sábado, 19 de setembro de 2026

JANUÁRIO SACAVENTO | Tu corazón es un bombo / Il tuo cuore è una grancassa, de Alessio Brandolini

 


A publicação de Tu corazón es un bombo pela renomada editora Vaso Roto destaca-se, imediatamente, pelo cuidado formal e pelo rigor de sua proposta bilíngue. A edição estabelece um diálogo geográfico e cultural riquíssimo: a obra original foi publicada em Milão (2022) e, ao ganhar esta versão em 2025, unifica as esferas literárias da Espanha, do México e da Itália.

A tradução, assinada por Jeannette L. Clariond, realiza um trabalho cirúrgico. Clariond consegue transpor a secura melódica e o ritmo por vezes fragmentado do italiano de Brandolini para um espanhol fluído, sem perder a crueza ou o mistério que habitam os versos originais. O design de página espelhada permite ao leitor fluir entre as duas línguas, transformando o ato de leitura em uma experiência de contraponto musical.

O prólogo, escrito por Francesco Tarquini sob o título Desde el lado de la sombra, é uma peça fundamental para abrir as portas do universo do autor. Tarquini não faz apenas uma apresentação biográfica; ele decodifica a estrutura interna do livro, identificando com precisão o motor central da obra: a memória como ferramenta de conhecimento diante da inevitabilidade da morte. Guiada pela epígrafe de Joseph Brodsky (¿Qué sentido tiene el olvido / si después viene la muerte?), Tarquini demonstra como o livro se organiza de forma compacta e musical em quatro tempos (as quatro seções da obra). Ele também ilumina as principais obsessões do poeta: a introjeção da figura paterna e o luto; a forte ligação com as raízes camponesas e a terra natal (Monte Compatri); e a natureza ambivalente da memória, que funciona tanto como um refúgio de afeto quanto como uma jaula do passado.

A poesia de Alessio Brandolini nesta obra afasta-se de sentimentalismos fáceis. Trata-se de uma lírica densa, marcada por um falar duvidoso e perplexo diante do mundo. O título do livro, extraído de um poema de Jorge Eduardo Eielson, carrega uma ironia dolorosa: o coração que bate como um bumbo é a própria voz do poeta insistindo em ressoar, um pulso obstinado que atravessa o silêncio.


O livro divide-se em quatro partes nítidas que mostram o amadurecimento dessa jornada interior: Diário da cinza, O lado escuro da pureza, Caminho dentro de mim, e Teu coração é um bumbo. A primeira, escrita sob o peso do confinamento de abril de 2020 em Roma, funciona como um diário espiritual diário. Versos como Escribo un diario para no desmayar / y desaparecer revelam a escrita como um ato de sobrevivência contra a dissolução do presente. Na segunda parte, sob o influxo dantesco, o poeta investiga o luto. A ausência dos pais, a dor física do palato ferido e a ansiedade ganham contornos nítidos. O poema “El humo de los bosques” dedicado à mãe, e as evocações ao pai enterrado com sua gravata marrom, são de um lirismo pungente, onde o abraço aos pais se desfaz como fumaça. Logo vem a terceira parte, inspirada por Ana Blandiana, onde o poeta explora o próprio corpo e mente como uma cidade estrangeira. A paisagem de Roma (o rio Tíber, o Gianicolo) funde-se com visões quase surreais de traumas coletivos (como os cemitérios militares de Montecassino). Por último, a seção final adota uma estrutura em prosa poética mais contínua, porém hermética. É aqui que os fragmentos se unem. Apesar do peso do passado, o livro encerra-se com uma busca ativa pela luz: a poesia aceita as suas próprias fendas escuras porque sabe que nelas reside o esplendor das estrelas.

Cabe fazer algumas observações sobre as epígrafes utilizadas por Alessio Brandolini. Em geral, a epígrafe, antes de ser um tributo cego à totalidade da obra de um autor, funciona como uma chave de fenda textual: ela isola um fragmento e o ressignifica para abrir o poema que vem a seguir. Trata-se de afinidade com o texto citado — uma consonância de frequências poéticas no exato momento daquela enunciação. Em Tu corazón es un bombo, as epígrafes atuam quase como um conselho de espíritos guardiães, estabelecendo o tom metafísico, o cenário físico ou a rota psicológica de cada uma das quatro divisões do livro. Quero observar três delas: What’s the point of forgetting / if it’s followed by dying?, de Joseph Brodsky, verso que estabelece a tese filosófica que ancora o livro inteiro. Para Brandolini, o esquecimento não é uma bênção que alivia a dor, mas uma capitulação precoce diante do nada. Já que a morte é inevitável, a memória — por mais dolorosa e estilhaçada que seja — torna-se o único ato de resistência cognitiva viável. A outra epígrafe é de Dante Alighieri: Il lato oscuro della purezza. Este é o último verso do Purgatório. Após atravessar os círculos de sofrimento e expiação, a alma está finalmente limpa e pronta para a ascensão. Brandolini utiliza esse vetor de purgação, mas inverte o sinal: para ele, a pureza tem um lado escuro. A purgação dele não é teológica, é o luto terreno. Os poemas desta seção lidam com a morte da mãe e do pai. A afinidade com o texto de Dante reside na estrutura ascensional e na imagem das estrelas como guias que aparecem em momentos de desespero. No poema “El olvido que nos separa”, ele escreve que a poesia deve ser fiel às fendas escuras para deixar um espaço ao esplendor das estrelas. Para ver a estrela dantesca, Brandolini precisa primeiro aceitar a escuridão do luto. A terceira epígrafe é a que dá título ao livro, do poeta peruano Jorge Eduardo Eielson, Tu corazón es um bombo, que traz a imagem do corpo físico que se expande de forma estrondosa através do som. Como bem notou Tarquini no prefácio, há uma enorme ironia aqui. Brandolini usa o texto de Eielson para justificar o ritmo obsessivo e prosódico da última parte do livro. O batimento do bumbo é a própria insistência da poesia em continuar falando, mesmo quando o mundo ao redor desmorona. Em suma, as epígrafes do livro funcionam como espelhos retrovisores: Brandolini olha para esses textos do passado não para imitá-los, mas para calibrar a distância e a velocidade de sua própria viagem em direção ao presente.

Tu corazón es un bombo é uma obra-prima sobre a perda, a persistência da memória e a reconstrução do sujeito por meio da palavra. Graças à edição cuidadosa da Vaso Roto e à sensibilidade da tradução, o público hispânico (e os leitores que se aproximam da obra) tem acesso a um dos momentos mais maduros e refinados da poesia italiana contemporânea. É um livro que exige lentidão, feito para ser escutado com a mesma atenção com que se ouve o eco de um tambor na noite.



JANUÁRIO SACAVENTO (Antares, 1959) é cronista anfíbio, patafísico de fim de semana e ex-aluno emérito do Lyceo Pytanga, onde obteve grau dez na nobre arte da cola criativa. Dedicou as últimas décadas a catalogar manuais cosmográficos invisíveis e a decifrar profecias de sineiros corcundas. Paira sobre ele a acusação de haver contrabandeado um manuscrito inédito do Conde Lotrak direto para os porões do Vapor Velox. Sacavento, no entanto, é um sobrevivente de três naufrágios tipográficos e colecionador de fitas K-7 borradas, atualmente exercendo o cargo fictício de diretor de resenhas do Boggo del Pallone.



PATRICK LEPETIT (França, 1953). Poeta, ensaísta, colagista e pesquisador ligado à rede acadêmica internacional Mélusine. Com forte atuação no Surrealismo contemporâneo, sua produção intelectual e artística investiga as correntes subterrâneas do movimento, mapeando os pontos de contato entre a criação estética, os mitos tradicionais, o hermetismo e as tradições esotéricas. É autor de diversas coletâneas de poesia (como Rouge solaire e Beauté du funambule) e de ensaios fundamentais, entre os quais Le Surréalisme. Parcours souterrain — obra laureada pelo Institut Maçonnique de France —, Surrealism and Operative Alchemy e La tête d’Ogmius. Surréalisme et mythes celtiques. Na vertente plástica, expande esse mesmo lirismo hermético para o campo das colagens e composições oníricas, projetando imagens ocultas do horizonte de nosso tempo. É o artista convidado da presente edição de Agulha Revista de Cultura.

  



Agulha Revista de Cultura

Número 266 | setembro de 2026

Artista convidado: Patrick Lepetit (França, 1953)

Editores:

Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com

Elys Regina Zils | elysre@gmail.com

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