quinta-feira, 20 de março de 2025

CÉLIA MUSILLI, VICTOR MAZIN | Trans

 


1. CÉLIA MUSILLI | O Golem de plástico

Publicação original: Carta Campinas, 19/05/2015.

 

Primeiro é preciso saber quem é Golem, o personagem mítico da cultura hebraica que veio do barro e que foi trazido à vida através de um processo mágico. O Golem inspirou a criação de outros monstros como Frankenstein, de Mary Shelley, ou o homunculus da alquimia. Golem, em hebraico, também significa tolo, imbecil e pode ser visto também como uma variação da palavra gelem que significa matéria-prima.

A bailarina e coreógrafa Maura Baiocchi, co-diretora da companhia Taanteatro, pega este monstro e passeia com ele através das culturas, mais que isso, o traz até a contemporaneidade para discutir o desejo e sua relação com o consumismo. Faz isso através do espetáculo TRANS, que estreou na Europa, em 2014, e teve duas apresentações no último fim de semana no Espaço Cênico O Lugar, em São Paulo.

Golem é recriado pela performer numa inquietante mutação em que o corpo é transformado incessantemente como se fosse mesmo de barro e nunca encontrasse a forma perfeita. Captar a essência corpórea desse monstro – que parece nunca estar concluído, mas sempre em processo de construção e desconstrução – é um dos pontos altos do trabalho coreográfico.

É visível a criação do monstro nas primeiras cenas, num trabalho em que a intérprete não move apenas os membros ou os músculos, a impressão é que move fibras, nervos, células, numa composição que deixa claro seu conhecimento do corpo e o domínio dos movimentos. Feito com precisão cirúrgica, Golem vai aparecendo e, quando o espectador acha que ele está pronto, Maura Baiocchi joga sobre ele camadas não de lama, mas de plástico, ligando a ideia da escravização da sociedade contemporânea ao consumo. Abre-se desta forma o viés hipercrítico do espetáculo, linkando o consumismo à escravização que lança no mesmo fosso o criador/ comprador e suas criaturas, as mercadorias.

Sacolas de compras são o elemento com os quais a intérprete contracena: jogando-as para o público, vestindo-se com elas, alimentando-se delas com um desejo voraz de comer sacos de supermercado, de lojas finas, de magazines sofisticados, de redes populares. Todas as marcas estão ao alcance do público, para quem também são jogadas as sacolas, num espetáculo essencialmente interativo. De repente, todos estão cara a cara com Yves Saint-Laurent ou as Casas Bahia. Marcas para todos os gostos e para todos os bolsos, um conceito de relações democráticas falsificadas que se guiam mesmo é pelo poder de compra de cada indivíduo. E as condições não são iguais para todos.

A crítica se concentra em três modalidades de produtos consumidos na atualidade: as grifes de roupas, os provedores de telefonia, os produtos vendidos em bancos a clientes ávidos por um status prime ou personnalité. Trata-se da identidade trocada pelo produto. Da marca funcionando como extensão do indivíduo.

Mas a criatividade não para por aí. Para mostrar a manipulação do mercado e as relações de poder, Maura Baiocchi vale-se de outro elemento usado de forma original e absolutamente plástica: os cabelos. Assim, com a ajuda do público, desfaz as tranças com que aparece em cena, rompe a barreira dos grampos e dos elásticos, passando a utilizar a grande cabeleira como um signo a ser manipulado – em alguns momentos suas madeixas são usadas pelo público como se fossem varetas de títeres, sendo puxadas de lá para cá, como fazem os manipuladores de bonecos. Mas os cabelos também são signo da liberdade, da rebeldia, da transgressão, como nas cenas em que ela dança com pessoas da plateia, compondo quadros, cirandas frenéticas, brincadeiras de criança, movimentos que lembram a brincadeira de roda. De tudo isso, salta a mágica principal do espetáculo: uma bailarina que faz os cabelos dançarem. E se o público já viu antes intérpretes que mexem pernas e braços com maestria, tem, enfim, pela frente uma artista que criou, de forma inusitada, uma dança dos cabelos.

Com trilha sonora que conta com composições de Giacinto Scelsi, Dmitri Shostakovitch e Iggy Pop, o espetáculo segue crítico até o fim com o Golem, sufocado por sacos plásticos, levando alguém do público aos bastidores, com o teatro em blackout, enquanto o monstro aprisiona vítimas que vão sendo tragadas pelas marcas humoristicamente repetidas pela performer, que sai sussurrando nomes de lojas e produtos bancários.



No retorno para as cenas finais, Maura Baiocchi ainda cria momentos lúdicos como se cantasse A Machine for Loving (Hal Cragin, Michel Houellebecq, Iggy Pop) para afirmar que o amor é um sentimento que os cães essa máquina de amar – conhecem melhor que a espécie humana. Para finalizar, chama o público para um baile, ao som da romântica Les Feuilles Mortes, de Jacques Prévert e Joseph Kosma, na voz de Iggy Pop.

É o momento em que a plateia se alivia da tensão dramática proporcionada por um espetáculo altamente crítico e flutua, de rosto colado, de par em par. Com concepção, direção, figurino e trilha sonora de Maura Baiocchi, TRANS alterna momentos dramáticos, humorísticos e traz muita poesia visual. Trata-se da vitrine crítica de uma intérprete na busca incessante do valor humano.

 

 

2. VICTOR MAZIN | Transe-Golem no movimento de Maura Baiocchi

Publicação original: Escola de Psicanálise Freud-Lacan, 2015. Tradução: Vadim Nikitin

 

Desgramaticalização e Acoreografia

A dança de Maura Baiocchi é imprevisível. Os seus movimentos não seguem a priori nenhuma contagem. A sua gramática nunca se enquadra numa escritura coreográfica reconhecível. Volta e meia, os seus movimentos não se coadunam, subitamente cessam, transformam-se em outra coisa. A coreografia de Maura Baiocchi não é passível de ser traduzida para nenhuma linguagem concreta da dança e não chega a nenhuma forma acabada. Pode-se dizer que não se trata de uma linguagem nem de uma escritura, tampouco de uma coreografia, e sim do que Jacques Lacan chamou de lalangue (lalíngua).

A economia de movimentos de Maura é a tradução da figura do Golem em estado de transformação, uma figura que reiteradamente não encontra forma. O Golem é o que não se deixa capturar por uma forma, o inacabável.

Aqui é que cria raízes a monstruosidade. Ela se encontra numa forma inabarcável, numa letra sem fixação, numa sintaxe em desordem. É uma coreografia de transformações fora do controle de qualquer gramática, que se metamorfoseia num transe acoreográfico.

A forma não se consolida. O Golem sem forma não pode ser identificado, sujeitado ou controlado. Quem quer que seja o seu criador, ele permanecerá para sempre um não nascido, um transformador do nascimento.

 

Retraçando Triângulos

Quem cria é aquilo que dança? Quem dança aquilo que dança? Golem conduz Maura ou Maura conduz Golem? Golem não possui Golem, assim como Maura não possui Maura.

E, de modo geral, a Maura de Golem e o Golem de Maura não dançam aqui, não só aqui, nesta passagem genérica, na vereda estreita do Museu dos Sonhos de Freud. A acoreografia desdobra-se paralelamente em dois triângulos abstratos, cujas formas, vez por outra, ficam sujeitas à desagregação, como preconiza o mandala imaginário.

Maura-Golem traça, com a trajetória do seu movimento, um triângulo invisível: Letra – Verdade – Morte. O Golem ganha vida com a palavra verdade (emet). Mas basta apagar uma letra dessa palavra, Aleph, e surge a morte (met). A configuração Letra – Verdade – Morte nunca se completa, porque se converte em outro triângulo: Letra – Verdade – Desejo. Tudo está no limiar. No limiar entre a vida e a morte. Transe.

Se quiséssemos narrar tudo numa sequência lógica, nosso ponto de partida seria, é claro, a aparição de Maura na vereda genérica dos sonhos, que acompanhava o seu interesse em relação ao entorno. O seu Golem como que reconhecia os outros, brincava com eles, sentava-se no colo, dividia com eles uma maçã. Pode-se dizer que o Golem-Maura, ao mesmo tempo, seduzia e domava. Mas de repente tudo mudou. Como se num piscar de olhos uma nuvem de chumbo fechasse um céu ensolarado e lançasse à terra corriscos estridentes e incandescentes. Terrível.

 


O Terrível Despertar do Desejo

Terrível – na fronteira entre o artificial e o natural. Terrível – na compreensão nebulosa de que essa fronteira é móvel. Terrível pelo fato de serem indistinguíveis o artificial e o natural. E o Golem – criatura feita de argila, de matéria inanimada, ganha vida com a ajuda da técnica, de um conhecimento secreto, artificial, contido na letra. A letra, lembra Lacan, inspira. Mas a letra pode estar morta. Pode ser incontrolável, porque ela não conhece as outras letras, a existência das outras. Ruptura. Aqui não há plateia. A acoreografia cerra-se sobre si mesma, sobre a sua própria letra, sobre a letra morta. A dança do Golem de Maura é a dança de uma letra morta.

A letra morta perpassa como cãibra a matéria-prima crua do real. O Aleph dança por si mesmo. A primeira letra novamente volta do real. O transe de Maura Baiocchi deslocou os céus sobre a vereda dos sonhos.

 

 

Виктор Мазин | Транс-Голем в движении Мауры Байокки

 

1. ДЕГРАММАТИЗАЦИЯ И АХОРЕОГРАФИЯ

Танец Мауры Байокки непредсказуем. Движения его априори не просчитываемы. Их грамматика никак не предписана хоть каким-то узнаваемым письмом хореографии. Движения то и дело не складываются, внезапно прекращаются, превращаются в совершенно другие.

Хореография Мауры Байокки не переводится на язык никакого конкретного танца и не обретает никакой законченной формы. Можно сказать, этовообще не язык, не письмо, не хореография, а то, что Лакан назвал лялязыком.

Экономика движений Маурыперевод Голема как фигуры пребывающей в трансформации, фигуры, вновь вновь не обретающей форму. Големнеоформляемое. Здесь и коренится монструозность. Онав необретении формы, нефиксации буквы, нестроении синтаксиса. Хореография трансформаций выходит из-под контроля любой грамматики, превращаясь в ахореографию транса. Важны сломы, изломы, переломные моменты и их непредсказуемость.

Форма не консолидируется. Бесформенного Голема не идентифицировать, не подчинить, не поставить под контроль. Кто бы его не творил, он остается недородившимся, трансформером зарождения.

 

2. ПЕРЕСБОРКА ТРЕУГОЛЬНИКОВ

Творит та, что танцует? Кто танцует ту, что танцует? Голем Мауры или Маура Голема? У Голема нет Голема, как нет у Мауры Мауры.

И вообще, Маура Голема и Голем Мауры танцуют не здесь, не только здесь, в этом родовом проходе, на узкой трассе Музея сновидений Фрейда. Ахореография параллельно разворачивается в двух абстрактных треугольниках, форма которых, то и дело подлежит распаду, как и предписано воображаемой мандале.

Маура-Голем прописывает траекторией своего движения незримый треугольник БукваИстинаСмерть. Голема оживляет слово истина («эмет»). Но стоит только стереть одну букву в этом слове, букву алеф, как наступает смерть («мет»). Конфигурация БукваИстинаСмерть никак окончательно не оформляется, ибо преобразуется в другой треугольник: БукваИстинаЖелание. Все на грани. На грани жизни и смерти. Транс.

Если бы мы хотели рассказать обо всем по порядку, то заговорили бы, конечно, о появлении Мауры на родовой трассе сновидений, которое сопровождалось ее интересом к окружению. Ее Голем как будто признавал других, заигрывал с ними, усаживался на коленки, делился яблоком. Можно сказать, Голем-Маура соблазнял и приручал. Но вдруг все изменилось. Будто в миг залитое солнечным светом небо захлопнулось свинцовой тучей, из которой полетели на землю вспышки пронзительных молний. Жутко.

 

3. ЖУТКОЕ ПРОБУЖДЕНИЕ ЖЕЛАНИЯ


Жуткоена границе искусственного и естественного. Жуткоев смутном понимании того, что граница эта подвижна. Жуткое в том, что искусственное не отличить от естественного. И Големсущество, сотворенное из глины, неживой материи, оживает с помощью техники, искусственного, тайного знания, заключенного в букве. Буква, напоминает Лакан, одухотворяет.

Но буква может быть мертвой. Она может быть неуправляемой, ибо не знает других букв, бытия других. Разрыв. Здесь публики нет. Ахореграфия замыкается на себе, на своей букве, на букве мертвой. Танец Голема Маурытанец мертвой буквы.

Мертвая буква пробегает судорогой по сырой материи реального. Алеф танцует сам по себе. Первая буква вновь и вновь возвращается из реального. Транс Мауры Байокки вывихнул небеса над трассой сновидений. 

 

NOTA

As imagens que acompanham a entrevista integram o acervo da Taanteatro Companhia e foram gentilmente cedidas por Wolfgang Pannek.



CÉLIA MUSILLI
| Jornalista, cronista e poeta. Autora dos livros Sensível desafio (2006) e Todas as mulheres em mim (2010), participou de várias publicações e coletâneas de poesia e crônica. Mestre em Teoria e História Literária pela Unicamp, atualmente é editora de cultura do jornal Folha de Londrina.





VICTOR MAZIN
| Psicanalista praticante, fundador do Freud’s Dream Museum em São Petersburgo (1999), membro honorário do The Museum of Jurassic Technology (Los Angeles), chefe do departamento de psicanálise teórica no East-European Institute of Psychoanalysis (São Petersburgo), e professor associado no The Department of Liberal Arts and Sciences da St. Petersburg State University, além de professor honorário do Institute of Depth Psychology (Kiev). Tradutor do inglês e francês para o russo, foi editor-chefe do periódico Kabinet e membro dos conselhos editoriais dos periódicos Psychoanalysis (Kiev), European Journal of Psychoanalysis (Roma), Transmission (Sheffield), Journal for Lacanian Studies (Londres). Publicou vários artigos e livros sobre psicanálise, desconstrução, cinema e artes visuais.

 


Agulha Revista de Cultura

CODINOME ABRAXAS # 02 – TAANTEATRO COMPANHIA (BRASIL)

Imagens: Acervo Taanteatro

Editores:

Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com

Elys Regina Zils | elysre@gmail.com

ARC Edições © 2025




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