quinta-feira, 4 de setembro de 2025

FLORIANO MARTINS | Cruzeiro Seixas e a grande razão ausente

 


Eu nunca quis ser muito melhor do que outro qualquer; fiquei-me pelo vago desejo de ser um pouco melhor do que o Cruzeiro Seixas.

 

CRUZEIRO SEIXAS

 

 

Cruzeiro Seixas tem devotado a sua vida a dilacerar uma chaga no tecido da realidade de seu tempo, apoiado em uma máxima de Mario Cesariny: Falta por aqui uma grande razão. Não à toa dei por título a um de seus dois livros que organizei e editei no Brasil Homenagem à realidade. Esta imagem como que define a nobreza de seu espírito, o caráter de sua obra. Seu traço genuíno percorre a plástica e a escrita, em uma exaltação selvagem do que deve ser a existência humana. Ele próprio disse certa vez: A dúvida é a minha paixão, a razão da minha vida. E tal princípio tem convivido com ele por 97 anos, em intensa harmonia.

Há mais de uma década nos conhecemos e durante esse tempo temos mantido uma frequente correspondência, o que tornou possível a reprodução desse diálogo epistolar em um livro intitulado Confissões de um espelho. Ao lado de outro homem igualmente íntegro, o chileno Ludwig Zeller, fui confirmando, ao longo de nossas conversas, muitas de minhas inquietudes e ampliando as vertentes de minha percepção. Ambos artistas da escrita e da plástica, ensinaram-me, no dizer de Cruzeiro Seixas, que na escrita pode estar pintura, como na pintura por estar toda a verdade da escrita.

Gostaria de referir-me a cinco livros em particular de Cruzeiro Seixas, que atestam a diversidade de sua obra e a substância de seu pensamento.

 

® LOCAL ONDE O MAR NAUFRAGOU | Edições Prates (artesanal), 2001 – 120 páginas não numeradas – 20,5 cm x 30.5 cm.

 

Este livro reúne manuscritos e desenhos. Eu o vejo como um livro-jazz, seja pelas partituras em que estão impressas a escrita e a plástica, seja pela sofisticada tessitura de seu senso de humor. Recorda-me o que disse de Erik Satie o maestro brasileiro Júlio Medaglia: Só o humor constrói, mas, sobretudo, o que disse o próprio Satie: Quanto mais a gente se torna músico, mais a gente enlouquece. Essa loucura que, como vemos em Cruzeiro Seixas, não é antípoda da lucidez, mas antes sua verdadeira essência. Logo na dedicatória de meu exemplar, Cruzeiro Seixas destaca que o livro se trata de um depoimento sem mar. Abrimos suas páginas para o infinito, para uma amplitude sem limites. O livro é também música na própria escala de seus temas. E o jazz que evoco, eu o faço seduzido pela elegância de seu improviso, configurado pela seguinte afirmação: No desenho ou na pintura o acaso não me ajuda, pelo que o abstracionismo ou o informalismo fui obrigado a os deixar a outros. Há uma página em que se encontram plástica e escrita, irmanadas pelo desejo de desbravar o maravilhoso, constituindo uma pauta de intensa beleza, onde percebemos a razão por que todo livro é manuscrito. As duas linguagens se mesclam em um ritmo intenso, teatro luminoso que é a própria representação da liberdade.

 

® OBRA POÉTICA | Quasi Edições, 2002 – 248 páginas – 15 cm x 22.5 cm.

 

Primeiro volume de um ousado e merecido projeto editorial de recolha de toda a poesia de Cruzeiro Seixas, dispersa em raras edições e inédita em sua maior parte. A organização de ambiciosa aventura foi entregue pelo artista a sua amiga, também ela artista e surrealista, Isabel Meyrelles. Na abertura do volume inaugural a organizadora situa uns dados biográficos indispensáveis que certamente ambientam o leitor na imensidão dessa poética. Diz ela:

 

Cruzeiro Seixas sempre viveu intensamente, embora não espetacularmente; quase todos os seus poemas proclamam o amor que praticou, e que é irmão gêmeo da própria liberdade.

[…] Sem possibilidades materiais de viajar, toma a decisão de embarcar [isto em 1950] como simples marinheiro na marinha mercante, para alargar o mundo já tão fértil da sua imaginação.

Fixa-se por fim em Angola e esse foi um dos grandes encontros da sua vida. Naquele continente encontrou o espaço que, homem esponja, sonhava, estando sempre pronto a absorver o que o cerca, e a transformá-lo. Em África se proporcionou uma vida de plenitude, onde o seu engenho brotou com a força das nascentes, metamorfoseando a sua obra e a sua vida; calcorreando quilômetros e quilômetros de picadas, cortadas por rios que mudam constantemente de leito, e em contato com a sociedade nativa, para a qual exige a designação de uma civilização.

 


Esta viagem pelo interior de sua própria natureza confere à África um símbolo de descoberta de toda uma poética, que se expandirá pela força e beleza de seus versos. As imagens de um destino inesgotável, que raramente encontra equivalente na tradição lírica de seu tempo. África se desvela em sua poesia como abismo e horizonte, abrigo e vastidão. Anoto aqui um dos inúmeros poemas – pois a criação em Cruzeiro Seixas sempre foi de uma profusão estonteante – que permitem melhor ideia dessa aventura:

 

Aqui estou

 perseguido por palavras azuis

que com ciprestes e guizalhadas

 procuram divertir a paisagem.

 

Mas verdes são os sonhos

e o sangue corre lento

por sobre as nuvens.

 

As mãos das mães

morrem longe sem sepultura

acenando às tempestades.

 

Sofrem as árvores     sofrem as pedras

sofrem os rios     sofre o silêncio

sofre o nada.

 

De negro cobertas

erguem-se as proas dos barcos

erguem-se figuras virgens

estendendo pelo chão a sua sombra espessa.

 

Retalha-me o risco que corri

nas esquinas     nas escadas mais escuras

nos recantos mais íngremes da memória.

 

Por isso o mar é tão profundo

por isso há séculos o ar adormeceu sobre nós

e esmaga-nos     lenta     lentamente

depois dos rituais mais complexos.

 

Em um sentido particular de imensidão selvagem e de abismo metafísico, a poética de Cruzeiro Seixas permite leitura aproximativa com a de poetas como Aimé Cesaire e Raúl Bopp, poéticas de entrada no mundo abissal e mágico que tanto ambicionou o Surrealismo. Compreendida a assinatura singular de cada uma dessas vozes, a África profunda que salta em forma de vida da poesia de Cruzeiro Seixas guarda suas mais secretas afinidades com a Amazônia de Bopp e o Caribe de Cesaire. Desconheço qual motivo impeça o entendimento de que Cruzeiro Seixas é autor de uma das mais expressivas obras poéticas de seu país. Alheio às razões – também aqui certamente falta uma grande razão – do que digo, é isto o que ele é, um dos maiores poetas portugueses de todos os tempos.

 

® O SURREALISMO ABRANGENTE | Quasi Edições, 2004 – 208 páginas – 24 cm x 30 cm.

 

Vultoso catálogo de exposição que reúne parte do acervo particular de Cruzeiro Seixas doado pelo artista à Fundação Cupertino de Miranda. Esta coleção inclui diversas obras de 96 surrealistas em distintos países ao longo de dois continentes: Europa e América. Ao dedicar-me exemplar, em seu pórtico CS escreveu tratar-se de um mundo de relacionamentos, que para mim representa um oceano, em que me tenho batido com a minha ideia de liberdade. No que pese a grandeza do catálogo, do acervo e, ainda mais, do supremo ato generoso de doação, era de se esperar que a instituição beneficiada tornasse a exposição itinerante, não apenas por diversas cidades portuguesas, mas avançando por outros países europeus. Uma verdadeira lástima que não tenha ocorrido, destinando tal valioso espólio a uma espécie de túmulo em vida em uma pequena cidade do interior de Portugal. O oceano evocado por CS se converte assim em uma não-viagem, anulando, em grande parte, a prodigiosa iniciativa do artista. Da apresentação do catálogo recorto um parágrafo ilustrativo assinado por Eurico Gonçalves, no qual observa:

 


Além de largas centenas de obras surrealistas, a Coleção abrange uma criteriosa escolha de exemplos de Arte Africana, Arte Popular e Arte Bruta que, em muitos aspectos, não deixam de encontrar inesperadas afinidades com o Surrealismo; aspectos a que o próprio Breton foi também muito sensível.

 

De todos os artistas portugueses relacionados ao Surrealismo, a obra de Cruzeiro Seixas destaca-se, lado a lado com seu atento altruísmo, como a de maior importância, seja pela própria qualidade estética, quanto pela abrangência de linguagens, o amplo relacionamento com outros artistas – dentro ou fora de Portugal –, as inúmeras ousadias de obras compartilhadas, incluindo o fato dele mesmo ter sido diretor de algumas galerias, ocasião em que tornou possível inestimável difusão do Surrealismo.

 

® PROSSEGUIMOS, CEGOS PELA INTENSIDADE DA LUZ | Perve Global, 2009 – 54 páginas – 18 cm x 25 cm.

 

O livro reúne máximas, comentários breves, desenhos e fotos, em uma riquíssima e surpreendente edição artesanal, com folhas soltas em papel Fabriano de 350 gramas. O texto impresso oscila entre o manuscrito e a datilografia. Todo o livro é uma preciosidade fascinante, inscrito de modo substantivo na linhagem dos livros-objetos. Ali nos encontramos com o disparo revelador de suas ideias, sintetizadas em sentenças como: A inteligência do homem está condenada ao possível, Acho que estão a preparar os jovens para comerem os próprios filhos, Não tenho imaginação; aquilo que desenho e escrevo é aquilo que se passa comigo todos os dias, e esta ainda mais intrigante declaração: Escolhi, por certo levado pelo excesso, a ignorância, o distanciamento, a liberdade ainda possíveis. Em dado momento nos deparamos com uma frase de Breton, de 1950: a noção de escola e mesmo de grupo surrealista é aberrante, algo com que compactua Cruzeiro Seixas, sempre intensamente dedicado à revelação de um mapa de essências configuradas pelo Surrealismo, alheio a todas as barreiras de seu tempo e ciente das tempestades que o movimento sempre enfrentou. CS sempre teve uma voz franca e iluminadora acerca de seus pares, jamais os tratando como correligionários, ou seja, jamais acatando seus erros, ao mesmo tempo em que sempre evocando as instâncias positivas do Surrealismo.

 

® SOU UM TIPO QUE FAZ COISAS | Museu da Presidência da República, 2016 – 200 páginas – 16 cm x 22,2 cm.

 

Catálogo de exposição na qual se encontram reunidos cadernos, assemblages, pinturas, objetos, desenhos, obras coletivas, colagens. Embora o artista a tenha chamado de uma exposição possível, é bem verdade tratar-se de uma das mais vultosas mostras de sua arte, à qual eu teria acrescentado alguns vídeos com o próprio Cruzeiro Seixas lendo seus poemas, em especial pelo fato de que escrita e plástica nele não se separam em circunstância alguma. Imagem poética e imagem plástica, no que pese o turbilhão de desconexões e más compreensões a respeito de suas relações possível, em CS ambas encontram um tratamento cúmplice, sem, no entanto, desconhecer os elementos constitutivos de cada linguagem.

Assim como a mostra, o livro-catálogo é também primorosa produção. Além de reprodução parcial do conteúdo da exposição, o volume traz uma série de estudos que tratam de modo esclarecedor e abrangente das várias atuações de Cruzeiro Seixas ao longo da vida, seja a própria criação – por si só multifacetada, desdobrada em inúmeras técnicas –, assim como a hábil percepção que o tornou regente invejável de objetos encontrados, e também sua presença como produtor cultural, neste caso curando exposições de vários outros artistas.

Gostaria de reproduzir trecho do prefácio que escrevi para Homenagem à realidade, livro publicado em 2005 e em que reúno uma significativa mostra de poemas, desaforismos e desenhos de Cruzeiro Seixas. Digo ali que nos encontramos com Este grande poeta do maravilhoso, que soube tocar provocativamente os abismos mais suspeitos e desejáveis de nossa existência, é um possuidor possuído de tal riqueza de imagens que apenas nos convida a nos entregarmos a elas, que esqueçamos tudo, toda a demarcação de costumes, e percebamos por fim a magia que podemos sacar de nós mesmos, esta realidade nua que enganosamente vemos demasiado vestida, e que se mostra em seu traje de ação na poética de Cruzeiro Seixas, instância em que mistério e erotismo se apresentam invariavelmente conjugados e em cujo mergulho na solidão é de ordem ascética.


Posteriormente à publicação deste livro novamente tive honra e oportunidade de organizar e editar um novo volume dedicado a Cruzeiro Seixas, Confissões de um espelho (2016), então pautado pela reunião de dezenas de cartas que me foram enviadas pelo artista entre 2003 e 2015. O livro inclui ainda poemas, desenhos, e uma recolha de ensaios, da pena de importantes estudiosos, tais como Ernesto Sampaio e Sarane Alexandrian, que bem situam a grandeza de sua obra. Concluo o presente artigo reproduzindo um trecho de meu estudo introdutório:

 

Disse certa vez o poeta: O Surrealismo continua a ser, para mim, a mais segura prova de que as mãos do homem o podem manter, suspenso, sobre o precipício. Tudo o que o homem cria está ali, no centro nervoso de sua mãe, na magia mecânica de quem consegue imprimir movimento à matéria bruta. É isto o que sempre fizeram os artistas: graças a eles os corpos se movem. Dão dinâmica à vida. Uma animação que se distingue pelo fato de que traz consigo a alma da criação. Uma identidade buscada na diferença e não em um selo fabril. A arte não mora perto ou longe do homem. A arte é o próprio homem. E o homem que se chama Cruzeiro Seixas, afeito à dúvida como uma razão de ser, indaga por que tantas razões explicam o homem e nenhuma resolve seus males.

 

 


FLORIANO MARTINS (Brasil, 1957). Poeta, editor, dramaturgo, ensaísta, artista plástico e tradutor. Criou em 1999 a Agulha Revista de Cultura. Coordenou (2005-2010) a coleção “Ponte Velha” de autores portugueses da Escrituras Editora (São Paulo). Curador do projeto “Atlas Lírico da América Hispânica”, da revista Acrobata. Esteve presente em festivais de poesia realizados em países como Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, El Salvador, Equador, Espanha, México, Nicarágua, Panamá, Portugal e Venezuela. Curador da Bienal Internacional do Livro do Ceará (Brasil, 2008), e membro do júri do Prêmio Casa das Américas (Cuba, 2009), foi professor convidado da Universidade de Cincinnati (Ohio, Estados Unidos, 2010). Tradutor de livros de César Moro, Federico García Lorca, Guillermo Cabrera Infante, Vicente Huidobro, Joaquín Pasos, Hans Arp, Juan Calzadilla, Enrique Molina, Jorge Luis Borges, Aldo Pellegrini e Pablo Antonio Cuadra. Entre seus livros mais recentes se destacam Un poco más de surrealismo no hará ningún daño a la realidad (ensaio, México, 2015), O iluminismo é uma baleia (teatro, Brasil, em parceria com Zuca Sardan, 2016), Antes que a árvore se feche (poesia completa, Brasil, 2020), Naufrágios do tempo (novela, com Berta Lucía Estrada, 2020), Las mujeres desaparecidas (poesia, Chile, 2022) e Sombras no jardim (prosa poética, Brasil, 2023).




ARIADNA PINEDA (México, 1980). Estudió la Licenciatura en Artes Visuales en la Facultad de Bellas Artes de la UMSNH, así como Diseño de moda en Instituto INMODART en la ciudad de Morelia, Michoacán. Su experiencia profesional se ha forjado creando pintura, escenografía teatral, diseño de vestuario teatral y dancístico, escultura, fotografía, ilustración y muralismo. Sus exposiciones individuales han girado la mayoría en torno al arte con técnicas experimentales realizando obras arte háptico-senso-perceptual para personas con discapacidad visual, otras exposiciones de arte fumage y pintura al óleo, todas con su particular estilo surrealista. A la fecha son 13 sus exposiciones individuales desde el 2011. Participa en exposiciones colectivas desde 1996 dando un total de 38 colectivos. Algunas de sus obras se encuentran en Italia, Canadá, EU, en manos de coleccionistas privados. Ariadna en su creación encontró un nuevo camino con precedencia a partir de años de exploración, experimentación y especialización en la pintura al óleo y el arte fumage, encontrando su propio lenguaje, hoy busca dar a conocer con luz propia su obra surrealista más reciente para tomar con mayor fuerza los caminos de la creación. Ariadna Pineda es la artista invitada de esta edición especial de Agulha Revista de Cultura.

 


Agulha Revista de Cultura

CODINOME ABRAXAS # 06 – ATHENA (PORTUGAL)

Artista convidada: Ariadna Pineda (México, 1980)

Editores:

Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com

Elys Regina Zils | elysre@gmail.com

ARC Edições © 2025




∞ contatos

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FLORIANO MARTINS | floriano.agulha@gmail.com

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