman, aceita Rut como ela é. De quebra, acaba aceitando a si próprio e encontra a saída para sair do deserto de ser um só.O comerciante judeu, pouco antes de morrer, expõe a inutilidade das grandes palavras em confronto com os pequenos gestos. Preciso tanto de um discurso sobre injustiça social quanto uma bala na cabeça. Mas são textos como Homem Branco e Cara Vermelha que podem fazer a diferença entre agir e consentir.

 

 

NOTA

Entrevista realizada em fevereiro de 2025 especialmente para a presente edição. As imagens que acompanham a entrevista integram o acervo da Taanteatro Companhia e foram gentilmente cedidas por Wolfgang Pannek.

 


CÁSSIA NAVAS
| Professora-pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Artes da Cena – Instituto de Artes da UNICAMP e professora convidada do Master Danse – Université de Paris 8. Especialista em gestão e políticas culturais pela UNESCO – Université de Dijon Ministère de la Culture France. É conferencista e vem ministrando palestras e seminários em várias instituições, como no Impulstanz (Viena, 2013), SP Escola de Teatro (São Paulo, 2014-15), Centro Cultural São Paulo (2015-17), Projeto Brasil, Mousonturm (Frankfurt, 2016), Centro de Formação e Pesquisa, SESC São Paulo (2016) e FreiburgTheater (2018). Foi pesquisadora do IDART/Secretaria Municipal de Cultura (SP), coordenadora da REDE Stagium e da Oficina Cultural Oswald de Andrade (São Paulo), tendo sido também curadora/consultora de importantes programas/projetos em dança, como: Programa de Qualificação em Dança (São Paulo, 2015-18), Dança + Cidade (São Paulo/2015), Dancing: Inside Out (Frankfurt/2016), Plataforma Formação Estado da Dança (Piracicaba/2016), Seminários Ida-e-Volta, Dança: Brasil-França (France Danse Brésil 2016-17) e CCSP- Centro Cultural São Paulo: Dança em Diálogo (2015-17). Autora de livros como: Imagens da Dança em São Paulo, Dança Moderna, Dança e Mundialização: políticas da cultura no eixo Brasil-França, Vem Dançar, de Teatro do Movimento, um método para o intérprete-criador e da Composição (os dois últimos juntamente com Lenora Lobo), Dança, História, Ensino e Pesquisa / Danse, Histoire, Formation, Recherche (juntamente com Isabelle Launay e Henrique Rochelle), dentre outros.

 


CÉLIA MUSILLI
| Jornalista, cronista e poeta. Autora dos livros Sensível desafio (2006) e Todas as mulheres em mim (2010), participou de várias publicações e coletâneas de poesia e crônica. Mestre em Teoria e História Literária pela Unicamp, atualmente é editora de cultura do jornal Folha de Londrina.





CELSO ARAÚJO
| Maranhense, vive em Brasília desde 1968. Cursou Psicologia no Ceub e no último ano do curso iniciou sua atividade no jornalismo, abandonando a graduação. Foi crítico de teatro nos principais jornais do DF, atuou em teatro como autor, ator e diretor. Também atuou como compositor na banda Akneton por mais de quinze anos. Publicou livros sobre artes e a história do teatro em Brasília.





FRANCISCO WASILEWSKI
| Escritor, pesquisador, dramaturgo e crítico teatral brasileiro. Pelo imenso número de espetáculos assistidos desde os 10 anos de idade, pelos milhares de programas teatrais colecionados e por sua prodigiosa memória para detalhes das peças e seus bastidores, Wasilewski já foi chamado de enciclopédia viva do teatro. É um pesquisador pioneiro nos estudos do teatro besteirol brasileiro.




NELSON DE SÁ
| Jornalista, vinculado à Folha de S. Paulo, onde já exerceu os cargos de redator, editorialista, correspondente em Nova York, editor-assistente, secretário-assistente da redação, repórter especial, crítico de teatro e editor do caderno Ilustrada. Autor do livro Divers/idade? Um Guia para o Teatro dos Anos 90 (1997), coletânea sobre Teatro, e organizador da edição do Diário da Corte (2012) de Paulo Francis. Foi assistente de direção de As Boas, de Jean Genet, e co-tradutor de Hamlet, de William Shakespeare, em montagens do Teatro Oficina, de São Paulo. Em 2003, dirigiu a peça 4.48 Psicose, de Sarah Kane.



RENATO MENDONÇ
A | Jornalista, exerce as funções de editor de música e de teatro no Segundo Caderno do jornal Zero Hora, de Porto Alegre, onde trabalha há mais de 10 anos. Paralelamente à carreira de jornalista, é compositor e desenvolve estudos de dramaturgia em oficina orientada pela diretora e atriz Graça Nunes. Na área do jornalismo, foi premiado duas vezes: em 2005, com o Prêmio Ari de melhor reportagem cultural em jornalismo gráfico com Ilha das Flores; em 1995, com o 8º Prêmio Setcergs de Jornalismo, edição 1994/1995, categoria Destaque Jornal, pela reportagem Sem Medo da Estrada. Autor de O Homem que Parou o Tempo (biografia do médico gaúcho Gabriel Schlatter), Arnaldo Campos – Um Livreiro de todas as Letras e Planeta Atlântida.

 


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CODINOME ABRAXAS # 02 – TAANTEATRO COMPANHIA (BRASIL)

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