quinta-feira, 4 de setembro de 2025

EVELINA TKACHUK | A potente voz de Lesya Ukrainka

 


Lesya Ukrainka é uma das figuras mais destacadas e influentes da literatura ucraniana. O seu vasto conhecimento e as lutas pela liberdade e direitos do povo, fizeram com que tivesse importância não só como uma figura literária, mas também, reconhecida pelo seu lado patriota, ao ponto de ser honrada e estudada no seu país (faz parte do programa de estudo nas escolas e universidades). Ainda, Lesaya Ukrainka é homenageada internacionalmente, como exemplo disso, a poetisa foi reconhecida pela Unesco, como aquela que promoveu os valores de paz, tolerância, igualdade de gênero e etnias. Também é glorificada com marcas comemorativas.

Laryssa Petrivna Kosach nasceu a 25 de fevereiro de 1871, na cidade de Novohrad-Volynsky (perto de Lviv), na Ucrânia. Pertencia a uma família de grandes intelectuais. O seu pai, Petro Antonovich, era jurista e professor universitário. Já a sua mãe, Olga Petrivna Kosach ou Olena Pchilka (pseudônimo), era escritora, editora, etnógrafa, intérprete, professora e ativista civil.

Durante a vida da poetisa, a Ucrânia encontrava-se sob o domínio de dois impérios: Império Russo e o Império Austro-Húngaro. Sendo que a maior parte do terreno ucraniano era ocupado pelo regime russo, o que significa que o uso da língua ucraniana era bastante limitado. Consequentemente, as escolas tinham que seguir as ideologias impostas pelos sistemas imperiais. Por isso, para evitar a influência russa e a diferenciação social vigente nas escolas, Olga Kosach, como professora, decidiu ensinar os seus filhos em casa, segundo uma ideologia liberal, de forma a reconhecerem e aceitarem todas as culturas e civilizações. Mas, o mais importante era o conhecimento do próprio povo e dos seus costumes para derrubar as barreiras sociais.

As crianças da família Kosach liam e escreviam desde cedo, e da mesma forma, conheciam os clássicos universais. Mas Laryssa, com o seu talento literário, destacou-se entre os irmãos, quando com nove anos compôs o seu primeiro poema: “Esperança”. Este poema, da pequena Laryssa, mostra a sua compreensão e maturidade em relação a certos momentos políticos no império russo, isto porque o poema foi inspirado numa situação política que ocorreu com a sua tia. Foi nesse momento, como resultado do sofrimento da família, que começaram a surgir traços patrióticos em Laryssa, que mais tarde serão intensificados na sua escrita.


Vendo o talento da filha, Olga Kosach incentivou-a a aprofundar os seus conhecimentos através da leitura de diversos autores internacionais. Juntamente com isso, ela tinha um grande talento para as línguas. Para além do ucraniano e russo, Laryssa também sabia polaco, búlgaro, alemão, francês, italiano, espanhol, dominava o latim e sabia grego clássico. Este conhecimento permitiu-lhe a leitura e tradução de textos universais diretamente do original.

Aos treze anos, fez a sua primeira publicação do poema “Safo”, já com o pseudónimo Lesya Ukrainka. Este nome expressa o seu lado pessoal e patriótico, visto que “Lesya” era o nome que lhe era dado em casa, um nome suave e carinhoso, o que substituiu o seu nome exigente, “Laryssa”. Já o nome “Ukrainka”, que significa “a Ucraniana”, é um símbolo patriótico que mostra o seu apoio e luta pela nação ucraniana.

Por outro lado, Laryssa gostava de música e tocava piano, mas não conseguiu desenvolver essas capacidades devido à sua doença, tuberculose óssea, que lhe dificultou a movimentação, o que a levou a duas operações: a primeira na Ucrânia e a segunda em Berlim, permitindo-lhe andar sem dificuldades. Posteriormente, descobriu-se que ela tinha tuberculose nasal, sendo que a única solução para combater e aliviar a doença eram os climas quentes e secos, que resultou nas viagens que fez ao longo da sua vida. Apesar disso, não foi o suficiente para o combate, então, devido ao mau funcionamento nasal, morreu a 1 de agosto de 1913 (com 42 anos), na Geórgia.

O sofrimento causado pelas suas enfermidades não foi apenas físico, mas também emocional, provocando momentos de fraqueza, como aconteceu no poema “Safo”:

 

Por cima das ondas do mar, na rocha,

Uma rapariga está sentada,

Com a coroa de louro brilha,

Segura a lira do canto.

Para o seu canto triste

Na lira ela toca.

E com aquele canto no coração

Surge um grande cansaço:

Naquele canto recordou a fama,

A sua grandeza, a cor vermelha,

Pessoas perversas, e o amor,

E a traição, a tristeza dos seus anos,

Esperanças e decepções… A rapariga

arrancou a coroa de louro

E nas ondas do mar barulhento

Encontrou o fim do seu canto.

 


Neste poema não só vemos a inspiração e os ecos da poetisa grega, Safo (do fragmento 94), mas também é visível o sofrimento da própria Lesya, que procura o fim para terminar com o sofrimento, tal como Safo, que preferiu acabar com a vida saltando da rocha. Mas, em contraposição a isso, Lesya compôs o poema “Contra spem spero!”, que descreve a sua esperança e vontade de viver:

 

Sim! eu vou sorrir no meio das lágrimas,

Entre a desgraça cantar canções,

Sem esperança vou confiar,

Vou viver! Saiam pensamentos tristes!

 

Progressivamente, o seu talento literário prosperava, assim como o seu amor pela pátria. O seu engenho dava-lhe austeridade e confiança. Diante disto, em 1890, com dezanove anos, Lesya já tinha crescido como figura literária e alcançado o reconhecimento como escritora nacional e crítica contra o absolutismo russo. A sua escrita baseava-se nos seus sentimentos e pensamentos, que soube trabalhar nos vários géneros literários. Deste modo, criou três coletâneas como suas obras iniciais, já as obras seguintes, eram publicadas singularmente, marcadas por uma individualidade mais forte e séria.

É igualmente importante referir a predominância de personagens femininas nos seus poemas, envolvidas em diferentes situações onde lutam pela igualdade de gênero, mostrando o seu caráter forte, semelhante ao espírito masculino. Isto porque a própria Lesya destacou-se por ter uma voz potente, que comovia a pátria.


Lesya também era ativista social, uma vez que, o seu sofrimento pela nação levou-a a pertencer a um grupo de ativistas oponentes ao sistema governamental. Ainda, para incentivar o uso e o desenvolvimento da língua ucraniana, que até então, não tinha uma gramática, a poetisa criou um grupo literário, “Pleiada”, onde reuniu não só jovens, mas também intelectuais ucranianos. Neste círculo literário eram compostos textos em ucraniano e feitas traduções de obras internacionais.

Portanto, apesar da sua fraqueza física, Lesya Ukrainka tinha um caráter forte e poderoso que a ajudava a lutar pela própria vida e inspirava a luta pela nação. A sua maior arma era a sua escrita e o conhecimento, que criam esperança e dão força ao povo ucraniano, porque as suas palavras promovem a união de um povo e motivam a lutar pela liberdade, justiça e independência. Estas ideias também podem ser adaptadas à atualidade, pois a união nacional e cultural, liberdade, o direito de ter uma língua e a igualdade de gênero são assuntos todavia tratados.





EVELINA TKACHUK
(Ucrânia, 1997). Estudante do curso de Humanidades, terminou a Licenciatura e é aluna de Mestrado em Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Está a desenvolver o trabalho sobre Lesya Ukrainka, na esperança de trazer algo de novo à cultura portuguesa, relacionando o Mundo Clássico com a cultura ucraniana. Participou na 13ª Conferência Internacional da Série: “Culturas Ibéricas e Eslavas em Contato e Comparação – Muros que Caem, Muros que se Levantam: 30 Anos após a Queda do Muro de Berlim”. Publicou o texto “Classical Culture and Portuguese Sport” para a 3ª Conferência Internacional: “A Cultura Física e o Desporto: Experiência e Perspetivas”, organizada pela Universidade Nacional de Chernivtsi, Ucrânia. Publicou o artigo “Quem é Lesya Ukrainka” na revista Caliban.





ARIADNA PINEDA (México, 1980). Estudió la Licenciatura en Artes Visuales en la Facultad de Bellas Artes de la UMSNH, así como Diseño de moda en Instituto INMODART en la ciudad de Morelia, Michoacán. Su experiencia profesional se ha forjado creando pintura, escenografía teatral, diseño de vestuario teatral y dancístico, escultura, fotografía, ilustración y muralismo. Sus exposiciones individuales han girado la mayoría en torno al arte con técnicas experimentales realizando obras arte háptico-senso-perceptual para personas con discapacidad visual, otras exposiciones de arte fumage y pintura al óleo, todas con su particular estilo surrealista. A la fecha son 13 sus exposiciones individuales desde el 2011. Participa en exposiciones colectivas desde 1996 dando un total de 38 colectivos. Algunas de sus obras se encuentran en Italia, Canadá, EU, en manos de coleccionistas privados. Ariadna en su creación encontró un nuevo camino con precedencia a partir de años de exploración, experimentación y especialización en la pintura al óleo y el arte fumage, encontrando su propio lenguaje, hoy busca dar a conocer con luz propia su obra surrealista más reciente para tomar con mayor fuerza los caminos de la creación. Ariadna Pineda es la artista invitada de esta edición especial de Agulha Revista de Cultura.

 


Agulha Revista de Cultura

CODINOME ABRAXAS # 06 – ATHENA (PORTUGAL)

Artista convidada: Ariadna Pineda (México, 1980)

Editores:

Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com

Elys Regina Zils | elysre@gmail.com

ARC Edições © 2025




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