A presença
explícita da psicose poderia conduzir a uma leitura predominantemente biográfica
ou clínica. Essa perspectiva, contudo, alcançaria apenas uma dimensão da obra. A
experiência psíquica participa aqui da constituição de uma percepção que desloca
categorias ordinárias do pensamento e reorganiza as relações entre corpo, mundo
e linguagem. A loucura surge como ferida e ruptura, ao mesmo tempo que adquire uma
inquietante capacidade crítica: sob seu signo, a normalidade também passa a exigir
explicações.
É nesse
ponto que a escrita de Cabanillas estabelece um diálogo fértil com o surrealismo.
A associação livre, a imagem inesperada, as aproximações entre realidades aparentemente
inconciliáveis e a desestabilização da causalidade racional encontram ressonância
ao longo de todo o livro. Antonin Artaud, Lautréamont e Vincent van Gogh surgem
como interlocutores de uma constelação artística e intelectual na qual criação,
sofrimento e dissidência se aproximam perigosamente. A presença de Artaud é particularmente
significativa. Sua recusa das separações pacificadoras entre arte e vida encontra
eco numa escrita que submete o pensamento à intensidade da experiência.
O automatismo
surrealista também deixa suas marcas na velocidade das associações, nas rupturas
sintáticas, nas repetições e nas mudanças súbitas de direção. Em Cabanillas, porém,
esses procedimentos pertencem a outro tempo histórico. A experiência da autora incorpora
o vocabulário da psiquiatria, os medicamentos, o diagnóstico e as formas contemporâneas
de controle e exclusão. O encontro entre essas dimensões produz uma tensão decisiva:
a linguagem reivindica liberdade justamente quando o sujeito se percebe submetido
aos discursos que procuram defini-lo.
Essa
pulsão de futuro sustenta uma crítica contundente às estruturas sociais, aos discursos
religiosos e aos modelos normativos de subjetividade. A sociedade aparece repetidamente
sob imagens de máquinas, bloqueios, cárceres e mecanismos de repressão. A reflexão
sobre a esquizofrenia torna esse conflito especialmente agudo. Cabanillas conhece
o sofrimento implicado na doença e escreve a partir dele; conhece também a violência
produzida pelo estigma e pelas formas sociais de redução do sujeito ao diagnóstico.
Sua escrita mantém abertas essas tensões, recusando a comodidade de uma síntese.
A arte
ocupa uma posição decisiva nesse embate. Pintar, escrever e criar constituem modos
de pensar e de produzir conhecimento. A criação modifica a percepção e permite imaginar
outras configurações da existência. Por isso, a ideia de “evolução” anunciada no
título adquire gradualmente um sentido próprio. Evoluir implica movimento, transformação,
abandono de formas cristalizadas e enfrentamento dos limites impostos ao pensamento.
Há nessa concepção algo de profundamente utópico, embora sua utopia permaneça inquieta:
o futuro é desejado justamente porque ainda conserva sua condição desconhecida.
A própria
forma do livro participa desse projeto. Sua escrita vacila, acelera, retorna, contradiz-se,
interrompe encadeamentos e produz imagens cuja inteligibilidade nem sempre se oferece
de imediato. Tais movimentos constituem parte de sua poética. Procurar estabilizá-los
significaria perder algo fundamental da experiência de leitura. O texto exige que
se aceite certa desorientação e que se reconheça na estranheza uma possibilidade
de sentido.
Talvez
seja essa uma das questões mais perturbadoras lançadas por Teoria da Evolução: quem determina os limites do inteligível? Ao interrogar
a loucura, Cabanillas termina por colocar a própria normalidade sob exame. Ao falar
de criação, interroga as condições que autorizam certas formas de expressão e silenciam
outras. Ao imaginar o futuro, confronta um presente que frequentemente se apresenta
como inevitável.
As perguntas
permanecem abertas. O que chamamos de realidade? Quem estabelece os critérios de
uma mente saudável? Em que ponto uma visão passa a ser reconhecida como delírio?
O que uma sociedade identifica como erro, excesso ou desvio — e que formas de poder
sustentam essas classificações?
Ao final
da leitura, permanece uma escrita difícil de pacificar. Há sofrimento, desmesura,
contradição, humor, violência e uma confiança obstinada na capacidade criadora do
ser humano. Verónica Cabanillas transforma os abismos anunciados no título em lugares
de pensamento. É justamente diante deles que sua obra pergunta o que ainda podemos
imaginar, criar e transformar.
ELYS ZILS (Brasil). Poeta, artista visual, tradutora e editora. Publicou os livros de poemas Fragmentos de silêncio (2024) e a língua aprende a morder (2026). É fundadora da Editora MamaQuilla, dedicada à publicação de literatura latino-americana, e editora da Agulha Revista de Cultura.
PATRICK LEPETIT (França, 1953). Poeta, ensaísta, colagista e pesquisador ligado à rede acadêmica internacional Mélusine. Com forte atuação no Surrealismo contemporâneo, sua produção intelectual e artística investiga as correntes subterrâneas do movimento, mapeando os pontos de contato entre a criação estética, os mitos tradicionais, o hermetismo e as tradições esotéricas. É autor de diversas coletâneas de poesia (como Rouge solaire e Beauté du funambule) e de ensaios fundamentais, entre os quais Le Surréalisme. Parcours souterrain — obra laureada pelo Institut Maçonnique de France —, Surrealism and Operative Alchemy e La tête d’Ogmius. Surréalisme et mythes celtiques. Na vertente plástica, expande esse mesmo lirismo hermético para o campo das colagens e composições oníricas, projetando imagens ocultas do horizonte de nosso tempo. É o artista convidado da presente edição de Agulha Revista de Cultura.
Agulha Revista de Cultura
Número 266 | setembro de 2026
Artista convidado: Patrick Lepetit (França, 1953)
Editores:
Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com
Elys Regina Zils | elysre@gmail.com
ARC Edições © 2026
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