terça-feira, 16 de setembro de 2025

ADÉLIA PRADO (1935)

 


Adélia Prado (1935). Poeta, filósofa, romancista e contista, ligada ao Modernismo. Um dos nomes centrais da tradição lírica no Brasil. Em 2024, tornou-se a terceira escritora brasileira a vencer o prêmio Camões em 35 anos. Sua trajetória é marcada pela habilidade em expressar o universo feminino com profundidade e beleza, desnudando as emoções de forma lírica e ao mesmo tempo visceral, revelando uma poesia permeada de espiritualidade e de um encantamento pelo mundo que mistura o divino e o mundano. Sempre lúcida em relação à criação, em uma entrevista declara: Poesia não é tema. Não posso engajá-la em nada. Ela vem como vem e eu obedeço. Não tenho poderes nem vontade de torcê-la para nenhuma ideologia. Ela se recusa. Empaca como uma mula teimosa e, se me esforçar, faço um livro deplorável. Este equívoco vem do fato de se achar que o poeta é a fonte da poesia. Ele é só o cavalo do santo. Um livro político de poesia será bom se for primeiro um livro de poesia. Tudo para resumir assim: acredito em inspiração, não em esforço.

 

 

MOMENTO

 

Enquanto eu fiquei alegre,

permaneceram um bule azul com um descascado no bico,

uma garrafa de pimenta pelo meio,

um latido e um céu limpidíssimo

com recém-feitas estrelas.

Resistiram nos seu lugares, em seus ofícios,

constituindo o mundo pra mim, anteparo

para o que foi um acometimento:

súbito é bom ter um corpo pra rir

e sacudir a cabeça. A vida é mais tempo

alegre do que triste. Melhor é ser.

 

 

SEDUÇÃO

 

A poesia me pega com sua roda dentada,

me força a escutar imóvel

o seu discurso esdrúxulo.

Me abraça detrás do muro, levanta

a saia pra eu ver, amorosa e doida.

Acontece a má coisa, eu lhe digo,

também sou filho de Deus,

me deixa desesperar.

Ela responde passando

língua quente em meu pescoço,

fala pau pra me acalmar,

fala pedra, geometria,

se descuida e fica meiga,

aproveito pra me safar.

Eu corro ela corre mais,

eu grito ela grita mais,

sete demônios mais forte.

Me pega a ponta do pé

e vem até na cabeça,

fazendo sulcos profundos.

É de ferro a roda dentada dela.

 

 

ANTES DO NOME

 

Não me importa a palavra, esta corriqueira.

Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,

os sítios escuros onde nasce o ‘de’, o ‘aliás’,

o ‘o’, o ‘porém’ e o ‘que’, esta incompreensível

muleta que me apoia.

Quem entender a linguagem entende Deus

cujo Filho é Verbo. Morre quem entender.

A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,

foi inventada para ser calada.

Em momentos de graça, infrequentíssimos,

se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.

Puro susto e terror.

 

 

A ESFINGE

 

Ofélia tem os cabelos tão pretos

como quando casou.

Teve nove filhos, sendo que

tirante um que é homossexual

e outro que mexe com drogas,

os outros vão levando no normal.

Só mudou o penteado e botou dentes.

Não perdeu a cintura, nem

aquele ar de ainda serei feliz,

inocente e malvada

na mesma medida que eu,

que insisto em entender

a vida de Ofélia e a minha.

Ainda hoje passou de calça comprida

a caminho da cidade.

Os manacás cheiravam

como se o mundo não fosse o que é.

Ora, direis. Ora digo eu. Ora, ora.

Não quero contar histórias,

porque história é excremento do tempo.

Queria dizer-lhes é que somos eternos,

eu, Ofélia e os manacás.

 

 

AS MORTES SUCESSIVAS

 

Quando minha irmã morreu eu chorei muito

e me consolei depressa. Tinha um vestido novo

e moitas no quintal onde eu ia existir.

Quando minha mãe morreu, me consolei mais lento.

Tinha uma perturbação recém-achada:

meus seios conformavam dois montículos

e eu fiquei muito nua.

Cruzando os braços sobre eles é que eu chorava.

Quando meu pai morreu, nunca mais me consolei.

Busquei retratos antigos, procurei conhecidos,

parentes, que me lembrassem sua fala,

seu modo de apertar os lábios e ter certeza.

Reproduzi o encolhido do seu corpo

em seu último sono e repeti as palavras

que ele disse quando toquei seus pés:

“Deixa, tá bom assim”.

Quem me consolará desta lembrança?

Meus seios se cumpriram

e as moitas onde existo

são pura sarça ardente de memória.




RUBEM GRILO (Brasil, 1946). Gravador, desenhista, ilustrador. Em 1970, estuda xilogravura com José Altino (1946), na Escolinha de Arte do Brasil, no Rio de Janeiro. No ano seguinte, passa a frequentar a Seção de Iconografia da Biblioteca Nacional e entra em contato com as gravuras de Oswaldo Goeldi (1895-1961), Lívio Abramo (1903-1992), Marcelo Grassmann (1925), entre outros. Nesse período, inicia curso de xilogravura na Escola de Belas Artes da UFRJ e é orientado por Adir Botelho (1932). Em visitas ao ateliê de Iberê Camargo (1914-1994), recebe lições de gravura em metal e, na Escola de Artes Visuais do Parque Lage-EAV/Parque Lage, estuda litografia com Antonio Grosso (1935). No início da década de 1970, ilustra jornais como Opinião, Movimento, Versus, Pasquim, Jornal do Brasil. Na Folha de S. Paulo, cria ilustrações para os fascículos da coleção “Retrato do Brasil”. Em 1985, publica o livro Grilo: Xilogravuras, pela Circo Editorial. Em 1990, é premiado pela Xylon Internacional, na Suíça. Em 1998, participa, com sala especial, da 24ª Bienal Internacional de São Paulo e, no ano seguinte, é curador geral da Mostra Rio Gravura. Tem trabalhos publicados em revistas especializadas como Graphis e Who’s Who in Art Graphic (Suíça), Idea (Japão), e Print (Estados Unidos). Nossos agradecimentos a Jacob Klintowitz pela presença de Rubem Grilo como artista convidado desta edição de Agulha Revista de Cultura.
 


Agulha Revista de Cultura

Número 262 | setembro de 2025

Artista convidado: Rubem Grilo (Brasil, 1946)

Editores:

Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com

Elys Regina Zils | elysre@gmail.com

ARC Edições © 2025


∞ contatos

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FLORIANO MARTINS | floriano.agulha@gmail.com

ELYS REGINA ZILS | elysre@gmail.com

 




 

 

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