sábado, 19 de setembro de 2026

THIAGO COSTA | Entrevistas de bolso: Marta Cocco, Lupita Amorim e Wuldson Marcelo

 


 1 MARTA COCCO E AS LABUTAS LITERÁRIAS

Nascida em Pinhal Grande (RS), Marta Helena Cocco veio para Mato Grosso (e ficou) em 1992. Escreve bastante e em gêneros variados, além de ser professora de literatura na Unemat. Integra a Academia Mato-grossense de Letras. Particularmente, acredito que num futuro próximo passará a escrever mais, pois vai se aposentar como professora. Tomara. Para abrir as Entrevistas de Bolso em 2025, ei-la no tyrannus novamente. Confira a conversação dela com o parceiro do site, Thiago Costa, o sujeito que anda com os bolsos cheios de entrevistas

 

TC | Você é autora de quase duas dezenas de publicações, entre contos, poemas, novela, literatura infantil, estudos acadêmicos. E por seu trabalho, coleciona premiações. Do que trata a sua obra, sobre o que você escreve?

 

MC | Ainda não fechei duas dezenas, mas estou quase. Olhando para o conjunto e pensando numa síntese, acho que quando escrevo para pessoas adultas, os temas que mais aparecem estão relacionados ao nosso modo de vida neste mundo ocidental, interceptado pelos eixos do capitalismo e do cristianismo. A injustiça, a contradição, a dor, as pressões diárias para a sobrevivência, além do amor e da paixão pelas palavras, são os temas que me movem. Quando escrevo para crianças, penso sempre na magia que deveria ser a infância (porque infelizmente não é para todas as crianças): uma fase de aprendizagem que teria de ser leve, com uma construção adequada da confiança e da autoestima, valorização da brincadeira, da curiosidade, da criatividade. A infância é a fase da descoberta do mundo e das linguagens e devem receber o que pudermos fazer de melhor para estimular o potencial que as crianças têm.

 

TC | Como você escreve: existe método ou é pura inspiração?

 

MC | Não tenho método. É sempre quando algo me inspira, me motiva e, depois, vem a revisão. Aí entra o conhecimento da língua, da literatura e senso estético. Até agora, minha dedicação maior foi ao ofício de professora. Espero que essa equação se inverta assim que eu me aposentar. Mas, com certeza, há uma simbiose entre as duas instâncias [de poeta e de docente]. Aprendi muito lecionando literatura e língua portuguesa e isso tem se refletido no amadurecimento da minha escrita, que é um processo, nunca está pronto.

 

TC | Você tem uma longa carreira. O que ainda espera da literatura? Existem expectativas que não foram satisfeitas enquanto escritora?

 

MC | Os prêmios até agora foram regionais. Eu tive uma seleção, não um prêmio, em âmbito nacional, num PNLD literário. Eu gostaria de alcançar um prêmio mais abrangente, porque isso ajuda muito no estímulo à criação, talvez abra portas, possibilite contatos, etc. Não sei, imagino que seja assim. Eu já escrevi contos, poemas, literatura infantil e uma novela. Falta um romance. Mas, não me cobro. Se sair, ótimo, e que seja significativo para os leitores. Eu tive a dádiva de ler coisas que foram fundamentais em alguns momentos da minha vida, me ajudaram a compreender certos acontecimentos, a ampliar minha visão de mundo na esfera política, social, cultural, enfim, humana. Tem gente que diz que literatura não salva ninguém. Realmente ela não tem essa pretensão, nem essa responsabilidade absoluta. Mas, às vezes, acontece de uma obra fazer a diferença em determinados momentos. Aconteceu comigo.

 

TC | Afinal, por que você escreve?

 

MC | Escrevo porque preciso, é uma demanda orgânica, mental, espiritual. E quando publico, é para repartir, é uma busca de diálogo, de interlocução, de desejo de expor alguma ideia, alguma dúvida, alguma inquietação. Quando mais jovem, era mais por vaidade. Aquela coisa de mostrar mesmo. Com o tempo, isso vai dando lugar a outras questões mais emergentes, como a de deixar um legado, a de registrar para as gerações futuras uma visão de mundo que nunca é absolutamente individual, é construída no convívio social, portanto, reflete também uma vivência coletiva.

 

TC | Em sua trajetória, quais as experiências, as obras e os/as autores/as que você compreende como mais relevantes, aqueles/as que a fizeram querer escrever e que eventualmente ainda revisita?

 

MC | Creio que tudo tenha sido positivo. As frustrações com algumas publicações, as críticas desfavoráveis para os primeiros escritos, tudo nos ajuda a buscar um aprimoramento. De positivo, nas leituras que considero relevantes, foi sem dúvida a possibilidade de compreender, por meio de personagens e eu líricos/as, acontecimentos e reflexões filosóficas, em suma, compreender as experiências humanas com mais profundidade e tirar disso algum proveito. Tenho dificuldade em destacar leituras preferidas, é muita coisa, no Brasil, em Portugal, em outros países, na África portuguesa e algumas traduções da América Latina e da Europa. Vou tentar citar alguns clássicos da prosa que me marcaram bastante: Genoveva de Brabante, Meu pé de Laranja Lima, Dom Quixote, O evangelho segundo Jesus Cristo, Grande sertão: veredas. E, na categoria não ficção, As veias abertas da América Latina. No gênero conto, citarei autores em vez de obras: gosto muito de Mia Couto, Clarice Lispector, Machado de Assis, Marina Colasanti... Na poesia, obras que me marcaram: A rosa do povo; o romanceiro da Inconfidência, O campeador e o vento, Bagagem, A Divina Comédia, O corpo, o luxo, a obra... paro por aqui, teria muita coisa para listar ainda. Citei o que veio à mente primeiro.

 


 TC | O que está lendo agora?

 

MC | Procuro ir a lançamentos, ler as obras, valorizar a nossa literatura, mas, ultimamente, é tanta produção – benza Deus – que confesso estar atrasada. Não tenho critério, leio o que me chega às mãos, mas o livro precisa me “pegar” nas primeiras páginas, senão, deixo de lado. Aos quase 60 anos, não sei quanto tempo me resta, então, preciso fazer uma boa gestão do tempo. De Mato Grosso, leio rapidamente poesia e literatura infantil. Na prosa, tenho uns dez livros na fila para ler. Comecei Além Tordesilhas de Ivens Scaff, sem prazo para acabar porque são 03 romances.

 

TC | Como avalia a cena literária contemporânea de Mato Grosso: quais os aspectos positivos, as obras e as/os autores/as que destacaria e o que precisa ampliar/melhorar?

 

MC | Acho que há bastante gente publicando e isso é bom, porque é preciso ter quantidade para o garimpo da qualidade, embora isso não seja uma garantia. Destaco como muito positivo: os recursos para publicação por meio de editais, a qualidade das edições, as leituras e estudos feitos na educação básica e no ensino superior, as ações de circulação de um modo geral. O que precisa melhorar? 1) Poderia ocorrer, de dois em dois anos, uma feira literária estadual contando com parcerias entre Seduc, Secel e iniciativa privada, com palestras, oficinas, performances cênicas, musicais etc envolvendo professores, estudantes, escritores, ilustradores, contadores de histórias, artistas e leitores de todas as idades; 2) É vital que o PELLB recentemente aprovado seja executado e, executado colocando a formação leitora como objetivo principal; 3) Divulgar/exportar a produção local em feiras e bienais fora do estado; 4) É muito importante, nas escolhas de obras em quaisquer ações que contem com financiamento público, que os critérios estéticos não sejam subjugados pelos políticos e que as escolhas sejam feitas por pessoas idôneas e capacitadas; e, por fim, que todas essas ações, juntas, possam melhorar: os índices de leitura, o desempenho escolar dos estudantes; as nossas condições de civilidade, de consciência cidadã, proporcionando um crescimento humano e econômico com sustentabilidade e dignidade humana. Não há nada mais frustrante do que o estado ser rico e seus cidadãos pobres, não apenas financeiramente, mas pobres no pensamento e nas atitudes. Vão dizer que isso é utópico, que é idealismo. Mas até isso aprendi com a literatura: a utopia é necessária. Hoje vou pular a parte de destacar autores de Mato Grosso. Quando citamos nomes, corremos o risco de esquecer alguém que merece ser lembrado. Depois, quando a gente relê a entrevista, fica mal. Muito obrigada pelas perguntas e pela oportunidade de falar sobre um tema tão especial.

 

2 A ESCRITA SENSITIVA DE LUPITA AMORIM: “EU AMO A NOSSA CENA ARTÍSTICA”

Natural de Várzea Grande/MT, Lupita Amorim é cientista social formada pela UFMT (2023). É atriz, modelo, dançarina, poetisa, socióloga. De 2020 a 2023 foi coordenadora geral do Coletivo Negro Universitário, e entre 2017 e 2022 atuou no Conselho de Políticas de Ações Afirmativas da Pró-Reitoria de Assistência Estudantil, a PRAE, ambos da Universidade Federal de Mato Grosso. Seu percurso acadêmico, portanto, é atravessado por uma preocupação política e social. Uma atenção que vemos igualmente em sua atividade artística. Escreveu (em coautoria com o poeta Wandeir Maurício) a obra “Anseios: uma coletânea de desejos que fingem ser poesias” (Editora Paruna, 2023). E em 2021 recebeu o primeiro lugar no Iº Prêmio Rodivaldo de Literatura, promovido pela revista Ruído Manifesto. Coleciona premiações e moções de aplausos (da Câmara Municipal de Várzea Grande, da Câmara Municipal de Cuiabá, da Assembleia Legislativa de Mato Grosso). Multipotencial, Lupita congrega em si, em suas ações criativas, a urgência da vida, a imprescindibilidade da militância – preocupada com as pessoas LGBTI+, negros e negras –, a sofisticação intelectual da academia e a liberdade expressiva das artes. Com a palavra, a autora.

 

TC | Você escreveu, em coautoria, a obra de poemas “Anseios: uma coletânea de desejos que fingem ser poesias” (Editora Paruna, 2023), e também tem trabalhos publicados em diversas coletâneas literárias. Do que trata a sua obra, sobre o que você escreve?

 

LA | Esse livro tem um lugar muito especial na minha memória rs. Eu gosto porque descreve desejos, vontades e expectativas, três palavras que eu falava muito em 2020. Acabou que meu primo e eu tivemos a ideia de transformar isso em poesia e quando vimos já tínhamos mais de 30 poemas e então pensamos em fazer o e-book. Assim, num dos dias de junho, no meio da pandemia. Essa obra em específico é um desabafo de coisas que queremos sentir, mas apenas vislumbramos, sabe? Eu escrevo bastante desse lugar, do que eu gostaria de sentir ou que fosse de tal forma, e isso combinou com o meu primo Wandeir, que tem uma escrita mais lúdica e imaginativa. De modo geral, hoje, depois de tanto vislumbrar, quero escrever sobre outras sensações, materialidades e possibilidades, para além da solidão, das desgraças e das dores.

 

TC | Como você escreve: existe método ou é pura inspiração?

 


 LA | Sou virginiana, então, imagina (risos). Tem todo um cenário que eu monto: abro um documento no word, faço a formatação da ABNT (margem, fonte, tamanho), escolho a playlist de música r&b, pop, instrumental, o navegador com mais de 15 abas, sendo a principal o site de sinônimos (risos). Gosto também de colocar o umidificador de ar bem próximo do meu rosto (VGcity 34º graus é babado!), deixo o ventilador ligado virado pra mim. A música ou é no fone de ouvido ou no último volume (risos). Gosto de estar sozinha no meu quarto, degustando uma caixinha de morangos ou uva. Ou um balde de pipoca com sazón de salada. Ou duas laranjas ou mexericas com sal (muito bom, recomendo). Confesso que não é sempre que consigo seguir o ritual. Era bem mais no começo da escrita, que vinha desse momento de inspiração que durava duas ou três horas. Hoje em dia, como escrevo com um tempo menor, porque sou celetista (é bubu gata, 8h48min segXsexta, mas vamos sobreviver!), acaba que deixo pra fazer o ritual quando me proponho a escrever algo para um edital ou um projeto para qual que sou convidada. Já fiz muita escrita com outra pessoa, quando assim eu gosto de sentar com a pessoa e deixar fluir o tema que a gente quer falar. A briga mesmo é na hora de decidir o título, porque eu sou mais literal e normalmente com quem eu já escrevi (dei sorte) são pessoas mais lúdicas. PS: um beijo Wandeir M. e Sol Ferreira que eu amo de paixão.

 

TC | Qual a importância das artes (e da literatura em particular) em sua experiência de travesti, preta, periférica? Nesse percurso de vida, é possível distinguir a atividade artística, a militância e a universidade?

 

LA | Eu adoro me propor a imaginar as infinitas possibilidades de um documento em word e a vontade de vislumbrar futuros possíveis pra mim e pras minhas, seja falando de questões do nosso cotidiano ou das futilidades. Se você for parar pra pensar, escrever e ler, essas futilidades nos constituem enquanto humanas, sabe? Minha escrita não trata e não se trata SOMENTE sobre resistência, mas se trata, sobretudo, de possibilidades! Desejo que futuramente outras travestis, pretas e periféricas tenham outros problemas e encontrem outras soluções, como diz Linn da Quebrada! Felizmente nesse trajeto de multiartista, ex-universitária e militante, eu consegui compreender melhor as minhas potencialidades em cada área que eu me proponho. Às vezes dá pra juntar todas elas (eu amo!), apesar do cansaço que fico depois (risos). Mas confesso que ainda fico surpreendida com as pessoas que se inspiram em mim, porque eu me vejo nesse lugar de pessoa que faz várias coisas. É SENSACIONAL ver que tem gente que acompanha meu trabalho, me sinto VIVA, VIVA E VIVA!

 

TC | O que está lendo agora e quais obras destacaria como importantes em sua formação de leitora/escritora? Aliás, orienta-se por algum critério na seleção das leituras ou é algo espontâneo?

 

LA | No momento, agora, não tô lendo tanta poesia como gostaria, pois, estou atuando como socióloga em uma fundação do terceiro setor. Logo, preciso de outras inspirações pra fazer meu trabalho. Porém, sou uma pessoa que adora entrar em sites que divulgam escritoras e ler as escritas, tanto de gente conhecida, como de quem tá começando. Confesso que adoro muito esse movimento! Existe uma espontaneidade no que vou ler, mas tem vezes que busco por escritas em que eu consiga ver a pessoa que escreveu, se é mulher trans, preta, gorda, periférica, nordestina, brasileira ou africana. Sobretudo pra ver como elas escrevem, se é sobre si enquanto pessoa ou coletividade, ou se suas escritas não necessariamente falam dos lugares de representatividade que ocupam.

 

TC | Como avalia a cena artística e literária contemporânea de Mato Grosso: quais os aspectos positivos, o que precisa ampliar/melhorar?

 

LA | Eu amo a nossa cena artística, juro! Tem tantas formas e expressões e pessoas diferentes, penso que isso nos enriquece demais! Tem travesti falando de romance, outras falando só de música pra dançar e beber com as amigas (risos). E o mais legal na nossa cena, se você estiver nos saraus, rodas de conversas, movimentos e coletivos e falar que escreve algo, a maioria das pessoas vai reservar um momento pra ouvir o que você escreveu. Temos editais acessíveis, tanto regionais quanto nacionais; têm espaços e pontos culturais em que é possível se aproximar e conhecer os seus eventos (e quase sempre rola de você ter um momento para apresentar suas escritas). Penso que pra nossa cena ser cada vez mais inclusiva, precisamos de mais oportunidades, oriundas tanto por parte de quem fomenta eventos, quanto pelas secretarias de cultura, municipais e a estadual. Quantas potências temos nas periferias de Mato Grosso? Ainda não vimos muitas delas, e eu tô super animada pra conhecer as escritas das gatas e dos gatos desse imenso estado, gente, isso é incrível! Fico feliz por ter referências locais como Sol Ferreira, Wanderi M, Luisa Lamar, Sophie Silva, Luciene Carvalho, Ryane Leão e tantas outros e outras que são daqui e têm orgulho do que produzem enquanto literatura. Não só falam de nós enquanto corpos discentes, mas falam da literatura mato-grossense. Esse é o lugar que reivindico para as pretas, travestis e periféricas, antes das nossas escritas falarem de nós, estamos falando de literatura como pessoas que querem se expressar a partir de suas produções. Ps: procurem, leiam, divulguem, comprem e indiquem!

 


 3 ENCONTRO COM WULDSON MARCELO

Um contista cinéfilo que trabalha com audiovisual, agitador cultural inquieto e visionário, filósofo com mestrado em Bauman. Crítico literário e teórico, militante da causa negra, atuando no Aquilombamento Audiovisual Quariterê. E um ex-futebolista, zagueiro-artilheiro do Garra Futebol Clube (da região do Grande CPA II). Wuldson Marcelo é atualmente um dos principais nomes da cultura matogrossense: escritor experiente, publicou as antologias de contos, “Subterfúgios urbanos” (2013, Editora Multifoco: RJ), “Obscuro-shi: contos e desencontros em qualquer cidade” (2016, Carlini e Caniato: MT) e o infanto-juvenil “As luzes que atravessam o pomar e outros contos” (2018, Carlini e Caniato: MT). Escreveu e dirigiu os curtas-metragens “Se acaso a tempestade fosse nossa amiga, eu me casaria com você” (2015), “Kintê ou quando meu pai me ensinou o abc do mundo”, “A garota que existiu dentro de um mistério” (2022) e “Aqui jaz a melodia”. Com a palavra, o autor.

 

TC | Estamos na iminência de publicação do seu quarto livro, uma coletânea de micro-contos, o poderoso “Se quer que algo tenha fim, não se cale.” (Carlini&Caniato, 2024). E sei que você está trabalhando também em mais uma obra, o “Cuiabá Noir: contos dissonantes sobre femmes fatales”. Do que trata a sua obra, sobre o que você escreve?

 

WM | Minha obra trata da vida na cidade. De Cuiabá, mesmo quando a capital de Mato Grosso não é cenário direto. E quando menciono a vida citadina, estou a falar de existências. Mas especificamente de existências negras, ainda que, por vezes, não sejam identificadas como pessoas negras. Em última instância, se tivesse que definir o que é a minha literatura, penso que é uma investigação sobre o que nos move, nossos desejos, e a cidade é esse misto de interdições e oportunidades. Nisso, amor, fracasso, redenção e violência estão presentes. Acredito que isso aproxima os meus escritos de uma literatura marginal, ou de personagens marginalizados. Porém, não é somente focado em personagens sem poder aquisitivo, que precisam ser “criativos” para sobreviver, é sobre a própria sobrevivência, sobre o desejo de construir o caminho, seja com livros, seja na bala. Desse modo, apresenta-se sempre a linha tênue entre fracasso e triunfo em uma sociedade competitiva, na qual as pessoas não partem do mesmo lugar. Paul Auster disse que “escrever sobre indivíduos é uma forma de escrever sobre a sociedade”. Sim, é entender como um sujeito é abraçado ou constrangido, levado por forças exteriores ou salvos pelos seus, seja família, um grupo ou comunidade, depois de uma jornada de aprendizado ou queda no inferno. Então, de certa forma, o que me interessa é aquilo que se perde, para compreender o que está por vir: autodescoberta, a percepção de um mundo cruel, um desejo incontornável por mudanças sociais.

Assim, cabe-me denunciar o racismo, falar de amores ou contar uma história de detetive, pois gosto muito da literatura policial. Não me limito a gêneros e nem limito as minhas personagens. As pessoas negras podem tudo, inclusive e principalmente na ficção. Não tenho essa pretensão de assumir uma ideia de “literatura negra” e buscar esse pertencimento. Sou um homem negro que ama a literatura e o cinema e escrevo sobre coisas que conheço e sobre coisas que desejo desvelar, examinar.

 

TC | Como você escreve: existe método ou é pura inspiração?

 

WM | Não acredito muito em inspiração, mas em ideias a se maturar e, nisso, há muito trabalho. Sou muito levado a afetos, então escrevo a partir de sentimentos como amor ou indignação. Meu segundo livro de contos, “Obscuro-shi” é um fruto de minha obsessão pelo Japão e um olhar afetuoso/crítico sobre a condição de vida do negro nas metrópoles. Disso nasce essa cidade inventada que são todas e que nomeei de Obscuro-shi.

Eu não tenho propriamente um método. Geralmente, quando a história me ocorre, ou o mote, chega-me antes o final que o começo. Desse modo, o encerramento é o ponto de partida, que pode ou não ser mantido. Várias vezes o final imaginado perde o sentido na jornada.

Escrevo muito pela manhã, mas nem sempre é programado. E sou obsessivo, quero terminar logo para saber se a história tem fundamento, se sustenta, se o destino da personagem era aquele mesmo. Ao final, eu reviso bastante. Até porque prezo em demasia o desenvolvimento dessas existências fictícias que ganharão corpo no encontro com o leitor. Gosto da pesquisa também. Porém, como sou um leitor voraz (ou melhor, era. Confesso que atualmente leio menos que gostaria), as coisas que envolvem a personagem já estão lá. Acho que o meu processo é da confrontação entre o que imaginei e o resultado que cheguei. Não sou apegado às histórias e nem me entendo como “pai” das personagens. Acredito que daí me vem o incômodo quanto à ideia de inspiração.

 

TC | As suas diversas atividades partem ou se encontram na literatura? De que maneira definiria o seu percurso nas artes (e no esporte)?

 

WM | No futebol, na categoria infantil, eu era atacante. Já no Garra, time o qual meu pai, Benedito, é um dos fundadores em meados dos anos 1980, daí adulto, na década de 2000, eu atuava como defensor, seja como zagueiro central, seja como lateral-direito. Quando criança, eu sonhava jogar no Corinthians, mas quando percebi o cinema como algo mais que entretenimento, compreendendo um modo de revelar existências, conhecer culturas, a sétima arte me atraiu a tal ponto que se tornou um impulso, uma vontade irresistível. O jogador desapareceu, derrotado por “O maior espetáculo da terra”. Dessa maneira, podemos perceber que o cinema chega antes da literatura em minha vida. No entanto, é a literatura que me proporciona o primeiro contato com a arte e é ela que me conduz às outras atividades. Aproximo-me da filosofia pela obra literária de Jean-Paul Sartre. Mesmo no audiovisual a literatura é algo muito presente, quando se trata de referências ou como se dá a criação dos roteiros. O que pode ser problemático, já que a palavra tem muito peso.

Acredito que, nesse processo, a literatura é um ponto de partida para reflexões que estão para além dela, mas pertencem a ela. Penso que escrever sobre personagens negras é também pensar sobre quem produz essas literaturas, e, por muito tempo, eu conhecia apenas a grande Luciene de Carvalho, que hoje é a presidente da Academia Mato-Grossense de Letras, como autora negra no estado. Então há essa inquietação, que é de onde nasce o propósito de contribuir com jovens escritoras e escritores. De apontar e criar caminhos para publicação, seja em sites, seja em livro físico. É possível que aí se encontre o meu ativo, na tentativa de gerar oportunidades, de ajudar/mostrar como fazer, muito mais do que no discurso, de conseguir conquistar pela retórica.

Sempre penso que estou andando para que, no futuro, em Mato Grosso, jovens negras e negros possam correr. Não sei se alcançarei o sucesso como previsto e exaltado em uma sociedade capitalista hipercompetitiva, mas se os degraus que consegui subir auxiliarem pessoas a descobrirem um caminho a seguir, já será uma vitória.

 

TC | Seu trabalho de divulgação literária (em diversos blogs e algumas antologias; e, vai completar sete anos, na Revista Ruído Manifesto) revelou muitos novos autores e autoras em nosso estado. Como percebe a cena literária contemporânea de MT: existe renovação ou apenas saturação?

 

WM | Vivemos um ótimo momento no que concerne à literatura em Mato Grosso. Pouco se conhece da literatura realizada no estado. Há algumas iniciativas de difusão, até em escolas públicas. Lembro-me do meu livro infantojuvenil ser adquirido em 2019 para distribuição nas escolas estaduais. Muitos autores e autoras participaram de projetos de circulação em que o encontro escritor-leitor acontecia nas escolas. É um trabalho muito bonito, assim como o realizado pela Ruído Manifesto (ou, no passado, o blog Beatniks, malditos e marginais), que diminui o espaço entre quem faz literatura e quem a consome, que desperta a emoção pela escrita, pelo contar uma história. A Ruído foi o local de estreia de muita gente Brasil afora.

Quanto à literatura contemporânea de Mato Grosso, acho que há um movimento não definido por princípios estéticos, estilo, dogma etc., mas talvez como renovação, como fôlego, como uma busca de encontrar o regional num mundo tão vasto de possiblidades. Vamos ter flerte com a ficção científica, com o gênero policial entre outros e a poesia se eleva, insinua-se por diversos temas. Matheus Guménin Barreto, Moisés Carlos de Amorim (Carlos Amorim), Santiago Santos, Juçara Naciolli, Rafaella Elika Borges, Fernando Gil Paiva Martins, Odair de Morais, Larissa Campos, Divanize Carbonieri e a lista continua.

Lembro-me que, em 2002, disseram-me, “você tem que escrever sobre o tuiuiú, sobre o Pantanal...”, elencando temas que supostamente marcavam o ser cuiabano, o ser mato-grossense. Sim, tudo isso faz parte, nos constituí, porém, somos muito mais que isso. E aquilo que nos marca, nos pertence como regional, pode ser narrado de mil e uma formas, e acredito que as escritoras e escritores contemporâneo sabem disso. Penso que essa tensão entre tradição e o novo – um novo que pode ser apenas uma experimentação dentro de temas consagrados – movimenta, abre espaço para que se estabeleça sempre alguma visibilidade. Um conflito salutar.




THIAGO COSTA (Brasil). Historiador, Doutor em Estética e História da Arte pela USP. Autor de “matarasa, covagrande” (Rizoma, 2022) e docente do IFMT. Em 2019 foi um dos vencedores do Prêmio Pixé de Literatura e, em 2021, um dos finalistas da Off Flip.







PATRICK LEPETIT (França, 1953). Poeta, ensaísta, colagista e pesquisador ligado à rede acadêmica internacional Mélusine. Com forte atuação no Surrealismo contemporâneo, sua produção intelectual e artística investiga as correntes subterrâneas do movimento, mapeando os pontos de contato entre a criação estética, os mitos tradicionais, o hermetismo e as tradições esotéricas. É autor de diversas coletâneas de poesia (como Rouge solaire e Beauté du funambule) e de ensaios fundamentais, entre os quais Le Surréalisme. Parcours souterrain — obra laureada pelo Institut Maçonnique de France —, Surrealism and Operative Alchemy e La tête d’Ogmius. Surréalisme et mythes celtiques. Na vertente plástica, expande esse mesmo lirismo hermético para o campo das colagens e composições oníricas, projetando imagens ocultas do horizonte de nosso tempo. É o artista convidado da presente edição de Agulha Revista de Cultura.

  



Agulha Revista de Cultura

Número 266 | setembro de 2026

Artista convidado: Patrick Lepetit (França, 1953)

Editores:

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