sábado, 19 de setembro de 2026

ELYS ZILS | Escrita, delírio e imaginação radical, na poesia de Verónica Cabanillas

 


Escrita originalmente em espanhol, a obra de Verónica Cabanillas chega agora ao português do Brasil em tradução de Elys Zils, publicada pela Mamaquilla Editora, projeto editorial independente. Escritos entre os dezenove e os vinte e dois anos da autora, os textos de Teoria da Evolução (ou os abismos do futuro) pertencem a um período marcado pela experiência da psicose e revelam uma escrita em permanente estado de elaboração. A linguagem torna-se matéria de investigação poética, filosófica e estética, submetendo a subjetividade, as formas socialmente estabelecidas da razão e aquilo que convencionamos chamar realidade a um contínuo exercício de interrogação.

A presença explícita da psicose poderia conduzir a uma leitura predominantemente biográfica ou clínica. Essa perspectiva, contudo, alcançaria apenas uma dimensão da obra. A experiência psíquica participa aqui da constituição de uma percepção que desloca categorias ordinárias do pensamento e reorganiza as relações entre corpo, mundo e linguagem. A loucura surge como ferida e ruptura, ao mesmo tempo que adquire uma inquietante capacidade crítica: sob seu signo, a normalidade também passa a exigir explicações.

É nesse ponto que a escrita de Cabanillas estabelece um diálogo fértil com o surrealismo. A associação livre, a imagem inesperada, as aproximações entre realidades aparentemente inconciliáveis e a desestabilização da causalidade racional encontram ressonância ao longo de todo o livro. Antonin Artaud, Lautréamont e Vincent van Gogh surgem como interlocutores de uma constelação artística e intelectual na qual criação, sofrimento e dissidência se aproximam perigosamente. A presença de Artaud é particularmente significativa. Sua recusa das separações pacificadoras entre arte e vida encontra eco numa escrita que submete o pensamento à intensidade da experiência.

O automatismo surrealista também deixa suas marcas na velocidade das associações, nas rupturas sintáticas, nas repetições e nas mudanças súbitas de direção. Em Cabanillas, porém, esses procedimentos pertencem a outro tempo histórico. A experiência da autora incorpora o vocabulário da psiquiatria, os medicamentos, o diagnóstico e as formas contemporâneas de controle e exclusão. O encontro entre essas dimensões produz uma tensão decisiva: a linguagem reivindica liberdade justamente quando o sujeito se percebe submetido aos discursos que procuram defini-lo.


A recorrência de imagens cósmicas constitui um dos movimentos mais expressivos dessa poética e ampliam continuamente a escala do pensamento. Diante da estreiteza atribuída às convenções sociais, o cosmos oferece uma medida desmesurada. Também o futuro adquire uma presença insistente. Seus abismos contêm temor e possibilidade, destruição e nascimento. A história, por sua vez, é submetida à suspeita sempre que se converte em autoridade, nostalgia ou justificativa para a permanência das formas herdadas. O pensamento da autora se projeta para aquilo que ainda pode existir.

Essa pulsão de futuro sustenta uma crítica contundente às estruturas sociais, aos discursos religiosos e aos modelos normativos de subjetividade. A sociedade aparece repetidamente sob imagens de máquinas, bloqueios, cárceres e mecanismos de repressão. A reflexão sobre a esquizofrenia torna esse conflito especialmente agudo. Cabanillas conhece o sofrimento implicado na doença e escreve a partir dele; conhece também a violência produzida pelo estigma e pelas formas sociais de redução do sujeito ao diagnóstico. Sua escrita mantém abertas essas tensões, recusando a comodidade de uma síntese.

A arte ocupa uma posição decisiva nesse embate. Pintar, escrever e criar constituem modos de pensar e de produzir conhecimento. A criação modifica a percepção e permite imaginar outras configurações da existência. Por isso, a ideia de “evolução” anunciada no título adquire gradualmente um sentido próprio. Evoluir implica movimento, transformação, abandono de formas cristalizadas e enfrentamento dos limites impostos ao pensamento. Há nessa concepção algo de profundamente utópico, embora sua utopia permaneça inquieta: o futuro é desejado justamente porque ainda conserva sua condição desconhecida.

A própria forma do livro participa desse projeto. Sua escrita vacila, acelera, retorna, contradiz-se, interrompe encadeamentos e produz imagens cuja inteligibilidade nem sempre se oferece de imediato. Tais movimentos constituem parte de sua poética. Procurar estabilizá-los significaria perder algo fundamental da experiência de leitura. O texto exige que se aceite certa desorientação e que se reconheça na estranheza uma possibilidade de sentido.

Talvez seja essa uma das questões mais perturbadoras lançadas por Teoria da Evolução: quem determina os limites do inteligível? Ao interrogar a loucura, Cabanillas termina por colocar a própria normalidade sob exame. Ao falar de criação, interroga as condições que autorizam certas formas de expressão e silenciam outras. Ao imaginar o futuro, confronta um presente que frequentemente se apresenta como inevitável.

As perguntas permanecem abertas. O que chamamos de realidade? Quem estabelece os critérios de uma mente saudável? Em que ponto uma visão passa a ser reconhecida como delírio? O que uma sociedade identifica como erro, excesso ou desvio — e que formas de poder sustentam essas classificações?

Ao final da leitura, permanece uma escrita difícil de pacificar. Há sofrimento, desmesura, contradição, humor, violência e uma confiança obstinada na capacidade criadora do ser humano. Verónica Cabanillas transforma os abismos anunciados no título em lugares de pensamento. É justamente diante deles que sua obra pergunta o que ainda podemos imaginar, criar e transformar.




ELYS ZILS (Brasil). Poeta, artista visual, tradutora e editora. Publicou os livros de poemas Fragmentos de silêncio (2024) e a língua aprende a morder (2026). É fundadora da Editora MamaQuilla, dedicada à publicação de literatura latino-americana, e editora da Agulha Revista de Cultura.







PATRICK LEPETIT (França, 1953). Poeta, ensaísta, colagista e pesquisador ligado à rede acadêmica internacional Mélusine. Com forte atuação no Surrealismo contemporâneo, sua produção intelectual e artística investiga as correntes subterrâneas do movimento, mapeando os pontos de contato entre a criação estética, os mitos tradicionais, o hermetismo e as tradições esotéricas. É autor de diversas coletâneas de poesia (como Rouge solaire e Beauté du funambule) e de ensaios fundamentais, entre os quais Le Surréalisme. Parcours souterrain obra laureada pelo Institut Maçonnique de France —, Surrealism and Operative Alchemy e La tête d’Ogmius. Surréalisme et mythes celtiques. Na vertente plástica, expande esse mesmo lirismo hermético para o campo das colagens e composições oníricas, projetando imagens ocultas do horizonte de nosso tempo. É o artista convidado da presente edição de Agulha Revista de Cultura.

  



Agulha Revista de Cultura

Número 266 | setembro de 2026

Artista convidado: Patrick Lepetit (França, 1953)

Editores:

Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com

Elys Regina Zils | elysre@gmail.com

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