1. FLORENCE DE MÈREDIEU | ARTAUD. Taanteatro. Théâtre de Nesle. 2016.
Publicação
original: Journal Ethnographique, Paris/França, 11/12/2016
Fundada em São Paulo em
1991 (agora há 25 anos) por Maura Baiocchi, coreógrafa adepta da dança Butoh, a
companhia brasileira Taanteatro se apresenta em Paris no Théâtre de Nesle.
Ainda insuficientemente conhecido na França e na Europa, objeto dos rumores
mais positivos, apreendidos graças à leitura dos poucos fragmentos sobre o
espetáculo que se podem encontrar aqui ou ali na internet, o Taanteatro tem uma
trajetória que dá testemunho de uma grande riqueza e de uma impressionante
maturidade.
A
tropa multiplicou espetáculos em torno de Artaud. E é Artaud le Momo que
Maura Baiocchi e Wolfgang Pannek apresentaram no Théâtre de Nesle. Artaud le
Momo. Amplamente conhecido do público, esse texto de Artaud tem sido, nos
últimos anos, objeto de muitas reprises. Muitos solistas se esfregaram
nesse trabalho canônico e frequentemente ficou-se entediado pela sobreoferta de
mimetismo à qual quase todos os atores que encarnaram Artaud Momo se entregaram.
Aqui,
a surpresa é ainda maior. Pois a atuação de Maura Baiocchi ultrapassa amplamente
todas as interpretações dadas até agora. Fora os primeiros minutos em que ela
mostra a visão arquetípica de um Artaud Momo, usando sua boina e vestida de seu
largo manto (um cachecol de lã vermelha vem já perturbar e denunciar a imagem
tradicional...), Maura Baiocchi não está mais no mimetismo mas na simpatia.
No sentido forte e primeiro que reveste o termo.
Então se está em outro
universo. O da medula e do osso, de um inconsciente orgânico e alucinatório.
Tudo passa por um gestual totalmente dominado e elaborado até mesmo na
desarticulação e na ruptura. O aprendizado e a técnica certamente vêm do Butoh:
trabalho meticuloso e repetido sobre os sistemas energéticos, permitindo a
colocação em movimento de uma musculatura corporal que reage – de maneira
milimetrada – à menor respiração e à mais indistinta inflexão da voz.
Sem
dúvida, é a primeira vez que o Momo é encarnado dessa forma por uma mulher.
Esta ambiguidade sexual reforça ainda mais o sentimento de pertencimento de
Maura Baiocchi ao seu personagem. Ela é Artaud – e além de Artaud –,
funde-se em seus sonhos e suas obsessões, afunda na gimnopédia de seus laços,
desarticula-se em cada um de seus duplos, em cada uma de suas sombras. Este
universo é complexo. Andrógino, sobretudo. Furioso e maltratado.
A
mulher, no entanto, reaparece na virada de um gesto ou de uma obsessão, nos nós
de seu cabelo. Ou dobra e desdobra-se – estendida, deitada, harmoniosa, ao
fundo da natureza de um vídeo aquoso. O conjunto da performance fica então
ainda mais forte, ao conseguir jogar sobre um registro estendido... e
contraditório.
De uma
ponta à outra do espetáculo, a atuação sensacional de Maura Baiocchi é
suportada e sustentada por um ambiente visual poético. Orquestradas por Wolfgang Pannek, projeções
de vídeo (escritos, grafismos dançantes, paisagens e águas vivas) amplificam o
tema, fazem literalmente dançar, dobrar e desdobrar o texto de Artaud.
Quando um Taanteatro será apresentado em Avignon? Na cidade desses papas que Artaud tão cruelmente vituperou?
FLORENCE
DE MÈREDIEU | ARTAUD. Taanteatro. Théâtre de Nesle. 2016.
Maura
Baiocchi incarnant Artaud le Mômo (2016).
4
décembre 2016. – Fondée à Sao Paulo en 1991 (il y a maintenant 25 ans) par
Maura Baiocchi, chorégraphe adepte du Buto, la compagnie brésilienne Taanteatro,
se produit à Paris au Théâtre de Nesle. Encore insuffisamment connue en France
et en Europe, objet de rumeurs des plus positives, appréhendée
grâce à la lecture des quelques fragments de spectacle que l’on peut trouver
ici ou là sur Internet, la trajectoire du Taanteatro témoigne d’une grande
richesse et d’une impressionnante maturité.
La troupe a multiplié les spectacles autour d’Artaud. Et
c’est un Artaud le Momo que Maura Baiocchi et Wolfgang Pannek
présentaient au Théâtre de Nesle.
– Artaud le Momo. Largement connu du public ce
texte d’Artaud a fait l’objet, ces dernières années, de maintes et maintes
reprises. Nombreux sont les solistes à s’être frottés à cette œuvre
canonique et l’on est souvent lassé par la surenchère de mimétisme à laquelle
se sont livrés presque tous les acteurs incarnant Artaud Momo.
La surprise n’en est – ici – que plus grande. Car la
performance de Maura Baiocchi outrepasse largement toutes les interprétations
jusqu’ici donnés. En dehors des premières minutes où elle campe la vison
archétypique d’un Artaud Momo, coiffé de son béret et vêtu
de son ample manteau (une écharpe de laine rouge vient déjà perturber et
dénoncer l’image traditionnelle…), Maura Baiocchi n’est plus dans le mimétisme
mais dans la sympathie. Au sens fort et premier que revêt le terme.
On est alors dans un autre univers. Celui de la moelle et
des os, d’un inconscient organique et hallucinatoire. Tout passe par une
gestuelle totalement maîtrisée et travaillée jusque dans le déglingué et la
rupture. La leçon et la technique viennent assurément du Buto: travail
minutieux et répété sur les systèmes énergétiques permettant la mise en branle
d’une musculature corporelle qui réagit – de manière millimétrée – au moindre
souffle et à la plus indistincte inflexion de voix.
Sans doute est-ce la première fois que le Momo est ainsi
incarné par une femme. Cette ambiguité sexuelle renforce encore le sentiment
d’appartenance de Maura Baiocchi à son personnage. – Elle est Artaud –
et au-delà d’Artaud –, se fond en ses rêves et ses obsessions, se coule dans la
gymnopédie de ses attaches, se désarticule en chacun de ses doubles, en chacune
de ses ombres. Cet univers est complexe. Androgyne, le plus souvent. Furieux et
malmené.
La femme, toutefois, au détour d’un geste ou d’une
obsession, réapparaît dans les nœuds de sa chevelure. Ou bien se déplie et
déploie – étendue, couchée, harmonieuse, sur le fond de nature d’une vidéo
aqueuse. – L’ensemble de la performance n’en est alors que plus fort, qui
parvient à jouer sur un registre étendu… et contradictoire.
D’un bout à l’autre du spectacle, la sensationnelle
performance de Maura Baiocchi est supportée et sous-tendue par un fond visuel
poétique. Orchestrées par Wolfgang Pannek,
des projections vidéo (écritures,
graphismes dansants, paysages et eaux vives) amplifient le propos, font
littéralement danser, plier et ployer le texte d’Artaud.
À quand une présentation du Taanteatro en Avignon? Dans la Cité de ces Papes qu’Artaud a si cruellement vitupérés?
2. PHILIPPE PERSON | Artaud, le Mômo. Théâtre de Nesle (Paris). Novembro 2017.
Performance de Maura
Baiocchi em torno dos textos de Antonin Artaud.
Publicação original:
Froggy Delight, Paris/França, novembro de 2017.
Evocar a figura longa e
calva de Antonin Artaud, suas palavras incandescentes lançadas nas chamas da
loucura, seu caminho tortuoso povoado por cactos mágicos e eletrochoques, isso
já é sair da banalidade para se rejuntar a este singular que tem o nome de
poesia. Aquele que Serge Gainsbourg situou entre os terríveis da criação
e que foi o alucinado Marat em Napoleão de Abel Gance, é um daqueles
vagabundos celestes atravessado por lampejos geniais que é preciso redescobrir
periodicamente. Para isso, o intrépido precisará de um guia capaz de içar-se
sem pressa para além dos caminhos batidos, alguém improvável cuja presença se
tornará imediatamente uma evidência.
Maura
Baiocchi é desse calibre. Com boina na cabeça, rosto maquiado, sobrancelhas
proeminentes e nariz vermelho, evocando tanto o resfriado persistente quanto o
palhaço, vestida demais como se saísse da clínica de Rodez, ela chega de onde
não era esperada: do fundo da sala. Em seguida, ela volta lentamente ao palco,
um caderno rabiscado com as palavras de Artaud nas mãos, às vezes abordando
alguns espectadores para pedir que leiam uma frase.
Entre
Nosferatu e Pina Bausch, e na língua do Mômo, ela cria imediatamente um
clima de estranha estranheza. Não se trata de uma leitura de textos, mas sim de
uma performance em torno do autor do Teatro da Crueldade.
Maura
Baiocchi é Madame Artaud, dançarina e bruxa brasileira, uma atriz
esboçando um sorriso de escárnio ou sussurrando um a-parte distante. Impondo
sua maestria sem nunca ser assustadora, ela dá passos leves e até mesmo parece
voar entre as projeções de vídeo que cobrem a parede do palco.
Pouco
a pouco, os textos de Artaud tornam-se menos abstrusos, esclarecem-se nas
hesitações eruditas e nas repetições fingidas da atriz para encontrar a palavra
certa. Tudo terminará numa apoteose interminável com a conferência pronunciada
por Artaud no Vieux-Colombier em 1947. De volta dos mortos, após sofrer os
caprichos elétricos do Doutor Gaston Ferdière, ele está aqui, entregando seus
segredos irracionais.
Maura
Baiocchi está além da encarnação. Terrivelmente dúbia, ela é Artaud, sem nunca
deixar de ser a atriz que o interpreta. Aula sobre a arte de atuar, sua
performance deixa o público atordoado.
Não mais importa se ela estava certa ou errada, ao extrapolar Artaud; se ela causou irritação ou admiração; se deixou o público impassível ou se o comoveu, as palavras do Mômo atingiram o seu alvo e esta é a sua proeza essencial e necessária.
PHILIPPE PERSON | Artaud, le Mômo. Théâtre de Nesle. Paris. Novembro
2017
Performance
de Maura Baiocchi autour de textes de Antonin Artaud.
Evoquer
la longue figure glabre d’Antonin Artaud, ses mots incandescents jetés dans les
flammes de la folie, son chemin torturé peuplé de cactus magiques et
d’électrochocs, c’est déjà sortir de la banalité pour rejoindre ce singulier
qui a nom poésie.
Celui que Serge Gainsbourg rangeait parmi ses affreux
de la création, et qui fut l’halluciné Marat du Napoléon d’Abel
Gance, est un de ces clochards célestes dont il faut périodiquement redécouvrir
le n’importe quoi parcouru de fulgurances géniales.
Pour cela, l’intrépide aura besoin d’un guide, lui aussi
capable de se hisser sans hâte hors des chemins battus, quelqu’un d’improbable
dont la présence deviendra immédiatement une évidence.
Maura Baiocchi est de cette trempe. Béret sur la tête,
visage grimé avec des sourcils proéminents et un nez rouge qui évoque autant le
rhume persistant que le clown, trop habillée comme si elle sortait de la
clinique de Rodez, elle arrive d’où on ne l’attendait pas: de l’arrière de la
salle. Puis, elle rejoint lentement la scène, un cahier gribouillé de mots
d’Artaud en mains, apostrophant quelques spectateurs, leur demandant parfois de
lire une phrase.
Entre Nosferatu et Pina Bausch, dans la langue du Mômo,
elle crée d’emblée un climat d’une étrange
étrangeté. Il ne s’agira donc pas d’une lecture de textes, mais
d’une performance autour de l’auteur du Théâtre de la cruauté.
Maura Baiocchi est Madame Artaud, danseuse et
sorcière brésilienne, actrice esquissant un ricanement, ou
chuchotant un a-parte distancié. Imposant sa maîtrise sans jamais faire peur,
elle a le pas léger et semble même voler parmi les vidéo-projections qui
enrobent le mur de la scène.
Peu à peu, les textes d’Artaud deviennent moins abscons,
s’éclairent dans les hésitations savantes et les répétitions feintes de
l’actrice pour trouver le juste mot. Le tout s’achèvera en interminable
apothéose avec la conférence prononcée par Artaud au Vieux-Colombier en 1947.
Revenu d’entre les morts après avoir subi les lubies électriques du Docteur Gaston
Ferdière, le voilà livrant ses secrets déraisonnables.
Maura Baiocchi est au-delà de l’incarnation. Terriblement
duplice, elle est Artaud sans jamais cesser d’être l’actrice qui le joue. Leçon
sur l’art de jouer, sa performance laissera pantois.
Qu’elle ait eu tort ou raison de surjouer Artaud, qu’elle ait provoqué de l’irritation ou de l’admiration, qu’elle ait laissé de marbre ou ému, plus rien n’a d’importance: les mots du Mômo ont atteint leur cible et c’est là sa prouesse essentielle et nécessaire.
3. GUILLAUME D’AZEMAR DE FABREGUES | Artaud, le Mômo – Théâtre de Nesle
Publicação original: Jenaiquunevie,
Paris/França, 16/11/2017.
No Théâtre de Nesle, Maura Baiocchi dança,
brinca e conta a vida alucinada de Antonin Artaud, o homem que fez a arte
e o teatro delirarem. Deixei-me levar por sua atuação, foi um grande e lindo
momento.
Antonin Artaud, nascido em 4 de
setembro de 1896, foi um homem do teatro, tentou transformá-lo, e, sem dúvida,
está na origem de muitas performances. Ele viveu, viajou, sob o efeito de
drogas, foi internado por nove anos em Rodez. Escreveu, dirigiu e influenciou
fortemente pessoas como Jean-Louis Barrault.
A lista de seus amigos
é o mundo da arte dos anos 1920 a 1948. Saindo da guerra e do hospital
psiquiátrico, deu em 13 de janeiro de
1947 no Théâtre du Vieux Colombier uma palestra ímpar, a última vez em que
estaria no palco. Maura Baiocchi nos fará viver esta vida, a luta de Antonin Artaud, seus combates, sua
vontade.
A peça começa no fundo
da sala. Não. Começa com sons abafados atrás da porta da sala, e Maura Baiocchi
entra, já habitada por Antonin Artaud que ignorou todas as
convenções, todos os constrangimentos, o Antonin Artaud livre. Ela vai ficar
por muito tempo naquela área. De repente me viro, é estranho, pelo menos um
terço dos espectadores fica virado de frente para o palco, como que esperando
por um ator clássico, parado no centro do palco. Há um senhor adormecido, um
outro que se pergunta o que está fazendo ali,
a senhora que está fascinada…
A viagem continua, a de
Artaud, a nossa. Maura Baiocchi é brasileira, seu texto está escrito
em um caderno que faz parte da encenação, ela se agarra a
ele, escreve nele, usa-o para apagar um cigarro
comprido de cheiro estranho (fique tranquilo, apesar
de evocar substâncias
alucinatórias, trata-se de eucalipto). A peça segue o fio da
vida de Artaud que segue o fio do
tempo.
Estamos na América do
Sul, entre os incas (não entre os astecas, a frase soava esquisita com o
sotaque brasileiro), Artaud é habitado por suas
pesquisas, Maura é habitado por Artaud. E então o tempo das drogas, das visões, do universo
que se torna flexível, acima do solo. Aí vem o tempo da internação, outras
drogas, os eletrochoques.
Maura
me levou a bordo, estou voando com
Artaud,
sofrendo com ele. As palavras desaparecem, a sequência é dançada, a música é
lancinante. Lanço um
olhar sobre os espectadores, Maura Baiocchi levou todos a bordo, inclusive
aquele que dormia, aquele que se perguntava o que fazia ali, agora estão
atentos, hipnotizados.
Chega
a hora do discurso, o do Vieux Colombier, aquele que subjugou a elite da arte que
saiu atordoada, silenciada. As folhas voam. O público aplaude, resta a
sequência final, a doença
corrói, vence, o corpo de Artaud se
contrai, se enrola, levado pela onda. Artaud está
morto.
A peça durou quase duas horas, Maura Baiocchi não saiu de cena, admiro o esforço da atuação, da dança, da encenação organizada a serviço do tema. A secura, a tensão. Eu compartilhei da vida de Artaud, sua liberdade, as drogas, os eletrochoques. Bravo. Fiquei atordoado. Deslumbrado. Pelo assunto. Pelo jogo. Por Maura Baiocchi, seu jogo, sua dança. Pelo grande jogo.
GUILLAUME
D’AZEMAR DE FABREGUES
| Artaud, le Mômo – Théâtre de Nesle
Au
Théâtre de Nesle, Maura Baiocchi, danse, joue et raconte d’une façon la vie hallucinée d’Antonin Artaud, l’homme qui faisait délirer l’art et le théâtre. Je me suis laissé embarquer par sa
performance, c’était un grand et beau moment.
Antonin Artaud, né le 4 septembre 1896 est un homme de
théâtre, il a essayé de le transformé, est sans doute à l’origine de nombreuses performances. Il a vécu, voyagé,
sous l’influence
des drogues, a été interné pendant neuf ans à Rodez. Il a écrit, mis en scène,
fortement influencé des gens comme Jean-Louis Barrault. La liste de ses amis, c’est le monde de l’art des années 1920 – 1948. Sorti de la guerre et de l’hôpital psychiatrique, il va donner le 13 janvier 1947 au
théâtre du Vieux Colombier une conférence unique, la dernière fois qu’il sera sur scène. Maura Baiocchi va nous faire vivre
cette vie, la lutte d’Antonin
Artaud, ses luttes, ses combats, sa volonté.
La pièce commence au fond de la salle. Non. Elle commence
par des sons sourds derrière la porte de la salle, et Maura Baiocchi entre,
déjà habitée, qui incarne l’Antonin
Artaud qui fait fi de toutes conventions, de toutes contraintes, l’Antonin Artaud libre, elle va rester assez longtemps dans
la zone.
Du coup je me retourne, c’est étrange, un bon tiers des spectateurs reste face à la
scène, comme s’ils
attendaient un acteur classique, debout au centre de la scène. Il y a le
monsieur qui s’est
endormi, celui qui se demande un peu ce qu’il fait là, la dame qui est fascinée…
Le voyage continue, celui d’Artaud, le notre. Maura Baiocchi est brésilienne, son
texte est écrit sur un cahier qui fait partie de la mise en scène, elle s’y accroche, écrit dessus, l’utilisera pour éteindre une longue cigarette qui sent
bizarre (rassurez-vous, si elle évoque les substances hallucinatoires, ça reste
de l’eucalyptus).
La pièce suit le fil de la vie d’Artaud, qui suit le fil du temps. Nous voilà en Amérique
du Sud, chez les Incas (pas les Aztèques, la phrase a sonné bizarre avec l’accent brésilien), Artaud est habité par sa recherche,
Maura est habitée par Artaud. Et puis le temps des drogues, les visions, l’univers qui devient souple, hors sol. Ensuite, le temps
de l’internement, d’autres drogues, les électrochocs. Maura m’a embarqué, je plane avec Artaud, souffre avec lui. Les
mots disparaissent, la séquence est dansée, la musique lancinante.
Je jette un oeil sur les spectateurs, Maura Baiocchi les
a tous embarqués, y compris celui qui dormait, celui qui se demandait ce qu’il faisait là, ils sont maintenant attentifs, hypnotisés.
Vient le temps du discours, celui Vieux Colombier, celui
qui a subjugué le gotha de l’art
qui est sorti scotché, silencieux. Les feuilles volent.
La salle applaudit, il reste la séquence finale, la
maladie ronge, gagne, le corps d’Artaud
se resserre, recroqueville, la vague l’emporte. Artaud est mort.
La pièce a duré près de deux heures, Maura Baiocchi n’a pas quitté la scène, j’admire l’effort
du jeu, de la danse, la mise en scène épurée, au service du propos. La
sécheresse, la tension. J’ai
partagé la vie d’Artaud,
sa liberté, les drogues, les électrochocs.
Bravo. J’ai
été scotché. Bluffé. Par le propos. Par le jeu. Par Maura Baiocchi, son
jeu, sa danse. Du grand jeu.
4. LENISE PINHEIRO | Artaud, Le Momo, celebra 25 anos da Taanteatro Companhia
Publicação original:
“Cacilda Blog de Teatro”, Folha de S. Paulo, 28/05/2017.
O olhar de Antonin
Artaud prece saltar da fotografia de Man Ray e vitimar a fisionomia de
Maura Baiocchi. Ela no palco, com seus inúmeros recursos, nos transmuta para o
universo daquele que: Era Inca mas não era Rei.
Através
de gestual milimétrico, a sofisticada encenação, se faz valer das artes
plásticas, valoriza projeções e trilha sonora, especialmente compostas para a
montagem. A dinâmica transcende questões de gêneros valores, leis, dores,
classes, amores, línguas, sentimentos. Atmosfera que recria dramaturgias e
tensões. O caráter multimidiático, resgata o teatro da crueldade, a mitologia e
o circo. Ironiza governos, religiões, conceitos e golpes.
Além
disso, há algo a mais… Algo mais eficaz e ativo… Esse algo é justamente a
entrada da consciência no domínio do tabu e do oculto, ao qual é proibido fazer
alusão sob pena de ser acusado de delírio, alucinação, obsessão, persecução.
Absolutamente lúcido e são de espírito, passei 9 anos internado em asilos de
alienados, e isto não perdoarei jamais esta sociedade de castrados imbecis que,
depois de trocentos anos, em que ela revira sua língua em seu colo sujo, jamais
conseguiu, através de não sei quantos pensadores, poetas, filósofos, escribas,
budas, reis, padres, pastores, princesas, príncipes, ministras, ministros,
secretários, presidentas, presidentes… jamais soube propor a ninguém uma razão
válida de existir.
Artista consciente e inquieta, Maura Baiocchi, experimenta com o corpo. Combustão entre energia, liberdade e esquizopresença, onde não se representa e nem se interpreta. Deixa escorrer criatividade das paredes e do palco do Teatro Viradalata. Hoje em último dia dessa temporada. As apresentações voltam ao cartaz, em julho, no Viga Espaço Cênico – SP. Fica aí, minha sugestão.
NOTA
As imagens que acompanham a entrevista integram o acervo da Taanteatro Companhia e foram gentilmente cedidas por Wolfgang Pannek.
FLORENCE DE MÈREDIEU | Filósofa, escritora e especialista em arte moderna e contemporânea, Professora da Universidade Paris 1981-2004, Florence de Mèredieu é a autora dos livros: o desenho da criança, van Gogh, André Masson, Duchamp, Picasso, Gutai, novas tecnologias, materiais e história insignificante de arte moderna e Contemporânea (Bordas, 1994 / Larousse, 2004), que estabeleceu as bases de uma nova história da arte. Tem colaborado em várias revistas (Art Press, Art News, Communications, La Nouvelle Revue Française, Agulha Revista de Cultura, Traverses, La Revue d’Esthétique, Parachute, Vertigo etc.).
PHILIPPE PERSON | Dramaturgo, diretor, ator e diretor de teatro. Dirigiu o Théâtre Lucernaire em Paris de 2009 a 2015. Após deixar a direção, criou a escola de teatro profissional Lucernaire dentro do mesmo local. Depois de trabalhar sob a direção de Philippe Honoré, Stéphane Auvray-Nauroy, Catherine Beau, criou a Compagnie Philippe Person. Após três criações originais, Person alterna entre trabalhos com clássicos, autores contemporâneos e adaptações de obras literárias para o teatro (com seu parceiro de longa data Philippe Honoré). Suas peças foram encenadas com muita frequência no Théâtre Lucernaire, que ele dirigiu de 2009 a 2015. A companhia Philippe Person criou mais de vinte espetáculos realizados em toda a França, Europa e Territórios Ultramarinos Franceses. Paralelamente a essas atividades como ator e diretor, Person criou uma escola profissional dentro do Théâtre Lucernaire, que treina atores estudantes ao longo de dois anos.
GUILLAUME D’AZÉMAR DE FABREGUES | Editor, crítico e cronista do website teatral Je n’ai qu’une vie – https://jenaiquunevie.com/ – com sede em Paris.
LENISE PINHEIRO | Fotógrafa, cenógrafa e iluminadora. Em suas exposições, manteve sempre o foco em teatro, fazendo com que seu nome ficasse marcado como a melhor fotógrafa do gênero na atualidade. Foi a fotógrafa de todas as edições do Festival de Teatro de Curitiba (PR), entre 1992 e 1997. Participou de 32 mostras de fotografia, sete coletivas e 25 individuais. Fez still de cinema, capas de discos, gravações de novelas, programas e comerciais de televisão. Em 1998, começou a dedicar-se mais à carreira jornalística, publicando regularmente fotos no jornal Folha de S. Paulo e no UOL Entretenimento. Publicou o livro 10 Anos de Fotografia de Palco (2008), com 571 fotos, divididas nos blocos Camarim, Figurinos, Cenários, Ensaios Pessoais, Iluminação e Cenas, e com textos traçando perfis do mundo do teatro, de Antunes Filho, Daniela Thomas, Otávio Frias Filho, Ney Latorraca, Nelson de Sá e Zé Celso Martinez Corrêa
Agulha Revista de Cultura
CODINOME ABRAXAS # 02 – TAANTEATRO COMPANHIA (BRASIL)
Imagens: Acervo Taanteatro
Editores:
Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com
Elys Regina Zils | elysre@gmail.com
ARC Edições © 2025
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