A tradução, assinada por Jeannette L. Clariond, realiza
um trabalho cirúrgico. Clariond consegue transpor a secura melódica e o ritmo por
vezes fragmentado do italiano de Brandolini para um espanhol fluído, sem perder
a crueza ou o mistério que habitam os versos originais. O design de página espelhada
permite ao leitor fluir entre as duas línguas, transformando o ato de leitura em
uma experiência de contraponto musical.
O prólogo, escrito por Francesco Tarquini sob o título
Desde el lado de la sombra, é uma peça fundamental para abrir as portas do
universo do autor. Tarquini não faz apenas uma apresentação biográfica; ele decodifica
a estrutura interna do livro, identificando com precisão o motor central da obra:
a memória como ferramenta de conhecimento diante da inevitabilidade da morte. Guiada
pela epígrafe de Joseph Brodsky (¿Qué sentido tiene el olvido / si después viene
la muerte?), Tarquini demonstra como o livro se organiza de forma compacta e
musical em quatro tempos (as quatro seções da obra). Ele também ilumina as principais
obsessões do poeta: a introjeção da figura paterna e o luto; a forte ligação com
as raízes camponesas e a terra natal (Monte Compatri); e a natureza ambivalente
da memória, que funciona tanto como um refúgio de afeto quanto como uma jaula do
passado.
A poesia de Alessio Brandolini nesta obra afasta-se
de sentimentalismos fáceis. Trata-se de uma lírica densa, marcada por um falar
duvidoso e perplexo diante do mundo. O título do livro, extraído de um poema
de Jorge Eduardo Eielson, carrega uma ironia dolorosa: o coração que bate como um
bumbo é a própria voz do poeta insistindo em ressoar, um pulso obstinado que atravessa
o silêncio.
Cabe fazer algumas observações sobre as epígrafes utilizadas
por Alessio Brandolini. Em geral, a epígrafe, antes de ser um tributo cego à totalidade
da obra de um autor, funciona como uma chave de fenda textual: ela isola um fragmento
e o ressignifica para abrir o poema que vem a seguir. Trata-se de afinidade com
o texto citado — uma consonância de frequências poéticas no exato momento daquela
enunciação. Em Tu corazón es un bombo, as epígrafes atuam quase como um conselho
de espíritos guardiães, estabelecendo o tom metafísico, o cenário físico ou a rota
psicológica de cada uma das quatro divisões do livro. Quero observar três delas:
What’s the point of forgetting / if it’s followed by dying?, de Joseph Brodsky,
verso que estabelece a tese filosófica que ancora o livro inteiro. Para Brandolini,
o esquecimento não é uma bênção que alivia a dor, mas uma capitulação precoce diante
do nada. Já que a morte é inevitável, a memória — por mais dolorosa e estilhaçada
que seja — torna-se o único ato de resistência cognitiva viável. A outra epígrafe é de Dante
Alighieri: Il lato oscuro della purezza. Este é
o último verso do Purgatório. Após atravessar os círculos de sofrimento e
expiação, a alma está finalmente limpa e pronta para a ascensão. Brandolini utiliza
esse vetor de purgação, mas inverte o sinal: para ele, a pureza tem um lado
escuro. A purgação dele não é teológica, é o luto terreno. Os poemas desta seção
lidam com a morte da mãe e do pai. A afinidade com o texto de Dante reside na estrutura
ascensional e na imagem das estrelas como guias que aparecem em momentos de desespero.
No poema “El olvido que nos separa”, ele escreve que a poesia deve ser fiel às fendas
escuras para deixar um espaço ao esplendor das estrelas. Para ver a estrela
dantesca, Brandolini precisa primeiro aceitar a escuridão do luto. A terceira epígrafe
é a que dá título ao livro, do poeta peruano Jorge Eduardo Eielson, Tu corazón
es um bombo, que traz a imagem do corpo físico que se expande de forma estrondosa
através do som. Como bem notou Tarquini no prefácio, há uma enorme ironia aqui.
Brandolini usa o texto de Eielson para justificar o ritmo obsessivo e prosódico
da última parte do livro. O batimento do bumbo é a própria insistência da poesia
em continuar falando, mesmo quando o mundo ao redor desmorona. Em suma, as epígrafes
do livro funcionam como espelhos retrovisores: Brandolini olha para esses textos
do passado não para imitá-los, mas para calibrar a distância e a velocidade de sua
própria viagem em direção ao presente.
Tu corazón es un bombo é uma obra-prima sobre a perda, a persistência da memória
e a reconstrução do sujeito por meio da palavra. Graças à edição cuidadosa da Vaso
Roto e à sensibilidade da tradução, o público hispânico (e os leitores que se aproximam
da obra) tem acesso a um dos momentos mais maduros e refinados da poesia italiana
contemporânea. É um livro que exige lentidão, feito para ser escutado com a mesma
atenção com que se ouve o eco de um tambor na noite.
JANUÁRIO SACAVENTO (Antares, 1959) é cronista anfíbio, patafísico de fim de semana e ex-aluno emérito do Lyceo Pytanga, onde obteve grau dez na nobre arte da cola criativa. Dedicou as últimas décadas a catalogar manuais cosmográficos invisíveis e a decifrar profecias de sineiros corcundas. Paira sobre ele a acusação de haver contrabandeado um manuscrito inédito do Conde Lotrak direto para os porões do Vapor Velox. Sacavento, no entanto, é um sobrevivente de três naufrágios tipográficos e colecionador de fitas K-7 borradas, atualmente exercendo o cargo fictício de diretor de resenhas do Boggo del Pallone.
PATRICK LEPETIT (França, 1953). Poeta, ensaísta, colagista e pesquisador ligado à rede acadêmica internacional Mélusine. Com forte atuação no Surrealismo contemporâneo, sua produção intelectual e artística investiga as correntes subterrâneas do movimento, mapeando os pontos de contato entre a criação estética, os mitos tradicionais, o hermetismo e as tradições esotéricas. É autor de diversas coletâneas de poesia (como Rouge solaire e Beauté du funambule) e de ensaios fundamentais, entre os quais Le Surréalisme. Parcours souterrain — obra laureada pelo Institut Maçonnique de France —, Surrealism and Operative Alchemy e La tête d’Ogmius. Surréalisme et mythes celtiques. Na vertente plástica, expande esse mesmo lirismo hermético para o campo das colagens e composições oníricas, projetando imagens ocultas do horizonte de nosso tempo. É o artista convidado da presente edição de Agulha Revista de Cultura.
Agulha Revista de Cultura
Número 266 | setembro de 2026
Artista convidado: Patrick Lepetit (França, 1953)
Editores:
Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com
Elys Regina Zils | elysre@gmail.com
ARC Edições © 2026
∞ contatos
https://www.instagram.com/agulharevistadecultura/
http://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/
FLORIANO MARTINS | floriano.agulha@gmail.com
ELYS REGINA ZILS | elysre@gmail.com








Nenhum comentário:
Postar um comentário